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terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Termo de Alcoutim em 1791




Escreve


Gonçalo Roiz Vilão



Ao pesquisar por livros e jornais do final do século XVII, mais concretamente no ano de 1795, deparei-me com um artigo do Jornal de Coimbra, escrito por José Feliciano Castilho, que descrevia o estudo da viagem ao Algarve feita em 1791 por Luís António de Oliveira Mendes, membro da Academia de Ciências de Lisboa, que percorreu o Algarve e visitou o concelho de Alcoutim. Descreve o estado das estradas, a ausência de pontes e a falta de máquinas no despontar da industrialização, as diferentes culturas da vinha, da oliveira. Faz-nos compreender as dificuldades da labuta árdua que os homens e mulheres do termo de Alcoutim viviam nestes tempos para levarem o pão á boca das suas famílias.

Surpreendeu-me por trazer aos dias de hoje alguns aspectos desta zona que embora pudéssemos imaginar, não tinha a ideia de ficarem registados. Uma época acontece e perde-se nos anais do tempo e da memória se não for registada e com este registo fica mais uma partilha sobre o nosso concelho:

[Alcoutim visto por Duarte de Armas. Livro das Fortalezas, séc.XVI]

“ No anno de 1791 em que viajei o Algarve tomei conhecimento, que os Espanhoes colhiaõ a Salicornia, e algumas especies de Salfola, que nascem espontaneamente nas vizinhanças de Faro, e depois de fazerem a combusttaó destas plantas levavaõ as cinzas para Espanha; porém como a sahida delas exigiaô alguns direitos na Alfandega da dita Cidade, ha mais de dez annos, que deixando de fazer semelhante colheita nesses sitios a praticaõ nos sapaes da Moita. O termo de Alcoutim abunda muito em Loendro (Nerium Oleander ), dele tiraô os Espanhoes as cinzas que levaõ para Espanha , e segundo as informações que tive no anno de 1790 levariaõ nesse anno 120 alqueires das ditas cinzas.”

As estradas em 1791:

“São de huma absoluta necessidade as Estradas no Algarve; porque à excepção da de Castro Marim até Tavira não observei em todo aqueile Reino no anno de 1790 huma só, que excedesse muito de tres palmos de largura.
A falta d' Estradas causa no Reino do Algarve males incalculáveis. (Como podem haver carros faltando os caminhos, por onde elles se possáo mover? Não havendo Estradas e carros difficulta-se muito o fabrico das casas, de que percisáo os lavradores para viver, e outros usos ruraes. Que despeza e trabalho náo terião para acarretar em bestas a pedra necessária para fazer hum edifício?

No anno de 1790 me informarão no Térmo dÁlcoutim que, quando querião levar a mó de algum moinho para o lugar do seu destino, era ella conduzida pela força de quarenta ou sessenta homens por subidas e descidas violentas consumindo muito tempo e despeza, e ordinariamente acontecendo graves perigos. A falta de Estradas difficulta, e até impossibilita o carreto dos estrumes, de que percisáo as terras, a importação e exportação das pròducções da Natureza, e Industria.”

As pontes:

“Não causa menos detrimento na Agricultura, e Commercto do Algarve a falta de Pontes, que n'elle se observa. Em todo este Reino desde o Cabo de S. Vicente até Villa-Real de Santo Antonio apenas se encontrão duas Pontes, huma em Loulé, e outra em Tavira sem embargo de elle ser cruzado com difFcrentes ribeiras e rios, que tem origem nas Serranias de Caldeirão e Monchique, que engrossão muito com as chuvas do Inverno. No anno 1790 me informarão no Têrmo d´Alcoutim, que por não haver Ponte na ribeira da Pouparia muitos Lavradores no tempo do Inverno percisavão dar huma volta de duas Iegoas e meia., para irem lavrar as suas terras.
Por falta de Pontes, primeiro morrem todos os annos muitos passageiros, e gado nas ribeiras de Vascão, Foupana, e do Deleite. Segunde, os Lavradores não podem nos tempos das enchentes lavrar as suas terras. Terceiro, difficulta-se o carreto dos fructos dentro do Reino, e a exportação dos supérfluos para outras Províncias. Quarto, sem Pontes e caminhos em bom estado mal se podem cultivar os muitos terrenos incultos, que se observa em todo o Reino do Algarve.”

