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domingo, 30 de junho de 2013

Até sempre ALCOUTIM LIVRE!



 Escreve

Amílcar Felício


Anunciou o Amigo Nunes no seu post de 19 de Junho a suspensão por tempo indeterminado ou até possivelmente o fim do Alcoutim Livre,  ao fim de 5 anos de existência de uma invejável actividade quase diária o que é obra. Mas tenhamos esperança de que se trate apenas de umas retemperadoras férias e de que o Amigo Nunes não irá ter coragem de“matar” o filho que criou com tanto carinho!

Ao longo destes últimos 5 anos, o Alcoutim Livre tem sido a maior parte das vezes o veículo de um exaustivo e talentoso trabalho de décadas como investigador e historiador da “nossa terra”, a que o Amigo Nunes deitou mãos praticamente desde que chegou a Alcoutim em 1967 – e que tão pouco acarinhado tem sido pelos alcoutenejos parece-me – dando-nos a conhecer quer no seu Blogue quer mais profundamente na sua obra escrita, páginas da história de um Alcoutim desconhecido para a maioria de todos nós alcoutenejos! Trata-se realmente de um trabalho extraordinário e único de que todos os alcoutenejos se deveriam orgulhar independentemente da sua cor clubística!

Por outro lado, o conjunto de colaboradores que a ele se foi juntando e a que tive a honra de pertencer, com as crónicas das suas vivências foram revelando a alma de uma Vila e dos seus Montes nos seus tempos áureos das décadas de 30/40/50/60, com relatos de acontecimentos da vida alcouteneja por si vividos ou presenciados que vão desde a chegada provavelmente do primeiro Automóvel, Rádio e Cinema à Vila ou o início da Guerra Civil Espanhola em Sanlucar nos anos trinta até aos grandes êxodos, dos finais da década de cinquenta princípios da década de sessenta. Eram tempos difíceis -- mas que tinham uma auréola muito especial -- para uma comunidade fechada sobre si mesma e quase exclusivamente debruçada sobre o Guadiana e que para sobreviver ia inventando no seu dia-a-dia a sua própria vida, cultura e meios de diversão, constituindo uma sociedade muito sui generis cujo traço dominante era sem qualquer dúvida a imaginação e a solidariedade, formando como que uma verdadeira tribo que olhava com desconfiança para quem chegava de novo ao burgo.

Outros colaboradores, embora sem participação activa na escrita, não deixaram contudo de contribuir também com um importante espólio, fornecendo fotos que vão desde 1873 – uma delas provavelmente da formação da 1ª Banda de Música de Alcoutim – até aos tempos mais recentes da década de sessenta, o que permitirá no conjunto das três participações diversificadas a qualquer desconhecido que se interesse por Alcoutim, ter para lá de uma visão histórica do desenvolvimento da Vila, uma imagem quase cinematográfica do dinamismo de uma Vila e do seu Concelho ao longo de todo o séc. XX e que vai definhando dolorosamente a olhos vistos.

No que me toca pessoalmente, não tenho qualquer dúvida em afirmar: a mim, o AL deu-me incomparavelmente muito mais do que eu lhe ofereci e na hora de despedida já sinto saudades! De facto ao ler os seus textos ou ao escrever as minhas crónicas desde os finais da década de 40, o AL proporcionou-me enquanto o lia ou enquanto “pintava” o Alcoutim que me rodeava, reviver uma infância e uma juventude felizes e enterradas há muito nas brumas da nossa memória e esquecer por momentos as misérias de um Portugal à beira do afundanço completo! É nestas alturas que eu gostaria de ser poeta para poder retribuir-lhe com palavras simples e bonitas, aquilo que me ia na alma ao longo destes anos que fui lendo ou escrevendo as vivências de uma infância e de uma juventude já distantes. Mas nem tudo são azares. Felizmente tropecei num soneto que acaba por traduzir aquilo que o AL me ia fazendo sentir pessoalmente ao longo destes anos e recordar aquele menino, que conheceu um Alcoutim Dourado e que transportaremos toda a vida dentro de nós num cantinho muito especial. Quem me dera que os belos versos deste poema fossem meus para lhos poder dedicar! Ainda vai havendo coisas bonitas na vida, neste mundo cada vez mais feio como dizia a Tia Ana Costa do mundo de antigamente...

Recordo ainda...

Recordo ainda, e nada mais me importa...
aqueles dias de uma luz tão mansa
que me deixavam, sempre de lembrança,
algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança,
soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... mas ai,
embora idade e senso eu aparente,
não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino, acreditai...
que envelheceu um dia, de repente!

(Mário Quintana, poeta brasileiro. Morreu
em 1994 aos 88 anos) 


Obrigado Amigo Nunes por nos dar a conhecer melhor a nossa terra!

Obrigado Alcoutim Livre por tão belas recordações que nos proporcionou ao longo destes 5 anos!


quinta-feira, 6 de junho de 2013

A descoberta do amor...




Escreve

Amílcar Felício



Estávamos nos princípios da década de sessenta do século passado. Teria para aí os meus 14, 15 ou 16 anos no máximo. Tinha por hábito passar quinze dias ou um mês de férias em Vila Real de Santo António e o meu primo Zé Manel, retribuía com o mesmo tempo de férias em Alcoutim sua Terra Natal, de aonde tinha saído ainda menino. O Turismo estava ainda a despontar no Algarve e construía-se na altura em Monte Gordo o primeiro grande Hotel – o Hotel Vasco da Gama – aonde os trabalhadores simpaticamente nos deixavam tomar banho na piscina ao fim do dia. Era a cereja em cima do bolo!
 
Um aspecto de Monte Gordo nos anos 60.
 Foto de Artur Pastor, in blog.turismodoalgarve.pt 
Certo dia nos extensos areais ainda desérticos da praia de Monte Gordo, que mais pareciam naqueles tempos verdadeiros viveiros naturais de conquilha, de amêijoa e de lingueirão, fui picado por uma melga – a melga do amor – pois naqueles tempos não havia os potentes insecticidas que existem hoje em dia como os Computadores, as Internetes, as Playstations, os Ipades, os Iphones e os “Ai” não sei quantos que por aí abundam e que vão matando ao que parece, tudo o que mexe à sua volta! Às vezes pergunto-me: será que ainda haverá melga que lhes resista? Ou será mais uma espécie em vias de extinção acelerada, neste mundo cada vez mais coisificado, árido e robotizado?
 
De regresso a Alcoutim neste país de poetas com tanta poesia de pé quadrado à mistura é verdade e aonde me incluo naturalmente, e numa noite de calmaria em que servia de pasto às abundantes melgas que vinham da Ribeira naquela época, saiu-me “isto” que vos conto mais em baixo. Para vosso descanso, informo desde já de que todos os poemas que fui escrevinhando desde então, foram sendo religiosamente arquivados no caixote do lixo.
 
Mas para azar dos nossos leitores, este por ser o primeiro e corresponder à primeira paixoneta ficou-me na memória e até hoje só eu e a “melga” suponho (já nem me lembro acreditem!), tínhamos conhecimento dele! Assim, tenham lá paciência ou então para vos recompensar, riam-se que eu faço o mesmo e não vos levo a mal claro... Contudo, analisando à distância e sem falsa modéstia penso que a raiva de alguém se sentir prisioneiro, assim como o choro calado das feridas da alma ou o ardor e o vazio que se misturam naquele sentimento quando genuíno, estão razoavelmente bem passados para o papel ainda por cima vindo de um “teenager inconsciente” com 14, 15 ou 16 anos, que acabava de fazer a “Descoberta do Brasil” e das suas insondáveis riquezas!
 

Melga desgraçada!












Oh Melga desgraçada quão torturas,
sem dó, carinho e nem piedade!
E vens pousar à noite na solidão,
de um coração,
que vive roído pela saudade!

Mas donde vens oh das Melgas a Rainha,
com tua bela estória fabulosa!
Com tuas belas asas matraqueando,
e espedaçando,
a solidão tão calma e monstruosa!

Vens eu sei, voando de tão longe,
qual vampiro faminto, esmagador!
Pousas mansinho para depois picar,
e avivar,
a febre doentia de um amor!



quinta-feira, 2 de maio de 2013

Você anda, anda... e ainda lhe escarro dentro dessa merda!





