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sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Mágoas. ofensas e dores"


Pequena nota
Recebemos do nosso colega, amigo e colaborador uma colectânea de alguns dos seus melhores poemas, editada recentemente, constituída por 109 páginas A/5 a que deu o título QUE PENA, TUDO SE TER PERDIDO! e que teve a amabilidade de nos oferecer com sensibilizante dedicatória, o que muito agradecemos.
É de lá que retirámos este poema de grande profundidade filosófica que partilhamos com os nossos leitores.
JV



Poeta

José Temudo





«Que o tempo tudo resolve,

que o tempo tudo cura,

com o tempo tudo se esquece.»

Dizem, consolam, filosofam.

Eu sei que não,

que nem sempre é assim,

que há mágoas, ofensas e dores

que ferem tão fundo o coração,

que ninguém lhes conhece o fim.

Que há mágoas, ofensas e dores

Que só acabam com a morte.

E essa é, ainda, a nossa sorte!

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Março"




Poeta

José Temudo






Em dez, primeiro,

em doze, o terceiro,

Março, do deus da guerra

o nome tomou.

O deus, o tempo o levou.

A guerra, porque é má, ficou!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"Sonho ou Loucura"


  

Poeta


José Temudo





Sonho, sim, confesso,
não quando adormeço,
mas, quando acordado,
passeio,
ao longo da marginal,
alheio,
ao imenso mar
e ao extenso areal,
às gaivotas que pairam no ar,,
aos barcos pequenos que baloiçam
nas ondas que em espuma se esvaem!
Indiferente aos que por mim passam,
de tudo e de todos esquecido,
liberto do corpo, dos sentimentos, das emoções,
insensível às formas, aos sons, às cores,,
isento de alegrias e de dores,
sem deus, sem leis, sem tradições,
assim fico, todo dentro de mim,
sonhando que todos os seres,
que o Deus todo poderoso,
que a mãe Terra, úbere generoso,
que o mar, largo, profundo, temeroso,
e que o infinito e insondável céu,
são tudo criações minhas,
um teatro gigantesco, fantasioso,
em que, certo, certo, só existo EU !

terça-feira, 26 de março de 2013

O "Fanhonhas"




  
Escreve

José Temudo



Eu não disse? Puxa-se por uma cereja e logo vem um punhado delas!

Tal como nos casos anteriores, a figura de que vou falar era conhecida e referida em Chaves pela alcunha que lhe tinham colado. Conheci o “FANHONHAS” uns dias depois de termos chegado à cidade. Estávamos a dispor a mobília, os utensílios e os objectos decorativos, que tinham acabado de chegar pelos caminhos de ferro, nos compartimentos e lugares adequados, quando demos conta de que a iluminação de um dos quartos não funcionava. Saí à rua para saber de um electricista. E bem depressa encontrei quem me indicasse um.

“Está a ver aquela loja ali? É a do Fanhonhas. Ele é electricista.”

Entrei na loja e dirigi-me à única pessoa que lá se encontrava, um homem de estatura média, dos seus cinquenta anos de idade. Estava de costas para a entrada, arrumando caixas numa prateleira. Deu pela minha entrada na loja, e, sem se voltar, perguntou?

“O que deseja?”

“Boa tarde! O senhor é o snr. Fanhonhas?”

O homem virou-se para mim, lentamente, mirou-me de alto a baixo, e respondeu-me secamente, com algum azedume:

“Não, não sou o snr. FANHONHAS!”

Depois dele falar e do modo como o fez, dei imediatamente conta de que tinha metido o pé na argola. O homem era acentuadamente fanhoso e, embora eu desconhecesse o termo fanhonhas, logo me pareceu que fanhoso e fanhonhas eram uma e a mesma coisa. E desculpei-me, contando a verdade. Que éramos de fora, que estávamos a montar a casa, que um interruptor não funcionava, que saí à rua para procurar um electricista e que, na rua, alguém me disse para procurar nesta loja pelo sr. Fanhonhas.

“Bem. Disse ele, mais brando, eu sou mesmo electricista, mas o meu nome é José Dias.”

“E o snr. Dias poder fazer o favor de ir lá a casa arranjar o interruptor logo que possa?”, perguntei-lhe ainda receoso de lhe ouvir um não rotundo, mal humorado.

