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terça-feira, 14 de maio de 2013
O mais valioso dominó do Mundo!
Escreve
José Miguel Nunes
Depois de o meu pai ter feito uma mobília de quarto completa para a neta, e de ver a loucura dela com a prenda que acabara de receber, recordei-me de um dominó feito pelo meu avô José Custódio, que guardo religiosamente.
Está completo, e ainda na caixa original, onde está escrito pela sua mão, o seguinte: Dominó, na tampa, na parte lateral, José Custódio Pomarão. Infelizmente não tem data, mas não andarei muito longe se apontar para a década de quarenta do século passado.
E foi assim, que numa tarde de Sábado, passei pelo menos um par de horas a jogar dominó com a minha filha com o dominó do seu bisavô, algo que lhe fazia um bocadinho de confusão, diga-se.
Durante a jogatana não consegui evitar que algumas recordações do meu avô me viessem à memória, nomeadamente as suas jogatanas, não de dominó, mas de três setes,( jogo de cartas caído em desuso e abandonado pelas entidades responsáveis pela sua conservação), na barbearia do Sr. João Ricardo, com a mesa cheia de feijões. É também para isto que estas relíquias servem, para recordar.
É muito provável que aquela mobília se parta, fruto do uso, aliás foi para isso que ela foi feita, para ser usada, mas tenho a certeza que alguma daquelas peças irá perdurar, e será essa, que permitirá daqui a alguns anos recordar o que agora acontece, trazendo à memória outras recordações.
Contas feitas, jogámos seis jogos. Perdi cinco a um. A Maria, com a felicidade normal de quem ganha, disse: este dominó do avô velhinho dá-me mesmo sorte.
Espero que sim, que lhe continue a dar sorte. Um dia será dela, que o guarde com tanto carinho como eu.
sábado, 9 de março de 2013
A onda como produto turístico pode desaparecer?
Escreve
José Miguel Nunes
Desde que o surf se tornou a
“menina dos olhos” do turismo em Portugal que ouço frases do tipo “as ondas não
desaparecem”, “os estádios de surf já estão construídos” ou ainda que “as ondas
não são passiveis de serem replicadas”, como argumentos justificativos para o
investimento no produto surf.
Há muito que sou defensor, que o
surf pode ser uma mais-valia muito importante para o desenvolvimento da
economia da nossa região, tenho-o escrito variadíssimas vezes.
O produto surf tem como base a
onda, pois é nela que se pratica a modalidade que serve de âncora a todo o
desenvolvimento dos negócios a ele associados, sejam surfcamps, surfschools, surfshops, fábricas de pranchas, etc,
etc, etc..., ou seja, sem ondas não há surf, e sem surf não há negócios
associados, daí o tal argumento de que as ondas estão lá e não desaparecem,
claro está, na perspetiva de não ser necessário construi-las, bastando
unicamente que não destruam a sua envolvência, que elas continuam a rolar, como
sempre rolaram.
Totalmente de acordo até este
ponto, é quase uma ‘verdade de la
palisse’, fisicamente a onda não desaparece (partindo do princípio que não
a destroem), no entanto, o que está aqui em causa é a onda como produto
turístico, e nesta perspetiva, na minha opinião, pode efetivamente desaparecer.
Senão vejamos, e existem alguns
conceitos importantes para percebermos a questão. TURISMO e não havendo uma definição única
desse conceito, o que a Organização Mundial de Turismo (OMT) recomenda é que
seja entendido como: "as atividades que as pessoas realizam durante as
suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período
de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios e
outros."
Partindo do princípio que os
turistas são aqueles que praticam o turismo, ainda segundo a OMT, TURISTA “é todo o visitante
temporário que permanece no local visitado mais de 24 horas”, o que nos leva à
questão dos que permanecem menos de 24 horas, que segundo a mesma organização
são os EXCURSIONISTAS.
À conjugação destes dois conceitos aplica-se o conceito de VISITANTE, que “é
toda a pessoa que se desloca temporariamente para fora da sua residência
habitual, quer seja no seu próprio país ou no estrangeiro, por uma razão que
não seja a de aí exercer uma atividade remunerada.”
Ponting, um dos estudiosos desta
matéria, definiu então como TURISMO
DE SURF “toda a viagem e
permanência temporária, realizada por um surfista, envolvendo pelo menos uma
noite fora da sua região de domicílio habitual, cuja principal expectativa é
surfar.” Então, analogamente podemos dizer, e numa lógica de, VISITANTE = TURISTA = SURFISTA (e aqui deixamos de fora os
acompanhantes dos surfistas e aqueles que vêm ver os surfistas), que TURISTA DE SURF será toda a pessoa que se desloca
temporariamente para fora da sua residência habitual, quer no seu próprio país
ou no estrangeiro, por uma razão que não seja aí exercer uma atividade
remunerada, cuja principal expectativa é surfar.
Qualquer turista, e o de surf não
é excepção, tem no final da sua estadia, como objetivo, retirar uma sensação de
satisfação, resultante da sua experiência de consumo, neste caso da onda, pois
é nela que se baseia toda a oferta turística do surf.
Muito bem, assim, tudo isto nos
leva à regra base do surf, um surfista, uma onda, e só havendo uma determinada
percentagem de ondas de um turista de surf que satisfaça esta regra, é que o
mesmo retira satisfação da sua estadia, caso contrário o feedback será negativo, com as implicações que
isso terá.
Temos ainda de separar, na minha
opinião, mais dois conceitos, os turistas de surf, que já fazem surf, e vêm
para fazer surf, e os turistas de surf, que não fazem surf, mas que vêm para
aprender a fazer. São dois nichos de mercado completamente diferentes, e que
devem ser vistos de modo diferente.
Começando pelo primeiro caso,
aqueles que não fazem já surf, aqui a tal regra básica do surf não se aplica, e
uma onda (espuma) serve para muito mais do que um ‘surfista’, havendo apenas a
preocupação da segurança com o número de ‘surfistas’ sem experiência dentro de
água ao mesmo tempo.
No segundo caso, aqueles que já
fazem surf, então aqui sim, a regra aplica-se, e o seu grau de satisfação
aumenta ou diminui consoante aumenta ou diminui o número de ondas que conseguem
fazer sozinhos, e não podemos correr o risco de chegar ao ponto de no futuro
aparecerem títulos de notícias referentes a Peniche, como aquele que
recentemente saiu no site Surftotal, no passado dia 19 de
Fevereiro, referente à Gold Coast Australiana, e passo a citar, “As águas da
Gold Coast na Austrália são uma autêntica "zona de guerra" com os
surfistas a lutarem por espaço no meio do crowd”.
SUSTENTABILIDADE,
este é o conceito base para o sucesso de Peniche como destino de surf. Este
conceito assenta, grosso modo, em três pilares, que só em conjunto o definem: o
ambiental, o económico e o social, que nos leva a um outro, o de DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL,
que se refere a um modo de desenvolvimento capaz de responder às necessidades
do presente sem comprometer a capacidade de crescimento das gerações futuras,
visando melhorar as condições de vida dos indivíduos, preservando
simultaneamente o meio envolvente a curto, médio e, sobretudo, longo prazo,
comportando um triplo objectivo: um desenvolvimento economicamente eficaz,
socialmente equitativo e ecologicamente sustentável.
O ser sustentável, passa por
criar condições para que o crowd não aumente desmesuradamente, pois
isso irá ter implicações a médio/longo prazo, na vertente ambiental, económica
e até social (e aqui falamos também na comunidade local), influenciando
diretamente o grau de satisfação dos surfistas/turistas, e a escolha destes
para viajar. O ser sustentável passa por termos a noção que existem ondas que
têm capacidades de carga diferentes, consoante o tipo de surfistas que as
procuram. O ser sustentável passa por percebermos que os mega-investimentos
turísticos têm quase como única e exclusiva preocupação, o ganhar muito
dinheiro e o mais rapidamente possível, sem preocupações ambientais e muito
menos sociais. O ser sustentável, passa por criarmos condições em
infraestruturas que melhorem as condições das praias. O ser sustentável, passa
por legislar especificamente o surf e não adaptar legislação ao surf, de modo a
que quem tenha negócios nesta área os possa desenvolver de forma ordenada,
sustentada e principalmente em igualdade de circunstâncias no mercado
concorrencial.
Se não conseguirmos desenvolver
de modo sustentável o turismo de surf em Peniche, declarações como as de Kelly
Slater ao Jornal “A Bola”, de dia 9 de Outubro de 2012, começam a fazer
sentido, e mais importante, a “fazer mossa” na afirmação de Peniche como
destino turístico de excelência para o surf, e que passo a citar: “Já com
Peniche tenho uma relação de amor/ódio. Adoro as ondas mas está sempre lotado.
Há tantas escolas de surf que, para ser honesto, nem vou surfar fora dos heats, porque está sempre
muita gente. A única hipótese é tentar escapar para alguns spots mais distantes.", e não nos
esqueçamos de quem é Kelly Slater, e que tudo aquilo que este Senhor diz, é
ouvido com redobrada atenção.
O surf é uma excelente aposta
para o desenvolvimento turístico, mas não pode ser unicamente “à conta” do surf
que resolveremos todos os nossos problemas nesta área, pois para que isso
acontecesse seria necessário tanta gente, que o produto turístico surf,
deixaria de ser apelativo, perdendo qualidade e sustentabilidade, acabando por
desaparecer enquanto tal.
Então, as ondas não precisam de
desaparecer fisicamente, para desaparecerem como produto turístico, e para que
tal não aconteça, devem ser aproveitadas de modo sustentável e equilibrado.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Como isto mudou!!!
Escreve
José Miguel Nunes
“Hoje em dia o mais fixe que há é ser surfista”, era esta a
frase que ilustrava um “post” no “facebook” de alguém pela qual nutro grande
respeito e admiração, por tudo o que representa para o surf nacional, onde mais
em baixo complementava: “mas há 30 anos, há 20 anos, há 10 anos atrás, nós os
surfistas éramos vistos como uns párias e uns vagabundos da praia”.
É bem verdade. Como
isto mudou!!!
terça-feira, 1 de maio de 2012
De volta a Alcoutim…
Escreve
José Miguel Nunes
Depois de quase duas décadas sem ir a Alcoutim, há cerca de
dois anos, após uns dias de férias no litoral Algarvio, decidi no regresso
passar por aquela vila que tantas recordações me traz. Foi uma visita de um par
de horas, mas que me fez perceber o quanto gosto daquela terra.