Escreve

Amílcar Felício



A Barbearia do Mestre João Ricardo na Praça da República, era um dos pontos de encontro mais concorridos em Alcoutim, naquelas longas e pachorrentas tardes de Verão dos anos sessenta do século passado. Quando não havia parceiros para as cartas nem clientes o que era raro, o Mestre João entretinha-se a tocar uma gaitada no seu pífaro como quase todos chamavam ao clarinete ou no seu saxofone que dominava com mestria. Mas de um modo geral era ali na Barbearia desaparecida há muito e encostada aos antigos edifícios escolares que ainda lá existem, que os homens se juntavam e passavam aquelas horas calorentas a jogar à sueca,  à bisca ou aos três setes. Havia também quem jogasse às damas ou ao dominó. A rapaziada mais nova andava por ali entre o fresco da placa do Cais Novo e a Barbearia, a maior parte das vezes mirando e remirando cada jogada e tentando aprender as melhores jogadas com os que eram considerados craques. Até o Mestre João não resistia e entre uma barba e um cabelo, também se juntava muitas vezes aos homens e fazia a sua jogatana. E mesmo agarrado à tesoura ou à navalha não tirava os olhos das cartas, para acompanhar cada jogada ao pormenor. Era um entusiasta do jogo!


Local próximo da localização da barbearia

Mas... já lá dizia o outro há quase 500 anos de que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades” e naturalmente como em tudo na vida, até os hábitos mais enraizados entre os homens vão mudando debaixo dos nossos olhos quase sem darmos por isso, mesmo aqueles mais comezinhos como a higiene. A noção de higiene aliás é na minha opinião sobretudo uma questão cultural, pois se analisarmos historicamente o tema percebe-se facilmente que tem mudado ao longo dos tempos, de acordo com os novos valores que se vão afirmando. Basta referir o significado do banho na antiga Grécia ou posteriormente no Império Romano, ou as enormes mudanças de comportamento verificadas no que respeita à higiene desde a Idade Média até aos nossos dias, para se perceber as diferenças.

Para reforçar esta ideia lembremos por exemplo de que Luís XIV de França em pleno século XVII apenas tomou banho duas vezes na vida, isto é, quando nasceu e quando se casou o que aos olhos de hoje seria pouco abonatório para personagem tão ilustre mas, que se saiba ninguém lhe chamou o Rei Porco, antes pelo contrário até lhe chamaram o Rei Sol imagine-se a um porco daqueles, diria-mos nós hoje.

Mas regressemos à Barbearia do Mestre João Ricardo nos meados daquela década de sessenta do século passado. Os hábitos estavam a mudar aceleradamente. O Mestre João tinha introduzido na sua Barbearia um aparelho inovador -- um escarrador -- que colocava estrategicamente ao lado da cadeira de barbeiro aonde se sentavam os clientes. Queria assim evitar que os homens cuspissem para o chão, hábito que hoje nos arrepia só de pensar, mas muito arreigado aos usos e costumes naqueles tempos. Era um objecto raro naquela época mas sem grandes complexidades. Tratava-se de um simples recipiente em madeira cheio de areia, para aonde se cuspia e que evitava assim o degradante espectáculo -- aos olhos de hoje claro – de ver as pessoas cuspir para o chão, hábito muito entranhado na altura como referimos.

Certo dia entra na Barbearia do Mestre João um camponês que tinha aproveitado a deslocação à Vila para cortar o cabelo. Enquanto o Mestre João lhe cortava o cabelo o homem sentiu vontade de cuspir, cuspindo precisamente para o lado contrário aonde estava o escarrador. O Mestre João discretamente com o pé, desviou o escarrador naturalmente para o sítio para aonde o homem estava a cuspir. Quando o homem lhe deu vontade de cuspir novamente, cuspiu precisamente para o lado contrário para aonde o Mestre João tinha deslocado o escarrador. O Mestre João mais uma vez discretamente para não ferir a susceptibilidade do cliente, volta a empurrar novamente com o pé o escarrador para o outro lado. O homem apercebendo-se do movimento não se conteve e já com cara de poucos amigos, diz para o Mestre João: “você anda, anda... e ainda lhe escarro dentro dessa merda!”

O Mestre João adorava contar esta estória. Ouvi-lha contar algumas vezes...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim: Sonho ou realidade? [4]




Escreve

Amílcar Felício




 “Há quanto tempo que não se via um calor dum cabrão destes Senhor Zé (?)”, desabafavam os homens para o Senhor Zé Peres que chegava entretanto à Vila. “Isto hoje está por demais porra, vejam lá que estive no Pego Fundo há bocado para desligar o motor e ainda parecia que fazia mais calma ao pé da água (!)”, responde ele. O Senhor Zé Peres apesar de reformado de outras guerras tinha uma razoável Casa de Campo, mas como acontecia com quase todas as outras Casas de Campo naqueles finais da década de cinquenta do século passado, o núcleo económico/familiar que as sustentava já estava bastante desfalcado, pois o Justino e o Manuel Peres há que tempos que tinham dado de frosques. O único dos filhos que ainda estava com ele era o António Peres por ser deficiente e que subia naquele preciso momento pelo Caminho do Celeiro, atrás da manada de vacas leiteiras que estavam à sua guarda.

 
Pego Fundo, anos 70. Foto JV.

O António Peres apesar dos seus problemas, fazia a sua vida normal de trabalho. Tinha principalmente dificuldade de comunicação e uma grande deficiência na fala, tornando-se quase incompreensível para quem não estivesse habituado. Mas a verdade é que de um modo geral quase toda a gente o respeitava e acarinhava para que ele não se sentisse diminuído, inclusive a rapaziada mais nova que acamaradava com ele nos bailes das redondezas para que se pudesse divertir um pouco nem que fosse só para conviver com o pessoal ou beber um pirolito, pois não era fácil arranjar-lhe um par para dançar. Mas numa noite de sorte nas Cortes Pereiras conseguiu-se arranjar um par para o António Peres, que se iniciava assim nas lides de dançarino. Quando a música acabou -- desculpem-me lá o desbocamento -- o António Peres radiante e deslumbrado com a descoberta de novas sensações, dizia eufórico para a rapaziada: “óh moços (!), óh moços (!) ueu dança a pichaueu fa ito (!)” e arrebitava o dedo indicador para cima.

Passa entretanto o Professor Amaral que cumprimenta amavelmente os presentes com o seu característico sotaque beirão, pois apesar do calor que estava ia todos os dias à Amarela, nem que fosse só para controlar e orientar o trabalho do Ti Chico Barão. O Senhor Luís Corvo é que já tinha passado há muito, mas esse tinha sempre algum criado lá em casa que lhe tomava conta do serviço, para lá dos caseiros da Eira Branca que se encarregavam das extensas várzeas e laranjais que iam quase desde a Fonte Primeira passando pelo Pego do Calhau Branco até às Passadeiras das Cortes. E de facto lá passava o afilhado Carlos Barão quase
Sr. Felício
uma hora depois. “Olha o Senhor Felício hoje vem com a Hortinha”, comentam os homens admirados ao vê-los já para cá do Celeiro direitos à Vila e perguntam-me em surdina como quem não quer a coisa: “então Amílcar e como é que tu te safaste hoje da rega das nespereiras e das laranjeiras?” Explico-lhes a minha habilidade: “é fácil, quando ele se esquece de me avisar a tempo, lancho mais cedo e piro-me de casa antes que ele saia da Câmara às cinco e meia e ele nem me vê!”. “Boa técnica rapaz dizem os homens, não és nada parvo não senhor!”.

Mal os homens tinham satisfeito a sua curiosidade, passava o António da Teresa e o pai com uma pequena saca às costas. “Então e o rabisco da amêndoa hoje deu alguma coisa (?)” perguntam-lhes os homens. “Apanharam-se para aqui umas amêndoinhas mas coisa pouca, pois há alguns cercados que nem vale a pena a gente andar a perder tempo. Isto este ano está muito fraco”, diz o Ti Alfredo da Cadeia. O Senhor Brito de bengala na mão e o Senhor Domingos Mariano de cajado passavam entretanto e já faziam o seu passeio da tarde pela estrada acima direito ao Celeiro, sinal de que já tinham jantado. O Cabo Barros acompanhava a Maria da Conceição que vinha do Pocinho com uma infusa de água ao quadril. Depois deles passarem os homens cochichavam entre dentes, “este também não lhe dá um palmo de distância, parece que anda sempre desconfiado e nem deixa sair a moça de casa sozinha (!)”.

