sexta-feira, 15 de outubro de 2010

D. Miguel de Noronha, neto dos 1ºs Condes de Alcoutim e que batalhou em Alcácer-Quibir



Foi o segundo filho de D. Afonso de Noronha e de D. Maria de Eça, portanto neto dos 1º Condes de Alcoutim.

O Noronha foi buscá-lo ao avô que para usufruir dos títulos dos Vila Real teve que prescindir do Noronha e optar pelo Meneses.

Tendo falecido o irmão D. Fernando de Noronha, sucedeu na Casa de seu pai, como Comendador de Olalhas, da Castanheira e de São Martinho de Ranhados, na Ordem de Cristo.

Faz parte do Conselho de Estado de D. Sebastião, comandou um terço constituído por camponeses, sem a mínima instrução militar, na batalha de Alcácer-Quibir , escondendo-se cheios de terror, debaixo das carretas e que acabou destroçado pela artilharia do inimigo.

D. Miguel de Noronha foi feito prisioneiro.

[Igreja do Convento de S. Domingos, em Santarém]

Com mais quatro fidalgos é nomeado para ir a Lisboa reunir a elevada quantia do resgate colectivo de oitenta portugueses de linhagem, cativos naquela batalha.

Após o resgate que englobou cerca de oitenta cativos, exerceu o cargo de aposentador-mor de El-Rei D. Filipe II e foi nomeado Capitão e Governador de Ceuta.

Casou com D. Joana de Vilhena, filha de D. Diogo Lobo, Barão de Alvito e tiveram cinco filhos.

Ficou sepultado no Mosteiro de São Domingos de Santarém há muito desaparecido.

D. Joana de Vilhena, depois de viúva, professou e foi freira no Convento da Anunciada, em Lisboa.


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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, 2007, Vol V

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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

As Pequenas Comunidades Piscatórias do Sul - Descoberta de uma realidade...



Com um formato de 17X24 cm e 251 páginas, fortemente ilustrado com fotografias a cores, de papel e excelente aspecto gráfico, constitui um indispensável livro principalmente para quem se interesse por esta temática ou pela região algarvia.

Ainda que tenha alto sentido técnico não deixa de apresentar dados de sentido histórico, geográfico ou de etnografia, bem encaixados nas abordagens dos locais onde a actividade se desenvolve desde Mértola, percorrendo no sentido da foz todos os pequenos núcleos piscatórias, incluindo naturalmente Alcoutim e Guerreiros do Rio, passando depois por todo o litoral algarvio e avançando pela costa atlântica até a Lapa de Pombas, para norte do Cabo Sardão.

O trabalho foi coordenado pelo Dr. Dorilo Seruca, editado em Dezembro de 2000 pela Direcçã-Geral das Pescas e Aquicultura, com trabalho gráfico de Gráfica Comercial – Arnaldo Matos Periera, Lda, Loulé.

Foi-me amavelmente oferecido pelo seu coordenador com sensibilizante dedicatória.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Implantação da República

[Pela República, des. de Roque Gameiro]

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE (MAGAZINE) DE 27 DE JULHO DE 1995)


A mudança de um regime político provoca sempre choques de vária ordem e que se repetem, com o ajustamento adequado aos tempos.

Para citar só os últimos, foi assim com a implantação do Liberalismo, com a República, com o Estado Novo e com o 25 de Abril.

Na vila de Alcoutim e seu concelho, também tais mudanças se fizeram sentir, proporcionalmente à importância que representava em relação ao país.

Cabe-nos agora referir, a traços largos, o que conseguimos obter sobre a Implantação da República.

Acontecimento relativamente recente deixou alguns factos, talvez os que mais impressionaram, na memória deste povo.

Dizia-nos um alcoutenejo que sempre viveu na sua terra que tinha sido o martim-longuense, José Olino o primeiro que na praça da vila deu vivas à República.

As ideias republicanas chegaram a Alcoutim via Guadiana e a caminho da Mina de São Domingos, em plena exploração, importante centro populacional e onde naturalmente tinha grande aceitação. Foi assim que por Alcoutim teriam passado, a caminho daquela mina, alguns dos maiores paladinos republicanos, dos quais se destaca o Dr. Afonso Costa.

A mais vincada presença deste facto é a alcunha Afonso Costa que ficou de tal maneira que tantos anos passados se mantém, pensando muita gente que efectivamente se trata de um nome. Tão euforicamente, em criança, vitoriou este político que o nome lhe ficou para sempre, o que aliás, nunca o incomodou.

