sábado, 7 de agosto de 2010

Na multidão (Poema)

Pequena nota
Temos o gosto de apresentar aos nossos visitantes/leitores mais um pequeno mas profundo poema saído da sensibilidade de José Temudo.
JV







Poeta

José Temudo




sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Manuel Inácio, que fora Palmira

Pequena nota
Eu pertenço ao número de pessoas que ouviu contar esta extraordinária façanha cirúrgica, então assim considerada, do Dr. João Francisco Dias e que apesar de tantos anos passados ainda é lembrada por alguns.
O que eu sabia, era aquilo que todos contavam e em meia dúzia de palavras.
Com a publicação deste texto e não vejo outra pessoa que o pudesse fazer, acabei por compreender melhor a situação e ficar mais esclarecido.
É preciso não esquecer que o facto se passou há cerca de 70 anos, não são dois dias.

JV







Escreve

Gaspar Santos




Chamava-se Palmira e nas mãos do Dr. João Francisco Dias passou a Manuel Inácio. Não se tratou de uma mudança de sexo. Foi tão só uma cirurgia para ajudar a natureza a ultrapassar uma pequena deformação congénita.

Já tinha acabado a Guerra Mundial de 1939/45 mas as pessoas ainda viam, se não já espiões, pelo menos ainda “viam” nazis fugidos ocultando-se atrás dos mais diversos disfarces.

Foi assim que a Palmira quando passeava em Tavira umas crianças seus sobrinhos foi denunciada à GNR como suspeita de ser um homem disfarçado de mulher. É que ela, vestida como mulher, deixava ver ainda assim, uma barba bem escanhoada mas densa, apesar do lenço que quase lhe cobria a cara. E, para mulher, o seu quase um metro e setenta não eram muito usuais.

A GNR deteve-a e identificou-a. Penso que uma autoridade médica teria procedido à determinação do sexo. Depois com a colaboração do familiar que vivia em Tavira, sendo chamado a estas autoridades escolheu para proceder ao tratamento o médico cirurgião de Alcoutim, o concelho da sua residência e naturalidade, uma vez que era da freguesia de Vaqueiros.

Lembro-me da sua chegada a Alcoutim no Guadiana, o “gasolina” que fazia carreiras regulares vindo de Vila Real Santo António, para consultar o Dr. Dias.

Vinha já com o cabelo cortado e vestia fato de homem. A pele do pescoço estava muito branca pela falta de exposição ao sol. Mas cabisbaixo, ainda a estranhar a nova situação e indumentária. Ainda hoje guardo a imagem da tristeza e da vergonha deste homem.

[Dr. João F. Dias, médico cirurgião]
Em Alcoutim já era aguardado e já se conheciam as razões da sua vinda. A curiosidade era grande e por isso o número de pessoas à chegada do barco foi maior nesse dia.
O Dr. Dias depois de proceder a uma avaliação da situação cirúrgica, fez a competente operação e após algumas semanas de convalescença deu-lhe alta.

Como é normal, teve os procedimentos burocráticos junto do tribunal para alteração do registo de nascimento e de regularização da sua situação militar. Mais tarde casou e há poucos anos faleceu. Não me consta que tenha deixado descendência.



Tratava-se de uma pessoa bem-disposta e que contava com uma certa graça episódios da sua vida. Nomeadamente, que costumava ir ceifar para o Alentejo. Ceifava três regos como os homens, enquanto as mulheres só ceifavam dois. Na ceifa as grandes propriedades tinham dois dormitórios, num dormiam as mulheres e noutro os homens.

Quando era Palmira, naturalmente dormia com as mulheres. Também falou dos namorados que teve, etc.

Esta é uma história com um duplo final feliz. Manuel Inácio ultrapassou uma situação sexualmente ambígua. Uma sua irmã que lhe dava apoio durante o tratamento, iniciou um namoro com o José Caleja de Alcoutim com quem veio a casar.

