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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Migrantes e emigrantes




Escreve
António Afonso

Todos aqueles que conhecem o Concelho de Alcoutim sabem que este é composto por terrenos muito acidentados, salvo excepção de uma língua de terra, que se estende desde os arredores de Martim Longo até às cercanias do Pereiro, a que designam de “chada ou também achada”, onde o terreno é mais ou menos plano.
São montes, cerros e mais cerros a perder de vista, creio que todos eles paridos pela Mãe Natureza num dia de tempestade, fazendo lembrar um mar encapelado. Todos têm a sua própria designação: o cerro dos mouros, do marco, das perdizes, da raposa, dos barões e ainda um de cujo nome gosto particularmente, o do maniverso, talvez por ser pouco comum. Ora deste tipo de orografia de montanha coberta de vegetação rasteira, composta de estevas e rosmaninhos sobressai aqui e ali uma moita de carrascos. Nos vales profundos correm cursos de água temporários, formando a rede hidrográfica. Em parte, todo este meio ambiente moldou os seus habitantes. As influências do litoral eram bastante escassas devido à barreira natural e aos péssimos meios de comunicação por via terrestre quase inexistentes. As populações receberam também influências do seu vizinho Alentejo, essas tão presentes no seu dia-a-dia nos usos e costumes, como no vestir, andar, cantar, modo de falar e ainda nos hábitos alimentares, agricultura, pecuária, arquitectura, etc.
Compreendo, perfeitamente, que a realidade na vila seria um pouco diferente, pela sua situação geográfica, situada junto a essa estrada líquida, que é o Guadiana e por ser o centro administrativo, com repartições públicas, Finanças, Registo Civil, Escolas, Farmácia, Celeiro, Correios, Serviços Camarários e Forças policiais de Fronteira. Aqui se desenvolveu, também, uma panóplia de serviços necessários à vida quotidiana. Todo esse conjunto proporcionava empregos a muita gente ali nascida e outros vindos de fora, como foi o caso do nosso amigo José Varzeano, vindo da lezíria, que ali enraizou e se tornou uma mais-valia para Alcoutim; oxalá que ainda continue por muitos e bons anos.
Eu estou convencido que o alcoutenejo é ser um híbrido, pois a cepa pode ser Algarvia, mas a enxertia veio do Alentejo, pela força anímica do convívio ancestral, das feiras, das festas, dos casamentos, dos trabalhos campestres enfim, sempre existiu uma proximidade muito grande entre ambas as comunidades; até por razões históricas, convém recordar que este concelho fora parte integrante da província do Alentejo, até à Revolução Liberal e o Algarve ostentava orgulhosamente o título de Reino, concedido pela Casa Real, passando posteriormente à categoria de província e absorvendo Alcoutim para o seu território. Penso que, uma coisa são as decisões políticas, outra, bem diferente é a realidade observada no local; vejam quanto tempo já passou, mas os mais idosos ainda dizem: “ amanhã eu vou para o Algarve “.
Já em Lisboa tive a oportunidade de me cruzar com muitos conterrâneos, que pelo tom de voz eu quase identificava, mas na dúvida, ia puxando o fio à meada, através da conversa, concluindo que eram alcoutenejos de verdade; curiosamente, alguns diziam-se alentejanos e lá tinha eu que corrigir a sua naturalidade.
A terra aqui é pobre, áspera, muito árida e os habitantes só tinham algum sucesso nas culturas de sequeiro, com a ajuda de muitos adubos; essa cultura intensiva deixou os terrenos gastos, exauridos e mesmo nesses tempos nunca produziam o suficiente para alimentar cabalmente os seus filhos. Embora ocasionalmente, estes tivessem de procurar parte do seu sustento noutras paragens, ouvi “estórias” da boca do meu avô, do meu pai e dos meus tios, todos eles atores neste filme que as pessoas se deslocavam para norte à procura de trabalho. Esse cruel relato inquietou-me bastante e jamais desapareceu da minha memória, por julgar injusto tanto sofrimento.
Até aos anos cinquenta as pessoas dirigiam-se para o Alentejo para as mondas e ceifas. Alguns já levavam destino certo; obtido por meio de angariadores, dirigiam-se para as grandes herdades de Beja. Recordo o nome de algumas: o Belo, o Delgado, a Salvada, a Chaminé, formando ranchos migratórios, tal como os “ratinhos,” e os “gaibéus”; porém, outros deslocavam-se com os seus poucos haveres à praça de Beja à procura de trabalho, local que eu chamo “mercado de escravos”. Nos alvores da madrugada, perfilavam na praça como militares; entretanto começavam a chegar, os capatazes, os feitores que escolhiam a sua mercadoria entre os mais fortes e depois, vinham os da segunda e terceira escolha. Por fim restavam os sem trabalho, entregues à misericórdia divina, era assim aquela saga! Dito desta forma nua e crua, creio que os mais jovens irão dizer que se trata de uma inverdade. Pois meus amigos, perguntem aos vossos avós e bisavós, testemunhas vivas desse triste passado e certamente serão esclarecidos. 
Em ambos os casos, eram levados para as herdades onde eram instalados em péssimas condições de habitabilidade, mal dormidos, mal comidos, mal pagos, até a água era escassa, esta distribuída por um aguadeiro. Ao nascer do sol começavam a trabalhar nos trigais da planície, terminando quando este desaparecia no horizonte. Aqui o sol é castigador, atingindo facilmente os quarenta graus no Verão e temperaturas negativas durante o Inverno impiedoso ou de chuvas abundantes que os encharcava até à medula. Com frequência ouviam-se os seus cantares, era uma melodia indolente e arrastada, servindo de bálsamo analgésico para os seus sofrimentos do corpo e da alma, à semelhança dos escravos no seu murmúrio.
O seu salário era muito baixo, à época. Os trabalhadores alentejanos já mais organizados exigiam uma jorna justa pelo seu justo trabalho e acusavam frequentemente os serrenhos de pouco leais e nada solidários, chegando a haver alguns confrontos entre eles. Também estes, eram mal tratados, por vezes presos e escorraçados, pela autoridade vigente; alguns deles partiram para a cintura industrial de Lisboa, outros para longe, para muito longe, sabem para aonde? Para as plantações de cana, no Havai, onde formaram uma comunidade, que chegou aos nossos dias, eram naturais de Serpa, Pias, Vale do Vargo, Baleizão etc.
A partir dos anos sessenta, os alcoutenejos começaram a ir para os arredores de Lisboa, uns a trabalhar no campo, outros nas obras da construção civil. Cheguei a visitar alguns deles em Trajouce, Cascais, que habitavam uma pequena casa, onde preparavam as refeições e dormiam dez pessoas; outros viviam no Barracão situado em Alcântara que foi demolido, quando da construção da ponte. O Barracão era generoso, tinha coração de mãe, nele sempre cabia mais um filho da terra.
Depois veio o ciclo da emigração. Após a segunda guerra, a Europa ficou muito devastada e destruída; passados alguns anos, renascia das cinzas tal como a Fénix, precisava de mão-de-obra de qualquer tipo, pois é precisamente para aí, que se deslocam os alcoutenejos a ganhar a vida, assim como outros compatriotas; muitos vão a salto, outros, poucos, vão legalmente. Nesses países, nomeadamente França e Alemanha prosperaram e ganharam raízes, tendo alguns regressado definitivamente à terra que os viu nascer; outros apenas aparecem de visita e voltam de novo para o país de acolhimento onde a família se alargou.
Desta forma, com toda esta sangria desatada de migrações e emigrações, com o desaparecimento dos mais idosos, Alcoutim foi perdendo drasticamente o seu capital humano, conforme rezam as estatísticas, o despovoamento é notório e acelerado.

