sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Miguel Angel de Leon

Pequena nota

Este texto é uma cópia integral do que consta da 2ª edição (ainda por editar) do trabalho conhecido por monografia de Alcoutim, de que não sou o padrinho.
Devido a um melhor conhecimento, foi uma das Figuras que fiz questão de acrescentar aos indicados na 1ª.edição
Não posso deixar de denunciar um artigo publicado na revista Magazine do Jornal do Algarve, de data que de momento não tenho hipóteses de precisar, que nem de perto nem de longe traduz o que foi efectivamente Miguel Angel de Leon.
O articulista limitou-se a compilar uma série de informações (oficiais) emanadas do opositor político de Miguel Angel de Leon e quando assim acontece cai-se nesse erro. Nesse artigo a figura é apresentada como um criminoso comum!
Depois de ter sido vilipendiado pelo poder político instituído, quando as posições políticas se inverterem, Miguel de Leon, certamente devido à sua posição politica, foi incapaz de usar a mesma terminologia.
Vinte anos sem enviar as contas atribui Angel de Leon à falta de saúde do Administrador, o que certamente não era verdade. São estes pequenos factos que fazem a diferença, nesta altura e agora pois dentro de poucos anos iremos ter esclarecimentos “claros”sobre muitas confusões sobre coisas que ninguém percebe.
Naturalmente que D. Miguel não foi um santo e cometeu erros facilmente identificáveis, mas o que podemos dizer e segundo as nossas conclusões é que lutou, afinal até à morte, pela melhoria dos mais desprotegidos e numa tenaz oposição ao conservadorismo local representado por muitas famílias ainda hoje existentes e conhecidas no concelho.


JV

[Monte de São Marinho, Cortes Pereiras onde D. Miguel tinha uma "Forja". Foto JV, 2010]

Esta figura controversa é lembrada por muitos alcoutinenses de todo o concelho.
Ainda que a diluição do seu nome se vá fazendo, é sem dúvida o personagem mais lembrado da sua época.

Miguel Angel de Leon nasceu em 1826 e viveu em Madrid até 1856.
É dado como chegado a Alcoutim, onde se instalou, em 1860 e como sendo engenheiro de minas.

[Ruina das Casas da Mina de antimónio nas Cortes Pereiras, Foto JV, 2009]

Em 16 de Outubro de 1861 manifesta a descoberta de um jazigo de antimónio e outros metais em terra de José Martins Capelo, no monte de São Martinho.

Cerca de um ano depois (1862.12.05) juntamente com Manuel António d´ Almeida, ambos residentes na vila, requer o registo da mina de antimónio existente nas Cortes Pereiras que se achava abandonada. Também é ele que em nome de José Isidro Guedes, Par do Reino e residente em Lisboa, manifesta uma mina de chumbo argentífero na Herdade da Misericórdia, de que é foreiro, Manuel Gato, do monte dos Tacões. Mais manifestos foram feitos.

Em 1867 é encarregado de levantar o paredão desde o Cais à Figueirinha, junto do Guadiana.

Entretanto, requer a naturalização que lhe é concedida por decreto de 17 de Julho de 1871.

Deverá ter começado, a partir daí, a sua acção política neste concelho, sempre em ritmo crescente.

Em 27 de Abril de 1874 encontramos a primeira referência escrita quanto à sua acção. Afirma o então Administrador do Concelho, João José Viegas Teixeira que (...) as prepotências e arbitrariedades que dizem por mim cometidas no exercício das minhas funções (...) o principal motor da crua guerra(...) é o célebre Miguel Angel de Leon. E continua o representante do Governo no Concelho: Aquele D. Miguel faz tudo isto para me desprestigiar a fim de ver se lhe é possível levar uma grande maioria na próxima eleição e conseguir por último ser eu demetido do meu lugar.

E o incómodo continua para o Administrador. Oficia nesse sentido ao Governador Civil “informando” os meios ilícitos e criminosos empregues nesta eleição de deputados, seduzindo os eleitores com falsas promessas e que podem reagir ao pagamento da contribuição municipal e côngrua.

Refere João José Viegas Teixeira que Miguel Angel de Leon baseia a sua acção nestes termos: Padres, côngruas, derramas, rendeiros e médico, fora; os portugueses que lavrarem em Espanha e que não votassem na sua lista, nunca mais seriam lá consentidos; a passagem de cereais no rio seria livre de direitos e principalmente declarava que não procurassem já os ladrões pelas estradas nem nas charnecas, porque estariam todos em Alcoutim.

