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domingo, 27 de dezembro de 2009

Montes desaparecidos ou despovoados na freguesia de Giões

[O Monte do Viçoso depois do abandono]

Na continuação do que fizemos em relação à freguesia do Pereiro vamos hoje abordar a mais pequena do concelho, a de Giões.

São poucas as situações verificadas.

As Memórias Paroquiais (1758) referem a existência como habitado o monte da Cacelinha que segundo informa fica próximo da aldeia sede de freguesia. Quinze anos depois sabemos que lá vivia, certamente com a família, António Gonçalves que na Câmara fez o manifesto de seis reses.

Nos Anuários Comerciais dos princípios do século passado são indicados como povoações da freguesia: Minhova, Cacela e Mingordo.

Aqui Cacela deve estar por Cacelinha, palavra de origem árabe que significa prado ou pastagem de gado.

Na Minhova, em 7 de Setembro de 1841, ainda é exposta uma criança do sexo feminino.

O Monte de João Velho e que presumo localizar-se nesta freguesia é referido em actas das Sessões da Câmara Municipal da segunda metade do século XIX.

Outro dos montes indicado como povoado é o de Mingordo que deve ser elisão de “Moinho Gordo” e que penso se localizaria nas proximidades da ribeira do Vascão e talvez relacionado com algum moinho na ribeira. Nas suas proximidades uma mina de cobre registada em 1878.

Gordo porquê? Pela alcunha ou nome do proprietário? Ou seria pelo seu volume? Seria pela “gorda” produção do mesmo?

Navegamos no campo das hipóteses e até porque desconhecemos o local onde se situaria e de que julgo ainda existirem ruínas.

Outro dos montes indicados como habitado era designado por Carrascal não tendo eu mais qualquer elemento para poder referir.

As maiorias destes montes eram constituídas por um único fogo, quando muito por dois ou três e daí o seu desaparecimento. Nessas alturas, viver num monte grande ou num monte pequeno e isolado era muito semelhante. Estes montes tinham inspiração nos conhecidos montes alentejanos que acabaram por sofrer transformações parecidas ainda que as suas dimensões como domínio da terra fossem muito maior e mais produtiva.

Há uma investigação a fazer nesta vertente mas a verdade é que até agora ninguém a fez.

É muito pouco o que aqui fica referido mas este pouco será desconhecido da maioria dos alcoutenejos.

Deixámos para o fim a abordagem do último monte que se despovoou na freguesia. A sua deterioração tem sido veloz e o saque levou o pouco que existia numa povoação de gente trabalhadora.

Em 1976 ainda o habitavam 11 pessoas, número muito semelhante ao que têm hoje a maioria dos montes do concelho. Penso que os últimos moradores teriam saído na década de oitenta. Isto pode-nos levar a concluir que dentro de vinte anos grande número de montes do concelho estará em igual situação.

Em 1839, Silva Lopes, no final do seu trabalho (Corografia do Algarve) apresenta um mapa com os fogos existentes, quando se refere à freguesia de Giões não indica os deste monte que já existia certamente.

O monte era constituído por três núcleos populacionais que sumariam dez ou doze fogos. Situava-se numa pequena elevação circundada pelos barrancos dos Paus e de Cacela que iam dar à ribeira do Vascão.

Como era próprio da época, chegaram a realizar-se simultaneamente dois bailes e isto porque havia no monte cerca de dezasseis moças e só com elas se podia contar pois dos outros montes só vinham os rapazes e não raparigas o que nessa época era impensável.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Velhas, pequeno "monte" da Freguesia de Giões

Pequena Nota
Para terminar o périplo pela freguesia de Giões, resta-me referir o “monte” das Velhas.
O primeiro que abordei foi o de Clarines e fi-lo na revista STILUS.
Neste espaço comecei por fazê-lo em relação a Alcaria Alta, depois Marim e por último Farelos.
Atendendo a que desapareceram há muito Cacelinha e Mingordo (moinho gordo) Minhova e Carrascal que eram referidos em meados do século XIX e que se tratavam praticamente de um ou dois fogos e que é dos nossos dias o abandono do Viçoso que em 1976 ainda tinha onze habitantes, resta-nos o “montes” das Velhas que com Marim são os menos habitados da freguesia
.

[Vista parcial. Entrada do "monte". Foto JV, 2009]

Tomando como ponto de partida a sede do concelho e percorrendo a EN nº 122-1 às Quatro Estadas tomamos a nº 124. Após oito quilómetros percorridos chegamos à aldeia do Pereiro e depois de passarmos por dois entroncamentos, um à direita e outro à esquerda vamos encontrar novamente um à direita que tem a indicação de Velhas – 1 Km.

