sexta-feira, 11 de junho de 2010

História de Portugal, X volume [1890-1910]



O X Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo abrange o período de [1890 – 1910], A QUEDA DA MONARQUIA, tem 543 páginas e foi publicado em Janeiro de 1988.

O volume continua como todos os anteriores a referir factos históricos relacionados com Alcoutim.

Assim, temos:

A reforma administrativa de 1892

Pág.336


(Decreto de 14 de Agosto de 1895
No Distrito de Faro procedeu-se à seguinte classificação: concelho de 1ª Ordem o da capital; e de 2ª ordem os de Albufeira, Alcoutim, Lagoa, Lagos, Loulé, Monchique, Olhão, Silves, Tavira, Vila Nova de Portimão e Vila Real de Santo António. Não havia concelhos de 3ª por a reforma os dar por extintos.
Deixavam de ser concelhos Aljezur, que se unia a Lagos, Castro Marim, partilhado entre Vila Real e Alcoutim e o concelho de Vila do Bispo que se incluía em Lagos.

Saneamento básico

Pág. 353


Três anos depois (1896), a vila de Alcoutim lança-se igualmente na construção das condutas para a canalização das águas (Diário de Governo nº 238, de 21 de Outubro de 1896).

Nota

Não conseguimos descortinar esta última informação pois o saneamento básico de Alcoutim só teve lugar em 1965 como é de todos conhecido, apesar da placa epigráfica que refere o acontecimento ter sido retirada do lugar em que se encontrava por pseudo-revolucionários, alguns dos quais foram lacaios do então Presidente da República, Almirante Américo Thomaz e quando este se deslocava a grandes caçadas no concelho de Alcoutim.
JV

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A água em Giões

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 66 DE AGOSTO DE 2005, Pág. 19)

[A aldeia de Giões. Entrada sul. Foto JV, 2010]

A situação de seca que se vai vivendo no País, sugeriu-me a abordagem do tema em relação à aldeia de Giões.

Iremos por isso, dentro das nossas limitações, referir o que através dos tempos nos foi possível recolher.

Já o fizemos, com menos dados e que recordamos, por duas vezes, já lá vão uns anos. (1)
A água é elemento indispensável para a existência e consequentemente e consequente fixação do homem.

A ocupação da região vem de tempos imemoriais que não podemos precisar mas que vários achados arqueológicos o justificam.

Nas Memórias Paroquias – 1758, o cura que respondeu ao questionário, escreveu ao responder à pergunta número vinte e três: Há junto ao lugar uma fonte de que bebe o povo, a qual está entre pedras vivas e antes do terramoto de 1755 não dava água bastante para o dito povo, mas depois dele dá água em abundância para se beber, servir e se regar. Uma hora por esta causa se faz.

Depois, refere outra fonte com as seguintes palavras: Fora do lugar, em distância de um tiro de espingarda com bala, há outra fonte a que chamam a Fonte Santa e dizem que era uma boa lagoa onde vinha muita gente sã e enferma a lavar-se, com esperança de sararem os vários achaques e lhe chamavam a lagoa da Senhora da Assumpção, que é o orago desta Parochia e depois fizeram dela fonte, mas já não vem gente até ela como então e só algumas pessoas quando estão doentes mandam buscar a sua água, com fé de que não faz mal bebendo-a com febre e passada essa ocasião, não bebem mais dela porque a da outra fonte é mais saborosa e só bebiam dela antes do terramoto por haver falta de água na outra fonte.

Silva Lopes refere (2) que… tem a dous tiros de balla huma fonte abundante, e de que bebe o povo, e junto hum chafariz para os gados, e ainda vae regar huma horta; está entre penhascos, e antes do terramoto não bastava para uso da povoação, que sempre tem alguns poços, mas todos se seccão no verão.
No Portugal Antigo e Moderno, Pinho Leal diz que … a 500 metros da povoação, tem uma fonte abundante de boa água.

Em 1845, José Dias de Almeida, da cidade de Beja, requereu à Câmara, queixando-se do procedimento do Regedor de Giões por impedir a mulher do signatário, residente na aldeia, de continuar a tirar água da Fonte Santa para regar a sua horta, água que abunda na fonte. A Câmara, depois de ouvir a Junta de Paróquia, indeferiu o pedido. (3)

A Fonte Santa, cinco anos depois continua a originar problemas. O “bello e grande tanque onde vão beber todos os gados daquelle Povo e que por isso se deve conservar com asseio e limpeza”, é conspurcado por patos que lá propositadamente levam, “enlodando a água e enchendo-a de penas de tal modo que fica incapaz para os animais beberem”.

Reclamando o povo por tal situação junto do Regedor da Paróquia e este, para evitar semelhante abuso, mandou “deitar huma coima no dono dos patos”.