Conhecemos D. Miguel, primeiro por via oral, parecendo-nos tratar-se fundamentalmente de um político, ideia que nos foi confirmada pelo saudoso amigo, Sr. Luís Cunha, que foi para nós o mais profundo conhecedor do passado alcoutenejo.
Após a leitura das “acusações” feitas pelo Administrador do Concelho, ficou-nos mais definida a posição política de D. Miguel, classificando-o de um homem de esquerda.

[Mina, ruinas do tanque de decantação. Foto JV, 2009]

As transmissões orais que me têm chegado, naturalmente que reflectem duas opiniões: a dos conservadores que tudo fazem para denegrir a imagem do seu principal opositor, que além do que já referimos, atacam pessoalmente de femeeiro e a dos pró-D.Miguel que retratam como o salvador, o conselheiro, o defensor, o amigo dos pobres.

A posição de femeeiro também aparece na escrita, confirmando assim a tradição oral. No ofício de 20 de Janeiro de 1875, o Administrador descreve a situação deste modo...pertence a uma das mulheres que estão em casa do tal Miguel e se chama Maria Clara Torrejão. (1) Mais tarde, informa: os Paços do Concelho servem até de domicílio a mulheres de reputação duvidosa que vivem em companhia do Presidente, com o qual alternam, o que tudo foi observado por mim na ocasião.

Em 1876 D. Miguel já era um dos quarenta maiores contribuintes do concelho. Entre outros bens, sabemos que possuía a herdade do Enxoval, segundo nos consta trabalhada com tecnologia evoluída para a época, uma casa na Rua de Sto. António, na vila, uma azenha na ribeira do Vascão, próximo da sua foz, onde possuía também uma casa, de que não resta, a não ser o espaço, a “forja” no S. Martinho e a mina que explorava.
Em 25 de Fevereiro de 1877 promove uma grande reunião de cidadãos na aldeia do Pereiro que naturalmente é vista com maus olhos pelo Administrador do Concelho.

Decorreu com urbanidade resolvendo-se que uma deputação fosse a Lisboa pedir socorro para acorrer aos grandes estragos pelas águas torrenciais e abatimento nas contribuições prediais.

Miguel Angel de Leon é eleito e toma posse do lugar de Presidente da Câmara em 2 de Janeiro de 1878, jurando obediência à Carta Constitucional. Assume também o lugar de Procurador à Junta Geral do Distrito e o de Administrador do Concelho, por renúncia de um dos seus inimigos políticos, Justo António Torres, que alegou falta de saúde.

Começa a acção do novo Presidente. Oficia ao Governador Civil (1878.03.08) informando que encontrou os trabalhos de expediente da secretaria da Administração em atraso, principalmente na parte relativa à informação e remessa para o Governo Civil, das contas gerais da Misericórdia, pertencente aos anos de 1855/56 até 1876/77 (são vinte anos em falta!) as quais se acham nesta Administração sem ainda terem sido informadas.

Acontece, dizemos nós, que nestes anos em falta, a Provedoria e outros lugares de responsabilidade da Santa Casa estavam na posse do Administrador que tinha renunciado e de seus familiares. Não esquece D. Miguel de informar que o atraso se deve à falta de saúde do demissionário!

Quanto aos bens da Paróquia, coloca as suas dúvidas por falta de documentação, principalmente de títulos.

Já na condição de Presidente, Miguel de Leon desloca-se a Lisboa onde faz chegar a Sua Majestade, El-Rei D. Luís I, os pedidos em favor dos concelhos de Alcoutim e Castro Marim.

O entretanto nomeado Administrador, Gregório Morais, contesta a atitude do Presidente da Câmara, dizendo que a Municipalidade não o tinha autorizado a isso e sendo muito possível que nenhuma das Câmaras “desta bela província” lhe tivesse passado procuração nesse sentido. Por outro lado, põe em dúvida a entrevista com sua Majestade.

Seis meses após a tomada de posse de D. Miguel, o Administrador do Concelho oficia ao vice-cônsul de Espanha na vila, informando que consta por um despacho do agente consular português em Madrid que o indivíduo que diz chamar-se Miguel Angel de Leon e que se intitula engenheiro de minas, não é este o seu nome mas sim Pedro Redondo Marquez, casado (e não solteiro) e morador até 1856 em Madrid. Solicita auxílio no sentido de poderem descortinar este mistério e cumprir as obrigações dos cargos.

Entretanto, é publicado um decreto datado de 2 de Setembro de 1878 (Diário do Governo nº 201, de 7 daquele mês) em que é declarada nula para todos os efeitos a naturalização concedida ao suposto Miguel Angel de Leon.

Informações prestadas pelo governador civil da província de Madrid e pelas do cônsul geral de Portugal na mesma cidade, mas muito principalmente pelas declarações feitas perante o cônsul, por João Canas, sogro do suposto Miguel Angel de Leon, cujo verdadeiro nome é Pedro Redondo Marquez, casado com Raimunda Canas Fuentes, o qual, com sua família, residia na Rua de Feuncarral, nº105, até 1856, época em que saíra de Espanha, por virtude dos acontecimentos políticos desse ano, do que resulta que a naturalização foi “ob e sub repticiamente obtida”.

