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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Irá perder-se a vetusta Igreja da Misericórdia de Alcoutim?

Pequena nota

Apresentamos hoje o último artigo, que tenhamos conhecimento, publicado pelo nosso saudoso Amigo. Não sei, mas possivelmente este teria sido o último.

Nesta altura e são passados trinta e sete anos, já eu escrevinhava sobre Alcoutim e Luís Cunha, pelo que me dizia, era um dos meus leitores.

Sou eu o amigo que lhe deu a conhecer o que ia acontecer à Igreja da Misericórdia e lhe pedi para escrever algo, como ele sabia, para denunciar a situação e tentar chamar a atenção para o facto.

Concordou inteiramente com a minha opinião, como se deduz do texto e teria libertado a sua consciência, como bom filho que era desta terra.

Já se sabia que de nada iria servir. Mais ninguém levantou a sua voz. O que eu me apercebia é que toda a gente estava satisfeita por ir ter um Centro de Saúde – não existia o mínimo de sensibilidade para defender o seu património. Todo o altar e arco triunfal de pintura marmórea penso que da época de D. João VI foram arrasados.

A filha de um alcoutenense que presidiu à Câmara resgatou num amontoado de tábuas que ia para o lixo, o brasão real de D. João VI. As próprias pedras sepulcrais foram mudadas do seu lugar de origem.

A Igreja ficou reduzida a metade e transformou-se numa simples capela mortuária, sem qualquer interesse artístico.

Confesso que me sinto reconfortado por ter dado a conhecer a muitos leitores deste blogue esta série de artigos muitíssimo bem escritos por este nosso saudoso Amigo e que de outra maneira seria muito mais difícil conhecer

A foto amavelmente cedida por sua filha, Dra. Margarida Cunha, partilho-a com os leitores nesta “postagem”.


JV






Escreve


Luís Cunha



(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE, nº 861, de 22 de Setembro de 1973)

Mais pelas tropelias dos homens que por efeito das partidas que o tem às vezes prega, pouco se sabe do passado de Alcoutim.

Os arquivos municipais, ao que cremos, nunca foram vasculhados por alguém habilitado, e, pelo menos à primeira vista, os mais antigos documentos ali existentes, são os diários das sessões a partir de mil oitocentos e vinte e tal, já que uma das primeiras registadas é a consagrada ao juramento da Constituição de 1820 decretada por D. João VI em 1825. Vários incêndios e outros acidentes dão causa a essa raridade.

O alcaide da vizinha S. Lucar contava terem existido no seu “ayuntamiento” ou na Igreja local, inúmeros livros levados de Alcoutim durante a dominação e que desapareceram.

As tropas napoleónicas também por cá fizeram tropelias, segundo parece e a seguir o bando de salteadores que acompanhava o Remechido incendiou por duas vezes a Câmara e demais repartições. Talvez por tudo isto não exista nada anterior a essa data.

Na década de 30 do presente século – diz-se – saiu da Câmara enormíssima quantidade de papeis vendida a farrapeiros. Pomos isso em dúvida, pensando tratar-se de satisfação a algum apelo dos arquivos históricos, na recolha de documentos. Certo é que, pelo caminho da procura de documentos, quer localmente, quer em Lisboa, onde já foi tentada, pouco se tem conseguido. Um amigo radicado há anos em Alcoutim e que por natural temperamento dedica parte do seu tempo a este género de pesquisas, tem-se visto em embaraços por esta razão. Deste modo, restar-nos ia a tradição oral, outrora muitíssimo rica, mas até dela estamos privados porque os que a podiam haver transmitido, desapareceram sem ter a quem fazê-lo.



Vem este largo preâmbulo a propósito do perigo que corre a velha igreja da Misericórdia de Alcoutim, a qual, segundo parece, vai ser destruída na sua parte mais importante (altar, arco triunfal, lápides sepulcrais e porta lateral encimada por um lintel de 1628) para adaptação a Centro de Saúde.

[Lintel de 1628 (*). Foto JV]

É na realidade lamentável, não só porque sempre será mau o remedeio – com perdão por meter foice em seara alheia – como por se perder o que tanto esforço e abnegação custou a essa pobre Irmandade, das primeiras a fundar-se no Reino, e que, sempre pobre e sem auxílios externos, tudo deveu ao muito carinho das antigas populações concelhias. Desconhece-se a data rigorosa da sua fundação, mas se em uma das pedras sepulcrais se assinala 1513 como a de um passamento, é evidente que a igreja lhe será anterior. De qualquer modo, mesmo que de 1513, terá sido das primeiras do País, já que a instalação da Irmandade em Portugal se deve a frei Miguel de Contreiras, em 1498, durante a regência de D. Leonor, viúva de D. João II, na ausência em Espanha de seu irmão D. Manuel.

Não podemos deixar de fazer coro nas lamentações do amigo que de Alcoutim nos presta tais informes porque, se a terra é de si tão pobre, como privá-la mais ainda, derrotando o pouco que lhe resta?

[Luís Cunha. Foto gentilmente cedida por sua filha, Dra. Margarida Cunha]

Ali bem perto, na Praça da República, exibem-se vergonhosamente, uma velha cadeia em ruínas e um grande quintalão anexo, cujos muros, no mesmo estado, fazem ao visitante a pior apresentação possível da vila, dois autênticos mamarrachos, que não podiam ter melhor utilização, resolvendo de uma vez dois grandes problemas; a falta de hospital e o saneamento da praça.


[A igreja da Misericórdia em 1970, por isso antes de parte ter sido anexado ao Centro de Saúde. Foto JV]


A benemérita instituição, com seus períodos altos e baixos, prestou até tempos recentes, inestimáveis serviços mas no princípio deste século entrava definitivamente em decadência. Conhecemos-lhe ainda a altruísta missão do transporte de todos os falecidos pobres e o não pouco arriscado serviço durante a “pneumónica”.

Um idoso e pobre amigo do monte de Afonso Vicente, a propósito da extrema miséria que o lançara na necessidade de este4nder a mão à caridade pública, contava-nos, há anos uma antiga forma de caridade tradicional cuja belisca não resistimos à tentação de relatar.

Em tempos antigos – disse-nos – existia em quase todos os montes uma casita chamada dos pobres e que mais propriamente se destinava às pessoas em trânsito, porque se desconheciam então no concelho quaisquer pedintes. Para os indivíduos com as suas actuais condições, sem familiares e incapazes de mais nada, agia-se muito singelamente da maneira seguinte: nessa casita, pertença da Irmandade, existia um dos seus hábitos com capuz e uma alcofa.

As amassaduras faziam-se so sábado e em nenhuma faltava o pão ou “brendeiro”para o necessitado. À meia noite, um dos irmãos, embuçado, percorria as casas e depositava a colheita à porta do pobre. Sem ficar especialmente devedor a qualquer, este não era nunca o menos beneficiado, pois de tudo ali vinha em quantidade mais que suficiente para a semana.

No princípio deste século as coisas já se tinham modificado bastante e a Irmandade atravessava um período de crise, mas a emigração é que acabou de arruinar a vida dos campos. Os velhos e inválidos que restam quase não agricultam e só raramente engordam o porquito. Recebem dos ausentes o dinheiro com que adquirem tudo, por vezes até temperos, e se naquela antiga forma nada lhe custava dar um pão ou naco de toucinho, são agora incapazes de ceder um só tostão, norma até há bem pouco praticamente desconhecida na terra. Daí a extrema penúria em que se encontrava aquele amigo.

