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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Figuras cortes-pereirenses

As Cortes Pereiras vista do S. Martinho. Foto JV, 2013

Entre qualquer comunidade, por muito pequena que seja, existem sempre pessoas que se destacaram entre as demais pelas suas características, intelectuais, económicas, beneméritas e políticas, entre outras.

No século XVIII, por exemplo, o lugar de tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia de Alcoutim foi desempenhado vários anos por cortes-pereirenses. Assim, entre 1751/54 por Sebastião Teixeira, de 1759/60, António Martins, de 1761 a 1763, Domingos Rodrigues e de 1766 a 67 foi a vez de Manuel Martins e isto sobrepondo-se aos irmãos existentes na vila, para não dizer em todo o concelho, ou pelo menos nos lugares mais próximos de Alcoutim. (1)

No campo político, José Martins Cravo foi em 1834 licenciador para a eleição da Câmara Municipal e veio a desempenhar as funções de vereador no mesmo ano, ainda que fosse analfabeto, pois assinava de cruz.

No mesmo ano era juiz almotacé, (2) Afonso Guerreiro Drago.

A nível de exercício na Junta de Paróquia, actual Junta de Freguesia, indicamos: 1850/51, Manuel Roiz, dos Currais, 1852/53, Manuel Martins Cravo, das Cortes Pereiras, 1854/59, José Martins Capelo, de S. Martinho e de 1858/59, Francisco Gomes.

Vitoriano da Palma, do São Martinho (1803-1873) era em 1858 o Juiz de Paz Eleito (substituto).(3)

José Martins Capelo e José Maria Cravo foram os representantes das Cortes Pereiras na assembleia realizada na Capela de Nª Sª da Conceição, na vila, em 22 de Dezembro de 1843 para resolver o problema da criação do cemitério. (4)

Nos anos trinta do século XX, no chamado “Estado Novo”, desempenhou vários anos a função de vogal da comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim, o lavrador local, António Gomes Alves.

De ordem artística é de destacar o mestre ferreiro Lourenço Gomes Teixeira (1831-1905) que exerceu a sua actividade no monte de S. Martinho. Era natural da freguesia de Giões. É tradição que este artesão nas provas que prestou para poder exercer a profissão, modelou um cágado o que causou admiração pelo júri. Exerceu a sua actividade em meados do séc. XIX.

Bem mais velho, trabalhou no mesmo local Bartolomeu da Palma, mestre ferreiro vindo de S. Bartolomeu da Via Glória, concelho de Mértola.

Tanto um como outro deixaram a sua descendência, alguma a viver ainda no concelho de Alcoutim.

Presumo que ambos tivessem vindo trabalhar para este local a convite de Miguel Angel de Leon que possuiu uma forja ainda lembrada pelos mais idosos habitantes das Cortes Pereiras.

NOTAS

(1) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 1985, p. 253.
(2) – Oficial do concelho que tinha a seu cargo fiscalizar o abastecimento de géneros alimentícios, os preços de alguns deles, os salários dos ofícios, os pesos e medidas, evitar que os rendeiros fizessem avença com as partes, etc. in Dicionário de História de Portugal, dilecção de Joel Serrão., Vol. I, p.121.
(3) – É 4º tio de meu filho pois era irmão mais velho de uma das suas tetravós, Maria do Rosário falecida no monte do Marmeleiro em 23 de Junho de 1862. Já era viúva de António Dias.
(4) – “O Cemitério da Vila de Alcoutim – da origem aos nossos dias”, José Varzeano, Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988)

sábado, 17 de novembro de 2012

Álamo, onde os romanos deixaram mais vestígios


É o último dos “montes do rio” que vamos abordar distando 12,5 km de Alcoutim, freguesia a que pertence mas apenas a quilómetro e meio do vizinho Guerreiros do Rio.

Se estivermos a percorrer a estrada marginal (E.M. 507) ao sair dos Guerreiros do Rio encontramos, após uma leve subida, uma rotunda cuja primeira saída nos leva à Corte das Donas e a segunda ao Álamo, continuando assim a estrada marginal.


Rotunda do Álamo. Foto L.M.
As várzeas do rio aqui são mais extensas, constituindo bons locais de cultivo onde vicejam vinhas e abundam oliveiras, figueiras e outro arvoredo frutícola.

Esta zona devido à sua localização e características do terreno foi sempre procurada para a fixação dos povos, entre os quais visigodos, romanos e árabes que por aqui foram passando em procura de melhores condições de vida. Talvez, por isso, por aqui tenham sido encontrados os mais importantes achados arqueológicos.

Entrada da povoação pelo lado Norte. Foto JV
Estácio da Veiga indica-o como sede de “povoação romana extinta ou arrasada” (1), mas desconhece-se o nome que teria tido, tanto esta como as povoações vizinhas já ocupadas em épocas distantes.

O “muro velho”, como o povo do monte lhe chama, constituiu uma represa ou barragem que os romanos construíram no barranco da Fornalha. Foi Estácio da Veiga que a identificou em 1877, mandando levantar uma planta.

O muro deveria ter tido no início um comprimento de cerca de 50 metros, possuindo actualmente a altura máxima de 3 e a espessura da mesma medida (2) e com contrafortes. O topo do muro tem cerca de 2,3 m e os sete contrafortes estão afastados uns dos outros igualmente 2,3 m. A espessura é de metro e meio e o comprimento de 1,6 m.

