sexta-feira, 9 de julho de 2010

As maganas das barrigas negras não me deixaram dormir!

Pequena nota

Quero ser muito sucinto nesta pequena nota fazendo apenas realçar dois pontos:
.1 – O magnífico quadro que nos dá o autor do” Alcoutim Romântico” que existiu e que já passou;
.2 – Mais um precioso testemunho sobre Luís Cunha, na verdade o Homem que fazia a diferença em Alcoutim.
Os meus parabéns por tão belo texto.

JV






Escreve

Amílcar Felício






Aquela Rua das Portas de Mértola nas noites escaldantes de Verão dos finais da década de cinquenta, era pequena para tanta gente! Havia noites então, em que para lá dos adultos que para ali vinham passar o serão, quase toda a miudagem das redondezas se concentrava ali.

Tratava-se na sua maior parte dos filhos das famílias mais características de Alcoutim, de um modo geral com quase meia dúzia de “rebentos”, pois naqueles tempos não se brincava em serviço! Desde os Lázaros aos “Afonso Costas”, aos Carolinos, aos Eliseus, aos Cunhas, aos Barões, aos filhos do Sr. António do “Vinagre”, do Sr. António Sapateiro, do Ti Pandareta, do Mestre Pinto, da Da. Maria Tomásia etc., passando pelas famílias mais pequenas com dois ou três como os Soeiros, os Emílios, os Brandões, os Canelas, os Melões ou os Nãmeaces, quase toda aquela juventude convergia ali para a brincadeira.

Naqueles tempos viviam ou faziam a sua vida na Rua das Portas de Mértola e na Rua da Misericórdia cerca de 80 pessoas. E à noite, enquanto os adultos sentados nos poiais das casas conversavam ou cantavam à alentejana à espera que o fresco chegasse, a rapaziada divertia-se à grande inventando todo o tipo de brincadeiras e tropelias!

Quando por ali passo numa ou outra noite de um qualquer Verão dos nossos dias e vejo a Rosa, o marido, o Fernando “Pandareta” (*) e a esposa ao fresco – restos de um passado que a borracha do tempo vai apagando sem contemplações – ainda me ressoam os ecos da algazarra daquelas noites.

[Rua da Misericórdia. Foto JV, 1969]

E a verdade é que não precisávamos de grandes sofisticações para nos divertirmos. Desenrascávamo-nos com a prata da casa. Na realidade a abundância de matéria prima existente na Vila como pedras, canas, paus, cordas, pau de piteira, bolas de trapo e por vezes até bexigas de porco que transformávamos em excelentes bolas de futebol nos anos em que não faziam o “palaio” (deixem-me lá matar saudades do velho “palaio”, hoje não me apetece paio!) davam asas à nossa imaginação e às brincadeiras que nunca mais acabavam.

Se exceptuarmos a “sofisticada” roda ou arco em ferro, que apontava já para a época da “idade dos metais” que viria a seguir, os nossos “brinquedos” naqueles tempos bem poderiam ter sido os brinquedos dos meninos da “idade da pedra”, pois a matéria prima de que eram feitos seria praticamente a mesma. Até uma grande parte da garotada naqueles tempos andava descalça, imagine-se!

Com pedras jogávamos à galinha, à malha, à fisga, ao berlinde e quando as coisas corriam para o torto até “jogávamos” à pedrada. As raparigas brincavam à calha, ao jogo das 5 pedrinhas. Saltavam também à corda e jogavam aos 4 cantinhos ou à cabra cega.

Mas a pedra também constituiu um precioso objecto pedagógico que ensinou muita gente a ler e a escrever. Os meus amigos da Corte do Tabelião, da Corte da Seda e do Marmeleiro com menos posses de um modo geral, foram verdadeiros artífices – a necessidade aguça o engenho – e para evitar comprar lápis de ardósia para escrever, lá iam “lixando o negócio aos meus velhos” e faziam eles próprios os seus belos lápis de xisto e por vezes até os berlindes. Até “fabricavam” para o professor Amaral escrever no quadro, um lápis grosso tipo marcador de que não me recordo como lhe chamávamos. Não tenho qualquer ideia de se usar giz naqueles tempos!

[Ribeira de Cadavais em 2010. Foto JV]

Realmente, no seu trajecto diário a pé para irem à escola a Alcoutim, tinham todo o tempo do mundo para escolher as melhores “taliscas” do caminho. Tempos terríveis para aquela juventude caramba! Mas lá voltavam eles todos os dias, quer chovesse quer ventasse com as suas “talegas” de pano às costas, uma mais alta do que comprida e meio arredondada no fundo com o almocinho, que normalmente era pão com toucinho entremeado ou nos dias de festa com chouriço (o presunto era raro), outra mais rectangular com os deveres da escola. O pessoal da Corte do Tabelião deixava os viveres na taberna do meu avô António Joaquim aonde almoçavam (actual estabelecimento comercial da D.ª. Rosa), o pessoal da Corte da Seda assentava arraiais na taberna do Sr. Simões, hoje habitação da família Canelas.

Esta prática levava a miudagem naquele tempo a baptizar os lápis ou como “lápis de pedra” se fossem para escrever na ardósia ou como “lápis de papel” se fossem de carvão para escrever em papel. Já no Liceu em Lisboa com os meus 11 anitos e com esta terminologia que julgava universal, fui a uma Papelaria comprar um “lápis de papel”. Fiquei vermelho de vergonha: “aqui não vendemos isso, só vendemos lápis de carvão e canetas” diz-me a empregada com cara enjoada... e eu a vê-los na prateleira. Caí em mim naquele momento, mas não dei parte de fraco. Fui a outro lado comprá-los e já lhes chamei pelo próprio nome!

Com paus jogávamos “ao palito” e até havia artistas que faziam o seu próprio “peão”. Aproveitávamos também o pau da piteira que imitava perfeitamente um stick para as jogatanas de hóquei em patins – talvez o desporto mais popular da altura – embora o nosso fosse mais do “género” de hóquei em campo pois não “usávamos” patins. As balizas eram as sarjetas da estrada quase sempre em frente uma da outra. Com uma cana entre as pernas “cavalgávamos” quilómetros num “puro-sangue lusitano” que até relinchava e até corridas de bicicleta fazíamos na altura da Volta a Portugal com um arame a fazer de guiador.

[Boca da Ribeira. Foto JV, 2010]

E quando chegava a abertura da caça a 1 de Outubro, esse ritual ancestral que trazemos no ADN desde a alvorada da humanidade, num tempo ainda muito genuíno e em que muitos ainda caçavam por necessidade, era o empolgamento total que se apoderava da garotada! Íamos até ao cerro da Mina ou até perto do Marmeleiro à espera dos caçadores para participarmos no final da caçada. Era uma autêntica loucura para a miudagem!

A caça penso, traz associada uma falsa sensação de força, de poder, no mínimo de força e de poder sobre a presa. E ter poder sem conseguir exercê-lo transforma-se numa desonra. Agora imagine-se aqueles que traziam o “chibato” como é que eles se sentiriam? Eram uns fracos naturalmente! Mas era também o momento dos miúdos se “empertigarem” e fazerem sentir alguma força crítica, zurzindo atrás deles meeehhhh...!, meeehhhh...!, meehhhh...!. Parecíamos as vuvuzelas do Campeonato do Mundo na África do Sul. Fazíamos-lhes esperas mas eles sorrateiramente, sumiam-se a maior parte das vezes sem darmos conta.