É deveras curiosa a explicação simplista que a seguir nos deu, do encadeamento de circunstâncias conducente a este estado de coisas: substituição do arado pela charrua, constituição do trigo em produto de venda como efeito de legislação moageira que, encerrando azenhas e moinhos de vento, obrigou os homens a isso; esgotamento e degradação dos solos por falta de pousios e, por fim, emigração em massa.

Embora discordando de tão singela explicação, já que não existe entre o progresso e a caridade o mais pequeno ponto de atrito ou incompatibilidade, lamentamos que ela haja pura e simplesmente desaparecido, em vez de evoluir, acompanhando nesse mesmo progresso a abertura da inteligência às novas condições.

Quanto à iminência de destruição da parte da igreja da Misericórdia mais valera estarmos enganados em tal suposição por não haver modo de podermos concordar com ela, não considerando que seja a única nem a melhor solução, pois o que irremediavelmente se destrói, mal resolve, se é que o faz, o que se propõe e relega “ad vitam aeternam” a questão dos dois mamarrachos que apontámos.


Nota
(*)
- Esta porta com a adaptação ao Centro de Saúde foi retirada à igreja e englobada naquele. A fotografia é recente e por ela se vê a pouco sensibilidade que existe para preservar o património visto não ter havido o cuidado de o mandar proteger, evitando o que aconteceu, ficou pintado.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em Alcoutim: Outro interessante "desporto" à disposição dos jovens

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 14 DE JULHO DE 1973)







Escreve


Luís Cunha


[O castelo velho de Alcoutim visto do Guadiana]

À ordem natural das coisas, não podem assacar-se os vícios da injustiça e avareza na distribuição de benesses. E assim é que o completo isolamento que colocou os povos do interior do concelho de Alcoutim para lá de tudo, quase no fim do mundo, lhes deu, em contrapartida, um viver virtuoso, difícil de achar em qualquer outra parte. E só assim se entende também, que essa área de brenhas desérticas e condições sobre certos aspectos tão pouco atractivas, haja sido dotada de tão extraordinária faceta da ocultação de tesouros e encantamentos. Oferecendo-o à avidez de jovens aventureiros para a prática do desporto de caça de tesouros com detector portátil, falámos antes dos muitos que os guerrilhas deixaram enterrados pelas serras de Vaqueiros, Odeleite, possivelmente Cachopo e Ameixial.

Vejamos, de seguida, o que Alcoutim propõe para esse outro jovem, o romântico e imaginativo cavaleiro sulino que Cervantes tão genialmente pôs a errar a trote: para este, a tradição conta-nos algo de fabuloso e lendário fascínio.

Logo ali acima, mil e quinhentos metros a montante, o cerro do Castelo Velho ou “dos Mouros”, debruça-se sobre o rio; o cume não vai além de cento e cinquenta metros, mas as vertentes norte, sul e nascente, de rocha viva de xisto, descaem tão abruptamente que mal se pode caminhar por elas.


[O castelo velho de Alcoutim segundo Duarte de Armas, séc.XVI]
Terminado em bico agudo, tem lá no alto os socos quase desaparecidos dum pequeníssimo castelo que se diz mourisco mas cujas reduzidas dimensões e estranha configuração o tornam muito enigmático; castelo, simples casamata ou torre quadrada de 30 a 40 metros de lado, mal se pode imaginar empoleirada no bico daquela agulha, onde dá a sensação de ir desmoronar-se ao menor sopro.

A seu respeito, reza a lenda que uma enorme serpente de fartas sobrancelhas (encantamento de princesa moura), vem à meia-noite de S. João, estirar-se em duas azinheiras do barranco, à beira do caminho, solicitando o bravo cavaleiro que, deixando-se por ela beijar e abraçar, quebrará o encanto. A linda princesa e o fabuloso tesouro de jóias e pedrarias variadas que os subterrâneos do castelo ciosamente escondem, serão o justo prémio desse arrojo. E é grande a expectativa, porque não consta que o desencantamento se tenha dado até hoje.

Em fins do século passado ou princípios deste, apareceram em Alcoutim três árabes ou turcos, procurando o cerro da Cabeça do Cão. Como ninguém soubesse elucidá-los, desapareceram da vila, mas dias depois eram observados em pesquisas junto à foz do Vascão. Daí se foram, ao que parece sem encontrar o que procuravam.

A lenda acrescenta a este facto verídico, que os mouros que por séculos estagiaram pelas arribas do rio, por aí deixaram muitos outros tesouros enterrados, na esperança do regresso.

É mais uma “sobremesa” que Alcoutim oferece – esta agora só para jovens varonis, como é de ver.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Novo e interessante "desporto" para o qual muito se presta a região de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE Nº 847, DE 16 DE JUNHO DE 1973)





Escreve

Luís Cunha




Muitos dos nossos avós de Alcoutim eram analfabetos, porque só existiam escolas nas sedes das freguesias. O único processo de não esquecer e perpetuar o repositório de lendas e tradições, bem como as próprias experiências, era a transmissão por via oral. Daí o grande desenvolvimento da memória e riqueza de pormenores de seus curiosos relatos.

Vamos reavivar um deles, interessante narrativa que nos é sugerida pela notícia de um novo desporto em voga nos Estados Unidos e que com ela tem alguns pontos de relação. Por meio de pequeno detector portátil, os americanos entretêm-se a buscar tesouros ocultos; a prática é de sempre mas a novidade e fazerem dela um desporto.

Vejamos o que a velhice de Alcoutim tem a dizer-nos, relacionado com isto: O Remechido deambulou cerca de 10 anos pelas serras do Algarve que martirizou de uma ponta a outra. Quando em 1838 foi preso pelas forças fiéis a D. Maria II, a maior parte dos que o acompanhavam não o fazia por motivos políticos; eram camponeses de vários bandos de salteadores que de há muito infestavam as serras, desde Monchique às margens do Guadiana, e se lhe haviam agregado.

Aos políticos foram perdoados os delitos, pelo que regressaram às suas terras, mas os outros, com crimes e pilhagens imperdoáveis às costas, viram-se em sérios apuros porque a batida em forma lhes não deixava em toda a serra buraco ou esconderijo seguro. Um dos seus últimos e até aí invioláveis redutos, era a região quase inacessível de Vaqueiros a Odeleite, onde se acoitaram, por fim; mas nem aí acharam a desejada segurança, porque algumas designações locais a eles referidas despertaram a atenção dos batedores.

[O monte do Tesouro. Foto JV, 2009]

Acossados nessa guerra sem quartel e na ânsia de libertar-se de estorvos e compromissos, os vários bandos do grupo, que se espiavam mutuamente, trataram de esconder nos lugares ínvios da serrania onde o ferro do arado não meteu dente até hoje, o fruto das pilhagens de muitos anos, Com a pressa, esqueceram ou menosprezaram o montanheiro que de perto se espreitava e, lesto, se apossou de quanto viu esconder.

Muitos foram mortos e outros presos, pelo que, diz-se, há ainda tesouros por encontrar. São em grande parte conhecidas as rixas e desavenças a que deram lugar as partilhas entre os que dos primeiros se apossaram. Houve famílias que carregando com tudo o que o monte lhe propunha dividir, desapareceram sem deixar rasto. Outras vezes criaram-se desentendimentos de tal ordem que ainda se mantêm.

A um amigo, digno de todo o crédito, ouvimos há pouco que assistira em garoto a uma dessas partilhas de libras que se mediam aos sacos e, por entre muitas outras peripécias, os velhos apontavam o caso de um saco cheio, desenterrado à noite por um grupo e guardado na casa de um deles, ter sido encontrado na manhã seguinte com metade das libras e a outra metamorfoseada em pedras.