“E onde é que vocês moram?”

“É logo aqui, na Rua da Alfândega Velha”, respondi-lhe, já mais tranquilo.

“Na casa da viúva... ....?”, indagou ele, com o ar de quem estava relacionando dois factos.

“É nessa mesma.”

“Então você é filho do novo chefe das finanças?”

“Sou, sim, snr. Dias.”

“Está bem......está bem!” Pode ir indo, que eu lá irei, logo que o meu filho chegue. Pode ir indo.”


Jardim de Chaves
 E foi assim que conheci o snr. José Dias, o Fanhonhas, como era conhecido na cidade. Era um bom homem, um profissional competente e honesto, educado, talvez um pouco rabugento, cujo defeito maior era falar pelo nariz. Mas, não era por isto que ele era popular entre os seus conterrâneos. A razão era outra.... e boa. Em meados do século passado, nos meses quentes de verão, os flavienses tinham o saudável costume de ir para o Jardim Público gozar o ar fresco da noite, proporcionado pela proximidade do rio, pela acção de inúmeras árvores de grande porte, frondosas, e pela rega que o jardineiro fazia ao pôr do sol. As pessoas passeavam-se de cá para lá, sentavam-se nos bancos, conversavam........ e ouviam música, emitida a partir de uma cabina situada mais ou menos no centro do Jardim. A música que se ouvia era, duma maneira geral, a que estava em voga: tangos, valsas, sambas, rumbas, boleros, canções, e fados. A troco de 2$50, quem queria podia escolher uma música e dedicá-la à moça ou ao moço de quem gostava ou a alguém que queria homenagear!

Pois bem, o “disc-joquey”, o dono da aparelhagem sonora e dos discos e da voz inconfundível que lia as simpáticas dedicatórias, era nem mais, nem menos, o snr, José Dias, o conhecido Fanhonhas!

E era desta sua actividade que lhe advinha a popularidade, a boa popularidade de que desfrutava entre as pessoas da cidade.


Pequena nota

Este texto do nosso Amigo e Colaborador fez-nos recordar um facto passado e muito contado na nossa cidade de origem.
Havia um comerciante local no ramo fotográfico, então com grande movimento que tinha o seu estabelecimento, que ainda existe, numa das principais artérias da cidade.

O estabelecimento era muito procurado para aquisição de rolos, máquinas e revelação das fotografias, além de se tirarem fotos tipo passe e artísticas.

O proprietário tinha o mesmo problema do Sr. José Dias e havia por vezes alguma dificuldade em o compreender.
Um dia, uma senhora fez qualquer pergunta ao senhor que naturalmente lhe respondeu dentro da dicção que lhe era própria.

A senhora voltou-se para ele e disse-lhe: “Sr. Fulano, desculpe mas não percebi.”

O homem, já não muito satisfeito, voltou a responder como da primeira vez e a senhora voltou a dizer que não tinha percebido.

Então, aborrecido com o facto largou grande asneira.

Reacção da senhora, voltando as costas:

"O sr. Fulano é muito malcriado!”

“Vê, como já percebeu”, respondeu o comerciante.

Eu não assisti ao diálogo mas dizem ser verdadeiro. Já se passaram pelo menos 60 anos!

JV

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A "Landainas"



  
Escreve

José Temudo



 Uma outra figura, aliás, de mulher, também de muito baixa condição social, era muito conhecida e, direi mais, até estimada na cidade. Chamava-se Maria, mas era vulgarmente conhecida por LANDAINAS, ou, mais comummente, por MARIA LANDAINAS, que era alcunha, mas desconheço o seu significado ou a razão porque lha puseram.