Este assunto foi público e publicado nos jornais. No jornal O Século para o qual eu então escrevia como seu correspondente, esta notícia foi ali publicada com fotografia cedida por ele e cuja publicação autorizou.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Cabaços, o último monte por este lado da freguesia de Vaqueiros



Este “monte”, que pertence à freguesia de Vaqueiros, é o último do concelho por este lado, ficando quase na linha divisória com o de Castro Marim. freguesia de Odeleite.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 são-lhe atribuídos 7 vizinhos, o mesmo número indicado para Traviscosa, Fernandilho e Vale da Rosa.

Nesta altura e por se encontrar a Sul da Ribeira de Odeleite, fazia parte do termo de Tavira e não do de Alcoutim.

Sabemos que em 1882, o Administrador do Concelho envia ao Delegado do Procurador Régio na Comarca de Tavira um auto de investigação que levantou por ocasião do aparecimento de alguns restos de uma criança que foi enterrada próximo deste “monte”, a fim de que em vista do mesmo possam vir a ser descobertos e punidos os perpetradores do infanticídio.(1)

Quanto ao topónimo, parece estarmos na presença de um caso de origem vegetal, do substantivo masculino cabaço, o mesmo que cabaça, cabaceira ou abóbora-cabaça, planta cultivada em Portugal.

Encontrámos oito vezes referido o topónimo Cabaços e também Cabaça, Cabaçal, Cabaceira e Cabaçotas, todas com a mesma origem. (2)

Cabaçal, terreno onde crescem cabaças, isto é, abóboras, cujo nome poderá derivar do étimo pré-romano cala, conforme o castelhano calabaza.

Igualmente não é descabido pensar que a sua origem poderá estar no topónimo pré-romano calapacios, que poderá significar “monte rochoso” (3) o que se confirma com a situação topográfica.

São vários os topónimos nas redondezas que poderão ter origem no castelhano.


Próximo desta povoação, mas já na freguesia de Odeleite e certamente por ser mais pequena, existe Cabacinhos.

Ainda que Silva Lopes o refira na sua Corografia do Algarve, omite-lhe o número de fogos que tinha em 1839.

Passando-lhe junto a estrada nº 506, que é obra depois do 25 de Abril, tornou-o um “monte” de passagem o que lhe tem proporcionado a existência de um estabelecimento comercial misto, café/restaurante.

[Um aspecto do estabelecimento comercial]

Foi electrificado ao mesmo tempo que os seus vizinhos em 1984 (4) e os arruamentos pavimentados em 1993, (5) tendo recentemente obtido nova beneficiação. (6)

Em 1998 é aberto um furo artesiano (7) e a água colocada ao domicílio em 2002, (8) ainda que não haja saneamento básico.

A melhoria é compensada pelos utentes com os pagamentos da água consumida e a recolha de lixo, o que então não acontecia.

Possui logo à entrada e do lado direito, no sentido Norte/Sul, um estabelecimento comercial, que também serve refeições, o que faz muito jeito aos passantes, que devido à melhoria da estrada vão de certo modo aumentando de número.

Nas redondezas, foi reparada a ponte do Barranco Grande. (9)

Em 1991 o censo populacional indicava 36 habitantes, 16 homens e 20 mulheres para dez anos depois ter descido para 28, continuando o sexo feminino em maior número (15).

Presentemente devem lá viver cerca de 20 pessoas.

A quando da construção da estrada, junto a esta povoação, foram destruídas sepulturas de recuados tempos. (10)

Terminaremos dizendo que o isolamento a que ficou sujeito este monte e toda a freguesia a que pertence, durante séculos e séculos, permitiu que Michel Giacometti e F. Lopes-Graça tivessem recolhido, em 1961 uma Oração das Almas (culto dos mortos), canto de peditório no dia de Finados (2 de Novembro) que começa “Recordai, nobres senhores ...” possivelmente hoje totalmente desaparecida. (11)


NOTAS
(1) Of. nº 96 de 27 de Setembro de 1882, ao Delegado do Procurador Régio na Comarca de Tavira.
(2)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, Vol I, 1993, p 297.
(3)–Infopédia – Enciclopédia e dicionários Porto Editora.
(4)–Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(5)–Boletim Municipal nº 12, de Abril de 1993.
(6)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 15 de Julho de 2009, p. 15.
(7)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, p 11.
(8)–Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p 7.
(9)–Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p. 13.
(10)–“O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº6, 1997/98, p 194.
(11)–Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti com colaboração de Fernando Lopes-Graça, Círculo de Leitores, 1981, pp 95 e 311.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

D. Juliana de Lara, 1ª Duquesa de Aveiro

D. Juliana de Lara, por vezes designada incorrectamente por D. Joana de Lara, era filha do 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses e de sua prima, 2ªCondessa, D. Brites de Lara e neta dos 1ºs Condes, D. Fernando de Meneses e D. Maria Freire de Andrade.