Ficou desde essa altura o propósito de lá voltar para passar
uns dias, pois as imagens que me invadiam o pensamento a cada travessa que
virava, a cada pessoa que encontrava, a isso quase obrigavam. A maneira como
fui recebido por aqueles com os quais fui criado faziam-me chegar as lágrimas
aos olhos, foi triste ter de partir novamente, sem ter a certeza de quando
voltaria, apenas que era inevitável que voltaria.
Foi este ano, e passados dois anos foi então possível planear
ir lá passar alguns dias, não propriamente a Alcoutim, mas sim ao monte de
Afonso Vicente, seria na semana da Páscoa. Convidei um casal amigo, e ficou
tudo combinado para partirmos dia 2 de Abril e voltarmos dia cinco, era este o
plano.
Andei nos dias que antecederam a partida mais inquieto que o
normal, nunca mais chegava o dia da partida. Finalmente lá arrancámos com
destino a Afonso Vicente para uma viagem de cerca de 340 Km. Ao chegar a
Mértola abri o vidro do carro e inspirei fundo, senti finalmente aquele cheiro,
senti finalmente o cheiro da minha terra, virei-me para a minha mulher e disse:
já cheira a Alcoutim.
Continuámos, estávamos já perto do nosso destino, e a partir
de certa altura tudo me começa a ser familiar, a bomba de gasolina em Mértola,
a ponte onde só cabe um carro, as curvas da estrada, os nomes dos montes… até
que finalmente aparece a placa a dizer: Afonso Vicente.
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Quando chego ao monte e à casa dos meus avós, impecavelmente
restaurada pelo meu pai, preservando a identidade e cultura de quem a
construiu, bem como a do monte onde está inserida, e não deitada a baixo para
fazer um qualquer mamarracho desprovido de qualquer identidade, senti algo que
não consigo explicar, aquele monte, aquela casa, aquele sossego que eu adorava
quando era pequeno, e que tanto detestava na adolescência, pareciam-me agora as
melhores coisas do mundo. Adormecer sem o barulho dos carros a passar, e
acordar ao som do cacarejar do galo e do chilrear dos pássaros foi muito bom.
O primeiro passeio pelo monte, fi-lo sozinho, bem cedo,
andei por onde tanto tinha brincado, recordando cada brincadeira, cada
travessura. Lembrei-me do meu avô, e da sua burra, onde eu adorava andar, lembrei-me
de ir com ele buscar água ao poço…
A minha filha, com 5 anos, estava radiante, e eu também. Claro
que as razões são obviamente diferentes. Não se cansava de dizer que gostava
muito da terra da avó. Andava à vontade, a correr e a saltar no meio do monte,
a apanhar laranjas e limões, de quando em vez lá vinha mais chorosa que já se
tinha picado nas ortigas, mas isso também faz parte. Eu, porque ao vê-la
brincar onde tanto brinquei, junto das suas raízes, sentada no poial da casa da
chiba, que foi dos seus trisavós, e que um dia será dela, sentia que lhe estava
a transmitir algo que ela nunca esquecerá… Não se calava com os peixinhos que o
seu “bábá” tinha no lago, com os cabritinhos aos quais deu de mamar. O
Salvador, um dos filhos do casal que nos acompanhou, um pouco mais novo que a
Maria, um dia, num dos nossos passeios pelo monte virou-se para mim e disse: Oh
Zé, gostava tanto que a minha cidade fosse como esta.
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Andei também por Alcoutim, corri a vila, a parte velha da
vila, aquela que ainda me traz belas recordações, subi o poste até dentro do
terraço da casa dos meus avós, o mesmo por onde tantas vezes desci a fugir da
minha avó para vir brincar para a rua. Sentei-me nas escadas do cais novo e
recordei tantos e bons momentos ali passados. Estive nos bancos da igreja, que
encerram tantas histórias de noites com vista para o Guadiana, enfim
recarreguei o baú das recordações.
A minha querida Belinha, que me trata de uma maneira que nem consigo descrever, a mim, e a todos os que estão comigo. Ainda continuo a ser o seu menino, é tão bom ser assim recebido.
A minha querida Belinha, que me trata de uma maneira que nem consigo descrever, a mim, e a todos os que estão comigo. Ainda continuo a ser o seu menino, é tão bom ser assim recebido.
Não voltei no dia programado, tive de aproveitar até ao
máximo, tive de ficar mais um dia, apetecia-me ficar mais, muito mais dias.
Até para o ano Alcoutim, terra do meu coração.
Até para o ano Alcoutim, terra do meu coração.
domingo, 15 de abril de 2012
Estará o surf penicheiro refém de uma utopia?

Escreve
José Miguel Nunes
“Hóspedes da Utopia” é a frase que vem na capa da Surf Portugal de Fevereiro. No editorial da mesma revista, mais um grande texto de João Valente, intitula-se: “De utopias e Realidades”, e começa com uma citação de Eduardo Galeano: “A utopia está sempre no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”Não pude deixar de pensar: será que o surf penicheiro vive refém de uma utopia? ou serei eu?, já nem sei, às vezes falta só um bocadinho e penso que é desta, mas depois, na hora da verdade, acabamos por ficar novamente para trás.
Ao longo desta caminhada, difícil e muitas vezes injusta, alcançámos alguns feitos que muitos achariam impossíveis, lá está, utópicos, conseguimos. Mas é estranho, pois fico com a sensação que só nos deixam avançar até onde querem, e voltam novamente a meter-nos no sítio que acham que é o “nosso lugar”. É esta a impressão com que fico ao analisar esta caminhada que o surf penicheiro vem a fazer nos meandros dos grandes interesses que o surf começa a ter a nível nacional. Até parece que não fomos nós que alcançámos e merecemos tais feitos, mas que foram eles que nos deixaram lá chegar, quase que como um engodo, como um doce que se dá a uma criança para que ela se porte bem.
Foi frustrante não termos sido englobados na criação da primeira Reserva Mundial de Surf na Europa, onde o objetivo deveria ter sido, o de proteger a totalidade da melhor costa de ondas do País, e não, só uma parte dela. Fico a pensar se não terá sido algum tipo de retaliação, ou se foi simplesmente o colocarem-nos mais uma vez no “nosso lugar”.
Foi frustrante não termos ficado a fazer parte da rede denominada “World Surf Cities”, quando somos o único local do País com uma etapa do “World Tour”, onde pontifica um dos melhores “beach breaks” do mundo, e uma terra rodeada dos mais diversos tipos de ondas, com um potencial enorme em termos de crescimento no que há indústria do surf diz respeito. Mais uma vez dá a sensação de nos quererem colocar no “nosso lugar”.
Recentemente, foi criado um grupo de trabalho liderado pela Universidade Nova de Lisboa, onde a Organização Não Governamental SOS - Salvem o Surf é parceira, com o objetivo de determinar o valor económico, ambiental e social do surf em Portugal, um mega projeto verdadeiramente importante para o futuro do surf no país. Em meados do passado mês de Novembro iniciaram-se as reuniões preparatórias do mesmo, o surf penicheiro foi convidado a participar. Participou e partilhou informação, e agora quando definiram finalmente quem fazia parte do grupo, voltámos a ser colocados no “nosso lugar”, ou seja, voltámos a ficar de fora.
A minha pergunta é simples: Será utópico pensar que o surf penicheiro algum dia chegará lá, será utópico pensar que algum dia o surf penicheiro terá uma palavra a dizer nas decisões importantes relativamente ao que se pensa, estuda e decide relativamente ao surf em Portugal, ou continuaremos naquele lugar em que somos convidados a ouvir o que foi decidido, de boca calada e olhar envergonhado, agradecidos ainda pelo facto de nos terem convidado a ouvi-los.

Os jogos de interesses, começam também agora cada vez mais a fazerem parte do fenómeno surf, e de quem tenta a todo o custo liderar o processo. Todos sabemos que nestes jogos de poder há sempre quem tenha de ser “queimado”, e no surf, somos sempre nós, continuando a máxima a ser: Lisboa (leia-se até à Ericeira) é Portugal, o resto é paisagem, e nós, paisagem, estamos cá para acatar as ordens daquilo que eles lá em Lisboa (leia-se até à Ericeira) decidem.
Não podemos nem devemos aceitar de ânimo leve estas situações, e acima de tudo não devemos continuar cabisbaixos e de sorriso nos lábios no lugar para o qual frequentemente nos empurram.
Temos de dizer alto e bom som perante todos, sejam eles quem forem, e acima de tudo sem medo, que Peniche e o surf penicheiro merece e exige ter outro lugar no surf nacional.
“Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”, e agora acrescento eu, caminhar de cabeça bem levantada, olhos nos olhos seja de quem for.
sábado, 10 de março de 2012
Peniche, a Capital do Campeonato

Escreve
José Miguel Nunes
Chegámos a Dezembro, último mês do ano. É normalmente a altura de pensarmos um pouco sobre o que se passou durante o ano, e chegar a algumas conclusões, é da praxe.
Então vamos lá, e começo já pela primeira conclusão a que cheguei: Peniche não é a Capital da Onda, Peniche é a CAPITAL DO CAMPEONATO.
Já por diversas vezes o disse, e está escrito, para que não haja confusões do tipo: não foi bem isso que disse, foi mais isto ou foi mais aquilo, assim, está escrito, não há dúvidas. Em minha opinião, a estratégia de Peniche Capital da Onda está completamente errada do ponto de vista da sustentabilidade de Peniche como destino turístico de surf, assentando unicamente no retorno imediato e de projeção mediática de uma ou duas entidades, de uma ou duas pessoas.
No passado mês de Novembro, como sabem, e aqui foi divulgado, decorreu na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (ESM), mais um Congresso Internacional de Turismo. Pela primeira vez houve duas comunicações que tinham o surf como objeto de estudo, e muito particularmente o surf em Peniche, e uma das conclusões que esse estudo revelou, é que é importantíssimo haver um AMBIENTE E CULTURA DO SURF para que Peniche seja sustentável em termos de turismo de surf. Já agora, só um parênteses para dizer que a sala onde ocorreram estas comunicações estava completamente cheia.
