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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma "operação cesareia" na aldeia de Martim Longo


O facto que vamos referir ocorreu na aldeia de Martim Longo no dia 20 de Junho de 1836 e está alicerçado em documentação oficial.

O lugar de partido médico de Alcoutim é criado por D. João VI em 15 de Abril de 1818 mas a verdade é que o lugar não era preenchido por falta de concorrentes e quando o foi a ocupação fez-se por médicos estrangeiros, espanhóis e pelo menos um francês, que acabou por falecer em Alcoutim onde ficou sepultado, o Dr. Pedro Faure.

Os médicos nestas circunstâncias e porque eram estrangeiros celebravam com a Câmara um contracto semelhante às regras existentes para ocupação oficial.

Em 8 de Setembro de 1835 é celebrado um ajuste com o médico espanhol, Dr. Jacinto Chapella, visto o lugar de facultativo continuar vago. No ano seguinte a Câmara tem dificuldade em cumprir os ajustes firmados, pelo que presumimos, o médico deixou de cumprir o que tinha sido acordado. Só em 1 de Novembro de 1842 Alcoutim passa a ter médico através de um contrato celebrado com o médico francês, Dr. Pedro Faure.

Tendo falecido uma cidadã de parto na aldeia de Martim Longo, o barbeiro José de Sousa Barão extraiu-lhe depois de morta e por meio de “operação cesareia”, duas crianças, uma das quais se encontrava com vida.

Foi lavrado um termo neste sentido assinado pelo pároco Encomendado e pelo barbeiro-cirurgião. Ainda que o facto não seja referido, pensamos que a criança retirada com vida acabou por falecer.

A este barbeiro morreu-lhe uma filha menor em 17 de Dezembro do ano seguinte, sendo sua mãe Francisca do Carmo.

Veio a falecer em 20 de Dezembro de 1852 e agora casado com Maria Rosa, pois teria enviuvado da sua primeira mulher.

O barbeiro-cirurgião era uma profissão muito vulgar na Idade Média, já que nessa época as cirurgias de uma maneira geral não eram realizadas por médicos.

Competia-lhes também a função de sangradores, isto é, realizar sangrias.

Outra das tarefas que realizavam era a da extracção de dentes, o que se prolongou por muitos anos nas regiões mais atrasadas do país. Era habitual, segundo informação recolhida, deslocarem-se às feiras regionais levando consigo uma malinha na qual transportavam as “ferramentas” para o seu trabalho.

Sempre ouvimos contar que em Alcoutim, o Dr. João Francisco Dias deitou ao rio as ferramentas que para esse efeito possuía o barbeiro Carolino! Isto aconteceu em meados do século passado!

Em 1877, por isso, muitos anos após a morte do barbeiro José de Sousa Barão, encontrámos outro com o mesmo nome, possivelmente da mesma família, que exercia a profissão de sangrador, nesta altura, sujeita à existência de uma carta que o habilitasse para tal e que era passada por um médico após a realização de provas.

A informação é a seguinte:- Os guardas, (da Alfândega) no exercício da sua função, entre Lutão e Martim Longo atiraram sobre o sangrador, José de Sousa Barão, provocando a morte do animal que montava. (Of. Nº 186 de 7 de Dezembro de 1877 do Administrador do Concelho)


Não deixa de ser esquisita e curiosa esta “operação” que a documentação nos transmite.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Um fuzilamento e outros assassinatos



No nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, escrevemos o que sabíamos sobre o período político conturbado que se passou no século XIX entre absolutistas e liberais.

Aproveitando o que então escrevemos e com investigação posterior, publicámos neste espaço três textos sobre a mesma temática, o primeiro em 18 de Janeiro de 2011 com o título “Liberais e absolutistas em Alcoutim”, o segundo em 30 de Março de 2012. “Guerrilhas – Lenda e tradição oral” e por último, em 24 de Julho do mesmo ano, “A guerrilha do Remechido no concelho de Alcoutim.

Utilizámos a bibliografia que conseguimos encontrar além da consulta feita em documentação local, principalmente, nos livros de actas da Câmara Municipal.

Há dias, em pesquisa on line e sem termos esse intuito, fomos encontrar documentação e factos que se incluem e alargam o conhecimento sobre o assunto.

Na aldeia de Martim Longo, região muito afectada neste período de lutas internas, encontrámos que pelas cinco da tarde do dia 15 de Novembro de 1838 foi fuzilado nesta aldeia José Thomaz, solteiro, o qual tendo sido soldado de Caçadores 5, desertou depois para os Guerrilhas.

Martim Longo. Antiga Rua Direita, actual Dr. Antero Cabral.
Foto JV
Nesta qualidade e com armas na mão, foi aqui apanhado por uma força de Cavalaria comandada pelo Major Manuel Maria Cabral do referido Caçadores nº 5 e pelo mesmo foi mandado fuzilar.


Certifica o Pároco Encomendado, José Pedro Rodrigues Teixeira, que lavrou o assento de óbito, que o dito José Thomaz é o mesmo que nesta aldeia esteve destacado.

Meses depois, em 5 de Maio de 1839, encontrámos outro assento de óbito, desta vez de José da Costa, casado com Ana Joaquina, natural de Vila Nova de Gaia, morto em fogo num encontro com os Guerrilhas no dia 4.

Era soldado do Regimento de Cavalaria nº 5.

Cerca de dois anos depois, vamos encontrar o assento de três óbitos ocorridos no mesmo dia e no mesmo lugar, situado entre Corte Serranos, freguesia de Martim Longo e Vale de Odre, freguesia de Cachopo.
Um aspecto de Corte Serranos. Foto JV
Estão datados de 27 de Setembro de 1841 e dizem respeito a Francisco Gomes Delgado de Martim Longo, casado com Maria Isabel das Dores, Manuel Afonso Guerreiro, casado com Maria Dionísia de Martim Longo e José Joaquim de Ataíde, casado com Benedita dos Mártires, igualmente de Martim Longo.

Quanto ao primeiro, o Pároco José Pedro Rodrigues Teixeira diz que não recebeu os últimos sacramentos porque morreu às mãos dos seus inimigos que barbaramente lhe tiraram a vida, as razões para o segundo são semelhantes, porque morre às mãos dos seus inimigos que desumanamente o mataram, sendo para o terceiro escrito como justificação, porque foi tiranamente morto por seus inimigos.

Dá-nos a impressão que são vítimas de emboscada e ainda que o pároco não o refira concretamente, parece-nos estar na presença de um assassinato político, em consequência ainda daquelas lutas partidárias de concepções opostas.