http://margakim.wordpress.com/author/margakim/
A LANDAINAS não era propriamente uma pros-tituta, ou, como vulgar-mente se dizia, uma puta. Não figurava no registo policial, não estava sujeita à “exe-mina” semanal na dele-gação de Saúde, não residia naquela ruela estreita e sombria junto do Hospital da Miseri-córdia, onde as outras viviam. Para além disso, ela manteve durante a sua longa vida uma actividade honesta de que sempre viveu. Como já disse, não era propriamente uma puta, mas fazia os seus “favores”, ou, mais precisamente, ela aceitava pagamento pelos “serviços” que prestava, com os cuidados sanitários que se impunham. E mais: ela era, à sua maneira, uma educadora sexual, eficaz e confiável. Gerações sucessivas de adolescentes, foi nos seus braços robustos e nas coxas roliças da LANDAINAS que tiveram a sua primeira aventura carnal. Quando a conheci, andaria pelos seus quarenta e cinco anos de idade. Já tinha perdido, há muito, a frescura e o ar fanchonaço de melhores tempos. Era já um mulherão, grossa e feia, Mas era, ainda, uma mulher alegre, vigorosa, faladeira, simpática. Ah, e por sobre tudo isso, era uma talentosa bailarina popular. Era um espectáculo vê-la dançar nas Verbenas do Jarim Público, nas zonas menos iluminadas, com o seu par preferido, o João Fanado, bem mais novo do que ela, um tango, uma valsa, um “paso-doble”, fosse o que fosse. Para os ver dançar, juntava-se sempre à volta deles, uma pequena e divertida multidão de admiradores que não deixavam de sublinhar com palmas e olés um ou outro passo, uma ou outra volta mais arrojada os “salerosa”.

Contava-se na cidade, e julga-se que a “estória” era verdadeira, que a Maria, ainda mulher dos seus vinte e poucos anos, teria ido para Coimbra como governanta de uma “república de estudantes”, levada por um moço de Chaves. Mulher dos sete ofícios, terá estudo e servido na “república” como sopa no mel. Cozinhava, limpava, arrumava, lavava e passava a ferro, divertia e consolava os rapazes, a todos eles, sem excepção, que a Maria não era mulher para desconsiderar ninguém!

Antes de terminar, quero referir duas facetas da Maria (assim a tratávamos) que muito contribuíram para a simpatia que a cidade tinha por ela.

A Maria era foliona, mas foi sempre uma mulher de trabalho, jamais vivendo exclusivamente da prostituição. Nos últimos anos da sua vida, ela era a encarregada da limpeza da Igreja Matriz, o que significa que, nem para os moralistas mais exigentes, a Maria era considerada uma mulher perversa. Admito que a Maria se tenha zangado, uma vez por outra ao fazer o seu serviço de limpeza na Igreja Matriz, e dito o que não devia dizer naquele lugar sagrado que ela muito respeitava. Se isso aconteceu, e disseram-me que sim, presumo que os santos e os anjos, ainda que de pau e de pedra, devem ter corado de vergonha e indignação com o que ouviram saindo da boca da Maria, pois a sua linguagem, muito ao gosto popular, não era própria para ouvidos delicados!

A segunda faceta respeita ao facto da Maria ter aceitado filhas de outras prostitutas, que criou, que protegeu e educou com o mesmo zelo e carinho como se fossem filhas suas, que não teve, ou por mera sorte ou porque teve os cuidados necessários.

Não nos admiremos, pois, que muitos dos seus amigos e simpatizantes, tenham organizado uma Verbena  no Jardim Público para ajudar a Maria, então a viver a situação em que a velhice e a falta de saúde já não lhe permitiam ganhar o seu sustento.

Já depois do que ficou escrito, chegou-me ao conhecimento que o reputado pintor flaviense NADIR AFONSO lhe fez o retrato que se encontra exposto no Museu Municipal de Chaves.

É assim esta tão antiga cidade de Chaves: por vezes, rude: mas sempre generosa para aqueles de quem gosta, sejam ricos, sejam pobres!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O "Betabê"


Pequena nota
Este texto é retirado com a devida vénia de um interessante livrinho (págs. 35 a 37) que tem por título Memória de algumas Figuras Populares de Chaves em meados do Século XX e que o autor teve a amabilidade de nos oferecer.
JV

 


Escreve

José Temudo



Aconteceu-me sempre assim quando abro o baú das recordações. Como no caso das cerejas, puxo por uma e logo vem um rosário delas.

Tendo falado do Joaquim Cavalo, preparava-me para fechar o baú, quando fui surpreendido por uma voz que assim me interpelou:

“E eu? Não quer falar de mim? Acaso não fui eu tão popular quanto os outros de quem já falou?”