Consultou este um letrado (advogado) que lhe teria garantido a absolvição, uma vez que as Posturas só referem penas para os que sujarem águas de poços e não de tanques. Efectivamente e segundo se depreende da leitura do documento, o homem veio a ser absolvido pelo juiz.

Exposta à Câmara toda a situação, esta analisou-a e acabou por aprovar a seguinte postura, rectificando a anterior: Quem nos poços, fontes e tanques ditar qualquer cousa imunda ou limpa, terá de multa cem réis e sendo imunda pagará mil réis. (4)

[Edifício da Junta de freguesia de Giões. Foto JV, 2010]

Nessa altura (1850) é mandado abrir um novo poço na aldeia que dá água em abundância tendo a Câmara gasto na obra só treze mil réis, visto o restante ter sido suportado através de uma subscrição que se abriu na aldeia para o efeito. (5)

Em 1882 a Fonte Santa volta a merecer os cuidados da autarquia. O vereador, António Joaquim Teixeira, apresenta o orçamento das despesas a efectuar e relativas à construção de uma abóbada na dita fonte a fim de se conservar a água sempre limpa e não ser prejudicada a constante corrente de água para o tanque (ou chafariz) onde os gados bebem.

O orçamento apresentado referia uma despesa prevista entre doze e catorze mil réis e o vereador, que era natural da aldeia, foi encarregado de o mandar executar. (6)

Complementarmente a Câmara oficia ao regedor da freguesia no sentido deste avisar os “vizinhos” para concorrerem com um dia de trabalho, cujo dia lhe seria indicado por ele Regedor e em conformidade com as Posturas. (7)

Em 1975 realizaram-se a partir do poço canalizações que iam abastecer vários fontanários espalhados pela povoação. Também a Fonte Santa abastecia um lavadouro público, nesta altura.

O saneamento básico teve lugar em 1985. (8)

Perto da ponte sobre a Ribeira do Vascão (vulgo ponte das Relíquias) existe uma bica e três bancos de pedra, o que foi feito em 1983.

É tudo o que temos para dizer sobre o assunto, esperando enriquecer o conhecimento dos nossos leitores, se por ventura tal não conhecerem.

NOTAS

(1)-“Giões (Alcoutim) – Um pouco do passado e do presente”, em Jornal do Algarve de 22 e 29 de Julho de 1977 e Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, Rio Maior, 1985.
(2)-Corografia do Algarve, 1841
(3)-Acta da Sessão da C.M.A. de 3 de Agosto de 1845
(4)-Acta da Sessão da C.M.A. de 6 de Agosto de 1850
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Outubro de 1850
(6)-Acta da Sessão da C.M.A. de 14 de Setembro de 1882.
(7)-Ofício nº 94 de 21 de Setembro de 1882
(8)-Jornal do Algarve de 6 de Junho de 1985.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A família Barriga

[Rua Dr. João Dias na Vila de Alcoutim. Foto JV, 2010]

Como é do conhecimento geral há famílias cujo nome identificam uma região, um concelho ou mesmo uma freguesia.

Estes nomes não podem ser vulgares pois Guerreiros e Cavacos, além do Algarve, espalham-se por todo o país.

Barriga não é muito vulgar e que nós saibamos, nos últimos quarenta anos, não existiu ninguém com esse nome no concelho de Alcoutim, ainda que exista no Algarve.

Nas nossas pesquisas ao longo do tempo fomos contudo encontrando alguns “Barriga” que fomos anotando e que possivelmente teriam pertencido à mesma família.

O primeiro que nos aparece é um António Barriga que traz umas casas de morada de que paga foro à Ermida de Nª Sª da Conceição e isto em 1518.

No mesmo ano, Vasco Rodrigues Barriga ofereceu um cálix de prata com a sua patena à Igreja de Martim Longo.

Anos depois (1534) Diogo Rodrigues Barriga ajudou à compra de um cálix novo de prata e outros objectos para a Igreja de Martim Longo.

[Interessante trecho da aldeia de Martim Longo. Foto JV, 2010]

Em 1565 um Vasco Barriga, morador na Vila, era mordomo da Igreja Matriz e recebedor da fábrica da dita igreja, enquanto Afonso Barriga era mordomo da Confraria do SS. Sacramento de Alcoutim.

Na aldeia do Pereiro, um Gregório Barriga exercia a actividade de ferreiro pelo menos em 1768 e um Domingos da Costa Barriga fazia o arrolamento do seu gado na Câmara de Alcoutim em 1771.

É possível que um deles tivesse deixado o seu nome ligado à zona rústica designada por Cerro Domingos Barriga, próximo e a sul da Vila de Alcoutim.

Significa isto que os “Barriga” estavam espalhados pelo menos por três freguesias do concelho, Martim Longo, Alcoutim e Pereiro.

