terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Velhas, pequeno "monte" da Freguesia de Giões

Pequena Nota
Para terminar o périplo pela freguesia de Giões, resta-me referir o “monte” das Velhas.
O primeiro que abordei foi o de Clarines e fi-lo na revista STILUS.
Neste espaço comecei por fazê-lo em relação a Alcaria Alta, depois Marim e por último Farelos.
Atendendo a que desapareceram há muito Cacelinha e Mingordo (moinho gordo) Minhova e Carrascal que eram referidos em meados do século XIX e que se tratavam praticamente de um ou dois fogos e que é dos nossos dias o abandono do Viçoso que em 1976 ainda tinha onze habitantes, resta-nos o “montes” das Velhas que com Marim são os menos habitados da freguesia
.

[Vista parcial. Entrada do "monte". Foto JV, 2009]

Tomando como ponto de partida a sede do concelho e percorrendo a EN nº 122-1 às Quatro Estadas tomamos a nº 124. Após oito quilómetros percorridos chegamos à aldeia do Pereiro e depois de passarmos por dois entroncamentos, um à direita e outro à esquerda vamos encontrar novamente um à direita que tem a indicação de Velhas – 1 Km.

A estrada estreita e asfaltada, cujo troço é identificado com o nº 1046, desenvolve-se quase sem curvas ainda que as rectas sejam em vários planos. À sua esquerda segue o traçado telefónico cuja colocação do primeiro telefone público teve lugar em 1988, ocorrendo também no mesmo dia a inauguração do fornecimento de água por intermédio de fontanários o que deu origem a grande festa em que participaram o Presidente da Câmara, Cavaco Afonso, o Director Regional das Telecomunicações do Sul, o Chefe da Área de Telecomunicações de Faro e outras Entidades. (1)

Esta estrada foi repavimentada em 1996. (2)

Conhecemos este monte em 1976 onde chegámos através do velho caminho. Nesta altura e fazendo fé numa estatística efectuada pelo Centro de Saúde de Alcoutim tinha cinquenta habitantes.

Contra o que é hábito por estas paragens, a pequena povoação situa-se em local plano, notando à entrada algum arvoredo de porte razoável.

Curiosa a colocação de um sinal de proibição de circular a mais de 20 km/hora!

Imperavam as habitações de pedra e barro, caiadas e listadas com barras de cores. Poiais e pátios. Nas ruelas ainda se podem ver velhos fornos de cozer pão e fornalhas (pilheiras) tudo já desactivado mas que faziam parte do quotidiano de há cinquenta anos.

Duas ou três vivendas dão nas vistas e são produto de emigração.

Sabemos que em 1933 tinha sido concedido o subsídio de 260$00 pela Câmara ao povo deste “monte” para a abertura de um poço, tendo sido encarregado do trabalho, Manuel Gomes Lopes (3)

Em 1996 foi colocado um painel de caixas de correio. (4)

Em 1758 e segundo as Memórias Paroquiais já era um dos sete “montes” da freguesia e em 1839 num mapa anexo à sua Corografia, Silva Lopes chama-lhe DAS Velhas e atribui-lhe 13 fogos, enquanto Marim tem 6 e Clarines 20.

No Censo de 1991 são-lhe atribuídos 25 habitantes e 22 fogos, existindo ainda alguma actividade pastoril.

[Outro aspecto da povoação. Foto JV, 2009]
Em recente visita que efectuei (2009), informaram-me que teria 15 residentes.

Quando existiam crianças iam à escola dos Farelos.

Quanto ao topónimo ouve-se dizer com frequência monte das Velhas e A-das-Velhas. Pensamos que não erramos se dissermos que a fundação ou denominação deve de estar em idosas (irmãs, familiares, vizinhas?) que devido a qualquer situação especial (isolamento, riqueza, actividade, etc.) funcionou como marca, identificando o local.

Isto passou-se há tantos anos que já ninguém sabe explicar, não tendo o “facto” passado de pais para filhos como é tradicional.

Existe outra povoação com o mesmo nome no concelho de Monção, bem no norte do país.
_________________________________________

NOTAS
(1) - Boletim Municipal, nº 4 de Abril de 1989
(2) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 8
(3) - Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Outubro
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, pág. 12

sábado, 5 de dezembro de 2009

A Escola ... e o que vem a reboque (2ªParte)

(...)
Uma segunda nota: disse que em Alcoutim não havia cinema. E não havia, mesmo.

Mas eu vi em Alcoutim uma sessão de cinema, a despeito de não haver luz eléctrica.

A sessão, levada a cabo por um exibidor ambulante, realizou-se num barracão ou celeiro velho que ficava no alto da Vila, a caminho da Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Quando entrámos no improvisado “cinema”, a aparelhagem já estava montada: na parede frontal à porta de entrada, estava colocado o “écran”, um pouco para lá dela, no seu enfiamento com o “écran”, estava suspensa uma bicicleta sobre dois pilares, que julgo seriam secções de um tronco suficientemente largo para dar estabilidade ao conjunto. A máquina de projectar já estava montada sobre o guiador da bicicleta.


[O gerador da energia!]

Quando a sala ficou cheia, fecharam a porta, ficámos às escuras, o exibidor começou a pedalar de uma forma regular e as imagens foram aparecendo no “écran”, maravilhando todos quantos assistiam. Lembro-me de ter visto desenhos animados e de me ter divertido muito com eles. É possível que tenha passado um qualquer outro filme, mas dele não guardo qualquer memória.

Perguntar-me-ão: não havendo energia eléctrica, como funcionava a máquina de projectar? Desta forma: à medida que o homem pedalava, a roda pedaleira fazia rolar o filme à frente da objectiva e as imagens eram projectadas para o “écran” pela luz do farolim que o dínamo da bicicleta alimentava.