Era o “Betabê”que assim falava enquanto pulava do baú para a minha secrtetária e se colocava bem à minha frente.

Na verdade, pensei, como pude esquecer o Betabê, que a cidade inteira conhecia? Tem razão o pobre diabo, como pude esquecê-lo?

Quando o conheci, o Betabê era engraxador do Café Comercial. À época, o melhor café da cidade. Os fregueses gostavam dele, mas “picavam-no”, só para o ouvirem ripostar, nem sempre nos melhores termos, na sua linguagem de “cecemelo” (regionalismo que significa “ceceoso”). Não teria, ainda, quarenta anos. Era de estatura média, de cabelo e barba ruça, a puxar para o ruivo, ambos ralos e ressequidos, como que a lembrar a miséria de vida que fora a sua desde que nascera. Aquele lugar de engraxador no Café Comercial tinha sido até então, o seu melhor ganha-pão. Aliás, aquele lugar de engraxador no melhor café de Chaves era muito disputado pelos muitos outros engraxadores que havia na cidade, a maior parte deles trabalhadores ao ar livre. O preço do serviço e as gorjetas davam para os gastos mais necessários e imediatos do Betabê; para o resto, roupa e calçado, contava com a generosidade dos clientes, que sempre aparecia quando o viam mais necessitado. E é sobre este aspecto que eu vou contar uma “historieta” que muito fez rir a cidade.

Um dos clientes do Café e do Betabê era um engenheiro, director dos serviços florestais daquela zona. Era um homem dos seus 45 anos, de boa constituição física; alfacinha puro, educado e comunicativo, andava sempre impecavelmente vestido e calçado. Tinha um ar refinado, havia mesmo quem o achasse “snob”. Uma virtude ele não tinha, mas isso, em Chaves, não incomodava ninguém. Casado, não era homem de uma só cama! E foi através do Betabê, dos “bons serviços do Betabê”que ele estabelecera relações com uma moça muito cobiçada e que já tinha passado pelas mãos de dois ou três amantes que lhe tinham proporcionado uma vida regalada. O Betabê foi, naturalmente, recompensado. O engenheiro arranjou-lhe um emprego qualquer nos serviços que dirigia, uma espécie de moço de recados, pago pelo orçamento do Estado.

In kidsalfabetizaca.blogspot.com
Ainda antes do Betabê ter entrado para o “serviço público”, num dia em que estava engraxando os sapatos ao engenheiro, disse-lhe:

“Bonitos sapatos, estes, sr. Engenheiro!”
“Gostas deles, Betabê?”
“Se gosto deles, sr. Engenheiro? Isto é do melhor que há!”
“Que número calças, Betabê?, “perguntou-lhe o engenheiro.
“Quarenta e um, sr. Engenheiro.”
“Também eu. Pois, fica sabendo que quando me cansar deles, ofereço-tos!”
“O sr. Engenheiro está a gozar comigo? Ia, agora, dar-me estes sapatos!”
“O que está dito, está dito”, disse-lhe o engenheiro.
“Palavra de honra, sr. Engenheiro?”
“Eu só tenho uma palavra, Betabê!, disse o engenheiro com prosápia.

A partir deste momento, o Betabê passou a olhar para aqueles sapatos como coisa sua. Se era cuidadoso a engraxar quaisquer outros, com aqueles refinava os cuidados. Entretanto, o Betabê continuou a engraxar os sapatos ao engenheiro, não só os que lhe estavam prometidos, como também alguns outros pares, que o homem era um autêntico “dandy” e gostava pouco de repetir o que vestia e o que calçava. Mas um dia, por sinal um dia de muita chuva, o Betabê ficou estarrecido e sem fala quando viu o engenheiro entrar no café com os sapatos, aqueles belos sapatos, que lhe estavam prometidos, todos enlameados! E só quando o engenheiro, já sentado, lhe fez sinal para lhe ir engraxar os sapatos, é que o Betabê saiu do pasmo em que tinha ficado. De má catadura, sem cumprimentar o cliente, sem mesmo olhar para ele, começou a limpar-lhe os sapatos. O engenheiro estranhou-lhe o silêncio e a cara de poucos amigos e interpelou-o:

“Que diabo tens tu, Betabê? Trataram-te mal?”
“Ninguém me tratou mal, sr, Engenheiro.”
“Então dói-te a barriga?”, perguntou-lhe o engenheiro em tom de gozo.
“Porra sr. Engenheiro, dá-me cabo dos sapatos e depois ainda me pergunta se me dói a barriga? Isso, é fazer pouco dos pobres!”

