
Há quinze anos publicámos nas páginas deste semanário, um pequeno “escrito” sobre esta FIGURA que, como então referi, não cheguei a conhecer.
Era como que uma pequena “biografia” alicerçada em recortes de jornais e noutros dados que recolhi.
Lembrava-o na passagem do 18º aniversário do seu falecimento e o então escrito serviu-me mais tarde para o referir num trabalho publicado sobre Alcoutim e o seu concelho.
Para aqueles que nunca ouviram falar no Dr. João Francisco Dias, direi que nasceu em Corte Velha, freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim. Licenciou-se em medicina na Universidade de Coimbra, em 1927 e, depois de uma curtíssima passagem pela terra natal, fixou-se na vila de Alcoutim, que amou como poucos e onde veio a falecer com apenas 57 anos, quando muito ainda havia a esperar da sua inteligência, competência profissional, enorme capacidade de trabalho e amor ao próximo.
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Bom médico, excelente cirurgião, fundou o Hospital da Misericórdia, fazendo sozinho o trabalho de uma equipa médica. De tal maneira que o seu nome começou a ser conhecido nas zonas circunvizinhas mas rapidamente se alastrou a todo o Sul do país e zona confinante espanhola, aparecendo na vila, para o consultar, gente de terras bem distantes que quase sempre desenganados, encontravam aqui a sua última esperança, muitas vezes concretizada.
Alcoutim era nessa altura, uma vila hospital!
Mas não era só a competência profissional que trazia aqui os doentes. Além desse prestígio, gozava o Dr. Dias da fama de ter um bondoso coração e tanto tratava os que podiam pagar, como os que não tinham posses para isso, chegando mesmo, nos casos mais gritantes, a pagar do seu bolso os medicamentos.
Lá por não ter dinheiro não se deixa de tratar – era a frase que habitualmente pronunciava. E era assim.
“O Dr. João Francisco Dias! Um santo!
Não, um homem com as fraquezas inerentes à condição humana; mas um homem com excelsas qualidades”, foi assim que o definiu o Prof. Trindade e Lima, que bem o conheceu.
Não nos iremos alongar mais, mas era conveniente fazer este pequeno resumo para aqueles que o não conhecem.
Dois factos passados comigo, são elucidativos do nome que ganhou, ao qual o de Alcoutim andou sempre associado.
Quando em 1967 tivemos conhecimento de ter sido colocado na pequena vila raiana, a primeira informação que sobre ela tivemos, a trezentos e tal quilómetros de distância, foi-nos dada da seguinte maneira: “Olhe, teve um médico excepcional, depois do seu falecimento, aquilo morreu”.
Anos depois (1980), as andanças profissionais trouxeram-nos para uma cidade piscatória no centro do país.
Conhecemos então um velho pescador oriundo de Quarteira que para aqui veio, em novo, à procura de melhores condições de trabalho, que obteve e por cá ficou, constituindo família.
Quando lhe falámos de Alcoutim, uma vila do Algarve, disse-nos que dela só sabia ter existido um médico que “fazia milagres” e onde ia muita gente dos seus sítios. Isto aconteceu vinte e cinco anos após o falecimento do ilustre médico!
São dois pequenos episodias que testemunhámos e penso, confirmam o que atrás escrevemos.

Ainda em sua vida, o povo do concelho homenageou-o na qualidade de fundador do Hospital da Misericórdia, ficando o facto atestado por lápide colocada na fachada daquele edifício (1942).
Também o povo da freguesia de Giões lhe presta homenagem (1954), encontrando-se colocada uma lápide na antiga sede da Junta de Freguesia.
O falecimento do Dr. João Francisco Dias, ocorreu a 8 de Março de 1955. A vila de Alcoutim ficou mergulhada em constrangimento e à deriva pois tinha perdido o seu timoneiro.
Organizou-se uma comissão para erigir um busto que perpetuasse a sua memória. De princípio, a ideia circunscrevia-se apenas ao concelho, mas em virtude das ofertas que chegavam de todos os pontos do País, resolveu-se torná-la extensiva a todos os que quisessem compartilhar do reconhecimento ao “médico dos pobres”, onde quer que se encontrassem.

Em 10 de Março de 1957, com a presença de numerosas individualidades e muito povo, foi descerrado o busto à memória do grande benemérito.
Entretanto é dado o seu nome à rua em que se situa a casa onde faleceu.
É possível que além destes dois testemunhos de agradecimento e homenagem, outros tivessem aparecido mas, se existiram não são do nosso conhecimento.
Mas afinal porque me dispus a escrever estas linhas?
Como o título indica, lembrá-lo, ainda que modestamente, na passagem do seu 90º aniversário natalício que ocorreu no dia 22 do corrente e, … não só.
O nome do Dr. Dias está a empalidecer, o que é natural com o rodar dos anos – o que já não é natural é o ritmo que está a tomar.

Pensamos mesmo que o jardim foi feito para o receber.
Era então um pequenino jardim com três bancos de suportes de pedra e travessas de madeira. Num canteiro alongado situava-se uma pequena palmeira e alguma relva. Umas tantas roseiras que “Ti” Chico Barão enxertava, já que não era mestre de nada, mas tudo sabia fazer.
Naqueles bancos passei algumas horas cismando, queimando o tempo que me sobrava.
Era um local limpo e acolhedor.
E agora? O que se passa agora?
De jardim, nada tem, bancos partidos, madeiras podres, espaço ocupado pelos veículos ligados ao Ministério da Saúde, estando mesmo, se a memória não nos falha, transformado o jardim em parque de estacionamento privativo.
Quando foi instalado o Centro de Saúde, em propriedade da Santa Casa da Misericórdia, transformou-se a igreja em capela com destruição do altar de pintura marmórea, do tempo de D. João VI. O chão foi escavado para poder fazer uma arrecadação, mais tarde transformada em garagem.
A situação vem de 1973, se a memória não nos atraiçoa.
Na última vez que visitámos o local, era confrangedor o seu aspecto. Pensamos que terá de ser tomada uma opção. Ou jardim, ou parque de estacionamento.
“Promover” o Ilustre Médico e Benemérito a figura que mais nome deu a Alcoutim, pelo menos no último século, a “guarda do parque”, isto sem qualquer desconsideração por tal profissão, como é evidente, não nos parece justo.
Verdade seja que presentemente não é fácil encontrar local para a mudança. Alvitrámos nestas páginas, na edição de 18 de Maio de 1984 um, que nos parecia ideal, mas parece-nos que ainda não estão reunidas as condições para o efeito.
Há que dar ao monumento a dignidade que ele merece.
É preciso “mostrar” às novas gerações, quem foi o Dr. João Francisco Dias e dá-lo como exemplo, quanto mais não seja, no tocante ao amor que dedicou a esta vila e seu concelho.