A estrada estreita e asfaltada, cujo troço é identificado com o nº 1046, desenvolve-se quase sem curvas ainda que as rectas sejam em vários planos. À sua esquerda segue o traçado telefónico cuja colocação do primeiro telefone público teve lugar em 1988, ocorrendo também no mesmo dia a inauguração do fornecimento de água por intermédio de fontanários o que deu origem a grande festa em que participaram o Presidente da Câmara, Cavaco Afonso, o Director Regional das Telecomunicações do Sul, o Chefe da Área de Telecomunicações de Faro e outras Entidades. (1)

Esta estrada foi repavimentada em 1996. (2)

Conhecemos este monte em 1976 onde chegámos através do velho caminho. Nesta altura e fazendo fé numa estatística efectuada pelo Centro de Saúde de Alcoutim tinha cinquenta habitantes.

Contra o que é hábito por estas paragens, a pequena povoação situa-se em local plano, notando à entrada algum arvoredo de porte razoável.

Curiosa a colocação de um sinal de proibição de circular a mais de 20 km/hora!

Imperavam as habitações de pedra e barro, caiadas e listadas com barras de cores. Poiais e pátios. Nas ruelas ainda se podem ver velhos fornos de cozer pão e fornalhas (pilheiras) tudo já desactivado mas que faziam parte do quotidiano de há cinquenta anos.

Duas ou três vivendas dão nas vistas e são produto de emigração.

Sabemos que em 1933 tinha sido concedido o subsídio de 260$00 pela Câmara ao povo deste “monte” para a abertura de um poço, tendo sido encarregado do trabalho, Manuel Gomes Lopes (3)

Em 1996 foi colocado um painel de caixas de correio. (4)

Em 1758 e segundo as Memórias Paroquiais já era um dos sete “montes” da freguesia e em 1839 num mapa anexo à sua Corografia, Silva Lopes chama-lhe DAS Velhas e atribui-lhe 13 fogos, enquanto Marim tem 6 e Clarines 20.

No Censo de 1991 são-lhe atribuídos 25 habitantes e 22 fogos, existindo ainda alguma actividade pastoril.

[Outro aspecto da povoação. Foto JV, 2009]
Em recente visita que efectuei (2009), informaram-me que teria 15 residentes.

Quando existiam crianças iam à escola dos Farelos.

Quanto ao topónimo ouve-se dizer com frequência monte das Velhas e A-das-Velhas. Pensamos que não erramos se dissermos que a fundação ou denominação deve de estar em idosas (irmãs, familiares, vizinhas?) que devido a qualquer situação especial (isolamento, riqueza, actividade, etc.) funcionou como marca, identificando o local.

Isto passou-se há tantos anos que já ninguém sabe explicar, não tendo o “facto” passado de pais para filhos como é tradicional.

Existe outra povoação com o mesmo nome no concelho de Monção, bem no norte do país.
_________________________________________

NOTAS
(1) - Boletim Municipal, nº 4 de Abril de 1989
(2) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 8
(3) - Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Outubro
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 12

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Farelos, o "monte" mais importante da Freguesia de Giões



Iremos hoje “visitar” o que consideramos o monte mais importante da freguesia de Giões, tanto pela sua população como pela actividade.

Tomando como ponte de partida a vila de Alcoutim, depois de percorrermos os 6 km do troço da E.N. 122-1, tomamos a nº 124 que nos vai levar à aldeia do Pereiro. Continuando pela mesma via, poucos quilómetros percorridos vamos encontrar à direita um entroncamento que nos indica Tesouro e que seguiremos.

Depois de passarmos por um monte abandonado e de tipo alentejano, que dá pelo nome de Herdadinha, encontramos o pequeno monte do Tesouro. Eram terrenos destinados pelas suas características à cerealicultura, entretanto completamente abandonada. Procura-se agora para rentabilizar as terras, a florestação já iniciada.

Depois de uma descida pronunciada, encontramo-nos no vale provocado pelo Barranco do Malheiro que ultrapassamos por ponte entrando por este lado na freguesia de Giões, tendo deixado o do Pereiro.


[Ponte no Barranco do Malheiro que liga a Freguesia do Pereiro à de Giões. Foto JV, 2009]

Naturalmente que agora se dá o inverso e temos de subir até encontrarmos a povoação que procuramos, os Farelos.