Os carros:

“Os carros de cõnducção tão percisos para os usos Economicos, e Militares são mui poucos no Algarve. No annó de 1790 não se contava hum só em todo o Termo de Alcoutim que terá mais de trinta legoas quadradas, e então somente havião dons no de Castro Marim. No resto do Reino creio que n'esse tempo serrão muito raros. Eu desde o Cabo de S. Vicente até Villa Real de S. Antonio não encontrei hum só, em que podesse notar a sua descripçáo. Por falta de carros acarretavam os Lavradores para as suas eiras o trigo e centeio, depois de ceifado, em jumentos e outras bestas muares.”

As Máquinas:

“As Máquinas percisas para espremer o azeite e vinho erão pouco conhecidas no Algarve, quando eu lá estive, segundo as informações, que então me derão. Em Alcoutim mettião as uvas em saccos, que depois pisaváo com os pés para d*ellas tirar o mosto, e por falta de hum aparelho competente perdião huma boa parte d'elle, que se podia aproveitar espremendo o bagaço; a mesma rotina seguião a respeito das azeitonas, e já depois de estar meia adiantada a podridão d'ellas ; de maneira que os habitantes d'aquella Villa , e seu grande Termo, não sabião no anno de 179O o que era hum lagar de vinho e azeite, e os do resto d'este Reino pouco mais adiantados estavão n'aquelle tempo.”

Boas práticas rurais:

“Estas • boas práticas ruraes erão desconhecidas no Algarve no anno de 1790; e também em alguns lugares d'aquelle Reino os Algarvios estão tão aferrados a certo género de cultura, que se descuid.ío de procurar aquelles , que são mais acommodados á natureza do terreno , em que vivem , e circunstancias locaes» Sirva para exemplo 0 grande Termo da Villa de Alcoutim: todo o vinho, que aqui houve no anno 1790, apenas chegou a vinte e nove pipas, quando sendo todo elle hum Paiz montanhoso he muito acommodado para vinhatarias e olivaes ; devião também cuidar n.'estes gejieros de cultura, que lhes dariáo muito proveito ; porque a cultura dos grãos pelo modo , com que afazem, não lhes rende mais do que o quádruplo ou quintuplo da sua semente em annos abundantes ; e nos estéreis, como lhes falta o pão, são obrigadas as Famílias a desamparar seus lares, e procurar outra habitação,, como aconteceo no,anno de 1777, e outros mais antingos, de que ainda ha memoria; por isso he pequena a População d'aquelle vasto Termo, pois no anno de 1790 «era somente de 6:360 almas. “

O mel:

“Nos corgos , entre as serras , bastantes colmeias ha em cortiços de sovereiros ou azinheiras, que produzem excellente mel pela abundância de plantas aromáticas: exporta-se algum, assim como a cera; fabti* cando-se outra em varias terra*. Não ha porém maior abundância senão em as freguezias da serra de Tavira e Alcoutim. O de superior qualidade cresta-se há beíra-mar e barrocal.


Cultura das Oliveiras:

“A cultura das oliveiras pôde adiantar-se muito no Algarve e em Alcoutim todas as terras altas e baixas d"aquelle Reino são acommodadas para ellas : ainda mesmo na cordilheira de montes, que o sepárão da Província do Alem-tejo existem vargens' incultas aonde se podem criar muitos olivedos.
Contão-se differentes variedades d'oliveiras no Algarve, assim como na Província do Além-Téjo, e Traz-os-Montes; e sendo humas mais fructiferas do que outras, a enxertia he o único meio de as melhorar, e então terá o Proprietário com a mesma despeza. huma colhèita mais abundante. He para sentir que em todas as Províncias de Portugal seja quasi inteiramente despresado este modo de melhorar os olivaes.
Podem os habitantes do Algarve ainda com menos trabalho multiplicar os seus olivaes n'aquelle Reino: basta só enxertarem o quasi infinito numero de zambujeiros, que lá existem sem que d'elles fação caso algum. Eu observei muitos em Janeiro de 1791 nas margens occidentaes do Guadiana, que estando então por amanhar são bem próprias para vinhas e olivaes.
No anno 1790 me informarão, n'aquelle Reino, que costumavão arrancar as Oliveiras, que por doentes não daváo fructo. He abuso culpável! Quanto melhor he procurar remédios, que possão curar a doença, do que privarem-se d'aquellas arvores, que tantos annos custão a fazer.”