domingo, 19 de maio de 2013

O monte dos Medronhais


Pequena nota:
Não conhecia nada do Monte dos Medronhais e não me lembro de alguma vez ter lido algo sobre ele a nível das minhas pesquisas, nomeadamente no arquivo histórico camarário quando o consultei de 1986 a 1988 por deferência do então Presidente da Câmara, Manuel Cavaco Afonso.
Através das Memórias Paroquiais (1758) encontrei referência a alguns montes da freguesia de Martim Longo de que desconheço a sua existência e por esse motivo postei em 24.06.2011 Martim Longo, montes indicados nas Memórias Paroquiais (1758) e que não identifico, solicitando aos visitantes / leitores qualquer informação sobre o assunto. Até hoje, nunca me chegou qualquer informação sobre o assunto através do meu e-mail.
Gostei muito de ter aprendido com o nosso colaborador a existência deste monte tipo alentejano e o que escreve sobre ele são parâmetros que normalmente abordamos.
Aqui deixo o meu obrigado ao António Afonso e pode ser que ele conheça algum dos montes que refiro na minha postagem de 24.06.2011.
JV





Escreve

António Afonso



O ALCOUTIM LIVRE muito tem escrito sobre os montes do concelho, contudo, haverá um ou outro que escapou, por desconhecimento da sua existência.

 Hoje irei falar sobre um pequenino Monte, perto de Martim Longo, «Os Medronhais». Este monte fica situado um pouco a Norte da sede de freguesia, talvez a dois quilómetros de distância, por um caminho de terra batida, em direcção ao Moinho do Ferreiro.

Visitei-o uma única vez, acompanhando um amigo, que me convidou. Teríamos cerca de doze anos e fomos levar uma cabra, cuja intenção era juntá-la ao rebanho para arranjar namorado; (chibato, bode) passada uma semana o animal voltou a casa e decorridos os cinco meses de gestação, passou à condição de mãe solteira e independente. Recordo que o aglomerado possuía as casas de habitação, as instalações para os animais, nomeadamente ramadas, palheiro, forno, alguns currais e pocilgo. Num vale próximo havia uma pequena horta com um poço, que produzia água destinada ao consumo dos habitantes, animais e rega.
O monte foi construído numa zona alta o que permite uma vista panorâmica privilegiada sobre os campos outrora cultivados por vastas searas: aqui e ali nota-se o branco do casario de outros montes em redor, alguns deles pertencendo ao concelho de Mértola.

Despertou-me interesse escrever algo sobre ele, por vários motivos: Trata-se de um aglomerado rural unifamiliar, implantado numa herdade, típico dos montes do Alentejo. Certamente, desta forma, teriam nascido todos os outros montes de maior dimensão existentes no termo de Alcoutim; porém, este continuou isolado, tal como outros que conhecemos, nomeadamente o Monte dos Guerra que lhe fica próximo, as Bringueiras, o Vale do Gimão, A-Dos-Gagos e o Monte dos Matos.

 O seu topónimo presta homenagem à flora local que provavelmente era também nome da herdade: Medronhais!... O pensamento transporta-me direitinho ao exuberante arbusto (Medronheiro - arbustus unedo) que por aqui nasce espontaneamente e um pouco por todo território nacional. Com folhas persistentes de um verde intenso e brilhante, a floração ocorre nos meses de Inverno/Primavera e apresenta-se em cachos de pequeninas lanternas brancas ou róseas, algumas delas irão originar frutos rugosos de cor verde, que à medida que se aproximam da maturação se tornam amarelos e finalmente vermelhos quando maduros.
Medronhos maduros

Na minha meninice, eu e alguns amigos de ambos os sexos, agarrávamos em cestos feitos de cana e íamos apanhar medronhos no meio dos matos que bem conhecíamos, sempre avisados (encarecidos) para que levássemos os chapéus e não ingeríssemos mais de três ou quatro frutos, devido às perturbações que poderiam causar. Os nossos frutos não se destinavam ao fabrico de aguardente, tinham outro destino; as nossas mães preparavam-nos e colocavam-nos em grandes frascos de boca larga. Quando coziam a amassadura, retiravam algumas colheradas daquela substância e adicionavam à massa do fermento, quando este era desfeito em água quente. Tinha efeito de catalisador, potenciando o levedar do pão.

Segundo informações, ainda no século XIX, dois irmãos de apelido Brito, do Monte da Estrada, vieram a casar no monte do Silgado, dando origem a todos os Britos da freguesia; um deles, Joaquim Brito, contemporâneo do meu pai, nos anos trinta do século passado, comprou a herdade e o Monte nele existente.

Passou aí a viver com a esposa e um irmão, o ti João Brito, figura muito peculiar; por cima da sua fatiota usava sempre uma pelica e uns safões de pele de borrego de cor acastanhada e ainda uma boina de orelhas que o protegia do calor e do frio. Encontrei-o muitas vezes na Ribeira do Vascão, oásis onde se refugiavam os pastores (maiorais) nas horas de maior calor, com seu rebanho de cabras (fato). Homem de poucas falas, era difícil entrar em diálogo.