Num primeiro momento, o engenheiro ficou irritado, de testa franzida, com o tom acrimonioso da resposta daquela infeliz criatura; mas bem depressa se lembrou do compromisso que assumira de lhe oferecer aquele par de sapatos quando deles se cansasse. Riu-se tanto, achou-lhe tanta graça, que não perdia a oportunidade de contar aquele episódio às pessoas do seu convívio.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"De que falam os velhos?"


Pequena nota

Não consigo passar sem deixar uma pequena reflexão sobre este poema.

Possivelmente, isso acontece por me encontrar na faixa etária que o poeta refere e por isso mesmo, podê-la analisar com realismo.

Tudo o que a poesia nos diz é a realidade que todos sentem quando chegam a uma determinada idade. Contudo, há muitos que não chegam a ter esta experiência.

Encontrar as palavras ajustadas à situação, ligá-las com harmonia e sonoridade, é o que poucos sabem fazer, como eu, mas não é o que se passa com o meu sempre jovem colaborador, cuja poesia transmite um toque especial a este espaço.

Aqui deixo ao “velho” colega de profissão, alcoutenejo pelo coração, o meu abraço de admiração.

JV

 


 Poeta

José Temudo

 

 

Os velhos falam do passado.

De que mais hão-de falar?

 

Do tempo que corre, apressado,

das dores que devem calar,

da tristeza, que sempre magoa,

da vida breve, que se escoa?

De que mais hão-de falar?

 

Da Primavera, de flores, do sol, do Verão,

dos passeios que jamais farão,

de petiscos, que não vão comer,

de roupas ,que não vão usar ?

De que mais hão-de falar?

 

De livros, que já não podem ler,

de filmes, que jamais verão,

dos filhos que os esquecem,

dos netos, que os desconhecem,

da vida viva, que passa ao lado ?

De que mais hão-de falar?

 

Do futuro, ignorado,

do presente, mal amado?

Os velhos falam do passado,

do vivido e do imaginado,

com vontade de voltar!

De que mais hão-de falar?

domingo, 18 de novembro de 2012

Tal como sino rachado




Poeta

José Temudo


Aquela ave canora
 
que ouço no meu horto,
 
canta ou chora?

E eu, estou vivo ou morto?

Tal como sino rachado

ou fino cristal partido,

já não emito sonido
 
se acaso sou tocado!
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O grão de areia



Poeta
 
José Temudo


 

A instável fronteira

que separa o amor do ódio,

a confiança da ciumeira,

o desejo do repúdio

 o prazer da dor,

é tão mal vigiada,

tão fácil de transpor,

 que basta um pequeno nada,

uma falta de atenção não desejada,

um breve gesto de enfado,

um fugaz olhar de alto,

um dar de ombros impensado,

uma palavra mal dita,

para logo se dar o salto

de um para o outro lado,

da felicidade para a desdita!


 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

"Memento mori..."



 
Poeta
 
José Temudo
 
 
 
 
Ainda bem agarrados,

ou da vida já desprendidos,

animados ou desiludidos,

bem amados ou mal queridos,

um a um,

 geração após geração,

sem escapar nenhum,

todos vamos indo embora.

quer queiramos, quer não,

levados pela mesma senhora!

Para onde nos leva,
 
para que lugar nos conduz,

 por que estrada ?

Para o temeroso reino da Treva,

para o esperançoso Reino da Luz,

ou para o insondável Reino do Nada ?

Na infindável e triste procissão

dos que, a conta gotas, vão andando,

um dia acompanhando,

 logo no outro acompanhados,

umas vezes chorando,

depois, por uma só vez, chorados,

já não sabemos por quem choramos,

se pelos que partem,

se pelos que ficamos.

domingo, 12 de agosto de 2012

Cruel Memória (Poema)

Pequena nota

Neste poema o poeta faz uma retrospectiva de vida que muitas vezes acontece e num desenrolar de fases que só a cruel memória guardou / e identificou o menino que eu fui / com o velho que hoje sou!