Existia também antes da abertura da caça um “aperitivo especial” em Agosto salvo erro. Tratava-se da caça à Rola e à Barriga Negra. O Alcoutim Livre tem publicado diversos textos que mostram as preocupações e o realismo das análises do Sr. Luís Cunha sobre o Alcoutim de então. Eu vou entrar um bocadinho pelo seu lado humano, para revelar um pouco a personalidade de um homem, nuns tempos em que os jovens estavam no fim da fila – era uma sociedade de adultos e para os adultos – ao contrário dos nossos dias em que os jovens assumem o topo da hierarquia à nascença, não sei se bem se mal. Sei que as gerações do meu tempo terão particulares responsabilidades nesta inversão radical de valores, no seu anseio de cortar a todo o custo com as amarras que a sufocavam. Mas isso é outra conversa.

Numa daquelas noites escaldantes da Rua da Portas de Mértola com os meus 12 ou 13 anos, pergunta-me o Sr. Luís Cunha conhecedor daquele empolgamento pela caça, “queres ir amanhã comigo ao Pego do Corvo à Barriga Negra?”. Era o mesmo do que perguntar à fome se tinha vontade de comer! Caramba, às 3 horas da manhã já lá estava à porta de casa dele, pois não tinha conseguido pregar olho! Era o meu primeiro dia de caça com que tinha sonhado tantos anos!

Mas o melhor ainda estava para vir. Deixou-me levar a espingarda até ao Pego do Corvo, fizemos a “taimeira” e fiquei de dedo no gatilho à espera que elas chegassem. Que excitação caramba! Mas as maganas não apareceram. Felizmente para elas e para mim... Eram umas aves do tamanho de uma perdiz, muito esquivas que se deslocavam em bando, com um bater de asas muito duro e barulhento, muito raras e de peito negro. Possivelmente com o abandono da agricultura extinguiram-se também, assim como o “Algrevão” (Alcaravão), uma ave média, rara também e muito solitária, de pernas muito altas e que até servia para “alcunhar” este ou aquele que tivesse a perna mais longa “ até parece um “algrevão”.


Perante a minha desilusão diz-me o Sr. Luís Cunha no regresso, “deixa lá, vamos aqui pelo cerro da Mina e se aparecer alguma perdiz atira-lhe que a gente diz que foi tiro à Rola e levamo-la escondida”. Ele sabia o prazer que me dava prolongar aquele momento de fascínio “mascarado” de caçador. Mas nada...nem uma. Menos um problema de consciência para resolver, digo eu agora. Tinha sido o meu 1º dia de caça a sério mas foi o último também. Graças ao amigo Luís Cunha que tinha um olhar diferente sobre a juventude.

(*) Ainda me lembro do Álvaro “Pandareta” e da sua bicicleta “prega-saltos” para distribuição do correio, do Manel “Arrana” (Manel diz lá “a rã”, “arrana” dizia o Manel, contava o meu pai), do Henrique “Chapa de Aço”, do Manel Botelho, do Zé Pedro e das “suas” belas pintoras dinamarquesas, do Dimas, do Rui Simão, do Rui Valério, do Rogério Trindade meu padrinho e a quem devo o nome. Perdi-lhe o rasto. Sei que foi a sua homenagem ao grande advogado democrata e jornalista lisboeta da 1ª metade do séc. XX Amílcar Ramada Curto. Dizia-se em surdina que tinha fugido para a Rússia e que era locutor na Rádio Moscovo. Nunca consegui confirmar se foi verdade ou imaginação popular, pois também me aconteceu quando desertei nos finais da década de sessenta, “ter ido fazer a Guerra da Argélia” contra os franceses, que tinha acabado 10 anos antes, ou de me terem visto disfarçado em Sanlúcar onde nunca pus os pés, para visitar os meus pais...
O velho Valério – grande conversador, grande tagarela – enquanto foi vivo sempre me chamou Amílcar Ramada Curto e assim chegaram os Amílcar a Alcoutim. Ainda lá mora o meu afilhado Amílcar Teresa.
Naturalmente que me lembro também daqueles que de uma maneira ou outra, nunca cortaram o cordão umbilical com Alcoutim como o Zé Cavaco irmão da Prachedes, o Manel Justo, o Joaquim Rita, o Carlos Manuel, os meus tios Zé e Alfredo Afonso, o Zé e o Alfredo Martinho, os diversos manos Balbinos, o Euleutério e o irmão, o Manel Peres e o Justino, os Baptistas, o meu compadre António da Teresa, o Gaspar Santos, o Carlos Brito, o Fernando Dias e o irmão João Dias etc. Uma geração brilhante que Alcoutim não soube aproveitar! Aproveitou o país. Possivelmente devo ter esquecido algum nome e acrescentado um ou outro nome que não são da mesma fornada, mas quase que me atrevo a afirmar sem receio de errar, que saiu dali a melhor colheita que Alcoutim produziu no século XX quer do ponto de vista profissional, apesar dos parcos meios e oportunidades de que dispuseram de um modo geral, quer pelo empenhamento social de que tantos deles deram provas e em tempos tão difíceis! Um bom tema para a pena “afiada” do nosso amigo Gaspar Santos!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Capela de Nª Sª da Conceição, na Vila de Alcoutim

Pequena nota

De todos os templos existentes no concelho ou que já desapareceram, com a publicação deste “post” só ficarão a faltar dois, os de mais recente construção que possivelmente não terão assunto suficiente, pelo menos para mim, para os abordar.
Estou a referir-me às novas Capela de Santa Marta e do Pessegueiro que se a memória não me atraiçoa, tem por invocação Nª Sª de Fátima.
Iremos tentar abordar os dois templos para o que teremos de efectuar pesquisas sobre eles e veremos se conseguimos obter elementos que justifiquem uma publicação.
Aquilo que agora publicamos sobre a Capela de Nª Sª da Conceição já foi escrito há 20 anos e retirámos da “célebre” 2ª Edição (em preparação) o que vulgarmente se designa por “Monografia de Alcoutim”.
As notas ainda que indicadas no texto ficarão reservadas para uma hipotética publicação, já qu, é habitual gente sem escrúpulos servirem-se dos trabalhos dos outros para os transformarem como seus..


JV


[Fachada virada para Sanlúcar]

Começa-se logo pela dúvida em a classificar. Igreja, capela ou ermida?

A aplicação destes termos, no tempo, não tem o mesmo significado. Optámos por capela por nos parecer o mais ajustado aos nossos dias.

Aparece referenciada como uma obra de D. João IV, como a seguir indicaremos.

Tem uma linda capela, fundada por D. João IV para comemorar a Restauração da Independência e dedicada a Nª Sª da Conceição, refere O Século em número extraordinário do duplo centenário - Junho de 1940.

O Algarve, de J. Mimoso Barreto, Lisboa, 1973, refere: - D. João IV mandou construir, no interior das suas muralhas, a Capela de Nª Sª da Conceição, a fim de comemorar a Restauração de Portugal.

[Fachada virada para Sanlúcar em 1967. Foto JV]

Em “Roteiros Turísticos do Algarve” (1) escreve-se: - O Rei D. João IV construiu no perímetro das suas muralhas a Capela de Nª Sª da Conceição, a fim de comemorar a reconquista de Portugal.

Mais comedido é Álvaro Pais (2) que escreve... a pitoresca e algo sumptuosa capela de Nª Sª da Conceição... deve ter sido restaurada logo após a Restauração de Portugal, quando D. João IV difundiu largamente o culto da Padroeira de Portugal, pois certamente é mais antiga.

