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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Teixeira" procurando as raízes



Cada vez mais as pessoas ao chegarem a uma idade verdadeiramente madura e quando os seus mais prementes objectivos já se encontram realizados, começam a recuar no tempo voltando-o a viver, mas agora e forçosamente numa análise com outro fim já que na altura a idade era outra.

Isto sempre aconteceu, agora com mais intensidade. Enquanto no tempo dos nossos avós a única possibilidade que havia para recolher estas coisas era o que a memória ia consentindo e transmitindo de geração em geração e o que se cortava com muita facilidade, hoje tudo é diferente, pois a educação e cultura são evidentemente muito superiores. Além disso, os meios tecnológicos desenvolveram-se a um ritmo muito acelerado pelo que vão proporcionando pesquisas que de outro modo seriam impossíveis.

De onde viemos e por onde teriam passado os nossos antepassados é uma interrogação que nos começa a surgir e que muitas vezes procuramos pôr em prática.

De uma maneira geral o nosso conhecimento vai até aos avós e raramente chega aos bisavós.

Quando conseguimos saber e organizar os quatro costados de onde provimos e chegamos pelo menos à 5ª geração, podemos dizer que organizámos a nossa árvore genealógica, o que cada vez é mais procurado pelo cidadão comum, já lá vai o tempo em que isso era pertença da fidalguia e onde em muitos casos a bastardia era frequente.

Vem isto a propósito da possibilidade que nos foi dada de num dos últimos dias do passado mês de Agosto ter tido a oportunidade de conhecer, confraternizar e mostrar a uma senhora residente há muitos anos num país europeu algo do concelho onde nasceu o seu avô paterno, mais propriamente a freguesia de Giões e a vila de Alcoutim.

Mais um contacto que o ALCOUTIM LIVRE proporcionou e que, segundo parece acabou por vir a acicatar algo que estava em estado embrionário.

Ao ler os variadíssimos textos que temos colocado no A.L. e ao aparecer com frequência esse nome de família, mais curiosidade causou, a tal ponto, que na primeira oportunidade a ideia de visitar e conhecer os sítios por onde os antepassados passaram não foi desperdiçada.

O ALCOUTIM LIVRE tem aqui, entre muitos testemunhos, a PROVA PROVADA do seu objectivo, mostrar por dentro e por fora o ALCOUTIM VERDADEIRO, sem bazófias, sem mentiras, com todas as suas virtudes e defeitos.

O percurso foi dividido em duas partes: De manhã, visita à freguesia de Giões depois de almoço à Vila de Alcoutim.

[Na Ermida de S. Domingos. Foto NF]

Estrada fora, fomos a caminho da aldeia do Pereiro e logo adiante cortámos à direita em direcção ao Tesouro. Descemos e vencemos o Barranco do Malheiro que por este lado divide a freguesia do Pereiro da de Giões. Aparece-nos o Monte dos Farelos. Seguimos para Clarines que visitámos, não nos tendo sido possível ver interiormente a Capela de Nª Sª de Oliveira. Explicámos dentro do que conhecemos a sua existência bem longa.

[Na aldeia de Giões procurando as raízes. Foto NF]

Voltámos aos Farelos e passámos ao lado daquilo a que chamam um núcleo museológico, fechado e o acesso cheio de ervas.

Tentámos ir à Fonte Santa. Nós que já lá fomos mais de uma dezenas de vezes, enganámo-nos no caminho, pois além de não haver nenhuma sinalética nesse sentido, o que consideramos uma falha para o poder político (Junta? Câmara?) a feitura de novos caminhos agrícolas acabou por fazer a confusão.

Sabemos que o local desde tempos imemoriais é frequentado pelos povos das redondezas, pelo que já merecia um caminho mais condizente com as necessidades.

Chegámos entretanto à aldeia de Giões, um dos interesses da visitante. Percorremos os sítios e lugares importantes: Capela de S. Domingos recentemente restaurada, ruas e ruelas, Igreja Matriz, Cemitério e antiga Fonte.