Ruínas da barragem romana
 
Presume-se que a barragem tivesse tido uma capacidade de 2.100 m3.

É uma obra hidráulica de alguma dimensão, possivelmente para servir a povoação romana, que deverá ter existido nas redondezas e de que Estácio da Veiga fornece mais alguns dados.

A muralha, devido à técnica de construção, tem-se mostrado de uma solidez impressionante e o povo considera-a “eterna”.

Este monumento foi classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 26-A/92, de 1 de Junho.

Estátua de Apolo
Estácio da Veiga explorou, igualmente, o resto de um edifício romano denominado a “Igreja”, formado por vários compartimentos rectangulares. Um pouco ao sul, mais casas arrasadas com sepulturas romanas escavadas nos pavimentos. Foram aqui encontradas três estátuas fragmentadas, sendo uma de divindade (3), mais propriamente de Apolo, em mármore com 1,69 de altura. Está representado nu, apoiado a um tronco de árvore onde repousa a correia e a aljava. Faltam-lhe a cabeça e os dois braços. Encontra-se no Museu Nacional de Arqueologia com o nº de inventário E – 5467.

Encontra-se presentemente no núcleo museológico de arqueologia no castelo de Alcoutim uma réplica desta estátua.

Foi recolhida ainda alguma cerâmica.

Sondagens feitas num velho caminho detectaram uma via romana.

Muitos objectos têm sido destruídos pelos achadores que desconhecem o valor arqueológico que possuem, talvez hoje não tanto, mas em 1970 ainda ouvimos contar destes achados e mesmo a descrição de algumas peças que depois foram partidas. Isto acontecia, normalmente, quando andavam a lavrar.

Segundo nos afirmaram recentemente, o Álamo é o monte em que vivem mais estrangeiros de todos os considerados “montes do Rio”.

O casario do “monte” estende-se alcandorado pela encosta. Notam-se algumas casas típicas com platibandas e fachadas trabalhadas em argamassa e policromadas.

Chama-nos a atenção um interessante exemplar bem restaurado, tendo sido informado que é obra de estrangeiros, que de uma maneira geral preservam aquilo que nós não somos capazes de fazer.

Interessante construção do primeiro quartel do século passado
e que estrangeiros preservaram. Foto JV

Na década de 70 do século passado existia um forno de cozer pão comunitário. Era conhecida a arte de fazer cadeiras e da cestaria.
 
A povoação já beneficia do saneamento básico. Anteriormente a água era distribuída por nove fontanários e antes disso por dois poços públicos.

As crianças iam à escola que se situava nos Guerreiros do Rio por ser o monte mais central.

Em 1939 a Câmara tinha pedido a criação de um posto de ensino escolar. (4)

Em 1991 foi concluída a pavimentação dos arruamentos (5) que após o saneamento básico tiveram novamente de ser pavimentados.

Tal como na maioria dos montes da freguesia, existia uma Lutuosa.

Em meados do século passado funcionavam na povoação dois estabelecimentos comerciais.

A povoação vista do Sul. Foto JV
 
O “Álimo” como o pároco de Alcoutim o indica no questionário formulado em 1758 e que ficou a constituir as Memórias Paroquiais, é dado como tendo 15 vizinhos.

Em 1839, segundo Silva Lopes, apresentava 21 fogos e no recenseamento de 1991 era dos montes do rio o mais populoso, com sessenta e quatro moradores e cinquenta e sete fogos.

Em frente, no outro lado do rio, a propriedade rústica conhecida por “Fonte Santa”.

O topónimo prende-se naturalmente à flora. Álamos (ou choupos) são por aqui vulgares, junto ao rio.

A linha limite da freguesia, segundo ouvimos dizer, passa por este lado passa, ao Barranco das Pereiras, onde nas proximidades funcionava um posto da Guarda-Fiscal e que foi construído em 1890.
 
Seguindo a marginal, vamos encontrar um novo monte. mas já pertencendo ao concelho de Castro Marim, a Foz de Odeleite, cujo posto pertencia à Secção da Guarda Fiscal de Alcoutim.

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NOTAS

(1) - Carta Archeológica do Algarve.

(2) - Aproveitamentos Hidráulicos Romanos a Sul do Tejo, António de Carvalho Quintela, José Luís Cardoso e José Manuel Mascarenhas, 1986.

(3) - Arqueologia Romana do Algarve, Maria Luísa Estácio da Veiga Affonso dos Santos, 1971.

(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Dezembro.

(5) - Boletim Municipal, Nº 8 de Abril / 91.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guerreiros do Rio, o lugar do simbolismo da defesa fronteiriça


Entrada norte da povoação. Foto JV

Alcançamos esta povoação seguindo pela designada estrada marginal e que encontramos depois de termos passado pelo Montinho e pelas Laranjeiras.

Situa-se a 11 km de Alcoutim a cuja freguesia pertence.

A estrada marginal continua a correr paralelamente ao rio, ficando à nossa esquerda dos melhores terrenos agrícolas do concelho e que constituem as chamadas várzeas do rio, predominando a oliveira nos sítios mais afastados, a vinha os citrinos e já banhados pelas águas do rio, nas “baías” os marmeleiros e as romãzeiras que além dos frutos tinham a missão de segurar os terrenos através do seu forte raizame.