A própria Câmara Municipal, no primeiro cartaz turístico que conhecemos sobre o concelho, proprietária do imóvel, diz que foi mandada construir por D. João IV. (3)

A origem da capela é muitíssimo mais antiga. Em 1518 o visitador da Ordem de S. Tiago, (4) informa...achámos que a dita irmyda he tam antigua que nom ha hy memória de quem a edificou, soomemte quanto Ruy Martins prior que ora he da dita irmyda tem carreguo dela. (4) Nesta altura a ermida tinha uma capela com a imagem de Nª Senhora e mais dois altares de alvenaria, dedicados um a S. Bento e o outro a S. Martinho.

Em 1534 já estava (...) feita de novo (...) de uma só nave (...) capela de abóbada (...) um altar de alvenaria forrado de azulejos (...) uma imagem de Nª Senhora com seu filho ao colo. Tem mais (...) dois altares de alvenaria no cruzeiro e um portal grande de pedraria muito bom e bem obrado com as suas portas novas, o telhado tinha dois tirantes de ferro e no meio de cada um deles está um escudo de ferro e um deles tem uma coroa de espinhos dourada e no meio umas letras que dizem ALEO.

Foram os moradores da vila que procederam ao restauro com o auxílio do Marquês de Vila Real, 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses, que contribuiu com “sessenta e três mil reaes”.

O famoso Livro das Fortalezas, de Duarte Darmas, que deve ter sido executado entre 1521 e 1530, mostra no mesmo local uma capela de linhas diferentes das actuais, ainda que a planta seja orientada no mesmo sentido.

Em 1867, respondendo ao Governador Civil, a Câmara informa que está na posse da sua administração há mais de um século, não obstante não poder mostrar outro título senão a real e efectiva posse que, desde tempos imemoriais, conserva. (5)

[Do Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas. Vista do Norte]
A capela, a que presentemente mais se chama igreja, situa-se no ponto mais alto (cota 37), num pequeno cerro que domina a vila.

Tem um adro de cerca de 800 m2 e que em 1518 servia para enterrar os defuntos.

Em 1858 recebeu obras de beneficiação que importaram em quarenta mil quinhentos e vinte réis. (6)

O acesso faz-se pela rua de Nª Sª da Conceição, sinuosa e que estava mal empedrada ou por íngreme e estreita travessa que a tradição aponta ser sítio por onde passava a muralha da vila, mesmo ali perto das Portas de Tavira.

[Rua de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2010]

Doze degraus de ladrilhos, em semicírculo e concêntricos, levam-nos a um patamar, também ladrilhado, de onde partem para cada um dos lados, correspondentes lanços de escadas, igualmente em tijolo. Encontramo-nos assim no amplo adro do qual se goza belo panorama sobre a vila, o Guadiana e Sanlúcar. Este escadório deve ter origem na primeira metade do século XVIII e talvez tivesse sido influenciado pela igreja de Sanlúcar. (7)

As imediações da porta principal e das fachadas laterais eram ladrilhadas à típica maneira algarvia. Ocupou-se desta obra, Francisco Pereira, no ano de 1799. (8)

O templo é de uma só nave. Em 1749 procedeu-se a “arranjo do lado do levante”.

O tecto foi pintado em 1836 (9) e o forro do telhado feito em 1913 (10) tendo custado cem mil réis. Já em 1890 tinha sido reconstruído o telhado e o forro, tendo-se para o efeito contraído um empréstimo. Ocupou-se da obra, Joaquim Fernandes Ferramacho. (11)

A fachada principal tem três janelas rectangulares e sem qualquer interesse artístico. Duas ladeiam o pórtico e a outra situa-se por cima deste. As primeiras, por serem baixas, são guarnecidas por grades de ferro.

Quatro pináculos de alvenaria, um em cada extremidade da fachada e outros dois em plano superior e equidistantes, conjuntamente com outros trabalhos de argamassa adornam a cimeira. No topo, simples cruz de ferro forjado, feita por Manuel Dias, ferreiro de Giões, em 1799, e que custou cinco mil réis. (12)


[Parte cimeira da fachada principal. Foto JV]

Sobre a janela central que ilumina e areja o coro, em baixo relevo, e no semicírculo central, situa-se um brasão real, possivelmente de D. João IV.

[Como se encontrava o pórtico em 1967. Foto JV]
Do exterior, o pórtico é sem dúvida a peça de maior interesse artístico. De arco ogival, é todo trabalhado com beleza, notando-se ornatos manuelinos. As bases e os capiteis são trabalhados naturalmente com maior relevo.

Ao observá-lo com atenção, verificámos que duas das peças que o constituem estão aparentemente trocadas de posição. O pórtico é datado do primeiro quartel do século XVI. (13)

Fomos encontrar, curiosamente, em Aiamonte, na Calle Juan de Zamora, nº 12, num belíssimo pórtico, alguns elementos decorativos precisamente iguais. (14)

Em 1840 compra-se madeira, vinda de Espanha por Sanlúcar, e faz-se a “porta grande” assim como as janelas laterais. (15) Por cima de cada uma delas situa-se uma cruz em baixo relevo.

No corpo do templo existe outra porta, lateral, sem interesse e em cuja soleira se notam, nas partes menos pisadas, azulejos de cores vivas, predominando o azul e de linhas geométricas.

Uma janela alta e gradeada ilumina o altar-mor. O gradeamento foi feito por iniciativa do Dr. Juiz de Fora, em 1804, para evitar a entrada no templo por aquele lado. Em 1854 é adquirido novo madeiramento para a janela, pois o anterior estava em muito mau estado. (16)

Do lado direito do corpo da capela situam-se dois compartimentos. Um destinava-se à Real Confraria e nele se guardavam, ou melhor dizendo, apodreciam, andor, castiçais, cruzes, bandeiras e outros objectos quase todos utilizados nas festividades que anualmente se realizavam em honra da padroeira. O outro é a sacristia que tudo indica ser de mais recente construção, pois em 1799, diz-se que se gastou em amanhos da “nova” sacristia, dezasseis mil réis. Nela encontrámos um móvel com seis gavetões e duas portas com ferragens toscas. Parece ter sido executado pelos carpinteiros, João Gomes, o Velho e João Gomes, o Moço (possivelmente pai e filho), em 1749. (17) Num dos gavetões via-se em muito mau estado um missal de 1677. Por cima do móvel e a monte as imagens de madeira pintada de S. Sebastião, que dizem ter vindo da igreja matriz e que a nós nos parece oriunda da capela do cemitério, antiga capela de São Sebastião, Nª Sª da Saúde, deslocada do altar que ruiu e São Brás. Numa parede, um quadro a óleo representando Nª Sª da Conceição, em muito mau estado e de autor desconhecido.

Não existe torre sineira mas possui ventana lateral de três aberturas de arco perfeito.

Esteve muitos anos sem sinos mas recentemente (1980) a Edilidade mandou colocar na maior abertura o antigo sino do relógio.

[Aspecto actual do templo]

A fachada virada para a vila é também ornada por interessantes pináculos de alvenaria. O semicírculo central era aqui ocupado por mostrador de relógio com algarismos romanos e a que faltam os ponteiros. No topo, e em armação de alvenaria, situava-se o sino do relógio que durante muitos anos deu horas a estas gentes. Calou-se por volta da década de cinquenta. A notícia mais antiga que conhecemos sobre o relógio data do ano de 1841, (18) pois encarrega-se Bernardino Munhoz Salas, residente na vila, do seu conserto. Em 1858 a Câmara pede ao Governador Civil que em Conselho do Distrito lhe seja autorizado a aplicar à compra de um relógio público, a quantia de cento e dez mil réis a sair da verba orçada para obras públicas, visto ela vir a ser compensada pela cobrança da “Terça”, cedida pelo Governo a favor do município e para obras públicas. (19)

Em 1882 a Câmara paga trinta mil réis a Lourenço Gomes Teixeira pela compostura do relógio público, responsabilizando-se o técnico pelo seu funcionamento durante um ano, isto se não houver nele interferência ignorante ou maldosa.