Mais recentemente, o ferro da charrua esbarra de quando em vez com cestos e panelas de barro velho cujo conteúdo os achadores não publicam. Curiosamente, um dos montes do concelho ostenta o nome de Tesouro, desconhecendo-se se o que lhe deu tal nome foi ou não algum achado.

[Alcoutim, porto acostável. Foto JV, 2010]

Mencionámos outras vezes como o Guadiana e suas margens se propõem complementar o turismo balnear fornecendo-lhe elementos em falta: a panorâmica contrastante e sempre vária do rio, desportos náuticos praticáveis todo o ano, pesca desportiva do barbo e outros, em represas a construir para isso, pousadas de descanso ou recuperação em locais apropriados e caça das espécies para o turismo de Inverno. Onde tudo o mais falta. Isto seria uma achega, talvez insuficiente para contentar por muito tempo o espírito aventureiro dos moços de hoje, os “mangas de camisa” que, estuantes de vida e ávidos de correr seus riscos, enjeitam todo o paternalismo e caminhos traçados, preferindo meter pelas veredas e atalhos do desconhecido. Há, por isso, que dar-lhes outras oportunidades, e era oferecendo a essa juventude irrequieta o aliciante do novo0 “desporto” que Alcoutim ajudaria a rebater a enervante arguição de que o Sotavento algarvio, além da amenidade climática e benignidade dos espaçosos areais, nada mais tem para dar ao turista.

Comum aos dois sexos – escusado é dizê-lo – o referido “desporto” abre-se ao cultivo das energias físicas e virtudes da alma, como um ilimitado campo de experiências.

Do alto das serranias, olhai a vastidão da Natureza, virgem de poluição. E enquanto o fizerdes, achareis outro, o maior dos tesouros: a cura repousante do espírito pela distracção de preocupações activas e das agruras do dia a dia.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Uma estrada marginal ligando Alcoutim a Castro Marim oferecia extensa zona venatória ao turismo do Algarve

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 7 DE ABRIL DE 1973)




Escreve


Luís Cunha




O moderno cais de Alcoutim, onde podem acostar barcos de mais de duas mil toneladas, veio como “sopas depois de almoço”.

O seu período de actividade, breve como as rosas de Malherb, reduziu-se, quando muito, a uma década.

Cerca de cinquenta metros a montante, o outro cais, velhinho, desempenhara com garbo as suas funções desde tempos imemoriais, e se na sua tardia aposentação, muito depois da idade aconselhável, algumas culpas houve, tal se deve aos “médicos” da Junta que só, ao entardecer acordaram, e nanja a ele.

A estrada que de Alcoutim leva à aldeia do Pereiro, Martinlongo, Cachopo e por aí além, começa no velho cais. Nas portas da vila, ditas de Mértola, uma placa de mármore assinalava a sua inauguração, no reinado de D. Luís. Diz-se que obedeceu à necessidade de o príncipe D. Carlos ir caçar às “chadas” (planuras) de Pereiro e Martinlongo. Fosse como fosse, observado do rio, o cais é emoldurado por um muralhão de 15 ou 20 metros de alto onde outra placa com os dizeres em romano, comemora a visita de D. João VI.

O cais defendia a terra, do lado do rio e a estrada que até ao cais atravessa a vila, drena as chuvas da parte alta por meio de uma valeta encostada à muralha. Ao chegar ao cais, existia – e ainda hoje lá está – uma enorme placa de xisto fazendo de ponte sobre essa valeta. Era o ponto de apoio das pranchas que a nossa mocidade utilizava, brincando ao baloiço. Enquanto os pesos se equilibravam, a subir e descer, tudo eram encantos, mas o trambolhão estava mais que certo quando, numa das extremidades, se sentava algum mais volumoso.



Visando a nossa segurança, uma ou outra vez a sentinela da Guarda Fiscal punha o bando em alvoroçada correria. Do alto da muralha para onde nos escapulíamos, crivávamo-lo de insultos, quando não de pedradas; e no entanto o homem agira protegendo-nos paternalmente.

Era o começa da contestação, da necessidade de correr o risco de conta própria; muito mais idoso que aquela, representava o tempo do analfabetismo, em que à noite, à lareira, a idade pontificava como portadora e fiel intérprete da tradição. Sem que disso nos apercebêssemos, tinham passado os tempos em que o homem só o era portas a dentro, limitando-se, de fora, à surda ameaça entre dentes: “quando passares à minha porta tu verás como é”.

Os tempos, porém estão mudados, ninguém carece de convite para entrar em casa alheia – noção que deixou de ter significado – onde não existem portas ou, se as há, não têm fechadura ou tranca; tudo é de todos e nada é em particular de alguém: todos somos “santos” da auréola, e para em qualquer parte tomar um café ou bebida, dispensamos convites do dono da casa (outra noção inexistente).

Com estes considerandos quase perdemos o fio à meada. Historiávamos o baloiço quando se verificava desequilíbrio entre os participantes. Ao tocar o chão com violência, a parte pesada cuspia o desgraçado que ocupava o outro extremo.



O movimento, a vida, geram-se assim da coordenação de heterogéneos ; o equilíbrio perfeito é lapso momentâneo, pois se durável, é água podre, é morte. Porém, se o desequilíbrio ou desnível não for o apropriado aos fins da acção, ter-se-á tudo , quiçá uma explosão, menos o resultado pretendido.

Queríamos aventar com isto, que, no nosso caso, o grande desnível cultural e económico dos contactos turísticos levará á subordinação do mais fraco – com perdão dos que não admitem sublinhados, porque, dizem, em cultura não há altos nem baixos, sendo cada um simplesmente o que é – levará à subordinação, dizíamos, se perdendo o carácter de movimento se torner em barreiras permanentes e fixas de isolamento. É um ponto de vista que não exclui nenhum dos numerosos pontos que à volta do mesmo facto se podem considerar.

Acreditando que os erros, todo o erro, se deve ir diariamente emendando é sempre tempo de dar remédio a alguns se os há, e de, com tal experiência, obviar a que se instalem nas regiões virgens.

O progresso – quem tal diria! – tornando desnecessário o Guadiana, lançou Alcoutim na maior miséria e esquecimento que possa imaginar-se. Não é cruzamento de vias de comunicação nem término de nenhuma, não é região mineira, agrícola ou industrial; não é porto, nem possui qualquer predicado que a torne apetecida. A estes desencorajantes factores de ordem natural acrescem os de ordem humana, pois a população não oferece a menor garantia de sobrevivência.

Por tudo isto e sem qualquer outra saída, pretende-se a exploração turística. Podendo em boas condições, fornecer ao turismo balnear algo que lhe falta, queria-se fosse um dos seus complementos.

Só complemento e nada mais que isso; que se torne fonte de energias e vida segura e duradoira para que os ao longo dos tempos lhe sofreram as agruras. Há, assim, que afastar da região o espírito de desenfreada ganância. Problema enorme que envolve técnicas de várias especialidades, requere-se-lhe equipa competente, porque há por aí erros que fizeram história e que se devem ao facto de um abalizado técnico no seu ramo ser desde logo o perito indispensável em todos os outros.



A voz do povo, que não será neste caso a mais autorizada, aponta a necessidade de muitas ou de todas as infra-estruturas: pousadas marginais e interiores aqui e além, onde o0 caçador descansará; uma ponte sobre a ribeira de Cadavais para retirar à vila o carácter de beco e dar-lhe saída para o ar livre; a abertura da fronteira com a irmã “siamesa” S. Lucar, o que o tratado luso-espanhol de 1960 previa mas nunca foi feito; a florestação maciça (problema dos problemas, em nosso modesto entender) uma vez que os terrenos, pelo menos até hoje se mostram totalmente inaptos à agricultura, e os matos de estevas, tojos e xaraguaços não permitem a criação de qualquer espécie de gados, e, por último, a abertura de uma estrada marginal ligando a Castro Marim.