As casas branquinhas ,onde a cal, muitas vezes substituída pela tinta, impera, chamam a atenção pela alvura, tal como o matiz florido de abundantes gerânios.

Várias vivendas modernas, impondo-se uma pelas avantajadas dimensões.

O novo tipo de construção ou de reconstrução impõe-se, sendo já reduzido o número das antigas construções de xisto à vista, praticamente todas em ruína. Quem o reconstrói fá-lo à moderna como não podia deixar de ser.

Ainda que não apareçam placas toponímicas com esse sentido, os Farelos são divididos por dois montes, o de Cima, a norte da estrada e o de Baixo, a sul.

Como é vulgar em “bairros” próximos, aparecem por vezes algumas questiúnculas facilmente ultrapassadas.

Desconhecendo a actual situação, em tempos houve duas pequenas associações, uma no monte de Cima, outra no monte de Baixo!

A EM nº 507 continua dando ligação à sede de freguesia e o acesso ao concelho de Mértola. De Farelos parte um pequeno troço (nº 1044) que liga a Clarines. Existem dois caminhos, um que liga ao Monte das Velhas que em 1998 se percorria de automóvel com bastante dificuldade e outro em melhor estado que nos leva à Ribeira do Vascão, à chamada Água Santa, nascente junto da margem alentejana daquela ribeira e que é muito frequentada no Verão.

A grande maioria dos montes do concelho constitui “becos sem saída”, o que aqui não acontece.

Abordaremos agora o topónimo.

No Dicionário que normalmente consultamos (1), só encontrámos este Farelos e dois no singular, um no concelho de Sintra e outro no de Penela.

O linguista José Pedro Machado dá-o como derivado do substantivo masculino (2), que significa entre outras coisas e que é do conhecimento comum, a parte mais grossa que se separa da farinha depois da primeira peneiração. (3)

Atendendo às características locais, a explicação dada por este linguista tem hipóteses de ser consensual.

As Memórias Paroquiais de 1758 já referem o “monte” mas o pároco que responde ao questionário, quanto ao número de habitantes, indica os da aldeia e os dos montes no seu conjunto e que é superior ao da sede.

[Pequena lagoa de Farelos. Foto JV, 2009]

Silva Lopes em 1839 (4) atribui-lhe trinta fogos que a nível de freguesia e de monte só suplantado por Alcaria Alta com 43.

No censo de 1991 já é indicado como o monte mais populoso da freguesia com 87 habitantes, sendo igualmente o primeiro a nível de edifícios pois contava 56.

Em 1840 os terrenos do rossio eram demarcados com audiência do povo, segundo consta de uma acta de sessão da Câmara Municipal daquele ano.



Uma pequena lagoa, situada próximo e perto do edifício escolar, cria achigã e barbo.

A escola do ensino primário, construída na década de sessenta e que servia também as crianças de Clarines e das Velhas, foi encerrada em 1988 por falta de alunos. (5)

Foi adaptada anos depois a núcleo museológico que dava pelo nome de “Tecer e Usar”e que se encontra há muito encerrado tal como os outros espalhados pelos concelho. Aos meus familiares e amigos levo-os a Mértola, Vila Museu de onde saem admirados e satisfeitos. Como recentemente me foi dado ver, a própria vila medieval está a transformar-se num verdadeiro museu.

Depois da recolha de lixo e da distribuição de água por fontanários, estes foram eliminados e a água levada aos domicílios sem contudo existir o saneamento básico. As ruas foram pavimentadas em 1994. (6)

O painel de caixas de correio foi colocado em 1996. (7)


[A casa mortuária. Foto JV, 2009]

Em 2002 construiu-se uma casa mortuária (8) e no ano seguinte são edificados balneários públicos. (9)

É dos poucos montes que possui estabelecimento comercial.

É visível alguma azáfama diária com a saída de “carrinhas” para trabalhos a realizar em várias partes do concelho.

A pastorícia ainda há pouco tinha alguma expressão e havia um viveiro de plantas para florestação.

José Lopes, natural deste monte onde nasceu em 1889, tornou-se, devido à anormalidade do seu crescimento, uma figura pública. Ficou conhecido pelo Gigante dos Farelos, tendo falecido aos vinte e cinco anos, por isso em 1914.

A sua altura atingiu os 245 cm, o braço media 93, a mão 35 e o pé 45 de comprimento.

Filho de gente pobre, cedo motivou a atenção de vizinhos e conhecidos devido ao desenvolvimento que o seu corpo ia tomando.