Na sessão do Câmara de 19 de Setembro de 1878, o Administrador do Concelho, agora, José Vicente do Carmo, pediu a palavra e licença para declarar vago o lugar de Presidente da Câmara, devendo o mesmo ser ocupado pelo vereador mais votado.

Imediatamente mandou afixar nos lugares mais públicos do concelho cópia do decreto de desnaturalização.

Dá-se entretanto o assassinato de Pedro Redondo Marquez, pelas nove horas da manhã com um tiro de espingarda. A documentação consultada não indica o lugar onde o crime se deu mas é tradição que o mesmo teve lugar nas casas que possuía perto da azenha na foz da ribeira do Vascão.

O nome do criminoso não corresponde ao indicado na tradição oral, devendo tratar-se de alcunha.

É dado como natural de Almodôvar e tinha um filho chamado Miguel, talvez em homenagem ao assassinado.

Preso na cadeia da vila, seguiu no dia seguinte para a da Comarca de Tavira, acompanhado do competente auto. Pedro Redondo Marquez não foi sepultado no cemitério da vila pois o pároco da freguesia, o Padre António (sobrinho), a isso se negou pois não o considerava católico. O Administrador do Concelho, Manuel José da Trindade e Lima, avô do prof. do ensino primário que tinha o mesmo nome, pede-lhe por escrito, que esclareça as razões para assim o considerar. Contesta que haja dualidade de critérios pois não há muito tempo se deu sepultura a um nas mesmas condições.

Ao oficiar ao vice-cônsul de Espanha nesta vila, escrevia:- “não suponho admissível, não creio provável e nem reputo verdadeiro que haja quem considerasse não católico o falecido Miguel Angel de Leon. Não esqueçam a verdade! A sepultura que se lhe deu, foi um manifesto desprezo, um desuso entre nós e uma crueza e bárbara desumanidade”.
A razão do crime é apontada como “devido a rixas particulares entre ambos, residindo o criminoso no monte das Cortes Pereiras (e não na vila como é tradição) em casas do falecido”.

Sustentam outros haver certos motivos que tentarei pesquisar, continua o Administrador.

[O ainda conhecido por Poço de D. Miguel (particular). Foto JV, 2009]

O que pretende dizer é que uma filha do assassino vivia em casa de D. Miguel como criada e que manteria relações íntimas com o patrão e daí o sucedido.
O que alguma tradição oral transmite é bem diferente. O pai da moça, que tinha boas relações com D. Miguel, é embebedado pelos caciques da vila que o instigam a cometer o tresloucado acto.

À data do falecimento, calculam os seus bens em três contos de réis, mas deixou dívidas em Lisboa que lhe absorvem quase tudo quanto possuía.
Ficou-lhe uma filha natural que perfilhou e contava treze anos. Oralmente, só a uma pessoa ouvi falar nela muito superficialmente.

Após o que recebemos por via oral e o que conseguimos ler a seu respeito onde foi possível, procurámos tirar as nossas ilações sobre a controversa figura que foi Miguel Angel de Leon (para nós é o nome que interessa, já que foi com ele que se naturalizou português).

Pensamos que não erramos ao dizer que foi um liberal (quando ser liberal tinha um sentido político de esquerda), muito activo no seu país.
Apanhado pela contra-revolução de 1856 que destrói o regime liberal, ter-se-á visto perseguido, o que o levou a abandonar o país, utilizando naturalmente um nome falso, reacção habitual ainda nos dias de hoje.

É o sogro que afirma que saiu de Espanha em 1856, por virtude dos acontecimentos políticos desse ano. Não há qualquer outra referência como causa do abandono do país.
Miguel Angel de Leon, que chegou a Alcoutim com trinta e quatro anos, em 1876 já era um dos quarenta maiores contribuintes do concelho, mas a sua realização pessoal passa pela política de que não consegue libertar-se.

Tomando uma posição de esquerda, consentânea com as suas convicções políticas, obtém com facilidade o apoio popular e de uns tantos progressistas.

Como terá sido descoberta a sua verdadeira identidade? Nada encontrámos escrito nesse sentido e a tradição é completamente alheia ao assunto.