Em 1976 fomos encontrar, de recente fundação, o Centro Cultural POVO-MFA. O antigo edifício escolar, que estava devoluto, foi ocupado e preparado pelo povo com o auxílio das Forças Armadas. Além da criação de um posto clínico, cujo apetrechamento foi possível pelo abate ao efectivo de um vaso de guerra, pois parte do material existente foi para aqui enviado, era assistido por médicos duas vezes por semana. Velhos tempos!

Tinha salão de festas de razoável tamanho. José Segundo Martins foi um dos grandes entusiastas desta obra.

É evidente que tudo isto pertence ao passado e faz parte da história local, sendo representativo de uma época ainda não muito distante.

Em 1989 (1) anuncia-se que será instalado neste antigo edifício escolar, que a Região de Turismo do Algarve se prepara para comprar, o Museu do Rio. Nele irão ser recolhidas peças de artesanato local e objectos tradicionais relacionados com a faina piscatória.

Em 1991 (2) informa-se que os Bombeiros Voluntários de Alcoutim acabam de adquirir o imóvel com o apoio da Câmara Municipal e da Região de Turismo do Algarve. Diz-se então que irá reunir peças arqueológicas, apetrechos de pesca e outros objectos e documentos ligados à vida do rio, não esquecendo o comércio ilegal entre as duas margens do Guadiana. O Museu irá testemunhar toda a vida ribeirinha nos aspectos histórico, cultural e etnográfico.

Aspecto exterior do Museu. Foto JV

O Museu do Rio vem a ser inaugurado em Janeiro de 1995 e afirma-se agora que o edifício foi adquirido pela Câmara Municipal, subsidiado pela Região de Turismo do Algarve e a instalação financiada pela Delegação Regional da Secretaria de Estado da Cultura. (3)

A área de intervenção do museu vai da Foz de Odeleite até ao Pomarão e insere-se num percurso que procura retratar toda a vida do rio através dos tempos. (4)

Apesar de bem modesto, o museu não deixa de, através de textos, desenhos e fotografias, contar a história do comércio fluvial que desde tempos imemoriais se fazia até Mértola. (5)

O museu foi, entretanto, reestruturado, mas não voltámos a visitá-lo pelo que desconhecemos o seu conteúdo. Consta-nos, contudo, que possui desde 2008 uma exposição de pequenas réplicas dos barcos que circularam no baixo Guadiana em diversas actividades.

O povoado, tal como os seus vizinhos, desenvolve-se pela encosta do cerro e assenta sobre rocha xistosa. Lá no cimo, a escola primária que concentrava as crianças das redondezas, incluindo Corte das Donas,e que presentemente (1997) tem dificuldade na manutenção devido à falta de alunos. Há muito que encerrou.

Casa interessante e bem preservada dos anos 30 do séc. passado. Foto JV

Em 1917 já havia uma escola móvel a funcionar (6) que deu origem a um posto escolar e mais tarde à escola.

Esta zona da margem direita do Guadiana foi sempre procurada pelo homem e por aqui se fixaram entre outros povos os romanos que deixaram alguns vestígios.

A facilidade de comunicação, a pesca e a actividade agrícola eram factores de grande importância. Mais tarde, com a fixação das fronteiras, adquiriu outra importância a acrescentar às já existentes, ponto de vigilância e de defesa do território tendo o topónimo originado dessa circunstância. Em tempos distantes, os mancebos da região

estavam isentos do cumprimento do serviço militar mas eram obrigados a defender a fronteira em caso de guerra.(7)

A Guarda-Fiscal teve sempre aqui o seu posto com o comando de um 1º cabo e foi um dos últimos a ser extinto. Esse facto não evitou, naturalmente, a existência da actividade oposta, o contrabando, que por aqui teve a sua expressão.

Acesso à Casa de Pasto. Foto JV
 
João Martins, aqui morador, foi em 1845 um dos dois informadores por parte deste concelho na divisão com o de Castro Marim e pela Cheia Grande que causou o desabar de seis moradias, foram indemnizados Lourenço Madeira, 300$000, Manuel da Palma Gato, 250$000, e Maria Custódia, Vª de Ildefonso Gonçalves, 200$000.

A mesa da estação telegráfica do Pomarão foi recolhida aqui por Manuel da Palma Gato.

Em 1887, um requerimento dos moradores do monte solicita à Câmara a concessão de um subsídio de nove mil réis que se destina a aprofundar e reconstruir o poço público. (8)

Dois poços abasteciam o monte e nos princípios da década de 80 do século passado o precioso líquido passou a ser fornecido por intermédio de oito fontanários através de um furo artesiano. Presentemente já há saneamento básico.

Existiu desde há muito um forno comunitário que ainda era utilizado por parte da população na primeira metade da década de 70 do século passado.

A existência de uma Lutuosa, instituição muito característica da zona e a primeira fundada (1934) e em que se pagava uma quota mensal de 5$00, constitui uma simples lembrança de alguns.

Os Guerreiros do Rio têm dois pequenos estabelecimentos comerciais:- uma mercearia e uma casa de pasto muito procurada, principalmente, pelo prato de enguias que tem muitos apreciadores.

Vista parcial. Na parte cimeira o hotel. Foto JV

Uma plataforma de apoio ao cais possui um pequeno serviço de cafetaria com esplanada,o que se torna bem agradável. Entretanto, foram construídos pequenos apoios individuais para os pescadores do rio.