Vamos ter bacalhau a pataco, foi frase feita que também chegou à pequena vila raiana. Abaixo os talassas constituiu frase proferida pelos republicanos e os mais exaltados e menos conscientes espetavam facas nas portas dos mais notórios monárquicos, com relevo para a classe eclesiástica.

Depois destas referências transmitidas oralmente, iremos entrar, em factos concretos.

A primeira notícia escrita que obtivemos sobre o ideal republicano, é datada de 26 de Abril de 1881, por conseguinte cerca de trinta anos antes de 5 de Outubro de 1910.

O Administrador do Concelho, de então, fica alarmado com as notícias que lhe chegam e resume assim: constou-me que o prof. desta vila, António Simão Vieira, pronunciou ontem, no meio da feira (São Marcos do Pereiro), palavras insultuosas e ameaças a António Estevens, do Serro da Vinha, a pretexto deste pertencer ao Partido Regenerador e, dando vivas à República declarou ser chefe deste partido no concelho. (1)

O alarme do Administrador continua pelo que se dirige ao Comissário dos Estudos no Distrito de Faro informando que o dito professor abandonou a escola no dia 25 de Abril, foi à feira de São Marcos, bebericou com a população dando vivas à República, de que se diz chefe, insultando e provocando cidadãos pacatos, só pelo facto de serem afectos ao actual governo.

Em 1889 o Administrador volta a preocupar-se pois receava vários conflitos na Assembleia eleitoral de Martim Longo, pelo que pedia ao Governador Civil uma força de dez praças para ali manter a ordem já que, na eleição passada uma meia dúzia de tratantes deram ali vivas à República. (2)

A Alcoutim, apesar do seu isolamento, bastaram só quatro dias para que tomasse posse a Comissão Republicana que passou a dirigir os destinos do concelho.

Presidida por José Centeno de Passos, era constituída por Basílio José Ambrósio da Silva, vogal que se mostrou muito activo, António Luís Teixeira, Manuel Rodrigues Pereira e José da Palma Vilão. (3)

A primeira deliberação tomada foi a de transmitir a sua congratulação pela implantação da República e lamentar as vítimas heróicas da revolução, lavrando-se, perante o facto, um voto de indelével sentimento. (4)

Seguiu-se, por proposta do vogal Silva (5) a actualização toponímica da vila. Assim, a praça D. Afonso IV passou a denominar-se Praça da República o que ainda hoje se mantém, a Rua D. Luís I tomou o nome de Miguel Bombarda, a de D. Maria Pia, Marquês de Pombal e a Rua Conselheiro José de Beires, Rua Teófilo Braga.

É também Basílio Silva que propõe e é aprovado que seja posto em praça o comércio de carnes, ficando o comerciante obrigado a matar pelo menos, uma vez por semana, sendo os 50 réis cobrados por cabeça, aplicados em benefício do talho que muito carece de reparação. (6)

Na sessão de 10 de Novembro estão presentes, a convite, o médico e o farmacêutico.

Devido ao estado financeiro lastimável em que se encontra o cofre municipal, são-lhes reduzidos os vencimentos. Naturalmente que os visados não se conformam com tal deliberação e vêm a ser demitidos em 9 de Dezembro. Os lugares são postos a concurso mas não aparecem concorrentes.

Movimentam-se os lesados procurando provar a ilegalidade e em 25 de Maio de 1911, é presente um ofício que manda readmitir aqueles funcionários. Perante o facto, o Presidente da Comissão Republicana é autorizado pela mesma a constituir advogado. (7)

Em 4 de Agosto de 1912 toma posse a Comissão Municipal, presidida por Augusto Carlos Xavier Caimoto, sendo vice-presidente, António Sebastião de Freitas e vogais José Francisco Delicioso, Carlos Malaquias Vieira e Diogo Xavier Cavaco.

Verifica-se assim que da primeira Comissão Republicana, ninguém manteve o lugar.

Como acontece sempre nestas situações, é fácil verificar os muda casacas.

Na sessão de 31 de Julho de 1913, pelos lesados (médico e farmacêutico) é apresentada certidão das sentenças do auditor administrativo, exaradas no processo de reclamação perante o mesmo, interposto por aqueles, contra a deliberação da Câmara Municipal de 9 de Dezembro de 1910, que os demitia dos seus lugares e de que obtiveram provimento. Foi deliberado reintegrá-los nos seus lugares, sendo abonados desde a data da demissão que se provou ser ilegal. (8)

[Paços do Concelho de Alcoutim, Setembro de 2009]

A exoneração do encarregado do relógio público, João Baptista Canelas, em 30 de Janeiro de 1911, parece que foi um saneamento político já que por deliberação de 22 de Dezembro de 1912 é reconhecida a incompetência do actual encarregado e vem a ser novamente nomeado para o cargo.