As conjecturas do povo levaram alguns a atribuir o facto à circunstância de sua mãe, muito reinadia e ainda solteira, ter dito, quando mondava, que gostaria de ter um filho gigante.

O José Lopes alojou-se quando foi à inspecção militar em casa dos pais do Prof. Trindade e Lima, na vila, (10) naturalmente incapaz para qualquer actividade própria das gentes do seu monte, começou muito novo a vender a sua imagem em feiras e mercados do país, chegando mesmo a deslocar-se a Espanha.

Conta-se que empurrou, de joelhos, os zorrinhos da Mina de S. Domingos.

Ainda ouvi contar a gente de Martim Longo que, quando ia àquela aldeia a cabeça passava a altura dos beirais dos telhados.

As crianças choravam ao vê-lo e até os cães ladravam com ímpeto quando passava.

Foi sempre uma pessoa triste e havia mesmo quem dissesse que nunca tinha sorrido.
(11)
Apesar de ter falecido há noventa e cinco anos, por todo o concelho de Alcoutim há quem fale ainda no Gigante dos Farelos.

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(1)– Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, pág.319
(2) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte / Confluência, 1993, pág.620.
(3) – Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1984.
(4) - Corografia do Reino do Algarve, 1841.
(5) - Boletim Municipal, nº 4 - Abril/89.
(6) - Alcoutim - Revista da C.M.A.- nº 1 - Maio/Junho - 1995.
(7) – Alcoutim, Revista da C.M.A. – nº 4 de Dez/96, pág. 12
(8) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9, e de Dez/2002, pág.12
(9) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dez/2003, pág. 10
(10) – “Pequenos Apontamentos”, Trindade e Lima, in jornal O Povo Algarvio - Tavira, de 18 de Maio de 1974.
(11) - “O Gigante dos Farelos”, Maria José M. Silva, - in Diário de Notícias de Set/Out. (?) de 1986.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marim, pequeno monte da freguesia de Giões


Para alcançarmos esta pequena povoação, saindo da vila de Alcoutim, tomamos a estrada nº 122-1 e às Quatro Estradas seguimos pelo nº 124. Passamos pela aldeia de Pereiro e sete quilómetros percorridos encontramos à nossa esquerda um entroncamento sinalizado, que por estrada construída em 1987 (1) (nº 1046) estreita e asfaltada, ladeada de terrenos de arvoredo exíguo, nos levará à pequena povoação.

À esquerda, um aramado que se destina ao encerramento de gado. O traçado telefónico vai acompanhando o caminho. Curva à esquerda seguindo-se a contra curva. Uma charca. Algumas curvas e uma perdiz que atravessa a estrada faz lembrar a zona cinegética que já foi. Pouco depois divisa-se o “monte” e aparece a placa toponímica.

À direita o poço público e o lavadouro. Painel de caixas do correio. Ruas cimentadas que permitem dar a volta à povoação de automóvel. Serviço de recolha de lixo e distribuição de água por fontanários, hoje penso que já é feita ao domicílio.

O telefone público foi instalado em 1989. (1)


Percorrendo a pequena povoação, que se situa em sítio alto, com muito poucos moradores, mesmo assim ainda podemos ver com agrado pelo menos duas casas ao gosto antigo devidamente caiadas e nas molduras de portas e janelas utilizam o azul vivo, conforme costume dos vizinhos alentejanos. Os típicos poiais junto das fachadas principais, lá estão cobertos por largas lajes e caiados como manda a tradição. Tinham várias utilizações, incluindo de banco para se apanhar o fresco nas cálidas noites de Verão.


Interessante também um pocilgo desactivado, mas muito típico da região, onde a pedra faz quase tudo e o portelo tem muita singularidade.

Igualmente em desuso ainda se podem ver grandes construções de pedra e barro destinadas a palheiros e arramadas, já que Marim foi monte de lavradores

Ao sair do “monte”, do lado direito, existe um caminho que nos leva à pequena lagoa de Marim e onde nasce o Alcoutenejo (3) que juntando-se próximo da Corte Tabelião ao dos Ladrões dão lugar à Ribeira de Cadavais ou de S. Marcos.

Em princípios do século XIX, vivia neste monte João da Palma Vilão, natural de Giões, mas que casou com Maria Mestra, daqui natural. Homem de representação concelhia foi licenciador para a eleição da Câmara Municipal em 1834.


Em 1855 o maior proprietário da freguesia de Giões e segundo no concelho era Manuel da Palma, que poderá ser filho do anteriormente referido, pagando de décima 17.294 réis.