É mais um pequeno texto para a história dos guerrilhas no concelho de Alcoutim.

sábado, 10 de setembro de 2011

1º Concurso Nacional Aromas e Sabores com Figo-da-Índia

Realizado em 4 de Set. 2011 na aldeia de Martim Longo

LISTA DOS PREMIADOS

Modalidade DOCES

1.º Classificado Adriana Pereira - (Preguiças-Vaqueiros)
2.º Eduarda Adriano (Pessegueiro-Martim Longo)
3.º Bárbara Teixeira (Alcoutim)

Modalidade BOLOS

1.º Classificado (Snack Bar Poço Novo – Giões)
2.º Lúcia Teixeira - (Martim Longo)
3.º Maria Flávia - (Arrizada - Martim Longo)

Modalidade BEBIDAS

1.º Classificado - Adriana Pereira (Preguiças - Vaqueiros)
2.º Classificado – Luís Costa (Alcoutim)
3.º Classificado – Sílvia Candeias (Vila Nova de S. Bento – Serpa)


Outros Dados

31 Concorrentes nas três Modalidades
Modalidade Bebidas - 10 Participações (Receitas)
Modalidade Bolos - 12 Participações (Receitas)
Modalidade Doces – 21 Participações (Receitas)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Martim Longo em 1865

Pequena nota
Após termos analisado o que obtivemos através de pesquisa efectuada em documentos oficiais sobre o que aconteceu a nível demográfico na freguesia de Alcoutim em 1865 e que aqui já publicámos, tivemos curiosidade em saber o que se passou na freguesia de Martim Longo no mesmo período.
Aqui vos deixamos os elementos obtidos vistos por um prisma necessariamente não coincidente.

JV

[Martim Longo. Antiga Rua Direita, actual Antero Cabral]

Durante o ano de 1865 nasceram 78 crianças na freguesia de Martim Longo, enquanto faleceram 40, obtendo-se assim uma maioria para os nascimentos de 38, o que representa uma percentagem muito considerável.

Podemos anotar que nasceram 43 do sexo masculino sendo consequentemente 35 do feminino.

No espaço físico da freguesia só não houve nascimentos em Diogo Dias, Casa Nova do Pereirão, Pereirão e ainda na Arrizada. Todos os outros núcleos populacionais tiveram movimento, incluindo o há muito desabitado monte dos Relvais, onde nasceu Manuel, filho de José Lopes, lavrador e de Maria Rosa.

Estatisticamente verificámos que foi na aldeia que aconteceram mais nascimentos (21), seguindo-se o monte do Pessegueiro (10), Barrada (8), Santa Justa (6) e Castelhanos (5) o que confirma a importância que foram mantendo a nível local.

Não podemos deixar de referir o facto de que no já desabitado monte do Silgado durante o ano em análise nasceram (4) crianças, (o que começa a ser difícil acontecer em todo o concelho) acontecendo o mesmo em Monte Argil que está quase na mesmo situação habitacional. São por isso montes em que a desertificação já fez o seu trabalho e que se está a estender aos vizinhos.

Voltamo-nos agora para os óbitos onde naturalmente na aldeia aconteceu o maior número (10), seguido novamente do Pessegueiro (8), de Santa Justa (4) e de Pêro Dias e Lutão com (3).

Nos montes de Pêro Dias (-2), Lutão (-1), Gagos (-1) e Diogo Dias (-1) os óbitos foram superiores aos nascimentos.

Dos 40 óbitos registados, 15 foram de indivíduos até aos sete anos pelo que a mortalidade infantil era muito elevada, 37,5%.

Sem tomarmos em consideração os dados destes últimos, verifica-se que os homens faleceram com uma média de 64 anos e as mulheres com pouco mais de 46.

A nível de profissões que encontrámos referidas nos assentos, aparecem em maior número as ligadas ao cultivo da terra como lavradores e jornaleiros. Registamos também o “pastor de gado”, os vários oleiros de que a aldeia era fértil, sapateiros, alfaiates, ferreiros, pedreiros, albardeiros, um lojista (comerciante com loja) e quatro “molineiros”, todos de nome Rodrigues, Álvaro e Silvestre no Azinhal, José na Barrada e David no Pessegueiro. Será coincidência ou serão todos da mesma família?

Nunca nos tinha aparecido tal palavra nem escrita nem falada, mas não era difícil relacioná-la com moinho, molinhar que significa entre outras coisas moer aos poucos e a miúdo, pôr o moinho a funcionar.

Como sinónimo de moleiro encontrámo-lo no dialecto mirandês. Em espanhol é molinero.

É nítida, como acontece a tantas outras no concelho de Alcoutim, a influência da língua do país vizinho.

Para terminar apresentamos um quadro resumo do movimento operado.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O cemitério da Freguesia de Martim Longo



De A escultura de madeira no concelho de Alcoutim do século XVI ao século XIX, (1) transcrevemos: Nos princípios do séc. XIX assistimos à construção dos cemitérios, normalmente em espaços fronteiros à igreja, deixando então os corpos de ser enterrados no interior dos vários locais de culto. Somente encontrámos referências documentais relativas à construção do de Martim Longo, realizada em 1828, e que foi destruído em 1985.

Esta indicação não joga com a que obtivemos pela leitura da acta da Sessão da Câmara Municipal, datada de 6 de Agosto de 1840., onde se lê: a edilidade decidiu que se passassem as ordens mais determinantes às Juntas de Paróquia para fazerem os cemitérios no prazo de três meses, excepto o de Martim Longo que deverá aprontar-se dentro de um mês. (2)

[Igreja Matriz vendo-se ao fundo o antigo cemitério. Desenho de JV, 1983]

Como se vê, existe uma diferença de doze anos entre as duas datas.

O primitivo cemitério da freguesia situava-se em frente da igreja matriz, no local onde se encontra hoje o Centro de Dia.

[Monumento funerário desprezado do P. José Pedro Rodrigues Teixeira, que foi pároco de Martim Longo]
Em 1872 (3) a Junta de Paróquia apresentou à Câmara um requerimento em que manifesta a necessidade de construir um novo cemitério e pedindo para o efeito autorização para lançar uma finta ou derrama pelos fregueses na quantia de duzentos mil réis, visto a receita ordinária ser muito diminuta, com o que a Câmara acordou.

O actual cemitério situa-se um pouco afastado da aldeia, como convém, servido pela estrada da “Alagoa” e que nos leva também ao «monte» do Laborato.