João Baptista Canelas, em 1910 era o encarregado do relógio público que em 1914 necessitava de ser reparado.

O maquinismo que se situava num pequeno compartimento de abóbada de berço, fica independente do corpo da igreja, dando-lhe acesso pequena porta lateral, a que se segue escadaria ladrilhada. Por cima da máquina lê-se pintado a tinta verde: - C M A - 1893.

A Câmara Municipal presidida por Cavaco Afonso adquiriu em Braga à firma Jerónimo & Filhos, Lda., um novo relógio que mandou instalar no mesmo local. Deixaram assim os alcoutinenses de se orientarem pelas horas que recebiam por contrabando da vizinha Sanlúcar e que por vezes não correspondiam às nossas.

Custou 235.700$00.

Sobre a armação que suporta o sino, todos os anos fazia o seu vetusto ninho um gracioso casal de cegonhas que nos anunciava a Primavera.

Do telhado, destaca-se uma cúpula de alvenaria de secção semicircular, encimada por alto pináculo em que se notam quatro pequenos nichos.

[Um aspecto da cúpula do templo. Foto JV, 2010]

Entremos no templo. Três barras de ferro aguentam a contextura da nave. Numa, a inscrição ALEO, colocada num círculo azul e branco (cores da bandeira monárquica de Portugal), noutra, num fundo branco, uma cruz vermelha semelhante às utilizadas pelos cruzados.

Tecto de madeira e secção trapezoidal.

O púlpito, também de madeira, tem pintura marmórea.

A capela-mor tem abóbada de secção semicircular e foi reparada e pintada em 1849, para o que veio pintor de fora. Já em 1836 se tinham comprado três quartilhos de óleo, várias tintas e pós para a pintura de portas e tecto da igreja.

Dizem-nos que do centro pendia interessante candelabro de que se desconhece o destino.

Separada do corpo da igreja por arco triunfal, sem qualquer pintura ou adorno mas que no fecho possuía uma data que desapareceu, segundo a nossa informadora.

O retábulo do altar-mor forma uma interessantíssima peça de talha dourada da segunda metade do século XVII, chamada de estilo nacional. Compõe-se de colunas torsas adornadas com figuras simbólicas: - meninos, cachos de uvas e parras, pássaros (representando a Fénix, símbolo da imortalidade), tendo a encimá-los arcos concêntricos. (20) O seu estado era lastimoso. Em completo abandono, constituía pasto de bicharada que o devorava.

Algumas peças desgrudadas espalhavam-se por aqui e por ali. Dizem-nos que foi cuidado recentemente, 1980/81, mas desconhecemos o seu âmbito.

[Imagem de Nª Sª da Conceição]

Em posição de destaque e numa redoma, a imagem de Nª Sª da Conceição, com coroa de prata de valor. Além desta, existe outra mais valiosa e que se utilizava em dias de festa. A prata, artisticamente cinzelada, é incrustada de pedraria. Foi adquirida em 4 de Agosto de 1910 e custou quarenta e oito mil réis. (21)

Em 1849 são estufadas as imagens de Nª Senhora da Conceição, São Francisco, Santo Cristo e dois Anjos. (22) Já em 1815 se tinham rectificado as mesmas imagens pois estavam na última decência e informes. O trabalho foi executado pelo mestre pintor Diogo Afonso e custou vinte e um mil, duzentos e sessenta réis. (23)

Houve castiçais de prata que foram levados para Faro, por ordem Régia, mas que pouco depois regressaram. (24) O transporte para o regresso custou dois mil e cem réis. Não lhes encontramos rasto. Teriam sido roubados pelos franceses quando aqui estiveram, meia dúzia de anos depois?

O brasão real de D. João IV encima o altar. É pintado em madeira recortada e encontra-se em bom estado.

Uma aguada de cimento tapou, não sabemos porquê, um conjunto de azulejos que deve ser interessante, pelo que nos foi dado ver por um que destapámos. Havia necessidade de classificá-los, depois de convenientemente desobstruídos.

No corpo da capela existem mais dois altares: um dedicado a São Francisco e o outro a Nª Sª da Saúde. Ambos são de pintura marmórea.

Numa arca, que mais poderíamos considerar ninho de ratos, existiam paramentos, tais como casula, estola e alva. Turíbulo de cobre, cálix, patena e castiçais foram outros objectos que lá encontrámos.

Em 1806 temos notícia da compra em 1806 de uma estola em damasco. Para ajudar à despesa, venderam-se umas galhetas de prata que estavam rotas. (25)

Um ano depois é a vez de adquirir uma alva e uma toalha de altar de linha. (26)

Na mesma arca encontrámos também um pendão de seda azul e branco com a imagem da padroeira bordada, sendo o rosto e as mãos pintados a óleo, uma toalha de filett com a data de 1900, cujos preparos custaram quatro mil e quinhentos réis (27) o trabalho foi oferecido por uma senhora madeirense da família Cunha e um missal de 1801, encadernado, dourado e em muito bom estado. Foi adquirido em 1805 e custou doze mil e oitocentos réis.

Um órgão que tinha sido doado por Pedro José Rodrigues Teixeira, desta vila, desapareceu em 1969.

Como já temos dito em outras circunstâncias, foi aqui que se recolheu o povo desalojado, quando da catastrófica cheia do Guadiana de 1876, por ser o ponto mais elevado da vila.

Na sacristia, na mesma altura, reunia a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia para discussão e resolução dos graves problemas que a inundação tinha acarretado, pois quase lhe destrói a igreja e casa do andador.

Depois de um largo período de completo abandono que a encaminhava para a ruína total, a Câmara deitou mãos à obra e numa primeira fase, realiza as obras de que estava mais carecida.

[Escadinhas da Conceição. Foto JV, 2010]


Com os muros restaurados e caiados, possibilidade de acesso fácil, paredes rebocadas e caiadas dão um aspecto airoso ao gracioso templo.

Não ficou por aqui a Câmara e avança com outras obras de restauro que orçaram em mais de vinte mil contos e que incidiram principalmente sobre o telhado, altar-mor e as imagens. A reabertura do templo foi assinalada com uma celebração eucarística, seguindo-se a procissão com a imagem de Nª Sª da Conceição. (28)

Os serviços religiosos estavam a cargo de um capelão, normalmente, pelo menos nos últimos anos, pelo ajudador ou coadjutor da freguesia. Requeriam à Câmara o exercício do lugar o que em geral lhes era deferido.

Por volta de 1880, o exercício dessas funções, celebração de missa todos os domingos e dias santos de guarda, rendia-lhes sessenta alqueires de trigo por ano ou o semelhante valor em dinheiro.

Indicaremos, para terminar, alguns dos capelães que exerceram a Capelania da Capella Real de Nª Sª da Conceição.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O "papagaio"



A rubrica Etnografia apresenta hoje um utensílio quase desaparecido das casas alcoutenenses e naturalmente não foi só usado na área do concelho de Alcoutim. Penso mesmo que se espalhou por todo o país com formatos, nomes e confecções diferentes, tanto no material empregado como nas formas e configurações.