[Giões. Mais uma pista que aparece... Foto NF]

As máquinas fotográficas iam fazendo os seus “bonecos”. Perguntámos ao fotógrafo do “outro lado”: - e os dados? Resposta imediata :- eu registo na máquina, a minha mulher na memória!

Procurámos saber onde tinham vivido os antepassados. Foi fácil pois as pessoas além de conhecer esta família tradicional, são amáveis. Até reconheceram o autor do ALCOUTIM LIVRE e outros diziam: - é o que escreve sobre Giões!

Aqui, logicamente o projecto começou a complicar-se pois os contactos foram-se multiplicando com o aparecimento de parentes onde não era difícil encontrar familiares comuns! Até foi possível encontrar o hortelão do pai da visitante!

- Digo-lhe agora que era eu que ia “roubar” a fruta à minha horta! - Informou a visitante.

O tempo “perdido” já não possibilitava visitar Alcaria Alta, Marim ou o Monte das Velhas que terão de ficar para uma nova oportunidade.

[Giões. A velha fonte abastecedora da aldeia. Foto JV, 2011]

O almoço estava à nossa espera na Taverna do Ramos, onde comemos umas sopas de peixe muge, o que para a visita era coisa que não acontecia há muitos anos e que lhe soube muitíssimo bem, segundo informou.

A Taverna do Ramos é entre todos e para mim o restaurante que serve melhor em consonância com a tradição culinária do concelho. Possivelmente em todo ele não conseguia quem estivesse apto a fazer este prato.

Quando nos solicitam a informação, é esta que nós damos mas informamos que não temos lá parte nem conhecemos o nome das pessoas. É uma questão de justiça.

Depois foi a ida à Vila onde impera todo aquele actual “charme”. Negámo-nos logo a ir ao Castelo pois nunca entendemos que para visitar a sala de visitas da vila fosse necessário pagar. Não está em causa a quantia mas sim o facto.

[Na Vila, junto à Capela de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2011]

Estivemos na “Casa dos Condes”, junto da Capela de Nª Sª da Conceição e na Igreja Matriz onde tivemos a possibilidade de visitar o seu interior. Observámos Sanlúcar. Tomámos uma bebida na esplanada do quiosque. As horas corriam. Não deixámos de levar os nossos visitantes a visitar a marginal, passando pelo miradouro do Pontal onde só existem bancos de pedra e mesa sem qualquer sombra protectora o que não convida à sua utilização em tempo de canícula.

Montinho, Laranjeiras e Guerreiros do Rio com o majestoso Guadiana ao seu lado, depois a Corte das Donas e regressámos às Bombas da Gasolina.

A visita estava feita.

O resto fica para uma nova oportunidade.

Adeus Amigos. Boa viagem, Felicidades.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Demografia na freguesia de Giões em 1865

[Portal da Igreja Matriz. Foto JV, 1974]
Nesta freguesia, tal como nas outras que já analisámos em igual período, os nascimentos são superiores aos óbitos, neste caso com 10 de diferença.

O número de mortalidade infantil é muito elevado e tomando em consideração os ocorridos até aos 7 anos, verificaram-se 13 o que corresponde à elevada percentagem de 48,71%.

Enquanto nasceram16 pessoas do sexo masculino, foram 11 as do feminino.

A média de idade na morte cifrou-se à roda dos 50 anos, contudo, as mulheres morriam mais tarde, em média aos 55 anos enquanto os homens alcançavam os 44.

Nestes números não estão incluídos os falecidos até aos 7 anos.

Os números apresentados dão uma grande supremacia a Alcaria Alta a nível de montes e reparar que na Minhova, monte há muito desaparecido, desconheço se ainda existe algum vestígio.

O nascimento verificado tem lugar em 9 de Outubro, uma criança do sexo masculino a quem foi posto o nome de Joaquim e o primeiro óbito dá-se precisamente nesse dia na pessoa de sua mãe que tudo indica teria morrido de parto o que era muito vulgar na época. Tinha 36 anos e deixou mais dois filhos. O Joaquim acaba por não resistir à falta da mãe e falece 26 dias depois.