Terceira nota: na década de trinta do século passado, havia uma única estrada, em macadame, que, se bem me lembro, saía da Vila pelas “Portas de Mértola” e a ligava, segundo julgo, à freguesia do Pereiro.

Havia uma estrada... e um único automóvel! O dono chamava-se Xavier e morava já não sei em que freguesia. A espaços, vinha à Vila. À entrada, anunciava-se dando dois “apalpões” à buzina, exterior ao automóvel, e vinha estacionar no terreiro, em frente às Escolas.

[Este automóvel ainda que antigo, é bem mais novo]

A sua vinda era sempre um acontecimento que juntava uma pequena multidão de curiosos à volta do carro. E a própria escola não ficava indiferente ao acontecimento, imune à curiosidade que afectava muitos alcoutenejos. E o professor, o snr. Trindade, apercebendo-se que a nossa atenção também já não estava com ele, mas lá fora, de onde vinha o roncar do motor do carro, as vozes dos curiosos e uma ou outra buzinadela, acabava por nos conceder um pequeno intervalo que, por via de regra, se transformava num longo e divertido recreio.

Um ou outro de nós, mais atrevido, saltava para os estribos do carro, dava uns “apalpões” na buzina e safava-se, correndo, “enxotado” ou pelo snr. Xavier ou por alguém mais responsável, na ausência daquele.

Cavando no passado, duro, quase impenetrável, à força de não ser remexido há muito, muito tempo, encontramos uma qualquer recordação, um facto, uma relação pessoal, por vezes, um só momento, não mais do que isso, seja agradável, seja doloroso.

E basta demorarmo-nos um pouco sobre o “objecto” encontrado e logo, como por magia, vão surgindo outros, sem que, aparentemente, haja entre eles uma ligação racional ou afectiva.

Evocando o meu primeiro ano escolar, falei do snr. Trindade, o meu professor, de D. Arminda, a professora da Escola Feminina. Falei dos “tiriteiros”, das pequenas e leves peças representadas por estudantes, em gozo de férias, num simulacro de teatro, de uma sessão de cinema num barracão, do automóvel do snr. Xavier. E na cauda interessante desse cortejo de “perdidos e achados”, vem um lindo aparelho de rádio, de caixa de madeira envernizada, alimentado por bateria. O feliz e invejado dono daquela preciosidade, única em todo o concelho, era o snr. Quaresma, que o mandou vir já não sei de onde. Mas lembro-me, perfeitamente, do “acto da inauguração”, a que não faltaram as pessoas gradas de Alcoutim. E eu entre elas, acompanhando os meus Pais.

[Este modelo de telefonia é dos anos 40, por isso mais novo]
Com alguma teatralidade, o snr, Quaresma tirou o pano que envolvia o aparelho, mexeu nos botões, sintonizou uma estação, regulou o som e, milagre! passou a ouvir-se a voz de um homem a falar, já não sei sobre o quê. Mas não me esqueço de ter andado à volta do aparelho para ver onde estava o homem cuja voz estávamos a ouvir.

No dia seguinte, não se falava de outro assunto em Alcoutim. Havia os maravilhados e os que não acreditavam que se pudesse ouvir em Alcoutim a voz de um homem que falava a partir de Lisboa, por mais alto que ele falasse!

Não trocemos da ignorância dos descrentes que assim falavam, pois, nos dias que correm, ainda há quem ponha em dúvida que o homem tenha ido e voltado da Lua em 1969.

Agora, sim, uma última nota, esta de carácter “social”.

Falei, acima, de D. Cecília, a esposa do distinto médico dr. Dias. Minha mãe, visita habitual de sua casa, tinha uma grande admiração por ela, pela sua esmerada educação e pela sua cativante simpatia. Era em sua casa que as senhoras de Alcoutim se reuniam, para conviver, para bordar, tricotar os fazer malhas, para jogar ao loto, a tostão! Para beber uma chávena de chá, para comer uma fatia de bolo, que nunca faltava. Assisti a uma dessas reuniões, contrariado, é certo, mas assisti.

Vila do Conde, 20 de Outubro de 2009.

Nota final

Prezados visitantes/leitores:
Quando “comentei” a primeira parte do artigo, penso que não vos enganei. O “cinema”, o “carro” e a “telefonia” constituem para mim três peças bem significativas do passado alcoutenejo.
Muito agradeço ao José Temudo mais esta contribuição para o conhecimento do passado relativamente recente de Alcoutim, tanto pelo seu conteúdo como pela maneira como o aborda e descreve.
Será que ainda é possível vir mais alguma coisa? Não será fácil mas é possível.
Com uma abraço do

JV

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Escola ... e o que vem a reboque (1ªParte)

Pequena nota

Permitam-me os meus visitantes/leitores mais esta pequena nota que eu penso tem inteira justificação.
Sei quem esteja esperando mais colaboração deste nosso Colega de profissão e Amigo que nos tem brindado com a sua prosa e poesia de reconhecido valor e que, para quem se interessa por Alcoutim tem esse adicionante.
Não podemos esquecer que o descrito tem por cenário Alcoutim e há mais de setenta anos!
Quem nos podia fornecer estes quadros com tão belas pinceladas? Possivelmente só o José Temudo que está legando aos vindouros quadros demonstrativos do passado alcoutenejo.
Atendendo a que o artigo se tornava um pouco extenso, tomámos a liberdade de o dividir em duas partes, afirmando que se a primeira tem todo o interesse, a segunda apresenta dois factos bem marcantes do passado alcoutenejo.


JV


Escreve

José Temudo


Estava a quatro meses de completar oito anos quando entrei para a escola.

São poucas e imprecisas as recordações que guardo do início da minha vida escolar.