O exemplar fotografado ainda se encontra servindo numa cozinha de um monte próximo de Alcoutim.

Já tem várias décadas de existência e servia principalmente para colocar o candeeiro a petróleo que já aqui referimos e quando as candeias a azeite e depois a petróleo começaram a ser preteridas por este sistema de iluminação.

O “papagaio”, como localmente chamavam a este suporte de candeeiro, era constituído por três peças de madeira. A maior e que se fixava à parede com dois pregos era trabalhada ao gosto do artista. Na parte central era colocada outra das peças, esta normalmente semicircular ou próximo disso e que era suportada como medida de segurança pela terceira peça, neste caso igualmente de linhas curvas e de tamanho adequado à situação.

Com o advento da electricidade passaram a plano secundário indo a pouco e pouco desaparecendo das paredes das velhas casas serranas.

Este utensílio era usado também junto do poial, fixado por cima dos cântaros de água e onde se colocava o púcaro, caneca ou copo por onde todos bebiam.

Não serão já muitos os ainda utilizados mas não demorará muito tempo que não desapareçam totalmente.

Restará dizer que admitimos que o nome teria sido dado pela semelhança com o poiso dos papagaios, esses sim, verdadeiros.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os moinhos de vento no concelho de Alcoutim

Pequena nota

Há mais de uma dezena de anos foi informado publicamente que o órgão executivo municipal tinha adquirido dois ou três moinhos na freguesia de Alcoutim no sentido de os recuperar e enquadrá-los em roteiro turístico local.
Elogiámos e ficámos satisfeitos com a ideia.
Passados que são tantos anos, a única alteração que verificámos foi o retirar de um deles a sua cúpula que penso se destinaria a recuperação.
Tudo se mantém pior do que estava, se pior pode estar!
Em contrapartida, os nossos vizinhos sanluquenhos pensaram nisso e em pouco tempo puseram em execução o seu projecto, como se poderá ver pela imagem junta.

JV



Sendo uma região cerealífera houve necessidade de transformar os grãos em farinha, não esquecendo que o trigo ainda é a base da alimentação deste povo, de uma maneira muito pronunciada.

Desde os últimos anos do século XV, que se tem notícia da existência de moinhos em Alcoutim. (1)

Aproveitando a força do vento, escolhendo elevações de terreno, muitos moinhos se construíram por todo o concelho. No último quartel do século XIX ainda existiam vinte e nove a trabalhar. (2)

Em 1995, por intermédio de um alcoutinense interessado nestes assuntos, conseguimos obter um inventário de todos os moinhos existentes no concelho, ainda que só possuam leves vestígios. Contra a nossa expectativa, foram identificados quarenta e seis, cabendo à freguesia de Martim Longo dezoito, o maior número.

Fazendo fé nos dados que nos facultaram, ainda laborava um, precisamente na extremidade do concelho, no Pereirão.

[Moinho do Pereirão. Foto JV]

Grande número deixou de trabalhar nos meados do século passado, décadas de cinquenta e sessenta.

Da sua construção, ninguém se lembra, perde-se no recuar dos tempos.

Os moinhos que existiam no concelho de Alcoutim eram constituídos por um corpo em forma de tronco de cone, relativamente baixos, de alvenaria, caiados de branco muitas vezes e onde se rasgavam a porta e uma ou mais janelas. A cúpula, a que chamam “capelo”, é rotativa. É dela que sai o mastro onde se fixam os varais, cruzados e onde se situam as quatro velas triangulares de pano e lona. O capelo move-se conforme o vento impõe e por sistema não uniforme.

Os moinhos têm dois pisos ligados por escadaria interior. Aí, distinguem-se dois aparelhos, o de moagem propriamente dito e o aparelho motor. O de moagem consta fundamentalmente de duas mós, a de baixo fixa, o pouso, e a de cima rotativa, a andadeira.(3)

[Moinho da Pateira. Foto JV, 1969]

Estes moinhos classificam-se de tipo mediterrânico.

Em 1941 ainda deviam trabalhar quinze.(4)

Na freguesia de Alcoutim identificámos mais de uma dúzia. Os existentes estão em ruína, alguns já pouco possuem que os identifique e outros nem isso, só a memória do povo os localiza.

[Moinhos Queimados. Foto JV]

Dos Moinhos Queimados, próximo da vila, dizem que várias vezes tinham sido reconstruídos mas que os raios sempre os fulminavam, naturalmente atraídos pela natureza do terreno onde estavam erguidos.(5)

Estes moinhos são (ou eram) também conhecidos pelos moinhos do Cerro dos Cadavais ou dos Escrivães. À roda deles ainda gira uma estória diferente da que acabámos de referir e que procura justificar a razão por que “ardiam”.

Dizia o povo... que o escrivão Manuel Torres criou um imposto que era denominado popularmente por lágrimas das viúvas. Com o seu produto foram construídos os ditos moinhos, mais tarde destruídos por um raio. Reconstruídos, vieram a ter a mesma sorte.

O povo explicava o caso por castigo de Deus devido à origem do dinheiro, que consideravam não justa e ilegal. (6)

Os moinhos chamados da Corte da Seda eram três. Dois pertencentes ao mesmo proprietário, conhecido por Ti Coelho, um branco e um preto. O outro era designado pelo nome do seu proprietário, o moinho de Francisco Justino.

Dos três, o branco foi o último a deixar de laborar, o que aconteceu em 1966.

[Moinho da Casa Branca. Foto JV]

Nos Balurcos havia dois na Casa Branca, tendo um deles deixado de trabalhar em fins da década de sessenta ou mesmo no início da seguinte. Ainda há poucos anos tinha mastro. No Deserto havia outro, o único das redondezas que tinha búzios e dois no Montinho do Serro, conhecidos por Moinhos da Nora.

Próximo da Corte das Donas encontra outro moinho também em ruínas.

Na parte norte da freguesia de Alcoutim, os conhecidos moinhos da Pateira (dois) deixaram de trabalhar pela força do vento, cerca de 1945, mas em 1950 já estavam a funcionar através de motor.

Estes moinhos pertenceram em tempos a Ti Fastina, de Afonso Vicente, que vivia onde é hoje a Sociedade Recreativa local. Curioso é verificar que servia como degrau de acesso à porta, parte de uma velha mó proveniente daqueles moinhos e que certamente veio a ser destruída.

Em tempos, de que ninguém se lembra, existiu um moinho em Afonso Vicente. O que os habitantes sabem é que àquele local, que apresenta um círculo, sempre ouviram chamar o sítio do moinho.

Junto das Cortes Pereiras estão dois moinhos em ruínas, um quase desaparecido. O mais próximo da vila trabalhou até cerca de 1934. O moleiro era António Inácio, conhecido por Ti Glindim. Os moços passavam por lá e questionavam:- Oh Ti Glindim, o que faz lá dentro? Está peneirando ou fazendo o fermento? E toca a andar, pois o moleiro não se fazia esperar...

[Moinhos das Cortes Pereiras. Foto JV]

Para os lados do Barranco dos Ladrões, afluente da ribeira de Cadavais, está de pé outro moinho que designam por Moinho dos Ladrões.

Entre Santa Marta e Coito, já na freguesia do Pereiro, situam-se dois moinhos, um branco e um preto, afastados um do outro cerca de duzentos metros e que a tradição aponta terem sido mandados construir por D. Miguel, cidadão espanhol que presidiu à Câmara Municipal e que veio a ser barbaramente assassinado a mando dos adversários políticos (conservadores) e voltamos a citar a tradição.