Ocupava a terceira posição, a nível de freguesia, João Mestre Teixeira, também desta localidade.

De 1939 a 1941 presidiu à Câmara Municipal, Francisco da Palma Vilão também daqui natural. (4)

Como se vê pelo que antes referimos, o monte era de gente abastada e com importância política como acontecia então a todos os endinheirados.

O topónimo, que de uma maneira geral aparece associado (o que aqui não acontece), é mais frequente no sul do país e parece de origem árabe, de marin, nome de pessoa, tal como Marinho que terá a mesma origem. Saber quem foram os Marin que deram origem aos topónimos é que não será fácil. (4)

Em 1976 sabemos que tinha 30 habitantes, tendo dezoito em 1991.Presentemente e segundo informação recolhida localmente, andará por metade.

NOTAS
(1) – Boletim Municipal nº 1, de Outubro de 1987, pág. 5
(2) – Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2.
(3) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), Ed. da J.F.do Pereiro, 2007, pág.36.
(4) – Idem, ibidem, pág.223
(5) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, II Vol. – 1993, p. 949.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Alcaria Alta, foi o mais importante"monte"da freguesia de Giões

A povoação de Alcaria Alta, e que por não ser sede de freguesia é designada por “monte”, situa-se no concelho de Alcoutim, de onde dista cerca de 25 km e na freguesia de Giões ficando a uma distância de aproximadamente 4 km a Sul da sede de freguesia.
A partir de Alcoutim alcançamo-la através das estradas nº 122-1 e nº 124 no sentido Alcoutim-Barranco do Velho e percorridos cerca de 23 km encontramos à esquerda uma placa que nos indica, Alcaria Alta, 2 km.

Em 1987 (1) aparece-nos referido que se acaba de aprovar, entre outros, o concurso de um caminho rural da estrada nacional 124 a Alcaria Alta.

Desde há muito que havia uma vereda por onde se passava com dificuldade e que chegámos a utilizar.

O caminho é asfaltado e os estevais dominam. Notava-se o traçado telefónico pois um posto público foi lá instalado em 1989. (2) O piso, então de terra batida, encontrava-se (1977) em muito mau estado. Algumas amendoeiras e um ou outro eucalipto.

Depois de uma curva pronunciada, aparece-nos uma placa toponímica indicando a povoação que se vê no cimo de um cerro. À esquerda, deixámos a escola primária há muito desactivada por falta de alunos, encontrando-se muito mal tratada com vidros partidos e outros estragos (1987).

Presentemente (2009), tal como a foto mostra, encontra-se pelo menos reparada no exterior, talvez resultante da remodelação efectuada em 2002. (3)

A criação de um posto de ensino escolar é solicitada em 1932 (4), pedido reforçado dois anos depois. (5)

Entrámos num monte de dimensão razoável, podendo classificar-se, a nível de número de construções, um dos grandes montes do concelho. Destaca-se do conjunto uma edificação ao gosto regional, dos anos vinte e propriedade de lavrador local.

Será altura de referir o topónimo muito vulgar em Espanha e em Portugal, principalmente a sul no Tejo, Alentejo e Algarve.

Alcaria deriva do árabe al-qariâ, aldeia, vila, pequena povoação (6). Temos conhecimento de doze povoações assim designadas e podemos-lhe juntar mais quatro no plural, contudo, à grande maioria juntou-se-lhe um qualificativo para a distinguir das outras, nomeadamente as mais próximas. A esta, devido à sua posição topográfica, juntaram-lhe Alta. Encontramos duas no país, a outra situa-se no concelho de Almodôvar, freguesia de Gomes Aires.

Os qualificativos têm origens diversas como Branda, Ruiva, Cova, Cume, Fria, Fernão Vaz, etc. (7)

Na freguesia de Cachopo, existe Alcarias Baixas.

Os arruamentos vieram a ser pavimentados conforme adjudicação que teve lugar em reunião da Câmara de 22 de Julho de 1992. (8) Mais tarde (1999) veio a verificar-se uma nova intervenção neste sentido. (9)

A par de recentes edificações e que por vezes nada têm a ver com a região, ainda se vêem velhas construções de xisto, resquícios de velhas e desactivadas pilheiras, tal como fornos de cozer pão.

Até se pode observar uma interessante chaminé ao gosto alentejano, ou não seja a freguesia de Giões aquela que assimilou mais características daquela região.