Casou com D. João de Lencastre, 1º Duque de Aveiro, casamento realizado em Almeirim, onde a Corte se encontrava e no dia 22 de Fevereiro de 1547.

O casamento foi proposto por D. Manuel I, realizou-se com grande pompa e com a presença da família real.

Os duques foram conduzidos a casa do tio D. Nuno Álvares de Noronha, onde pernoitaram.

O dote de vinte contos de réis foi atribuído dentro de determinadas condições e teriam como sustentáculo as rendas do Marquês de Vila Real (3º Conde de Alcoutim) e seu irmão, da cidade de Tavira, da Vila de Alcoutim, da cidade de Leiria e de Vila Chã de Couce.

D. João de Lencastre esteve preso por se ter oposto ao casamento do Infante D. Fernando, filho de D. Manuel I, com D. Guiomar Coutinho, pois afirmava que há muito a desposara clandestinamente.

D. Juliana de Lara foi mãe de D. Jorge de Lencastre, 2º Duque de Aveiro, que pereceu com D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, casado com D. Madalena de Telles Giron e de D. Pedro Dinis de Lencastre, casado com D. Filipa da Silva e Capitão de Porto Seguro (Brasil).

_______________________________

Bibliografia

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vols, II, V e XI, 2007.

Dicionário Ilustrado Da História de Portugal, Edição Alfa.

Nobreza de Portugal e do Brasil, (Dir.coord. e comp. do Doutor Afonso Eduardo Martins Zuquete) Edições Zairol, Lda, Lisboa, 2000.

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Vol. III.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Peniche - Pelos caminhos do passado - 1º Vol. Vida Religiosa


O Escaparate de hoje nada tem a ver com Alcoutim, mas tem a ver comigo.

Primeiro porque é um trabalho histórico sobre a terra onde vivo há trinta anos, segundo porque colaborei na sua organização nomeadamente no que concerne à estruturação e digitalização das fotografias.

O trabalho é constituído por artigos que o autor publicou no jornal local, A Voz do Mar, sendo o prefácio do director do mesmo quinzenário.

É constituído por 286 páginas A/5 e dividido em quatro partes: - IGREJAS E CAPELAS AO CULTO, IGREJAS E CAPELAS DESAPARECIDAS, SOLENIDADES E FESTAS e ASSUNTOS DIVERSOS.

O trabalho oferece-nos, sem qualquer sombra de dúvida, uma panorâmica muito completa sobre os temas abordados com revelações absolutamente inéditas.

Fernando Engenheiro, um filho de Peniche a quem a sua terra já muito deve, foi funcionário da Câmara Municipal onde ocupou as funções de oficial de diligências e durante 26 anos as de bibliotecário-arquivista.

Numa edição de autor, este é o 1º volume de uma série que pretende dar a público.

O lançamento teve lugar ontem, dia do município e com a presença do Senhor Presidente da Câmara.

Que obtenha os êxitos que deseja são os nossos votos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Velhos usos de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 3 DE FEVEREIRO DE 1973)

Pequena nota

É este o primeiro artigo que conhecemos, publicado pelo nosso saudoso Amigo no Jornal do Algarve.
Acabámos por transcrevê-lo a pp 261 a 263 do nosso trabalho,” Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia” Ed. CMA, 1985 pelos motivos que lá indicamos.
Temos a possibilidade hoje de enriquecer o texto com duas fotografias de dois casamentos, um realizado em 18 de Outubro de 1936, já se passaram 73 anos e o outro a que assistimos em 12 de Maio de 1968.
O primeiro referido é de D. Berta Cunha Martins, irmã de Luís Cunha, com o Sr. Leopoldo Vicente Martins há muito falecidos e o segundo dos nossos Amigos, Maria Catarina Xavier e de Francisco Coelho que felizmente estão entre nós e são todos alcoutenejos.
Presto assim uma pequena homenagem aos dois casais.