Ao longo dos séculos verifica-se que gentes de Martim Longo deslocaram-se daquela freguesia para a vila e raramente alguém da vila o fez em relação a Martim Longo. Tem isto a ver, e como ainda hoje acontece, pela atracção do poder político que proporciona benesses que de outro modo não conseguiam obter.

O que os “vileiros” ainda hoje fazem é recorrer ao comércio martim-longuense que lhe oferece o que a vila nunca possuiu.

Quem conheça um pouco do passado de Alcoutim ou de qualquer outra terra, sabe que existiram famílias que acabaram por se extinguir por deslocação para outras terras pelos mais variados motivos e por vezes por falta de geração.

Aqui fica este pequeno apontamento, que consideramos com algum interesse na área da genealogia.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Canudo de "cana"



O objecto que hoje apresentamos é o mais rudimentar possível mas de grande utilidade e que só encontrámos nesta região. Trata-se do canudo de “cana” pois existem igualmente canudos de ferro com a mesma finalidade.

A cana no concelho de Alcoutim era e é abundante, tanto nas margens do rio como nas ribeiras e mesmo nos barrancos.

Supria muitas vezes a falta de madeira que se sentia no concelho.

Como a foto apresenta, colhia-se uma cana bem vidrada e com alguma robustez.

Escolhiam-se três canos, cortando-se junto aos nós extremos. Junto ao mais estreito faziam-se dois cortes em bico, umde cada lado e que se destinavam a uma melhor adaptação da boca.

O outro corte, efectuado na extremidade do cano mais largo era tapado com cortiça, o que se fazia normalmente com uma pequena secção de uma rolha, cerca de 1 cm e que se ajustasse bem. Depois com um prego em brasa efectuava-se ao centro um pequeno orifício.


Já antes se tinham furado com um ferro os dois nós intermédios.

Soprando no canudo o ar saía concentrado pelo pequeno orifício servindo magnificamente para atear ou espevitar o fogo.

Simples, eficiente e típico.

O sistema veio a ser utilizado com canudos de ferro.

Deve tomar-se em consideração que a utilização de três canos é a mais aconselhável por permitir o afastamento do fogo e a concentração de ar convenientes.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A Irmandade de Nª Sª da Conceição na Vila de Alcoutim


A partir da Restauração da Independência, foi instituída a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Soldados, já que este culto tinha um carácter patriótico e estava relacionado com as vitórias obtidas nas batalhas de Ameixial e Montes Claros. (1)

Silva Lopes informa que a capela tem rendimento próprio com que sustenta um capelão e é administrada pela Câmara. (2)

Em 1867 o Governador Civil oficia à Câmara Municipal perguntando se cede a administração da Real Capela à Junta de Paróquia da vila, ao que esta responde que achando-se na posse há mais de um século da administração da referida capela, entende que não devia ceder dela, não obstante não poder mostrar outro título de posse, senão a real e efectiva que desde tempos imemoriais conserva.
Na capela lá estava a divisão destinada às reuniões da Real Confraria, divisão que em 1837 era conhecida pela “Casa de S. Francisco”.

Em 1518 na “visitação” efectuada pelos representantes da Ordem de Santiago(4) é mandado fazer ao Prior Rui Martins um livro onde sejam registadas as propriedades da Capela para que a todo o tempo se saiba que são da dita ermida.

É vasta a relação onde se encontram courelas, malhadas de colmeias, mortórios (terrenos estéreis), vinhas, moradas de casas, hortas, etc.

Nestes bens estava indicada uma courela de matos em Vasquam (Vascão).

Parece que no século XVI pelos lados do Vascão ainda imperava o mato. Somos de opinião que esta courela de matos é, anos depois, designada por Herdade do Vascão.

[Óleo de JV, 1968]

Outra herdade que lhe pertencia era a do Atacado, entre a vila e as Cortes Pereiras, que em 1826 pagava de décima 720 réis e parece que foi aforada a várias pessoas já que em 1875, António Gomes, das Cortes Pereiras, requer à Câmara que lhe seja admitido remir a quinta parte daquele foro, de trinta alqueires de trigo, que lhe pertence pagar. (7) Sabemos que em 1925, ainda Manuel Silvestre Martins Corvo pagou 150 alqueires de trigo, transformando-os em dinheiro e referente a cinco anos.

Na freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim, mais propriamente nas Cortes de S. Tomé, actuais Cortes Nova e Velha, possuía a Capela Real outra herdade, de que era foreiro em 1851, José Dias.



Apresentou-se este com seu filho, Francisco Dias, na Câmara, pretendendo que fosse feito um novo emprazamento a favor de seu filho, passando o foro para mais dez alqueires de trigo, o que ficou a constituir o foro anual de oitenta alqueires.