De notar a existência de uma unidade hoteleira situada em posição cimeira com excelente vista sobre o Guadiana.

Apresenta uma piscina rodeada por um terraço e espreguiçadeiras, usufruindo-se de bons panoramas.

Podem organizar-se actividades de canoagem ou de pesca e estão disponíveis bicicletas para alugar.

Tem estacionamento próprio.

O cais com o seu movimento. Foto JV

Segundo o Jornal do Algarve de 23 de Março de 1984, iniciaram-se passeios turísticos fluviais com partida de Vila Real de Sto. António e que têm como ponto mais a montante este povoado. Desconhecemos quando terminaram.

Hoje,os Guerreiros do Rio são um lugar muito procurado pelos turistas nacionais e estrangeiros, tendo alguns adquirido velhas casas que restauraram a seu gosto e que frequentam em períodos de férias e de fins-de-semana.

As várzeas que ladeiam a estrada tornam-se maiores quando se caminha para o sul e denunciam boa produtividade:- vinhas, oliveiras, figueiras e citrinos, além de produtos hortícolas. Sem dúvida que estamos na presença de uma das zonas mais férteis do concelho.

No outro lado do rio, um fogo “César” desabitado na altura.

Existe um clube de caça e pesca.

Em 1758, segundo as Memórias Paroquiais, Guerreiros possuía 17 vizinhos e em 1839 a Corografia do Algarve de Silva Lopes atribui-lhe 22 fogos.

De notar que os “montes do rio” em 1758 faziam parte da freguesia de Alcoutim mas pertenciam ao termo de Castro Marim.

Em 1991 tinha cinquenta moradores e cinquenta e nove edifícios. Desconhecemos a actual situação.
 
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NOTAS

(1) – Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989.

(2) – Boletim Municipal nº 8 de Abril de 1991.

(3) – Jornal do Algarve de 26 de Janeiro de 1995.

(4) – Alcoutim, Revista da C.M.A., nº 1, de Maio / Junho de 1995.

(5) – Guia (Expresso) de Portugal, 2-Algarve, de 1 de Julho de 1995, pág. 15.

(6) – “Um século de Ensino Escolar no concelho de Alcoutim (1840 – 1940)”, José Varzeano, Jornal do Algarve de 4 a 18 de Abril de 1991.

(7) – Memórias Paroquiais, 1758, Freguesia do Pereiro, quesito 22.

(8) – Acta da Sessão da C.M.A. de 18 de Julho de 1887.

 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Laranjeiras, pequena e airosa povoação à beira do Guadiana


Entrada norte da povoação. Foto JV, 2012.

Esta pequena e airosa povoação na margem direita do Guadiana, anexa muitas vezes em informação e por ser mais pequena, a que a antecede no sentido norte / sul, isto é, o Montinho (das Laranjeiras). Verdade seja que a distância que as separa, uns 300 metros, é bem curta.

A estrada municipal é ladeada de ambos os lados por algumas casas, notando-se o embelezamento das mesmas através de flores, principalmente gerânios.

Junto ao rio, as várzeas constituem bons terrenos para produção agrícola, nem sempre efectuada.

A actividade piscatória que deu de comer a muitas famílias tem declinado com o decorrer dos tempos e até porque as condições hidrológicas modificaram-se. A arte de pescar à colher, que aqui existia, está completamente extinta.

O forno comunitário suportado pela comunidade e a “Lutuosa” ainda existiam em meados do século passado, onde as conhecemos em actividade.

A Lutuosa pagava todas as despesas do funeral dos associados falecidos, excepto o serviço religioso. Secretário e tesoureiro eram eleitos até 15 de Janeiro. Defunto e acompanhantes tomavam o caminho do cemitério pela via fluvial, já que não havia estrada directa a Alcoutim como hoje existe. Estaríamos há meia dúzia de dias em Alcoutim junto ao cais velho onde chegam três lanchas, uma com o caixão e duas com acompanhantes, facto de que não estávamos à espera e que nos deixou admirado.

O topónimo “vegetal” é de fácil explicação e não admira a sua existência em tal zona.

Um aspecto da estrada marginal. Foto JV, 2012.

Em 1865 junto ao poço público que servia os montes de Laranjeiras, Casa Velha e Montinho, Manuel Pereira Roxo, proprietário de uma fazenda que lhe fica junto, resolve avaladá-la de pedra solta, o que estreitou o caminho que conduz ao poço, de tal maneira que é quase impossível passarem bestas com cargas. Resolve o povo reclamar junto da Câmara alegando que desde tempos imemoriais existe este poço com o seu competente tanque de onde o povo tira água para o seu serviço e dá água aos gados.

A Câmara, com o seu presidente, Paulo José Lopes e os vereadores, Dionísio Guerreiro (de Giões) e José Joaquim Madeira (da vila) foi ao local avaliar a situação e a pedido do povo.

Acabou por certificar que o poço em questão é antiquíssimo e foi feito em terreno livre e desembaraçado de paredes em redor, que é um poço público e não há muitos anos foi reparado à custa dos habitantes. Considerou que deve ser deixado um espaço de 3,12 m entre a parede e o poço. (1)

Com a energia eléctrica e após o 25 de Abril foi possível instalar quatro fontanários para distribuição de água.

Existiam cinco furos privados destinados à rega, mas consta-nos que em determinada altura salgaram, desconhecendo a actual situação.