Sabemos que por estas alturas, no concelho, encontravam-se mais de trezentos expatriados e exilados do país vizinho, abundando os “carlistas”. Não terá sido algum destes que reconheceu o “inimigo” político e o denunciou? É uma hipótese que consideramos muito provável. (2)


NOTAS
(1) –Esta Maria Clara, de seu nome completo, Maria Clara Pinto Noronha Torrezão, costureira de profissão, natural da freguesia de Nª Sª das Dores, da Ilha do Sal, Diocese de Cabo Verde, moradora na vila, casa em 21 de Maio de 1879, então com vinte e seis anos, com António Inácio Pereira, de 30 anos, solteiro, lavrador, natural e morador também na vila de Alcoutim – Vide assento de casamento in Arquivo Distrital de Faro.
(2) "A Capela de São Martinho e as Cortes Pereiras",José Varzeano in Jornal do Algarve de 28 de Dezembro de 1989.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O "farol"


Como tínhamos dito no último “post” iríamos tratar separadamente o “farol”.

Utilizamos esta designação por ter sido a mais usada.

[Depósito para o azeite]
Como dissemos em DIA DE FINADOS, o “farol” era uma espécie de lanterna de forma cúbica ou levemente prismática, de três faces de vidro, sendo a do meio móvel e a oposta de chapa com um pequeno orifício. Na base, igualmente de chapa, tinha um pequeno recipiente da mesma matéria preparado com um pequeno pavio e onde se colocava o azeite que alimentava a pequena chama.


Na parte superior havia uma abertura circular que permita a saída do calor produzido pela chama e de resíduos.

A parte superior, além de possuir uma pega para o transporte do objecto, era adornada conforme a habilidade do artista e as posses do comprador.

Alguns dos faróis” possuíam numa das faces laterais duas tiras de folha ovaladas e cruzadas (como a foto representa) que serviam para se lhe pegar lateralmente.

A sua utilização foi igualmente referida na postagem anterior.

Pouco me resta acrescentar. Dizer que eram feitos pelos artesãos do concelho e possivelmente das redondezas, que eram designados por funileiros os latoeiros, esta última que consideramos mais consentânea com a sua actividade

Conhecemos bem, José Rodrigues dos Santos, vulgo José Emídio, latoeiro na vila, um dos artistas da peça.

Não nos foi fácil obter para fotografar o exemplar que apresentamos e que um amigo, Manuel Joaquim dos Santos, em Afonso Vicente, conseguiu desencantar numa arrecadação e isto depois de o tentarmos encontrar, em vão, noutras casas.

Possivelmente já não existirão muitos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia de Finados

[Porta Nova do Cemitério de Alcoutim em dia de Todos-os-Santos. Foto JV, 2010]

O dia 2 de Novembro destina-se em todo o Mundo Católico a orar pelos FIÉIS DEFUNTOS.

Naturalmente que em Alcoutim isso também acontece, o que hoje se realiza de uma maneira semelhante em todo o País.

No dia de Todos-os-Santos, feriado em Portugal, permite a deslocação aos Campos Santos para encher as sepulturas das mais variadas flores e outros ornamentos, sem deixar de proceder à alumiação.

Mas em Alcoutim não foi sempre assim como referimos no nosso trabalho Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…), 1985 onde encontrámos um ritual que desconhecíamos totalmente e que muito nos admirou.

Estamo-nos a referir aos primeiros anos da segunda metade do século passado.

O isolamento de Alcoutim que constituía um beco, a única televisão existente onde a imagem chegava em péssimas condições e até a rádio, então Emissora Nacional, se ouvia com muita dificuldade, originavam um mais difícil contacto com o país real e consequentemente a manutenção dos seus usos e costumes.

A vida local era pautada por regras ancestrais que os naturais e residentes mantinham.

Enquanto os homens não faltavam aos funerais onde o seu braço era necessário ao transporte dos caixões e as mulheres ficavam em casa realizando tarefas indispensáveis à”vida”, o Dia de Finados era a elas destinado pois enquadrava-se mais nas suas características, ficando os homens em casa.

Ao cair da tarde, vestidas de preto e de lenço, deslocavam-se a pé e em pequenos grupos provenientes dos montes da freguesia, para a vila onde as casas de familiares e amigos já as esperavam pois constituía um hábito antigo que foi passando de geração em geração.

[Primitivas catacumbas no cemitério de Alcoutim. Foto Jv, 2010.11.01]

Depois de mudarem o calçado grosseiro e a roupa que traziam, pegavam nos “faróis” que as acompanhavam e dirigiam-se ao cemitério.

O farol era uma espécie de lanterna de forma cúbica ou levemente prismática, de três faces de vidro, sendo a do meio móvel e a oposta de chapa com um pequeno orifício. Na base, igualmente de chapa, tinha um pequeno recipiente da mesma matéria preparado com um pequeno pavio e onde se colocava o azeite que alimentava a pequena chama.
Na parte superior havia uma abertura circular que permita a saída do calor produzido pela chama e de resíduos.