Por mais que me esforce, do saco roto da memória, só consigo tirar meia dúzia de insignificantes lembranças. Antes de qualquer outra, a do professor, o snr. Trindade, de quem o meu Pai dizia ser um homem culto, inteligente, escritor e poeta. E um homem bom!

[As antigas escolas]
Desnecessário será dizer que eu não tinha, então, condições para fazer uma tal apreciação.

Recordo-o, à janela da Escola, baixote, grosso de cintura, lunetas encavalitadas no nariz, com o livro de leitura na mão, esquecido do ditado que iniciara, olhando, enamorado, o rio, os barcos, as margens, S. Lúcar! Recordo-o, ainda, sentado à secretária e nós à sua volta, em semicírculo, aos sábados, na revisão da matéria dada durante a semana. Umas vezes, era ele a fazer as perguntas; outras vezes, cabia aos alunos interrogarem-se entre si. Quer num caso, quer no outro, uma resposta errada tinha sempre o mesmo castigo: uma palmatoada, mais ou menos forte, conforme era aplicada pelo professor ou por um colega. Às vezes, doíam mesmo. Tanto assim que, um dia, num acesso de raiva, sobrevinda, certamente, a uma palmatoada menos caridosa, roubei a palmatória e fui oferecê-la, generosamente, à Dona Arminda, a professora da Escola das raparigas.

[O Professor Trindade]
Como é de presumir, a palmatória foi devolvida ao meu professor, acompanhada da informação do nome do benfeitor que a tinha doado. Resultado: se me tinha doído antes, mais me ficou a doer depois. E o “sacaninha” aprendeu a lição: “não queiras para os outros, aquilo que não queres para ti!”

Se as recordações são poucas, as saudades são nenhumas. Aquele primeiro ano escolar foi para mim um tempo penoso, só suportável porque os meus companheiros de brincadeira também lá estavam. Aprendi a ler, a escrever e a contar, não muito bem e sem entusiasmo. S Escola roubava-me a liberdade e não acrescentava nada ao que, naquele tempo, me interessava: o peão, o berlinde, a bilharda, como eu os jogava bem!, o castelo, o campo, o rio, as armadilhas aos pássaros!

Alcoutim não tinha biblioteca, não tinha uma só livraria, os jornais ou não chegavam ou chegavam atrasados, jamais vi um livro ou outra qualquer publicação para crianças, não obstante a quantidade de livros que havia em casa de meus pais, ambos amantes da leitura. Para quê aprender a ler e a escrever? Ainda se houvesse em Alcoutim um cinema que passasse filmes de aventuras, legendados! Mas, não; os espectáculos que os alcoutenejos viam, e muito esporadicamente, eram realizados ao ar livre, no terreiro, em frente às Escolas, para entendimento dos quais eu não precisava de saber ler.

Os “artistas”, saltimbancos ou “tiriteiros” (creio ser corruptela de titeriteiros), nome por que, julgo, eram conhecidos em Alcoutim, eram pouco mais do que pedintes. Vinham em pequenos grupos, geralmente, de três pessoas: um homem, uma mulher e uma menina. Com frequência, traziam consigo um cão, mais raramente, um macaco. Executavam números de ilusionismo, de malabarismo, de contorcionismo e de equilibrismo. O cão caminhava sobre as patas traseiras, e o macaco dava saltos mortais. Amiúde, o homem também vomitava fogo.

Os alcoutenejos divertiam-se com o espectáculo e, no fim, lá deixavam cair uns magros tostões no chapéu que a menina lhes estendia, desafiando a sua generosidade.

Antes de terminar esta evocação, quero acrescentar umas breves notas que julgo possam ter algum interesse.

A primeira respeita ao facto de não haver em Alcoutim um teatro, o que não obstava a que se realizassem, de quando em quando, pequenos espectáculos, que integravam cantigas, danças, declamação e representação de peças simples e não muito longas. Os “artistas” eram, na sua maioria, estudantes, em gozo de férias. Os ensaios das cantigas e das danças eram feitos em casa de D. Cecília Dias, que tinha piano e preparação musical. Os ensaios de declamação e de representação estavam a cargo do professor, snr. Trindade. Quem melhor do que um poeta o podia fazer?

[José Temudo em Alcoutim, antes de frequentar a escola]
A escolha e a confecção do roupeiro eram da responsabilidade de um grupo de senhoras, em que estava incluída a minha própria Mãe.

Estes espectáculos eram muito apreciados em Alcoutim e eram realizados numa casa que reunia as condições mínimas, ou nem essas, para o efeito. Como se diz, “quem não tem cão, caça com gato”.

Termino com uma confissão: sobre este agradável assunto, usando uma expressão em português de antanho, “eu falo de outiva”, por ouvir dizer, pois sobre ele não guardo memória “nadinha de nada”.

(continua)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Festa em Honra de Nª Sª da Conceição na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO Nº 25, DE SETEMBRO DE 2000, p. III, ENCARTE DO POSTAL DO ALGARVE DE "! DE SETEMBRO DE 2000)



A actual Capela de Nª Sª da Conceição, onde hoje funciona um núcleo museológico de Arte Sacra, é templo cujas origens se esboroam no recuar dos anos.

Teria sido no século XIV a primeira matriz com invocação de Santa Maria?

Depois de entrar em ruína, em 1534 já estava restaurada por acção dos moradores na vila e com o auxílio do Marquês de Vila Real, 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses, que contribuiu com “sessenta e três mil reaes”. (1)

Apesar do culto de Nª Sª da Conceição já ser milenário, foi D. João IV que o incentivou pois viu no triunfo da Revolução de 1 de Dezembro de 1640, um favor da Imaculada. No oitavo dia da sua aclamação (8 de Dezembro), foi a festa de Nª Senhora da Conceição, a primeira a que assistiu, na Capela Real do Paço da Ribeira, em Lisboa.