E com isto tudo o relógio da Igreja da Conceição já tinha batido as oito e meia da noite há um bom bocado e a minha mãe chamava-me aflita como sempre, com um tom de voz carregando alguma ameaça para disfarçar naturalmente o seu coração mole do costume: “Amíííílcar (!)... Amíííílcar (!), anda já a jantar (!) olha que o teu pai já está à mesa com a tua irmã (!)”. E lá vou eu a correr rua adiante, pois o“velho” gostava muito de brincar com os outros mas a verdade é que a mim não me dava lá muita confiança...

Ti Afonso Costa
Passei pela Venda do Senhor Simões que aviava mais um copo de três ao Ti Chapa de Aço, ao Mestre Carolino e ao Mestre Pinto que pareciam que já estavam um pouco entornados. Sentados no muro em frente da Venda estavam o Ti Lázaro, o Ti Pandareta e o Ti Eliseu que depois de alguns anos fora tinham vindo passar uns dias à Vila e que conversavam com o Ti António Emílio, o Ti Afonso Costa, o Ti Botelho e o Ti Chico Canelas. Possivelmente falavam sobre a hipótese de irem também trabalhar para Lisboa pois o Ti Eliseu estava a dizer que “a vida aqui já não presta, cada vez está pior...”.

A Tia Georgina estava à janela e falava para o outro lado da Rua com a Tia Ilda e o Ti Manel Francisco que já viviam sozinhos pois a filha, o genro e os três netos há muito que tinham ido viver para Faro. O Ti Guerreiro estava logo a seguir na janela do Talho, possivelmente a fazer umas limpezas e para ver o seu rebanho que tinha passado há pouco. O Ti Justo e a Ti Ana também já estavam sentados ao fesco e faziam companhia à filha Maria que chuleava ainda as bainhas de umas calças, enquanto o marido estava lá dentro do quarto que fazia de Alelier de Costura durante o dia e parecia que ainda estava a cortar tecido
Tia Ana da Costa
para um casaco. Ainda me meti com a Ti Ana que já comia uma "tijala" de sopas: então Ti Ana, hoje já não se faz mais nada? "Olha moço "tive" a fazer estas sopas de tomate, lavei os pratos e a caçoila e por hoje já tem àvonde", respondeu-me ela enquanto continuava a comer as suas sopas do jantar. A minha vizinha Gertrudes também já lá estava no poial da sua casa meia afogueada no meio daquelas suas banhas a queixar-se que não aguentava aquele calor.

Os filhos e os netos do Ti Carolino faziam uma" algraviada" dos diabos de casa para a Rua e da Rua para casa. Nem sei como cabia tanta gente lá em casa pois só tinha um quarto, a salinha da Barbearia e uma pequena cozinha. A Tia Maximina coitada via-se aflita para dar conta daquela fartura de filhos e netos. Só a Idalina e o marido o Ti Zé do Telhado, já tinham uns três ou quatro filhos. Se calhar aquela algazarra toda era porque o jantar não chegava para todos, sabe-se lá... A Tia Martinha vinha Rua adiante com um balde na mão que ia deitar nos estrazes da Ribeira e ia perguntando a quem passava se não tinham visto o seu Alfredo, ao que alguém lhe gritou de
Ti Martinha
que “ainda há bocado estava lá em baixo no Rio a limpar a lancha (!)”. Parou à do Ti Zé Emídio na Latoaria e virou-se para trás a gritar “óh Bia (!)... óh Bia (!)... vai lá a chamar o teu pai ao Rio que está a limpar a lancha, para vir a jantar (!)”.

A minha vizinha Clotilde estava à janela com a Chiquinha e esperavam como sempre pelo Senhor António do Rosário para jantar, pois como era habitual depois de fechar a Forja ao fim do dia, ia sempre dar corda ao relógio da Igreja da Nossa Senhora da Conceição. Mais abaixo o Ti Ferrador, surdo que nem umas portas de cachimbo na mão, estava sentado numa cadeira na Rua olhando para quem passava enquanto a Tia Chica Botelho e a Custódia andavam numa fona de um lado para o outro, para acabar o jantar para os hóspedes que nunca faltavam àquela hora. Na casa em frente a Dª Clarisse e a irmã a Dª Conceição já estavam de janela também, pois o jantar devia de ter sido rápido visto que o resto da família Cunha apesar de numerosa, estava em Moçambique e só cá vinham de dois em dois anos.

Ti António Joaquim
Na Venda do Ti António Joaquim o Ti Marciano, o Ti Nameaçes, o Ti Manel Melão e o Ti Gonçalves petiscavam umas sardinhas estivadas e umas cavalas em conserva. Tinham também umas tiras de muchama que algum deles tinha trazido de Vila Real certamente. Estavam a fazer os planos para a pesca dessa noite. Pareceu-me que estavam a combinar também o dia para tapar a Boca da Ribeira, pois a baixa-mar calhava a uma boa hora da manhã daí a uma semana e o Ti Marciano estava-lhes a dizer que “no Domingo depois de almoço combinamos tudo à do Ti Sabino, pois a baixa-mar dá lá para as oito horas.”

E lá vou eu a correr para a cozinha e jantar à pressa, pois o serão na Venda do Ti António Joaquim começava às 9,5h ou 10h o mais tardar e eu não podia perder pitada...


Nota Final:
A aguarela deste Alcoutim simples e trabalhador de que demos umas leves pinceladas nestas quatro últimas crónicas, existiu de facto quem havia de dizer e representa uma simples homenagem aos homens e às mulheres que dele fizeram parte, com quem mais convivi e com quem comecei a aprender as coisas da vida. Foi também o recordar nostálgico de uma linguagem, petiscos e utensílios caídos em desuso e arquivados há muito nas profundezas das nossas memórias como almareado, àvonde, magana, calma enzorrada, brandura, geada, estrazes, dar de vaia, ir à do Ti Chico e à do Ti Sabino, Venda, andar numa fona, rabisco, agourar, trangomango, salipanta, pirolito, sardinhas estivadas, muchama, cavalas em conserva, laranjas picadas da mosca, pelengana, “tijala”, caçoila, trempe, gorpelha, alforge, onça Duque e de Três Vintes, cigarros Provisórios e Definitivos etc., etc., etc... Há quantos anos que eu não pronunciava a maioria destas palavras caramba, mas os sabores de alguns pitéus e a sensação indescritível das belas noites estreladas de Verão dormidas ao relento na Eira do Cerro do Celeiro, garanto-vos que ainda cá moram! Não se tratou portanto de uma simples ficção. De mais de uma centena de nomes de pessoas referidos ou induzidos nestas crónicas, ainda andaremos por cá uma boa dúzia deles para recordar estas estórias ou talvez estas “histórias” romanceadas. “Histórias” e linguagem de outros tempos, mas que a magana da borracha do tempo sempre pragmática e insensível se encarrega de ir apagando. Às vezes até apetece fechar os olhos para não ver o tempo passar... 


Pequena nota

Ainda que esteja tudo dito, não posso deixar de escrever duas linhas sobre “Um fim de tarde em Alcoutim: sonho ou realidade?” com que o nosso colaborador e Amigo nos presenteou e aqui englobamos todos sem excepção: -os que conheceram e viveram todo este ambiente, os filhos da terra que vêem retratados com fidelidade e graça alguns dos seus antepassados que não conheceram e por último o leitor que nunca foi a Alcoutim que vive em qualquer parte do Mundo e que por esta leitura fica conhecendo toda a vivência de uma pequena vila rural em meados do século XX, ao sul de Portugal, junto do Guadiana e numa das extremidades da Serra Algarvia.
De pinceladas de pulso firme e cores ajustadas, Amílcar Felício deixa aos vindouros este magnífico quadro. Poucas teriam sido as pessoas que fugiram ao seu olhar atento.
Pela minha parte, o meu OBRIGADO.
JV

domingo, 17 de março de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim: sonho ou realidade [3]




Escreve

Amílcar Felício





De facto a primeira brisa da tarde naquele fim de dia sufocante de Agosto dos finais da década de cinquenta do século passado, tardava em chegar. E os homens por ali continuavam à conversa sentados no muro em frente à casa da Tia Catarina das Portas no diz que diz para entreter o tempo, enquanto enrolavam de vez em quando um cigarro de onça Duque ou de Três Vintes, encalmados com um calor dos diabos como já não se via há muito. Havia um ou outro que puxava por um cigarro Provisórios ou Definitivos, mas eram raros.