O Presidente Centeno de Passos propôs que deveria ser escolhido pela Comissão o dia feriado para o concelho. Depois de alguma discussão, foi deliberado que o feriado municipal fosse o dia 14 de Outubro, como recordação da posse da Comissão. (9)

Não teria sido muito acertada a escolha pois em 6 de Janeiro de 1913, a Comissão de então muda-o para 8 de Dezembro que só veio a ser alterado depois do 25 de Abril de 1974.

O Presidente José Centeno de Passos informou que tendo com o vice-presidente ido a Lisboa inteirar-se junto do Ministro do Fomento para obter alguns melhoramentos de interesse geral para o concelho, obtiveram a promessa da continuação da estrada desta vila para Almodôvar, de São Brás de Alportel para Martim Longo e a construção de uma ponte sobre a ribeira do Vascão. (10)

Deixámos aqui e fundamentalmente referida a acção da Comissão Republicana que tomou os destinos do concelho e alguns choques provocados pela nova Comissão Municipal.

NOTAS

(1) Ofício nº 48 de 26 de Abril de 1881 do Administrador do Concelho ao regedor da Paróquia do Pereiro.
(2) Ofício nº 131 de 29 de Outubro de 1889 do Administrador do Concelho do Governador Civil de Faro.
(3) Livro nº 14 das Actas das Sessões da Câmara Municipal de Alcoutim, pág. 480.
(4) Idem, ibidem, pág. 49
(5) Idem, Sessão de 18 de Outubro de 1910.
(6) Idem, ibidem.
(7) Idem, Sessão de 25 de Maio de 1911.
(8) Idem, Sessão de 31 de Julho de 1917, pág. 87, verso.
(9) Idem, Sessão de 2 de Outubro de 1911, pág. 67, verso.
(10) Idem, Sessão de 13 de Março de 1911.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A peneira



O utensílio que apresentamos hoje é ou foi de uso genérico em todo o país, nomeadamente nas zonas rurais onde, o seu uso era intenso e generalizado.

Durante um longo período e até meados do século passado, a principal actividade dos alcoutenenses tinha por base a cultura dos cereais, principalmente nas achadas entre o Pereiro e Marim Longo, ainda que se estendesse pelas serranias do Caldeirão e com incidência na freguesia de Vaqueiros.

Esta actividade era secundada pela pastorícia. Enquanto a primeira proporcionava o sustento, a segunda proporcionava a obtenção de algum dinheiro indispensável à manutenção da família.

É sabido que o alcoutenejo baseou sempre a sua alimentação no trigo. Ficou-nos na memória de há muitos anos que se o alcoutenejo tivesse trigo no celeiro, um porco na salgadeira e dois palmos de hortejo se encontrava feliz! E efectivamente assim era como acabámos por verificar.

Vem isto a propósito da peneira.

Todos tinham de possuir trigo com maior ou menor abundância. Quem não o tinha era obrigado a comprá-lo com o produto dos seus magríssimos salários.

Periodicamente era necessário recorrer à sua farinação através dos moinhos de vento ou de água, quando a forças das mesmas proporcionavam a sua actividade, carregando-se para o efeito os burros, pois só eles eram capazes de fazer o transporte até a esses maquinismos de transformação.

Deixando lá a respectiva maquia, regressava-se ao monte onde semanalmente era necessário cozer a amassadura do pão nos pequenos fornos existentes, incluindo por vezes o forno comunitário.

Era então que entrava em acção a peneira que separava a farinha das partes mais grossas, o farelo.

Peneira tem origem no latim panaria - pane, pão. É um objecto circular de madeira com o fundo formado por uma rede apertada e feita de substâncias várias.

Hoje a farinha já se compra previamente peneirada por sistemas modernos e já ninguém coze a sua amassadura, pois o pão chega transportado por carrinhas a todas as povoações.

O número elevado de vendedores de pão começa a escassear pelos “montes” e em breve esse fornecimento acabará, já que o número de unidades adquiridas não justifica a deslocação. Alguns dos sobreviventes irão sentir essa contrariedade que já se vai notando.