A parte superior, além de possuir uma pega para o transporte do objecto, era adornada conforme a habilidade do artista e as posses do comprador.

Alguns dos "faróis" possuíam numa das faces laterais duas tiras de folha ovaladas e cruzadas que serviam para se lhe pegar lateralmente.

["Fornos" recentes no cemitério de Alcoutim. Foto JV, 2010.11.01.]

Após a instalação do farol em funcionamento e das primeiras orações, regressavam a casa de quem as tinham recebido onde comiam açorda, migas ou sopas que a dona da casa preparava para obsequiar as suas visitas.

Já de noite regressavam ao cemitério para voltar a orar e a abastecer os depósitos de azeite.

Raramente se via uma flor e quando isso acontecia era trazida por alguma alcouteneja que vindo de outras terras trazia esse uso que lá tinha visto e adquirido.

Quando havia padre na freguesia e eu lembro-me de isso acontecer, dizia-se missa, por volta da meia-noite, na capela, após a qual voltavam à casa de acolhimento.

Enquanto algumas regressavam pela manhã aos seus montes onde tinham tarefas a executar, outras ficavam para assistir à missa de Finadas na Igreja Paroquial e só depois regressando ao monte, considerando a tarefa cumprida.

O azeite vem a ser a pouco e pouco substituído pelas velas de estearina e agora de fabrico oriental. Já se encontram em segundo plano pois estamos na era dos acumuladores (pilhas) que torna tudo diferente.

O farol terá tratamento específico numa próxima oportunidade ainda que o principal já tenha sido aqui referido.

Desconheço o que se passava então nas restantes freguesias do concelho mas penso que o ritual seria semelhante.

domingo, 31 de outubro de 2010

Carta aberta a todos os Alcoutenejos

Pequena nota

Do Sr. Mário Nunes recebemos com pedido de publicação, a seguinte carta dirigida aos “alcoutenejos”.
Como sempre tem sido dito, o ALCOUTIM LIVRE é um espaço aberto a todos os que desejem expor as suas ideias, nomeadamente em relação a Alcoutim e o seu Concelho e é com esta base que acedemos gostosamente à sua publicação com o desejo que as ideias manifestadas possam ter e repercussão que o seu autor deseja.

JV




Caros Conterrâneos, «É preciso acreditar num futuro melhor»

Venho por este meio apelar a todos os que, como eu, gostariam de ver o concelho de Alcoutim melhorar as condições de vida dos que cá vivem e dos que, um dia, queiram regressar, os quais tiveram que emigrar para o estrangeiro ou outra parte do País e fazermos com que, todos eles, possam sentir que o seu concelho está na senda do progresso e congregarmos esforços, num projecto colectivo, em torno d’uma grande empresa S.A.

É com esse objectivo que me dirijo a todos vós e digo: Este é o momento certo para criarmos essa Empresa S.A e tirarmos o nosso concelho de um processo acentuado de desertificação e com o estatuto de «um dos concelhos mais pobres do País». Este é o timming certo para criar essa Empresa, porque os Fundos Estruturais e de Coesão estão a chegar ao fim.

Objectivos a atingir no imediato e a muito curto prazo:
Dinamizar a Agricultura e o tecido empresarial do concelho de Alcoutim;
Fomentar o desenvolvimento do Turismo;
Criar as melhores condições para fixar os jovens;
Implementar «Casas de Repouso» em todas as Freguesias.

Todas essas iniciativas e a sua concretização estariam ao alcance da referida Empresa, S.A., com a envolvência da população do concelho que ao adquirirem Acções dessa Empresa S.A., estariam a contribuir para uma região próspera e criar assim as melhores condições de vida para os seus filhos e netos e também para que a velhice de cada um seja menos dolorosa, dando uma Atenção Especial aos idosos que tiveram toda uma vida difícil.

Como Dinamizar a Agricultura e o tecido empresarial do concelho de Alcoutim?
Criando a «Marca Alcoutim», a qual teria a responsabilidade de dinamizar, valorizar e comercializar os artigos produzidos no concelho, colocando-os nos diversos mercados ou através da «Marca Alcoutim» que seria uma marca « franchizada » e direccionada a um nicho do mercado, apostando na qualidade, inovação e com novos conceitos de Marketing.(Uma região só pode conhecer desenvolvimento económico e social se produzir riqueza e é por isso que temos que aproveitar as nossas potencialidades Hortícolas, Frutícolas, Cinegéticas, Turísticas, Apícolas, Ovino, Caprino e Suíno culturas, Padarias, Charcutarias, Queijarias, Doçarias, etc. etc.)
Esta Empresa teria de garantir o escoamento da produção realizada no concelho, criando uma rede de distribuição, assim como pontos de venda (franchising) numa parte do Algarve (no início), procurando atingir, a curto/médio prazo, todo o litoral Algarvio.