Foi lavrada então nova escritura de aforamento, pelo tempo de três vidas, sendo a primeira a do dito Francisco, este indicará a 2ª e a 2ª a 3ª. Também este foro veio a ser remido pois em 7 de Novembro de 1878, foram entregues pelo Administrador do Concelho seis inscrições de dívida pública que totalizam 1.900 réis e provenientes daquela alienação. (8)

Esta herdade, em 1826, pagava de décima 2.160 réis.

Em 1850, um foreiro de propriedade pertença da Capela de Nª Sª da Conceição, residente na aldeia do Pereiro, “vendeu” a quatro indivíduos, sendo três da mesma aldeia e um dos Tacões, terrenos das courelas que não lhe pertenciam.

Devido à situação de insolvência do referido enfiteuta, que já devia cinco anos de foro, a Câmara acabou por resolver possibilitar aos “compradores” de pagarem o competente laudémio de quarentena. (9)



O Presidente da Câmara, na Sessão de 25 de Junho de 1849, propõe à mesma e é aprovado, que os foreiros à Capela de Nª. Sª. da Conceição sejam obrigados a vir lavrar escrituras de aforamento pois os livros de contas e o Tombo dos Bens da Capela levaram consumo.

Em 1876 acusa-se a recepção de um ofício que era acompanhado de uma lista de 656 foros à Capela que devem ser vendidos (remidos) perante o Governador Civil, no dia 10 de Julho de 1876, cuja lista foi para o efeito afixada. (10)

Apesar disto, em 1916, a Câmara constata haver bastante atraso no pagamento de foros, pelo que deliberou mandar avisar os foreiros no sentido de efectuarem os respectivos pagamentos e em caso de o não fazerem, que sejam accionados os mecanismos judiciais para as cobranças se efectuarem. (11)

Em 1927 há mais notícias de remição de foros.

O prof. Trindade e Lima, presidindo à Câmara Municipal, apresentou a seguinte proposta: Que autorizando o Artª 609 do Código Administrativo, as Câmaras a fazerem durante dez anos a remição obrigatória dos foros de que sejam credores, e tendo a Real Capela de Nª Sª da Conceição alguns foros e sendo a mesma, desde a sua fundação, administrada por esta Câmara, estando pois na sua posse desde sempre, proponho que durante o corrente ano económico, esta Câmara ao abrigo do que legalmente está legislado, procedesse à remição obrigatória dos aludidos foros. A proposta foi aprovada por unanimidade. (12)

Desde 1766, só podiam servir como tesoureiros da Irmandade, indivíduos que soubessem escrever. (13)

Apresentamos agora um quadro que organizámos de alguns tesoureiros que serviram a Real Confraria de Nª. Sª. da Conceição.



Os tesoureiros da Confraria passaram a ser remunerados a partir de 1898 com a verba de 5$500. (14)

Em 1837 foi recomendado ao tesoureiro da Confraria que começasse a vender o trigo proveniente dos foros, visto ser agora o tempo em que ele mais rende. (15)

O tesoureiro, em 1853, chama a atenção para a necessidade de se transformar o trigo em dinheiro, já que é preciso pagar-se a décima e outras despesas próprias. A Câmara decidiu que só se vendesse quando o preço chegasse a dezassete vinténs. (16)

A António Guilherme, porteiro da vila, foi mandado que trouxesse em pregão de venda, cinquenta e sete alqueires de trigo para serem vendidos a quem mais oferecer. Foi arrematado por 400 réis o alqueire, montante oferecido por José Pedro Roiz Teixeira. (17)



Em 1877, os 54 alqueires foram vendidos por quarenta mil oitocentos e vinte réis a António José Maria Xavier.

Em 1931, ainda se punham à cobrança, até 31 de Dezembro, os foros da Capela de Nª.Sª. da Conceição, sendo o preço do litro de trigo de 1$50..(18)

As contas da Irmandade eram presentes para julgamento, nas “Casas de Aposentadoria do Desembargo de Sua Magestade que Deos Guarde, ao Provedor e Contador de Sua Real Fazenda nas Comarcas deste Reino dos Algarves”.

A partir de 1831, as contas começaram a ser julgadas no Conselho do Distrito, depois de serem aprovadas pela Câmara.

No auto de exame efectuado às contas de 1842/43, o Administrador António Joaquim Pinto achou que estavam dignas de merecerem aprovação do Conselho do Distrito.