Iniciou a sua função em 26 de Fevereiro de 1961, segundo informação recebida.

Lembramo-nos perfeitamente da existência do anterior que junto ao portão possuía um pequeno painel de azulejos. Foi destruído em 1985 para a construção do Entro de Dia.


NOTAS
(1) Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, pág. 12.
(2) “O Cemitério da Vila de Alcoutim – da origem aos nossos dias”, em Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988.
(3) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 2 de Janeiro.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Ensino Primário na aldeia de Martim Longo

[Martim Longo. Um aspecto da Rua Antero Cabral, antiga Rua Direita. Foto de JV, 2010]

A escola masculina desta aldeia é tal como a da vila anterior a 1840, mas desconheço a data da sua fundação.

Em fins de 1874 o Administrador do Concelho informa que apesar dos professores cumprirem regularmente os seus deveres, nem por isso os alunos tiveram grande aproveitamento, o que é devido à frequência irregular, pois os chefes de família só mandavam os filhos à escola quando não tinham com que os ocupar em casa. Mais se informa que os professores que exerciam funções no concelho não possuíam o curso das duas Escolas Normais de Lisboa.

No relatório que elaborou nos primeiros dias de Fevereiro de 1876, depois de visitar as escolas do concelho, o Administrador, João José Viegas Teixeira, concluiu que nenhuma delas tem as condições que a lei recomenda mas, fazendo-se-lhe os melhoramentos de que careciam, podiam servir pois não havia melhores por estes sítios.

Podemos informar que das seis existentes, segundo o relatório, nenhuma era assoalhada, a maioria de telha vã e a do Pereiro nem janela tinha!

A primeira referência que dela apanhei, é a do relatório que já referi e que me informa que a casa é alugada, tem de comprimento 5,18 m de largura, 4,83 e de altura, 2,33 m. Tem pouca luz, não tem soalho e é de telha vã. No dia da visita, foi frequentada por vinte alunos, sendo regida pelo professor vitalício, José Guerreiro Cotta, que pede a aposentação em 1881 e é substituído interinamente por João Francisco Gomes Delgado.

Neste ano, a 9 de Outubro, a Junta de Paróquia deliberou requerer à Câmara a criação de uma escola de ensino primário para o sexo feminino, tendo em conta a muita população daquela aldeia, com o que a edilidade acordou. (1)

Não vendo satisfeitas as suas pretensões, a Câmara, em 11 de Agosto de 1883, volta a deliberar, por ser de grande utilidade pública, pedir a criação da referida escola.

Um surto de febres tifóides que grassou em Martim Longo e que já tinha atacado quatro alunos, obrigou o professor, Pedro Severiano Teixeira a fechar a escola depois de ordem superior recebida. (Sessão de 31.07.1884).

A Câmara, em sessão de 9 de Fevereiro de 1882, para evitar abusos e haver igualdade, fixa o seguinte horário para as escolas do concelho.

“Desde Outubro até Março, inclusive, a entrada para a escola será às 8 horas da manhã e a saída às 11 horas e de tarde às 2 e a saída às 5 horas para todos os alunos de 8 a 12 anos. Nos outros meses do ano a entrada será de tarde uma hora depois da marcada.
Aqueles que forem menores de 8 anos só frequentam a escola por tempo de três horas por dia. Isto é, hora e meia de manhã e hora e meia de tarde.
O senhor professor dará aos alunos um quarto de hora de descanso hora e meio depois da entrada, para refrescarem as forças de espírito e designará a entrada para a escola aos menores de oito anos ou a quem tenha dado descanso.”

Em 1887 a escola continuava sem ser criada e a Junta de Paróquia voltou a insistir na sua criação. No pedido formulado, a Câmara lançou o seguinte despacho: - “Acordam em vereação indeferir a presente petição por não poder ser criada mais escola alguma neste concelho, pois para a sustentação das existentes está sendo subsidiada pelo Governo”. (2)

Com a entrada em funções da Escola Básica Integrada, em Setembro de 1999, os alunos do 1º Ciclo foram nela integrados ficando o edifício escolar devoluto.

Segundo informação recolhida tornou-se a sede social da Associação Inter-Vivos.

NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 17 de Novembro de 1881
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 22 de Abril de 1889

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O topónimo Martim Longo

[Rua Antero Cabral, antiga Rua Direita. Foto JV]

Os nomes das terras constituem quase sempre um manancial de sugestões desde as técnicas baseadas na filologia ou na história até às lendárias muitas vezes bem arquitectadas pelo povo na sua pródiga imaginação.

Desde o seu nome anteriormente ter sido Vila Nova de Serqueira e transformado, vejam lá, na altura das lutas entre liberais e absolutistas e até entrando a figura de Remechido e isto fazendo tábua rasa dos mais elementares conhecimentos históricos já atestados no tempo de D. João I, algo tem sido dito.

Polémica que sempre encontrei e que se irá manter pela vida fora é a da grafia. Martim Longo ou Martinlongo e isto para não referir uma terceira, Martilongo.

Eu sempre escrevi separado, precisamente pela explicação do topónimo. Hoje e oficialmente é como se deve escrever, segundo informação que me chegou, mas algumas entidades responsáveis continuam a escrever numa só palavra. Quem não se lembra num programa televisivo quando foi colocado o assunto a um responsável político, este ter afirmado peremptoriamente que era separado e que até devia levar um tracinho (sic). Contudo, a prática não era essa.

O primeiro elemento do nome composto parece não oferecer dúvidas. MARTIM é forma proclítica de Martinho. Estamos na presença de um antropónimo que deu origem ao topónimo.

Existem no país muitos mais exemplos, como acontece em Martim Brás (Ferreira do Zêzere), Martim Gil (Leiria), Martim Filho (Arronches), Martim Joanes (Cadaval), Martim Moleiro (Penamacor), Martim Tirado (Torre de Moncorvo), Martim Vaqueiro (Alvaiázer e Ansião), Martim Afonso (Sobral de Monte Agraço), etc.

Isoladamente, o topónimo MARTIM aparece na nossa toponímia pelo menos seis vezes e muitas mais em casos de elisão, como acontece em Martinhanes (Mértola), Martingança (Alcobaça) e Martingato (Santa Marta de Penaguião).

Verifica-se assim que o antropónimo transformado em topónimo se espalha por todo o país.

O segundo elemento do topónimo é que oferece alguma dificuldade. Segundo a tradição oral, este Martim, figura não conhecida, é visto de diversos ângulos: proprietário? Benemérito? Longo na vida ou de estatura?
Quem sabe?