O ti Joaquim foi pai de quatro filhos. A Celeste, o Joaquim, a Agostinha e a Alice que aí viveram, mas um dia ganharam asas e voaram. Seguiram os seus destinos; dois deles sei que emigraram para a Alemanha e hoje vivem em Faro, as outras duas filhas fixaram-se em aldeias vizinhas. Quando os seus pais faleceram o Monte ficou desabitado.

Mas, no início dos anos noventa, veio dirigir as Paróquias de Martim Longo, Vaqueiros e Cachopo, o Padre Peter, de nacionalidade Belga, que fora missionário em África, nomeadamente em Moçambique. Morou algum tempo em Martim Longo, recordo vê-lo, quando vinha buscar água ao Poço Novo do meu monte; mostrando-se sempre afável e conversador, dava boleia a todos os velhotes que encontrasse pelo caminho, toda agente gostava dele, mesmo aqueles que jamais entraram numa igreja.

Este senhor padre, porém era um homem simples, que amava a natureza genuína. Certo dia foi visitar os Medronhais, ficou encantado com a beleza do lugar bucólico e sossegado, pois era mesmo aquilo que procurava. Conversou com os donos e lá passou a viver. Julgo ser ele quem edificou aquela casinha branca, a construção mais recente, que podemos observar na foto; nesse lugarejo, quase no silêncio absoluto rezava as suas preces. Encontrando-se mais próximo do seu Deus, desfrutou este lugar durante alguns anos, até quase ao resto dos seus dias, amanhando a horta, plantando árvores, colhendo os frutos e ouvindo o chilrear das aves que esvoaçavam em liberdade! Era feliz na sua humildade e à sua maneira.

O padre Peter veio a falecer em Faro, a 7 de Dezembro de 2001, vítima de doença incurável, mas por sua expressa vontade, desejou ser sepultado no cemitério local de Martim Longo, onde repousa. Os seus familiares respeitaram solenemente o seu derradeiro desejo. Ao seu funeral, que teve lugar a 08 de Dezembro de 2001, dia da Padroeira da aldeia, Nossa Senhora da Conceição, estiveram presentes centenas de paroquianos, que quiseram deste modo, prestar a ultima homenagem a esta alma que sempre praticou o Bem. Toda a cerimónia fúnebre foi presidida pelo bispo do Algarve, D. Manuel Madureira e pelo bispo auxiliar D. Manuel Quintas.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia quiseram perpetuar a sua memória, atribuindo posteriormente, o seu nome a um largo próximo da Igreja Matriz, em sinal de gratidão e respeito por aquele filho adoptivo de Martim Longo.

O monte que outrora habitou regressou à condição de despovoado, à semelhança de outros que encontramos por lá, infelizmente fruto da desertificação humana.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A minha escolinha - Ensino Primário






Escreve

António Afonso


Em Portugal, na última metade do século XIX a percentagem de analfabetos era aterradora, o que muito atormentava o espírito humanista do poeta e pedagogo João de Deus, por sinal, um algarvio, nascido em S. Bartolomeu de Messines.
Para inverter tal situação, ele criou um método simples de aprendizagem da Língua Portuguesa, o qual tomou o seu nome. Foi pai da Cartilha Maternal publicada em 1886,sendo instituída por decreto, no ano seguinte, tornando-se obrigatória nas escolas régias por alguns anos.

Com a implantação da Republica, na verdade, houve alguns avanços neste tipo de ensino, mas vieram entretanto anos muito turbulentos, que se reflectiram em todos os sectores, chegando mesmo ao encerramento de algumas Escolas do Magistério, onde se formavam os professores que futuramente iriam leccionar nas escolas. Como já foi frisado, no A L, as escolas públicas funcionavam somente na sede dos concelhos e freguesias, onde o Concelho de Alcoutim estava incluído naturalmente, tendo ficado as restantes povoações simplesmente excluídas.

Nos grandes montes surgiam alguns professores particulares que leccionavam, a quem lhes pudesse pagar, e eram muito poucos; no monte da Barrada o mestre-escola era o – Manuel Sapateira e um outro creio de nome Armando.
Escola Velha
Como seria possível a uma criança em idade escolar, habitando na periferia de qualquer uma das freguesias alcoutenejas, deslocar-se por caminhos pedregosos, poeirentos ou lamacentos, sob as intempéries próprias da serra, aventurar-se até à escola? Não existia abandono escolar, simplesmente porque não havia iniciação à escola.

Quando, nos dias de hoje, algumas mentes insanas, me dizem: - “Actualmente as crianças, até as vêm buscar a casa para irem à escola!” Eu simplesmente discordo! Pois ainda bem, é um direito que lhes assiste, oxalá que esta situação continue, mas, por este andar da carruagem, tenho as minhas dúvidas! Desculpem exprimir-me neste tom, mas eu já trilhei esse calvário a caminho da escola, por quatro anos consecutivos, sei do que falo!

A memória popular recitava uma quadra que encerrava uma grande verdade, à época, claro! Quem teve a grande desgraça / de não aprender a ler/ sabe só o que se passa no lugar onde estiver.

No início dos anos trinta, o Estado Novo resolveu alargar a rede escolar primária às zonas rurais, em todos os locais que reunissem trinta ou mais alunos; contudo surgiu um problema: O número de professores qualificados era insuficiente!

O governo ultrapassa airosamente tal obstáculo, criando a figura de Regente Escolar e os Postos Escolares, para ocupar os lugares então criados; a maioria dos docentes eram mulheres, ganhavam 300$00 mensais, mas apenas de Outubro a Junho.Devo dizer, que no início, aos candidatos eram exigidos apenas os seguintes requisitos:

Serem fiéis ao regime vigente, possuir idoneidade moral e intelectual. Quanto à exigência de habilitações académicas dos candidatos a regentes, era omissa, passando posteriormente a ser exigida uma prova de aptidão que constava de um reconhecimento de cultura geral, um ditado, uma redacção e resolução de seis problemas.

Para constituírem matrimónio, o futuro cônjuge tinha de apresentar credenciais credíveis e possuir posição social equivalente ou superior; o regente só poderia casar após completar determinada idade, segundo informações era vinte e três anos.