Mais informa que na falta de inventário e tomo respectivo, a Municipalidade declarou ter desaparecido pela Guerra Civil de 1833 e não ser possível substituir a tempo de poder acompanhar o livro de contas, não se juntam as certidões solicitadas. (19)

No termo de aprovação lavrado em 22 de Novembro de 1843, na Secretaria do Governo Civil de Faro, informam que o saldo “grandioso” verificado deve ser dado a juro para aumentar os rendimentos da Confraria. (19)

Informa a Câmara que não é possível dar a juro o líquido da Capela, por ser este diminuto. O saldo que diz estar em poder dos Herdeiros de António Sebastião de Freitas (93$998 réis), não tem sido satisfeito porque os mesmos herdeiros foram em 1833, quando emigraram para Faro, roubados e saqueados na sua casa pelos guerrilhas. Justificaram depois ter no saque entrado os géneros da mesma Capela. Diz também que é impossível, por falta de títulos, cobrar judicialmente as dívidas que figuram nestas contas, não se sabendo em que propriedades eram impostos tais foros e até não existindo nem se conhecendo os supostos foreiros. (19)

Respondendo a 4 de Julho de 1849, ordena o Governador Civil que dentro de um mês se obriguem os herdeiros do tesoureiro alcançado a pagar a importância há muito tempo em dívida e de que são responsáveis.

O Conselho do Distrito deverá ser informado do resultado desta sua deliberação. (19)
Em 12 de Julho de 1855, solicita o Administrador do Concelho ao Conselho do Distrito que praticará um acto de justiça se os dispensasse do pagamento ou permitindo que o fizessem em prestações anuais não excedentes à décima parte do alcance. (19)

Em 17 de Dezembro de 1856, ordena o Conselho do Distrito que, tendo tomado em consideração a boa administração e os interesses da Capela, haja de se activar a cobrança da mencionada dívida. (19)

Vamos encontrar, em 1856, na receita, a importância de 13$998 réis entregue por conta do alcance do tesoureiro António Sebastião de Freitas que exerceu durante muitos anos as funções de escrivão da Câmara. (19)

Só em 1860 é completado o pagamento do referido alcance (18) que levou cerca de vinte e sete anos a satisfazer e sem juros !
Vamos terminar com referências de carácter histórico que nos parecem de interesse.

A Irmandade, em 1834, alumia a Capela pelos festejos do casamento da Rainha D. Maria II com o príncipe D. Augusto (19) e em 1835, em acção de graças pela chegada de Sua Majestade a Rainha D. Maria II.(19) No mesmo ano, a 4 de Abril, alumia-se novamente devido à passagem do aniversário natalício de D. Maria II e por fim, e desejando dar público testemunho de amor e respeito à memória da mesma Augusta Soberana, fizeram-se solenes exéquias pelo seu eterno descanso, com a pompa compatível com os meios disponíveis. (20)

[Um aspecto da Igreja, vendo-se o escadório]

NOTAS

(1)-Alcoutim - Algarve – Portugal, Francisco Lameira, Setembro/1994.
(2)-Corografia do Algarve.
(3)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Julho.
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 25 de Fevereiro de 1856.
(6)-Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Fevereiro de 1877.
(7)-Of. nº 78 de 23 de Junho de 1875.
(8)-Acta da Sessão da C.M.A. de 31 de Outubro de 1878.
(9)-Acta da Sessão da C.M.A. de 26 de Agosto de 1850.
(10)-Of. nº 58 de 29 de Junho de 1876.
(11)-Acta da Sessão de 6 de Julho de 1916.
(12)-Acta da Sessão de 19 de Fevereiro de 1938.
(13)-Livro de Rª e Dª da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1744.
(14)-Livro de Rª e Dª da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1785.
(15)-Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Fevereiro de 1837.
(16)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Dezembro de 1853.
(17)-Acta da Sessão da C.M.A. de 11 de Maio de 1873.
(18)-Acta da Sessão da C.M.A. de 23 de Julho de 1931.
(19)-Livro de Rª e Dª da Real.Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1858.
(20)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Dezembro de 1853.

domingo, 6 de junho de 2010

A Capela de Santa Justa

[A Capela de Santa Justa. Aspecto actual. Foto JV, 2010]

Quando aqui abordámos o “monte” de Santa Justa, em 22 de Dezembro de 2008 e com o título Santa Justa, um monte maior que algumas aldeias ,referimos, como não podia deixar de ser, a capela cuja padroeira deu nome à povoação.

Tudo indica que a devoção a Santa Justa deu origem ao topónimo, devoção que originou a erecção de um pequeno templo ainda hoje existente.

Santa Justa e a sua irmã Rufina vendiam na feira as louças que o pai fabricava.

Festejam-se a 19 de Julho e são padroeiras de Burgos e de Sevilha. (1)

Estará isto relacionado com a arte de olaria que existia na sede da freguesia? Pensamos que sim mas faltam as provas. A olaria teria tido origem neste monte e depois passado para Martim Longo? Não sabemos, estamos só formulando conjecturas.