Cultura das Alfarrobeiras:

“As Alfarrobeiras são arvores, que somente tenho observado em grande quantidade no Algarve, conservão sempre a sua folha, como as oliveiras e laranjeiras , florecem no mez de Dezembro, gostão de hum clima o mais benigno, por isso eu não as vi em Alcoutim, e outras terras do alto Algarve , que ficão em huma maior altura a respeito do nivel do mar ; ainda mesmo no baixo Algarve a cultura d'ellas se pôde multiplicar nos-tefrenos incultos , que lá vi, e melhorar pela enxertia ; porque entre as variedades das Alfarrobeiras humas são mais fructiferas do que outras.” (*)

(*) Retirado de: Jornal de Coimbra 1790 Volume I, por José Feliciano de Castilho

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Álvaro de Alcoutim - Álvaro Gomes de Gouveia - Sargento-mor de Alcoutim






Escreve


Gonçalo Roiz Vilão





Perdidos na bruma da história ficam nomes e personalidades que ao lermos e pesquisarmos num livro que tantos já esqueceram, ressuscitam do baú do tempo e tomam novas formas. Ao rebuscá-los no tempo em que foram verdadeiramente singulares , fazem-nos hoje, perceber a pequenez das nossas vidas, quando nos julgamos heróis de uma época que consideramos ser a verdadeira, esquecendo-nos que este é o nosso tempo e eles foram de um outro igualmente importante e que de alguma forma construíram o nosso.

Álvaro de Alcoutim foi herói, e foi-o na sua época. Ressuscito-o hoje através da palavra, por ser mais uma das muitas personagens que viveu e desempenhou funções no nosso concelho de Alcoutim. Não foi general, tão pouco príncipe, mas foi um bravo sargento na luta contra os castelhanos e na defesa da portugalidade. Álvaro Gomes de Gouveia descrito e conhecido também como Álvaro de Alcoutim poderá ter tido descendência até aos dias de hoje nos diferentes Gomes que existem pelo concelho, já que existem registos de filhos de um Álvaro Gomes nesta época e bem podem ser deste que teve a mercê de fidalgo cavaleiro em 1687.
Vejamos como é descrito em 1841 por Silva Lopes:


“ Natural de Portimão, filho de Manoel Ribeiro de Gouveia, fez relevantes serviços desde soldado até ao posto de sargento-mór e tenente do mestre de campo general no reino do Algarve. Embarcando no anno de 1654 em huma setia, que foi no alcance de hum bergantim de Mouros, e encontrando-se ao sahir da barra de Portimão com mais dous, que vinhão em seguimento de hum navio inglez, se comportou com valentia, causando aos inimigos bastante damno, com que se retirou. Acompanhou o terço do Algarve que passou ao AlêmTejo e se achou na campanha de OJivença em 16ó7, no sitio de Badajoz, e varias acções em que se distinguiu com muito valor , principalmente no rompimento das linhas de Elvas, sendo dos primeiros que avançou com toda a resolução. Reeolhendose com o terço ao Algarve esteve de guarnição 5 mezes em, Castro Marim, donde voltou ao Alêm-Tejo em 1662, ficando encarregado do governo de Veiros com a sua companhia; e depois se achou em vários encontros, uos quaes se portou com bravura, assim como no sitio que soffreo em Évora. Teve parte na batalha do Ameixial, na recuperação de Évora, tomada de Valença de Alcântara, e batalha de Montes Claros, nas quaes obrou acções de valor. Tornou ao Algarve e ocoupou o posto de sargento mor do castello de Alcoutim em que fez relevantes serviços sendo encarregado de varias obras de defesa, ainda com barcos que fez armar para guarda costa, hindo commandando a galeota que foi para a defesa delia, por cujos serviços, e era attenção aos de seu pai no cargo de ouvidor de Portimão nos annos de 1643 até 1665 teve a mercê do foro de fidalgo cavalleiro por alvará de 7 de Julho de 1687 (L. 2. das Mercês de D. Pedro II. f. 228).” (1)

(1) - Silva Lopes, João Baptista (1841); Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve; Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa, Lisboa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Relatório de 1867 sobre Alcoutim

Pequena nota
Nós não conhecíamos o curioso e interessante relatório que o nosso Amigo e colaborador Roiz Vilão nos traz hoje ao conhecimento ainda que soubessemos da visita do Governador Civil visto ela ser referida em actas da Câmara.
Vale como documento histórico e dá-nos uma perspectiva do ambiente concelhio na época e que para nós não constitui surpresa devido ao conhecimento que fomos adquirindo ao longo dos tempos com pesquisas efectuadas.
Na nossa modesta opinião, podemos e devemos fazer uma comparação com os dias de hoje e tirar conclusões.
Obrigado Gonçalo Vilão por nos ter dado a conhecer tal documento.