A vermelhidão do Céu para os lados dos Moinhos derrubados da Corte do Tabelião misturada com o sol que já ia baixo, fazia-nos imaginar o “Fogo do Inferno” dando-lhe uma coloração de romã bem madura e de uma tal intensidade que metia respeito, o que agourava grandes calores diziam os camponeses que se orientavam pelos sinais do tempo ao longo do ano, prevendo com uma precisão quase científica quer os dias de grandes calores e de grandes branduras durante as madrugadas de Verão, quer os dias de trovoadas e de grandes geadas no Inverno.
Moinhos derrubados ... Foto JV
 Méh!!! Méh!!! Méééééhhhh!!! ouve-se ao longe o rebanho do Ti Guerreiro, com uma ou outra magana de uma ovelha mais esganiçada e fora de tom e uma nuvem de pó que denunciava desde logo a sua presença. Vinham pelo Caminho do Pocinho adiante, com o pastor praticamente da minha idade, o meu amigo Zé das Cortes Pereiras atrás delas a orienta-las. Às vezes ia espera-lo e fazia-lhe companhia quando ele vinha mais cedo e lá íamos os dois atrás do rebanho até ao Castelo, aonde as ia amalhar.

Rua T. e Lima. Foto JV
Passa entretanto o pequeno Ti Perdigoto e quase que nem se dava por ele se não fosse a sua burrinha. “Mas o Ti Zé Revés ainda não passou e ele não se costuma atrasar (?)”, diz um dos presentes. “Com a calma que está não admira nada que o trabalho corra mais devagar e com certeza que vem mais tarde para casa (!)” diz logo outro a seguir, acrescentando que a esta hora já a Tia Custódia Peres estará a barafustar por causa da demora: “com esta calma, aquele homem quando chegar já tem o gaspacho a ferver, pois ainda tem que ir tratar dos animais e primeiro que ele se despache!” “Boas Tardes Ti Zé Altura (!)” respondem os homens ao cumprimento do Ti Zé que passava entretanto, pois embora trabalhasse no rio havia dias que entremeava com o trabalho no campo. Que raio de nome que haviam de pôr a um homem tão pequeno, parece mesmo que lhe puseram o raio do nome só para gozar com o homem!

Olha o Ti Adriano e a Tia Custoidinha “Zorra” como eu lhe chamava quando estávamos sozinhos, para ouvir depois as suas ameaças “qualquer dia levas (!), olha que eu dou-te (!), só tu é que me chamas isso, ouviste (?)”. Era mentira, todos lhe chamavam nas costas pela Custoidinha “Zorra” para a distinguir das outras Custódias que por lá havia na Vila. Possivelmente devem ter alguma hortinha por aí, pois o Ti Adriano só a apregoar e a vender peixe... “Viva ´Sargento´ Diogo, então e como é que vai o novo negócio (?)”, perguntam os homens ao Ti Diogo que vinha com a burra carregada de peças de fazenda, possivelmente das Cortes Pereiras e da Afonso Vicente e que experimentava agora esta nova maneira de ganhar a vida. “Cá se vai andando rapazes, cá se vai andando, mas o pessoal anda com pouco dinheiro...” responde ele calmamente a caminho de casa.
Rua D. Sancho II onde vivia o
"Sargento" Diogo.

O Manel Sapateiro passava apressado sem dar de vaia a ninguém com um molho de corriol às costas, pois ainda tinha que ir dar comida aos coelhos. “Este Manel tão bom moço e com tão pouca sorte, comentam os homens... depois de um dia de trabalho na Oficina com o pai e com o tio Chico desde as 7 ou as 8 horas da manhã, ainda tem que ir apanhar erva e tratar dos coelhos!” Às vezes lá se safa mais cedo da Oficina digo-lhes eu e aproveita a ida à erva para dar dois chutos na bola, quando estamos a jogar na Fonte Primeira. O Manel Tostão vinha logo a seguir. “Estás por cá agora Manel, não me digas que vieste passar as férias à Vila (?)”, pergunta um dos homens. Mas o Manel Tostão ia tão distraído, que só disse Boas Tardes com aquele seu sotaque já à moda de Vila Real. “Este com aquele sotaque também já deve ter bebido água do Poço Velho lá em Vila Real”, diz maliciosamente um dos presentes. “Se calhar contratou para aí algum cercado ao terço, diz logo outro a seguir e sempre fica com umas amêndoas para o seu próprio fabrico de bolos, pois apesar de sacristão, nunca abandonou a arte mesmo depois de se ter ido embora da Vila”.

“Boa Tarde, estávamos a ver que não vinha hoje Ti Domingos!” “Boa Tarde pessoal”, responde o Ti Domingos da Lourinhã que ia a cavalo na sua burra pois a idade já era muita e com vontade de chegar a casa o mais depressa possível para tratar do jantar. Era quase sempre dos últimos a chegar à Vila, e agora ainda por cima desde que os filhos se foram embora depois que o Senhor Munhós fechou a Padaria, vivia sozinho e ainda tinha que ir fazer o gaspacho e era por isso que era sempre dos últimos a chegar à Venda do Ti António Joaquim. Logo a seguir vinha o Ti Zé da Horta com a sua burrinha pela mão, quase ao mesmo tempo que o criado dos Caimotos, o Ti João Borralho. Possivelmente combinam-se e como as casas são perto uma da outra, sempre fazem companhia e vão trocando umas palavras pelo caminho. O Ti Zé Brandão seguia-os a uns cinquenta metros. “Óh Ti Zé que grande carga de lenha que leva diz-lhe um dos homens, olhe que hoje vai ter que fazer um bom serão para descarregar a burra e arrumar essa lenha toda?” “Nem pensem nisso... isto vai ser rápido, isto vai ser rápido podem crer!”

Casa onde vivia Mestre Cândido
O Mestre Cândido passava entretanto e virava para a calçada direito ao Largo da Parada. “Então esse ontem avariou-se (?)” pergunta um dos homens ao Mestre Cândido que se deslocava com dificuldade de Petromax na mão e escada às costas. “É verdade rapazes, este ontem não estava a funcionar lá muito bem e tive que lhe dar para aqui uns apertos, pois ali no Largo da Parada sempre faz falta para a entrada na Vila”. O Senhor Leopoldo passava de novo estranhamente para o Celeiro. Àquelas horas os homens admiraram-se e perguntam-lhe se vai fazer serão ao que ele responde que não, que se tinha esquecido de meter os pintassilgos no Celeiro e já agora aproveitava e tratava logo deles. “Você também já não lhe bastavam os canários que tem lá em casa, agora também arranjou mais esses para se coçar”, diz-lhe logo um dos presentes. Mas o Senhor Leopoldo era mesmo assim, era um passarinheiro apaixonado que fazia reprodução de canários e que se dedicava a todos os pintassilgos que por ali procriavam junto ao Celeiro, principalmente na amendoeira junto ao aqueduto do Caminho do Poço das Figueiras perto da casa do Ti Robalo.