Este que colocámos em último lugar, resolveria (opinião geral) todas as dificuldades, dispensando outras propagandas e reclamos. Estamos de acordo quanto a esses resultados mas, da nossa conta, acrescentamos todos os perigos que temos vindo a apontar.

Pesem embora as guias que nos fornecem as experiências já feitas, o problema em nada perde a sua transcendência.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

«Merenda» a aproveitar na região de Alcoutim

Pequena nota
Mais um texto escrito pelo nosso saudoso Amigo há trinta e sete anos!
Mais uma vez a sua visão, conhecimento da região e cultura estão patentes e se olharmos para o presente vamos encontrar ainda que naturalmente em formas diversificadas os coutos cinegéticos, as pousadas ou o aproveitamento do rio.
Mais uma vez patente o que costumo afirmar:- Luís Cunha fazia a diferença em Alcoutim.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 10 DE MARÇO DE 1973)




Escreve

Luís Cunha







“Quem quer figos, quem quer merendar?!” Este grito que outrora ecoava, repercutido, pelas estreitas vielas de Lisboa, deixou de ouvir-se nas avenidas da nova metrópole. Não sendo dali, os figos constituíam tributo da gente provinciana, a mimosear o cidadão lisboeta, adoçando-lhe a boca. Mas, ou porque parecia mal continuarem manchando a modernizada majestade, ou porque a enxurrada provinciana de onde os figos provinham, abafando, maculasse os privilégios fidalgos, o certo é que este e outros pregões, acabaram por desaparecer com escândalo e mágoa dos saudosistas, adoradores do “sol-poente”.

Modernas tendências para a diversificação e as especializações, caracterizam a juventude amante do “sol-nado”, que, à certeza do descanso que a calma noite garante, prefere a dos riscos do dia cheio de perigosa inovação.

Estes sentimentos subtraíram à capital outras honras de exclusivos, como o de o Algarve, hoje e muito justamente, embandeirar em capital turística do País.

[O Guadiana em Alcoutim. Foto JV, 2009]

Berrado do Guadiana, de Alcoutim, cá aparece, ressuscitado, o velho pregão: quem quer figos, quem quer merendar?! E que figos são esses que agora a terra montanheira se propõe ofertar à capital do turismo? O que se oferece, para adoçar a boca, que na capital e zona balnear não exista? O que é isto que nos vem dos serros, gritado da rua?

O turista – sabe-se – saturado de um ano inteiro de vida rotineira, refastela-se por uns dias ao sol ardente dos argênteos areais da praia, mas a natural monotonia desse ambiente cedo deixa de ser a novidade que procurava, o diferente, a carne em sangue para melhor dizer. A mais concludente prova disto, temo-la em que a excelência sem igual dos espaçosos areais, a amenidade da temperatura das águas e clima do Sotavento, não conseguem, por falta de complementos, deixá-lo competir com o Barlavento. E ai de nós se para subtrair o turista ao bocejo do enfado ensaiamos oferecer-lhe a estafa física da caça e dos desportos náuticos, esse complemento diferente, essa “carne fresca” que a região serrana põe, como figos maduros, como merendinha, à disposição do infatigável Nenrode, caçador de emoções.

Em cada curva perenemente verde, o rio maravilhoso parece abruptamente acabar, mas, de súbito, nova e majestosa paisagem se oferece e o peito e respiração se oprimem ante a iminência de esmagamento de encontro aos contrafortes das curvas, que logo se dilatam em inefável gozo, no desfrute da novidade.



Em sua terra, o turista – referimo-nos às massas – jamais teve oportunidade de pensar em ser um dia caçador de perdizes ou de correr a lebre a cavalo. Ora, aqui está outra “merendinha”com a qual Alcoutim pode facilmente brindá-lo. Pelas condições naturais e povoamento disperso em aglomerados distantes que hoje são quase desertos, a região presta-se às mil maravilhas à criação da perdiz, lebre, coelho e possivelmente de alguma pequena gazela, pouco maior que a lebre, que habita as montanhas do Riff, de clima sensivelmente igual ao nosso. Bastaria, constituir uma coutada municipal a isso destinada e, aqui e além, pousadas devidamente apetrechadas para o efeito.

As águas do Guadiana, segundo o abalizado parecer de ictiólogos cujo nome não nos ocorre, são as melhores para a procriação do barbo, que chega a atingir mais de 12 quilos. Em qualquer dos inúmeros barrancos e grandes ribeiras do concelho seria fácil construir pequenas represas para sua criação, de molde a proporcionar abundância de pesca desportiva.

Muitos outros motivos há, na região alcoutinense, para ofertar ao turismo de movimento, aquele que espalha dinheiro e difunde cultura, mas as condições climáticas – ar extremamente seco e salutar – bem como o calmo sossego que nas zonas menos expostas, poderia conservar-se, seriam aliciante convite a esse outro turista que procura ou necessita de repouso.

[O Guadiana à Lourinhã]

Pergunta-se, então: neste Sotavento sem outra variante para o turismo balnear, não será antiturismo o deixar apodrecer nas árvores os figos maduros, estas merendinhas a oferecer-se a quem quiser colhê-los?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Caminhos e estradas são suprema aspiração da gente de Vaqueiros

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 10 DE FEVEREIRO DE 1973)








Escreve


Luís Cunha





[Vista parcial da aldeia de Vaqueiros. Foto JV, Maio de 2010]

Indiferente aspo politiquices dos homens e muito antes de dividir Portugal e Espanha, o Guadiana Cavava profundamente o seu leito em terrenos de xisto. A aridez desértica que esta rocha imprime ao ambiente é a mesma nas duas margens; ar extremamente seco, puro e saudável: verificando-se chuvas escassas e irregulares durante um curto período de três meses, ausência total de nascidios ou fontes superficiais, por falta de infiltrações e vegetação arbustiva de xerófilas desérticas.

Escaldada por um largo e ardente Verão de nove meses, eis uma região pavorosamente bela.

Nos pequeníssimos cercados (instituição que, como as hortas, parece de origem mourisca) à volta dos povoados, os homens plantam árvores: amendoeiras, oliveiras, alfarrobeiras e outras necessitando de pouca água. Fora disso, tudo são escampados, muito embora, espaçados, aparecem como testemunhos de florestação espontânea a azinheira e sobreiro.

Num Dário das Sessões da Câmara de Alcoutim da década de 30 ou 40 do século passado, vimos que eram postas em praça as rendas dos montados para pascigo de porcos. A essa praça concorriam gentes de Loulé, Tavira e Mértola, e daí o concluirmos que a região fora outrora densamente povoada dessa espécie. Corroborava esta crença a narrativa que um velho amigo à muito nos fizera, de como alguns indivíduos haviam granjeado fortuna nos primeiros anos deste século, fornecendo lenha e carvão para o comboio, acabado de chegar a Vila Real de Santo António e de como assim se havia despovoado a serra.

Em recente visita à freguesia de Vaqueiros, de ponto em que se divisa enormíssima extensão de 15 a 20 quilómetros, Espanha a dentro, verificámos, no lado espanhol, a mesma total ausência de arborização, com o que essa crença se nos desvaneceu. As azinheiras que se vêem dispersas podem ser testemunha de muitas outras mais, mas nanja da florestação densa que imagináramos.

A existência de animais bravios de grande porte: javalis, veados e possivelmente zebras e lobos, essa é que os diários das sessões camarárias confirmam pelas muitas batidas ali determinadas e ainda por se não poder pensar que o príncipe D. Carlos fosse a Alcoutim caçar perdizes ou lebres, como em Aveiro, na década de 30, nos testemunhou um senhor idoso, fidalgo de origem, que fora amigo do príncipe e à vila algarvia o acompanhara em digressão venatória.