O outro óbito verificado no monte ocorreu em Agosto na pessoa de um homem com 44 anos, casado, lavrador e que deixou 7 filhos.

Possivelmente naquela altura a Minhova teria mais população do que a grande maioria dos montes da freguesia na actualidade.

[Portão do cemitério da freguesia]A pessoa mais idosa que morreu foi uma viúva de 80 anos e que vivia no monte dos Farelos.
É importante lançarmos o nosso olhar para as profissões que encontrámos referidas, o que nem sempre aconteceu em relação aos homens e nunca em relação às mulheres.

Em contrapartida, por exemplo, na freguesia de Vaqueiros aparecem no mesmo período a indicação de tecedeiras e outras como vivendo da sua fazenda.

As profissões que mais aparecem são naturalmente as ligadas è terra sendo a de maior número a de lavradores (20) seguida de jornaleiros com (9). Aqui, ainda que diferenciada, poder-se-á juntar a de trabalhador (4).

Aparecem depois os maiorais com (6), actividade ligada ao gado e depois os almocreves com (5), actividade que foi muito característica desta freguesia e da de Martim Longo. Estão representadas igualmente as de albardeiros, moleiros, alfaiates, carvoeiros, ferreiros e pedreiros que constituíam na altura actividades básicas.

As diferenças por vezes encontradas têm a ver com o lavrar do termo que não é homogéneo em todas as freguesias, principalmente a nível de rigor.

O “lavrador” usado em todo o país tem significado diferente. Ser lavrador no Minho, no Alentejo ou na Serra do Algarve não significa a mesma coisa.

Aqui o lavrador era o que trabalhava a sua terra sem ter necessidade de trabalhar a terra dos outros, isto é, de andar a trabalhar à jorna.

Por aqui em lugar de pastor, diz-se maioral (vulgo moiral) das ovelhas, das cabras ou das vacas.

Para terminar, juntamos um quadro representativo do movimento operado.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A freguesia de Giões e a criação de gado em 1771


[Vista parcial da aldeia de Giões. Foto JV, 2010]

Aproveitando a recolha de dados que fizemos para abordar a criação de gado bovino no concelho de Alcoutim, vamos hoje particularizar o que então acontecia na freguesia de Giões, a mais pequena em área do concelho.

Ao número de bovídeos que tínhamos fornecido no artigo que já referimos, vamos acrescentar o de ovinos, caprinos e porcinos, alguns dos seus proprietários e a sua distribuição pela freguesia.

Manifestadas existiam 3 790 cabeças, sendo 1315 ovelhas, (inclui borregos) 362 cabras (inclui chibatos), 91 bovinos e apenas 22 porcos.

A nível de reses que eram fundamentalmente animais de trabalho, o maior número, 20 encontrava-se no monte de Clarines que tinha um peso importante na freguesia. Seguidamente com 15 vem a aldeia e apenas com menos um, 14, Alcaria Alta. Farelos apresenta 12, Velhas 10, Marim 9 e o desaparecido Viçoso com 5.

A nível de gado lanígero, a aldeia tem a grande distância o maior número (940) com uma percentagem de 52,5% da totalidade.

Este número indica-nos como na altura já devia ser importante em Giões a tecelagem com o predomínio da lã e que chegou até meados do século passado.

Seguem-se com o mesmo número de cabeças (1000) Alcaria Alta e Velhas. Mais do que Clarines e Marim possuía 71 ovinos o desaparecido Monte do Viçoso.

A nível de caprinos, a aldeia tem igualmente supremacia (207) e com uma percentagem superior ao ovino, pois cifra-se em 57%.

Reparar que os Farelos só manifestou reses o que não nos deixa de causar alguma admiração.

Os porcos manifestados são muito poucos (22), cabendo 15 a Alcaria Alta e os restantes a Marim. Não seriam registados os que estavam em regime estabular?