Próximo da aldeia do Pereiro, ainda de pé, o Moinho da Chada reconstruído em 1900 (7) e onde anos depois as velas foram substituídas por motor. Pertence actualmente a José Cavaco Nobre.

A caminho da Silveira e também próximo do Pereiro, do lado direito da estrada, quando se sai da aldeia, encontra-se o Moinho Preto de paredes ainda bem conservadas.

Novamente na freguesia do Pereiro e perto do monte do Tesouro, existem mais dois moinhos.

Nos subúrbios de Giões erguem-se dois moinhos de vento denominados Passa Leve e do Balão. Possivelmente ambos trabalhariam na década de trinta.

Em testamento de 1843, deixa-se a um sobrinho, as três partes do moinho de vento sito na Cerca da Torre (Giões?) (8).

Perto do Zambujal (Vaqueiros) podem ver-se os restos de três moinhos.

[Moinho do Balurquinho ou das Preguiças. Foto JV]

Balurquinho, Alcarias e dois em Vaqueiros completam o inventário desta freguesia. O de Alcarias já não trabalhava nos fins do século XIX.

Na freguesia de Martim Longo existem os seguintes moinhos:-1 no Pereirão, (o único que ainda funcionava), 3 no Pessegueiro, sendo dois pretos e um branco, 2 no Lutão, um branco e outro preto, 2 no Azinhal, igualmente preto e branco, 8 em Martim Longo, 2 em Santa Justa, 2 nos Castelhanos, o Moinho do Mocho e três na Portela.

Na sessão da Câmara de 5 de Fevereiro de 1863, é presente um requerimento de Sebastião do Rosário Vieira pedindo se lhe conceda com foro, o terreno do rocio nos redores do moinho Velho. Em 1865 (Sessão de 29 de Agosto), é José Pedro Roiz Teixeira, da vila, que pede também no sítio do Moinho Velho e no rossio, um bocado de terra para fazer uma eira, de que absolutamente carece. Qual seria este moinho velho? Dele, possivelmente já nada existe.

Anos depois (9) é apresentado um requerimento de vários senhorios de moinhos, queixando-se de um indivíduo, do Balurco de Baixo, que tapara ou cercara um terreno por onde passava um caminho concelhio que servia de passadouro de mós. Pediam que a Câmara procedesse a vistoria e em resultado da qual, se assim fosse entendido, o mesmo fosse intimado a deixar livre e desembaraçado o dito caminho pois não havia outro para a passagem das mós. A vistoria acabou por concluir que o caminho não podia ser considerado vicinal.

[Moinho próximo de Corte Serrano]

Em 21 de Novembro, pela noite dentro, deu-se um incêndio no Moinho Novo, arredores de Martim Longo, suspeitando-se de crime de fogo posto. Em meados do século passado existem referências ao moinho branco da Xada, na mesma aldeia.(10)

Em muitos casos e como já vimos, os moinhos dispunham-se aos pares. Um era o moinho branco, o outro o preto. O primeiro tinha mós “alveiras” fabricando farinha para fazer o pão, o outro farinando vários cereais para alimento dos animais.

Em 1835, o foro anual dum moinho dos arredores de Alcoutim valia 74 alqueires de trigo. (11) Nas heranças ninguém prescindia da sua quota-parte.

Em 1838 a profissão de moleiro era referida com frequência. Cada ofício mecânico tinha um juiz perante o qual os candidatos à profissão tinham de prestar provas.

Na Sessão da Câmara de 4 de Fevereiro (1838) foi nomeado juiz moleiro, José Lopes Carreira. Prestaram provas e foram aprovados:- Manuel Pires (Vaqueiros) em 05.01.1844, João Martins (Traviscosa) em 01.06.1844, José Peres, de Vila Blanca, residente nos Balurcos, Silvestre Rodrigues (Azinhal) em 25.09.1849 e José Roiz (Barrada) em 25.09.1849, só para referir alguns que encontrámos.

Tiveram grande importância na vida quotidiana, suprindo carências de alimentação local ou ocorrendo à necessidade de outras regiões.

Começaram por pertencer ao rei ou à classe nobre que da sua exploração retiravam benefício.

No reinado de D. Manuel I ainda a situação se mantinha.

NOTAS

(1)–História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Verbo, Vol. II, 1978, p. 272.

(2)-Diccionário de Geographia Universal, Editor, David Corazzi, Lisboa – 1878, p 52.

(3)-Dicionário Ilustrado da História de Portugal (Coord. José Costa Pereira), Ed. Alfa, Vol I, 1985 p. 485.

(4)-Acta da Sessão da C.M.A. de 5 de Julho.

(5)-“Pequenos Apontamentos – Moinhos”, Trindade e Lima, in O Povo Algarvio, de Tavira, de 21 de Julho de 1973.

(6)-Esta estória-lenda a única coisa que tem certa é o nome, Manuel (António) Torres, que foi Presidente da Câmara e depois seu secretário durante muitos anos, exercendo também as funções de Provedor da Santa Casa da Misericórdia e figura de destaque no concelho no século XIX. É possível que por essas alturas tivesse sido criado qualquer imposto, não pelo escrivão, que não tinha competência para isso, mas pelo órgão executivo municipal de onde o mesmo teria feito parte. O povo ligou estes assuntos procurando encontrar uma justificação para o acontecido.

(7)–A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim), do passado ao presente, José Varzeano, Ed. da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, p.58.

(8)-Testamento de 2 de Março de 1843.

(9)-Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Novembro de 1870.

(10)-Of. nº 87 de 24 de Novembro de 1882, do Administrador do Concelho ao Governador Civil de Faro.

(11)-O Algarve Oriental, As vilas, o campo e o mar, Carminda Cavaco, 1976, p. 76

domingo, 4 de julho de 2010

Outro culto religioso em Alcoutim






Escreve
Gaspar Santos



No início dos anos 50 do século passado, em data que não posso precisar, passou a dispor-se em Alcoutim do culto de uma religião evangélica. Praticava-se com alguma regularidade, duas ou mais vezes por mês, numa casa que tinha sido cedida por um particular.

Lembro-me do pastor, uma pessoa corpulenta, que residia em Mértola e se deslocava periodicamente a Alcoutim na sua missão de entregar uns papéis, conversar com as pessoas, enfim fazer a divulgação da sua religião.

A dada altura este pastor dirigiu-se à Câmara Municipal no sentido de obter um espaço para fazer as suas sessões, mas pelos vistos na Câmara não foram muito simpáticos com ele.

O pastor lamentou publicamente o sucedido. O Senhor Francisco do Rosário ouviu. Francisco do Rosário, que fora um importante militante do Partido Republicano Português, era ateu, apologista da separação da Igreja do Estado, que a República instituíra e o Estado Novo revogara, disse-lhe: “Oh homem prepare as suas coisas e diga-me o que é preciso que eu arranjo-lhe esse espaço”.

[A seguir à porta que se vê do lado direito, existia uma janela e logo a seguir, pegando com os Paços do Concelho, situava-se a porta da casa que aqui se refere. Foto 1969]

A casa hoje não existe, pois foi demolida e integrada no prédio grande do lado Norte da Praça da República. Era uma casa com uma porta para a Rua do Município e outra porta para a Rua 25 de Abril. Estava dum lado encostada aos Paços do Concelho e do outro confinava com o estabelecimento dos Rosários. Pertencera ao comércio de Vicente Romana, sendo depois adquirida pelos Rosários. Era lá que o Joaquim do Rosário tinha o talho com porta pela Rua do Município e o resto da casa era utilizado para armazém de cereais e outras mercadorias.