Criando um «banco de parcelas de terreno» divulgando as suas aptidões agrícolas através do site da empresa, S.A. junto de potenciais interessados.(existem no concelho aprox. 150 ha. de regadio a explorar, com aptidões para agricultura biológica a qual tem um maior valor acrescentado, ou em agricultura tradicional com qualidade e aproveitando os meios tecnológicos existentes, para uma melhor rentabilização).

Como Fomentar o desenvolvimento do Turismo?

Criando roteiros turísticos, os quais, devidamente explorados, poderiam melhorar a exploração da Restauração e outras unidades hoteleiras existentes no concelho;
Recuperar «Montes» abandonados, explorando esses Montes como «Turismo Rural», através de um acordo com os proprietários dessas habitações e que seja traduzido em vantagens económicas para ambas as partes.

Como Criar as condições para fixar os jovens?

Essa empresa, S.A. iria certamente criar alguns empregos, mas através da dinamização do Turismo; dos Roteiros Turísticos; através de uma Agricultura rentável; apoiando o empreendorismo dos jovens que, por sua vez, criariam micro Empresas; através da implementação das Casas de Repouso para os idosos, seriam certamente criados muitas dezenas de postos de trabalho.

«O desenvolvimento duma região faz-se faseadamente e com sustentabilidade».
Como Implementar «Casas de Repouso» em todas as Freguesias?

Através da compra e recuperação de alguns espaços existentes em ruínas e que reúnam as necessárias dimensões e Outras Construídas de raiz, com um plano de sustentabilidade e faseado no curto prazo.

Este investimento social seria um dos mais importantes a concretizar, recorrendo a parte do capital social da empresa, concorrendo aos apoios financeiros disponíveis e fazendo uma gestão eficiente, rigorosa e sem quaisquer desperdícios.
Estou convicto que essas «Casa de Repouso» serão, certamente, auto sustentáveis se tiverem uma boa gestão.

Não disponho do número aprox. de Alcoutenejos, mas julgo serem entre 5.000 a 6.000. Se uma parte deles, comprasse cada um, pelo menos, 50 acções a um valor nominal de 5 €, conseguiríamos criar uma empresa com um capital social de 400.000 a 500.000 €uros, o que permitiria avançar com alguma margem de segurança para este projecto e com alguma confiança em atingir os objectivos atrás referidos.

Se considerarmos que teríamos, necessariamente, de concorrer aos apoios financeiros de coesão e de desenvolvimento regional, o valor de 5 € por acção investido, passado algum tempo, já poderia valer 6 ou 7 € .

Como qualquer empresa S.A., também esta teria o lucro como grande objectivo, o qual seria distribuído, no final de cada ano, pelos seus accionistas.

Caros Conterrâneos:

Se tiver da vossa parte, um «feedback» à ideia deste projecto da Empresa S.A., irei contactar um conjunto de pessoas (já sinalizadas) e que têm capacidades para concretizarem este projecto e se aceitarem este desafio, com total disponibilidade, sem bairrismos, com total isenção partidária, sem vaidades, com toda a humildade e sensibilidade social, então teremos, sem dúvida, motivos para acreditar num futuro melhor.

Temos Alcoutenejos com todas as qualidades atrás exigidas e que, julgo, queiram ficar na história do concelho, como fundadores desta grande Empresa e contribuir assim, para o desenvolvimento social e económico de Alcoutim.

Desde já informo que, por uma questão de ética e para que não suscite a ideia de que apresento este projecto para criar o meu próprio emprego, não irei fazer parte da direcção dessa futura Empresa S.A. irei sim acompanhar a sua instalação, ser um investidor/accionista e se assim o entendessem os pequenos accionistas, poderia ser o seu representante (sem remuneração) com total isenção e defendendo os seus interesses com total entrega e sempre em defesa dos mais altos valores de seriedade e transparência.

A Direcção desta Empresa S.A., teria uma vigência de ( x tempo ) a definir pelos estatutos e, se não apresentasse resultados satisfatórios de acordo com os objectivos traçados, seria naturalmente votada em Assembleia Geral.

Aproximam-se tempos muito, muito difíceis em que será preciso uma forte união entre todos os Alcoutenejos e, se estiverem unidos podem reivindicar os seus direitos e ganharem os desafios que, cada vez mais, a vida lhes impõe diariamente.
Caro Conterrâneo, aceite este desafio em nome do seu futuro e do futuro daqueles que mais quer e ama.

Até breve e seja um sócio fundador desta Empresa S.A. com apenas 50 euros de investimento, em prol do desenvolvimento de Alcoutim.