José Pedro Machado (1) diz que o topónimo tem origem no nome de antigos proprietários locais, sendo já atestado em 1376.

Existe além deste outro Martim Longo no concelho de Montemor-o-Velho.

NOTA
(1)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, 1993.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Proventos religiosos na Paróquia de Martim Longo

Para nós não é fácil abordar tal assunto devido à pouca clareza que o tema nos oferece.

Tentaremos dar a nossa perspectiva para além da indicação que os documentos nos sugerem.

Em 1565 tinha como “mantimento” em cada ano, um moio de trigo, quatro mil réis em dinheiro e ainda o pé do altar da matriz e das anexas que eram, Giões, Vaqueiros e Cachopo.

[Parede lateral da Igreja de Martim Longo notando-se os botaréus. Foto JV, 2009]
Uma certidão, passada em 11 de Julho de 1791, pelo Prior da Igreja de São Sebastião de Boliqueime, Francisco José de Barros, que em 1778 tomou posse do Priorado da Igreja de Nª Sª da Conceição de Martim Longo, esclarece que os párocos daquela igreja se achavam na posse immemorial de cobrarem do selleiro daquella Aldeia dois moios de trigo e seis alqueires de sevada acoagulados pela medida do termo de Faro, cujo trigo e sevada pagão as mezas Episcopal e Capitular três partes e a Comenda a quarta parte; sete mil e quinhentos em dinheiro e deste dinheiro pertence também à Comenda pagar a Quarta parte e também se achão na posse de cobrar de cada fogo daquella freguesia huma Quarta de trigo razo por medida maior do que he a medida do termo de Alcoutim e he tradição que he pela medida do termo de Faro. Também se conservavam na posse de cobrarem os dízimos de legumes, hortaliças e frutos de todas as árvores, não só da freguesia de Martim Longo mas tão bem da freguesia de Vaqueiros, Cachopo, Gioens e Pereiro, de todos aqueles districtos e limites que se costuma recolher o dízimo de trigo, cevada e centeio que se sega em verde para alimentar as bestas e rezes em todos aquelles limites que se recolhe o dízimo de trigo, cevada e senteio para o Celeiro da Aldeia de Martimlongo. Também os ditos Priores se achavão na posse immemorial de receberem e utilizarem (…) e ofertas pertencentes às Ermidas da Senhora da Oliveira do monte de Clarines da freguesia de Gioens e de São Bento de Alcaria Queimada da freguesia de Vaqueiros.

[Lápida do Celeiro da Comenda. Foto JV]
Na Corografia do Algarve (2) lê-se: - (…) cujo parocho percebia o dízimo (3) das miúças (4) que andava por 300 mil réis, o único que no Algarve recebia primícias. (5) Os dízimos da massa grossa reservava o cabido para repartir formando hum dos seus celleiros, que em 1832 produzirão 3 815 alqueires de cereais.

[O "dicionarista Pinho Leal]
Pinho Leal (6) refere: - O papa e o bispo apresentavam alternativamente o prior collado (7) que tinha 200$000 réis de rendimento, fora o dízimo.

Esta informação foi recolhida por Pinho Leal na resposta que o prior deu (quesito 22) ao questionário formulado e que vieram a constituir as Memórias Paroquiais (1758).

Em 1839 a côngrua para o pároco montava a 76$240 réis de pé de altar, 223$760 de derrama nos quais estão incluídos 32$240 de “passaes”

Por baptizado recebia o pároco ½ alqueire de trigo e cento e vinte réis, por óbito os mesmos cento e vinte réis e dois pães quando maiores, cento e quarenta réis e meio alqueire de trigo quando menores, enquanto o coadjutor recebia respectivamente 140 e 120 réis.

Até à extinção dos dízimos, o que veio a acontecer após se ter implantado o regime liberal, os párocos de Martim Longo recebiam de côngrua ¼ de alqueire por fogo e os coadjutores 150 réis.

Em 1891 o pároco por costume antigo recebe anualmente a retribuição do seu serviço em prémio inalterável, sendo por cada fogo na aldeia, 21 litros de trigo e nos montes da freguesia mais sete litros de cevada. (8)

Este costume foi convencionado em 8 de Agosto de 1841, entre os moradores e o seu pároco, sendo a medida «abanada e arrazada». Além disso, o pároco obrigava-se a ter comiseração pelos pobres que não pudessem pagar, perdoando-lhes todo ou parte do prémio. (9)

Pouco tempo depois o Administrador do Concelho informa o prior de que não tem de dar conhecimento à Junta de Paróquia como ela lhe exige, dos prémios a que tem direito receber dos fregueses. (10)

Apesar de alguma confusão nos dados apresentados, não podíamos deixar de os referir na esperança que um dia apareça alguém que os decomponha para uma melhor compreensão.


NOTAS

(1) Livro de Registo de Mercês.
(2) João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(3) Contribuição, imposto que se pagava à Igreja baseado na décima parte dos frutos recolhidos.
(4) Antigos dízimos que se pagavam à Igreja, em géneros, por miúdo.
(5) Os primeiros frutos da terra.
(6) Portugal Antigo e Moderno, Vol. 5, 1875.
(7) Que recebeu colação, que tem benefício, que foi investido num cargo.
(8) Ofício nº 83 de 29 de Junho, para o Governador Civil de Faro.
(9) História da Igreja em Portugal, Fortunato de Almeida, pág. 56.
(10) Ofício nº 43, de 24 de Março de 1892.

NB - Extraído de "Alcoutim, Capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia", (2ªEdição em preparação).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um período de desordens em Martim Longo

[Vista parcial de Martim Longo]
Num curto período que não chegou a uma dúzia de anos, ocorrido nos finais do século XIX, meia dúzia de indivíduos punham frequentemente a aldeia de Martim Longo em alvoroço, como tentaremos explicar.

Pelas 6 horas da tarde do dia 9 de Setembro de 1877, deu-se uma desordem em casa de Bento Cardeira, entre J. M., M. F. e A. P., todos da aldeia de Martim Longo, de que resultou ficar ferido o primeiro. Levantou-se auto de corpo de delito que com os agressores foi remetido para a Administração e entretanto enviado ao Juiz de Direito da Comarca. (1)

Em 1882 (2) o Administrador do Concelho chama a atenção do Regedor da Paróquia de Martim Longo no sentido de manter a ordem, como lhe compete, proibindo a “Lei Municipal” as vendas abertas depois do toque das Almas, impondo uma pena a quem transgredir tal lei. E continua o Administrador: deverá mandar intimar os vendedeiros para de futuro fecharem as vendas logo que se dê o toque das Almas e quando assim não acontecer, denunciá-los perante o Juiz Ordinário do Julgado.