Mas, o que agora pretendíamos era falar da freguesia de Vaqueiros, a bela serrana daquele concelho.

Com a curiosidade espicaçada por sugestiva e interessante narrativa de um amigo, e no intuito de conhecer de perto as condições que nos descrevia, fomos de abalada até lá.

A estrada que deverá um dia (?) atravessar a ribeira atravessar a ribeira de Odeleite e, prolongando-se, ir entroncar em outra do concelho de Tavira, vai já alguns quilómetros além da aldeia, mas ficou-se, há uns oito ou dez anos, nos primeiros acidentes dos contrafortes onde começam as enrugadíssimas vertentes da ribeira. Daí se avista, em horizonte, extraordinariamente lato, a maioria dos povoados da freguesia, as serranias que do planalto levam ao Guadiana e algumas dezenas de quilómetros de terra espanhola.

A visita fez-se no Verão em período de completo repouso estacional. Agrestes e completamente escalvados, os enormes serros em que o xisto aflora por toda a parte, não mostram uma só árvore, uma só folha verde, o que confere pavorosa desolação à majestade da paisagem.

[Magnífica vista das serranias de Vaqueiros. Foto JV, 2009]

Alcandorados nas dobras da serrania, os pequeninos agregados de 8 a 10 famílias, isolados uns dos outros por enormes distâncias e de todo o mundo pelo esquecimento, vegetam em apavorante estagnação, sem comércio nem meios de comunicação. Sem preocupação com as comodidades de acesso, ou talvez melhor, em conformidade com os transportes da época – a pé ou a cavalo – a sua implantação nessas tremendas pregas da serra obedeceu a considerações de natureza agrícola, com uma organização social e económica de agricultura familiar fechada, sendo notória a debilidade de recursos, a monocultura do trigo com fins exclusivos de sustentação e o aparecimento, aqui e além, de indícios de que por meio de poços se poderia conseguir água para consumo alimentar.

À volta dos poços se instalaram as gentes e tudo assim resta hoje adormecido, como que inacessível ao progresso, justificando as lamentações daquele nosso amigo: Nada tem de novo esta situação de miséria de que só agora se toma consciência desde que a emigração em procura de trabalho fornece ao homem novo padrão para aferi-la.

A deserção da população válida, acarreta a necessidade de renovação de que os velhos são incapazes pelo que a perpetuidade de tão exíguos agrupamentos se acha perigosamente ameaçada. É uma situação gritantemente dramática; - “os vivos – diz o nosso amigo – queixam-se que os mortos os matam no caminho para o cemitério da aldeia” porque as veredas vicinais, estreitas e desniveladas, não comportam a passagem de dois homens a par.

[O monte do Pomar encravado na serra. Foto JV, 2009]

Até há bem pouco tempo, e possivelmente ainda hoje, de um ou outro monte – o que o nosso amigo teria calado supondo tremenda injúria – os mortos eram conduzidos a dorso de burro, amarrados entre dois molhos de palha.

Várias designações locais – Horta dos Guerrilhas, Cemitério dos Guerrilhas – testemunham a assiduidade do celebrado Remechido por terras de Vaqueiros, sabendo-se ter incendiado duas vezes as repartições de Alcoutim onde não encontrou dinheiro.

A gente de Vaqueiros é a melhor que conhecemos e bem pouco pedem, os pobres, para o muito de que precisam e merecem: reclamam caminhos e estradas, mas entendemos que algo mais seria justo dar-lhes.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Velhos usos de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 3 DE FEVEREIRO DE 1973)

Pequena nota

É este o primeiro artigo que conhecemos, publicado pelo nosso saudoso Amigo no Jornal do Algarve.
Acabámos por transcrevê-lo a pp 261 a 263 do nosso trabalho,” Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia” Ed. CMA, 1985 pelos motivos que lá indicamos.
Temos a possibilidade hoje de enriquecer o texto com duas fotografias de dois casamentos, um realizado em 18 de Outubro de 1936, já se passaram 73 anos e o outro a que assistimos em 12 de Maio de 1968.
O primeiro referido é de D. Berta Cunha Martins, irmã de Luís Cunha, com o Sr. Leopoldo Vicente Martins há muito falecidos e o segundo dos nossos Amigos, Maria Catarina Xavier e de Francisco Coelho que felizmente estão entre nós e são todos alcoutenejos.
Presto assim uma pequena homenagem aos dois casais.

JV








Escreve

Luís Cunha




Desapareceu há anos uma interessante praxe a que obedeciam os casamentos camponeses de Alcoutim.

Com vista a assistir a todos os ritos de um que se realizava a rigor nos primeiros anos da década de vinte, para o qual éramos convidado do noivo, fomos para o monte das Cortes das Pereiras na véspera à tarde. Os convidados dele e dela, formavam em separado, como se fora luta entre bandos: quem sabe se disso não haveria reminiscência?

Ao cair da noite, o grupo de que fazíamos parte reuniu numa taberna e o outro, noutra. À lareira uns cavaqueavam relembrando peripécias passadas; ao lado disputava-se o cálice de aguardente em renhida partida de “truco” (jogo de cartas, segundo parece de paternidade algarvia mas que a juventude desconhece), e já alegrotes, alguns entravam a versalhar.

Assim se fez a fria noitada, até ao alvorecer. Pouco antes do romper do sol o grupo abalou, pé ante pé, no mais completo silêncio como quem vai a assalto ou a pilhar galinhas. Do outro grupo, nem rastos. No mesmo silêncio chegámos a casa da noiva onde um homem se destacou, batendo ao de leve sem resposta; insistiu com um pouco mais de força mas o resultado foi o mesmo, e por fim, quase violentando a porta e praguejando que aquilo mais parecia cemitério, excitou uma voz de dentro que, indignada, acusava o desacato a tais horas e inquiria o que se pretendia.



Travou-se em seguida interessante debate em verso que estamos agora a lamentar não ter escrito; dizendo-se procurador de outrem, o de fora tecia-lhe extraordinário panegírico, com exaltação das virtudes do bom tom local, habilidade inexcedível nisto e naquilo, homem às direitas em tudo o mais, o lavrar sem lobas (curvas nos regos da lavoura atribuíveis a fraqueza de pulso) e ao qual parelha alguma meteria medo, etc. etc,

Sem se deixar impressionar, o de dentro, também em verso, cortava-lhe de quando em quando a verve: que tinha bem entendido tudo mas que à rosa que ali guardava a bom recato não bastava o já dito e que apresentasse outras virtudes do pretendente, se a isso se supunha com direitos. Com trocadilhos de cá e de lá e risota geral, a versalhada continuou até ao dia romper.

Simulando surripiar-se, o noivo foi para as traseiras e enquanto procedia ao rapto da bem-amada, a barulheira aumentava dos dois lados. Para felicidade do jovem casal, a noiva devia ser por ele retirada a pulso, por uma janela térrea, sem tocar com os pés no parapeito.

De súbito, rompeu de dentro medonho escarcéu, com pedidos de socorro e rebate a ladrão. A rosa fora roubada!

Seguido por todos os outros, o jovem par fugia no mesmo cavalo, a caminho da vila, a cuja entrada parou para se formar o cortejo, como o de qualquer outro casório.