Quanto a mim penso e a maioria das pessoas o reconhece, todos estes profissionais prestaram um notável serviço às populações, sobretudo no mundo rural. Sem eles as crianças continuariam analfabetas; os mestres eram pessoas muito prestigiadas e acarinhadas, representavam uma autoridade moral e cívica, sendo dotados de conhecimentos e também de grande equilíbrio psicológico. Não sei como conseguiam impor a disciplina e leccionar numa sala com quatro diferentes classes!

Por mim, rendo-lhes a justa e merecida homenagem, continuarei eternamente grato pelos valores e tudo o que me transmitiram, pois serviram como pilares base na minha formação.

Logo no primeiro dia, a professora nos apresentava as primeiras letras a que chamava Alfa Beto, (coisas gregas!), que tínhamos de aprender a conhecer e desenhar; umas eram as maiorcas (ou coisa semelhante) por serem grandes, depois apareciam as minorcas, mais enfezadas, mas que tinham o mesmo valor.

 Depois, neste conjunto, havia as vogais e consoantes, que andavam de braço dado, formavam ditongos e sílabas originado palavras, frases e textos.

Agora, apareciam os números, de 1 a 10, chamados algarismos árabes. Descobri mais tarde, que eram assim chamados, não só por serem os árabes os seus inventores, mas porque na forma primitiva eram contados os seus ângulos internos; assim o 3 tem três ângulos, o 2 tem dois, o 8 tem oito e (O) por ser rechonchudo não possui ângulos internos, chamaram-lhe Zero, que pode valer muito ou pouco, depende da sua posição à direita de outro número ou à esquerda da vírgula.

Para complicar, ainda aparecia a numeração romana, que afinal não eram números, mas sim letras, conclusão: os Romanos não queriam nada com os Árabes.

Esta coisa de mandar os meninos e meninas para a escola, nem sempre foi bem aceite, os governos não viam nisso grande vantagem, jogo estratégico; pois um indivíduo esclarecido é mais difícil de convencer.
Alguns pais também não achavam muita graça, pois os meninos na escola não ajudavam nos campos e futuramente procuravam um emprego diferente, deixando o trabalho braçal campestre; quanto às meninas, nem pensar! Tal facto desviava-as da sua aprendizagem dos lavores femininos, de futuras donas de casa e aprendendo a ler e a escrever, desatavam a namorar e ler livros, alguns nada recomendados, era um desperdício de tempo!

Felizmente que esta questão foi bem resolvida, o DL nº 42 994 de 28 de Maio de 1960 tornou o ensino obrigatório até à quarta classe para ambos os sexos, obrigando os pais a mandar os petizes à escola, sob pena de pagarem multa, além de cumprirem o determinado.

A minha Escolinha situava-se no monte da Barrada, esta que está na foto, já velhi..nha com muitas rugas e algumas notórias cicatrizes; outrora era branca, todos os anos era caiada por dentro e por fora, havia gosto e sentido de boa higiene (com cal não há micróbio que escape); nos anos sessenta foi construída uma nova escola, naturalmente com mais condições, mas eu nunca a visitei, nada me dizia, faltava algo que nos aproximasse.

Deixo um apelo a quem de direito, não permitam que a minha escolinha acabe em ruínas! Seria uma tristeza para muita gente, para mim também, com certeza!

Na primária tive duas professoras, muito eficientes, a D. Maria Lúcia da Luz, mulher alta e morena, rígida e austera, muito exigente, mas boa profissional.

 A outra senhora, também era alta, de tez muito clara, de cabelo loiro e olhos azuis, era meiga, ternurenta, era exemplar, diria mesmo um anjo caído do céu. Menina Ivone Teixeira era a sua graça, sempre mantivemos uma boa relação de amizade, acabou até, por vir a ser madrinha da minha irmã mais nova.

Já com família constituída e com dois filhos foi leccionar para Faro. Nesta cidade continuou os estudos e chegou a licenciar-se na sua área.

Escola nova da Barrada, desactivada.
Esta minha professora já não está entre nós, mas recordá-la-ei sempre com muita saudade. Despertou-me o interesse para a leitura, gostava muito de Goa embora não conhecesse, ensinou-me o nome dos rios do então Estado da Índia, que ainda sei na ponta da língua, o que fez nascer em mim uma paixão. Sempre li artigos e revistas sobre este tema, mesmo no período após Invasão a que os goeses chamam de Libertação.

Conheci muitas pessoas ligadas a Goa, que lá nasceram, ou que por lá passaram. Em 2012 o meu sonho de conhecer Goa materializou-se. Visitei a Índia, e naturalmente o Estado de Goa, no dia do meu aniversário aterrava no aeroporto de Santa Cruz, vindo de Bombaim; senti-me feliz e realizado, atravessei o Mandovi e o Zuari, visitei monumentos de raiz portuguesa, onde as ruas ainda mantêm os nomes originais. O nosso guia, o Bento Manuel expressava-se em português; aqui e ali os mais velhos, chamavam-nos para conversar….Tantas vezes me lembrei de ti D. Ivone!

Prof. D. Ivone
Os goeses, não se definem como indianos, foram hábeis, souberam negociar com o governo central de Dheli, para que Goa se constituísse como estado autónomo, embora sendo o mais pequeno, mantendo todos os seus usos e costumes. Actualmente é um estado próspero com bom nível de vida.

Quanto aos territórios Damão e Diu, não foram absorvidos pelos estados vizinhos e dependem directamente do Governo Central. Quanto ao ensino do Português, apenas existe uma escola a leccionar. Dentro de poucos anos será extinto o nosso idioma naquelas paragens, pois não há vontade de ambos os países, Portugal /Índia, em manter viva essa chama do passado.

Em sinal de homenagem, dedico todo este texto à memória da minha estimada professora, Senhora D. Ivone.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Quando nevou no meu "monte"!


Escreve
António Afonso

O "Monte" de Pêro Dias. Vista aérea.

Aquele fim de Outono e início de Inverno vieram acompanhados de grandes chuvadas, de tal modo, que comprometeram as sementeiras do trigo, cevada e aveia. Todas as linhas de água transbordaram e os terrenos ficaram ensopados.

Em Janeiro regressaram os dias solarengos, embora frios. À volta do monte e pelos campos tudo verdejava, os regatos, os ribeiros e a ribeira da Foupana; corriam águas límpidas e cristalinas, todas apressadas em chegar ao mar.