Os maiores manifestantes são dois capitães de ordenanças, certamente da mesma família, moradores na aldeia: João Gomes Delgado e Domingos Gomes Delgado. (1) Enquanto o primeiro manifestou 4 reses, 420 ovinos e 40 cabras, o segundo 200 ovinos e 20 caprinos. Há ainda outro capitão que faz o seu manifesto, Rafael da Palma Pereira, de Clarines com 5 reses, 25 ovelhas e seis cabras.

Os manifestantes do Viçoso foram João da Palma e António Madeira. O monte ainda sobreviveu cerca de duzentos anos.


Nota
(1) - Casou com D. Rita J. de Barros, da Goldra, freguesia de S. Clemente, concelho de Loulé, filha de João Baptista de Barros e esposa, D. Josefina Maria Guerreiro. Foram tios do Doutor João Baptista de Barros, lente de medicina em Coimbra. (Monografia do concelho de Loulé, Ataíde de Oliveira, 1905, Edição de Algarve em Foco, 1986, p. 274).
Foi familiar do Santo Ofício.

A família Gomes Delgado, que se fixou pelas freguesias de Giões de onde penso ser a sua origem e Martim Longo, era das de maior poder económico e consequentemente político no concelho de Alcoutim, tendo alguns dos seus elementos desempenhado as funções de Presidentes da Câmara e Administradores do concelho.

Igualmente existiu uma família Barros no concelho de Alcoutim com alguma importância na área eclesiástica e educacional. Não sabemos se tem relação com esta família mas é possível que sim.

O cruzamento sanguíneo entre famílias de Alcoutim e de Loulé perde-se no recuar dos tempos chegando praticamente aos nossos dias. Se louletanos se fixaram em Alcoutim, houve igualmente alcoutenejos que se fixaram em Loulé.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Um caso dramático na aldeia de Giões

Em 1862 faleceu nesta freguesia um casal que era muito pobre deixando cinco órfãos, todos menores, mas dois deles incapazes de todo o serviço, um de dois anos e outro de cinco que deviam ser criados como expostos e assim foi considerado pela Edilidade.

Como é que gente daquela idade podia trabalhar!

A Câmara destinou 900 réis para os criarem e sustentarem mas a rapariga faleceu três meses depois. (1)

Não sabemos o que aconteceu ao irmão que sobreviveu.

Por estes tempos eram relativamente frequentes situações destas, lembrando-nos de momento uma de contornos semelhantes ocorrida no monte da Corte Tabelião como já aqui referimos ao abordar aquele monte. (2)

NOTAS
(1)-Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Janeiro de 1863.
(2)–Corte Tabelião (Entre os ribeiros dos Ladrões e do Alcoutenejo) – "Postagem" de 6 de Agosto de 2008.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A arte de trabalhar o ferro em Giões

[Aspecto de uma rua na aldeia de Giões. Foto JV, 2010]
A arte de ferreiro foi sempre do agrado dos gionenses mas hoje está extinta.

Em 1799, Manuel Dias, ferreiro de Giões fez a cruz de ferro forjado para a capela de Nª Sª da Conceição, na vila, pela qual recebeu cinco mil réis.

Em 1819, António Rodrigues obtém a carta de ferreiro e serralheiro, em Tavira, junto do Juiz de Fora e Presidente do Senado, Dr. Bernardo José Vieira Mota. Em 6 de Outubro de 1853 ainda exercia a actividade um António Rodrigues que admitimos possa ser o mesmo.

Lourenço Rodrigues Júnior obteve a sua carta do ofício de ferreiro em 22 de Outubro de 1841.

De ferradores, estavam encartados para exercer o ofício, Manuel Rodrigues Soares (1842.05.23) e Domingos Mateus (1853.10.06).

sábado, 11 de dezembro de 2010

O cemitério da freguesia de Giões



Os cemitérios fazem sempre parte da história das populações que servem, pelas figuras que lá repousam, pelos dramas que muitas vidas encerram e até, em alguns casos, pela sua monumentalidade, principalmente nas grandes cidades.