Para contar um velho uso que só por tradição conhecemos, abrimos aqui um grande parêntesis: em tempos antigos, só à terceira tentativa do padre e depois de ostensivamente muito espicaçada pela madrinha, a noiva dava o sim; de contrário, dir-se-ia estar a rebentar por casar, o que não ficava bem. Porém, um belo dia, como a noiva não respondesse à primeira, o padre António, sem mais aquelas, mandou-os ter juízo e que voltassem daí a oito dias. Escapou-se para a sacristia e o pior é que encasmurrou e nem todos os rogos e amizades da vila conseguiram demovê-lo. Consta ter sido aquela a última vez que tal prática se usou, pois daí em diante, ainda o padre não abria a boca e já tinha a resposta adiantada.

Voltando ao casório; depois das formalidades da vila, formou-se à saída o processo de regresso: a gente nova alinhou para a fogaça que consistia numa prova de perícia em que, partindo os concorrentes ao mesmo tempo, ganhava o que, chegando em primeiro lugar ao monte se apossava do “bolo” que depois oferecia ao noivo para partir. Cuida-se que isto simbolizaria a virgindade da nubente.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Alcoutim aguarda confiante que a abertura da barra restitua ao Guadiana o papel de elo de ligação

Pequena nota
Com este artigo que pensamos ter sido publicado no Diário Popular em 1968 termina a colaboração do nosso saudoso Amigo com a imprensa diária, colaboração que veio a ser premiada com um prémio pecuniário ao correspondente.
Anos depois, Luís Cunha dá início a uma nova colaboração, agora com a imprensa regional, por intermédio do Jornal do Algarve.

JV






Escreve

Luís Cunha






[O Guadiana na sua foz, em Vila Real de Santo António]

Como teste de vitalidade e segura esperança num futuro promissivo, não se abre hoje jornal algum em que se não contenham notícias denunciando o caminho certo afinal encontrado:- é aqui uma fábrica nova dando emprego a milhares de braços e alimento a milhares de bocas; - além uma outra sociedade com igual promessa, enquanto algures se instalam linhas de montagem de autos ou tractores, motos, geradores, “contactores” e sabe-se lá que mais de complicada aparelhagem eléctrica e industrial de toda a qualidade e uso.

É uma azáfama de manifestações criadoras por todo o Portugal d`aquém e d`além mar apertando mais e mais os velhos laços de família dispersa.

São fantásticas barragens, fontes novas e energia e riqueza, alicerces sólidos da edificação, pilares básicos dum movimento progressivamente ascensional.

Factores de toda a ordem, geográficos, económicos e sociais condicionam a escolha dos locais em que se ergue, -aproveitando em melhores condições as riquezas naturais do solo, aqui se monta uma nova indústria e ali uma outra de produtos de exportação beneficiando dos factores do porto; - cá é a densidade da população propícia ao recrutamento de mão de obra; - lá a própria vontade do industrial na concentração de interesses e mais longe ainda a privilegiada posição de encruzilhada.

Por todo o mundo português a vida se agita nesse impulso criador ao ritmo acelerado do jacto.

Fábricas em comboio, florestas de chaminés, é isto que diariamente os jornais anunciam: - o homem vencendo as mais adversas condições.

Mas não é justo esperar, nem talvez de desejar, que em um todo tão vasto e heterogéneo as vença a todas a um tempo.

Daí que algumas regiões dispondo de enormes reservas, riquezas potenciais, aguardem confiantes a oportunidade.

É o caso de Alcoutim medindo ainda o tempo pelo cantar do galo e altura do sol, e o espaço pela jeira e passadas do burro: - espera que a abertura da barra, restituindo ao Guadiana o papel de elo de ligação, sugira em algum espírito audacioso os benefícios que a região oferece a qualquer indústria dependente de transporte de matérias primas em quantidade e a grandes distâncias.

Alcoutim prepara-se entusiástica e confiadamente para a sua oportunidade, para não receber de chofre o primeiro impulso.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Alcoutim anseia naturalmente à vida

(ENVIADO PARA PUBLICAÇÃO NO DIÁRIO POPULAR EM 30 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota
Mais um excelente artigo do nosso colaborador póstumo que parece ter sido escrito ontem, tal a actualidade que grande parte apresenta.
O autor, como já informámos os leitores, deixou de dar título aos artigos, ficando este à disposição do jornal.
Não sabemos se o artigo foi publicado, mas pensamos que sim, apesar da referência à catastrófica campanha do trigo.
O título foi tirado do texto.

JV







Escreve

Luís Cunha



Na medida em que este concelho de Alcoutim, mercê de contratempos vários, vê descer em quantidade e qualidade os seus efectivos humanos ao mínimo biológico, à zona em que começa a tornar-se perigosa a sustentação, torna-se evidente a imperiosa necessidade de acudir-lhe com recursos substanciais de toda a ordem.

A magreza dos solos completamente esgotados, a debilidade económica e o atraso cultural das populações, restante da emigração – velhos rotineiros e inválidos - , não oferecem a menor garantia de conservação e existência dos quadros da hierarquia social, e muito menos, como é evidente, de com eles compor os mecanismos indispensáveis a uma necessária renovação.

[Seara. Foto JV, Maio 2010]

O acerbo do problema justifica plenamente um cuidadoso estudo, por equipa de técnicos competentes, das potencialidades inexploradas da região, estudo que nunca pecará se insistir com particular atenção nas peculiaridades deste homem xerófilo, seco como a terra em que vive e que não sente de água a menor necessidade.

A concorrência altamente infeliz de factores de ordem natural e humana, geram um condicionalismo impeditivo da continuação desse antigo modo de vida de uma agricultura de simples sustentação com o trigo por base:- completamente isolado e à margem de toda a comunicação, sem riquezas mineiras ou quaisquer outras que uma estrada possa valorizar tornando-as utilidade a satisfazer necessidades humanas, com solos paupérrimos e sem juventude capaz de adaptações a novos processos, afigura-se indispensável, embora todos os prejuízos apontados, a transformação desta agricultura contingente em outro sistema económico de maior segurança.

A arborização em larga escala a que os solos de xisto foliáceo parecem prestar-se, poderia constituir, quando conjugada com o trigo de sustentação e uma rudimentar criação de gado, um finca pé a outro modo de vida, mas esta transformação do sistema de simples celeiro ou despensa em armazém de sobras, implica tremendas e complexas adaptações para cujo estudo se requer a mais prudente cautela.

[Maioral com o seu rebanho. Foto JV, Maio de 2010]

A moto-mecanização é naturalmente indispensável mas como técnica superior ao nível cultural do indígena, requer um especial cuidado de uso a fim de se não repetirem os distúrbios a que deu lugar ultimamente a substituição do velho arado pela charrua que elevando temporariamente a produção muito acima dos máximos económicos redundou cedo na total degradação dos solos, frustrando todas as promessas.

Alcoutim anseia naturalmente à vida, mas os seus caminhos são incomensuravelmente grandes para tão pequenas posses.

Daí o apelar auxílio confiante em que este não faltará no momento oportuno, superando todos esses embaraços.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vaqueiros, a freguesia serrana (...)

Pequena nota
Vamos hoje publicar mais um artigo do nosso saudoso amigo, Luís Cunha que foi publicado no Diário Popular, desconhecendo quando mas que o foi efectivamente após 23 de Maio de 1968, data em que foi enviado.
O autor não lhe dá título certamente porque os que enviou anteriormente foram alterados pelo jornal. Como não possuímos o jornal mas só a cópia do que foi enviado, optámos por ir buscar o título às primeiras palavras que o autor escreveu.

JV






Escreve

Luís Cunha



Vaqueiros, a freguesia serrana do concelho de Alcoutim, é talada no seu maior comprimento pelas duas enormes ribeiras da Foupana e Odeleite.