Em 1883 havia um rossio no monte onde Paulo Pereira pede terreno para fazer uma casa (2) e em que actualmente existe um “campo de futebol”.

Neste monte e em casa de Manuel Cavaco, deu-se no dia 10 de Setembro de 1877 um acidente que resultou na morte de um homem.

Entre outras pessoas, encontrava-se um guarda da Alfândega de Faro e um marítimo de Mértola conhecido pelo Caxata, que desejando conhecer bem o revolver do guarda o esteve descarregando, mas inadvertidamente deixou uma bala na câmara e ao fazer rodar o tambor fê-lo com tanta infelicidade que a bala atravessou-lhe o peito, morrendo de imediato. O guarda foi preso e remetido ao Tribunal de Tavira com o competente auto. (3)

No dia 6 de Fevereiro de 1890 e como terra ribeirinha que é, foi encontrado na margem do rio o cadáver de um indivíduo do sexo masculino, já em estado de putrefacção. (4)

Em 1987 a Câmara consegue ver colocada uma antena no cerro da Grandaça (a que estava no Cerro da Castanha) que possibilitou ver então os dois canais de televisão, nos montes do rio. A R.T.P. durante a emissão do dia 30 de Abril pede que se informe das condições em que está a ser recebida a emissão. (5)

Tal como todos os outros montes do rio, Laranjeiras viu os seus arruamentos pavimentados em 1993.

É dos poucos “montes” do concelho que possui um pequeno restaurante que nos oferece alguns pratos regionais de peixe do rio e de caça, situando-se na encosta do cerro.
 
O pequeno "restaurante". Foto JV, 2012.

O velho cais vai ser substituído por um novo, cuja obra foi adjudicada por cerca de 1000 000 euros

O arranjo paisagístico comporta a criação de zonas de sombra e da instalação de um quiosque com sanitários, esplanada e parque de merendas de uma forma semelhante ao que existe nos Guerreiros do Rio.

Os trabalhos já iniciados devem estar concluídos em finais deste ano.

Apesar das transformações operadas que tem desvirtuado o seu casario, ainda se podem admirar algumas construções ao gosto antigo.

Em 1839 são-lhe atribuídos 20 fogos. (6)

No censo de 1991 apresentava 57 moradores e trinta e nove fogos.

Possui água ao domicílio e rede de esgotos desde 14 de Maio de 2010, sendo antigo o fornecimento de energia eléctrica.

Aspecto do antigo cais. Foto JV, 2012.

Em 1758, tal como os seus vizinhos do Montinho, Guerreiros do Rio e Álamo, pertencia à freguesia de Alcoutim mas ao termo de Castro Marim.
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NOTAS

(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 24 de Março de 1865.

(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 18 de Agosto de 1883.

(3) - Of. nº 151 de 12 de Setembro de 1877 ao Governador Civil dirigido pelo Administrador do Concelho.

(4) - Of. nº 22 de 7 de Fevereiro de 1890 ao Governador Civil, dirigido pelo Administrador do Concelho.

(5) - Informação prestada pelo Presidente da Câmara numa visita proporcionada ao concelho.

(6) – Corografia do Reino do Algarve, (anexo), João Baptista da Silva Lopes, Algarve em Foco, 1988 (edição fac-similada da de 1841).

domingo, 23 de setembro de 2012

Montinho das Laranjeiras, dos "montes do rio", o mais próximo da vila


Pequena nota

O primeiro artigo que publicámos no ALCOUTIM LIVRE teve por título “Os Montes do Rio, recanto aprazível do concelho de Alcoutim”e que como o título indica engloba os quatro montes do concelho sempre conhecidos e designados por” Montes do Rio”.

Recentemente foi colocada uma placa toponímica com essa indicação e que bem se justifica.

Entendemos agora desdobrar esse escrito pelos quatro montes, aproveitando o que então escrevemos e acrescentando o que nos for possível.

JV

A velha e ainda actual designação “Montes do Rio”engloba como várias vezes temos escrito o conjunto de pequenas povoações na margem direita do Guadiana situadas entre a foz da Ribeira de Cadavais e a foz da Ribeira de Odeleite. Quatro desses montes pertencem ao concelho de Alcoutim e um ao de Castro Marim ou seja a Foz de Odeleite, antigamente Odeleite-a-Menor.

Saindo de Alcoutim e seguindo o relativamente recente troço da estrada 507, vulgo estrada marginal, velha ambição dos alcoutenejos, só tornada realidade em finais da década de 80 do século passado, vamos percorrendo a via umas vezes sinuosa, outras nem tanto, mas tendo sempre por fundo o majestoso Guadiana, o grande rio do Sul, de águas profundas.

Passamos pela Cochoa, topónimo curioso e zona baixa com algum aproveitamento agrícola, pelo menos na primeira metade do século passado, o que ainda se nota pela arborização dos terrenos.

A sua origem não é clara. Segundo José Pedro Machado (1) existem os topónimos Casal da Cochoa e Quinta da Cachoa no centro do país e que será feminino de Cochom,  um apelido antigo (séc. XIII) que significa comissário, cozinheiro, vendedor ambulante e que terá a ver com o francês cochon, leitão, porca. Por outro lado, os cochões e as cochoas eram as pessoas que iam na retaguarda dos exércitos peninsulares, no séc. XIII. Não terá a ver, perguntamos nós, com a existência no local de porcos selvagens (javalis)?
 