[Rua 25 de Abril, antiga Rua Dr. Oliveira Salazar. Foto JV]
À entrada pela Rua 25 de Abril havia uma sala grande. Foi aí que Francisco do Rosário mandou fazer e instalou uma mesa grande para o pastor dirigir as sessões e uns bancos corridos de madeira para a pessoas se sentarem.
Assisti algumas vezes a sessões destas, nas quais Francisco Rosário estava na primeira fila. Queria, com a sua presença, emprestar dignidade e credibilidade ao culto. Tinha a sua graça, a compenetração com que ele assistia a estes actos. Ele completamente ateu, e já não digo anticlerical pois vi-o algumas vezes a conversar com o padre com todo o respeito, cedia gratuitamente a casa e, como se não bastasse, assistia também às sessões. Era, à sua maneira, uma forma de democratizar o culto, que o Estado Novo facilitava então a uma só Igreja.

Ali os oficiantes rezavam, cantavam umas canções de ritmo convidativo à participação. Era uma novidade e como tal muitos de nós curiosos íamos frequentar. Não sei se converteram alguém. Sei que esta prática durou alguns meses, pelo menos até 1954 quando deixei Alcoutim.

Passada a novidade, eram poucas as pessoas que entravam e assistiam. A maior parte por curiosidade sentava-se num degrau em frente e de lá assistia sem entrar. Só o Luís Corvo e a mulher foram mais constantes na assistência. Depois, sei que este culto acabou, em face da pouca frequência.

sábado, 3 de julho de 2010

Duas Senhoras...



Duas Senhoras que marcaram a sociedade alcouteneja nos primeiros anos da década de 30do século passado. D. Cecília, esposa do Dr. João Francisco Dias e D. Marina, esposa do Chefe da Secção de Finanças, José Themudo.

Ainda bastante jovens, é notória a sua beleza e distinção.

D. Cecília foi madrinha de baptismo da filha mais nova de D. Marina que é alcouteneja pelo nascimento.

A foto foi tirada no quintal de D. Cecília, há pouco desaparecido.

Mais uma vez a Câmara Escura tem um peso sentimental.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cancioneiro Geral - Garcia de Resende



Garcia de Resende, organizou, além de ter colaborado poeticamente, este conjunto de poemas de raiz amorosa e outros jocosos e satíricos e que foi publicado em 1516 (em português e castelhano).

Esta edição tem selecção e introdução de Maria Ema Tarracha Ferreira e é da responsabilidade da Editora Ulisseia e Editorial Verbo, tendo sido publicada em 2006.

Em formato de 14X21,5 tem 569 páginas, possui vocabulário, glossário, notas de leitura literária e biografias dos autores dos poemas.

Um dos poetas incluídos é o Marquês de Vila Real, Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses. A nota biográfica, recolhida segundo o texto na Biblioteca Lusitana é a seguinte:- D. Pedro de Meneses, 3º marquês de Vila Real, 5º Conde de Alcoutim e Valença, 5º capitão de Ceuta, e alcaide-mor de Leiria. Foi aluno de Cataldo Sículo, tendo escrito em latim. Notabilizou-se nas armas, em Ceuta, onde nasceu, e que governou de 1512 a 1517.

D. Pedro de Meneses foi 2º Conde de Alcoutim e não 5º, como se indica.


Nota importante

Foi-nos chamada a atenção por um visitante/leitor que na nossa” postagem” de 27 de Maio último, na rubrica Escaparate ao referirmos a História de Portugal (coord. de Rui Ramos) dissemos que não trazia referências a Alcoutim, quando não é verdade, pois se assim acontece no texto, a Cronologia Seleccionada refere o Tratado de Alcoutim (fls.845) e no mapa de Levantamentos Populares (1629-1640) está incluído Alcoutim.

Muito agradecemos ao nosso assíduo e atento leitor e aqui deixamos a devida rectificação.

JV

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mina da Cova dos Mouros, ou das Ferrarias



É conhecida pelo menos desde o tempo dos romanos, que a teriam explorado, deixando vestígios dessa actividade.

Situa-se na freguesia de Vaqueiros e próximo do monte das Ferrarias. Quem entrar na freguesia vindo de Martim Longo, encontrará à esquerda um caminho de terra batida que a ela nos conduzirá.

Em 1860, Manuel da Palma que vivia no monte das Ferrarias e José Rodrigues de Alcaria Alta da Serra, freguesia de Cachopo, eram os proprietários da Herdade das Ferrarias, onde se encontra esta mina.

João José Viegas Teixeira (1) apresentou requerimento em que pede a concessão provisória da mina sita na Cova dos Mouros, da qual foi declarado descobridor legal por Portaria de 12 de Janeiro de 1863.

Visto os documentos satisfazerem todos os preceitos estabelecidos por lei, é feita ao requerente a concessão provisória da mina, sendo a respectiva demarcação, a que está indicada na mesma Portaria, devendo o concessionário submetê-la a aprovação do Governo, no prazo de seis meses.

Em 1873 a Câmara preocupa-se, pois apesar do pedido feito, ainda não se tinha deslocado a esta vila o engenheiro do distrito para fazer os estudos da estrada municipal da vila para Giões. A vereação lembra assim a conveniência de se repetir tal pedido, não só para benefício dos habitantes do concelho, como para não desviar deste ponto o embarque dos produtos da mina da Cova dos Mouros. (2)

No ano seguinte o concessionário é intimado para dentro dos prazos satisfazer o que a lei lhe exige.(3)

Em 1877 o engenheiro da mina, Jacinto Gomes, remeteu ao Administrador do Concelho a conta da receita e despesa da mesma mina relativa ao ano de 1876 que depois foi enviada para Beja. (4)

Entretanto morre em Aiamonte o concessionário da mina que tinha um mandato de captura à sua espera.

João Francisco Gomes Delgado, morador em Martim Longo, é em 1880 representante dos concessionários e nesta qualidade intimado para no prazo de quinze dias enviar o mapa da receita e despesa da mesma.

Pinho Leal, no seu conhecido dicionário, Portugal Antigo e Moderno, informa-nos que é uma grande mina de cobre, explorada pelos senhores Visconde de Carregoso (António Gomes Brandão) e António José Pereira de Magalhães e acrescenta que foi comprada ao primeiro proprietário por 50 contos de réis. (5)

Admitimos que o Visconde tivesse laços familiares muito próximos com José Gomes Brandão que foi escrivão da Fazenda, pela mesma altura, neste concelho.

António Gomes Brandão, que entretanto faleceu, foi proprietário de umas casas na vila e que a Fazenda Nacional pretende adquirir. (9) Sabe-se que morou no Largo do Rato, em Lisboa e tinha escritório na Rua das Capelistas, nº 95. (6)

Estas casas na vila, parece-nos (sob reserva) terem sido aquelas que foram ocupadas durante mais de um século pela Guarda Fiscal e que estiveram relacionadas com a actividade da mina, sendo o mineral expedido pelo Guadiana, segundo pensamos, mas nunca encontrámos qualquer referência concreta sobre o assunto.

Em 1883 era presidente da mina, João de Sousa Valente, de Vaqueiros. (7)

Presumimos que nesta fase a Mina da Cova dos Mouros estaria em laboração cerca de vinte e cinco anos.

A última “notícia” que encontrámos data de 1889 (8) em que se toma conhecimento dos roubos praticados na mesma, isto já numa fase de abandono.