Uma curta estrada de poucos quilómetros, única em toda a freguesia, que se destinava a dar acesso às povoações totalmente isoladas, vai ligeiramente além da aldeia de Vaqueiros e termina ao encontrar os primeiros acidentes da vertente de Odeleite.

Daí se avista uma panorâmica de extraordinária grandiosidade:- mo emaranhado confuso das pregas, encobertos pelas dobras do enrugamento, anicham-se em pequenos aglomerados populacionais; - mais além as serranias da vertente portuguesa do Guadiana e lá ao fundo, a alguns quilómetros, as do lado espanhol.

É uma região de estranha beleza a que o escalvado dos serros confere pavorosa desolação.

Nela se implantaram esses pequenos povoados, sem preocupações com as comodidades de acesso, ou melhor, em conformidade com os meios da época – a pé ou cavalo – e tudo assim resta ainda hoje, adormecido, inacessível ao progresso, totalmente isolado e a enormes distâncias, sem comércio, sem sobras numa agricultura de fome.

[A aldeia de Vaqueiros nos dias de hoje.]

Até há bem poucos anos, o transporte dos mortos para o cemitério da aldeia, fazia-se com o cadáver amarado entre dois molhos de palha no dorso de um burro, uso que terminaria pela afronta e vexame ante os de fora mas ainda agora o povo diz que “ao mortos matam os vivos no caminho” tal o acidentado que só permite estreitas veredas de pé posto onde não cabem dois homens a par.

A designação porque são conhecidos alguns lugares “Horta dos guerrilhas”. “Cemitério dos guerrilhas”, informam-nos ter a região sido assolada com alguma insistência pelas famosas hostes do celebrado “Remexido” que se sabe ter atacado também a vila de Alcoutim incendiando a Câmara e demais repartições.

Povo pobre e atrasado mas de boa índole, a emigração levou-lhe a mocidade, e os efectivos que restam, clamam e bem merecem, pela continuação de duas estradas começadas há anos e que se destinavam a ligar os povoados cortando perpendicularmente as ribeiras. – Bem pouco pedem para o muito que precisam.


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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Uma vila esquecida que seria estância ideal e boa terra para repouso

Pequena nota
Mais um interessante texto saído da pena do nosso saudoso amigo. Aquilo que nele preconiza há 42 anos, é hoje uma realidade, não no castelo mas junto ao Guadiana, já que o castelo acabou por ter um destino talvez mais adequado. O “elefante branco” é hoje uma referência de Alcoutim.
JV








Escreve

Luís Cunha



Para sair da longa e debilitante letargia em que se encontra, Alcoutim tem muitos problemas a enfrentar: uns de desenvolvimento a ritmo lento e outros a requererem explosão instantânea, a todos se tornando necessário lançar mecha cedo e a um tempo, para conseguir frutificação imediata e continuada.

Se o viajante vagabundo, para escapar ao ramerrão diário da vida sedentária, em cata do natural, da carne em sangue, põe a deambular o espírito nómada e aventureiro do avô caçador-pastor, e, se por outro lado, temos de evitar-lhe o bocejo de enfado que a monotonia provoca, se é assim, esta região, esta região de Alcoutim a 30 km de Monte Gordo, com tudo o que tem de diferente, de sempre diferente, constitui, sem dúvida alguma, o complemento ideal e indispensável para fazer dessa estância balnear o todo turístico, o tal triângulo turístico.

O passeio fluvial Guadiana acima, que até para os que diariamente o percorriam aparecia como coisa sempre nova, e o salutar exercício físico da caça que aqui abunda e que para saciar esse velho espírito de caçador do Norte poderia reservar-se-lhe, seriam a sobremesa, os “figos maduros” que Alcoutim põe gratuitamente à disposição desses exploradores das estâncias balneares para mimosear seus hóspedes.

Pasma-se do seu total e desconcertante alheamento nesta colheita de “figos maduros”, sem planto.

Se as praias deste lado oferecem indubitavelmente muito melhores condições climáticas e espaciais, e o turista as deserta em favor do Barlavento, parece dever concluir-se logicamente que lhe não basta a excelência dessas condições, quando solitárias, quando desacompanhadas de elementos complementares contrastantes.



É isto que Alcoutim, tal qual é, oferece sem outro preparo, aquilo que é diferente e capaz de satisfazer a procura curiosa, mas porque o sempre belo também cansa, se o mesmo caçador e o próprio gavião pousam para descansar, Alcoutim precisa de uma pousada no velho castelo0 com panorâmica grandiosa sobre o rio.

A hipótese foi aventada em 1965, a quando, nesse mesmo local, Sua Excelência o Venerando Chefe do Estado repousava para merendar, mas não teve até hoje seguimento. Por isso se requer para o alvitre a atenção generosa das entidades competentes.

N.I. O autor intitulou o artigo de “FIGOS MADUROS” mas que o jornal substituiu.
(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR DE 17 DE MAIO DE 1968)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Alcoutim e S. Lucar (Vilas de Portugal e de Espanha) devem reatar a amizade que as unia

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR (LISBOA) DE 13 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota
Publicamos hoje, na nossa rubrica Ecos da Imprensa mais um texto de autoria do nosso saudoso Amigo, Luís Cunha, publicado num jornal diário há 42 anos. Apesar da distância, mantém alguma actualidade e um regalo de leitura.
Quantos leitores do ALCOUTIM LIVRE tinham conhecimento deste texto? Muito poucos para não dizer nenhuns.
É mais uma razão para a sua publicação e homenagem ao seu autor.

JV







Escreve
Luís Cunha



Em tempos longínquos, que ficaram para além do nosso conhecimento directo, um feliz concurso de circunstâncias favoráveis proporcionava o esplendor e fortuna desta terra.

Alcoutim e a fronteira vila espanhola de San Lucar eram “irmãs siamesas” que o Guadiana ligava como veia de seiva corrente.

Entre elas havia-se estabelecido um extraordinário intercâmbio comercial de gado grosso, cavalar e muar, e vasta comunicação humana em termos de verdadeira amizade e sob todos os pontos de vista.

Os cruzamentos sanguíneos mais apertavam esses laços, e ainda hoje, bastos anos decorridos, todos os estabelecimentos agrícolas marginando aquele lado do rio são dos descendentes desses velhos portugueses.

No campo espiritual, em comunhão simpática, o português conferia animação aos festejos e diversões espanholas – que sem isso não se efectuariam – e vice-versa. A coisa chegava a ponto de o ser português ou espanhol em nada importar no derimir de uma pendência.

[A foto publicada com o texto, "Uma vista de S. Lucar, vila espanhola separada de Alcoutim (que se vê ao fundo) pelo Guadiana", não é esta que foi tirada por mim, em sentido contrário, em 1973]

Pode com facilidade crer-se que a origem comum esteja na base destes factos e que o isolamento em que ambas se encontravam do resto dos respectivos países constituísse forte contributo para a conservação do passado.

Quando o nosso próprio conhecimento começa, já as coisas não eram bem assim, apesar de existir ainda abundante comércio de vários artigos e frequentes contactos pessoais.

A guerra civil espanhola pôs fim a tudo isso. A rígida interdição de comunicações retirando ao rio a função de elo de ligação fez dele barreira isoladora, agente responsável de distinção, e, ao terminar, o estado dos ânimos não era de molde a facilitar retorno ao passado.

Depois de toda essa experiência, os dois povos reconhecem hoje a necessidade de arrimar-se na defesa da sobrevivência.