 Nos finais desse mês o tempo atmosférico mudara de novo, o céu carregou-se de nuvens negras acompanhado de rajadas de ventos fortes e frios que sopravam do Norte; o frio era intenso e as temperaturas desceram bastante.

Apesar da minha tenra idade, recordo aquele 02 de Fevereiro de 1954, dia da Nossa Senhora das Candeias. Teve lugar um acontecimento acompanhado de imagens únicas, as quais ficaram bem gravadas na minha memória, decoradas de relatos de pessoas mais velhas que presenciaram o fenómeno.

Ao final da tarde, as crianças que regressavam a casa, vindas da escola situada no monte da Barrada, foram surpreendidas pela ti Custódia que vinha a correr com o seu rebanho de ovelhas. Ordenou-lhes que a acompanhassem rapidamente para o monte, pois baseada na sua experiência e na observação dos ventos fortes e agrestes e do céu coberto de nuvens cor de chumbo, que não tardaria a cair neve.

Chegados a casa os miúdos merendaram, aqueceram-se junto à lareira e relataram aos pais o que tinha acontecido. Depois da ceia, a noite continuava fria e desagradável, fomos para a cama mais cedo que o habitual. Logo de manhãzinha a mãe levantou-se para ir para a cozinha, que ficava separada da casa onde dormíamos e ao abrir a porta deparou-se com um manto branco que tudo cobria, ruas, telhados e campos. Foi junto de nós e deu-nos a novidade.


Ficamos boquiabertos com tanto branco! Tudo aquilo era inédito para nós e a maioria das pessoas jamais tinha presenciado a neve. Talvez alguém tivesse ouvido falar dela na lenda das Amendoeiras em flor ou no poema Balada da Neve, de Augusto Gil.

Como o meu pai estava a trabalhar fora, a mãe agarrou numa pá e abriu um carreirinho até à cozinha. A água que tínhamos nos cântaros congelou e nós íamos ao quintal buscar neve que introduzamos numa panela de ferro junto ao fogo; com o calor aquele “algodão” liquidificava, que coisa extraordinária!

Um pouco por todo o país tinha nevado. No Algarve desde Vila Real de Santo António até Aljezur, existem registos que o testemunham… Na aldeia de Cachopo o manto atingiu 60 centímetros de altura.

Recordo que dos beirais estavam pendentes estalactites de gelo. A miudagem fazia e atirava bolas de neve uns aos outros; os mais velhos deram largas à sua imaginação, e fizeram um grande boneco de neve com os olhos feitos de azeitonas pretas, o nariz era uma cenoura e a boca uma pequena laranja; colocaram-lhe um cachecol no pescoço e um velho chapéu na cabeça.

Como o tempo não permitia ir à escola todos se divertiram com alegres brincadeiras.
Até hoje, jamais presenciei outro nevão, mas frequentemente recordo com muita saudade esta vivência da minha infância!

quarta-feira, 13 de março de 2013

O mestre azeiteiro (fazedor de azeite)





Escreve

António Afonso



No Nordeste Algarvio a oliveira era uma árvore quase sagrada! Tal como na Grécia Antiga, pois, no perímetro da Acrópole sempre existiu e existe, um exemplar desta espécie. Há fortes razões para o Homem lhe dedicar tanta estima. Ela lhe concede sombra, alguma lenha, as azeitonas, que serão preparadas, de conserva, britadas, retalhadas, pisadas sempre presentes na mesa do Alcoutenejo; além disso, da transformação dos seus frutos se extrai o precioso azeite, utilizado na culinária, outrora alimentava as candeias, servia para oferecer a quem não o tivesse de colheita e ainda como oferenda à  Senhora das Candeias ou à Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Freguesia. 

Paralelo com esta árvore só encontrei em África, certo dia, um nativo em Moçambique me confessou que o Coqueiro é para nós a árvore de Deus! Porque dela tudo aproveitamos, a sombra, as folhas que cobrem as nossas casas, a madeira para vários fins, os frutos tão importantes para a nossa alimentação e não só.
Nós tínhamos algumas oliveiras centenárias herdadas dos nossos avós, o meu pai sempre que encontrava um zambujo, logo procedia á enxertia, caso obtivesse sucesso, na época própria o transplantava para local definitivo; passados alguns anos já dava frutos, mas continuava a ser designado por “ oliveiro” até ser de maior idade.

A Terra gira nos seus movimentos de rotação e translação, o tempo passa, deixando a sua marca, quer nas pessoas, quer nos seus modos de vida.

 Nos últimos cem anos, muitas profissões existentes no meu concelho, algumas nem conheci, desapareceram simplesmente e outras estão em risco disso. Irei enumerar umas quantas: o alvetário (profissional que tratava os animais), o vedor (profissional que indicava o local onde existia água no subsolo), albardeiro, o sapateiro, o azeiteiro, o latoeiro, o retratista, o dentista ambulante, o capador, o roupeiro, o maioral “zagal”, ferrador, o ferreiro, o oleiro, o almocreve, o ganhão, o limpador, a tecedeira, a boleira, a caiadora, a costureira, a ceifeira, o cesteiro, o tendeiro, o vendedores ambulantes (o ti Januário, o ti Zé´ Guerreiro, o ti Feliciano o ti Pano Cru), moleiro, o endireita, o cesteiro, o pedreiro de pedra solta, etc.

Hoje, irei recordar o azeiteiro.

Na verdade, havia em Martim Longo um lagar que funcionava por turnos, durante alguns meses, mas algumas pessoas preferiam fazer o seu azeite ao modo tradicional.

Após a colheita contratava-se este profissional, normalmente era o parente Raul – do monte do Barranco, situado para lá da Ribeira do Vascão ou ti Ludovino da Barrada, homem muito divertido, sempre bem humorado, os seus ditos animavam a rapaziada; fumava tabaco de enrolar, usava as onças “Duque” e papel “Zig-Zag”.

O azeiteiro trazia a sua talega (saco de pano espesso), utilizava a queijeira, peça usada para esse fim e ainda para colocar os queijos recém fabricados, para libertação do chorrilho, ( Soro do leite ) nela se  esmagavam também as uvas para fazer o vinho.