O concelho de Alcoutim, em 1886, produziu 250 toneladas de minério de cobre e chumbo. (9)

Em 1930 ainda houve uma tentativa para pôr a mina a funcionar, mas não passou disso.

Foi recentemente criado, com fins turísticos, o Parque Mineiro que possui um itinerário pedestre de 730 metros a céu aberto em que, além da mina de cobre, se faz uma reconstituição pré-histórica, com uma habitação e utensílios primitivos, incluindo representações de figuras da época a trabalhar, dando ao visitante a sensação de estar numa viagem a tempos remotos e viver o quotidiano dos nossos ancestrais, desde a época Calcolítica (2.500 a.C.) ao período Romano.

Pode-se apreciar igualmente a deslumbrante paisagem do Nordeste Algarvio. (10)

Na Cova dos Mouros poderá ainda adquirir o artesanato do concelho e tomar um refresco enquanto aprecia a deslumbrante paisagem do Nordeste Algarvio. (2)


NOTAS

(1)-Exerceu todos os cargos políticos importantes no concelho e era natural de Vaqueiros.

(2)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Novembro de 1873.

(3)-Of. Nº 112 de 18 de Novembro de 1874, do Administrador do Concelho.

(4)-Of. Nº 68 de 18 de Julho de 1877, do Administrador do Concelho.

(5)-Vol. V, pág. 101.

(6)-Of. Nº 112 de 18 de Novembro de 1874, do Administrador do Concelho.

(7)-Of. Nº 14, de 1 de Fevereiro de 1883, do Administrador do Concelho.

(8)-Of. Nº 80, de 25 de Abril de 1889, do Administrador do Concelho.

(9)-Dicionário da História de Portugal , Direc. Joel Serrão, Vol. II, pág. 84.

(10)–Uma aventura em Alcoutim (Folheto Turístico).

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Lar de Alcoutim festeja centenário de utente

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 12 DE MAIO DE 1994)

[A aniversariante, ladeada por alguns dos filhos, festejando um século de vida]
A nossa chegada à “Capital do Nordeste Algarvio”, foi alertada para a circunstância de se ir comemorar o 100º aniversário natalício da Sra. Maria Ana, no dia 23 de Abril último no Lar da 3ª Idade da pequena vila raiana.

Não podíamos deixar escapar a oportunidade e procurámos conhecer as possibilidades de uma pequena conversa com a anciã.

Beneficiando do melhor acolhimento por parte da Senhora Directora e restante pessoal, fotografámos e conversámos com a aniversariante que conhecemos quanto tinha já setenta e três anos mas ainda muito activa, desembaraçada, de voz forte e firme.

Está no Lar há oito anos. Podemos considerá-la lúcida, só um pouco pesada de ouvido.
Disse-nos correctamente o nome do marido e ao perguntarmos-lhe quantos filhos tinha, foi clara afirmando serem quatro moços e duas moças, que indicou por ordem de idades, não esquecendo as residências.

Apercebeu-se da presença do gravador, perguntando-nos para que queríamos aquele “frasco”, o que tentámos explicar. Adiantou-nos que não podia ficar com ele porque lhe perdia o “tino”.

Entre outras coisas a senhora Maria Ana disse-nos que o marido tinha ido à aldeia do Pereiro comprar uma cabra para dar leite para a “moçada”.

No dia seguinte, dia do aniversário oficial já que o real tinha ocorrido no dia 12, reuniram-se num requintado almoço, à sua volta, quatro dos seus seis filhos e alguns dos vinte e um netos e bisnetos, outros familiares, companheiros de lar, assim como convidados, incluindo autoridades civis e militares, totalizando para mais de duzentos e cinquenta pessoas.

A senhora D. Maria Ana é natural de Santa Marta, freguesia e concelho de Alcoutim, tendo vivido muitos anos no sítio do Enxoval, perto do Guadiana em habitação isolada e onde criou todos os filhos.

Felicitando-a pelo evento desejamos-lhe mais uns anitos de vida com saúde.


Pequena nota
Segundo informação recebida, a aniversariante faleceu aos 104 anos!
Entretanto, e segundo julgamos saber, já se verificaram no mesmo Lar mais dois ou três centenários e outros irão acontecer.

JV

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Penteadeiros, monte cujo topónimo pode estar relacionado com o artesanato têxtil

[Um aspecto do "monte". Foto JV, 2009]

Indicamos este pequeno monte pela designação local comum pois não o ouvimos designar por outra, tal como em toda a documentação local que consultámos. Contudo, nos censos populacionais de 1991 e 2001 ao dispor na Internet consta no singular e não no plural. Tal como o habitualmente consultado Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, assim o indica.

Admite este linguista que o topónimo possa derivar de penteado (adjectivo) ou de Penteado (nome próprio).

Podemos começar por ele que acaba por não ser fácil de abordar.

O topónimo, segundo refere o jornalista Pedro Ferro, parece aludir à tradição da tecelagem no lugar (2), o que não nos escandaliza, pelo contrário, visto os teares possuírem pentes, de onde poderá ter derivado a palavra.

Notar que o monte é conhecido principalmente por nele residir e trabalhar (?) a última tecedeira de lã e linho do concelho, utilizando as técnicas antigas, auxiliada pelo marido que ainda semeava o linho - a única pessoa que ainda o fazia no concelho onde outrora tanto se semeou.

O monte possuiu outro nome, possivelmente antes e que obtivemos consultando as Memórias Paroquiais de 1758 onde é referido como “Monte das Pereiras” e em alternativa, Penteadeiros, no plural.

Nunca lhe ouvimos chamar tal, mas pode ser que o topónimo tenha ficado na memória de alguns. Como é conhecido, existem vários casos de toponímia dupla, de uma maneira geral uma antiga e outra moderna, como é o caso de Fonte Almece, depois Vascão.

Era daqui natural uma das vítimas de um desmoronamento de terras ocorrido às Zorreiras a quando da construção da estrada Alcoutim-Pereiro que teve lugar em 1877.

Em 1881 o Administrador do Concelho oficia ao Regedor de Martim Longo no sentido de mandar tapar uma poça que existe no monte de Penteadeiros, fronteira à morada de Domingos Lopes, pois pode originar algum acontecimento fatal e prejudica a higiene pública. (3)

A nível de população sabemos que de 1911 a 1991 perdeu 77%. Naquela data, segundo o censo, tinha sessenta e nove habitantes, número que se estabilizou até à década de sessenta, com 68, iniciando-se então o êxodo, já que em 1981 só tinha 24 e dez anos depois, 16.

No último censo (2001) o número desceu para nove e a desertificação não deve estar muito distante.

[Outro aspecto da pequena povoação]

Esta pequena povoação fica próximo do monte de Santa Justa e de Martim Longo, sede da sua Freguesia. O pequeno ramal que a serve foi adjudicado em 1993 por quase quarenta e sete mil contos, com uma faixa de rodagem (alcatrão) de quatro metros.(4)

Em 2000 foi reconstruído um forno público (5) e a água levada ao domicílio quatro anos depois (6) enquanto os arruamentos beneficiados em 2006.

NOTAS

(1)–Obra citada, p. 1158.
(2)–“A Face oculta da Lua”, in jornal Público de 24 de Setembro de 1993.
(3)-Of. nº 8 de 26 de Janeiro.
(4)-Boletim Municipal nº 12, de Abril/93.
(5)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 7 – Março de 2000, p.11.
(6)–Alcoutim, Revista Municipal nº 11 – Janeiro de 2005, p. 9.
(7)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 13 – Dezembro de 2006, p. 13.