Voltando ao ambiente e cultura do surf, quem chega a Peniche percebe perfeitamente que este atributo basilar para a sustentabilidade de um destino turístico com as características que se pretendem para Peniche não existe, pois nada há que ligue a terra ao surf. Mas isto leva-nos a outro problema: a perceção/avaliação que os residentes fazem relativamente a esta aposta no surf, e as suas implicações face à satisfação dos visitantes, que no caso de Peniche é bastante redutora, pois não havendo ambiente e cultura do surf, não há investimento nesse sentido, e não havendo investimento tendo como base o surf, obviamente não se gera o tal ambiente e cultura do surf, originando a insatisfação dos visitantes. Isto parece uma “pescadinha de rabo na boca”, mas a base deste problema tem essencialmente a ver com o seguinte, e também foi dito durante este congresso: para um destino turístico ser sustentável, primeiro tem que se criar a imagem do destino, e só depois criar uma marca associada a essa imagem, ora em Peniche, foi precisamente o contrário que aconteceu, primeiro criou-se a marca (Peniche Capital da Onda) e depois tentou-se criar a imagem que a sustentasse (baseada em pseudoestudos, feitos por paraquedistas do surf, que neste momento até já se encontram em paragens mais apetitosas, também já o escrevi).
Quando falo em retorno imediato e mediático, dou alguns exemplos: a Rip Curl tem organizado nos últimos três anos um campeonato que tem sido sistematicamente considerado um dos melhores do circuito, que bom para eles; a Rip Curl estima um retorno de 10 milhões de euros com um investimento de 1,6 milhões em cada campeonato, que bom para eles, o nosso Presidente é considerado o “coolest Mayor on tour”, que bom para ele, o nosso Presidente recebeu da Associação Nacional de Surfistas (ANS) o prémio de surfista do mês (Novembro), que bom para ele; o nosso Presidente foi um dos galardoados nos SurfTotal Awards na categoria do político que mais apoia o surf, que bom para ele.
Relativamente à terra em si, depois de três anos de campeonato, no que toca a infraestruturas de apoio e melhoramentos para a prática da modalidade de modo a que possa ser sustentável a nível de turismo, criando condições dignas para os locais e para quem nos visita, numa lógica de criação do tal ambiente e cultura do surf, continuamos na mesma em que estávamos antes de termos campeonato, sem tirar nem pôr, nada foi feito. Basta olhar para as condições de miséria em que se encontram as nossas praias e os seus acessos.
O Centro de Alto Rendimento (CAR), é a exceção neste marasmo de investimento em que nos encontramos há três anos a esta parte, mas atenção, o CAR está direcionado para o surf competição, não para o turismo.
Para terminar só mais duas coisinhas ainda relativamente à questão do que a esta má estratégia não conseguiu: Reserva Mundial de Surf… Ericeira, não chegou cá, e eram só uns quilómetros mais para norte, terá havido alguma estratégia para nos pôr fora disto?
World Surf Cities, rede que une locais em que o desporto tem, sem dúvida, uma grande expressão e é um importante elemento de desenvolvimento e crescimento local, impulsionando o desenvolvimento do turismo, entendendo o surf como gerador de negócios, riqueza e emprego, que recentemente foi criada em S. Sebastian, onde estão cidades como Durban (África do Sul), Hossegor (França), Newcastle (Austrália) e Santos (Brasil), entre outras. Quem lá está em representação de Portugal? … Ericeira, mais uma vez, terá havido alguma estratégia para nos pôr fora disto?
Isto leva-me a outra conclusão, os nossos amiguinhos no meio do surf são uns fixes, vêm todos para cá durante o campeonato, é só beijinhos e abraços, elogios às ondas, ao campeonato, à classe política local, … mas depois, naquilo que realmente interessa, e que pode trazer alguma mais-valia à terra em termos de desenvolvimento e sustentabilidade, Peniche!!!... não…, isso fica reservado para a Ericeira… são realmente uns “bacanos”, aliás sempre foram, não é só de agora (também já o escrevi).
Deve ser por estas e por outras que eu vejo pelo facebook de alguns deles mensagens de apoio provenientes de alguns de nós quando estes andam lá por fora nos campeonatos, é o nosso isto, é o nosso aquilo, força aí, etc, etc, etc… nada contra, pelo contrário, mas estranho, que o mesmo não aconteça nos facebook’s de alguns de nós quando representam por exemplo a seleção de Portugal, num campeonato do mundo de bodyboard.
Dever-se-ia ter apostado em algo sustentável e infraestruturas de base, pelo menos para que quem venha a seguir possa ter condições para continuar este caminho, não se correndo o risco de ser unicamente trilhado pelos atuais, criando a falsa sensação que são indispensáveis, talvez seja esse o objetivo, mas assim é difícil construir algo com sustentabilidade suficiente para pensar no longo prazo, de modo a que não se chegue ao chamado ponto de retorno.
Erro crasso, cometido na Capital da Onda, começou-se a fazer a casa pelo teto e não pelos alicerces, e é nisto, em minha opinião, que assenta a aposta no surf por parte da Câmara Municipal de Peniche, qual castelo de cartas, que se irá desmoronar ao primeiro vento mais forte, se não houver uma mudança de estratégia, … ainda vamos a tempo, … e sendo nós uma terra de nortadas… mais dia menos dia acontecerá, tornando infrutífero todo o tempo e dinheiro despendido.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Rip Curl Pro Peniche 2011... aos olhos de um surfista local

Escreve
José Miguel Nunes

Foto: CMP
Terminou mais um RIP CURL PRO PENICHE (Portugal), desculpem lá, mas eu gosto mais de lhe chamar assim.
Começa a ser difícil encontrar adjectivos que definam os campeonatos e as ondas em Peniche, foi o terceiro ano consecutivo em que o “Word Tour” passou por Peniche, e mais uma vez Supertubos mostrou toda a sua grandeza, apresentando-se verdadeiramente de gala durante toda a competição.
Foi incrível assistir a este campeonato, talvez o melhor dos três que por cá já se realizaram. Supertubos mostrou-se em toda a sua pujança, provando mais uma vez que não existe em Portugal mais nenhum local onde se possa realizar um campeonato desta magnitude com este nível de ondas, apesar disto criar uma certa azia a muita gente no meio do surf em Portugal.
Não encontro outro termo para definir esta etapa, a não ser… EXCELENTE, foi um “show” de tubos. Foram tubos para esquerda, para a direita, na maré vazia, na maré cheia… faltam-me as palavras para definir aquilo a que assisti durante estes três dias de competição.
Talvez o melhor é irmos mesmo aos números para percebermos melhor a qualidade do campeonato que tivemos. Em termos globais, durante cinquenta e um “heat’s” foram surfadas setecentas e noventa e três (793) ondas, das quais noventa e duas (92) foram classificadas como excelentes, cento e vinte e seis (126) como boas, setenta e cinco (75) como normais e cento e quarenta e duas (142) como fracas.
Vamos agora ver as estatísticas para as ondas que contaram para as classificações, ou seja, o conjunto de ondas que serviram para definir os “scores” de cada um dos atletas em cada um dos “heat’s”. Das duzentas e vinte e nove (229) ondas que contaram, oitenta e sete (87) foram excelentes, oitenta e duas (82) boas, trinta e três (33) normais e apenas vinte (20) foram classificadas como fracas. Em termos percentuais temos que, 74% das ondas foram classificadas de boas para cima, divididas em 38% para as excelentes e 36% para as boas, isto meus amigos, é a prova provada que a onda dos Supertubos em Peniche é de uma qualidade como poucas no mundo. Ainda a nível de curiosidade, a onda que fecha o “top 10” foi pontuada com um 9,77, sendo que as quatro primeiras são de nota máxima (10 pts).
Penso que estas estatísticas definem bem o que se passou durante este campeonato, e desafio desde já a apresentarem números de qualquer campeonato realizado em Portugal que se aproximem destes, inclusivamente aqueles que se realizaram na recém-galardoada Reserva Mundial de Surf (RMS).
Relativamente à estrutura montada na praia, considero que houve uma melhoria em relação ao ano anterior, e quero frisar especificamente o terem montado a área VIP fora do areal, bem como a montagem de duas bancadas em frente ao pico.
Chegou agora a altura de falar daquilo que não gostei, e como escrevi no primeiro editorial deste “site”, defenderei sempre o surf e os surfistas de Peniche, doa a quem doer…continuando, houve algumas coisas que já venho a não gostar desde o primeiro campeonato que aqui se realizou em 2009, e vou ser já muito directo, e dizer que acho uma vergonha a maneira como os surfistas locais são tratados pela organização deste evento, e obviamente refiro-me à Rip Curl, com a conivência da Câmara Municipal de Peniche, na pessoa do seu Presidente, António José Correia.
É verdadeiramente vergonhoso o desprezo a que os surfistas locais são votados, não se esqueçam, aqueles que são os únicos que dão o melhor que têm (ondas) e nada recebem em troca, ao serem frequentemente escorraçados de todas as áreas da estrutura montada na praia, em detrimento dos meninos residentes mais a sul, que ostentam orgulhosamente pulseiras de todas as cores com entrada escancarada para todo e qualquer lugar, isto é no mínimo revoltante para quem dá uma onda como a dos Supertubos para realizarem uma das melhores etapas do circuito mundial. Não tenham medo que os surfistas locais não têm nenhuma doença contagiosa, não tenham medo que os surfistas locais também se sabem comportar nos eventos sociais, também somos educados, também temos estudos, também sabemos conversar sobre assuntos interessantes, não somos nenhum bando de marginais que por acaso fazemos surf durante todo o ano em Peniche.
Por falar em eventos sociais, já no ano passado o disse, e volto a dizê-lo este ano: não percebo qual a razão de a festa de lançamento de um evento realizado em Peniche ser feita em Lisboa, a uma centena de quilómetros de distância. Se não for pela mesma razão que no ano passado avancei, de que seria para poupar o “jet set” alfacinha a uma viagem cansativa, só vejo mais uma, talvez tenham algum receio que este bando de marginais surfistas e residentes nesta terra de pescadores criem algum tipo de embaraço a convivas tão ilustres.