É muito pouco o que temos para dizer.

Situa-se próximo da actual igreja matriz e na sua frente, a da Capela de São Domingos, recentemente restaurada.

Ainda que tivesse sido aumentado em 1988 por acção conjunta da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia (1) continua pequeno, à dimensão da área e população que serve.

Tinha portão estreito de ferro inserido em trabalho de argamassa muito semelhante ao que encontramos no cemitério de Pereiro. No cimo, também uma simples cruz de ferro.

Na sessão camarária de 19 de Março de 1865 a Edilidade avalia o pedido formulado pela Junta de Paróquia no sentido de ser autorizado uma postura que permita a derrama de oitenta mil réis que a mesma Junta julga indispensável para acorrer às despesas com o cemitério, o que foi autorizado.

O aspecto actual é proveniente de recentes trabalhos que procuraram dar-lhe um aspecto mais consentâneo com os nossos dias.

A foto deixa ver o indispensável cipreste, símbolo da morte, da tristeza e da dor.


NOTA

(1)-Boletim da C.M.A. nº 3 de Setembro de 1988.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Giões e o seu topónimo

Para a etimologia de Giões, remete-nos Pinho Leal para Gião, singular daquela.
Na nossa toponímia encontramos mais de uma dezena de vezes Gião e apenas duas vezes Giões, em Alcoutim e em Évora.

[Prof. Trindade e Lima]
O alcoutinense, prof. Trindade e Lima, que tinha raízes familiares em Giões, num dos seus Pequenos Apontamentos (1), formula a pergunta:- Não teria sido uma família constituída por indivíduos com o nome de Gião que deu o nome a Giões ?

O etimologista, José Pedro Machado, (2) diz que Giões “alude a pessoas de famílias locais com o apelido Gião”. E continua:- Gião hoje é raro mas antigamente era corrente. Divergente de Julião por intermédio de Juião. A influência culta conseguiu restaurar Julião, embora Gião se mantenha na toponímia.

A Torre de S. Julião da Barra chamava-se antigamente S. Gião.

Num mapa de 1663 e noutras situações aparece designada por A-dos-Giões. Também é corrente ler-se a aldeia de os Giões. Tanto uma como outra designação ainda hoje é vulgar ouvi-las. A-dos-Giões em Alcoutim, monte de A-do-Gião, em Odemira.


[Pinho Leal]
Como em muitos outros casos, o pronome e a proposição substituíram a velha designação antroponímica possessiva.

Localmente e impregnado de tradição oral, nada obtivemos, afirmando os nossos interlocutores que também eles se interrogam sobre isso. Não conheço nenhum Julião no concelho e muito menos Gião. Também nunca encontrei, que me lembre, tais antropónimos em documentos que consultámos nos arquivos locais.

NOTAS

(1)-"Bairrismos", in O Povo Algarvio - Tavira, de 28 de Julho de 1973.

(2)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa- 2ª edição - 1993.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Ensino Primário na Freguesia de Giões


O Administrador do Concelho, em 1845, transmite à Câmara, reunida em Sessão no dia 14 de Setembro, o manifesto e grande vontade que os habitantes da aldeia de Giões lhe transmitiram de mandar ensinar seus filhos, mas que sendo pobres na sua maioria, lhes faltavam os meios para pagarem ao mestre. Se a escola fosse do Estado e não tivessem de pagar, de boa vontade mandariam os filhos aprender a ler e a escrever.

Alvitrava por isso o Administrador que fosse pedida a “Sua Magestade humma Escola Régia” para aquela aldeia que tinha a população restante da freguesia a pequena distância. Aprovada a sugestão da Câmara, logo foi redigida a petição e enviada ao Governador Civil.

Parece não ter dado os resultados desejados pois a Junta de Paróquia em 20 de Agosto de 1854, pressionada pelos seus habitantes, volta a insistir no sentido de ser criada uma escola de ensino primário para aquela aldeia.