JV








Escreve

Luís Cunha




Desapareceu há anos uma interessante praxe a que obedeciam os casamentos camponeses de Alcoutim.

Com vista a assistir a todos os ritos de um que se realizava a rigor nos primeiros anos da década de vinte, para o qual éramos convidado do noivo, fomos para o monte das Cortes das Pereiras na véspera à tarde. Os convidados dele e dela, formavam em separado, como se fora luta entre bandos: quem sabe se disso não haveria reminiscência?

Ao cair da noite, o grupo de que fazíamos parte reuniu numa taberna e o outro, noutra. À lareira uns cavaqueavam relembrando peripécias passadas; ao lado disputava-se o cálice de aguardente em renhida partida de “truco” (jogo de cartas, segundo parece de paternidade algarvia mas que a juventude desconhece), e já alegrotes, alguns entravam a versalhar.

Assim se fez a fria noitada, até ao alvorecer. Pouco antes do romper do sol o grupo abalou, pé ante pé, no mais completo silêncio como quem vai a assalto ou a pilhar galinhas. Do outro grupo, nem rastos. No mesmo silêncio chegámos a casa da noiva onde um homem se destacou, batendo ao de leve sem resposta; insistiu com um pouco mais de força mas o resultado foi o mesmo, e por fim, quase violentando a porta e praguejando que aquilo mais parecia cemitério, excitou uma voz de dentro que, indignada, acusava o desacato a tais horas e inquiria o que se pretendia.



Travou-se em seguida interessante debate em verso que estamos agora a lamentar não ter escrito; dizendo-se procurador de outrem, o de fora tecia-lhe extraordinário panegírico, com exaltação das virtudes do bom tom local, habilidade inexcedível nisto e naquilo, homem às direitas em tudo o mais, o lavrar sem lobas (curvas nos regos da lavoura atribuíveis a fraqueza de pulso) e ao qual parelha alguma meteria medo, etc. etc,

Sem se deixar impressionar, o de dentro, também em verso, cortava-lhe de quando em quando a verve: que tinha bem entendido tudo mas que à rosa que ali guardava a bom recato não bastava o já dito e que apresentasse outras virtudes do pretendente, se a isso se supunha com direitos. Com trocadilhos de cá e de lá e risota geral, a versalhada continuou até ao dia romper.

Simulando surripiar-se, o noivo foi para as traseiras e enquanto procedia ao rapto da bem-amada, a barulheira aumentava dos dois lados. Para felicidade do jovem casal, a noiva devia ser por ele retirada a pulso, por uma janela térrea, sem tocar com os pés no parapeito.

De súbito, rompeu de dentro medonho escarcéu, com pedidos de socorro e rebate a ladrão. A rosa fora roubada!

Seguido por todos os outros, o jovem par fugia no mesmo cavalo, a caminho da vila, a cuja entrada parou para se formar o cortejo, como o de qualquer outro casório.


Para contar um velho uso que só por tradição conhecemos, abrimos aqui um grande parêntesis: em tempos antigos, só à terceira tentativa do padre e depois de ostensivamente muito espicaçada pela madrinha, a noiva dava o sim; de contrário, dir-se-ia estar a rebentar por casar, o que não ficava bem. Porém, um belo dia, como a noiva não respondesse à primeira, o padre António, sem mais aquelas, mandou-os ter juízo e que voltassem daí a oito dias. Escapou-se para a sacristia e o pior é que encasmurrou e nem todos os rogos e amizades da vila conseguiram demovê-lo. Consta ter sido aquela a última vez que tal prática se usou, pois daí em diante, ainda o padre não abria a boca e já tinha a resposta adiantada.

Voltando ao casório; depois das formalidades da vila, formou-se à saída o processo de regresso: a gente nova alinhou para a fogaça que consistia numa prova de perícia em que, partindo os concorrentes ao mesmo tempo, ganhava o que, chegando em primeiro lugar ao monte se apossava do “bolo” que depois oferecia ao noivo para partir. Cuida-se que isto simbolizaria a virgindade da nubente.

domingo, 1 de agosto de 2010

Arreigota de esteva


A Câmara Escura de hoje tem alguma especificidade pois é a primeira vez que apresento uma imagem deste tipo.