Avancemos, e agora Sr. Presidente, vai ter de me ouvir, pois sei que sabe gerir magnificamente o momento mediático, e tiro-lhe o chapéu por isso, não foi com certeza por acaso que escolheu os “heat’s” onde o Tiago Pires e o Kelly Slater estavam a competir para falar aos microfones na praia, fê-lo e muito bem, só não gostei foi de na entrega de prémios agradecer e pedir uma salva de palmas (e eu também aplaudi) a todos os surfistas e de não ter acrescentado algo do género: “e agora peço uma salva de palmas para todos os surfistas de Peniche, pois são eles os verdadeiros donos destas ondas onde foi realizado este excelente campeonato”, tinha-lhe ficado bem.
O Centro de Alto Rendimento serviu este ano para a conferência de imprensa de apresentação do campeonato, mais uma vez muito bem. Só não percebi uma coisa, mas por que raio foi o Senhor Presidente dar o nome de um dos quartos ao Tiago “Saca” Pires? Desculpe que lhe diga, mas fazendo uma analogia com o futebol, isso é a mesma coisa que o Pinto da Costa dar o nome do Eusébio a uma bancada no dragão. Coincidência ou não, pois a azia às vezes tem destas coisas, belo agradecimento o dele, com aquele gesto lindíssimo para a praia no fim do primeiro “heat” em que competiu. Tinha tantos nomes dentro do surf penicheiro para escolher, dou-lhe só dois ou três exemplos: um campeão da europa em bodyboard, uma surfista local, que foi só a primeira surfista em Portugal, um surfista e “shaper”, infelizmente já desaparecido, e um visionário para a época, que foi o primeiro a ter uma marca de pranchas (Papoa Surfboards) e uma fábrica em Peniche, para além de mais alguns surfistas locais emblemáticos.
O facto de Peniche (cidade) ter passado mais uma vez ao lado deste campeonato, já nem vou comentar, pois as razões são precisamente as mesmas do mesmo ter acontecido nos outros anos, e se assim continua é porque não há vontade para o mudar.
Termino, dizendo apenas que mostrámos mais uma vez aquilo que as nossas ondas valem, e que neste momento já não há ninguém no seu perfeito juízo no meio do surf que as possa colocar em causa, aliás, opinião unânime entre os surfistas que competem no “World Tour”, e é essa verdadeiramente a opinião que conta, e que nos deixa cheios de orgulho.
Venha 2012 que os Supertubos e os surfistas locais cá estarão para os receber, novamente com a mesma qualidade e simpatia, como é apanágio desta magnifica terra de surfistas e pescadores.
Nota
RECTIFICAÇÃO
Existe uma rectificação que se impõe ao artigo em cima, e assumo desde já o erro quando referi que no CAR Surf não tinha sido atribuido nenhum nome a um surfista local, não é verdade, foi atribuido o nome do Silvano Lourenço a um dos quartos. Aqui fica o meu pedido de desculpas a quem de direito. No entanto isto não invalida tudo o resto a que me referi relativamente aos surfistas locais.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Estórias do Surf - "LEFT CITY"

Escreve
José Miguel Nunes
[O autor surfando em 1989]Estaríamos nos finais dos anos oitenta, pois eu já fazia surf há pelo menos quatro ou cinco anos. O surf nesse dia era na Marques Neves, uma onda muito boa quando as condições de vento e“swell” se conjugam na perfeição.
O surf estava muito bom, com direitas compridas a atravessar toda a baia de pedra, vento “off-shore” fraquinho, o que fazia com que as ondas se apresentassem “glass”. Já não me lembro quem estava na água, seríamos aí uma dezena, entre eles estava o meu amigo Leopoldo, “shaper” local que me fez muitas e boas pranchas.
Numa altura em que os dois fizemos uma onda um a seguir ao outro, acabámos por nos encontrar no “inside” bem lá ao fundo até onde as ondas nos levavam, quando ele me desafia a ir apanhar umas na esquerda lá mais em baixo, a que chamamos de “Left City”, onde não estava ninguém. Fiquei um bocado indeciso, pois nunca tinha surfado lá, e naquele dia as ondas rondavam o metro e meio de altura, com a maré vazia, não me estava a sentir muito confortável, mas ele insistiu e lá fomos nós…
Left City é uma onda tubular, para a esquerda, faz lembrar os Supertubos, mas a rebentar em cima de um fundo de pedra raso. Mal chegámos ao pico, o Leo apanhou logo uma onda, e fez o respectivo tubo, volta para o pico e eu ainda não me tinha estreado. Elas passavam por mim, e eu nada, os “drops” estavam atrasados, com a água cristalina, via-se o fundo todo bem pertinho… de pedra.
Novo “set” entra e o Leo arranca novamente, outro tubo. Volta para o pico, e eu continuava em branco, a coisa não estava a correr bem. Diz-me ele: “atão” Zé, tão altas ondas…”, fiquei um pouco embaraçado, estavam altas ondas, só nós dois, e eu nada… Entra novo “set”, começámos a remar, e o Leo não parava de dizer: vai nessa, vai nessa, alta onda… não tinha outro remédio, tinha de ir… logo se via no que dava… arranquei bem posicionado, “drop” atrasado, bottom, e mete lá para dentro, tubo até ao fim, alta onda, vim a remar para o pico aos gritos: alta onda, alta onda…
Ganhei confiança, a partir daí não houve “set” em que não arrancasse numa, eu e ele claro. Foi um dia de surf inesquecível com muitos tubos, talvez um dos melhores dias de surf que tive.
Surfei mais algumas vezes, não muitas, em Left City, mas nunca mais lá apanhei ondas assim, esta surfada inesquecível devo a ao meu amigo Leopoldo… thanks Leo.
sábado, 16 de julho de 2011
Aldeia do Surf

Escreve
José Miguel Nunes
(PUBLICADO NO JORNAL PENICHE ONLINE EM 5 DE JULHO DE 2011)
Este ano fui à CONVENÇÃO SOU DE PENICHE, iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Peniche.
Depois de cinco edições, foi a primeira vez que participei nesta iniciativa, vamos ver se não será a última. O sentimento com que de lá saí, e à semelhança de outras iniciativas do mesmo género a que já assisti, foi de alguma frustração, ou seja, na sua essência a ideia é bastante interessante, mas depois em termos práticos esse interesse desvanece-se, e estou a referir-me obviamente só à apresentação da ALDEIA DO SURF, que foi aquela a que assisti com mais atenção.
O projecto Aldeia do Surf, foi uma apresentação repartida entre a Câmara Municipal de Peniche e a Rip Curl Portugal, primeiro através do arquitecto municipal responsável pelo projecto, e numa segunda fase pelo responsável da Rip Curl. Achei uma apresentação demasiado generalista, com pouco foco. Não posso dizer que tenha saído de lá muito mais esclarecido do que quando entrei, mas talvez isso seja um problema meu.
Do que consegui retirar da explicação, fiquei a saber que este projecto pretende implementar-se em terrenos municipais na zona próxima ao CAR Surf, o que basicamente quer dizer, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal, a possível reconversão do espaço hoje conhecido como Sportágua, e a construção de uma “megastore” da Rip Curl em terrenos próximos, é isto em termos muito gerais, porque a apresentação também o foi, a Aldeia do Surf. Para já é um projecto que na minha perspectiva pode ser muito interessante.
Vamos então tentar esmiuçar, dentro do possível, um pouco mais esta Aldeia do Surf.
Em primeiro lugar o nome Aldeia do Surf, que nas palavras do Sr. Presidente da Câmara poderá sofrer alteração, na minha opinião não valerá a pena, esta é uma excelente designação.
[Peniche. Sportágua. Foto JV, 2011]Segundo, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal. Era inevitável, com ou
sem Aldeia do Surf. Do que me pude aperceber, e aliás foi mencionado no decorrer da apresentação, pretende seguir uma linha muito próxima do existente na Ericeira, concordo, apesar de achar que há sempre lugar à inovação e à diferenciação. A oferta de alojamento e o aumento em termos de qualidade que proporcionará esta reconversão é sem dúvida importante (e esta é, ainda nas palavras do Sr. Presidente, uma das carências de Peniche, com a qual também concordo) para um projecto como este, no entanto na minha opinião não chega, pois os surfistas, ao contrário do que alguns ainda pensam e dizem, não procuram só este tipo de alojamentos, procuram também outros, nomeadamente hotéis, e existem dois ali bem perto, poderiam e deveriam também estes ser integrados nesta Aldeia do Surf com algum tipo de pareceria, que fosse de encontro aos desejos de maior conforto que alguns surfistas têm para as suas estadias, e que por outro lado abrisse o leque de futuros clientes a estas unidades hoteleiras.
Terceiro, Sportágua, bem quanto ao Sportágua não fiquei a saber nada de relevante, a não ser que se poderá pôr a hipótese de ser reconvertido e integrado na Aldeia do Surf. Também não é nada de extraordinário, pois é um espaço que tal como está obviamente não tem condições para continuar, é um espaço com potencialidades para poder ser aproveitado de uma outra forma, o conceito de “glamping” por exemplo seria bastante interessante e inovador integrado neste projecto e neste espaço.
Quarto, mega loja da Rip Curl. Ao que pude apurar, apostará na qualidade, pretendendo ser uma das melhores da marca na Europa, com variadíssimos espaços para além da loja em si, incluindo uma escola de surf. Se é importante, sim, acho que é, é sempre importante este tipo de infra-estruturas, mas é preciso ter alguma atenção. Não devemos esquecer que este tipo de empresas, e fruto das novas técnicas/tecnologias de mercado empregam muito poucas pessoas, não caíamos no erro de nos deslumbrarmos com o tamanho físico do projecto, facilitando mundos e fundos, que depois são muito desproporcionados relativamente às contrapartidas. Logicamente que não podemos falar só em empregos directos, seria no mínimo demagógico se o fizéssemos, mas tomando este caso como exemplo, a Rip Curl que está em Peniche há mais de vinte anos, emprega neste momento pouco mais de uma dezena de pessoas, e dessas apenas cerca de 28% são de Peniche. Se a nova mega loja empregar três vezes mais pessoas, e continuar na mesma proporção que tem actualmente, isto quer dizer que a criação de emprego para pessoas de Peniche se cifrará em cerca de oito postos de trabalho, o que na minha opinião é manifestamente pouco. Há sem dúvida aqui mais qualquer coisa a negociar com a Rip Curl.