As peneiras existentes foram adquiridas pelos antepassados e não passam de objectos decorativos.

domingo, 10 de outubro de 2010

D. Fernando de Noronha, um dos netos dos 1ºs Condes de Alcoutim

Filho de D. Afonso de Noronha, 5º Vice-Rei da Índia e de D. Maria de Eça e consequentemente neto dos 1ºs Condes de Alcoutim, nasceu no século XVI.

A sua mãe, quando em 1548, o marido teve que se deslocar a Lisboa ficou como capitoa y gobernadora de la cibdaa (Ceuta), que o marido governava.

Serviu com seu pai em África e acompanhou-o à Índia onde em 1551 recebeu o comando da esquadra do Estreito, tendo derrotado o almirante turco Ali Schebuly.

Regressando com o pai a Portugal e devido às acções desempenhadas, é nomeado pela Rainha D. Catarina, então governando na menoridade do neto, D. Sebastião, Governador de Ceuta por apresentação de seu primo, D. Miguel de Meneses, 4ºMarquês de Vila Real e 3º Conde de Alcoutim.

[Igreja de S. Domoingos, Lisboa]
Regressando a Portugal e falecendo foi sepultado no Mosteiro de S. Domingos de Lisboa.

Foi Senhor das vilas de Maceira e Serem, Comendador de Rio Torto e de Olalhas na Ordem de Cristo.

Casou com D. Maria de Vilhena, filha de Manuel Teles de Meneses, 6º Senhor de Unhão e de D. Margarida de Vilhena.

Enviuvando faz um segundo casamento com D. Antónia de Mendoça Coutinho, filha de Manuel de Melo Coutinho, Comendador de Torrados, na Ordem de Cristo, Veador (*) da Casa da Princesa D. Maria, mulher de El-Rei D. Filipe II e de D. Maria de Mendoça, filho de Jorge de Melo, Monteiro-mor do Reino.

D. Antónia de Mendoça que comprou e ornou a sepultura de seu marido ingressou como freira no Mosteiro da Esperança, de Lisboa.

Não houve geração de ambos os casamentos.

D. Fernando de Noronha é por vezes designado por D. Fernando de Meneses.

(*) Ant. Monteiro, caçador (Dicionário Prático Ilustrado)-Dir. de Jaime de Séguier, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1972.
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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, 2007, Vol V

História de Portugália (Uma história de Portugal no Feminino), Manuel Dias Duarte, Editor Ausência, 2004.

Anais de Arzila, Damião de Góis

sábado, 9 de outubro de 2010

Rostos alcoutenejos



A Câmara Escura de hoje tem a colaboração de SM, visitante assídua num país europeu do ALCOUTIM LIVRE que segundo afirma a tem ajudado a compreender melhor a terra de origens dos seus familiares.

Trata-se de uma fotografia “à la minuta” de meados do século passado, tirada num retratista que como era hábito, corria as feiras da região oferecendo os seus serviços.

Lembro-me muito bem dessa actividade e em que a câmara com tripé se levava ao ombro procurando os clientes. Na outra mão transportava-se o balde onde se faziam as revelações.

Os mais evoluídos, armavam barraca de pano branco em cujo seio dispunham de cenários de vários tipos, cadeiras para as pessoas se sentarem e objectos decorativos como floreiras, vasos com flores e os célebres cavalinhos de cartão assentes num estrado de madeira provido de quatro rodinhas de ferro.

A foto foi tirada numa Feira de São Marcos, na aldeia do Pereiro.

O retratista pelos vistos não possuía cenário.

Não era nada vulgar nesta época as pessoas gastarem dinheiro com retratos e só os mais endinheirados o faziam.

A senhora de tez queimada provocado pelos trabalhos duros do campo que obrigam a exposição ao sol, tão intenso nesta região, sugere-nos ter olhos castanhos ou pretos, cabelo escuro, comprido e apartada ao meio. São notórios os traços bem vincados da face.

Saia comprida em tom escuro e blusa com pregas e aos folhos. O calçado é aberto, pois notam-se os dedos dos pés.

A menina altinha, talvez com seis ou sete anos, tem vestido branco e meias a condizer e até ao joelho. Calça os sapatos da época, fechados e com presilha.

O seu olhar tem uma expressão viva, todo atento ao fotógrafo.

Cabelo comprido que presumo origine duas tranças que se juntam por detrás do pescoço.

O rapazinho, que aparenta cerca de quatro anos, tem um ar fino, com expressão de muita atenção, cabelo liso e de risco ao lado. Veste um bonito casaco branco, calção bege, peúga branca e camisa da mesma cor.