O acordo luso-espanhol de 1960 criou no seu conteúdo os meios indispensáveis à abertura da fronteira ao trânsito de pessoas e veículos, mas faltou até hoje a materialização das suas disposições.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A ponte projectada sobre a Ribeira de Cadavais daria expansão a Alcoutim

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR DE 3 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota

Publicamos hoje e de que tenhamos conhecimento, o segundo artigo escrito por Luís Cunha e publicado neste diário da capital do País e já desaparecido.
As directrizes do jornal, tal como ainda acontece, limitam a utilização do espaço, pelo que por vezes é difícil escrever o que se pretende.
Não é fácil dizer muito em poucas linhas mas Luís Cunha tinha grande poder de síntese na sua escrita.
São passados quase 42 anos e nem por isso deixa de ter interesse a sua leitura.
A ponte sobre a Ribeira de Cadavais é um facto, mas não é obra do “Estado Novo” mas sim do regime “democrático” tendo sido construída durante a presidência de Manuel Cavaco Afonso.

JV




Escreve

Luís Cunha


Esta encantadora vila à beira do rio Guadiana, alcandorada num pequeno morro alcantilado, está limitada, por todos os lados, por barreiras naturais que, rigidamente, lhe cortam a possibilidade de expansão.

Ao situá-la a meio do maior troço de recta entre Vila Real de santo António e Mértola, onde a navegação à vela era compelida a aguardar o virar da maré, os seus fundadores procuraram, simultaneamente, garantir à navegação o necessário apoio durante a imobilidade e subtraí-lo às surpresas das curvas. Ponto de apoio ou base de assalto, feitoria e, depois, armazém de mercadorias em trânsito, bastavam-lhe as limitadas proporções que o pequeno morro rochoso oferecia.

Tal condicionalismo determinou o denso aglomerado do casario em volta do velho castelo e um arranjo original e pitoresco de acomodação do interior da habitação, em patamar, com degraus a dar comunicação entre as divisões da casa, degraus às vezes lavrados na própria rocha.

Um serro de enorme declive barra por dois lados o alargamento da vila e, dos outros dois, o Guadiana e a ribeira de Cadavais completam o cerco. Essas condições, noutros tempos óptimas para o fim de segurança, constituem agora sério obstáculo à renovação e desenvolvimento que se pretende.

Afligem-na vários problemas que dificilmente conseguirá solucionar com od diminutos recursos locais, mas tem potencialidades inexploradas, possibilidades que são penhor e garante de melhor futuro.

[Ponte sobre a Ribeira de Cadavais, em Alcoutim. Foto JV, 2009]

Entre outras urgentes medidas tendentes à expansão, pretende-se abrir-lhe uma porta com a construção da ponte sobre a ribeira de Cadavais, cuja continuação para o norte por uma estrada projectada, e já em grande parte construída, lhe retiraria simultaneamente a incómoda situação actual de beco sem saída.

Um velho e interessantíssimo anteplano de urbanização homologado pelo ministro da Obras Públicas, instrumento cujo arejamento se torna indispensável, previa a construção dessa ponte, É uma necessidade que o população sente ao aspirar ao progresso, por não aceitar como possível, e muito menos provada, a inevitabilidade da decadência da terra.

Ciente dos reduzidos recursos próprios, mas justamente animada pela certeza do generoso apoio e carinhosa atenção que o Governo sempre dispensou aos seus problemas, a população aguarda confiante a solução deste seu anseio.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Vive esquecida a Vila algarvia de Alcoutim, debruçada sobre o Guadiana

Pequena Nota
O autor intitulou o artigo LANTERNA VERMELHA NA CAMPANHA DO PROGRESSO, mas o jornal substituiu-o pelo que indicamos, certamente devido ao lápis azul da censura.
Na cópia do original que foi enviado, a máquina de escrever martelou o texto nas três últimas linhas pelo que não nos é possível dar a conhecer aquilo que o autor escreveu mas aquilo que o jornal publicou.

Que eu saiba foi este o primeiro artigo que escreveu sobre a sua terra natal, que muito amava e já lá vão mais de 41 anos.

Dizer muito em poucas linhas é difícil e Luís Cunha conseguia fazê-lo. Além de revelar os seus profundos conhecimentos de Alcoutim, neste pequeno texto aborda três pontos que considera fundamentais:- TURISMO, FLORESTAÇÃO e ABERTURA DE FRONTEIRA.

A publicação deste artigo é feita precisamente no dia em que completaria 99 anos de vida, se cá estivesse. É A NOSSA HOMENAGEM A UM HOMEM QUE AMOU A SUA TERRA COMO POUCOS, UM HOMEM CULTO E DE CORAÇÃO BONDOSO.

Tivemos o privilégio de ser seu amigo. Ensinou-nos a compreender ALCOUTIM, mostrando-nos o BOM, sem escamotear o MAU.

Seria mais lógico fazer a publicação daqui a um ano, visto tratar-se do centenário.
A dúvida é se estaremos cá.


JV

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR, LISBOA, DE 24 DE ABRIL DE 1968)





Escreve
Luís Cunha




Com o seu casario em presépio, meio derruído pelo tempo, Alcoutim assenta em pequeno morro alcantilado de rocha de xisto à beira do Guadiana no preciso lugar onde a navegação à vela – fenícia, grega ou cartaginesa – condicionada pelo regime fluvial e dos ventos fazia ponto (paragem forçada de seis horas aguardando o virar da maré).

Surgida como ponto de apoio e segurança dessa navegação durante a demora, foi depois feitoria, feira e por último “ponto de maré” e armazém importante de enormíssimo interland que se estendia por grande parte do Baixo-Alentejo, papel que desempenhou até tempos relativamente recentes.

Com solos paupérrimos de xisto foleáceo permeável, áridos, que o rio fundo à laia de vala de enxugo seca completamente, Alcoutim nasceu, e viveu florescente na estreita dependência daquele condicionalismo que dela fazia “ponto de maré” e posição estratégica privilegiada.

Exemplo flagrantíssimo da contingência a que está exposto todo o fenómeno condicionado por reduzido número de factores, o seu antigo esplendor entra em franca decadência no mesmo passo em que o progresso impiedoso, abre aos povos outros meios de comunicação – caminho de ferro, barco a motor e estradas – deixando-a à margem em total esquecimento.

[Fotografia que acompanhou o artigo]

É contudo, esse mesmo progresso que destruiu a razão de ser de sua pujança abre outras possibilidades, perspectivas de vida nova de bem mais seguros fundamentos mas que o atraso técnico e cultural e os minguados recursos económicos não permitem utilizar sem a atenção e apoios externos:- atenção de uns para os favores que o rio magnanimamente continua a oferecer a qualquer indústria carecida de transportes em volume e grandes distâncias; - e de outros para que os seus próprios e imediatos interesses representaria a abertura ao turismo, desta região encantadora que sendo também um rio de margens deslumbrantes descobrindo a cada curva os mais variegados aspectos e cujas vertentes enrugadas exibem extraordinária panorâmica, panorâmica diferente, complemento ideal a quebrar a monotonia das praias; - sem o apoio generoso e carinhosa simpatia actuante das estâncias oficiais para problemas como o da florestação maciça que, dadas as fabulosas condições de concorrência oferecidas pelo rio, seria só por si segura garantia de um melhor futuro; - como a da abertura da fronteira que o acordo luso-espanhol criou mas não chegou a efectivar-se e ainda para a instante e imprescindível necessidade de execução de um interessantíssimo ante-plano de urbanização que jaz há muito nos arquivos e que, pela construção de uma ponte sobre a ribeira de Cadavais, retiraria simultaneamente a Alcoutim a condição em que se encontra de terra afogada e beco sem saída. A terra decaindo levou à crise, pela emigração em massa, mas nos que restam espelha-se fé contagiante que nuns é despertada por pura intuição e noutros pela confiança de que a Revolução trará, a seu tempo, o apoio de que carece.