A possibilidade da recolha de água potável foi sempre uma preocupação destas povoações que tinham muitas dificuldades para receber um pequeno subsídio municipal ou estatal.

Assim, em 1933, é concedido pelo Estado, um subsídio para a abertura de um poço, (10) mas não se conseguem arranjar homens a menos de 130$00 por metro de profundidade, apesar da Câmara fornecer dinamite e fulminantes. Devido à muita necessidade do mesmo foi autorizado pagar mais 10$00 por metro, sendo encarregado de fiscalizar os trabalhos a efectuar o proprietário local, Manuel Tomás Lourenço. A abertura do poço veio a custar a quantia de 1.540$00

Mais tarde, na década de 60 os poços foram cobertos e apetrechados de uma bomba elevatória manual o que foi um melhoramento considerável.

Era um trabalho diário e árduo ir à água ao poço que ficava sempre em local baixo, ao passo que as habitações se situavam normalmente em posições altas e de uma maneira geral a distâncias consideráveis.

Depois do fornecimento de água por fontanários, em 2002 já tinha sido feita a ligação aos domicílios. (11)

Nas redondezas, algumas árvores vicejam, principalmente alfarrobeiras e amendoeiras.

Em 1851 (12) foi concedido terreno no rossio do monte para se construirem umas casas para habitação.

No século XIX, Silva Lopes identifica uma “estrada” que saindo de Tavira, pela ponte de Almargem, vinha atravessando a serra passando já nos domínios de Alcoutim por Balurquinhos, Zambujal, Alcaria Queimada, ribeira da Foupana, Alcaria Alta, Cacelinha e Giões. (13)

Da povoação avistam-se Cachopo, Martim Longo e alguns “montes” do concelho de Mértola.

A pastorícia e a cerealicultura foram as actividades principais e em 1997 ainda existia um rebanho de 1100 ovinos.

O Pároco da freguesia que respondeu ao inquérito formulado pelas Memórias Paroquiais (1758) e ao contrário do que todos os outros do concelho fizeram, não indica por montes a sua população, mas sim no seu conjunto. A sede de freguesia tinha 377 pessoas enquanto os montes possuíam 412.

Em 1839 Silva Lopes atribui-lhe 43 fogos, seguindo-se Farelos com 30 e Clarines com 20.

Nas proximidades de Alcaria Alta foram identificados vários locais arqueológicos, como no sítio, Vila do Lavajo e no Curralão, situado a cerca de 1km, numa zona rodeada pelos barrancos da Laginha e do Bem Parece.

A actividade mineira está representada pela mina da Couraça, a céu aberto e com vestígios de exploração antiga. (14)

Em 1976 tinha 81 habitantes e em 1991 tinha descido para 42, sendo ultrapassado por Farelos com 87 e Clarines com 65.

Presentemente (2009), são pouco mais que uma dezena! Não está longe a desertificação.

Terra pobre, a sua rudeza não deixa de ser bela. É face de um outro Algarve que não conhece o turismo e que ainda vive à espera do dia dos prodígios.
Porém, este isolamento, este silêncio que nos envolve, esta gente que nos escancara a porta com generosidade para nos oferecer aquilo que produz, como o mel, o presunto, as azeitonas, o pão caseiro ou o chá para a saúde, tudo isto são as raízes esquecidas da nossa essencialidade.
(...)
Ouve-se o assobio do camponês e o cântico dos pássaros. O gado descansa em currais de pedra solta.

São estas algumas das palavras que Luís Monteiro Pereira escreveu sobre “Um fim-de-semana em Alcaria Alta”. (15)

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Notas
(1)-“Abertura de mais quatro caminhos rurais”, in Boletim Municipal nº 1 de Outubro de 1987, pág. 5.
(2)Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2
(3)Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 10
(4)-Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Janeiro.
(5)- Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Janeiro.
(6)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizontes/Confluência, 2ª Edição, 1993.
(7)Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A. C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.
(8) Boletim Municipal nº 11, de Setembro de 1992, pág. 4.
(9)Alcoutim, Revista Municipal nº 6 de Janeiro de 1999, pág. 10.
(10)Acta da Sessão da C.M. Alcoutim de 27 de Julho.
(11)Alcoutim, Revista Municipal nº 9, de Dezembro de 2002, pág. 10
(12)Acta da Sessão da C.M.Alcoutim de 12 de Janeiro.
(13)Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco, Editora, Edição 1988 (fac-similada), pág.496.
(14)– “O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”Helena Catarino, in al-‘ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.
(15)In Jornal do Algarve de 25 de Abril de 1991.