JV





Escreve


Gonçalo Roiz Vilão




[Vista parcial da Vila de Alcoutim em 1993. Foto de JV]

As pesquisas que tantas vezes fazemos em livros antigos que ficam perdidos no tempo e nas estantes poeirentas que a aldeia global tende a ostracizar, levam-nos a reflectir sobre o que esquecemos ou podemos aprender com o passado e ao rebuscá-los no tempo trazem-nos ao pesquisar, a concreta certeza que as problemáticas vivenciais que hoje atravessam as nossas vidas essas… já foram velhas. Contudo, passados que foram mais de 150 anos, o nosso concelho felizmente evoluiu, senão vejamos um relatório de Ayres Guedes Coutinho Garrido – Governador Civil do Distrito Administrativo de Faro, datado de 1867, sobre Alcoutim (1):

Este relatório acerca do Concelho de Alcoutim enquadrava-se na portaria publicada em 1866 que obrigava os Governadores Civis a visitar todos os concelhos do reino, vejamos o que relata o de então:

“N'este concelho, cuja cabeça tem apenas 90 fogos, achando-os cm grande decadencia, como o mostram as muitas casas deshabitadas e até desmoronadas que n'ella se encontram, a administração municipal é tal qual pôde esperar-se de uma camara, cujos vereadores são quasi todos analphabetos, sendo quem ali dirige tudo o escrivão da camara, que o é tambem da administração do concelho e da fazenda, e dando-se a circumstancia de ser o presidente alem de sub-delegado do procurador regio, escripturario de fazenda, e n'esta qualidade subordinado ao escrivão da mesma camara
D'aqui pôde inferir-se qual seja a falta de pessoal habilitado para os cargos publicos n'este concelho, cuja conservação só poderá justifiear-se pelo isolamento em que se acha n'um angulo do districto a oito leguas de distancia das povoações mais proximas, que são Castro Marim e Villa Real de Santo Antonio.
A casa da camara acha-se em deploravel estado e especialmente os telhados, e assim as casas da administração, do tribunal, prisões publicas, as calçadas das ruas, o caes junto do Guadiana, cmfim tudo o que se acha a cargo da camara d'este concelho.
A sua despeza obrigatoria é de 2:6910685 réis, alem da divida passiva, que é de réis 1:1925110, achando-se por cobrar, pelo desleixo da mesma camara e da administração dividas activas, na importancia de réis 1:620,975 réis de repartição (que é de 35 por cento) de todos os annos decorridos de 1816 em diante.
Não ha no concelho uma botica, nem um unico facultativo, e comquanto a camara creasse ultimamente um partido de 4000000 réis para medico e outro de 70;5000 réis para um boticario, nem se acham providos, nem ainda abriram concurso, porque não têem no orçamento meios para fazer face a estas despezas, nem se acham mui dispostos a vota-los, apesar das minhas ordens, e das recommendações que lhes fiz no acto da visita, porque não estão convencidos da necessidade de os haver no concelho, vivendo mui satisfeitos com os curandeiros com que se tratam.
O cemiterio da vila é tolerável, assim como os das freguezias do Pereiro e Vaqueiros: o de Giões está incompleto e o de Martim Longo mal situado por estar dentro da povoação. Deixei sobre estes e outros assumptos os provimentos necessarios, e tomei nota para instar e promover por todos os meios ao meu alcance as obras, melhoramentos e adopção das providencias que este concelho reclama; não confiando comtudo no feliz resultado de minhas diligencias, por isso que da parte dos habitantes e das respectivas corporações administrativas e auctoridades locaes se não encontra ali a menor cooperação ou auxilio.
Convencidos de que pela situação do concelho não pode ellc ser suprimido, entendem que a autoridade superior so conforma por necessidade com deixa-los viver a seu modo, e contam ir assim disfructando as vantagens inherentes ao serviço dos cargos que occupam, sendo para os que assim os servem que só, e por esse motivo, aproveita a existencia do concelho.
A escripturação da contabilidade municipal não se faz nos termos das iustrucções de 17 de novembro de 1849, havendo somente o livro da receita e despeza diaria, o qual todavia achei regular.
Estão approvadas as contas das juntas de parochia, umas até 1861 e outras até 1865; as da camara porém só estão julgadas até 1850-1851, sendo em virtude de ordens minhas que já se têem recebido as contas de alguns dos annos seguintes, faltando todavia ainda a maior parte, que sem cessar reclamo.”