Sabe-se, contudo, que no sítio dos Telheiros, numa pequena elevação, próximo do caminho para Santa Justa, existiram fornos de olaria, de que restam ruínas onde a Professora Doutora Helena Catarino recolheu fragmentos de cerâmica de época tardo-medieval e moderna. (2)

A Capela de Santa Justa já se diz no século XVI que he huma capella muito antiga que não há memória do tempo que se edifiquou.

Era administrada por uma confraria e de que existem livros de Receitas e Despesa de (1663-1690) e (1701-1827)

Na altura, tinha paredes de pedra e barro, telhado de telha vã, sendo mais larga que comprida. Um altar pequeno de alvenaria coberto com umas toalhas e nele a imagem esculpida de Santa Justa, já muito velha.

Tinha madeira para fazer um alpendre e era reparada à custa de esmolas dos devotos. (3)

O retábulo foi colocado no altar em 1682/83 e em 1744 foi repintado.




[Santa Justa]

Além da imagem mais antiga, tinha outra que foi “renovada e encarnada” em 1687/88 e novamente em 1746. Tem uma coroa simples. (4)

A Ermida de Santa Justa é referida nas Memórias Paroquiais de 1758, afirmando-se que fica a uma “légua pequena” de distância, não tem romagem (romaria) e só por acaso lá vai alguma pessoa fora dos dias das suas festas.

Em 1878 o Administrador do Concelho oficia ao Prior Presidente da Junta de Paróquia no sentido deste lhe enviar com a brevidade possível o orçamento dado por peritos para as obras a fazer na Ermida de Santa Justa, obras já contempladas no orçamento da Junta. (5)

[A Capela de Santa Justa em 1988. Foto JV]

Conhecemos a ermida já lã vão uns bons anos e a foto que apresentamos a preto e branco é dessa altura.

Beneficiou recentemente (2007) de um restauro, com o apoio da Câmara Municipal e que montou a 22.203,00 € (6)

O restauro manteve toda a sua estrutura exterior mas não a conhecemos interiormente.

A planta é quase quadrada pois tem 7, 50 m de comprimento por 6,20 de largura e em que não se inclui um anexo de construção posterior.

A fachada é de empena de bico que acompanha as duas águas do telhado e que têm uma inclinação muito pronunciada. No restauro a telha foi renovada.

A cruz de ferro que se encontrava no bico da fachada foi substituída por outra de material diferente e ficou desproporcionada em relação à volumetria do templo.

A porta tem 0,80x1,80 m, é de madeira e de duas folhas, mantendo-se por cima o trabalho de argamassa semelhante, por exemplo, aos existentes na chamada Casa dos Condes e aos que existiam no edifício que serviu os serviços fiscais do concelho e na desaparecida casa nobre do Padre António, no local onde se encontra hoje a farmácia da vila. Este tipo de embelezamento foi muito usado no século XIX.

Foram mantidos também a cruz em relevo e os dois botaréus para suporte das paredes e como era próprio da época.

Um deles, com a largura de 1,10 m suporta a parede do lado da epístola, tendo sido levantado ao meio dela. O outro aguenta a parede traseira, é um pouco mais largo e tem uma configuração diferente.

[Janela gradeada. Foto JV, 2010]

As linhas e estruturas assemelham-se às das capelas do Espírito Santo e S. Sebastião, na aldeia de Martim Longo.

Conservou-se a janela gradeada de 0,50x0,80m e de madeira semelhante à da porta.

A capela possui um grande adro e construiu-se um palco para actuações artísticas na altura dos festejos em honra da Padroeira.

O prédio foi inscrito na competente matriz predial sob o nº 1524.

[Capela de Santa Justa vista das traseiras. Foto JV, 2010]



NOTAS
(1)–Dicionário de Santos, Jorge Campos Tavares, Porto, 1990, p.89.
(2)–“O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, págs. 196 e 712.
(3)–“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio”, Hugo Cavaco, 1987, p.317.
(4)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do Séc. XVI ao séc. XIX., -Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, p. 35.
(5)-Of. nº 178 de 28 de Julho do Presidente da Junta de Paróquia.
(6)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 14 de Janeiro de 2008, p. 26.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Alcoutim anseia naturalmente à vida

(ENVIADO PARA PUBLICAÇÃO NO DIÁRIO POPULAR EM 30 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota
Mais um excelente artigo do nosso colaborador póstumo que parece ter sido escrito ontem, tal a actualidade que grande parte apresenta.
O autor, como já informámos os leitores, deixou de dar título aos artigos, ficando este à disposição do jornal.
Não sabemos se o artigo foi publicado, mas pensamos que sim, apesar da referência à catastrófica campanha do trigo.
O título foi tirado do texto.

JV







Escreve

Luís Cunha



Na medida em que este concelho de Alcoutim, mercê de contratempos vários, vê descer em quantidade e qualidade os seus efectivos humanos ao mínimo biológico, à zona em que começa a tornar-se perigosa a sustentação, torna-se evidente a imperiosa necessidade de acudir-lhe com recursos substanciais de toda a ordem.