Em sessão camarária de 1 de Janeiro do ano seguinte “...foi lida e assinada a representação que a Câmara em sessão de 20 de Agosto último deliberou se dirigisse a Sua Magestade pedindo o estabelecimento de humma Escola Régia na aldeia de Giões”.

Desta vez sim, os gionenses viram satisfeitas as suas aspirações e no Diário do Governo nº 92, de 20 de Abril de 1855, pode ler-se o seguinte:- Atendendo ao que me representou a Câmara Municipal de Alcoutim sobre a necessidade de ser criada uma cadeira de ensino primário na aldeia de Giões, daquele concelho; considerando quanto importa promover e difundir a instrução primária em um concelho, onde existem povoações distantes e separadas por serranias. Hei por bem, em Nome d’El-Rei, criar uma cadeira de ensino primário, primeiro grau, na aldeia de Giões. - Paço das Necessidades, em 7 de Março de 1855.
Estávamos no reinado de D. Pedro V com regência de seu pai, D. Fernando.

[Escola desactivada de Alcaria Alta]

A escola começou por funcionar em casa do prof. Joaquim Pedro Teixeira, mas como o número de alunos cresceu consideravelmente, passou em 1864 para a “casa da Fábrica destinada à residência do sacristão,” funções que o mesmo professor acumulava. A casa tinha 6,86 m de comprimento, 3,47 de largura e 2,30 de altura, sendo frequentada por vinte e dois alunos.

Na sessão da Câmara de 11 de Agosto de 1883 é deliberado, por ser de grande utilidade pública, pedir a criação de uma escola de sexo feminino para esta aldeia. Entretanto, o vereador da Câmara, António Joaquim Teixeira, é nomeado professor interino em Giões.

Em 1887 a Câmara insiste na criação da escola feminina mas os gionenses só vêem esta sua aspiração concretizada após a implantação da República. Na sessão camarária de 13 de Março de 1911 é deliberado criar uma Escola feminina em Giões, onde havia, segundo o recenseamento, 67 crianças do sexo feminino.

[Antiga Escola de Farelos]

Em 1929 a escola masculina funcionava numa casa de João Gomes Delgado a quem a Câmara pagava a renda anual de 48$00.(1)
Na vigência do Estado Novo foi pedida a criação de dois postos escolares (1934), um em Alcaria Alta (2) e outro em Clarines/Farelos (3), mais tarde transformados em escolas, sendo mesmo construídos edifícios para o efeito, isto na década de sessenta.

A escola de Farelos encerrou por falta de alunos em 1988 e o mesmo já tinha acontecido à de Alcaria Alta.

As poucas crianças existentes passaram a ter escola na sede de freguesia onde se havia construído um edifício, presumo que na década de sessenta.

Em 1991 e pelos mesmos motivos é encerrada a escola da sede da freguesia. (4)

Hoje, as crianças frequentam a Escola Básica Integrada de Martim Longo.

[Escola Básica Integrada de Martim Longo]

PEQUENO QUADRO DE ALGUNS PROFESSORES
QUE EXERCERAM FUNÇÕES NA ESCOLA DE GIÕES

1913............... Maria da Glória Faria
1915............... Gertrudes Pinto Quaresma
1915............... Carlos Rafael Pinto (*)
1916............... Beatriz de Matos
1916............... Victória das Dores Pontes
1939............... Ana Teresa de Freitas (**)

(*) Foi transferido para o concelho de Loulé em 1917.
(**) Sepultada no cemitério de Giões (1892-1978)

NOTA

(1) - “Um século de ensino escolar no concelho de Alcoutim (1840-1940)”, José Varzeano, in Jornal do Algarve de 4, 11 e 18 de Abril de 1991.
(2) – Actas da C.M. de Alcoutim de 12 de Janeiro de 1932 e de 7 de Janeiro de 1934
(3) – Acta da C.M. de Alcoutim de 29 de Novembro de 1934.
(4) – Boletim Municipal, nº 9 de Dezembro de 1991, pág.10

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A aldeia de Giões, descrição através dos tempos


Depois daqui termos feito as descrições da aldeia de Martim Longo e da Vila de Alcoutim, iremos hoje fazer a da aldeia de Giões que ainda constitui o terceiro centro populacional do concelho e que tem menos observadores como iremos ver.