(1)Collecção dos Rellatórios – Visitas feitas aos distritos pelos respectivos Governadores Civis em virtude da Portaria de 1866; Lisboa, Imprensa Nacional, 1868.

sábado, 20 de agosto de 2011

A lenda da Herdade de Cachopo e a Herdade da Alcaria Alta da Serra





Escreve


Gonçalo Roiz Vilão


[Alcaria Alta da Serra]

“Ora conta-se sobre a herdade de Cachopo (actualmente é uma aldeia, uma freguesia do concelho de Tavira), que existia lá uma grande porção de terra que não tinha (aparentemente não tinha) dono. E que durante a guerra liberal entre D. Miguel e D. Pedro, essa terra foi dividida pela população, e consta que foi D. Miguel após ter pernoitado nessa aldeia que cavalgou no seu cavalo e onde cavalgou, marcou os terrenos que eram para ser divididos pelas pessoas, ou seja, constitui assim a chamada herdade de Cachopo, que ainda hoje existe e que tem associada esta lenda. Essa herdade de Cachopo hoje em dia está toda dividida, foi ao longo de cento e vinte, cento e trinta anos dividida após esta data, após a revolução liberal mais ou menos por volta de 1834 e foi ao longo depois de cento e vinte, cento e trinta anos dividida pelas pessoas, conforme o que havia sido estabelecido pelo rei.”

Esta lenda encontra-se registada n AA. VV., Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas), Faro, recolhida no ano de 2006 sendo a sua colectora Ana Raquel Silva junto do informante Marco António Barão , de Estoi no Concelho de Faro, é contada de forma similar também na Zona de Cachopo por diversos habitantes. Assim proponho uma rápida viagem aos factos históricos que poderão explicar a sua origem:
As Ordenanças foram regulamentadas no ano de 1570 e persistiram até meados do século XIX, mais concretamente até ao ano de 1835, em que foram extintas. A freguesia de Cachopo até esta época era parte integrante do concelho de Alcoutim sendo uma das freguesias do mesmo. A capitania -mor do concelho tinha a sua sede na Vila e, durante estes séculos, partilharam o poder diversas famílias por todo o termo de Alcoutim na qualidade de capitães, alferes e sargentos de ordenanças: os Vilão, Os Henriques, os Martins Mangas, Os Aragão, os Brito Magro, os Rodrigues, Rodrigues Cavaco, os Teixeira e os Rodrigues Teixeira, os Mestre Guerreiro, os Gomes Delgado, os Afonso Mestre, os Costa Afonso, os Fernandes…



As ligações e os casamentos entre estas famílias eram a forma de consolidar o poder, o prestígio, o dinheiro e sobretudo as terras.

Assim no início do século XVIII, o capitão Baltazar Sueyro Vilão, casado com Catarina Mestra e residentes nos Vicentes do Pereiro, iniciaram com o casamento de sua filha, Catarina Mestra Vilão, com o capitão João Rodrigues Cavaco da Alcaria Alta da Serra, uma linha de uniões entre os Palma Vilão e os Rodrigues que perdurou até aos anos sessenta do século XX. No período quente das guerras entre liberais e absolutistas, Alcaria Alta da Serra veio a ser ocupada por grupos de guerrilhas, tomando a família Rodrigues como refém. Hoje, neste local, pode-se ainda visitar o que os actuais donos chamam “do Fortim dos Guerrilhas”. Catarina Bárbara Rodrigues, minha quarta avó, teria cerca de vinte anos quando viveu estes acontecimentos. Veio a casar com Manuel da Palma Vilão, da freguesia de Giões, persistindo até hoje muitas histórias orais destes acontecimentos na família.



Voltemos à lenda de Cachopo e ao seu cruzamento com a realidade: Os Rodrigues Cavaco, que no século XIX deixaram de utilizar o apelido Cavaco, possuíam uma das maiores herdades do Concelho de Alcoutim com cerca de três mil hectares, reduzindo-se hoje a mil hectares devido a continuas partilhas pelos herdeiros. A propriedade estendia-se para oeste, de Cachopo à Feiteira, para este, até às Casas Baixas e Vale D`Odre e para Sul confinava com a Ribeira de Odeleite. A sede da mesma era o monte da Alcaria Alta onde só residiu a família Rodrigues até à morte de D. Rita Rodrigues, que faleceu sem filhos. No início do século passado, o seu marido Rafael voltou a casar e passou a propriedade para seus descendentes.