Quando cheguei a Alcoutim não sabia o que era uma arreigota, termo desconhecido na minha região de origem e de outra por onde já tinha passado.

Os dicionários ditos “normais” não o trazem, mas o do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, refere-o como arrègota ou règota, significando raiz de esteva utilizada como combustível nas cozinhas e fornos.

Foi com esse significado que o aprendi no concelho de Alcoutim onde todos o conhecem e empregam.

Eram as estevas que se arrancavam no Inverno, pois a brandura dos terrenos facilitava esse trabalho, que depois de secas abasteciam o “fogo” na confecção das refeições e os fornos que coziam a amassadura da semana.

Transportadas no dorso dos burros formando cargas muito volumosas mas pouco pesadas, já que a esteva é uma planta que atinge pouco porte e que se parte facilmente com as mãos e auxílio do joelho.

Devido à sua contextura produz bom calor, pega com facilidade e é relativamente durável a sua combustão. Sempre ouvi dizer na região que não há “fogo” como o de esteva!

Quem é que com as mãos e o auxílio do joelho consegue partir o exemplar que apresentamos e que ainda existe, não sendo eu que o coloco no “fogo”.

O meu conhecimento sobre o assunto é limitadíssimo mas dizem os conhecedores que é muito difícil encontrar outro com este porte havendo mesmo quem diga que nunca viu coisa igual.

Fica-se assim percebendo a razão da Câmara Escura de hoje.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O tornel


Esta pequena e útil peça, primitivamente de madeira, conheci-a em Alcoutim, onde me foi explicado o seu funcionamento e aplicação, que facilmente se compreende.

Era feita de chaparro ou azinho pelo homem do campo que dela necessitava, pois são madeiras muito resistentes e por isso mesmo difíceis de trabalhar.

Depois de achatada, eram feitos dois buracos em cada uma das extremidades.

Enquanto uma corda a que na extremidade se fazia um nó se passava por um dos buracos e se prendia à estaca, a outra, pelo mesmo sistema, prendia-se à pata do animal.

Assim, as cordas podiam movimentar-se em todas as direcções evitando o seu ensarilhar.

É claro que existe o tornel de ferro de confecção industrial e que tem várias aplicações mas respeitando o mesmo princípio.

Encontrei nos dicionários que consultei as seguintes definições, onde o verbo e a construção da frase estão modificados, mas, naturalmente, com o mesmo sentido:- Argola cravada na extremidade de uma haste, sobre a qual gira para todos os lados (Dicionário Domingos Barreira); Argola presa a uma haste e que gira em todas as direcções (Dicionário Editora); Argola móvel em todas as direcções e adaptada à extremidade de uma haste (Lello Universal) e Argola cravada numa haste, sobre a qual se revolve para todos os lados (Torrinha).

Para minha surpresa não encontrei o termo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa / Verbo, 2001.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Álvaro Cunhal - sete fôlegos do combatente -Memórias


O Escaparate de hoje tem plena justificação visto o autor, Carlos Brito, ser um filho adoptivo de Alcoutim desde tenra idade.

Numa realização de Edições Nelson de Matos, em formato de 15,5X23 cm, comporta 381 páginas contendo algumas fotografias a preto e branco que fazem parte da História do País e como não podia deixar de ser do PCP.

O trabalho, que acabei de ler, divide-se em três partes:- O LÍDER NA REVOLUÇÃO, O REVOLUCIONÁRIO NA DEMOCRACIA e CARISMA E SINGULARIDADES.

Carlos Brito, que privou e acamaradou com Álvaro Cunhal durante longo período, pelo que admito, será uma das pessoas que melhor o conheceu.

Confesso que depois da leitura mantive praticamente a mesmo opinião que tinha sobre o histórico “leader” do PCP, até porque já lera Foi assim, de Zita Seabra, isto apesar de para mim serem livros completamente diferentes.

Por outro lado vou lendo espaçadamente “Álvaro Cunhal, uma biografia política” de José Pacheco Pereira.