Contacte-me e faça a sua pré-inscrição (sem qualquer compromisso e em sigilo absoluto) mencionando o número de acções que gostaria de subscrever.

Mário Nunes

Telm. 91 911 14 52 ou 93 583 74 32 (através de sms)
e-mail:
nunes_mario@sapo.pt

Com as melhores saudações.

PS:
Não pretendo que este seja o modelo ideal para o desenvolvimento de Alcoutim, ele poderá, naturalmente, ser aperfeiçoado.
Mas tenho a certeza que, se nada fizermos e continuarmos «a trilhar o caminho actual», iremos ter cada vez mais os campos desertificados, os «Montes» em ruínas e os jovens à procura de um futuro melhor, em outra parte do País.

sábado, 30 de outubro de 2010

Algures, num pequeno e quase desabitado monte



A Câmara Escura de hoje é representada por uma foto que tirámos em Agosto último num monte que pensávamos completamente desabitado e onde afinal ainda fomos encontrar alguém.

Esta interessante habitação característica da primeira metade do século passado mantem exteriormente, pelo menos, as suas principais caraterísticas.

De algumas dezenas que terão existido e espalhadas por todo o concelho, já poucas restam e na sua maioria encontram-se obliteradas por novos materiais de construção e completamente desajustados deste tipo de construção que reune características do litoral algarvio sem descurar a parte serrana, nomeadamente as suas largas paredes de xisto argamassadas com barro e areia dos barrancos, mais grossa mas mais consistente e com absoluta ausência do sal.

Lá está o típico pátio ao longo da fachada principal, ladrilhado com peças hoje difíceis de encontrar.

São notórios os motivos geométricos, nomeadamente os losângos e o verde e em alternativa o azul escuro, sem nunca deixar de ser básico o branco da cal.

Se já são poucos os exemplares que servirão para uma fotografia representativa de uma época, possivelmente os peseudo interessados só se lembarão quando já não existirem exemplares minimamente decentes para fotografar.

Que eu saiba, nunca existiu um estímulo autárquico que ajudasse a perservar este tipo de construção.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Uma estrada marginal ligando Alcoutim a Castro Marim oferecia extensa zona venatória ao turismo do Algarve

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 7 DE ABRIL DE 1973)




Escreve


Luís Cunha




O moderno cais de Alcoutim, onde podem acostar barcos de mais de duas mil toneladas, veio como “sopas depois de almoço”.

O seu período de actividade, breve como as rosas de Malherb, reduziu-se, quando muito, a uma década.

Cerca de cinquenta metros a montante, o outro cais, velhinho, desempenhara com garbo as suas funções desde tempos imemoriais, e se na sua tardia aposentação, muito depois da idade aconselhável, algumas culpas houve, tal se deve aos “médicos” da Junta que só, ao entardecer acordaram, e nanja a ele.

A estrada que de Alcoutim leva à aldeia do Pereiro, Martinlongo, Cachopo e por aí além, começa no velho cais. Nas portas da vila, ditas de Mértola, uma placa de mármore assinalava a sua inauguração, no reinado de D. Luís. Diz-se que obedeceu à necessidade de o príncipe D. Carlos ir caçar às “chadas” (planuras) de Pereiro e Martinlongo. Fosse como fosse, observado do rio, o cais é emoldurado por um muralhão de 15 ou 20 metros de alto onde outra placa com os dizeres em romano, comemora a visita de D. João VI.

O cais defendia a terra, do lado do rio e a estrada que até ao cais atravessa a vila, drena as chuvas da parte alta por meio de uma valeta encostada à muralha. Ao chegar ao cais, existia – e ainda hoje lá está – uma enorme placa de xisto fazendo de ponte sobre essa valeta. Era o ponto de apoio das pranchas que a nossa mocidade utilizava, brincando ao baloiço. Enquanto os pesos se equilibravam, a subir e descer, tudo eram encantos, mas o trambolhão estava mais que certo quando, numa das extremidades, se sentava algum mais volumoso.



Visando a nossa segurança, uma ou outra vez a sentinela da Guarda Fiscal punha o bando em alvoroçada correria. Do alto da muralha para onde nos escapulíamos, crivávamo-lo de insultos, quando não de pedradas; e no entanto o homem agira protegendo-nos paternalmente.

Era o começa da contestação, da necessidade de correr o risco de conta própria; muito mais idoso que aquela, representava o tempo do analfabetismo, em que à noite, à lareira, a idade pontificava como portadora e fiel intérprete da tradição. Sem que disso nos apercebêssemos, tinham passado os tempos em que o homem só o era portas a dentro, limitando-se, de fora, à surda ameaça entre dentes: “quando passares à minha porta tu verás como é”.