Comprova-se com a existência de uma carta de emprazamento sobre a Herdade da Alcaria Alta passada a Baltazar Rodrigues Cavaco pela Rainha D. Maria , datada de 1780, referindo-se a mesma carta a uma outra datada de 1700 a favor de do Capitão João Rodrigues Cavaco, seu avô , também do monte da Alcaria Alta da Freguesia de Cachopo.

A existência da Herdade da Alcaria Alta, como pertencente à casa da Infantado, conforme se prova no documento da qual se anexa cópia do original, bem como as diferentes histórias/lendas sobre os guerrilhas que se contam sobre este local e a referida família,, tal como a justificação da posse de tão grande quantidade de terras da extinta Casa do Infantado, justificam e corroboram a lenda acima descrita.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Os expostos na freguesia de Giões

Pequena nota

Temos hoje o grato prazer de apresentar um novo colaborador do ALCOUTIM LIVRE que conseguimos cativar e que irá colaborar dentro das suas disponibilidades de tempo, que é bem escasso, visto encontrar-se no exercício de uma actividade extremamente exigente e que muito o ocupa.
Conhecemos este alcoutenejo quando tinha cerca de oito anos, mas de tal maneira que nunca nos esquecemos um do outro, o que quer dizer alguma coisa.
Ainda que a sua formação académica pouco ou nada tenha a ver com a área que aborda, não lhe foi difícil encontrar nas suas pesquisas na Internet o ALCOUTIM LIVRE, que passou a merecer as suas visitas e seguimento atento sempre que lhe é possível.
A sua colaboração, mesmo que venha a ser espaçada pelos motivos já invocados, irá constituir mais uma atracção e valorização do ALCOUTIM LIVRE.
O nosso agradecimento por ter aceite o convite.
Um abraço do

JV






Escreve


Gonçalo Roiz Vilão



O abandono de crianças recém-nascidas que hoje tanto nos choca nos meios de comunicação social, sempre foi uma das realidades cruéis da condição humana.

Acompanhou a história da humanidade e sempre por razões diferentes, foram sendo abandonadas. A estas que surgiam deixadas quase sempre no breu da noite dava-se nos séculos passados o nome de expostos. Expostos socialmente, abandonados à sorte de melhor fortuna. Nas localidades onde não havia roda de expostos, os locais privilegiados do abandono eram a porta da Igreja, a porta do Regedor ou a casa de um outro lavrador mais abastado. A aldeia de Giões não fugiu a esta realidade. Nomes de crianças como Policarpo, Petronilha, Bemvinda, Sancho foram sendo dados a expostos. Era o regedor da aldeia normalmente o Padrinho e dava-se à criança encontrada, nome diferente do comum das crianças da aldeia. Esta atribuição do nome diferente tinha como objectivo ser distinguido de forma mais fácil por toda a população em relação a todos os outros a quem a sorte não os desditou de serem abandonados.

Nas diferentes pesquisas feitas em registos paroquiais a mais interessante descrição sobre uma criança exposta foi certamente a de Pedro Exposto da Paróquia de Nossa Senhora da Assunção de Giões num registo de baptismo do século XIX que passo a citar:

Aos vinte e oito dias do mês de Junho do ano de mil oitocentos e (?), nesta Igreja Paroquial de Giões, concelho de Alcoutim, diocese do Algarve, baptizei solenemente sob condicionante um indivíduo de sexo masculino por nome Pedro Exposto, foi encontrado pela uma hora da madrugada do dia 28 do mesmo mês e ano à porta de António Rodrigues, pelo mesmo dentro de uma alcofa d`empreita com três camisas d´algodão duas mantilhas de pêllo branco debruadas de chita encarnada, três cueiros de pano cru, dois lenços e um bilhetinho que continha o seguinte “ Senhor Regedor terá a bondade de se interpor por este que foi feito christão em casa e o seu nome de o pôr Pedro. Entenda como já digo, que à vista falharei como o meu amigo. Adeus athé à vista “, mais nenhum sinal trazia dentro do envelope, e no corpo, sinal nenhum tinha. Declaro que António Rodrigues, à porta de quem foi encontrado, hé morador nesta aldeia e aqui paroquiano e o mesmo foi padrinho o qual sei ser o próprio. E para constar por impossibilidade minha mandei lavrar em duplicado este assento que depois de ser lido e conferido perante mim, o padrinho comigo assinou.