Um decreto de 25 de Março de 1646 jurava Nª Senhora da Conceição como Padroeira do Reino, nas Cortes que tiveram lugar naquele ano. (2)

A partir da Restauração da Independência, operou-se a um novo restauro do templo e foi instituída a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Soldados, já que o culto tinha um carácter patriótico. (3)

A Festa de Nª Senhora da Conceição, em Alcoutim, talvez venha desses tempos pois como terra de fronteira que é, esteve muito ligada a tais acontecimentos.

Todos os anos, no dia da Senhora, realizavam-se grandes festejos. Por esse facto, o primeiro feriado do concelho foi o dia 8 de Dezembro e que foi substituído por outro dia logo após o 25 de Abril.

A igreja era cuidadosamente ornamentada com flores e ramagens silvestres, trabalho da responsabilidade do ermitão.

Temos notícia que em 1744 o pregador foi Frei João de S. Diogo (3) e em 1799 o sermão coube a um padre de Mértola, Pedro Feliciano Nobre. (4)

Deslocavam-se aos festejos para colaborar, os padres de Giões, Martim Longo, Pereiro, Vaqueiros, Cachopo e Odeleite, além dos Curas de Sanlúcar que habitualmente estavam presentes.



Em 1851 a Câmara, já administradora da Capela, deliberou “que se dessem providências para ela se fazer com pompa e esplendor possível, vendendo-se para isso o trigo dos foros pelo preço corrente. (5)

Os anos foram passando e em 1874 a Câmara constata que os dinheiros foram desviados para o cofre especial das estradas, pelo que havia dificuldade em fazer a festa de Nª Sª da Conceição. (6)

Nas festividades de 1907 foi servido um bodo aos pobres que assistiram às cerimónias, no qual se gastaram dezasseis mil e quinhentos reis.

Depois das solenidades era costume servirem-se refrescos aos clérigos que tomavam parte. Refrescos em Dezembro?

A Festa de Nª Senhora da Conceição, de grande devoção destas gentes, tinha grande concorrência. Pagavam-se promessas e havia quem anualmente, da sua colheita, retirasse determinada quantidade de azeite para alumiar Nª Senhora.

Solenes procissões percorriam as principais ruas da vila e eram actos que não podiam faltar.

A Implantação da República provocou alguns choques, voltando depois à normalidade e com introdução de outras actividades de carácter pagão.

Em 1913 foi deliberado mandar celebrar a festa em honra de Nª Senhora da Conceição e encarregado de a organizar o Vice-Presidente, António Maria Dias (6) e no ano seguinte houve a mesma deliberação e com a condição de ser promovida com a devida pompa. (7)

[Procissão em 1996]

Havia um pequeno pavilhão onde funcionava uma quermesse. Ainda o conheci, muito velhinho. Era obra do Dr. José Pedro Cunha, projecto e execução. Facetado, penso que hexagonal, estava muito bem concebido e com montagem prática.

A Festa de Nª Senhora da Conceição entrou em declínio extinguindo-se praticamente. Foi então, no início dos anos cinquenta que apareceram as Festas da Vila que de certo modo pretenderam substituir aquelas.

Em onze anos de permanência na vila, assisti a uma procissão.

Em 1992 pretende-se recuperar a festa religiosa. Depois da celebração da missa na Capela, a imagem percorreu em procissão as principais artérias da vila, sendo acompanhada pela Banda dos Bombeiros Voluntários de Aljezur. (8)

A partir daquele ano as manifestações religiosas em honra de Nª Senhora da Conceição têm-se mantido.

NOTAS

(1) “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, MCMLXXXVII
(2) História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vol. V, 1980
(3) Livro de Contas da Real Confraria da Nª Sª da Conceição, 1744.
(4) Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, 1875
(5) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 30 de Setembro de 1841
(6) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 15 de Novembro de 1874.
(7) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 6 de Novembro de 1913.
(8) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 26 de Novembro de 1914.
(9) Boletim Municipal, nº 12 de Abril de 1993.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

História de Portugal, V volume [1640-1750]


O V Volume da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo abrange o período de A RESTAURAÇÃO E A MONARQUIA ABSOLUTA, tem 493 páginas e foi publicado em 1980.

Nele podemos encontrar duas referências a Alcoutim e que passamos a indicar.

Pág. 30
A Primeira campanha: a vitória do Montijo


No ano de 1642 houve um ataque ao Sotavento algarvio, com forte incidência nas praças de Alcoutim e Castro Marim, ambas lutando com falta de munições, mas o perigo foi conjurado.

Pág. 349
A população de 1668 a 1750


Alcoutim
Fogos…………………………………… 1518
Pessoas de comunhão……………3983
Só de confissão …………………….706


Na vasta bibliografia do autor podemos encontrar variadíssimos trabalhos referentes a este período.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Igreja Matriz de Vaqueiros



O simples mas gracioso templo, que tem por invocação S. Pedro, no dizer de Pinheiro e Rosa, (1) é mais antigo que a criação da freguesia, sem contudo dever recuar dos princípios do século XVI.

Silva Lopes (2) classifica-a como “mediana com três confrarias de certos rendimentos “ e Pinho Leal (3) como “Egreja ordinária e pobre”. O Dicionário "Portugal" (4) informa que “é pobre e nada tem de notável”.

Estas duas últimas referências baseadas uma na outra, como tudo indica, não correspondem de maneira nenhuma à realidade, como a seguir justificaremos.

Templo quinhentista, que estava quase concluído em 1565, (5) foi remodelado no século XVIII. (6) É daí que lhe vem o frontão da fachada principal e a torre sineira, principalmente a sua cobertura, de estilo barroco tardio. (7)

A frontaria é baixa e o frontão fantasiado com pináculos nos cantos e ao centro uma cruz de ferro forjado.