Pelas características, representam uma família de alguns recursos económicos, começando pela possibilidade de ir ao retratista e depois pela indumentária.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

«Merenda» a aproveitar na região de Alcoutim

Pequena nota
Mais um texto escrito pelo nosso saudoso Amigo há trinta e sete anos!
Mais uma vez a sua visão, conhecimento da região e cultura estão patentes e se olharmos para o presente vamos encontrar ainda que naturalmente em formas diversificadas os coutos cinegéticos, as pousadas ou o aproveitamento do rio.
Mais uma vez patente o que costumo afirmar:- Luís Cunha fazia a diferença em Alcoutim.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 10 DE MARÇO DE 1973)




Escreve

Luís Cunha







“Quem quer figos, quem quer merendar?!” Este grito que outrora ecoava, repercutido, pelas estreitas vielas de Lisboa, deixou de ouvir-se nas avenidas da nova metrópole. Não sendo dali, os figos constituíam tributo da gente provinciana, a mimosear o cidadão lisboeta, adoçando-lhe a boca. Mas, ou porque parecia mal continuarem manchando a modernizada majestade, ou porque a enxurrada provinciana de onde os figos provinham, abafando, maculasse os privilégios fidalgos, o certo é que este e outros pregões, acabaram por desaparecer com escândalo e mágoa dos saudosistas, adoradores do “sol-poente”.

Modernas tendências para a diversificação e as especializações, caracterizam a juventude amante do “sol-nado”, que, à certeza do descanso que a calma noite garante, prefere a dos riscos do dia cheio de perigosa inovação.

Estes sentimentos subtraíram à capital outras honras de exclusivos, como o de o Algarve, hoje e muito justamente, embandeirar em capital turística do País.

[O Guadiana em Alcoutim. Foto JV, 2009]

Berrado do Guadiana, de Alcoutim, cá aparece, ressuscitado, o velho pregão: quem quer figos, quem quer merendar?! E que figos são esses que agora a terra montanheira se propõe ofertar à capital do turismo? O que se oferece, para adoçar a boca, que na capital e zona balnear não exista? O que é isto que nos vem dos serros, gritado da rua?

O turista – sabe-se – saturado de um ano inteiro de vida rotineira, refastela-se por uns dias ao sol ardente dos argênteos areais da praia, mas a natural monotonia desse ambiente cedo deixa de ser a novidade que procurava, o diferente, a carne em sangue para melhor dizer. A mais concludente prova disto, temo-la em que a excelência sem igual dos espaçosos areais, a amenidade da temperatura das águas e clima do Sotavento, não conseguem, por falta de complementos, deixá-lo competir com o Barlavento. E ai de nós se para subtrair o turista ao bocejo do enfado ensaiamos oferecer-lhe a estafa física da caça e dos desportos náuticos, esse complemento diferente, essa “carne fresca” que a região serrana põe, como figos maduros, como merendinha, à disposição do infatigável Nenrode, caçador de emoções.

Em cada curva perenemente verde, o rio maravilhoso parece abruptamente acabar, mas, de súbito, nova e majestosa paisagem se oferece e o peito e respiração se oprimem ante a iminência de esmagamento de encontro aos contrafortes das curvas, que logo se dilatam em inefável gozo, no desfrute da novidade.



Em sua terra, o turista – referimo-nos às massas – jamais teve oportunidade de pensar em ser um dia caçador de perdizes ou de correr a lebre a cavalo. Ora, aqui está outra “merendinha”com a qual Alcoutim pode facilmente brindá-lo. Pelas condições naturais e povoamento disperso em aglomerados distantes que hoje são quase desertos, a região presta-se às mil maravilhas à criação da perdiz, lebre, coelho e possivelmente de alguma pequena gazela, pouco maior que a lebre, que habita as montanhas do Riff, de clima sensivelmente igual ao nosso. Bastaria, constituir uma coutada municipal a isso destinada e, aqui e além, pousadas devidamente apetrechadas para o efeito.

As águas do Guadiana, segundo o abalizado parecer de ictiólogos cujo nome não nos ocorre, são as melhores para a procriação do barbo, que chega a atingir mais de 12 quilos. Em qualquer dos inúmeros barrancos e grandes ribeiras do concelho seria fácil construir pequenas represas para sua criação, de molde a proporcionar abundância de pesca desportiva.

Muitos outros motivos há, na região alcoutinense, para ofertar ao turismo de movimento, aquele que espalha dinheiro e difunde cultura, mas as condições climáticas – ar extremamente seco e salutar – bem como o calmo sossego que nas zonas menos expostas, poderia conservar-se, seriam aliciante convite a esse outro turista que procura ou necessita de repouso.