[Peniche, Parque de Campismo. Foto JV, 2011]É verdade que a Rip Curl com o seu campeonato do World Tour em Peniche trouxe uma visibilidade enorme à terra, e que essa visibilidade se traduzirá inevitavelmente num aumento de turistas, é verdade que a Rip Curl nos últimos três anos já investiu em Peniche (leia-se, quase na totalidade Rip Curl Pro Portugal) cerca de três milhões de euros, mas também é verdade que o retorno foi essencialmente para a marca, e isto porque a qualidade das ondas de Peniche permitiu que o campeonato fosse um sucesso, é verdade que é extremamente importante que a Rip Curl continue em Peniche, mas também é verdade que é importante que a Rip Curl tenha a noção que pode ser muito mais “solidária” no apoio que pode prestar em diversas áreas para que o surf possa ser muito mais sustentável e transformar-se na mais-valia que realmente pode ser na precária economia local.
Em jeito de conclusão, acho que a Aldeia do Surf, como já disse anteriormente, é
realmente um projecto muito interessante, no entanto é preciso ter muita atenção aos pormenores, tendo sempre muito presente que o activo que são as ondas de Peniche, e muito particularmente a onda dos Supertubos têm muito valor, tanto para a Rip Curl, como para outra marca qualquer que tenha o seu “core business” nesta área, e é isto que temos de potenciar na negociação das contrapartidas, o valor das nossas ondas.
O patamar negocial agora já é outro, bem diferente daquele de há três anos atrás.
Conhecidos já nós somos, o nível e a qualidade das nossas ondas já todos sabem qual é, essa parte está feita, agora precisamos de estabilizar e credibilizar o surf e todo o negócio que o envolve com apoios sustentáveis em várias áreas de intervenção.
Não podemos aceitar como contrapartida de construção de um imóvel em terrenos municipais (± 2.400m2) apenas mais ou menos dinheiro para a realização de um campeonato, que mais ano menos ano até pode rumar a outras paragens, pois essa decisão não está unicamente dependente da Rip Curl,... e mesmo que estivesse.
Se queremos realmente que o surf traga algo de muito positivo para o crescimento económico de Peniche, temos de ser mais incisivos e duros na negociação com aqueles que maior partido tiram do nosso património natural, que são as ondas, canalizando as contrapartidas para algo sustentável, de modo a que no futuro tenhamos uma rede bem montada de infra-estruturas, que nos permitam ficar cada vez menos dependentes das variações negociais próprias dos grandes grupos empresariais.
Podemos e devemos ter como base importante de trabalho aquilo que de bom já foi feito noutros lugares, mas por favor, inovemos e marquemos a diferença, esta Aldeia do Surf pode e deve ser diferente, esta Aldeia do Surf pode e deve ter a nossa marca. Já agora, e a título de remate, porque não mesmo uma aldeia, com ruas e casas em madeira, um parque de campismo (mais pequeno) lá no meio, os hotéis, zona de “glamping”, mega loja de surf, o CAR Surf, e quem sabe, mercearia, lojas de aluguer e arranjo de pranchas, … e por aí fora.
Volto a dizer, este projecto da Aldeia do Surf parece-me realmente muito interessante, mas mais interessante ficará se for diferente e inovador.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Onda versus betão
Pequena nota
Este artigo foi publicado no Jornal de Peniche (on-line) em 1 do corrente.
JV

Escreve
José Miguel Nunes

A escolha era entre uma onda de qualidade mundial e a construção de um porto de águas profundas, ou dito de outra forma, a escolha era entre a preservação do nosso património e beleza natural e o betão armado para abrigar enormes monstros poluentes, era isto que estava em jogo.
A escolha foi a onda, e toda a beleza que a rodeia, foi a melhor escolha, foi a escolha mais acertada. No meu ponto de vista, uma decisão difícil, mas revelando uma enorme coragem, e acredito que não deve ter sido nada fácil, pois as pressões devem ter sido enormes.
Esta decisão para além de preservar o nosso património natural, assume de forma clara a nossa identidade. Peniche desde sempre foi uma terra ligada ao mar, Peniche desde sempre foi uma terra que retirou do mar o seu sustento. Assim é, e assim continuará a ser.
Chegou o momento em que a mudança de rumo era inevitável, mas o mar rodeia-nos e é a nossa base, é nele que temos inevitavelmente de nos apoiar, aliás, como sempre fizemos, e foi isso que esta decisão permitiu, continuar a apostar no mar, mas numa perspectiva de preservação e não de destruição, como até aqui aconteceu, e os exemplos estão aí e são muitos.
O turismo é a nossa tábua de salvação, no entanto era importante que nos diferenciássemos da concorrência. Turismo de toalha de praia e sol existe em milhentos locais, e em grande parte deles até melhor que o nosso, era importante então que apostássemos naquilo que temos melhor que os outros, e temos melhor que os outros, não o clima nem as praias, mas sim as ondas, as nossas ondas são sem sombra de dúvidas as melhores.
Esta decisão do Município, muito particularmente do seu presidente, foi bastante importante numa perspectiva de preservação natural e ambiental, por isso aqui fica o meu agradecimento, já chega de estragar o que a natureza nos ofereceu, temos é de potenciar esse património natural com que fomos abençoados.
Muito há ainda a fazer para que esta aposta seja sustentável e permita desenvolvimento económico à terra, mas esta decisão foi o ponto de partida, agora há que adequar uma série de medidas para que não caiamos na desorganização e na anarquia, como já aconteceu e acontece noutras partes do país e do mundo.
É absolutamente essencial que haja legislação especifica relativamente aos vários negócios relacionados com o surf e com este segmento do turismo. É importante não esquecer de incluir cláusulas que permitam a preservação da natureza e a preservação da identidade do local e dos surfistas locais, que são aqueles que mais abdicam e menos usufruem desta mediatização da sua terra e das suas ondas.
Foi há pouco tempo aprovado nos Açores um DL onde os planos de ordenamento aplicáveis à zona costeira definem áreas reservadas “à prática de desportos de ondas e de windsurf”, sendo que, nessas áreas, a prática daqueles desportos “tem precedência sobre todos os usos, incluindo o uso balnear”, este é um exemplo a seguir, mas há muito mais que tem de ser feito, para evitarmos ver acontecer nas nossas praias aquilo que aconteceu em França nos anos oitenta e noventa, e mais recentemente no sul de Portugal, com actos de violência praticados entre escolas de surf concorrentes em pleno areal.
Particularmente agradeço a escolha feita, e penso que as gerações futuras também, e falo em nome da minha filha, que neste momento tem cinco anos, e que graças a esta decisão terá a oportunidade de pelo menos poder continuar a brincar na praia, e talvez mais tarde possa levar lá os seus filhos, e estes os seus… numa areia e água limpas, sem gasóleos, óleos e grandes cargueiros como paisagem.
Obrigado António José Correia, obrigado por possibilitar que a minha filha possa vir no futuro a usufruir de uma onda de classe mundial, cumprindo assim o sonho de qualquer pai surfista, o que de certeza não aconteceria se a decisão tivesse sido a outra.
Este artigo foi publicado no Jornal de Peniche (on-line) em 1 do corrente.
JV

Escreve
José Miguel Nunes

A escolha era entre uma onda de qualidade mundial e a construção de um porto de águas profundas, ou dito de outra forma, a escolha era entre a preservação do nosso património e beleza natural e o betão armado para abrigar enormes monstros poluentes, era isto que estava em jogo.
A escolha foi a onda, e toda a beleza que a rodeia, foi a melhor escolha, foi a escolha mais acertada. No meu ponto de vista, uma decisão difícil, mas revelando uma enorme coragem, e acredito que não deve ter sido nada fácil, pois as pressões devem ter sido enormes.
Esta decisão para além de preservar o nosso património natural, assume de forma clara a nossa identidade. Peniche desde sempre foi uma terra ligada ao mar, Peniche desde sempre foi uma terra que retirou do mar o seu sustento. Assim é, e assim continuará a ser.
Chegou o momento em que a mudança de rumo era inevitável, mas o mar rodeia-nos e é a nossa base, é nele que temos inevitavelmente de nos apoiar, aliás, como sempre fizemos, e foi isso que esta decisão permitiu, continuar a apostar no mar, mas numa perspectiva de preservação e não de destruição, como até aqui aconteceu, e os exemplos estão aí e são muitos.
O turismo é a nossa tábua de salvação, no entanto era importante que nos diferenciássemos da concorrência. Turismo de toalha de praia e sol existe em milhentos locais, e em grande parte deles até melhor que o nosso, era importante então que apostássemos naquilo que temos melhor que os outros, e temos melhor que os outros, não o clima nem as praias, mas sim as ondas, as nossas ondas são sem sombra de dúvidas as melhores.
Esta decisão do Município, muito particularmente do seu presidente, foi bastante importante numa perspectiva de preservação natural e ambiental, por isso aqui fica o meu agradecimento, já chega de estragar o que a natureza nos ofereceu, temos é de potenciar esse património natural com que fomos abençoados.
Muito há ainda a fazer para que esta aposta seja sustentável e permita desenvolvimento económico à terra, mas esta decisão foi o ponto de partida, agora há que adequar uma série de medidas para que não caiamos na desorganização e na anarquia, como já aconteceu e acontece noutras partes do país e do mundo.
É absolutamente essencial que haja legislação especifica relativamente aos vários negócios relacionados com o surf e com este segmento do turismo. É importante não esquecer de incluir cláusulas que permitam a preservação da natureza e a preservação da identidade do local e dos surfistas locais, que são aqueles que mais abdicam e menos usufruem desta mediatização da sua terra e das suas ondas.
Foi há pouco tempo aprovado nos Açores um DL onde os planos de ordenamento aplicáveis à zona costeira definem áreas reservadas “à prática de desportos de ondas e de windsurf”, sendo que, nessas áreas, a prática daqueles desportos “tem precedência sobre todos os usos, incluindo o uso balnear”, este é um exemplo a seguir, mas há muito mais que tem de ser feito, para evitarmos ver acontecer nas nossas praias aquilo que aconteceu em França nos anos oitenta e noventa, e mais recentemente no sul de Portugal, com actos de violência praticados entre escolas de surf concorrentes em pleno areal.
Particularmente agradeço a escolha feita, e penso que as gerações futuras também, e falo em nome da minha filha, que neste momento tem cinco anos, e que graças a esta decisão terá a oportunidade de pelo menos poder continuar a brincar na praia, e talvez mais tarde possa levar lá os seus filhos, e estes os seus… numa areia e água limpas, sem gasóleos, óleos e grandes cargueiros como paisagem.