A porta, de arco quase ogival, é decorada com cabeças de anjos nas pilastras.

A torre sineira, à esquerda da fachada, fica à face da mesma e é de quatro olhais, cujos frontões acompanham a cornija do varandim, em cujos cantos se erguem fogaréus do mesmo tipo da cúpula, sobre a qual se situa um cata-vento figurando um galo, símbolo da vigilância e muito vulgar nas torres das igrejas.

A torre tem dois sinos. O maior, de 0,50 m por 0,95 de diâmetro, pesa 140 kg. Há nele uma cruz e a legenda: S. PEDRO ORA PRO NOBIS - ANNO DE 1779. Já não é o que fora posto em 1755, para o qual a confraria do Santíssimo despendera 2000 réis.

O menor, que mede 0,40 m por 0,46, pesa 70 kg. Além da cruz tem as seguintes inscrições: ESTE SINO MANDOV FAZER O Rº. Pe JOSÉ MARIA REIS - ANTÓNIO FERNANDES PAULO ANDADEV O FEZ EM 1860. (8)


Sobre a capela-mor também existem florões.

A porta lateral da fachada direita é igualmente quinhentista.

Pouca ruína teve do terramoto de 1755 pois apenas abriu algumas pequenas rachas na sacristia e campanário e essas ainda se não repararam pela pouca ruína que ameaçam, segundo refere a “Memória Paroquial”



É de uma só nave que dá acesso à capela-mor, mais estreita e de planta rectangular.

O retábulo do altar-mor, do século XVI, enquadra duas pinturas sobre tábua, da mesma época, figurando Sant ‘Ana e S. José. O arco que precede o altar da Senhora da Soledade está ornado com pinturas ao gosto do século XVIII. (6)

Cadeiral maneirista.

A imagem do padroeiro que apresenta um báculo na mão esquerda e uma chave na direita é pintada, dourada e estofada e encontra-se no nicho principal do retábulo da capela-mor. (9)

Na indumentária havia uma bolsa de corporais de seda branca bordada a ouro em relevo no anverso e a sedas matizadas no reverso, devendo tratar-se, segundo Pinheiro e Rosa, de peça do século XVIII.


Uma pequena custódia de prata lavrada e ostensório radiado que já existia em 1790 e um cálix do século XVIII, de prata dourada e relevada com motivos vegetais, sendo a ornamentação do pé e base toda em escudetes irregulares, constituem peças de ourivesaria a mencionar.
Existia um livro litúrgico datado de 1621. (1)

A Junta de Paróquia foi autorizada em 1860 a lançar uma derrama com o fim de fazer face à despesa com a fundição de um sino e a compra de um paramento roxo. (10)

Em 1884 a mesma Junta apresenta a Sua Majestade uma petição solicitando um subsídio para poder compor a Igreja Paroquial que se achava em ruínas. A Câmara Municipal que para o efeito a tinha de confirmar fá-lo atestando a veracidade do alegado. (11)

Em 1988 a Câmara Municipal mandou colocar um relógio na torre.

O templo situa-se num extremo da aldeia, tendo à saída do adro um escadório que nos leva ao largo principal.

Está inscrito na matriz predial com uma superfície coberta de 274 m2 e 600 de logradouro, que na última visita que lhe fiz, encontrava-se mal cuidado.

Tenho conhecimento que recentemente recebeu obras de restauro que não conheço.

NOTAS

(1)-“São Pedro na Arte Religiosa do Algarve”, Pinheiro e Rosa in Correio do Sul de 1 de Junho a 13 de Julho de 1967.
(2)-Corografia do Reino do Algarve.
(3)-Portugal Antigo e Moderno.
(4)-Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues.
(5)-Alcoutim - Algarve - Portugal (Brochura Turística), Francisco Ildefonso Lameira.
(6)-Tesouros Artísticos de Portugal , Selecções do Reader’ s Digest, 1976.
(7)-“Um olhar sobre as Igrejas de Alcoutim” (Folheto Turístico) Ed. C.M.A.
(8)-Vozes de Bronze , P. José António Pinheiro e Rosa,1946.
(9)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX , Manuel Rodrigues e Francisco Lameira,1985.
(10)-Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Agosto de 1860.
(11)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Agosto de 1884.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Farelos, o "monte" mais importante da Freguesia de Giões



Iremos hoje “visitar” o que consideramos o monte mais importante da freguesia de Giões, tanto pela sua população como pela actividade.

Tomando como ponte de partida a vila de Alcoutim, depois de percorrermos os 6 km do troço da E.N. 122-1, tomamos a nº 124 que nos vai levar à aldeia do Pereiro. Continuando pela mesma via, poucos quilómetros percorridos vamos encontrar à direita um entroncamento que nos indica Tesouro e que seguiremos.

Depois de passarmos por um monte abandonado e de tipo alentejano, que dá pelo nome de Herdadinha, encontramos o pequeno monte do Tesouro. Eram terrenos destinados pelas suas características à cerealicultura, entretanto completamente abandonada. Procura-se agora para rentabilizar as terras, a florestação já iniciada.

Depois de uma descida pronunciada, encontramo-nos no vale provocado pelo Barranco do Malheiro que ultrapassamos por ponte entrando por este lado na freguesia de Giões, tendo deixado o do Pereiro.


[Ponte no Barranco do Malheiro que liga a Freguesia do Pereiro à de Giões. Foto JV, 2009]

Naturalmente que agora se dá o inverso e temos de subir até encontrarmos a povoação que procuramos, os Farelos.

As casas branquinhas ,onde a cal, muitas vezes substituída pela tinta, impera, chamam a atenção pela alvura, tal como o matiz florido de abundantes gerânios.

Várias vivendas modernas, impondo-se uma pelas avantajadas dimensões.