[O Guadiana à Lourinhã]

Pergunta-se, então: neste Sotavento sem outra variante para o turismo balnear, não será antiturismo o deixar apodrecer nas árvores os figos maduros, estas merendinhas a oferecer-se a quem quiser colhê-los?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quadro da vida real de um monte há 68 anos!

[O monte de Afonso Vicente onde se passaram os factos]

Na década de quarenta do século passado, a vida rural no concelho de Alcoutim era muito dura. O trabalho começava ao raiar da manhã e terminava ao pôr-do-sol. Todos tinham de participar na economia familiar para poderem sobreviver e mesmo assim com dificuldade. Até os mais novos tinham de contribuir com o seu trabalho, normalmente a guarda de pequenos animais.

A monotonia da vida era interrompida quando morria alguém, posição de tristeza e de respeito que todos acompanhavam e em posição inversa, quando nascia alguém, mais um filho que ia contribuir nas tarefas familiares, era assim que se pensava por esse País fora.

Como o homem não pode viver só de trabalho e existem outras funções também a ele destinadas, teria de haver algum entretenimento que durante umas horas o fizesse pôr para trás das costas a face mais dura da vida.

Cantar e dançar estiveram sempre nos hábitos do povo e o contacto entre o homem e a mulher existe desde que o Mundo é Mundo!

Em dias de nomeada, os jovens juntavam-se nos terreiros dos montes cantando e dançando em bailes de roda. Nos períodos de descanso, aproveitavam os mais verbosos para cantar ao desafio e muitas vezes estes descantes constituíam um despique entre dois rivais que procuravam conquistar a mesma moça. De vez em quando apareciam elas respondendo com palavras nada lisonjeiras dirigidas aquele que pretendiam ver afastado.

Era o 1º de Janeiro e havia baile com tocador (harmónio) na casa da Ti Florência Gomes no monte de Afonso Vicente.

[Local do monte onde se realizou o animado baile]

O monte estava cheio de mocidade, moços e moças, os que ainda cá estão põem-se a contar. Eram tantos! Onde há juventude, há animação!

Nessa altura os partos decorriam em casa com a presença de familiares próximas e vizinhas e de uma mulher da aldeia ou das redondezas “habilitada” para o efeito.

Enquanto o baile decorria animado lá para os lados da Alagoa chorava pela primeira vez uma menina com o auxílio da Ti Fastina.

A desembaraçada mulher,depois de estar tudo em ordem, vai ao baile e diz para a moçada: É preciso ir ao Balurco dizer a fulano que já cá tem uma moça. Aquilo era uma ordem a que foi respondido:- Fique descansada que logo vamos.

[O sítio da Alagoa onde nasceu a criança]

E a” bailação” continuou animada e os cortejares prosseguiram!

Horas depois aparece novamente a Ti Fastina e os moços quando a viram entrar logo lhe disseram:- Ó mulher fique descansada que nós logo vamos dizer ao homem.

Não é por causa disso que aqui estou, moços, é que morreu o marido da Ti Custódia Castelhana, irmã do Ti Virgolino! Toma lá Cavaco o cordel para levares amanhã ao Mestre João Bento.

Tudo parou e ficou pensativo.

O marido da Ti Custódia Castelhana era pastor e exercia a sua actividade em Espanha. Quando lhe era possível e poucas vezes seria, vinha visitar a mulher e a família ao monte. Foi o que tinha acontecido naquela noite. O cordel representava a medida do corpo para o carpinteiro, Mestre do aprendiz Cavaco, fazer o caixão.

Neste cenário, o tocador que tinha vindo do Pomarão onde foi obrigado a interromper o toque pela morte do Sr. Zarcos, acabando por não receber aquilo de que estava à espera, perguntou para os presentes: Afinal toco ou não toco?

Toca lá que o homem está a dormir!

Ao raiar da manhã e depois do baile acabado, um dos moços foi dar a notícia do nascimento da criança, ao pai, ao Balurco e o Cavaco foi para o trabalho, meio ensonado, levando a corda como medida do caixão.

Dizia a Ti Custódia Fastina:- Morreu um, mas nasceu outro, ficou tudo na mesma!

Aqui fica esta história picaresca da vida real desses tempos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Soudes, o mais afastado monte da sede da freguesia a que pertence

[Vista parcial em 2010. Foto JV]

Esta pequena povoação, devido à sua situação geográfica, pertenceu ora à freguesia de Vaqueiros, ora à do Pereiro, acabando por se fixar nesta.