“Que esquisito comenta um dos homens, o Ti António Soeiro e o Senhor José Soeiro ainda por lá andam, não dei por eles passarem! Querem lá ver que deu algum trangomango ao homem, pois o Senhor José Soeiro como é epilético costumam dar-lhe aquelas salipantas”. “Se calhar ficaram sem água na nora diz logo outro e como as marés são vivas, possivelmente estão à espera que a nora faça alguma água para acabar de regar o laranjal”. Deve ser isso e de certeza que a minha amiga Ritinha Soeiro aproveitou o atraso para fazer uma limpeza mais a fundo nos galinheiros, pensei logo cá para mim.
Rua Dr. João Dias onde viviam os irmãos "Soeiro".
Óleo de JV
 Vê-se ao longe o Amigo António do Brejo que vinha pelo Caminho do Pocinho. “Olhem o Sacramento do Altar hoje também vem pela Vila que fino”, agitam-se os homens no muro mal o vêm à distância. “Isso é porque deixou a cabra a pastar no campo esta noite, se não tinha ido pelo Caminho do Celeiro”, diz logo outro a seguir. Os homens não resistem à sua passagem e mal ele pisa a calçada metem-se logo com ele: “Olha o Amigo António que gordo e lustroso que anda caramba, mas que bela panela com que ele anda agora (!)”,  dispara de imediato um provocador. O Amigo António para, enfrenta aquele magote de gente e interpela o provocador: “olha lá pá, já jantaste?” Não, responde-lhe o provocador meio acabrunhado. “Então anda já comigo que eu vou despeja-la (!)” e lá segue na sua passada curta pela calçada adiante, cigarro de mortalha ao canto da boca como se nada tivesse acontecido.

E no meio da gargalhada geral e do riso amarelo do provocador, os homens por ali continuavam à espera de uma brisa que estava difícil de chegar...

(continua)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim:sonho ou realidade? [2]





Escreve

Amílcar Felício 



Portas de Mértola. Foto JV
 De facto com o fim do dia e o regresso a casa, Alcoutim e todas as Casas de Campo envolventes ganhavam outra vida naqueles finais da década de cinquenta do século passado, como vimos na crónica anterior. Os sons do clarinete ou do saxofone com que o Mestre João Ricardo acabava normalmente os seus dias de trabalho na Barbearia, esgueiravam-se melodiosamente pela Praça e esbatiam-se melosa e suavemente pelo alcatrão escaldante estrada acima, naquela tarde calorenta de Agosto.

Os homens sentados no muro em frente à casa da Tia Catarina das Portas embalados por aquela música de fundo, lá continuavam naquela moleza à espera do primeiro fresco da tarde. Para saírem daquele entorpecimento iam falando de tudo e de quase nada ou dizendo umas larachas às moças que entretanto passavam alegres e em grupo, com a infusa ao quadril a caminho do Pocinho. A Maria Tomásia ia quase sempre atrás delas para se defender dos impropérios, que alguns desbocados mais atrevidos lhe dirigiam.

Pego Fundo de outros tempos. Foto JV
 As Lavadeiras de Caneças alcoutenejas – a Tia Maximina e a Tia Alice Pandareta – lá vinham de canastra à cabeça, depois de uma tarde inteira a lavar roupa no Pego Fundo e cruzam-se com as moças mesmo à entrada da Vila. A Tia Maximina preocupada com a catrefada de gente que tinha lá em casa para alimentar pois seriam mais de dez, pergunta à Aurora se a Idalina não se tinha esquecido de tratar do jantar, ao que ela responde que até já estava ao lume mas que ainda devia faltar uma boa meia hora para estar pronto, possivelmente só quando chegasse do Pocinho.

O Mestre Carlos Sapateiro assobiando no seu famoso e popular”prega-saltos”pedalava ligeiro estrada acima e quando os homens o questionam aonde é que ia, respondeu como sempre na sua maneira de falar de rajada como se fosse uma metralhadora e brincalhona de quem leva a vida pouco a sério, de que ia “à do Ti Chico das Quatro Estradas beber um pirolito, que é muito mais barato do que na Vila”. A garotada mais miúda na sua algazarra frenética não parava, ora estrada acima direito ao Celeiro ora estrada abaixo direito à Praça, com uma cana entre as pernas a fazer de cavalo e uma corda entre as mãos atada à ponta da cana, como se montassem um Puro Sangue Lusitano. E não é que os sacanas dos “cavalos” até relinchavam, caramba!

Talvez influenciados pelas tropelias da miudagem, o Gonçalves e o “maluco de Giões” como era conhecido, passavam entretanto a correr descalços como sempre. Os homens perguntam-lhes “então mas de aonde é que vocês vêm a esta hora (?)”. O Gonçalves que ia à frente gritando “bruuuuhhhh... bruuuuhhhh... bruuuuhhhh...” responde que “é a camioneta que está a chegar à Vila”. O “maluco de Giões” um pouco mais lúcido do que o Gonçalves e por quem sentia um certo paternalismo, ria-se e comentava que “este gajo nunca mais tem juízo, cada vez está mais maluco (!)” e lá continuam os dois na sua correria desenfreada estrada abaixo, direitos à Praça!

O Gonçalves teria uns vinte e muitos anos e o “maluco de Giões” já um pouco mais velho, andaria na casa dos trinta. Eram dois dementes pacíficos que não se metiam com ninguém, acarinhados pelo povo que lhes dava comida e que de tempos a tempos, percorriam juntos o Concelho sempre a pé. O “maluco de Giões” tinha por hábito vir a Alcoutim duas ou três vezes por ano, possivelmente visitar o seu amigo Gonçalves. Dormiam nos escombros das casas abandonadas. O Gonçalves dormia normalmente numas casas derrubadas que existiam entre a casa dos Caimotos e a Estalagem da Tia Libânia entretanto desaparecidas, para dar lugar ao largo existente na fachada principal do Castelo. Andava quase sempre com as calças rotas no rabo pelo que quando se sentava, ficava invariavelmente com a ferramenta à vista para deleite de uma ou outra mulher mais arrojada que o fustigava, “mas tu nunca mais tens vergonha de”tar”sempre com isso à mostra Gonçalves (?), mete lá isso já”p´ra dentro (!)”, mas o Gonçalves eternamente a sorrir, lá continuava impávido e sereno na sua sacrossanta ingenuidade a dar ar à minhoca, como se não fosse nada com ele.

Passadeiras na Ribeira de Cadavais. Foto JV
 Havia sons naquela época que chegavam à Rua das Portas de Mértola aonde eu passava a maior parte do dia e uma boa parte da noite, que nos ficariam gravados para sempre nas profundezas da nossa memória como se tivessem sido ontem, como o ronco tenebroso durante a noite das Ribeiradas nas passadeiras da Fonte Primeira ou os gritos lancinantes e arrepiantes do Gonçalves, quando os homens lhe davam banho em pelota naqueles invernos gelados no Pego Fundo com direito a roupa lavada, principalmente para a Ceia de Natal que o velho Dr. João Dias organizava em sua casa para os pobres, no meio da habitual fofoca alcouteneja que em privado não poupava nas palavras. Mas adiante...

Lá passa entretanto o Ti Mário com o seu macho pela arreata, incansável contador de estórias e de sonhos, sempre com esperança na vida e num futuro melhor, com a gorpelha cheia de canastras de amêndoas e de maçarocas de milho e logo a seguir o Ti Alfredo das Portas, a cavalo na sua mula bem arreada com uma bela albarda e com a sua nova burra logo atrás, ainda pouco habituada àquelas andanças com os alforges cheios de abóboras, frades e alguns melões e melancias. Trazia também umas alfarrobas e alguns figos de tuna para os porcos. Já vinham sozinhos pois os filhos como tantos outros, há muito que tinham batido a asa para a tropa e até já algumas das filhas tinham casado, ficando a casa mais vazia.

Aquela nova burra do Ti Alfredo, tinha vindo substituir a última burra que lhe tinha morrido enforcada numa noite desgraçada na arramada e que o fez chorar convulsivamente como uma criança, apesar de ser um homem temperado pela 1ª Guerra Mundial em França, da qual guardava como lembrança mas que nunca utilizava, o garfo e a colher que por lá tinha usado. Nunca lhe tinha visto nem nunca mais lhe voltaria a ver uma lágrima a correr por aquela cara abaixo! Aquela burra tinha sido a sua companhia anos e anos no seu trabalho solitário entre a Hortinha no Pocinho, a Corte da Seda e o Alcaçarinho. Possivelmente só quem viveu situações semelhantes poderá compreender tais sentimentos. A Tia Catarina das Portas debruçada no parapeito do seu muro altaneiro, contemplava lá do alto e em silêncio o movimento dos que passavam, depois de um dia de trabalho que ainda estava longe de chegar ao fim, enquanto as brasas das estevas iam apurando em lume brando o jantar de grão que tinha na pelengana em cima da trempe, para a refeição da noite que se aproximava.