Acrescenta ainda que quando for dada voz de prisão a qualquer indivíduo, mesmo que se tenha evadido, logo que apareça, pode e deve ser preso e remetido com a competente participação do crime, no qual conste o nome das testemunhas, à Administração.

Dois anos depois o Regedor participa ao Administrador que frequentemente ali acontecem desordens, sendo-lhe “dificultoso o puder obstar procedimentos tais e muito mais a efectuar qualquer prisão em consequência da falta de comparência de cabos de polícia”.

Para tentar resolver a situação o Administrador oficia ao Chefe da Secção Fiscal de Alcoutim, observando:- Visto (...) achar-se colocado em aquela aldeia um posto fiscal, rogo por isso a bem do serviço de polícia se digne dar àqueles empregados, como subordinados, (...) as convenientes ordens a fim de auxiliarem o Regedor, quando necessário, a fim de se poder manter a ordem pública. (3)

Não sabemos se o auxílio solicitado pelo Administrador foi satisfeito, mas é possível que não ou se o foi, teria sido em termos insuficientes. Dizemos isto pelo que adiante referiremos em face dos documentos consultados.

[Rua Antero Cabral, Martim Longo]

Em 1888 (4) o Administrador “ataca” o Regedor da Paróquia acusando-o de que não “cura” como deve da sua autoridade porque havendo na aldeia contínuos distúrbios, escândalos e exposições indignas, praticados por um tal A. N. e outros de igual plano, não age de maneira a manter a ordem pública.

Destes escândalos recebeu o Administrador queixa por parte de habitantes da aldeia.

O Administrador tendo noção que o Regedor não tem força para impor a sua autoridade, solicita que o informe se é efectivamente essa a realidade para que possa requisitar certo número de polícias, os quais juntamente com ele, farão entrar os transgressores na ordem.

Efectivamente vieram a ser pedidos três polícias para a aldeia, onde certos desordeiros praticam toda a casta de distúrbios, patifarias, resistindo e mofando da Autoridade, alterando assim a ordem pública a ponto tal de produzir um verdadeiro pânico em toda aquela povoação que à noite reclama providências. (5)

Em vista dos atentados brutais e ofensivos tão repetidas vezes cometidos por A. A. e J. G., ambos da aldeia, solicita-se ao Regedor que intime três testemunhas para comparecer na Administração. (6)

Este assunto apareceu devido ao analisarmos as fichas que tínhamos organizado verificarmos que havia umas tantas que diziam respeito ao mesmo assunto num período bastante curto. Meia dúzia de “tratantes”, como diz o Administrador do Concelho, deram origem a isto.

A gente de Martim Longo foi sempre cumpridora dos seus deveres, cordata e obsequiosa, nada tendo a ver com estes casos especiais que aqui só têm sentido histórico.


NOTAS

(1)-Of. nº 150 de 12 de Setembro de 1877.
(2)-Of. nº 53 de 25 de Julho, ao Regedor da Paróquia.
(3)-Of. nº 196 de 19 de Novembro de 1884.
(4)-Of. nº 232 de 13 de Outubro.
(5)-Of. nº 233 de 17 de Outubro de 1888.
(6)-Of. nº 192 de 8 de Novembro de 1889.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A iluminação pública na aldeia de Martim Longo


Só os martim-longuenses com idades para além dos oitenta e cinco anos se lembrarão da primeira, segundo pensamos, iluminação pública que tiveram.

José Francisco Ginja, da aldeia e Vice-Presidente da Comissão Administrativa da Câmara do “Estado Novo”, propõe que o município adquirisse cinco candeeiros da Vacum Oil Campany a fim de ser iluminada a aldeia, a mais importante do concelho e que pela sua situação e aglomerado populacional bem o merece.

Para além disto, a Câmara deveria fornecer anualmente algum petróleo e bem assim fazer face à despesa da instalação dos referidos candeeiros.

Propunha também que se oficiasse à Comissão Administrativa da Junta de Freguesia dando-lhe conta da resolução (a proposta foi aprovada por aclamação) os restantes encargos com a iluminação ficariam a cargo da Junta. (1)

Não sabemos o tempo que durou esta iluminação. Quando conhecemos a aldeia, em meados dos anos sessenta, já existiam muitos geradores que forneciam energia para a iluminação particular e alimentavam pequenas indústrias.

Em 1973 (2) escrevíamos assim: Apesar do muito que representa para o concelho, continua sem energia eléctrica (...) o que lhe causa enormes contrariedades e impede o seu desenvolvimento.
Anseiam os martinlonguenses por ver resolvidos estes seus problemas, principalmente o da energia eléctrica, já programada e para a qual o povo contribuiu generosamente com algumas dezenas de contos. Com ela, a aldeia progredirá, a mecanização das suas pequenas indústrias será um facto, outras aparecerão, enfim, saberão colher os frutos desse melhoramento devido às suas características empreendedoras.



NOTAS

(1)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Dezembro de 1933.
(2)“Martinlongo - Terra de gente activa tem aspirações”, José Varzeano in Jornal do Algarve de 17 de Novembro de 1973. O autor escreveu Martim Longo mas o jornal, talvez por pensar que era erro, escreveu Martinlongo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Casa da Roda em Martim Longo

Já fizemos as referências gerais quando escrevemos sobre a Casa da Roda da vila e no último período do tema dissemos mesmo que em Martim Longo também tinha existido Roda de Expostos.

Sabemos que pelo menos existia casa da roda na aldeia em 1839, pois nesse ano exercia a função de rodeira, Joaquina Gertrudes, mulher de Baltazar Carrilho e de ama de leite, Maria Joaquina Alho, mulher de Manuel Guita. (1)

Em 22 de Janeiro de 1841 é exposta nesta roda, uma criança do sexo masculino e a que foi dado o nome de Vicente.

Sabe-se também que em 1842 a casa da roda de Martim Longo já tinha sido extinta.
De carácter oral, nada nos chegou ao conhecimento.

Sabemos que em 1817 o cirurgião do Partido da Vila de Alcoutim, João Manuel Revés, informava em 19 de Janeiro não haver “Casa de Expostos”, mas logo que aparecesse algum, era entregue a uma ama para o criar, sendo-lhe dado todo o apoio e olhando-se muito por ele.(2)

Haverá na aldeia quem saiba por tradição onde se situava a Casa da Roda?