Verdade seja que ela fica algo distante tanto do Pereiro como de Vaqueiros, contudo, para se fazer a ligação entre o monte e a aldeia do Pereiro, era necessário vencer a ribeira da Foupana que na época invernosa não dava passagem com facilidade, enquanto que em relação a Vaqueiros, que presumo ficar mais distante, não era necessário ultrapassar esta dificuldade e a mudança verificada deve ter a ver com estas circunstâncias.

Em 1758 e segundo as Memórias Paroquiais, fazia parte da paróquia do Pereiro e Silva Lopes na sua Corografia do Algarve (1841) anota que o monte foi perdido para a freguesia de Vaqueiros, não indicando data mas que nos parece situar-se no período liberal onde se processaram grandes mudanças administrativas, principalmente em 1836.

Consultado um mapa anexo àquele trabalho e que nos fornece o número de fogos em 1839, não encontramos a povoação indicada tanto na freguesia do Pereiro como na de Vaqueiros.

Desconhecemos igualmente quando passou e se fixou à freguesia do Pereiro. Não encontrámos nem no arquivo da Junta de Freguesia nem no da Câmara Municipal documentação nesse sentido.

O problema para vencer a ribeira da Foupana foi ultrapassado com a construção de uma ponte antes de 1974, mas as estradas com que faz ligação só apareceram depois do 25 de Abril, nomeadamente a municipal nº 508.

[Ponte sobre a Ribeira da Foupana. Foto JV, 2010]

É zona habitada desde tempos recuados e o arqueólogo algarvio, Estácio da Veiga, teve conhecimento da descoberta de um tesouro monetário, constituído por diversas moedas, conseguindo ainda obter onze denários de prata achados dentro de um vaso, sendo o mais antigo do século III antes de Cristo, do fim da 1ª guerra Púnica. (1)

O topónimo desde há muitos anos merece a nossa curiosidade, já que desde criança ouvimos falar na quinta das Soides ou Soudes, perto da freguesia onde nascemos, no centro do País.

Quando chegámos a Alcoutim e tivemos contacto com este topónimo, fez-nos lembrar o das nossas origens.

Existem na nossa toponímia Soudos, Soudo, Soudas e Soides ou Soudes, mas estes dois últimos não constam dos dicionários que consultámos.

Estácio da Veiga escreveu Monte de Sodes, afirmando ser desconhecido o que significa tal topónimo, admitindo ser derivado por corrupção, de sodalis ou sodalitas, na acepção de lugar dos companheiros, da sociedade, do ajuntamento.(2)

Estarão todas estas variantes do topónimo relacionadas com o árabe sôd que significa negro ou preto?

Em Alcoutim, em 1739, ainda se trata do baptismo de um preto da Guiné com perto de vinte anos. (3) Há mais informações da presença de negros nesta zona, em épocas recuadas.

As Memórias Paroquiais indicam-na como Asoudes.

Uma herdade com este nome e que possivelmente terá dado origem à actual povoação, pertenceu aos Condes de Alcoutim passando no séc. XVII para a Casa do Infantado. O foro de 45 alqueires de trigo foi remido em meados do século XIX por José Mestre.(4)

Em 1943 a Junta de Freguesia concede um subsídio de mil escudos para a feitura de um poço.

O edifício escolar foi construído em finais dos anos sessenta do século passado, encerrando em 1989 por falta de alunos.

Nesta altura a Câmara Municipal manifesta-se contra a pretensão da Direcção Escolar de Faro de encerrar sete escolas primárias no concelho, entre as quais a deste monte. (6) Pouco tempo depois, um só casal obriga a reabri-la, voltando naturalmente a fechar.

Em 1992 a população pede a escola para nela instalar a sede de uma Sociedade Recreativa, o que parece ter acontecido.

[Antigo edifício da Escola Primária. Foto JV, 2010]

A electrificação teve lugar em 1984. (7)

A pavimentação dos arruamentos é concluída em 1991.

Depois do fornecimento de água por intermédio de nove fontanários, a mesma é levada ao domicílio em 2003. Havia quatro furos artesianos privados.

A instalação de caixas para receber o correio data de 1997.

Entretanto, é construído um abrigo para ser utilizado enquanto se espera pelos transportes rodoviários. A povoação é servida directamente pela estrada municipal nº 505.

[Abrigo para passageiros. Foto JV, 2006]

Segundo os dois últimos censos populacionais, em 1991 tinha 49 habitantes e dez anos depois (2001) tinha descido para 33.