Este utensílio era feito de madeira de azinho ou oliveira, apresentava forma ovóide, o interior era escavado, terminando em bica, assemelhava-se ao útero feminino, mas de maior dimensão, claro, órgão que todos nós habitamos durante a gestação. Aquelas que conheci, assentavam em três pernas, sendo duas na parte posterior e uma anterior, mais curta, para desnivelar a superfície, formando um declive, obrigando deste modo o escoamento dos líquidos pela bica.

Queijeira. Foto JV
Sob a bica colocava-se um alguidar, o qual tinha a particularidade de ter um furo quase junto ao fundo, onde se colocava uma espécie de torneira “ o espicho”, quando aberto permitia a saída da água ruça. O mestre enchia a talega com as azeitonas previamente esmagadas, despejava sobre essa massa, água quente, sovava, esmagava, pressionava,  torcia ,de modo que se libertasse a água e o “azeite”, os líquidos iam desaguar ao alguidar, obedecendo às  leis da física, devido às diferentes densidades, estes não se misturavam, permitindo colher o azeite deste modo que nadava à superfície.

Para fazer a prova do azeite fazíamos, então, as nossas maravilhosas e saborosas “ tibornas “ com o novo azeite e o pão ainda quente, acabado de sair do forno comunitário.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Carnaval





Escreve

António Afonso



Quando eu era miúdo o Carnaval era bastante festejado na Serra. Compreende-se o motivo! Em todos os montes existiam muitos jovens, embora alguns deles estivessem a trabalhar sazo-nalmente, nas ditas temporadas, noutras terras, mas quando chegava o Entrudo todos regressavam aos seus lares. Os grandes montes organizavam então os festejos, para divertimento da juventude, onde não faltavam os mascarados com roupas velhas, cabeleiras e máscaras, aqui chamadas caraças, fazendo todo o tipo de macacadas, correndo atrás das moças e das velhas, todas as brincadeiras eram aceites, em nome da quadra festiva. Tipo de representação semelhante, mas mais exuberante, ainda hoje tem lugar na aldeia de Podence, Bragança aos quais designam por Caretos. À noite, tinham lugar os bailes, aos quais acorria a mocidade das redondezas; era uma forma de convívio e diversão, sendo o lugar propício para dar início a um namorico ou fortalecer os que por ventura já existiam.

Aquele dia era diferente dos outros, não se trabalhava nos campos, o almoço era substancialmente melhorado em termos proteicos, com o abate de um galináceo em idade adulta, havia também muitos doces caseiros: - arroz doce, fatias douradas, azevias de batata doce, filhoses de vários tipos e formas, mas as minhas preferidas eram aquelas em forma de rosácea, sempre deliciosas, crocantes e estaladiças regadas com mel, evidentemente, que os adultos tinham direito a uma bebida fina (licor, porto ou anis ).

Desses festejos , recordo dois, que me despertaram os sentidos, um pelo espírito solidário natural daquelas gentes,  outro  pela  riqueza etnográfica dos trajes dos seus intervenientes.

O primeiro foi passado no monte do Pão Duro, quando eu teria cerca de 11 anos, não mais, acompanhei o meu primo Joaquim, cerca de dez anos mais velho, saímos à tardinha por um caminho péssimo, tivemos de atravessar a Ribeira da Foupana saltando sobre as passadeiras colocadas no leito da mesma, praticando equilibrismo para não cairmos e tomarmos banho nas águas gélidas; lá seguimos viagem em direcção à casa onde tinha lugar o baile, local onde convergiam todos os caminhos e caminhantes. Não existindo restaurantes e aproximando-se a hora do jantar, formava-se rapidamente uma onda solidária . Todos os rapazes e raparigas do monte, convidam três ou quatro forasteiros para jantar nas suas casas, onde eram recebidos com muita satisfação, pelos pais dos amigos e protectores, futuramente este gesto seria retribuído, a tradição falava mais alto!

Aspecto do Pão Duro. Foto JV
 O baile prolongava-se até o sol raiar, abrilhantado por um acordeonista de renome, havia pausas para rifar um ou outro objecto, leiloar um bolo oferecido à comissão, deste modo para angariar alguns trocos e fazer face  às despesas.

Depois de uma alegre noitada, regressávamos em bando, entoando esta melodia: “ Já lá vai o Entrudo pelo barranco da Nora, vai gritando em altas vozes, que a Quaresma o deita fora”…..

A povoação da Barrada. Foto JV
O outro acontecimento, teve lugar no monte da Barrada. Tratou-se de um desfile carnavalesco que percorria a povoação e terminava no grande armazém onde se realizavam os bailes. Os rapazes e raparigas resolveram revolver as arcas e baús das mães e avós onde desencantaram antigas roupas de ancestrais cerimónias de casamentos, aqui repousavam religiosamente guardadas, não vendo a luz do dia há décadas, no meio das quais se encontravam folhas de louro e cravinho para afastar as traças. O evento era realmente solene, os figurantes cheios de garbo envergando as suas indumentárias, eram surpreendidos com calorosos aplausos. Elas com saias compridas de cor escura, tendo algumas com barras de cetim, blusas brancas com alguns enfeites, lenços de ramagens coloridas sobre os ombros, meias brancas rendilhadas, digamos, actualmente, imitariam perfeitamente Isabel Silvestre dos Cantares de Manhouce.

Os rapazes envergavam calça, colete e jaqueta de cor escura, camisa branca e chapéu negro e um lenço com tom vermelho à volta do pescoço tipo faia.

O desfile obteve enorme sucesso, tornando-se notícia pelos montes vizinhos, pena foi, que não mais se repetisse nestas paragens, os ditos fatos jamais saíram à rua.

Há poucos anos, assisti através  da TV, ao desenrolar um casamento à moda antiga, em Santa Bárbara de Nexe, no qual os noivos envergavam estes tipo de fatos, sendo transportados em charretes puxadas por cavalos, desde casa até á Igreja Matriz.

Julgo que tiveram bom gosto, homenageando deste modo os costumes dos seus antepassados.