Uma investigação cuidada no Arquivo Paroquial podia-nos levar ao conhecimento de mais dados sobre este assunto. Haja quem a faça.

NOTA

(1) “Coisas Alcoutenejas - A Casa da Roda”, José Varzeano, in Jornal do Algarve/Magazine, de 30 de Dezembro de 1993.

(2) – Jornal de Coimbra, 1817, p. 35

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A água em Martim Longo


[Aldeia de Martim Longo, vista parcial]

A água, indispensável à existência da vida, faz parte dos nossos pontos de abordagem.

A aldeia Tem dous poços d’água muito boa (...) é a referência que nos dá no século XVIII, Henrique Fernandes Sarrão. (1)

Baptista Lopes (2), em meados do século XIX, refere que “no verão há muita escassez della nos poços públicos”, o que é confirmado por Charles Bonnet. (3) ao escrever “ (...) sendo também rara a água potável”.

Em Janeiro de 1843 a Câmara foi em correição pelo concelho tendo reunido pelo menos por três dias na aldeia.

Entre várias deliberações tomadas e em função daquilo que verificavam nos locais que visitavam, acordaram recomendar à Junta de Paróquia que mandasse reparar o gargalo do Poçanco e que lhe fosse feita uma calçada ao seu redor. (4) Igualmente nesta altura foi deliberado que “a estrada junto da Alagoa fosse toda feita de calçada.


[A alagoa, 1990. Foto de JV]

Em 1850 (5) o Presidente da Câmara informa a vereação que a escassez de água em Martim Longo era grande e que por isso, ainda que o orçamento não esteja aprovado, lhe parecia que se devia tomar providências no sentido de se abrir um novo poço, o que foi corroborado pela vereação.

Não sabemos, mas presumimos que o poço não foi aberto, já que oito anos depois e com a Câmara novamente em correição (6), constando-lhe que há grande escassez de água quis ir ao poço público certificar-se da situação, verificando que o fundo do mesmo se encontrava “à vista”.

Foi reconhecida imediatamente a necessidade absoluta de abrir “um novo poço no sítio já muitas vezes indigitado, pela parte de cima do Poço do Meio, encarregando a Junta de Parochia e Regedor de contratar a abertura do dito poço com pessoas que mereçam confiança”.

Os anos foram passando e em 1876 (7) levantou-se problema entre a Câmara Municipal e a Junta de Paróquia local.

As obras autorizadas com o Poço do Meio e para as quais a Câmara tinha autorizado a verba de 36.000 réis, entretanto entregues, não chegou pelo que a Junta solicita a satisfação de mais 10.720 réis, o que a Câmara acabou por conceder, tomando em consideração o bem estar dos habitantes.

Posteriormente, a Junta de Paróquia apresentou um requerimento solicitando que a Câmara mandasse pagar a quantia de 48.150 réis para além das verbas já entregues. A Câmara não podendo admitir e sancionar abusos deste tipo, indeferiu o pedido.

Em 1878 ultimou-se o aprofundamento do Poço Bom, onde se despendeu a quantia de 19.190 réis, que a Câmara satisfez. (8)

O Administrador do Concelho oficia em 15 de Julho de 1893 ao Regedor da Paróquia nos seguintes termos:- (...) Tem vindo ao meu conhecimento que junto dos poços públicos dessa aldeia de que os habitantes se servem d´água para beber, se fazem lavagens de roupas e bebem cavalgaduras e gados cujos subejos dão entrada nos mesmos poços devendo V.S. e os seus cabos de polícia fazer vigilância sobre os mesmos para aplicação das posturas municipais aos transgressores. (9)

Só voltámos a encontrar referências sobre a água no chamado Estado Novo. Em 1931 é subsidiada a Junta de Freguesia com 1.500$00 para a abertura de um poço. (10) Dois anos depois parece que ainda não teria sido aberto já que se propunha a abertura do que tinha sido subsidiado pelo Estado. Foi encarregado de fiscalizar o trabalho o Vice-Presidente da Comissão Administrativa da Câmara, o alferes José Francisco Ginja, natural de Martim Longo, oficial que se mostrou muito activo no período do Estado Novo. (11)

Em 1985 encontrava-se praticamente concluído o saneamento básico da aldeia, que orçou em mais de 50 mil contos (12) e em 25 de Abril desse ano é posta a concurso público a arrematação da empreitada da estação de tratamento de águas residuais domésticas (ETAR).

Nota breve
O texto foi extraído da 2ª Edição de "Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio...", em preparação.
As notas ficam para uma hipotética publicação.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Feira de Corpo de Deus



Esta Feira que se realiza na aldeia de Martim Longo juntamente com a de S. Marcos, que tem lugar na aldeia do Pereiro, são as mais antigas do concelho.

A informação é prestada quando o pároco de Martim Longo responde ao inquérito para o efeito organizado em 1758.

A pergunta 19 é feita nos seguintes termos: - Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se he franca ou cativa?
A resposta obtida foi a seguinte: Tem este lugar de Martinlongo sua feyra ou vigília no dia de Corpo de D., a qual dura so m te no tal dia, e ha noticia q. fora instituída franca, mas não consta do previlegio e hoje se conserva cativa. (1)
Já existia nesta data e pela leitura deduz-se que não era de recente instituição.

Naturalmente que Silva Lopes também a refere no seu valioso trabalho sobre o Algarve e fá-lo da seguinte forma: “Os habitantes fabricam muitas fazendas grosseiras de lã, tais como surianos, estamenhas, frizas e meias que levão a vender às feiras do Algarve, ou que alli lhes vêm comprar, principalmente na feira que se faz no dia de Corpo de Deus, em que concorre muita gente”. (2)

Pinho Leal, no seu conhecido Dicionário, considera-a uma grande feira.(3)

Nas nossas pesquisas encontrámos uma pequena referência a ela. Na Sessão da Câmara realizada na aldeia de Martim Longo, em 13 de Janeiro de 1843, foi deliberado demarcar no rossio o terreno para as eiras e para o “local da Feira de Corpo de Deus”. (4)

Os Anuários Comerciais dos anos trinta, além da feira no dia de Corpus Christi, referem outra a 17 de Agosto. Possivelmente esta feira teria sido criada em 1927, já que a Câmara autorizou em Sessão de 16 de Fevereiro a criação de uma feira anual na sede da freguesia, mas não indica a data.

A Feira do Corpo de Deus continua a realizar-se mas sem o esplendor e a mística de outros tempos. Ao contrário da de S. Marcos, realiza-se sem quase se dar por ela.