O novo tipo de construção ou de reconstrução impõe-se, sendo já reduzido o número das antigas construções de xisto à vista, praticamente todas em ruína. Quem o reconstrói fá-lo à moderna como não podia deixar de ser.

Ainda que não apareçam placas toponímicas com esse sentido, os Farelos são divididos por dois montes, o de Cima, a norte da estrada e o de Baixo, a sul.

Como é vulgar em “bairros” próximos, aparecem por vezes algumas questiúnculas facilmente ultrapassadas.

Desconhecendo a actual situação, em tempos houve duas pequenas associações, uma no monte de Cima, outra no monte de Baixo!

A EM nº 507 continua dando ligação à sede de freguesia e o acesso ao concelho de Mértola. De Farelos parte um pequeno troço (nº 1044) que liga a Clarines. Existem dois caminhos, um que liga ao Monte das Velhas que em 1998 se percorria de automóvel com bastante dificuldade e outro em melhor estado que nos leva à Ribeira do Vascão, à chamada Água Santa, nascente junto da margem alentejana daquela ribeira e que é muito frequentada no Verão.

A grande maioria dos montes do concelho constitui “becos sem saída”, o que aqui não acontece.

Abordaremos agora o topónimo.

No Dicionário que normalmente consultamos (1), só encontrámos este Farelos e dois no singular, um no concelho de Sintra e outro no de Penela.

O linguista José Pedro Machado dá-o como derivado do substantivo masculino (2), que significa entre outras coisas e que é do conhecimento comum, a parte mais grossa que se separa da farinha depois da primeira peneiração. (3)

Atendendo às características locais, a explicação dada por este linguista tem hipóteses de ser consensual.

As Memórias Paroquiais de 1758 já referem o “monte” mas o pároco que responde ao questionário, quanto ao número de habitantes, indica os da aldeia e os dos montes no seu conjunto e que é superior ao da sede.

[Pequena lagoa de Farelos. Foto JV, 2009]

Silva Lopes em 1839 (4) atribui-lhe trinta fogos que a nível de freguesia e de monte só suplantado por Alcaria Alta com 43.

No censo de 1991 já é indicado como o monte mais populoso da freguesia com 87 habitantes, sendo igualmente o primeiro a nível de edifícios pois contava 56.

Em 1840 os terrenos do rossio eram demarcados com audiência do povo, segundo consta de uma acta de sessão da Câmara Municipal daquele ano.



Uma pequena lagoa, situada próximo e perto do edifício escolar, cria achigã e barbo.

A escola do ensino primário, construída na década de sessenta e que servia também as crianças de Clarines e das Velhas, foi encerrada em 1988 por falta de alunos. (5)

Foi adaptada anos depois a núcleo museológico que dava pelo nome de “Tecer e Usar”e que se encontra há muito encerrado tal como os outros espalhados pelos concelho. Aos meus familiares e amigos levo-os a Mértola, Vila Museu de onde saem admirados e satisfeitos. Como recentemente me foi dado ver, a própria vila medieval está a transformar-se num verdadeiro museu.

Depois da recolha de lixo e da distribuição de água por fontanários, estes foram eliminados e a água levada aos domicílios sem contudo existir o saneamento básico. As ruas foram pavimentadas em 1994. (6)

O painel de caixas de correio foi colocado em 1996. (7)


[A casa mortuária. Foto JV, 2009]

Em 2002 construiu-se uma casa mortuária (8) e no ano seguinte são edificados balneários públicos. (9)

É dos poucos montes que possui estabelecimento comercial.

É visível alguma azáfama diária com a saída de “carrinhas” para trabalhos a realizar em várias partes do concelho.

A pastorícia ainda há pouco tinha alguma expressão e havia um viveiro de plantas para florestação.

José Lopes, natural deste monte onde nasceu em 1889, tornou-se, devido à anormalidade do seu crescimento, uma figura pública. Ficou conhecido pelo Gigante dos Farelos, tendo falecido aos vinte e cinco anos, por isso em 1914.

A sua altura atingiu os 245 cm, o braço media 93, a mão 35 e o pé 45 de comprimento.

Filho de gente pobre, cedo motivou a atenção de vizinhos e conhecidos devido ao desenvolvimento que o seu corpo ia tomando.

As conjecturas do povo levaram alguns a atribuir o facto à circunstância de sua mãe, muito reinadia e ainda solteira, ter dito, quando mondava, que gostaria de ter um filho gigante.

O José Lopes alojou-se quando foi à inspecção militar em casa dos pais do Prof. Trindade e Lima, na vila, (10) naturalmente incapaz para qualquer actividade própria das gentes do seu monte, começou muito novo a vender a sua imagem em feiras e mercados do país, chegando mesmo a deslocar-se a Espanha.

Conta-se que empurrou, de joelhos, os zorrinhos da Mina de S. Domingos.

Ainda ouvi contar a gente de Martim Longo que, quando ia àquela aldeia a cabeça passava a altura dos beirais dos telhados.

As crianças choravam ao vê-lo e até os cães ladravam com ímpeto quando passava.

Foi sempre uma pessoa triste e havia mesmo quem dissesse que nunca tinha sorrido.
(11)
Apesar de ter falecido há noventa e cinco anos, por todo o concelho de Alcoutim há quem fale ainda no Gigante dos Farelos.