São curiosos e interessantes alguns episódios narrados e bem demonstrativos, penso, da personalidade do político.

Estou certo que este livro irá ser, junto a tantos outros, um importante depoimento para ajudar a analisar e compreender Álvaro Cunhal, o que acontecerá no decorrer dos tempos.

Daqui saudo Carlos Brito por mais este seu trabalho, talvez o mais emblemático.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Irá sair das ruínas a Ermida de São Domingos, na aldeia de Giões (Alcoutim)?

Pequena nota
Já se passaram quase vinte anos sobre a data em que publicámos este pequeno escrito na imprensa regional sobre um possível restauro desta capela que foi a primeira igreja matriz da freguesia de Giões.
Ainda que neste espaço já a tivéssemos referido na nossa rubrica Templos e que agora nos iremos repetir sobre os dados do seu passado, pensamos que se justifica plenamente a inclusão deste artigo na rubrica Ecos da Imprensa.
Daqui nos congratulamos com a decisão tomada e saudamos todos os que tenham contribuído para o seu restauro.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 1 DE NOVEMBRO DE 1990)



Para o retemperar de forças periódico, vamos de” longada”até ao não poluído (até quando!) nordeste algarvio, com saídas fortuitas ao litoral para contrapeso da situação.

Sempre que possível, damos umas escapadelas a locais que já conhecemos, para os conhecermos melhor – há sempre algo para descobrir – ou a outros onde nunca fomos.

Desde há muito que nos interessa conhecer o Cerro das Relíquias, local bastante referenciado quando se fala no passado alcoutenejo.

O monografista algarvio, Ataíde de Oliveira, a ele se refere com certo desenvolvimento nalguns dos seus trabalhos. (1)

No cálido mês de Agosto da serra, que nos satura mas que ao mesmo tempo nos satisfaz, quebrámos o recosto da cadeira de repouso, metemo-nos no veículo automóvel e fomos a caminho de Giões, aldeia que conhecemos já lá vão mais de vinte anos. A nosso lado, quem ali exerceu, esporadicamente, funções docentes, há cerca de dezasseis anos e que teve a satisfação de saber que, pelo menos um do s seus alunos, já tinha obtido a licenciatura, o que afinal não admira, pelas qualidades já então reveladas.

Dessedentámo-nos, cumprimentámos amigos e conhecidos que encontrámos ou que fomos procurar. Pedimos a indicação mais rigorosa do Cerro das Relíquias e logo obtivemos o espontâneo oferecimento para nos acompanharem e … lá fomos.

Mas não é do Cerro das Relíquias que vamos falar hoje, o que ficará para outra oportunidade, se ela se deparar.

Acontece que nas conversas curtas que encetámos, nos apercebemos que existe vontade local para reconstruir a velhíssima capela de São Domingos.

Pensamos que existem, como é natural, diferentes pontos de vista sobre a sua utilização e restauro.

É um problema que pertence aos gionenses que resolverão da maneira que lhe parecer mais adequada. Pensamos contudo que “oferecendo” alguns dados de carácter histórico sobre o templo a quem os desconheça e nos leia, podemos contribuir para uma análise mais realista do problema.


A Ermida de São Domingos, a que levemente já nos referimos nestas páginas (2), situa-se fora da aldeia, mas perto dela, numa pequena elevação, passando-lhe a actual estrada para Clarines nas proximidades.

Funcionou como igreja matriz até 1565, ano em que já se encontrava numa fase adiantada a construção da actual.

Em 1534 é descrita como tendo paredes de pedra e barro, rebocadas, duas portas em alvenaria, a principal com ferrolho e a lateral com fechadura.

Era emadeirada de castanho e telha vã.

Interiormente, um arco de alvenaria e no altar-mor, como não podia deixar de ser, a imagem do padroeiro.

Pinturas na parede do Espírito Santo com Nossa Senhora e os Apóstolos, como se usava na época.

Dois altares de alvenaria. No do lado do Evangelho, estavam pintadas Nª Senhora, Santa Ana e Santo António, e no da Epístola, Santa Bárbara.

No cruzeiro, um crucifixo e outras imagens igualmente pintadas.