A magreza dos solos completamente esgotados, a debilidade económica e o atraso cultural das populações, restante da emigração – velhos rotineiros e inválidos - , não oferecem a menor garantia de conservação e existência dos quadros da hierarquia social, e muito menos, como é evidente, de com eles compor os mecanismos indispensáveis a uma necessária renovação.

[Seara. Foto JV, Maio 2010]

O acerbo do problema justifica plenamente um cuidadoso estudo, por equipa de técnicos competentes, das potencialidades inexploradas da região, estudo que nunca pecará se insistir com particular atenção nas peculiaridades deste homem xerófilo, seco como a terra em que vive e que não sente de água a menor necessidade.

A concorrência altamente infeliz de factores de ordem natural e humana, geram um condicionalismo impeditivo da continuação desse antigo modo de vida de uma agricultura de simples sustentação com o trigo por base:- completamente isolado e à margem de toda a comunicação, sem riquezas mineiras ou quaisquer outras que uma estrada possa valorizar tornando-as utilidade a satisfazer necessidades humanas, com solos paupérrimos e sem juventude capaz de adaptações a novos processos, afigura-se indispensável, embora todos os prejuízos apontados, a transformação desta agricultura contingente em outro sistema económico de maior segurança.

A arborização em larga escala a que os solos de xisto foliáceo parecem prestar-se, poderia constituir, quando conjugada com o trigo de sustentação e uma rudimentar criação de gado, um finca pé a outro modo de vida, mas esta transformação do sistema de simples celeiro ou despensa em armazém de sobras, implica tremendas e complexas adaptações para cujo estudo se requer a mais prudente cautela.

[Maioral com o seu rebanho. Foto JV, Maio de 2010]

A moto-mecanização é naturalmente indispensável mas como técnica superior ao nível cultural do indígena, requer um especial cuidado de uso a fim de se não repetirem os distúrbios a que deu lugar ultimamente a substituição do velho arado pela charrua que elevando temporariamente a produção muito acima dos máximos económicos redundou cedo na total degradação dos solos, frustrando todas as promessas.

Alcoutim anseia naturalmente à vida, mas os seus caminhos são incomensuravelmente grandes para tão pequenas posses.

Daí o apelar auxílio confiante em que este não faltará no momento oportuno, superando todos esses embaraços.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Mesquita, monte despovoado da freguesia de Vaqueiros

[Vista parcial. Foto JV, 2010]

Numa recente visita a Alcoutim e como é nosso hábito, fomos dar uma volta pelo concelho onde encontramos sempre coisas que desconhecemos e nos permitem um enquadramento com outras que há muito são do nosso conhecimento.

Um dos objectivos era conhecer a realidade deste “monte” a que hoje se chega por carreteira sinuosa e com desníveis acentuados. Encontrámo-la assinalada à entrada da aldeia de Vaqueiros, do lado esquerdo para quem entra no sentido Norte.

Depois de algumas centenas de metros percorridos, encontramos um desvio à direita que nos levaria, segundo indicação fixa, ao vizinho monte de Malfrade.

Seguimos o nosso trajecto e depois de uma descida vamos encontrar uma bifurcação; para a esquerda leva-nos a Ferrarias e para a direita à Mesquita. O caminho começa a empinar e a segunda velocidade é a mais adequada.

[A caminho do monte. Foto JV,2010]

Confessamos que não esperavamos encontrar tal indicação pois não é hábito e que nos tem levado a situações complicadas para sair delas, como há pouco nos aconteceu.

No cimo do serro lá se encontrava o “monte” que procurávamos. A antiga povoação, quase toda em ruínas, desenvolve-se do lado direito. Ao chegarmos começámos por espraiar a vista pelo vale e serranias que se seguem onde se podem ver plantações recentes de pinheiros, ainda que o mato seja dominante.

Percorremos cerca de 3,5 km.

A primeira notícia que temos do “monte” é-nos fornecida pelas Memórias Paroquiais de 1758 que lhe atribui 4 fogos, o mesmo indicado para o vizinho Ferrarias, enquanto são atribuídos ao Malfrade apenas dois.

[Vista que se alcança do "monte" da Mesquita. Foto JV, 2010]

Em 1839, Silva Lopes anota-lhe já nove fogos, enquanto atribui 8 ao Malfrade e ao Balurquinho e apenas 2 a Monchique. (1)

Em 1934 é deliberado pela Câmara Municipal subsidiar com 700$00 a abertura de um poço, sendo encarregado de fiscalizar os trabalhos o membro da Comissão Administrativa, Manuel Marques Ginja, de Martim Longo. (2)

O “monte” deve ter ficado despovoado no terceiro quartel do século passado. Em finais dos anos sessenta ainda conhecemos um indivíduo que tinha lá uma “vendinha” onde vendia um copo de vinho ou um cálice de aguardente.