Zona agrícola da Cochoa. Foto JV

Mais à frente, passamos no sopé da elevação onde se encontra o antigo posto da Guarda Fiscal designado por “Alcaçarinho”, hoje transformado em residência, tendo sido o primeiro adquirido na década de sessenta do século passado à Fazenda Nacional. Nas proximidades uma das maiores e melhores várzeas do Guadiana, conhecida por várzea do Alcaçarinho e que foi propriedade de José Dionísio, do Balurco de Baixo e que depois foi adquirida por um cidadão alemão. Alcácer, castelo em árabe.

Acesso à Casa do Alcaçarinho, antigo posto da GF. Foto JV

O rio corre à nossa esquerda oferecendo-nos excelentes paisagens que a vista não se cansa de observar.

A margem, que fica entre a estrada e o rio, ainda que praticamente abandonada em muitos locais, é das zonas com maior potencial agrícola do concelho. Ainda bem que a lei não permite a sua destruição em proveito do capital.

Passamos depois pela zona do Abrigo, topónimo relacionado com a possibilidade de protecção ao trânsito fluvial e um pouco mais à frente, passamos uma ponte sobre o barranco do Vale de Condes, topónimo que tem a ver com o título Condal da vila.

Construção da ponte de Vale de Condes. Foto JV, 1986

Do lado direito da estrada, uma necrópole identificada em 1987 e que aparece devido aos trabalhos da mesma. Está mesmo junto ao caminho velho, possivelmente local da via romana. Entretanto, numa intervenção arqueológica, as sepulturas foram classificadas de origem Tardo-Romana, cuja idade remonta, provavelmente, aos séculos V/VI. (2)

Seguidamente, alcançamos a zona do Vinagre cujo barranco é atravessado por ponte. Lá está o antigo posto da Guarda-Fiscal, adquirido por particular para fins agrícolas, segundo pensamos. Velhas oliveiras, algumas virão do tempo dos árabes. É zona fortemente taxada fiscalmente, facto que vem de tempos recuados.

Existe nas proximidades um poço público coberto e apetrechado de bomba elevatória, antigamente muito utilizado e que hoje raramente servirá.

Passámos depois pelo sítio do Pontal (pontal significa ponta de terra ou de penedia que entra um tanto pelo mar, no caso concreto rio), local que proporciona boas vistas sobre o rio, tanto a jusante como a montante. Foram criadas infra-estruturas de acesso, mesas e bancos de pedra e onde notámos a falta de sombra que podia ser proporcionada por uma simples armação onde se desenvolvesse uma trepadeira. Há muita pedra e pouco “verde”.

Do lado de Espanha, o Puerto Carbon e meia dúzia de casas rurais. É aqui que se encontra uma das maiores profundidades do rio, de cerca de 24 metros e que tem origem na escavação provocada pela força das águas para tornear o obstáculo a vencer. (3)

Já Silva Lopes refere esta circunstância chamando-lhe Forno (torno) da Pinta, curva do rio que as águas para a vencer provocam redemoinhos causadores de naufrágios. (4)

Depois de passarmos pelo sítio do Pontal e antes de chagarmos ao monte que procuramos, vêem-se à direita velhas construções, hoje em ruínas e conhecidas por Casa Velha, mas onde no século XIX se nascia e morria, como se pode verificar nos respectivos assentos de baptismo e óbito.

Antes de chegarmos à povoação, do lado esquerdo e próximo da margem, a zona explorada parcialmente pelo arqueólogo algarvio Estácio da Veiga em 1877, que revelou muitos vestígios romanos. Uma “villa” romana mostra grande construção com vários compartimentos. Piscina rectangular aberta num pavimento de mosaicos pintados. Foi recolhida cerâmica, entre ela um vaso muito curioso, intacto, tipo biberão. Tem no bojo uma eminência mamilar perfurada e destinada a dar saída a líquidos.

Montinho das Laranjeiras. Ruínas romanas. Foto JV, 2012
 
Vasilhas de barro, pesos de rede, um tijolo e uma telha com ornatos são outros achados.

A ocupação romana é atribuída aos começos do século I d. C. (5)

Que saibamos, só em 1991, cento e tantos anos depois, o local volta a ser objecto de escavações por intermédio do Professor Doutor Justino Maciel.

Em 2005, o Mestre em História da Arte de Antiguidade, Hélder Manuel Ribeiro Coutinho como arqueólogo responsável pelas escavações nas ruínas do Montinho das Laranjeiras dá a público um trabalho sobre estas ruínas. (6)

A musealização das ruínas da Villa Romana do Montinho das Laranjeiras foi inaugurada no dia 9 de Setembro de 2005. (7)

Chegados à pequena povoação, verificámos que desde que saímos da vila percorremos 9,5 km.

Sabe-se que, desde Outubro de 1804, fazendo patrulhas e rondas, um destacamento do Regimento de Infantaria 14, comandado pelo tenente de caçadores, Francisco Paula de Brito Cabreira, permanecia vigilante na região compreendida entre o Montinho das Laranjeiras e a vila por ocasião da peste que deflagrava. (8)

A “Cheia Grande” de 1876 / 77, como é de calcular, fez-se sentir aqui e nas restantes povoação ribeirinhas de uma maneira muito pronunciada.