Obrigado António José Correia, obrigado por possibilitar que a minha filha possa vir no futuro a usufruir de uma onda de classe mundial, cumprindo assim o sonho de qualquer pai surfista, o que de certeza não aconteceria se a decisão tivesse sido a outra.
sábado, 6 de novembro de 2010
O Rip Curl Pro Peniche 2010... e mais qualquer coisa
Pequena nota
Com a devida vénia transcrevemos hoje o artigo publicado no Jornal de Peniche On Line, em 18 do passado mês, do nosso colaborador, José Miguel Nunes e que já mereceu a transcrição em órgãos da especialidade.
A sua visualização no original já ultrapassou o meio milhar.
Não fazendo parte de uma temática que nos interesse, tivemos contudo o cuidado de o ler e apreciar pelas interrogações que apresenta e pela colocação de dedos em algumas das feridas que o autor considera.
Possivelmente poderão existir alguns visitantes/leitores deste blogue que se interessem por estes assuntos.
JV

Escreve
José Miguel Nunes
Foto: Rui Alexandre/Supertubos Peniche Portugal
É sexta-feira, estou sentado na esplanada dos Supertubos, terminou o RIP CURL PRO PENICHE 2010 (eu gosto mais de lhe chamar assim do que RIP CURL PRO PORTUGAL, são coisas de quem está no surf não há dois anos, mas há mais de vinte), voltou a normalidade, estão meia dúzia de pessoas na praia, exceptuando o pessoal que ainda desmonta a estrutura.
Que grande campeonato que tivemos, arrisco a dizer que foi ainda melhor que o “THE SEARCH” no ano passado. Peniche e as suas ondas mostraram mais uma vez que são um local de excepção para a realização de eventos de surf, pois têm características que poucos locais no mundo podem apresentar.
Começámos com os “trials” na praia dos Supertubos, onde as ondas que partiram nesse dia fizeram jus ao nome da praia, não é preciso dizer mais.
A prova feminina teve lugar no Lagido, com ondas muito boas, e há quem diga, ideais para as meninas poderem mostrar todo o seu surf. Até aqui nada mais se poderia pedir nem a Neptuno, nem à organização.
No Domingo, dia 10, arranca a prova masculina nos Supertubos num mar muito forte, com ondas entre os 2 e os 2,5 metros, desorganizado, e a obrigar os atletas a um esforço enorme para poderem mostrar o porquê de serem a elite do surf mundial, quando nesse mesmo dia estavam a partir ondas muito melhores no Pico da Mota, o local alternativo desta prova, a organização lá teve as suas razões para esta opção. No dia seguinte os Supertubos voltam a estar de gala, como são exemplo, os sete tubos seguidos de Kelly Slater ou os nove de Travis Logie, foi um grande dia de surf.
Terça-feira, o "swell" caiu bastante, e então foi necessário rumar até ao Pico da Mota, que apesar das condições não serem as ideais, ainda deu para uma nota dez de Owen Wright e ver o Jadson André mandar dois aéreos na mesma onda, assistia-se a bom surf, era afinal para isto que o publico se deslocou até à praia, e as expectativas não estavam a sair goradas, bem pelo contrário.
Quarta-feira…, bem, quarta-feira deu para tudo, deu até para chegar aos Supertubos e ver ondas de dois metros a partirem perfeitas sem uma única pessoa dentro de água… e o campeonato a decorrer no Pico da Mota, com condições medianas, isto a rondar a hora de almoço, claro que no fim da tarde o cenário já não era este. Acredito que foi uma “borla” com que a organização quis brindar os surfistas que se deslocaram a Peniche para assistir à prova, assim também eles puderam usufruir dos Supertubos no seu melhor, é que isto afinal não é só para os “prós”.
Quinta-feira, dia de todas as decisões, novamente Supertubos, não de gala, mas com boas ondas, e até assim tudo correu de feição a quem estava a assistir à prova, pois para além do "show" de aéreos e “pauladas” animais com que os “prós” nos brindavam, o desejo da grande maioria dos espectadores era uma final entre os dois primeiros classificados do "ranking", e foi isso mesmo que aconteceu, faltava apenas a cereja no topo do bolo… e não é que Kelly Slater ultrapassou a sua "malapata" em território nacional com uma vitória que ficará para a história, tanto no surf Penicheiro, como no surf mundial, no mais que provável décimo título do melhor surfista de todos os tempos.
Foi sem dúvida um grande campeonato, mas isto já toda a gente disse, mais coisa menos coisa, é unânime a opinião relativamente a esta etapa e à qualidade das ondas de Peniche, aliás, diga-se em abono da verdade, se a qualidade das ondas de Peniche por alguma razão pudesse ser minimamente posta em causa, já aí estariam alguns em fila de espera para o levar para outras paragens, e não para tão longe de Peniche como possam imaginar, pois acreditem que existe por aí muita dor de cotovelo por Peniche ter uma prova do "World Tour".
E já que começámos a falar daquilo que ninguém abertamente diz, vamos continuar, e até podemos começar pela Tertúlia “Na onda do Surf: Desafios e Soluções”, ideia que me pareceu desde o início bastante engraçada, e que criou em mim alguma espectativa, no entanto esta gorou-se passados poucos minutos de lá estar. Em primeiro lugar notei a falta de um representante do Península de Peniche Surf Clube (PPSC) na mesa de convidados, já que o objectivo, e passo a citar, era: “Promover um espaço de diálogo e conversa sobre a prática do SURF, na perspectiva económica, financeira, social e desportiva e contextualizar esta modalidade no desenvolvimento local de Peniche…”, parece-me que faria todo o sentido, mas isto, obviamente é apenas a minha opinião. Em segundo, ouvi falar muito pouco do surf em Peniche, ouvi falar foi do surf a nível nacional e ouvi falar de muitas outras coisas que nada tinham a ver com surf, o que me leva a classificar aquela iniciativa como pouco mais que engraçada, valeu a ideia, esperemos que no futuro possa ser melhor aproveitada. Em terceiro, o que mais ouvi foi um verdadeiro desfilar de bajulações entre os presentes, e já agora, em jeito de esclarecimento, alguém da plateia agradeceu ao José Farinha, grande amigo meu por sinal, o facto de ter sido o primeiro a trazer fatos para Peniche, não é verdade, foi o Miguel Taveira, mas parece-me que o Miguel, e não sei qual a razão, já não entra nestas contas, parece haver um certo esquecimento relativamente a tudo aquilo que o Miguel representou para o surf em Portugal, mas para mim entra, e sempre entrará quando se falar de surf em Portugal, e principalmente de surf em Peniche, por isso aqui está a minha palavra para ele.
Agora relativamente à Rip Curl, a Rip Curl faz campeonatos em Peniche há vinte e dois anos, a Rip Curl veio instalar-se em Peniche por causa da onda dos Supertubos, antes da Rip Curl vir para Peniche já existia a onda dos Supertubos, e depois de a Rip Curl se ir embora de Peniche continuará a existir a onda dos Supertubos. É preciso que se diga que a onda dos Supertubos é um activo (economicamente falando) de Peniche e apenas e só temporariamente da Rip Curl.
[Cidade de Peniche. Rua Alexandre Herculano. Foto JV, 2010]
A Rip Curl aumentou o seu volume de vendas em um milhão e quinhentos mil euros depois do sucesso do “The Search” no ano passado, esse sucesso deveu-se em grande parte devido à enorme qualidade das ondas de Peniche. Tendo como termo de comparação que o Rip Curl Pro 2010 teve um investimento de um milhão e seiscentos mil euros por parte de todos os patrocinadores, parece-me que o negócio não é mau, pois só uma fatia desse investimento cabe à Rip Curl.
Voltando ao activo que é a onda dos Supertubos, e já que o sucesso da Rip Curl também passa pelo aproveitamento das condições que esta onda proporciona, acho que seria de toda a justiça que a Rip Curl apoiasse o clube de surf que representa os locais daquela onda, mas um apoio que seja consentâneo com o sucesso que a marca granjeou e granjeia pelo facto de aproveitar a excelência das ondas desta terra, e não uma migalha envergonhada só para dizerem que apoiam. A Rip Curl tem pelo menos o dever moral de o fazer, se não pelo facto de ganhar muito dinheiro por estar associada a uma das melhores ondas do mundo, então que seja pelo facto de ter sido extremamente bem recebida pela comunidade surfista local desde o primeiro dia em que chegou a Peniche. Possivelmente, o agora responsável pela Rip Curl não se lembra desse dia, mas eu lembro-me, e muitos outros surfistas de Peniche também se lembrarão, e acima de tudo sentíamos muito orgulho de uma marca como a Rip Curl ter escolhido Peniche para se implantar em Portugal, hoje não sei se será tanto assim… nós entrávamos na Rip Curl como se entrássemos em nossa casa, nós falávamos com os responsáveis máximos pela Rip Curl como amigos e surfistas que partilhávamos as mesmas ondas, os mesmos dias bons, os mesmos dias de “flat”, falávamos a mesma linguagem, hoje será assim? Não me parece, a Rip Curl tornou-se uma casa estranha para a maioria dos surfistas locais… no surf como eu o entendo, tem de haver mais qualquer coisa que não só o negócio, e essa qualquer coisa no meu ponto de vista está a perder-se na relação existente entre a Rip Curl e os surfistas de Peniche… é pena.
Ainda há mais qualquer coisa a dizer relativamente ao surf em Peniche, e agora não me refiro à Rip Curl, que é o seguinte: não se esqueçam que o surf em Peniche não são só os quinze dias de campeonato do "World Tour", com “prós”, imprensa e miúdas na praia por todo o lado, e depois esperar pelo próximo ano para andar novamente nas luzes da ribalta, não, o surf em Peniche é durante o ano todo com condições que não são as melhores, o surf em Peniche mais do que precisar (e precisa, sempre fui um dos seus maiores defensores) do campeonato do mundo cá, precisa de condições para os seus surfistas poderem praticar a modalidade que gostam com condições dignas para o fazer, e estou a falar de acessos às praias, estacionamentos, duches, praias sem a poluição como a que se vê no Molhe Leste e segurança com rondas por parte da polícia aos estacionamentos de modo a evitar assaltos e carros roubados.