Nos anos sessenta, na gestão do Presidente da Câmara, António Maria Corvo, o poço foi apetrechado com uma bomba elevatória manual que ainda existe mas inoperante por falta de manutenção.

Após o 25 de Abril, entre outras coisas, a electricidade foi chegando aos montes mais recônditos do concelho mas a Mesquita já não foi contemplada por se encontrar desabitada.

[Bomba elevatória ainda existente no poço. Foto JV, 2010]

Em 1998 recebemos a informação que o monte era constituído por cinco fogos, todos desabitados. (3)

[Boqueirão com lintel de grauvaque. Foto JV, 2010]
As edificações ainda existentes, quase todas em ruína, demonstram alguma organização e onde a par das habitações existia pelo menos um forno para cozer pão, possivelmente comunitário como acontecia muito por todo o concelho.

Pilheiras e poiais como é próprio da região. Arramadas e palheiros com boqueirões não faltando o lintel de grauvaque.

[Forno de cozer pão. Foto JV, 2010]
Vários vestígios arqueológicos foram identificados nas suas redondezas, incluindo uma anta, como indica o Regulamento do Plano Director Municipal de Alcoutim. (4)

Quanto ao topónimo, embora em alguns casos se trate de apelido tornado topónimo, não há dúvidas que outros revelam memória de antiga existência local de templos ou locais de oração dos muçulmanos (5) e nesta zona a toponímia e achados arqueológicos comprovam terem existido comunidades árabes.

Encontrámos nove povoações com esta designação, sendo todas a Sul do país, nomeadamente no Algarve, onde os árabes permaneceram mais tempo. (6)

[Casas de xisto. Foto JV, 2010]

NOTAS
(1)–Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, 1841 (Anexo nº 4-A).
(2)–Acta da Sessão da CMA de 8 de Março.
(3)–Informação prestada por Virgílio Neto, 1º Presidente da Junta de Freguesia de Vaqueiros eleito democraticamente.
(4)-Diário da República, I ª Série, nº 285, de 12 de Dezembro de 1995.
(5)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, 1993.
(6)–Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão. Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Como figo maduro (Poema)

Pequena nota
Temos o prazer de apresentar aos nossos visitantes/leitores, mais um poema recente do nosso colaborador, José Temudo.
Quem conhece as suas vivências não lhe passará despercebida a passagem por Alcoutim e que o marcou pela vida fora como aqui se tem mostrado tanto na poesia como na prosa.

JV






José Temudo






Em boa verdade,
saudades
foi o que fui semeando,
cultivando e colhendo
ao longo da vida,
quase sempre, colorida,
diversa,
por vezes, sofrida,
amiúde, divertida,
aqui e além, controversa.

Saudades
de lugares onde vivi,
de pessoas que conheci
e que estimei;
lugares a que jamais voltei,
pessoas que nunca mais vi
mas sempre recordei!

E, agora,
na minha derradeira hora,
como figo maduro,
à espera de ser colhido,
não é que tenho sofrido
com absurdas saudades do futuro?

Daquilo que está por vir,
desse excitante mundo novo,
contido no mistério de um ovo
que os amanhãs virão abrir?

Saudades dos netos que hão-de vir,
desses ramos que hão-de nascer,
crescer
e florir?

Saudades do que não irei ver,
saudades do que me faria sorrir?

Saudade
ou a inútil vontade
de não querer partir?



Vila do Conde, 20 de Fevereiro de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

Alcoutim Profundo



Eis ALCOUTIM PROFUNDO demonstrativo do estado de abandono das povoações que tiveram vida e hoje estão completamente desertas. Esta cozinha englobada na estrutura habitacional revela poder económico, com uma chaminé de algum nível, a existências de poiais com espaços interiores e o uso da ocre amarelada, foi possivelmente de um "lavrador" local.

Esta povoação que segundo informações recolhidas por quem a conheceu, haverá 50 anos, tinha nessa altura cerca de 30 habitantes e aí se realizavam bailes bastante concorridos pelos “moços” das redondezas.

Totalmente desabitado, ainda consegui ver duas casas com as portas fechadas.

Cada ano que passa vai-nos trazendo mais “montes” nesta situação e a tendência vai certamente acelerar.

A situação do concelho de Alcoutim, por mais que se queira fazer crer, tende para a desertificação que até agora ninguém conseguiu travar.

Ainda hoje visitei um “monte” que conheci com 60 ou setenta habitantes e que presentemente e de carácter fixo tem 4, um casal na casa dos setenta e duas velhotas que já passaram os 80!

Os vendedores ambulantes começam a escassear pois as deslocações não compensam!

Foto do corrente mês.