Não nos recordamos de alguma vez a termos visitado.

_____________________________________

(1)ANTT – Memórias Paroquiais, Freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim.
(2)Corografia do Reino do Algarve, 1841
(3)Portugal Antigo e Moderno, Vol.V (1875), pág. 101.
(4)Livro dos Acórdãos da CMA (nº2) de 2 de Junho de 1841 a 30 de Dezembro de 1849.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A aldeia de Martim Longo no decorrer dos tempos


Há mais de trinta e quatro anos assinámos num semanário do Algarve um pequeno escrito que se referia a esta aldeia e à freguesia de que é cabeça (1) e posteriormente mais um ou dois a ela dedicados.

Em todos os outros que tenho escrito e que se referem ao concelho em geral, seja em que aspecto for, a referência à aldeia de Martim Longo e à sua freguesia é certa e indispensável.

O escrito de hoje é-lhe inteiramente dedicado.

A aldea de Martim Longo é o primeiro lugar que se ofrece nesta volta que fazemos pelo sertão, do levante para poente; é lugar grande e abastado, porque tem boas terras de pão e de criações. É termo da vila de Alcoutim, nove léguas dela pela serra dentro. Haverá nela como quatrocentos vizinhos, muitos deles homens ricos pêra a terra e que acodem a qualquer rebate de Mouros não com menos concerto que os que moram na cidade. É a descrição que conhecemos mais antiga da aldeia e do último quartel do século XVI. (2)

Pouco depois e da autoria de Henrique Fernandes Sarrão, aparece-nos o seguinte: De Alcoutim para o ocidente cinco léguas está o lugar de Martim Longo. É de setenta moradores, muito aprazível, de muita caça. Tem dous poços d` água muito boa e muitas terras de pão. (2)

Em 1712 o P. António Carvalho da Costa informa: he lugar de muyto gado, colmeas , recolhe algum azeyte e muyta cevada. (4)
Mais de um século passado vamos encontrar a descrição que nos oferece Silva Lopes: Martim Longo, aldeia grande e rica, de 36 fogos com boas casas menos mal arruadas, situada a igual distancia de duas ribeiras, Vascão ao N., e Foupana ao S. já fora da serra, sobre huma collina, dominada de todos os lados por grandes alturas das quaes se descobrem várias povoações, a quatro léguas e meia O. do Guadiana. (5)

O Eng. Francês Charles Bonnet, escreveu (1850): Entre as aldeias situadas sobre este planalto (Cumeada do Pereirão) merece especial destaque Martinlongo, que é a principal, com uma população de 1855 habitantes. Este planalto produz muito trigo, mas não se encontra nele nenhuma árvore, sendo também rara a água potável. (6)

Passemos agora ao sempre consultado Pinho Leal que no Vol. 5 do seu Dicionário, escreveu: Martim-Longo, é uma grande e rica aldeia, com boas casas, e menos mal arruada, situada a egual distância de duas ribeiras; Vascão ao N., e Foupana ao S.
Está assente em uma collina, já fora da serra do Algarve, dominada de todos os lados por grandes alturas.
(7)
É notório que Pinho Leal se limitou a transcrever quase tudo o que já tinha dito Silva Lopes.
Pereira de Sousa (1919), navegando nas mesmas águas, escreveu: Aldeia grande, assente sobre os terrenos de Culm e situada numa colina, cercada de todos os lados por grandes alturas. (8)

Já nos nossos dias, (9) afirma-se: A aldeia desenvolveu-se a partir de dois pólos, situados quase nos extremos – a igreja paroquial (Nª Sª da Conceição) e a capela de S. Sebastião.
A capital desta região é a grande aldeia de Martim Longo (refere José Victor Adragão) (…) a povoação estende-se para os dois lados da estrada em alongada cruz e, em cada extremo, um núcleo de casas organiza-se em torno dos dois mais importantes templos: a Capela de S. Sebastião e a Matriz, dedicada à Senhora da Conceição. Um e outro patrono ocasionam festas de certa monta, com procissões que atravessam todo o povoado e que atraem camponeses e habitantes das aldeias vizinhas. No entanto, a grande festa é a do Corpo de Deus.
(…)
No meio da aldeia, onde alternam as grandes chaminés fronteiras à maneira alentejana e as platibandas em que o sotavento algarvio é tão próspero, ergue-se a capela do Espírito Santo, objecto de grande devoção popular
. (10)

Depois destas referências que fomos encontrando no decorrer dos tempos, teremos de dar a nossa visão.

Conhecemos a aldeia de Martim Longo há quarenta anos ficando com a ideia de se tratar de uma aldeia relativamente grande no seio da serra algarvia e principalmente da sua efervescência comercial, notada e mantida através dos tempos.

Na sua maioria com ruelas características da idade média, já se tinha transformado a Rua Direita na Rua Dr. Antero Cabral.

Operou-se esta iniciativa na década de cinquenta do século passado e por acção do dinâmico presidente da Junta de Freguesia, Artur de Moura, que sentiu grande apoio no Governador Civil de então e daí a colocação do seu nome na placa toponímica.

Às pequenas casas típicas da serra do Caldeirão e algumas ainda existentes, opunham-se os grandes edifícios demonstrativos de alguma opulência próprios de vilas e cidades e pertencentes de uma maneira geral aos comerciantes mais prósperos.

Naturalmente as pequenas casas de xisto foram-se modificando nestes últimos quarenta anos com a utilização de novos materiais e sistemas de construção, onde o saneamento básico causou forte impacto, hoje amplamente demonstrado.

Recentemente e na estrada nº 124 foram criadas duas rotundas que lhe dão um aspecto moderno.

No tocante à toponímia, a antiga Rua Direita, já assim a encontramos designada em 1843 e onde Pedro Matheus, capitão-mor, tinha uma arramada. Foi deliberado nessa altura que os poiais aí existentes fossem feitos com asseio e caiados, devendo ser demolidos todos os que de futuro não estivessem desta forma. Igualmente foi deliberado fazer-lhe a competente calçada com a colaboração dos proprietários que à sua conta faziam uma vara em frente das suas casas. (11)

Além desta rua havia a Rua das Lajes, referida em 1848, 1854 e 1858, a da Ladeira (1843) onde em 1879 é feita a calçada, (12) a Rua do Forno, cuja calçada foi feita em 1843 e que pelo menos em 1889 ainda era assim conhecida, a Azinhaga e a Travessa do Celeiro da Mitra, sendo reparada a calçada da mesma em 1858, as Ruas da Alagoa e do Espírito Santo (1870).