__________________________

(1)– Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, pág.319
(2) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte / Confluência, 1993, pág.620.
(3) – Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1984.
(4) - Corografia do Reino do Algarve, 1841.
(5) - Boletim Municipal, nº 4 - Abril/89.
(6) - Alcoutim - Revista da C.M.A.- nº 1 - Maio/Junho - 1995.
(7) – Alcoutim, Revista da C.M.A. – nº 4 de Dez/96, pág. 12
(8) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9, e de Dez/2002, pág.12
(9) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dez/2003, pág. 10
(10) – “Pequenos Apontamentos”, Trindade e Lima, in jornal O Povo Algarvio - Tavira, de 18 de Maio de 1974.
(11) - “O Gigante dos Farelos”, Maria José M. Silva, - in Diário de Notícias de Set/Out. (?) de 1986.

domingo, 29 de novembro de 2009

Os judeus e Alcoutim

[Rua de Nª Sª da Conceição. Óleo de JV, 1987]

Quando de uma ida a Faro, adquiri um pequeno opúsculo, separata do jornal “Correio do Sul”, que tinha por título Breve notícia da presença dos Judeus no Algarve, 1978, de autoria de Mário Lyster Franco.

Foi por ele que tive conhecimento que entre as terras do Algarve onde se instalaram aljamias constava Alcoutim. Era muito sucinta a informação.

Nada na tradição oral encontrei sobre o assunto durante a minha presença em Alcoutim de mais de uma década, o que aliás, tantos anos depois ainda se mantém. Na documentação escrita que localmente consultei, também nada obtive. Contudo, duas inscrições epigráficas, uma numa pedra sepulcral da igreja matriz e outra num lintel de pedra de uma porta lateral da igreja da Misericórdia, indicam-nos a presença de familiares do Santo Ofício, cargo que muito se relaciona com a prática do judaísmo. Já aqui referimos vários alcoutenejos que sofreram a acção da Inquisição, pertençamente pela prática do judaísmo.

Em 1980 e então exercendo a minha profissão na vila de Coruche, adquiri a 2ª edição da História dos Cristãos Novos Portugueses, de J. Lúcio de Azevedo, Livraria Clássica Editora, 1975 onde Lyster Franco tinha recolhido a informação mas mais nada havia especificamente sobre Alcoutim, no entanto , dava-nos outras pistas.

Aljama ou aljamia são palavras de origem árabe que significam reunião, assembleia, congregação, sinagoga, bairro dos mouros ou judeus em Portugal, o que se pode encontrar em qualquer dicionário.

As judiarias surgiram por um lado pela intolerância dos cristãos, por outro pelo desejo dos judeus manterem a sua unidade. Eram bairros separados que mantinham um determinado isolamento. As casas utilizavam o ladrilho, o adobe e a madeira, tipo de construção que ainda conhecemos em Alcoutim, e as ruas eram pavimentadas com pedra, o que sempre vimos na vila e que nos mais antigos exemplos era um trabalho bastante tosco.

A comuna judaica de Alcoutim teria surgido, como muitas outras, a partir da segunda metade do século XV, segundo Veríssimo Serrão na sua História de Portugal, II Volume, pág.256 e baseado em Manuel Viegas Guerreiro “Judeus”, in Dicionário de História de Portugal.

O rendimento da judiaria de Alcoutim pertencia ao conde da mesma vila, conforme se deduz da leitura do Archivo Histórico Portuguez, Vol. II. Lisboa, 1904, pag, 119 e seguintes, num artigo de A. Braamcamp Freire.

Existindo comuna judaica, onde se situaria? A tradição oral, fonte muito usada nestes assuntos, como já dissemos, nada nos deixou. Será trabalho de historiadores e arqueólogos que espero se venha a realizar um dia.

Para mim e pelo conhecimento que tenho da estrutura urbana da vila, só a vejo situada na actual Rua de Nª Sª da Conceição, o local da vila de mais difícil acesso e consequentemente onde existiria um maior isolamento, próprio da comunidade e até o tipo de algumas construções que conhecia, de janelas altas que pouco mais constituíam do que pequenas aberturas se ajusta a uma possível reminiscência.

Além disso foi-me possível ver, ainda que muito rapidamente, um grande arco interior em pedraria e de formato ogival que de maneira nenhuma era próprio de uma habitação comum, principalmente em Alcoutim. Isto aconteceu nos finais da década de sessenta, princípios da de setenta do século passado. Ainda que tivesse sido tapado, está lá.

Com a aquisição de alguns conhecimentos que aqui deixo expressos e que fui adquirindo no decorrer dos anos, admito que ali estivesse a casa (sinagoga?) para prática do serviço religioso, o que na altura, não me passava pela cabeça.

Aqui fica este pequeno apontamento que servirá como ALERTA para novas situações que se venham a desenrolar.

sábado, 28 de novembro de 2009

A Casa Assombrada

Pequena Nota
Desconhecia completamente esta interessante "estória" que o nosso colega e colaborador nos transmite com tão realismo.
Igualmente nunca tinha ouvido falar como casa assombrada, ainda que conheça a "estória" de um capitão de nome Aragão que durante as "guerrilhas" foi assassinado perto de Afonso Vicente onde se lhe levantou um calvário já desaparecido, mantendo contudo a zona a designação de eira da CRUZ devido a esse facto.
JV

Escreve
José Temudo


[José Temudo, Secretário de Finanças]
A Repartição de Finanças, que o meu Pai chefiava, funcionava num edifício a que os alcoutenejos chamavam “a casa do Capitão-Mor”. Era uma construção relativamente grande, rectangular, de dois pisos. Foi levantada, assim o presumo, num período que se pode situar entre a segunda metade do século XVII e o primeiro quartel do século XVIII, para residência do comandante das forças aquarteladas no castelo. Tinha um aspecto sólido e digno, de harmonia com a condição de quem o ia habitar.

Diziam os habitantes de Alcoutim, e parecia acreditarem no que diziam, que a alma de um Capitão-Mor aparecia, de vez em quando, naquela casa. Já não me lembro da razão por que esta alma penava, o que terá feito ou deixado de fazer neste mundo para que não encontrasse descanso no além.

E vamos à “estória” que quero contar.