Possuía pia baptismal, de barro, e uma pequena, de pedra, para água benta.

Sobre a porta principal, um campanário de tijolo, com bom sino.

Trinta anos depois, na descrição feita pelos visitadores da Ordem de Santiago, à qual estava sujeita, as diferenças apontadas não são muito significativas.

Paredes e telhado, o arco cruzeiro e o altar de alvenaria e a imagem de São Domingos no seu lugar. A diferença é que agora se considera tudo já velho – sempre se tinha, passado trinta anos!

Diz-se agora que para ir ao altar, subia-se um degrau de alvenaria. É-se mais preciso indicando a porta principal de pedraria e redonda, formato que ainda é nítido nas suas ruínas, tendo desaparecido a pedraria, certamente para aplicação noutro lugar. (3)

Ainda se mantinha a porta lateral e fez-se referência à existência de três botaréus em cada uma das paredes laterais.

O campanário, já não tinha sino!

Foi mordomo da ermida. Afonso Fernandez, morador na aldeia, que tinha à sua guarda vários bens móveis, desde utensílios de altar, do culto, vestes sagradas e de altar.

Parece-nos de interesse transcrever as determinações feitas pelos visitadores, em 1566.

"Por acharmos que os fregueses desta freguesia tem obrigação ao corregimento desta hermida por aver sido sua matriz, mandamos aos elegidos e aos mordomos que a repairem do madeiramento e telhado e concertem o ladrilho e demarquem o adro ao redor com marcos que bem posão ser vistos para que não se entremetão os vezinhos a lavrarem nelle o que comprirão com pena de dez cruzados, ametade para os cativos e a outra ametade para o meirinho da Ordem". (4)

Não conhecemos o resultado destas determinações, revelaram-nos contudo que o templo era ladrilhado e que havia que ter cuidado com o adro. Haverá multas a aplicar?

Sabemos que a Confraria de São Domingos foi-se mantendo e em 1727 o retábulo do altar foi pintado. Contudo, em 1745 “a ermida do Santo está cahida” e a imagem é transferida para a igreja matriz. (5)

As Memórias paroquiais (1758) informam que a aldeia tem uma ermida do Senhor São Domingos e acrescentam que em alguns dias acodem em romagem algumas pessoas que têm padecido de sezões, terças ou quartãs por ser nesta freguesia e seus arredores o Santo Advogado contra as referidas enfermidades.

A Câmara em correição pelo concelho em Janeiro de 1843, na passagem por Giões, determina que “o caminho que vai da Ermida de São Domingos para a Parochia, deve ser feito pelo Povo, por diante da cerca de José Pereira”. (6)


Aqui tendes o que foi possível compilar sobre este templo.
O que resta? O que ainda existe?

O amplo adro onde além dos enterramentos se juntava o povo em romaria e as quatro paredes que têm aguentado com “resignação” as intempéries. Pelo espólio, podemos verificar a semelhança com a sua vizinha de Clarines, em boa hora reconstruída, e no que respeita à planta, área e configuração da fachada.

Os trabalhas de argamassa que acompanham as duas águas da empena de bico, são vulgares nas redondezas, como acontece por exemplo nas capelas de Santa Justa, no monte do mesmo nome e na do espírito Santo, na aldeia de Martim Longo.



Terão os gionenses o entendimento e a força necessária para restaurar (reconstruir) aquela que foi durante muitos anos a sua igreja matriz? Pensamos que sim e que não lhes faltará a ajuda das autarquias e de outras Entidades mas … não desvirtuem para que não se perca a memória colectiva do seu povo.

A reabertura ao culto não deixaria de ser a 4 de Agosto.


NOTAS

(1)-As Mouras Encantadas e os Encantamentos no Algarve, 1898
(2)-“Giões (Alcoutim) – Um pouco do passado e do presente”, in nºs 1061 e 1062, respectivamente de 22 e 29 de Julho de 1977
(3)-Encontrámos em 1974, englobadas numa parede, duas pedras trabalhadas provenientes de qualquer templo, uma datada de 1744 e com motivos religiosos
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, CMVRSA, 1987.
(5)–A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX,Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(6)-Acta da Sessão de 11 de Janeiro de 1843.