Ribeira de Cadavais. Sítio do Pego das Portas. Foto JV
Chega o Ti Pimenta também, com uma cabra pela mão provavelmente para matar no dia seguinte, pois havia já alguns dias que não tinha carne no talho. Tenho que avisar a minha mãe, pensei eu logo cá para mim, para perguntar à Tia Nascimento pois carne de cabra é sempre mais rara e acaba depressa! Um dos criados do Senhor Serafim vinha logo a seguir atrás das vacas, enquanto os outros ainda continuavam na Eira do Cerro do Celeiro com as bestas, à espera que se levantasse algum vento para acabar a debulha. Quase ao mesmo tempo passa o Senhor Antunes Guarda-Rio, que foi dar uma volta pela Ribeira para ver se estava tudo em ordem. Olha o Senhor Zé Custódio e o Senhor Santos Guarda-Fios hoje vêm juntos, comentam os homens. Se calhar tiveram algum trabalho mais complicado e tiveram que ir os dois, diz logo outro a seguir.

Na encosta da Igreja da Nossa Senhora da Conceição o Senhor António do Vinagre a que todos chamavam de Ti Enterrador, indiferente ao que se passava lá em baixo nas Portas ainda regava os pequenos eucaliptos que ele próprio tinha plantado. Vamos lá a ver mas é se pegam todos, comentavam os homens uns para os outros, pois sempre faziam uma entrada na Vila mais bonita!

A brisa da tarde estava difícil de chegar às Portas mas o regresso a casa naquele dia, fazia-se a bom ritmo como habitualmente. Contudo, ainda estávamos longe de chegar ao fim como veremos na próxima crónica.

(continua)

domingo, 20 de janeiro de 2013

UM FIM DE TARDE EM ALCOUTIM: SONHO OU REALIDADE? [1]


Escreve

Amílcar Felício





Rua das Portas de Mértola
Imaginei-me sentado entre os homens no muro que dá para a Ribeira em frente à casa da Tia Catarina das Portas, como acontecia noutros tempos já bastante recuados. Para ser mais preciso, estaríamos para aí na segunda metade da década de cinquenta do século passado e os homens já comentavam uns para os outros de que se aquilo continuasse assim, qualquer dia quando aqueles velhos desaparecessem não haveria mais braços para trabalhar no campo. Ainda por cima, acrescentavam eles, agora já não eram só os moços que iam para a tropa e que por lá arrumavam a vida, como também famílias inteiras que tinham começado a zarpar! E o pior é que isto estava a acontecer, diziam eles, quer na Vila quer até nos próprios Montes!

Aquele muro logo à entrada da Rua das Portas de Mértola, era um dos lugares nevrálgicos da Vila e o poiso dos mirones e dos linguarudos que por ali se juntavam, nos dias em que o calor apertava e que até cortava a respiração. Tinha sido construído pela Empresa dos Pataroxa há cerca 10 anos atrás, na mesma altura em que rasgaram todos os quintais existentes junto ao Esteiro, para construir o prolongamento da estrada até à Praça e que só chegava naquela época até à entrada da Vila. Demoliriam também as casas em frente à Venda e à Mercearia do Senhor Simões, fazendo naquele local o Ajardinado a 45º que ainda por lá existe e murando naturalmente a entrada da Rua. Toda a pedra tinha vindo da Pedreira do Senhor Felício que ficava entre a curva da Amoreira e o Aqueduto das 3 Bocas e que foi comprada a 1 escudo a tonelada ou o metro cúbico, já não me lembro ao certo e transportada pelos famosos camiões do Pataroxa que baptizariam para sempre o meu amigo do peito, o Zé Pataroxa filho do Lázaro e da Ana, que corria descalço pela Vila naqueles tempos gritando que “aqui vai o camião do Pataroxa!”

Sentados no muro, esperávamos pela primeira brisa da tarde que vinha da Ribeira e que deveria estar a chegar a qualquer momento, naquele mês de Agosto abrasador. O Sol parecia mesmo que se estava a preparar para dormir nos Moinhos derrubados da Corte do Tabelião e as sombras dos que chegavam à Vila, eram àquela hora do dia muito maiores do que eles próprios, dando-nos a sensação de que vivíamos numa Vila de gigantes. Eram quase 8 horas da tarde mas ainda estava uma calma enzorrada que mal se conseguia respirar e que até nos fazia sentir almareados!

O Chico e o Manel Balbino aproveitando as marés vivas e a preia-mar que dava lá para as 9 horas, subiam lentamente a Ribeira numa das suas lanchas para deixa-la em seco nos eucaliptos do Senhor Joaquim do Rosário, perto das passadeiras do Pego Fundo, para reparar alguma racha ou pequena fresta de última hora que se tinha aberto com aqueles calores. O Chico de remos nas mãos lá ia dando umas remadas de vez em quando ao sabor da corrente e o Manel com uma antiga lata de cavalas em conserva que levaria entre dois a três litros, lá deitava para a Ribeira a água que ia entrando para a lancha.

No outro lado da Ribeira o Ti António Brandão e os filhos, mais novos do que eu uns 4 ou 5 anos pois o Chico teria para aí uns 6 anos e o Américo uns 7 ou 8, ainda regavam as laranjeiras. Nunca lhes sobrava tempo para a brincadeira! A mãe, a Tia Catarina Brandão já tinha passado há um bom bocado para casa. Vinha quase sempre mais cedo para fazer o jantar. Um pouco mais adiante, perto dos escombros da velha Igreja do Rossio, o Manel do Rossio lá ia atrás das vacas do Ti Gato encaminhando-as lentamente para a ordenha habitual da noite, pois a Tia Maria do Leite a mulher do Ti Valentim, ainda tinha que fazer a distribuição do leite pela Vila. 

Os netos do Ti Gato, o Martinho – o picada da mosca – e o irmão mais novo o Eduardo, também lá iam atrás das vacas para dar uma ajuda. As primas, a Liete e a irmã estavam um pouco mais à frente já ao pé das casas, com os cântaros de lata na mão que o Ti Zé Emídio fabricava. O Martinho tinha ficado conhecido pelo “picada da mosca” porque todos os anos quando lhe pedíamos na Escola para trazer umas laranjas do Rossio, desculpava-se sempre com o mesmo argumento “de que este ano não podia trazer nada, pois estavam todas picadas da mosca”. 

No lado de cá da Ribeira no Esteiro, a Tia Libânia e o Ti Marreiros aproveitavam até ao último raio de sol e às vezes até entravam pela noite dentro para acabar a rega do laranjal. Os cães do Ti Robalo não paravam de ladrar à passagem das mulheres para o Poço das Figueiras, no meio daquele reboliço de fim de tarde e a Tia Emília da Horta, a Ivone, a Maria de Lurdes e o Martins que tinha vindo substituir o Manel Noronha, andavam numa fona a fazer o jantar, a arrumar as bestas ou a tratar das galinhas e dos porcos. Na Eira Branca enxergavam-se alguns vultos de um lado para o outro, sem se perceber muito bem o que é que andavam a fazer. Deveria ser a Barborinha, o marido o Ti Zé e o filho, o meu grande amigo Zé Martins, que andavam na lida do fim do dia. 

O Ti Zé Joaquim Bruxo do Enxoval também já lá ia apressado estrada abaixo direito à lancha, para ver se ainda aproveitava quase uma hora de maré para chegar a casa antes que ela virasse, com dois grandes cestos do avio que tinha vindo fazer à Vila. Vinha sempre aviar-se à mercearia do irmão o Ti António Joaquim, menos o tabaco que ele próprio fabricava, secando umas ervas de campo muito bem cheirosas que embrulhava depois na mortalha. Também o meu amigo de Escola o António, o Brejeiro como a gente lhe chamava, tinha acabado de passar com o pai que tinha vindo vender umas hortaliças, uns ovos e umas galinhas à Vila e lá iam os dois sempre vestidos de preto e de chapéu na cabeça direitos ao Cerro da Mina, que tinham que subir a pé por uma vereda de cabras a caminho do Brejo aonde moravam. O preto era a sua sentida e eterna homenagem à esposa e mãe que tinha morrido há já alguns anos. 