Em certas épocas do ano, por razões de serviço, o meu Pai costumava ir, depois do jantar, trabalhar para a Repartição, onde permanecia até tarde, por vezes, até para além da meia-noite. Como não acreditava em almas do outro mundo, sempre ouviu, divertido, os avisos dos que o desaconselhavam a ir sozinho, de noite, para a casa do Capitão-Mor. Um dia, porém, ... ... ...vejamos o que lhe aconteceu!

[A Casa do Capitão-mor onde funcionaram os serviços da Repartição de Finanças e da Tesouraria da Fazenda Pública. Foto JV, 1967]

Numa noite de Inverno, ainda nós não nos tínhamos deitado, o meu Pai irrompeu casa dentro, esbaforido, sem sobretudo, nem chapéu, e com uma tal expressão no rosto, que minha Mãe, sobressaltada, lhe perguntou:

“Que se passa contigo, homem, que parece que viste um fantasma?”

“Ver, não vi, mas ouvi passos e não vi quem caminhava”, respondeu meu Pai.

Já transido de medo, fui-me chegando a minha Mãe, enquanto o meu Pai ia contando o que se tinha passado:

“Já o serão ia a meio, quando bateram à porta; fui abrir. Era o Braz Lopes.” (Braz Lopes era o Tesoureiro da Fazenda Pública que, nessa noite, também tinha ido fazer serão na Tesouraria, situada no rés-do-chão do edifício).

“Vou para casa” disse ele. “Já chega de trabalho por hoje. Você ainda fica?”, perguntou.

“Fico”, disse-lhe, “vou acabar o serviço que tenho entre mãos. Amanhã é dia de correio e tenho de o mandar para Faro, que a Direcção já mo pediu.”

Conversámos ainda durante uns breves minutos. Quando nos despedimos, recomendei-lhe:
“Por favor, não se esqueça de bater a porta à saída.”

E voltei a concentrar-me no que estava a fazer. Passados uns minutos, a minha atenção foi desviada para o que me pareceu ser um rangido de porta a abrir-se.

Julguei que o Tesoureiro tivesse voltado a entrar e perguntei:

“Você voltou, Braz Lopes?” (*)

Como não tivesse obtido resposta, voltei a concentrar-me no que estava a fazer, na convicção de que o que ouvira podia ter sido causado pelos ratos no arquivo.



Mas, não tardou que a minha atenção fosse novamente perturbada. Desta vez, pareceu-me ouvir pessoa na sala grande, reservada aos outros funcionários.

“É o maroto do Braz Lopes a querer divertir-se à minha custa”, pensei. E já entre alguma intranquilidade e não menos irritação, fui dizendo:

“Deixe-se de brincadeiras, homem! Eu preciso de acabar isto e não quero ficar aqui a noite inteira.”

Não obtive resposta, mas deixei de ouvir os passos ou qualquer outro ruído. Porém, depois de uma breve pausa, o que passei a escutar, tirou o que me restava de tranquilidade; era como se alguém andasse de secretária em secretária, abrindo e fechando as gavetas. Já com o coração aos pulos, aproximei-me, receoso, da porta que dava para a sala onde tinha ouvido os ruídos. Ergui o petromax acima da cabeça e procurei vislumbrar a causa do barulho. Mas a luz a luz era fraca e o que vi foram sombras em movimento, fantasmagóricas. Foi quanto bastou para que todo o meu ser aceitasse o que, até àquele momento, recusara: a existência de almas do outro mundo, neste caso, a alma penada do capitão-mor. Entrei em pânico e, tão depressa quanto mo permitiram as minhas fracas pernas, atravessei a sala, larguei o candeeiro em cima do balcão e desci os degraus das escadas de pedra, a dois e dois, e só parei quando entrei aqui em casa e fechei a porta atrás de mim!

[Praça da República. Anos 60]

No dia seguinte, já mais calmo, caiu em si e riu, gostosamente, da situação ridícula por que tinha passado. E continuou a fazer serões na casa do Capitão-Mor, sem receio de nova aparição daquela alma penada.

O meu Pai era um homem inteligente e culto que não acreditava em almas do outro mundo. Mas houve aquele momento em que a conjugação de diversas circunstâncias abriu uma fenda na muralha das suas convicções, por onde irromperam, impetuosas e avassaladoras, provocando-lhe o desequilíbrio emocional, a superstição e a crendice populares, numa palavra, a irracionalidade.

A “estória” termina aqui.

Para além dela, gostaria de saber se o fantasma do Capitão-Mor continua a aparecer aos que, atrevidamente, frequentam, altas horas da noite, os domínios que são seus.

Vila do Conde, 16 de Novembro de 2009.

Nota do responsável pelo Alcoutim Livre (*) Braz Lopes era natural de Alcoutim tendo-se transferido para o concelho de Peniche em 1934. Foi promovido à 2ª classe e colocado no concelho de Lagos - D.G. nº 4-II Série, de 5 de Janeiro de 1935.Veio a falecer nesta cidade ainda novo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

NRP Zaire


Esta fotografia foi tirada por mim em Agosto de 1987 quando este navio patrulha da Marinha Portuguesa se encontrava ancorado ao cais de Alcoutim.

O “Zaire” foi construído em Portugal, nos Estaleiros Navais do Mondego.

Posto a navegar em 1971, desloca 292 toneladas, tem 44 metros de comprimento e 7,7 de boca e pode atingir 20 nós de velocidade.

Encontra-se na Região Autónoma da Madeira em serviço de vigilância e de jurisdição das nossas águas, fiscalizando a pesca e reprimindo o contrabando.

Faz o controlo da poluição marítima e executa tarefas de busca e salvamento.

Tem a seu cargo a vigilância das Ilhas Selvagens.

TEMA
Câmara escura