Segundo o pároco que respondeu ao questionário, em 1758, eram-lhe atribuídos dois vizinhos (fogos) e doze pessoas, sendo dos montes menos populosos da freguesia.

É de notar que a linha divisória com a freguesia de Odeleite e consequentemente do concelho de Castro Marim passa a cerca de três quilómetros da povoação.

[Vista parcial da povoação em 2006. Foto JV]


Notas
(1)– Antiguidades Monumentais do Algarve, Lisboa, 1890.
(2)– Idem, ibidem, Vol III, pág. 71 e 72.
(3)- O Algarve Económico 1600-1773, Joaquim Romero Magalhães, 1988.

(4)– Livro de Registo de Rendas dos Prédios e Juros de Capitais Pertencentes à Fazenda Nacional no concelho de Alcoutim, termo de abertura e encerramento de 13 de Março de 1867.
(5)– Acta da Sessão de 24 de Janeiro daquele ano.
(6)- “Câmara contra
encerramento de escolas”, Jornal do Algarve, 2 de Março de 1989.
(7)- Jornal do Algarve de 15 de Junho de 1984.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Manuel António Torres

Pequena nota
Este texto foi extraído de "Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia)", 2ª Edição, em preparação.
JV


A família Torres é originária ou pelo menos veio de Castro Marim para Alcoutim por intermédio do casal José António Torres (1790-1866)/ Maria da Conceição, ambos naturais daquela vila.

Na aldeia de Pereiro nasceu-lhe pelo menos um filho, António José de Torres que casou com Leonor da Conceição, natural de Alcoutim, onde passaram a viver, exerce a actividade de oficial de carpinteiro e nascem-lhe três filhos, entre os quais, Manuel António Torres, a figura que pretendemos referir.

Os Torres desempenharam na vila funções politico-administrativas e comerciais.

Manuel António nasceu no dia 12 de Maio de 1855 e possuía ascendência espanhola, tanto pelo lado paterno, visto sua bisavó ser de Cádis, como pelo materno, com uma avó de Castelejo.
Casou com D. Raimunda Pinto d `Almeida, também desta vila.

Em 1881 é vogal da Junta de Paróquia de Alcoutim, onde a partir de determinada altura lhe é levantado um auto por faltar às reuniões (1) certamente por divergências políticas.

No ano seguinte e apenas com vinte e seis anos, preside à Câmara Municipal de que faziam parte, como vereadores, José da Silva, da vila, António Estevens, do Serro da Vinha e António Joaquim Teixeira, de Giões. (2) Por esta altura era solteiro e considerado negociante.

De 29 de Dezembro de 1892 a 12 de Março de 1897, é Administrador do Concelho e em 23 de Fevereiro de 1899, nomeado por alvará, secretário da Câmara Municipal, funções que exerce até meados dos anos vinte, altura em que se aposenta.

[Local onde se ergueu a habitação da família Torres, segundo informação recolhida. Foto JV, 2010]

Como provedor, serviu a Santa Casa durante vinte e três anos, além de outros cargos como escrivão ou tesoureiro.

Dedicou muito trabalho em prol desta instituição, organizando o tombo, apanhando os foros em documentos de 1664 e 1720.

Ofereceu à Misericórdia, juntamente com a esposa, várias inscrições de dívida pública que ainda constituem, pensamos, rendimento daquela Santa Casa.

Foi amigo do grande etnógrafo, Dr. Leite de Vasconcelos, que lhe ofereceu a reprodução de um desenho da vila, extraída do Livro das Fortalezas de Duarte Darmas (Séc.XVI). O Mestre, a ele se refere na Etnografia Portuguesa, Vol. VI, pág. 579, com a curiosidade do António estar abreviado em Ant. como o alcoutinense gostava de escrever.

Juntamente com Guerreiro Gascon, autor da Monografia de Monchique e que exerceu as funções de tesoureiro da Fazenda Pública neste concelho de Alcoutim, trabalhou para a reconstituição do brasão de armas da vila.

Foi vice-cônsul de Espanha e representou várias companhias de seguros e estabelecimentos bancários.

Manuel António Torres era um homem bastante culto para o meio e para a época.
Faleceu a 29 de Fevereiro de 1932, de bronquite crónica e sem deixar descendência.

NOTAS

(1)-Of. nº 92 de 23 de Agosto de 1880 do Administrador do Concelho ao Regedor da Paróquia de Alcoutim.
(2)-Of. nº 147 de 9 de Novembro de 1881 ao Governador Civil de Faro.
(3)-Anuários Comerciais da época.