Entre o Montinho e as Laranjeiras, segundo é tradição e nos foi transmitido oralmente, apareceu um cadáver boiando, o qual, ao ser avistado por uma mulher, foi motivo de pavor entre a população. (9)

Montinho das Laranjeiras. Vista do norte. Foto JV, 2012
No Montinho das Laranjeiras caíram sete prédios, entre os quais os de Manuel Braz, António Afonso, Manuel do Ó, José Botelho e Antónia Luísa e apresentaram pedidos de indemnização pelos estragos causados nas suas propriedades nas margens do rio, Bento Afonso, António Joaquim, José Dias Henriques e João Lourenço Melo. (10). Bento Afonso, lavrador, era em 1852 um dos 40 maiores contribuintes do concelho.
 
A pequena povoação apresentava uma arquitectura preservada, destacando-se os poiais onde os aldeões se sentavam a olhar o rio. (11)

Depois de ter sido abastecido por um poço público, que servia também as Laranjeiras e a Casa Velha, passou a ser servido por cinco fontanários através de um furo artesiano. Hoje a povoação, tal como todos os montes do rio, incluindo a Corte das Donas, já possui saneamento básico que entrou em funcionamento no dia 14 de Maio de 2010,ainda que a obra estivesse concluída desde o Verão de 2009, esperando pela construção da respectiva ETAR. Para contornar a situação existente foi construída uma fossa sendo limpa e esvaziada regularmente através de limpa-fossas e tratamento primário do efluente.

O empreendimento implicou um investimento de cerca de dois milhões e quatrocentos mil euros, que comportou, igualmente, a melhoria dos acessos, como não podia deixar de ser. (12)

As Memórias Paroquiais de 1758 indicam o sítio das Laranjeiras como tendo 20 vizinhos, o dos Guerreiros (do Rio) com 17 e o Álimo (Álamo) com 15, informando que estes três sítios estão Rio abaixo, na margem do Guadiana.

Parece-nos que o Montinho é considerado, na altura, agregado às Laranjeiras, que dos três é o que terá maior população tomando em consideração os vizinhos existentes.

Silva Lopes apresenta-nos em anexo à sua Corografia um quadro do número de fogos de 1839 e o Montinho, igualmente, fazendo parte das Laranjeiras apresenta 20. (13)

Devemos ter em conta que em 1758 estas pequenas povoações pertenciam à freguesia de Alcoutim mas ao termo (concelho) de Castro Marim.

Em contrapartida, os sítios de Fornanzinhas com 50 vizinhos, Cortes de S. Tomé (Corte Velha e Corte Nova) 20 cada, Monte Novo 10 e Zambujeiro pertenciam à freguesia de Odeleite mas ao termo de Alcoutim.

No Censo de 1991 apresentava 37 habitantes e tinha 21 edifícios.

Atendendo à grande taxa de desertificação ocorrida nos últimos anos no concelho, a actual população será muito menor.

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NOTAS

(1) – Dicionário Onomástico da Língua Portuguesa, Horizonte / Confluência, I Vol. 1993

(2) - Alcoutim, Revista da C.M.A. nº 4 de Dezembro de 1996, p. 26

(3) – Maravilhoso Guadiana, Francisco Dias da Costa, 1991.

(4) – Corografia do Algarve, 1841 (edição fac-similada em 1988), p 396

(5) – A Arqueologia Romana do Algarve, Maria Luísa Estácio da Veiga Affonso Santos, 1971.

(6) – As ruínas do Montinho das Laranjeiras, Alcoutim, edição da Câmara Municipal de Alcoutim / Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional – Algarve.

(7) – “Alcoutim Inaugura Estação Arqueológica” Alcoutim – Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005. p. 19.

(8) – A Invasão de Junot no Algarve, Alberto Iria, Lisboa 2004 (edição fac-similada), p. 234.

(9) – Informação prestada pelo Sr. António Patrocínio dos Santos por volta de 1970.

(10) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 15 de Abril de 1877, presidida por José Joaquim Madeira.

(11) - Guadiana - Rio Abaixo, Rio Acima - Folheto Turístico Editado pela C.M.A.


(13) – Corografia do Algarve, 1841, edição fac similada em 1988.

 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Festa de Verão nas Cortes Pereiras



Tem lugar no próximo sábado dia 21 a FESTA DE VERÃO das Cortes Pereiras que se vem realizando desde 2006 ininterruptamente nesta povoação de tipo disperso e uma das mais importantes da freguesia de Alcoutim.

É uma maneira de tornar útil o recinto desportivo criado no recreio da antiga escola primária e que hoje funciona como casa mortuária.

Cortes  Pereiras é um dos poucos “montes” do concelho onde ainda vivem crianças.

A organização pertence à cinquentenária ASSOCIAÇÃO UNIDOS DO MONTE, que apesar das contrariedades naturais, vai conseguindo manter a porta aberta da sua sede própria aos associados proporcionando-lhe algum convívio.

Existe, como é seu dever, o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.

A Festa irá proporcionar a reunião dos filhos da terra, sem esquecer os que estão fora, que acabam por dar alma ao acontecimento, juntando-se, como é habitual, a população ainda móvel dos povoados vizinhos.