 Tempos idos, é certo! Todos demonstravam publicamente as suas emoções de alegria, embora a riqueza não reinasse, contudo, eram muito solidários.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Matança do porco "Suvão" (Cevão)


Pequena nota
Já abordámos este assunto no texto a que demos o título "A matação do porco" e publicado neste espaço em 16.11.2011.
Com esta publicação não se trata de uma duplicação mas sim de um complemento ao que estão escrevemos  pois o espírito de observação e a linguagem utilizados são diferentes.
Qualquer alcoutenejo que se preze revê-se neste texto de António Afonso.
JV




Texto e Ilustração 
de
António Afonso



No monte onde nasci e também um pouco por toda a Serra Algarvia a tradição era cíclica e anual, exigindo ritual seguinte:
Todos viviam da agricultura de subsistência, da pastorícia, alimentavam-se essencialmente do que a terra produzia, à custa de muito trabalho; quase toda a carne consumida era de suíno, embora se abatesse um galo pelo Entrudo ou alguma galinha em dia de Festa, um borrego (malato) no final das ceifas (adiafa), por tal facto, era preciso providenciar a compra de um porquinho preto (bácoro) no início da Primavera ou, o mais tardar, na feira de S. Marcos no Pereiro.

 Depois, era necessário chamar o capador que procedia à extracção das glândulas reprodutores do animal, para que este medra-se e as hormonas sexuais não interferissem no sabor da carne e no desenvolvimento do animal, tendo em vista a engorda. Confesso, que este acto cirúrgico desprovido de qualquer anestesia, realizado com uma espécie de pequena adaga mourisca, muito me impressionava, pela crueldade e sofrimento infligido aos animais indefesos. Compreende-se perfeitamente, porque fugíamos a “sete pés”, quando algum malandreco mais velho, nos ameaçava que nos ia capar, por termos portado menos bem.

Passada a prova de sobrevivência, o animal, como omnívoro que era, comia de tudo um pouco, era assim uma espécie de “ecoponto de reciclagem,”pois, ingeria restos de comida para humanos, vegetais, frutas, cereais, farelos etc. Quando Novembro chegava, a sua dieta passava ser quase exclusiva de bolota, rica em hidratos de carbono, o seu peso aumentava a olhos vistos. O Inverno chegava e com ele o frio, tempo próprio para o abate, a tradição assim o exigia, pois os micróbios requerem temperaturas mais elevadas para se desenvolverem.

O dia da Festa se aproximava: - os convidados tinham de ser avisados com antecedência e todos os preparativos tinham de ser organizados. Este dia tinha um significado muito especial, juntava-se o útil ao agradável, era de certo modo o pretexto para reunir a família, falar de assuntos pendentes e até negócios.

A dona da casa tinha trabalhos específicos: limpar a casa, cozer o pão, preparar as louças, as roupas, a salgadeira, arear os tachos etc. Ao homem estavam-lhe reservadas outras tarefas: Preparar a lenha, as alfaias, palha de centeio para chamuscar, ir a Martim Longo comprar sal, café, açúcar e os chamados (adubos), especiarias – colorau, pimenta, pimentão e cominhos e ainda algumas guloseimas para as crianças.

Logo de manhã, começavam a chegar os convidados cheios de frio, eram familiares e amigos; servia-se-lhes o café da manhã, embora os homens geralmente optassem por um cálice de medronho e um bolo ou frutos secos. Havia então, um pequeno grupo que se  dirigia às instalações do animal (pocilgo), o dono  atava a uma pata traseira uma corda e conduzia o animal  ao local do sacrifício, onde a  determinado momento era dada voz de ataque. Todos se lançavam sobre o animal até o imobilizarem por completo, atando-lhe o focinho por prevenção; colocavam-no sobre uma mesa tosca de três pernas, era neste local que o matador espetava a longa faca no pescoço do animal, atingindo deste modo uma artéria de grosso calibre, agora o sangue vermelho vivo (carregado de oxigénio) jorrava em esguicho, sendo recolhido parte dele num tacho de metal amarelo - cobre (arame) que continha vinagre, evitando deste modo a coagulação.


Jazia agora no chão o corpo sem vida, procedia-se de seguida à retirada da camada superficial da pele (epiderme) com ao auxilio de palha a arder e com alguns utensílios próprios, retirava-se a pele do focinho (tromba), as unhas (cascos), passava-se à fase seguinte, lavagem e raspagem até ficar de cor clara.

Novamente em cima da mesa, dois cirurgiões tratavam de abrir o cadáver, dando início uma verdadeira aula de anatomia prática em praça pública, um fazia uma incisão superficial desde a ponta do esterno, percorrendo toda alinha branca até ao ânus, aqui uma circular para libertar o recto, tendo o cuidado de o atar para não fazer borrada, produzia mais duas incisões de cada lado, na pele do abdómen (barriga), onde dois ajudantes de campo introduziam os dedos indicadores e manejavam conforme necessário, agora sim: penetrava com os dedos na cavidade abdominal (pança) procedendo à completa abertura, ficando à vista os intestinos (tripas), puxava o estômago – (bucho) e o esófago (canal) retirando todas as vísceras para um alguidar, depois retirava ainda as banhas (mantas) das paredes laterais do abdómen.

Em simultâneo, o segundo cirurgião fazia a sua incisão (corte), desde o esterno até à boca , depois abria a o esterno a (caixa) com ajuda de dois ajudantes que forçavam as patas dianteiras permitindo assim o livre acesso livre à caixa torácica donde ia retirando os pulmões (bofes), coração - (máquina), fígado (cachola) e ainda o baço que por aqui chamam (passarinha), nome bastante sugestivo, retiravam-se ainda os presuntos, as espáduas (pás), as costeletas (aduelas) o cérebro (mioleira), ficando apenas a coluna vertebral (espinha), no interior da qual estava alojada a medula (tutano), mesmo esta iria ser subdividida e sepultada  na salgadeira juntamente com outras peças, nomeadamente os pezinhos , os presuntos onde seriam cobertos de sal, modo ancestral de conservação dos alimentos Não  existiam ainda, por lá, as arcas frigoríficas, mas  mesmo que existissem,  não tinham fonte de alimentação (energia eléctrica ) para que funcionassem.

Às mulheres estava reservado o trabalho de desmanchar as tripas, ripá-las e lavá-las e prepará-las para os enchidos, fritar a carne e fazer a banha e os deliciosos torresmos Após tamanha azáfama (canseira), chegava finalmente o esperado almoço que reunia todos à mesa comungando da mesma alegria. A ementa era constituída por pratos típicos do acontecimento, como: A (moleja) com cominhos, feita com o sangue do animal, a cachola e os bofes fritos, uma fritada de carne ou mesmo um guisado, tudo isto regado com um bom vinho caseiro de elevado teor alcoólico, capaz de deitar por terra o mais forte dos gigantes, caso não fosse moderado no seu consumo. O convívio prolongava-se pela tarde fora, com conversas interessantes ou não, até chegar a hora da despedida, acompanhada de um ou vários convites para as próximas matanças em casa do irmão, primo, cunhado etc.