Além destes topónimos é referido com frequência o Sítio do Forte.

Em1979 uma rua mereceu tomar o nome de Coronel Figueiredo Valente, cuja placa elucida como grande amigo do progresso da sua terra e dos seus conterrâneos. No ano seguinte é a vez de Agostinho Francisco Ferreira, 1º cabo da G.N.R., assassinado no desempenho das suas funções.

Por volta de 1994, a Junta de Freguesia procedeu à colocação de placas toponímicas nas restantes ruas da aldeia, para o que, segundo nos informaram, convidou a população a pronunciar-se.

Só encontrámos a utilização de um antropónimo, a Rua Francisco Manuel Paulino. Enquanto nos dois casos já referidos se indica o tipo de figura homenageada, aqui isso não acontece. Parece-nos, se a memória não nos atraiçoa, que se trata de um antigo presidente da Junta de Freguesia que não era martim-longuense pelo nascimento. (13)



Preservaram-se certos nomes tradicionais, alguns que já referimos e assim, aparecem-nos as ruas da Ladeira, com travessa do mesmo nome, Poço Novo, igualmente com travessa, Poçanco (referência a um pequeno poço público já existente pelo menos no século XIX, da Fábrica, onde, segundo pensamos se situou uma moagem no primeiro quartel do século passado, de S. Sebastião, do Espírito Santo (cujas capelas existentes deram origem aos topónimos), do Poço Mal Acabado e do Poço do Gato (14), originadas pela existência desses produtores do precioso líquido, Rua do Celeiro (da Mitra, da Comenda?) e do Forte, igualmente com travessa, topónimo muito antigo mas que da sua origem nada conhecemos.

Outro filão explorado para a toponímia de Martim Longo foi os «montes» da freguesia. Laborato e Castelhanos têm a anteceder-lhe “Portas”, desconhecendo eu a razão para tal. (15)

De origem diversa encontramos a Travessa dos Abraços, Rua da Criança, Rua e Travessa do Casal Ventoso, Largo das Casas Baixas e Largo da Igreja.

A aldeia dista 30 km da sede do concelho, 8 de Vaqueiros, 9 de Giões, e 16 de Pereiro.
A capital do Distrito fica-lhe a 70 km e Lisboa a cerca de 240.


NOTAS

(1) “Martim Longo, aldeia de gente activa tem aspirações”, in Jornal do Algarve de 17 de Novembro de 1973.

(2) Corografia do Reino do Algarve, Frei João de S. José, 1577, em Duas Descrições do Algarve no séc. XVI, Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, Cadernos da Revista de História Económica e Social-3- Livraria Sá da Costa, 1983, pág. 57.

(3) História do Reino do Algarve (cerca de 1600), é a outra descrição referida no nº anterior.

(4) Corografia Portuguesa e Descrição Topográfica do Famoso Reino de Portugal, P. António Carvalho da Costa, Lisboa, 1712.

(5) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, Lisboa, 1841, Edição de Algarve em Foco, Editora (1988), pág.399.

(6) Memória Sobre o Reino do Algarve, Descrição Geográfica e Geológica com estudo introdutório de José Carlos Vilhena Mesquita, 1990, pág. 112.

(7) Portugal Antigo e Moderno – Dicionário Geográfico, Vol. 5, 1875, pág. 101.

(8) O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico, Francisco Luiz Pereira de Sousa, Lisboa, 1919.

(9) À Descoberta de Portugal, Selecções do Reader`s Digest, 1982, pág. 497.

(10) Algarve – Novos Guias de Portugal, Lisboa, Edição Presença, 1985, pág. 184.

(11) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 13 de Janeiro de 1843 e realizada na aldeia de Martim Longo.

(12) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 27 de Novembro de 1879

(13) Pensamos que outras Figuras martim-longuenses podiam ter sido lembradas.

(14) Segundo nos informaram é um poço público de construção relativamente recente e que ficou conhecido assim por lá ter sido encontrado um gato que se afogou.

(15) Conheço na realidade várias Ruas com essa terminologia mas que só acontece em povoações amuralhadas e consequentemente com Portas, o que penso nunca ter existido em Martim Longo.

domingo, 21 de dezembro de 2008

O rossio da aldeia de Martim Longo


(Rotunda de Martim Longo, 1990)

Por definição, rossio é um terreno fruído em comum pelo povo, um logradouro público.

A primeira referência que dele conhecemos, em relação à aldeia, é de 1839. (1)

A Câmara reuniu extraordinariamente em Martim Longo a fim de definitivamente se fazer a demarcação do rossio, pela parte em que este confina com a Herdade da Finca Rodilha, visto que não aparecendo marcos suficientes, se pretende inculcar que alguns terrenos concedidos pelas Câmaras anteriores, já pertenceriam à Herdade.

Consultadas as pessoas mais idosas da terra e na presença do procurador do senhorio da herdade, foram descobertos três marcos da partilha antiga.

Um deles encontrava-se na parte esquerda da estrada que vai para Tavira; outro próximo da Ermida de São Sebastião e o último no pontal da cerca de Francisco Gomes Delgado, em direcção ao marco antigo que se acha por cima do pontal e este condiz com a esquina da parte do sul da Ermida de São Sebastião.

Anos depois, encontrando-se a vereação camarária em correição pelo concelho, realizaram uma sessão nesta aldeia. Saíram pela mesma e entre outras coisas mandaram tapar covas e remover estrumeiras que tinham encontrado, além da aldeia, no rossio.

De acordo com o Conselho Municipal, foram então demarcados no rossio terrenos para as eiras e para a realização da Feira de Corpo de Deus. (2)
Em 1858 o Vice-Presidente da Câmara, em exercício, Augusto Carlos Pinto, durante uma sessão do executivo, informou que tendo ido há poucos dias a Martim Longo, observou que de terrenos do rossio destinados a eiras, foi tirado tanto barro que já um deles se achava inutilizado e deste estrago recebeu reclamações. Propunha por isso que o Regedor fosse encarregado de vigiar pela conservação das eiras, impedindo tais práticas e lançando, caso fosse necessário, coimas aos transgressores. A Câmara concordou em absoluto e foram transmitidas ordens ao regedor.(3)


NOTAS

(1) - Acta da Sessão Extraordinária da C.M.A. realizado em 21 de Março na aldeia de Martim Longo.

(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Janeiro de 1843.

(3) - Acta da Sessão de 8 de Abril.