Peniche cidade passou novamente ao lado deste evento, mas também não é de estranhar, não se passou nada em Peniche que fizesse com que as pessoas cá viessem, ao menos um concerto com bandas locais já era capaz de ter animado o fim-de-semana do meio da janela de espera, mas que admiração, pois se até a festa de lançamento deste evento que iria ser realizado em Peniche, nas ondas de Peniche, nas excelentes ondas de Peniche, teve lugar em Lisboa, a uma centena de quilómetros do local do evento, não percebo porquê, talvez tenha sido para o “jet set” alfacinha não ter de se deslocar até tão longe para participar nesta badalada festa, só pode.
Tivemos um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, podemos voltar a ter um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, como alguém já disse, poder podemos, mas não é a mesma coisa…
Com a devida vénia transcrevemos hoje o artigo publicado no Jornal de Peniche On Line, em 18 do passado mês, do nosso colaborador, José Miguel Nunes e que já mereceu a transcrição em órgãos da especialidade.
A sua visualização no original já ultrapassou o meio milhar.
Não fazendo parte de uma temática que nos interesse, tivemos contudo o cuidado de o ler e apreciar pelas interrogações que apresenta e pela colocação de dedos em algumas das feridas que o autor considera.
Possivelmente poderão existir alguns visitantes/leitores deste blogue que se interessem por estes assuntos.
JV

Escreve
José Miguel Nunes
Foto: Rui Alexandre/Supertubos Peniche PortugalÉ sexta-feira, estou sentado na esplanada dos Supertubos, terminou o RIP CURL PRO PENICHE 2010 (eu gosto mais de lhe chamar assim do que RIP CURL PRO PORTUGAL, são coisas de quem está no surf não há dois anos, mas há mais de vinte), voltou a normalidade, estão meia dúzia de pessoas na praia, exceptuando o pessoal que ainda desmonta a estrutura.
Que grande campeonato que tivemos, arrisco a dizer que foi ainda melhor que o “THE SEARCH” no ano passado. Peniche e as suas ondas mostraram mais uma vez que são um local de excepção para a realização de eventos de surf, pois têm características que poucos locais no mundo podem apresentar.
Começámos com os “trials” na praia dos Supertubos, onde as ondas que partiram nesse dia fizeram jus ao nome da praia, não é preciso dizer mais.
A prova feminina teve lugar no Lagido, com ondas muito boas, e há quem diga, ideais para as meninas poderem mostrar todo o seu surf. Até aqui nada mais se poderia pedir nem a Neptuno, nem à organização.
No Domingo, dia 10, arranca a prova masculina nos Supertubos num mar muito forte, com ondas entre os 2 e os 2,5 metros, desorganizado, e a obrigar os atletas a um esforço enorme para poderem mostrar o porquê de serem a elite do surf mundial, quando nesse mesmo dia estavam a partir ondas muito melhores no Pico da Mota, o local alternativo desta prova, a organização lá teve as suas razões para esta opção. No dia seguinte os Supertubos voltam a estar de gala, como são exemplo, os sete tubos seguidos de Kelly Slater ou os nove de Travis Logie, foi um grande dia de surf.
Terça-feira, o "swell" caiu bastante, e então foi necessário rumar até ao Pico da Mota, que apesar das condições não serem as ideais, ainda deu para uma nota dez de Owen Wright e ver o Jadson André mandar dois aéreos na mesma onda, assistia-se a bom surf, era afinal para isto que o publico se deslocou até à praia, e as expectativas não estavam a sair goradas, bem pelo contrário.
Quarta-feira…, bem, quarta-feira deu para tudo, deu até para chegar aos Supertubos e ver ondas de dois metros a partirem perfeitas sem uma única pessoa dentro de água… e o campeonato a decorrer no Pico da Mota, com condições medianas, isto a rondar a hora de almoço, claro que no fim da tarde o cenário já não era este. Acredito que foi uma “borla” com que a organização quis brindar os surfistas que se deslocaram a Peniche para assistir à prova, assim também eles puderam usufruir dos Supertubos no seu melhor, é que isto afinal não é só para os “prós”.
Quinta-feira, dia de todas as decisões, novamente Supertubos, não de gala, mas com boas ondas, e até assim tudo correu de feição a quem estava a assistir à prova, pois para além do "show" de aéreos e “pauladas” animais com que os “prós” nos brindavam, o desejo da grande maioria dos espectadores era uma final entre os dois primeiros classificados do "ranking", e foi isso mesmo que aconteceu, faltava apenas a cereja no topo do bolo… e não é que Kelly Slater ultrapassou a sua "malapata" em território nacional com uma vitória que ficará para a história, tanto no surf Penicheiro, como no surf mundial, no mais que provável décimo título do melhor surfista de todos os tempos.
Foi sem dúvida um grande campeonato, mas isto já toda a gente disse, mais coisa menos coisa, é unânime a opinião relativamente a esta etapa e à qualidade das ondas de Peniche, aliás, diga-se em abono da verdade, se a qualidade das ondas de Peniche por alguma razão pudesse ser minimamente posta em causa, já aí estariam alguns em fila de espera para o levar para outras paragens, e não para tão longe de Peniche como possam imaginar, pois acreditem que existe por aí muita dor de cotovelo por Peniche ter uma prova do "World Tour".
E já que começámos a falar daquilo que ninguém abertamente diz, vamos continuar, e até podemos começar pela Tertúlia “Na onda do Surf: Desafios e Soluções”, ideia que me pareceu desde o início bastante engraçada, e que criou em mim alguma espectativa, no entanto esta gorou-se passados poucos minutos de lá estar. Em primeiro lugar notei a falta de um representante do Península de Peniche Surf Clube (PPSC) na mesa de convidados, já que o objectivo, e passo a citar, era: “Promover um espaço de diálogo e conversa sobre a prática do SURF, na perspectiva económica, financeira, social e desportiva e contextualizar esta modalidade no desenvolvimento local de Peniche…”, parece-me que faria todo o sentido, mas isto, obviamente é apenas a minha opinião. Em segundo, ouvi falar muito pouco do surf em Peniche, ouvi falar foi do surf a nível nacional e ouvi falar de muitas outras coisas que nada tinham a ver com surf, o que me leva a classificar aquela iniciativa como pouco mais que engraçada, valeu a ideia, esperemos que no futuro possa ser melhor aproveitada. Em terceiro, o que mais ouvi foi um verdadeiro desfilar de bajulações entre os presentes, e já agora, em jeito de esclarecimento, alguém da plateia agradeceu ao José Farinha, grande amigo meu por sinal, o facto de ter sido o primeiro a trazer fatos para Peniche, não é verdade, foi o Miguel Taveira, mas parece-me que o Miguel, e não sei qual a razão, já não entra nestas contas, parece haver um certo esquecimento relativamente a tudo aquilo que o Miguel representou para o surf em Portugal, mas para mim entra, e sempre entrará quando se falar de surf em Portugal, e principalmente de surf em Peniche, por isso aqui está a minha palavra para ele.
Agora relativamente à Rip Curl, a Rip Curl faz campeonatos em Peniche há vinte e dois anos, a Rip Curl veio instalar-se em Peniche por causa da onda dos Supertubos, antes da Rip Curl vir para Peniche já existia a onda dos Supertubos, e depois de a Rip Curl se ir embora de Peniche continuará a existir a onda dos Supertubos. É preciso que se diga que a onda dos Supertubos é um activo (economicamente falando) de Peniche e apenas e só temporariamente da Rip Curl.
[Cidade de Peniche. Rua Alexandre Herculano. Foto JV, 2010]A Rip Curl aumentou o seu volume de vendas em um milhão e quinhentos mil euros depois do sucesso do “The Search” no ano passado, esse sucesso deveu-se em grande parte devido à enorme qualidade das ondas de Peniche. Tendo como termo de comparação que o Rip Curl Pro 2010 teve um investimento de um milhão e seiscentos mil euros por parte de todos os patrocinadores, parece-me que o negócio não é mau, pois só uma fatia desse investimento cabe à Rip Curl.
Voltando ao activo que é a onda dos Supertubos, e já que o sucesso da Rip Curl também passa pelo aproveitamento das condições que esta onda proporciona, acho que seria de toda a justiça que a Rip Curl apoiasse o clube de surf que representa os locais daquela onda, mas um apoio que seja consentâneo com o sucesso que a marca granjeou e granjeia pelo facto de aproveitar a excelência das ondas desta terra, e não uma migalha envergonhada só para dizerem que apoiam. A Rip Curl tem pelo menos o dever moral de o fazer, se não pelo facto de ganhar muito dinheiro por estar associada a uma das melhores ondas do mundo, então que seja pelo facto de ter sido extremamente bem recebida pela comunidade surfista local desde o primeiro dia em que chegou a Peniche. Possivelmente, o agora responsável pela Rip Curl não se lembra desse dia, mas eu lembro-me, e muitos outros surfistas de Peniche também se lembrarão, e acima de tudo sentíamos muito orgulho de uma marca como a Rip Curl ter escolhido Peniche para se implantar em Portugal, hoje não sei se será tanto assim… nós entrávamos na Rip Curl como se entrássemos em nossa casa, nós falávamos com os responsáveis máximos pela Rip Curl como amigos e surfistas que partilhávamos as mesmas ondas, os mesmos dias bons, os mesmos dias de “flat”, falávamos a mesma linguagem, hoje será assim? Não me parece, a Rip Curl tornou-se uma casa estranha para a maioria dos surfistas locais… no surf como eu o entendo, tem de haver mais qualquer coisa que não só o negócio, e essa qualquer coisa no meu ponto de vista está a perder-se na relação existente entre a Rip Curl e os surfistas de Peniche… é pena.
Ainda há mais qualquer coisa a dizer relativamente ao surf em Peniche, e agora não me refiro à Rip Curl, que é o seguinte: não se esqueçam que o surf em Peniche não são só os quinze dias de campeonato do "World Tour", com “prós”, imprensa e miúdas na praia por todo o lado, e depois esperar pelo próximo ano para andar novamente nas luzes da ribalta, não, o surf em Peniche é durante o ano todo com condições que não são as melhores, o surf em Peniche mais do que precisar (e precisa, sempre fui um dos seus maiores defensores) do campeonato do mundo cá, precisa de condições para os seus surfistas poderem praticar a modalidade que gostam com condições dignas para o fazer, e estou a falar de acessos às praias, estacionamentos, duches, praias sem a poluição como a que se vê no Molhe Leste e segurança com rondas por parte da polícia aos estacionamentos de modo a evitar assaltos e carros roubados.