Que decorra em bom ambiente, são os nossos votos.

sábado, 14 de julho de 2012

Guerreirinhos ou Guerreiros dos Balurcos, pequeno monte da freguesia de Alcoutim


Este monte, o mais pequeno da freguesia de Alcoutim, foi referido de uma forma leve quando escrevemos e aqui publicámos um texto sobre os Balurcos dividido em cinco partes.

É o núcleo mais afastado daquilo a que é costume designar globalmente por Balurcos.

Para o encontrarmos e no sentido Alcoutim – Pereiro, após alcançarmos o Cruzamento ou Quatro Estradas, tomamos a estrada nº 124. Cerca de três quilómetros andados, aparece-nos à esquerda uma rudimentar placa toponímica que nos indica o sentido de Guerreirinhos. Lá seguimos a estreita estrada que foi asfaltada em 1994. Um quilómetro percorrido por aquela estreita via leva-nos ao monte dos Guerreirinhos ou Guerreiros dos Balurcos, que se situa numa pequena elevação.

A ligação com o Cercado e com o Deserto, ambos montes dos Balurcos, é feita por mau caminho que se bifurca para um e outro lado.

Quanto ao topónimo sugere-nos duas explicações. A que nos parece ser mais plausível está relacionada com a família fundadora da pequena povoação, já que Guerreiro é antropónimo muito vulgar no país, especialmente no Algarve e que por sua vez deve ter origem na actividade bélica que vem de tempos imemoriais. Topónimo próximo é Guerreiros do Rio no caso mais explícito. Além de Guerreiros do Rio, existem mais duas povoações com o nome de Guerreiros, uma no concelho de Almodôvar e outra no de Loures.

Em 1868 falece neste pequeno monte uma criança de nome António, filho de Maria Custódia que tinha por profissão tecedeira. (1)

Sabemos também que um nefasto acontecimento ocorreu pelas nove horas da noite do dia 17 de Março de 1883. Pairou sobre a freguesia de Alcoutim uma forte trovoada, resultando cair “uma faísca eléctrica” no monte de Guerreiros dos Balurcos e em casa de Manuel Gaspar, onde se achavam várias pessoas. Matou instantaneamente um homem, mal feriu outro, assombrou ainda outro e matou uma vaca que estava numa “arramada” próxima. (2)

Na 1ª Grande Guerra Mundial (1914/18) ficou prisioneiro dos alemães, Basílio Pedro, que era daqui natural. (3)

Próximo, a zona rústica do Bacelar de que ficou uma herdade que pertenceu a João Freire de Andrade e mais tarde pelo casamento de sua filha ao Conde de Alcoutim, bens que foram confiscados e que vieram a fazer parte da Casa do Infantado.

Em 1976 tinha treze habitantes que se abasteciam de um pequeno poço e havia forno comunitário. Em finais do século passado eram quatro moradores em três fogos, já existia energia eléctrica, um fontanário, dois telefones fixos e recolha de lixo.

O monte em 2010, última vez em que lá estivemos, mostrava-se bem cuidados havendo até uma construção nova de 1º andar.


Na nossa modesta opinião, o monte possui uma verdadeira relíquia, uma casa da primeira metade do século passado, ao gosto regional e sem adulterações visíveis e bem conservada.

O pátio da fachada da frente, os trabalhos de argamassa na porta e nas janelas, os desenhos geométricos e a cor utilizada, são bem característicos da época que referimos e onde são notórias influências do litoral algarvio.



A casa da esquerda, das únicas abandonadas na pequena povoação, ainda que a tivéssemos conhecido em situação de abandono, devia ter constituído uma boa construção para a época e hoje ainda se consegue descortinar, sobre o lintel, a era de 1912 que possivelmente teria sido a da sua construção. Talvez tivesse pertencido à família de maior poder económico lá existente na altura.


NOTAS

(1) – Assento de óbito nº 28 de 3 de Julho de 1868.

(2) – “Algumas intempéries alcoutenejas nos últimos dois séculos”, José Varzeano, Jornal Escrito de Junho de 2001. Em 2009 ainda falámos no monte com um descendente dos donos da casa onde isto aconteceu e ficou muito admirado de termos conhecimento do assunto.

(3) – Informação prestada pelo Sr. António Patrocínio dos Santos de Alcoutim que também foi mobilizado para esta conflagração mundial, servindo como maqueiro.

Pequena nota em 22.09.2012

Da nossa assídua visitante / leitora, D. Almerinda Martins, recebemos a seguinte informação:
 
…: o Sr. Basilio Pedro era de Guerreiros do Rio, (eu chamava –lhe  padrinho, porque as 2 filhas  eram minhas madrinhas, uma de registo outra de batismo). Posso-lhe adiantar que ele foi para a guerra em 1916, na batalha de Lalys, numa emboscada às tropas portuguesas no dia 9/4/1917 foi feito prisioneiro, ficando até ao dia em que a Alemanha se rendeu, muitos morreram, ele teve a sorte de voltar e eu ouvia-lhe as histórias que  contava sobre o que lá passou, principalmente enquanto prisioneiro.

Quando li que ele era de lá fiquei com dúvidas, pois nunca tinha ouvido falar que ele não fosse dos Guerreiros do Rio, então confirmei com um dos filhos e tb acessei ao registo de nascimento. (assento nº 13 de 30.01.1897, freguesia e concelho de Alcoutim).
 
Muito agradeço a informação prestada que vem colocar as coisas no devido lugar e a bem da verdade.
JV