A mais antiga que conhecemos é a que nos dá o pároco local ao responder ao ponto 4 do questionário e que veio a constituir as Memórias Paroquiais de 1758.

Pronunciou-se assim:- O lugar está situado em um outeyro entre montes a que lá chamam serros, que a cercão de sorte, , que quem vem para elle o não vê senão quando, está perto e só da parte do Norte, hé que se vê em distancia de três légoas campos do termo de Mértola e do dito lugar senão descobre povoação alguma, senão a do monte de Casselinha da dita freguesia que dista do dito lugar a terceyra parte de meya legoa.
A que vem a seguir é de meados do Séc. XIX e de Silva Lopes (1): aldeia grande, muito mal arruada, com boas casas, assentada em hum outeiro entre serros: tem a dous tiros de balla huma fonte abundante, de que bebe o povo, e junto hum chafariz para os gados, e ainda vai regar huma horta, está entre penhascos, e antes do terramoto não bastava para uso da povoação, que sim tem alguns poços, mas todos se seccão no verão.
Pinho Leal, pouco depois, limitou-se a transcrever as palavras de Silva Lopes.


[Torre d Igreja Matriz. Foto jV, 2009]
Pereira de Sousa (2) escreveu: - aldeia grande que assenta sobre os terrenos de Culm, num outeiro entre serros (nome muito empregado na região para designar montanhas elevadas).
Do recente Guia de Portugal, (3) transcrevemos:- Das outras aldeias que salpicam este enclave, a de Giões é aquela que mais atrairá a atenção do viandante (...) Giões justifica bem um desvio da estrada principal e mesmo uma caminhada ao longo da ribeira.
No Portugal Meridional (1995) (4) indicam:- Está situada numa pequena estrada secundária que liga Mértola à estrada principal Silves-Alcoutim, a E.N. 124. De Giões partem algumas estradas que levam aos campos em redor.

Notas
(1) - Corografia do Reino do Algarve, 1841, pág. 398.
(2) - O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal (...) Lisboa – 1919, pág. 21
(3) – Algarve, José Victor Adragão, Editorial-Presença, pág. 184.
(4) - John e Madge Measures, pág. 77.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Uma Festa em Giões, percursora das actuais?

[Igreja de Nª Sª da Assunção, 2009. Foto JV]
As feiras, mercados e festas foram sempre apanágio do povo português e no concelho de Alcoutim, apesar do seu isolamento, e talvez por esse facto, também tiveram e têm o seu lugar.

Nota-se nos últimos anos a tentativa de manutenção da Festa Anual na aldeia de Giões que se realiza em 15 de Agosto, em honra do orago, Nª Sª da Assunção.

Este pequeno apontamento destina-se a referir uma festa, como o título indica, e isolada no tempo.

O gionense, Manuel Francisco Passos, resolveu fazer um peditório no sentido do seu produto dar origem a uma festa em Honra de Nª Sª da Assunção, que como já se disse é orago da freguesia, o que efectivamente veio a ter lugar no dia 15 de Agosto de 1883.

Depois de pagas todas as despesas, o Sr. Passos declarou à Junta que ainda tinha em seu poder 9020 réis que queria empregar na festa à mesma Senhora, no presente ano (1884).

Respondendo à Junta de Paróquia que tinha dúvidas, a Câmara informa que não deve existir qualquer complicação, tendo andado bem o dito Passos, bastando à Junta no seu orçamento anual lançar a seguinte verba de receita:- Esmolas com a aplicação à Festa da Senhora da Assumpção, em poder de Manuel Francisco Passos - 9020 réis. (1)

Nestas alturas, o Povo era assim!

NOTA

(1)-Of. nº 52 de 15 de Março de 1884, ao Presidente da Junta de Paróquia de Giões.