Mas... com o regresso a casa, a Vila ganhava outra energia. Para acabar o dia faltava apenas tratar dos animais e do jantar. Depois eram os longos serões à conversa nos poiais das casas ou nas pequenas cadeiras artesanais feitas de loendro e de junco, a que se lhe juntava de vez em quando umas cantigas alentejanas que ecoavam pachorrentamente por aquelas ruas adiante e que muitas vezes iam para lá da meia-noite, à espera que o fresco da madrugada chegasse mais cedo nas noites mais acaloradas. Mas ainda faltava chegar muita gente à Vila como veremos na próxima crónica...

 (continua)


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O dia em que fui "arquiteto" (Mais rápido do que na Lusófona!)



Escreve

Amílcar Felício



Miguel Relvas chegou certo dia atrasado a uma aula do 1º ano na Faculdade. Entreabriu delicadamente a porta e pediu ao Professor para entrar: “Professor dá Licença?”. O Professor respondeu: “Está Licenciado!”. Pelo que se diz por aí, o homem levou aquilo à risca e não voltou a por os pés na Universidade, considerando-se Licenciado a partir dali.

Esta piada que correu meio mundo e que nos fez rir à gargalhada em tempos recentes para esquecermos as agruras da vida, fez-me lembrar um pequeno troço da minha vida na juventude que vou partilhar convosco, num certo dia em que também eu fui “Arquiteto”. Uma das vantagens da idade – isto também não pode ser só desvantagens caramba! -- é termos muitas estórias para contar e eu até fui “Arquiteto”, imaginem! Apesar de o ter sido apenas por um só dia e com contornos menos escabrosos penso eu de que... mas já lá vamos.

Estávamos nos meados da década de sessenta do século passado. Tinha desistido do curso que o meu pai me tinha “encomendado”/destinado, pois naquele tempo os filhos das minorias com posses para estudar, nasciam desde logo Engenheiros ou Doutores. A mim tinha-me saído na rifa ser Engenheiro Electrotécnico não sei bem porquê e logo eu que até tinha medo de ligar um interruptor. Possivelmente por se tratar de uma profissão muito prestigiada à época. Naturalmente que sairia daqui mais um Engenheiro Hidráulico de olhos verdes, como eram considerados jocosamente alguns Engenheiros na altura!

Assim logo que tomei consciência aonde me estava a meter e caí em mim, tarde e a más horas diga-se de passagem – em pleno exame de aptidão para Engenharia na Faculdade de Ciências – preenchi o cabeçalho do ponto e ao fim de 5 minutos, com muito espanto do Professor estava de saída. “Então o Senhor já acabou” (?) pergunta-me ele admirado. “De uma vez por todas Professor”, respondi-lhe eu saindo porta fora.

Optei por outras áreas mais apetitosas para o meu paladar, embora ainda muito em embrião na altura imaginem, apesar de estarmos na 2ª metade da década de sessenta. A “pecaminosa” Sociologia no IES -- Instituto de Estudos Sociais – actual ISCTE (Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa) que Salazar combateria com todas as suas energias pela sua “perigosidade”de levar as pessoas a pensar e a questionar-se, embora com o pretexto aparente de que teria que haver racionalização de recursos, uma vez que já existia algo semelhante, o ISCPU -- Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina – formatado por Adriano Moreira e que mais não fazia do que fabricar Quadros Administrativos Coloniais. Que eu saiba tivemos pelo menos dois conterrâneos, dois bons amigos infelizmente já falecidos, formados nesta Universidade.

O IES lutava então afanosamente com lutas por vezes bastante rijas, pelo seu estatuto de Escola Superior que na realidade tinha mas que Salazar lhe negava. Era orientado na altura pelo pai da Sociologia Portuguesa e ainda hoje considerado o maior Sociólogo Português de sempre -- o Dr. Adérito Sedas Nunes -- e por um naipe de Professores extraordinários que com ele colaboravam e de que destaco Mário Murteira em Economia, que foi Ministro dos Assuntos Sociais no 1º Governo Provisório e Jorge Miranda em Direito Público e Internacional, considerado um dos pais da Constituição de Abril. Adérito Sedas Nunes viria a integrar mais tarde o governo de Maria de Lurdes Pintassilgo, com a pasta da Ciência e da Cultura.

Senti-me assim obrigado por dever de consciência a informar os meus pais de que ia pescar para outras águas e começar a trabalhar, mas que continuaria a estudar por minha conta e risco pois iria fazer outras opções mais do meu agrado. Claro que com o bom senso dos pais a que só mais tarde acabamos por dar valor, no dia seguinte tinha o “velho” em Lisboa para me convencer do disparate que ia fazer. Mas era tarde e estava decidido, pois quando me convencia da justeza de determinado facto era teimoso como a burra do meu avô Alfredo.
 
A Arquitetura & Similares também me eram matérias simpáticas e assim comecei a trabalhar na sala de desenho da Repartição de Jardins da Câmara Municipal de Lisboa, que tutelava todos os Jardins de Lisboa incluindo o Parque de Monsanto embora com alguma autonomia. Era desenhador “tarefeiro”, uma espécie de “recibo verde” sem recibo dos nossos dias, embora houvesse muita insistência das chefias para que eu entrasse para o quadro a que sempre resisti, por não sentir o “apelo e o espírito de missão” do Funcionalismo Público tal como existia na altura. Ganhava 1750$00 o que já era um excelente ordenado naqueles tempos.

Tratava-se de uma Repartição que para lá de largas dezenas de administrativos, era composta na parte técnica por um Engenheiro Agrónomo Chefe da Repartição, por 4 Engenheiros Subalternos também eles Agrónomos naturalmente, por cerca de 5 ou 6 desenhadores e diversas Secções de Jardineiros com umas dezenas se não centenas de trabalhadores espalhados por essa Lisboa fora, cujo Chefe ia a despacho todos os dias à Sede.

Ao fim de pouco mais de um ano e apesar de “tarefeiro” já tinha sido promovido a Chefe da Sala de Desenho, por desistência do Chefe – o meu amigo Esteves -- que entretanto tinha optado pelo sector privado depois de muitas hesitações e de se ter aconselhado comigo, apesar de ser um puto na altura com 18 ou 19 anos. O Esteves era um homem do “reviralho” com quem tinha muita empatia de cerca de 35 anos, casado e já com filhos. Visitaria Alcoutim de quem ficaria encantado. Com as voltas e reviravoltas da vida nunca mais nos voltaríamos a encontrar.

No conjunto da Repartição de Jardins existiria naqueles dois ou três anos que por lá andei, seguramente duas a três vezes mais de funcionários do que as necessidades requeriam na altura. Às vezes ponho-me a pensar se há quase 50 anos já era assim, o que não será este polvo chamado Função Pública nos nossos dias, em excesso de pessoal? O cancro tem muitos anos e dizem as más línguas que teria sido um dos estratagemas que Salazar utilizou bem como o incentivo à emigração, para esvaziar a pressão social que já se fazia sentir e impedir o desenvolvimento da indústria e a afirmação do seu inimigo figadal de quem tinha pânico -- a classe operária -- mantendo “ad aeternum” o seu Portugal dócil, paroquial e campónio no mau sentido, de que tanto gostava.

O Engenheiro Chefe era um alentejano enorme e já maduro – o Cavalo Branco – como era conhecido por todos, pelos seus fartos cabelos brancos à Cunhal e tinha sido o introdutor da Oliveira Alentejana nos Jardins de Lisboa. Trazia assim um bocadinho do seu Alentejo para a Capital para matar saudades, perante a chacota pública na altura, que achavam aquilo um disparate paisagístico. O homem tinha alguma sensibilidade e chegávamos a estar a falar mais de uma hora sobre a beleza da Oliveira e a estética do seu tronco.

Mais tarde nas nossas paródias da tropa recordar-me-ia bastante dos seus longos discursos sobre a Oliveira, quando ouvia um castiço de um colega dissertar com graça nas horas de lazer quase 2 horas de seguida sobre o Pano de Tenda, terminando ao fim daquele tempo: “por último, já me esquecia de vos dizer que isto também serve para fazer uma Tenda...” O que é facto é que hoje não há recanto nem Jardim de Lisboa que não possua uma Oliveira tornando-se numa presença banal. Tinha sido também o pai da célebre Rotunda do Relógio junto do Aeroporto, muito criticada também e se a memória não me falha do Relógio de Sol na chamada Praça do Império, hoje completamente degradado penso eu. Chegaria também a visitar Alcoutim que muito o impressionaria pela sua extraordinária beleza.