Talvez a fotografia que recentemente publicámos neste espaço, na rubrica Câmara Escura, tivesse levado o poeta à retrospectiva que indicamos e que o teria induzido à meditação, transformando a vivência em palavras realistas, sensíveis e de cadência harmoniosa.

JV

 


 Poeta

José Temudo













Alguém nos diz:

" Nasceste para ser feliz! Sê:

olha os lírios do campo, vê :

não colhem, não fiam, não tecem.

E nem Salomão, em todo o seu esplendor,

se lhes compara, em forma, em elegância, em cor! "

É o tempo em que tudo tem graça,

o da descoberta da amizade e do amor!

Depois, esse tempo passa;

vem um outro que consomes

na luta pelo pão que comes,

na briga por um pedaço,

seja ele qual for,

seja contra quem for,

na busca de um espaço,

na conquista de um lugar ao sol,

na afirmação do orgulhoso eu,

do imenso rol

de tudo o que é teu!

Depois, vem o tempo em que tudo tens,

nada te falta, está tudo em alta,

saúde, prestígio, riqueza,

companheira fiel e dedicada,

filhas com vida digna, equilibrada,

netos crescendo em virtude e beleza!

A seguir, vem o tempo,

como direi? já fora do tempo,

em que alguém que há muito não vemos,

nos diz que estamos na mesma,

que nada mudou! Rimos,

sabendo que mentiu, lisonjeou!

Que dentro e fora de nós tudo mudou,

que só a cruel memória guardou

 e identificou o menino que eu fui

 com o velho que hoje sou!











terça-feira, 10 de julho de 2012

Trilogia (Poema)



Poeta

José Temudo





A VIDA É BOA OU MÁ?
Flor do tojo










A vida é breve?

A vida é longa?

a vida é boa ou má ?

É sempre breve a vida boa

É sempre longa a vida má.





O SENTIDO DA VIDA
Flor da soagem










A um rico, que causava inveja,

A um pobre que metia dó,

perguntei: a vida, que sentido tem?

Ambos me responderam: veja,

a vida tem um sentido só,

a que não escapa ninguém!




O BRAGAL
Flor do linho











À vida, pede pouco, sê contido.

Serás, de certo, atendido.

Viverás descansado, insofrido.

OU

À vida, pede tudo, sê ambicioso.

Serás ou não servido.

Viverás inquieto, cobiçoso.

DE QUALQUER MODO

Na morte, só levarás o que tiveres vestido!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A nossa hora de alegria

Pequena nota

Não sabemos se este poema tem a ver com a passagem do nosso 4º Aniversário, mas que se enquadra bem na efeméride parece-nos um facto.

O título ajusta-se bem à hora que escolhe para visitar quase diariamente o AL onde nada lhe passa despercebido, lendo-o de fio a pavio.

José Temudo que entrou recentemente no domínio das novas tecnologias já nos envia, como qualquer outro colaborador, a sua participação por e-mail.

Obrigado pelas palavras de estímulo que este “alcoutenejo pelo coração”, como ele próprio se denomina, teve a amabilidade de nos enviar.

JV


Poeta


José Temudo






Soltem-se os foguetes

e que cumpram a sua sorte.

Que subam nos ares,

que risquem a noite,

que silvem e estoirem na morte!

E que desçam sobre nós

feitos luz, formas e cores,

que espantem, que deslumbrem,

que façam esquecer mágoas e dores!

Soltem os foguetes, libertem a fantasia,

que esta é a nossa hora de alegria!


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ninho abandonado (Poema)

Pequena nota
O poeta sem saber explicar porquê, passou segundo confessa, um período vazio de ideias, nem uma só palavra aflorava à sua mente sensível!
Mas os poetas são mesmo assim, do nada sai este pequeno mas belo poema.

JV




Poeta

José Temudo







A minha cabeça está vazia

como balão furado e espremido

e brilha como lâmpada fundida

num quarto fechado, escurecido.

Nem uma só ideia, uma só que seja,

Neste deserto oco, cresce e viceja.

É um ninho abandonado

por um pássaro desencantado.

Tudo nele ecoa,

nada fica, tudo se escoa!