Peniche cidade passou novamente ao lado deste evento, mas também não é de estranhar, não se passou nada em Peniche que fizesse com que as pessoas cá viessem, ao menos um concerto com bandas locais já era capaz de ter animado o fim-de-semana do meio da janela de espera, mas que admiração, pois se até a festa de lançamento deste evento que iria ser realizado em Peniche, nas ondas de Peniche, nas excelentes ondas de Peniche, teve lugar em Lisboa, a uma centena de quilómetros do local do evento, não percebo porquê, talvez tenha sido para o “jet set” alfacinha não ter de se deslocar até tão longe para participar nesta badalada festa, só pode.
Tivemos um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, podemos voltar a ter um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, como alguém já disse, poder podemos, mas não é a mesma coisa…
terça-feira, 30 de março de 2010
Uma pequena aventura nas Festas de Sanlúcar

Escreve
José Miguel Nunes
Há “estórias” que só se podem contar passados alguns anos, esta é uma delas.
Recuemos então 23 anos, até 1987. Eram as férias da Páscoa, e como acontecia todos os anos encontrava-me em Alcoutim a passar esses dias. As festas de Sanlúcar são por essa altura, e nesse ano coincidiram com os dias em que aí estava, pois nem sempre acontecia, umas vezes, um ou dois dias antes de chegar, outras vezes, um ou dois dias depois de me vir embora.
[Virgem de La Rábida]Tal como os espanhóis não falham as Festas de Alcoutim em Setembro, também nós não falhamos as deles, e claro, depois de jantar, lá pelas oito, nove horas, atravessámos o Guadiana em direcção a Espanha.
Nessa noite lá fomos nós em grupo até Sanlúcar, sinceramente já não me lembro nem quem, nem quantos éramos ao certo, mas entre amigos residentes em Alcoutim e outros vindo de fora, talvez fossemos aí uma dezena.
A festa estava animada em Sanlúcar, e claro o pessoal acabou por se dispersar, formando grupos mais pequenos. Uma “canha” aqui, uma “tapa” ali, com mais dois dedos de conversa, preferencialmente com alguma espanholita que sorrisse a uma piscadela de olho, lá iam passando as horas, sem que nos déssemos conta disso.
[Cais de Sanlúcar em 1986. Foto de JV]Eu tinha ficado com o..., chamemos-lhe J.A., e a determinada altura demos conta que já não estava por ali ninguém do pessoal, aliás, já estava muito pouca gente na rua, olhámos para o relógio e a hora marcava já umas quatro da manhã, portuguesas, pois na hora espanhola, temos que acrescentar mais uma. Bem, dirigimo-nos até ao cais na esperança de ainda por lá estar alguém que nos levasse para Alcoutim, mas nem vivalma.
Depois de alguma conversa do que iríamos fazer, o J.A., residente na vila, sabia onde morava o barqueiro, e queria ir lá bater à porta, para ele nos ir levar a Portugal, ao que eu lhe dizia que era melhor não, pois já era tarde e ainda íamos arranjar confusão, mas ele tanto insistiu que lá fomos. Claro que ninguém abriu a porta.
[Alcoutim e Sanlúcar num óleo de JV, 1973]Com isto, mais uma hora tinha passado. Viemos novamente para o cais e sentámo-nos nas escadas ao pé do rio, determinados a aguentar até de manhã e esperar que o barqueiro se levantasse e nos fosse levar. O grande problema é que o frio começava a apertar e tínhamos ainda pelo menos umas duas ou três horas de espera pela frente.
Começam então a germinar ideias para resolvermos a situação em que estávamos. O plano era simples: levar um barco dos que estavam atracados no cais, e a remos atravessávamos o rio, chegados a Alcoutim, íamos comer qualquer coisa a minha casa (onde eu estava sozinho, pois os meus pais ficavam em Afonso Vicente), vestíamos uma roupa mais quente e voltaríamos a Sanlúcar antes de nascer o dia, para depois regressarmos com o barqueiro e assim ninguém dava por nada … era o plano perfeito.
Bem pensado, melhor feito, agarrámos no barco e atravessámos o rio, ainda demos um pequeno encosto num iate que estava ancorado no meio do rio, mas nada de especial, acho que nem os tripulantes acordaram. Chegados à margem portuguesa, atracámos no cais velho, amarrámos bem o barco com uma das amarrações presa ao cais novo, e pusemo-nos a caminho de minha casa. A vila estava deserta, corria tudo às mil maravilhas. Comemos, vestimos uma roupinha mais quente, e preparávamo-nos para cumprir a segunda parte do plano, que basicamente era voltar a Espanha e deixar o barco no local de onde o tínhamos tirado. Como ainda tínhamos tempo, decidimos esperar mais um pouco, resultado, adormecemos…, acordámos já passava bem da hora de almoço. Bom, não tínhamos ido levar o barco, e isso ia dar alguma confusão na vila, pensámos nós, mas como ninguém nos tinha visto, até nem estávamos muito preocupados, não tínhamos estragado nada, só tínhamos trazido um barco “emprestado”, portanto, era só devolve-lo, nada mais simples.
[O cais novo nos dias de hoje. Foto JV]Decidimos então ir até lá abaixo ver se se passava alguma coisa. Ao chegarmos à Sociedade, logo encontrámos pessoal amigo que nos contam que o alarido era grande, pois alguém tinha roubado um barco em Espanha e que este tinha ficado pendurado no cais, pois quem o tinha feito, não tinha dado folga suficiente na amarração a fazer conta com o vazar da maré. Logicamente este pormenor não fazia parte do nosso plano, pois não tínhamos previsto adormecer.
Já no café do Carlos e com a Guarda Fiscal à mistura, invadiram-nos de perguntas, como tínhamos vindo, a que horas, com quem, ao que nós lá íamos respondendo conforme podíamos. Sem nos contradizermos, lá conseguimos sem grande dificuldade engendrar uma história mais ou menos fiável que nos ilibou daquela situação. Problema resolvido.
Pouco depois, e já estávamos nós descansados, chega-me aos ouvidos que alguém tinha visto alguma coisa: dois moços a chegar de barco já madrugada dentro. A coisa começou a complicar-se outra vez, mas esse alguém era e ainda é muito meu amigo, e tinha-nos realmente visto chegar e reconheceu-nos, conforme me disse, no entanto,não foi muito difícil depois de uma pequena conversa, convencê-lo a não nos denunciar.
Lá se entregou o barco aos espanhóis e passados uns dias já ninguém falava do assunto. Ficou apenas a recordação de mais uma aventura em Alcoutim.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Foi na Palmeira ...
Escreve
José Miguel Nunes
Há muito que não escrevia sobre Alcoutim, apesar de pensar nisso, mas é difícil. Ao ler o artigo “A Escola ... e o que vem a reboque”, da autoria do Sr. José Temudo, recordei eu também os meus primeiros anos de escola, mais precisamente na escola da Palmeira, onde frequentei a antiga segunda e terceira classes.
Não me lembro já quantos alunos éramos, poucos, talvez uns nove ou dez no máximo, os únicos nomes de que me lembro são os da Ilda, Isabel, Henrique, António e o irmão Carlos, acho que era assim que se chamava, e é só.
A escola da Palmeira ficava situada à entrada do “monte”, do lado direito, no sentido de quem chega. Era um edifício pequeno, com um hall de entrada e uma única sala. A professora, era a minha mãe, que dava as classes todas, duas coisas impensáveis hoje em dia, ser aluno da mãe, e a professora leccionar os anos todos na mesma sala ao mesmo tempo.
[Na escola da Palmeira, ano lectivo de 1977/78. O autor do texto é o do meio no primeiro plano e o Henrique o da esquerda, no segundo. Foto JV]A recordação mais viva que tenho daquele tempo, para além do episódio que tentarei descrever mais à frente, é o de irmos brincar para o pequeno riacho que passa lá em baixo, apanhar rãs e claro, fazer-lhes as judiarias próprias de miúdos daquela idade.
O Henrique era mais velho do que eu, aliás eram todos mais velhos do que eu, mas o Henrique já andava se não me engano na quarta classe, e de vez em quando dava-me uns carolos, talvez mais do que só “de vez em quando”, e eu, que nunca fui muito de me queixar aos meus pais, virava-me para ele e dizia-lhe: “qualquer dia pagas-mas”, ao que ele muito maior do que eu, naturalmente ria-se, e aproveitava para “molhar a sopa” outra vez.
Um dia, depois de levar mais uns cascudos do Henrique, deixei-o virar-me as costas e afastar-se, não disse nada, ele seguiu o seu caminho, descendo o morro até à estrada para ir para casa, e eu fiquei cá em cima. Agarrei numa pedra, e com toda a força que tinha lancei-a na sua direcção, ainda hoje tenho pontaria, mesmo em cheio na cabeça, “já mas pagaste”, pensei eu.
O pior foi que o resultado, não foi bem aquele que eu estava à espera, e fiz-lhe um buraco de todo o tamanho na cabeça, de tal forma que a minha mãe teve de agarrar nele e levá-lo ao hospital de Alcoutim para ser visto, pois a coisa estava mesmo feia, mas antes de ir disse-me: quando voltar logo conversamos. Fiquei aflito, primeiro pelo que tinha feito, mas acho que mais com a conversa que teria de ter.
Quando voltaram, chegou inevitavelmente a hora da tal conversa…, bem, esta resumiu-se a uma sova daquelas que nunca mais esqueci, provavelmente merecida, no entanto do Henrique não me lembro de nunca mais levar carolos.
A quarta classe já não a fiz na Palmeira, pois no ano seguinte mudámo-nos para o Cadaval, e assim a minha mãe deixou também de ser a minha professora. O Henrique nunca mais o vi, mas gostaria de um dia voltar a ver, possivelmente ainda se lembrará do dia em que lhe parti a cabeça.
Pequena nota
Lembro-me bem de toda esta “estória”, excepto dos “carolos”, de que só agora tive conhecimento pois o rapaz foi sempre ensinado a não ser “queixinhas” e a resolver os seus problemas. Resolveu um, mas criou outro!
O Henrique, que nunca mais vi é, segundo me informaram agente policial e certamente também não teria esquecido este acontecimento.
Nunca foi do nosso agrado o rapaz ser aluno da mãe mas na altura era a única hipótese que considerámos viável.
JV
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