Para se ter uma ideia os 4 Engenheiros Subalternos pertencentes a famílias conhecidas da nossa praça de que não vou mencionar nomes, entravam a maior parte dos dias às 17.00 horas e a hora de saída era salvo erro às 17.30 horas. Iam picar o ponto claro. O único que entrava entre as 9.00 e as 10.00 horas era o Engenheiro Chefe, para despachar os diversos assuntos e saía quase sempre depois da hora. O trabalho que os Engenheiros Subalternos faziam era muito parecido com quase nada. Eu era um puto atrevido, cuja formação não ia além de alguns conhecimentos em Geometria Descritiva, o que me permitia fazer umas plantas e uns alçados a que lhe juntava uma boa dose de imaginação, de improviso e de “desenrascanço” à boa maneira portuguesa.

Lembro-me de uma vez ter confrontado um dos Engenheiros Subalternos mais espertote e atrevido, que se ia pavonear para a sala de desenho naquela meia hora que por lá andava, dizendo-lhe: para mim um Engenheiro que venha para a Câmara ou é um grande nababo ou um grande tachista! Recordo-me de ele ter respondido à minha insolência juvenil: “sabe que eu gosto muito de um bom tacho!” Okapa, já entendi... assim fico mais descansado Engenheiro, respondi-lhe. Ainda me deu uns trabalhinhos por fora certamente para poder confirmar a sua competência, nomeadamente o Jardim de Inverno do antigo Casino do Estoril.

Mas de certo modo convenhamos de que eles tinham razão. De facto todos os Engenheiros Subalternos eram Engenheiros Agrónomos e ao contrário do Engenheiro Chefe tinham um curso complementar de Arquitetura Paisagista ministrado no próprio Instituto de Agronomia, pois não existia na altura Arquitetura Paisagista como curso independente. Que diferença para os nossos dias caramba aonde existem centenas e centenas de cursos superiores, quase faltando apenas o Curso Superior de Pilha Galinhas, embora haja para aí às carradas Catedráticos na matéria capazes de fundar uma Universidade ao nível das melhores... Só o Engenheiro Chefe possuía apenas o curso de Engenheiro Agrónomo, o que o limitaria bastante suponho, em tudo o que se relacionasse com Paisagismo.

Claro que com as tricas existentes na Função Pública, o Chefe para não dar parte de fraco passava por cima dos Engenheiros Subalternos – nem se falavam -- e vinha ter comigo que lhe apresentava os Projetos depois de alguma discussão, assinando ele depois e toca a andar que se faz tarde. Fizemos obra que possivelmente ainda alguma coisa resistirá ao tempo, como uma grande remodelação do Jardim da Estrela com um ribeiro artificial de água corrente numa das encostas junto à Biblioteca, a Estufa Quente junto à Estufa Fria, o prolongamento da parte superior do Parque Eduardo VII e dezenas de remodelações por esses Jardins de Lisboa.

Lembro-me também de termos realizado o levantamento e os desenhos de centenas de Marcos Fontanários – pequenas relíquias esculturais – perdidas por essa Lisboa e de que não existia nada em arquivo. É interessante assinalar também em plena década de sessenta a existência de algumas preocupações ambientalistas, como um quadro entalhado num enorme meio tronco de madeira com uma mensagem tocante de que não recordo o autor, em prol da árvore e do seu papel na vida do homem e que foi colocado na maior parte dos Jardins de Lisboa. Provavelmente que estas preocupações ambientalistas seriam fruto de alguns contactos existentes na altura entre a Repartição e o Instituto de Agronomia, aonde pontificava o Arquiteto Ribeiro Teles “o papá” do ambientalismo português.

O “Cavalo Branco” relacionava-se com quase toda a Fina Flor do Entulho da Linha de Cascais, pelo que era uma fonte permanente de trabalhos extras na remodelação de Jardins Particulares. Lembro-me de lhes levar uma exorbitância na altura, pois cobrava a 200 escudos à hora o que naquele tempo era uma pequena fortuna. Como possuía um bocadinho do espírito de Zé do Telhado, para compensar fazia à borla alguns Projetos de casas clandestinas em Tires para alguns “almeidas” (trabalhadores camarários do lixo) e amigos que por lá moravam, pois trata-se de uma zona que se desenvolveu quase na clandestinidade absoluta.

Já agora a talhe de foice e para conhecimento da maior parte dos nossos leitores certamente, estas pequenas casas de habitação populares eram feitas durante a noite calculem para fugir à lei e às licenças. Abriam-se os roços para os alicerces e entulhavam-se ao nascer do dia. Depois das fundações preparadas levantavam-se as paredes à pressa sempre durante a noite e colocava-se o telhado às três pancadas, o que já não permitia por lei a sua demolição apesar de clandestinas. Mais tarde haveria tempo para reforçar paredes, trabalhar com calma os interiores e tudo o mais que fosse necessário. Assim cresceu Tires que pertence a uma das maiores freguesias do país e assim se ia resolvendo naqueles tempos, o problema de habitação daqueles que vinham do campo para a cidade.

Certo dia o “Cavalo Branco” chamou-me ao seu escritório e pergunta-me com ar solene: “quando é que você tem um sábado disponível para irmos a Alcobaça, para estudarmos um projeto de remodelação do Jardim do Mosteiro, pois fui convidado pelos Conservadores para lhes apresentarmos um projeto?” E lá combinámos determinado sábado. Almoçámos no Restaurante Mónaco na marginal, na altura talvez o restaurante mais chique da Linha de Cascais pois esta gente trata-se bem. Hoje completamente degradado, até mete dó e serve de Parque de Diversão da 3ª Idade que ali são “armazenados” aos fins-de-semana.

Depois de um belo repasto lá partimos direitos a Alcobaça. A cinco quilómetros do Mosteiro o Engenheiro Chefe para o carro e diz-me com alguma apreensão: “penso que já o vou conhecendo, mas vou ter que o apresentar aos Conservadores como Arquiteto, tanto mais que lhes disse que levava o “meu Arquiteto” senão eles não nos levam a sério, o que é que acha?” Nesta altura do campeonato o que é que quer que lhe diga, mas olhe que não sou eu que estou a mentir Engenheiro, respondi-lhe! “Não se preocupe com isso que eu assumo toda a responsabilidade e o que é preciso é fazermos o Projeto, pois temos competência para isso!”.
 
E lá entrámos no Mosteiro naturalmente um pouco constrangidos. Depois da apresentação do “Arquiteto” acabadinho de formar há menos de cinco quilómetros atrás, por ali andámos com os Conservadores no treco treco e no ”Arquiteto” para aqui, “Arquiteto” para ali e lá íamos sugerindo ou ouvindo as ideias dos Conservadores, tomando notas, rectificando medidas etc., etc., etc. Cá por dentro só pensava: isto já não se pode confiar em ninguém caramba, pois com papas e bolos se enganam os tolos! O que é facto é que apresentámos um belo Projeto que acabaria por ser executado, mesmo com um “Arquiteto” faz de contas. De facto era um Jardim extraordinário, com um rio a passar lá dentro a meio do Jardim e aonde os Monges pescavam na Idade Média dizia-se, o que só por si apelava à imaginação. Nunca mais lá voltei e já lá vão quase 50 anos. Naturalmente “reformei-me” de seguida pois tinha atingido o topo da carreira. E nunca mais exerci a profissão de Arquiteto juro-vos...

Até nos apetece dizer ou no mínimo pensar: pelas preocupações demonstradas pelo Engenheiro Chefe em impressionar e ganhar a confiança dos Conservadores do Mosteiro de Alcobaça, ao fim e ao cabo sempre tivemos um bocadinho de Relvas cá dentro de nós... Afinal de contas não mudámos muito desde o século passado!

Deus nos livre disso, digo eu que até nem sou católico!!!

VOTOS DE FESTAS FELIZES PARA TODOS OS ALCOUTENEJOS E LEITORES DO AL !!! (apesar da troika...)