Nota: Os termos a negrito representam regionalismos castiços utilizados pelo povo a que pertenço e me identifico.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Serões de Inverno



 

Escreve

António Afonso

Para compreender melhor esta crónica, devemos situar-nos, em termos de tempo, nos anos 50 do século passado, num lugar remoto no Nordeste Algarvio, a rádio não era extensiva a todos, a televisão não tinha chegado e os outros meios de comunicação, alguns não tinham nascido.

Ao final da tarde, ao regressarmos da escola, tínhamos de realizar tarefas que nos tinham sido confiadas previamente, como sejam: ir ao poço buscar água, alimentar os animais, preparar a lenha para alimentar a lareira durante a noite, etc. Conjugávamos então parcerias com os amigos e tudo se resolvia, airosamente, desta forma de ajuda mútua.
Era à luz da candeia ou do Petromax, que iluminavam quase nada (por isso havia tantos meninos " curtos de vista"), que fazíamos os trabalhos de casa, auxiliados por os mais velhos que nos ajudavam na leitura de palavras esquisitas, problemas deveras bicudos, com várias casas decimais e torneiras que debitavam vários hectolitros por minuto e tanques com enormes capacidades, muito maiores que a capacidade mental de um aluno de dez anos. O meu preceptor era o António Miguel, rapaz metódico e aplicado que me tentava explicar aqueles enigmas.

Os trabalhos eram feitos em ardósia (pedra preta, com um caixilho de madeira de cantos arredondados), escrevíamos com giz, ou na falta dele, fabricávamos nós os próprios lápis com taliscas do Barranco da Corte (Xisto foliáceo), só posteriormente passávamos tudo a limpo para o caderno.

Devo acrescentar, que esta pedra, que vos falo, não é mais que um antepassado do célebre computador Magalhães. Ainda hoje, quando as crianças me pergunta a idade eu respondo dizendo-lhe que sou da idade da pedra. – Então o tio é "muita" velho!

Após o jantar, aqui chamado ceia, a mãe lavava a loiça, as meninas corriam para a casa da Ti Maria Francisca, ouvir na rádio, o folhetim do Tide, cujas personagens centrais eram a Esmeralda e o Guilherme, originando muitos nomes por aquelas bandas. O serão era feito à volta da fogueira, admirando a cor e a forma das labaredas e ouvindo as histórias dos mais velhos. Mas as verdadeiras noites Mágicas e grandiosas tinham lugar com a chegada do primo Afonso da Alcaria Alta, vinha colher os frutos, ficando alojado na casa do Tio Guerreiro, vinha montado numa mula de cor clara, coberto com uma capa alentejana com gola de raposa, fazia-se acompanhar da mulher, prima Zabelinha e do filho, o primo Celestino.

O primo Afonso era, sem sombra de dúvida, um exímio contador de histórias, umas vividas outras imaginadas, reproduzidas com tanta graça e realismo que nos atraía como as tivéssemos a viver in loco; havia sido guarda republicano a cavalo nas planícies do Alentejo e aí acumulado muitas vivências; homem corpulento com voz grossa que brotava dos confins da alma, que nos encantava simplesmente!

Que Saudades desses tempos de criança!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

As parteiras (apelidadas de curiosas)

Pequena nota
Apresentamos hoje um interessante texto que um leitor assíduo do AL teve a amabilidade de nos enviar.
A situação foi despoletada pela recente publicação neste espaço de uma relação de enfermeiros e paramédicos naturais deste concelho e continua aberta a quem quiser colaborar.
Era bom que se pudesse organizar uma lista destas CURIOSAS que tantos serviços prestaram aos seus semelhantes o troco do bem servir pois não cobravam nada pelo seu trabalho limitando-se a receber a recompensa que lhes quisessem prestar.
Em tempos antigos era a parteira-curiosa que levava à pia baptismal o neófito e por vezes servia de madrinha.
Temos por enquanto muitos alcoutenejos que nasceram com o auxílio destas pessoas e de uma maneira geral todos sabem o nome da curiosa que os assistiu. Havendo colaboração, não seria difícil organizar para a posteridade uma relação destas pessoas para serem recordadas pelos vindouros com o respeito e admiração que merecem.

JV





Escreve 

António Afonso


 Em tempos idos e de má memória, nesse mundo rural fechado, no meu concelho e não só, o direito à Saúde era apenas uma miragem. É aqui que entra em cena esta Figura -a Parteira, a que eu ouso chamar MAGA -hoje será da mais elementar justiça recordá-la.

Ela punha em prática os seus conhecimentos empíricos transmitidos pelas mães e avós, ajudando as parturientes a dar à luz em ambientes menos próprios. Eram chamadas de noite ou de dia, lá iam elas com o seu xaile de lã (aqui chamado de CARINHOSA), se era Inverno ou de guarda -sol se era verão. Nada pedia em troca!


Chegada ao local tornava-se a Chefe das operações, os homens e as crianças eram mandadas para a rua, refugiavam-se na casa da vizinha, as mulheres e ajudantes andavam num corrupio, com bacias e alguidares, panos que haviam sido corados ao sol e passados a ferro de brasa (embora desconhecessem a palavra esterilização), águas quentes e frias e o milagroso sabão azul para lavar e desinfectar; arregaçava as mãos, lavava-se, benzia-se, por vezes rezava! e ordenava a parturiente a colocar-se na posição ginecológica, agarrar-se aos varões de ferro da cama e fazer força quando surgissem as dores, quando se ouvia o grito dilacerante e o choro da criança - tinha-se dado o supremo milagre, O nascimento! Porém se as coisas corriam mal, era necessário buscar o médico a léguas de distância, por vezes era tarde demais Mesmo quando a parteira não tinha sucesso, jamais alguém a incriminava, tal era o respeito!

Recordo-me que aqui há uns anos, de ir visitar ao Hospital Pulido Valente, um arquitecto, nascido no Pêro Dias, nestas circunstâncias, ele não me conhecia, apresentei-me dizendo-me filho da senhora tal, ao que a namorada respondeu. Sim, é aquela senhora que te ajudou a nascer! Palavras que muito me emocionaram.