Os tempos, porém estão mudados, ninguém carece de convite para entrar em casa alheia – noção que deixou de ter significado – onde não existem portas ou, se as há, não têm fechadura ou tranca; tudo é de todos e nada é em particular de alguém: todos somos “santos” da auréola, e para em qualquer parte tomar um café ou bebida, dispensamos convites do dono da casa (outra noção inexistente).

Com estes considerandos quase perdemos o fio à meada. Historiávamos o baloiço quando se verificava desequilíbrio entre os participantes. Ao tocar o chão com violência, a parte pesada cuspia o desgraçado que ocupava o outro extremo.



O movimento, a vida, geram-se assim da coordenação de heterogéneos ; o equilíbrio perfeito é lapso momentâneo, pois se durável, é água podre, é morte. Porém, se o desequilíbrio ou desnível não for o apropriado aos fins da acção, ter-se-á tudo , quiçá uma explosão, menos o resultado pretendido.

Queríamos aventar com isto, que, no nosso caso, o grande desnível cultural e económico dos contactos turísticos levará á subordinação do mais fraco – com perdão dos que não admitem sublinhados, porque, dizem, em cultura não há altos nem baixos, sendo cada um simplesmente o que é – levará à subordinação, dizíamos, se perdendo o carácter de movimento se torner em barreiras permanentes e fixas de isolamento. É um ponto de vista que não exclui nenhum dos numerosos pontos que à volta do mesmo facto se podem considerar.

Acreditando que os erros, todo o erro, se deve ir diariamente emendando é sempre tempo de dar remédio a alguns se os há, e de, com tal experiência, obviar a que se instalem nas regiões virgens.

O progresso – quem tal diria! – tornando desnecessário o Guadiana, lançou Alcoutim na maior miséria e esquecimento que possa imaginar-se. Não é cruzamento de vias de comunicação nem término de nenhuma, não é região mineira, agrícola ou industrial; não é porto, nem possui qualquer predicado que a torne apetecida. A estes desencorajantes factores de ordem natural acrescem os de ordem humana, pois a população não oferece a menor garantia de sobrevivência.

Por tudo isto e sem qualquer outra saída, pretende-se a exploração turística. Podendo em boas condições, fornecer ao turismo balnear algo que lhe falta, queria-se fosse um dos seus complementos.

Só complemento e nada mais que isso; que se torne fonte de energias e vida segura e duradoira para que os ao longo dos tempos lhe sofreram as agruras. Há, assim, que afastar da região o espírito de desenfreada ganância. Problema enorme que envolve técnicas de várias especialidades, requere-se-lhe equipa competente, porque há por aí erros que fizeram história e que se devem ao facto de um abalizado técnico no seu ramo ser desde logo o perito indispensável em todos os outros.



A voz do povo, que não será neste caso a mais autorizada, aponta a necessidade de muitas ou de todas as infra-estruturas: pousadas marginais e interiores aqui e além, onde o0 caçador descansará; uma ponte sobre a ribeira de Cadavais para retirar à vila o carácter de beco e dar-lhe saída para o ar livre; a abertura da fronteira com a irmã “siamesa” S. Lucar, o que o tratado luso-espanhol de 1960 previa mas nunca foi feito; a florestação maciça (problema dos problemas, em nosso modesto entender) uma vez que os terrenos, pelo menos até hoje se mostram totalmente inaptos à agricultura, e os matos de estevas, tojos e xaraguaços não permitem a criação de qualquer espécie de gados, e, por último, a abertura de uma estrada marginal ligando a Castro Marim.

Este que colocámos em último lugar, resolveria (opinião geral) todas as dificuldades, dispensando outras propagandas e reclamos. Estamos de acordo quanto a esses resultados mas, da nossa conta, acrescentamos todos os perigos que temos vindo a apontar.

Pesem embora as guias que nos fornecem as experiências já feitas, o problema em nada perde a sua transcendência.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um pouco de história, de actualidade e de estórias...O renascer da esperança entre os exilados espanhóis!





Escreve


Amílcar Felício


Dediquei a minha última crónica de 14 de Setembro à heróica luta do povo espanhol, que de 1936-1939 tinha ousado corajosamente agarrar em mãos o seu próprio destino, com todas as consequências trágicas que Alcoutim em parte testemunhou horrorizado. Referia nessa crónica que “mal sabia eu que quase três décadas depois do fim da Guerra Civil pelas fábricas de Bruxelas, ainda iria ajudar a enxugar as lágrimas de revolta de antigos combatentes e perseguidos do franquismo, sentir as dores e o ódio dos filhos dos fuzilados e partilhar com eles, os sonhos de um mundo novo com que muitos ainda sonhavam.”

[Bruxelas]

Estávamos no final da década de sessenta. Na realidade, depois da hecatombe de 1936-1939 e do marasmo do pós-guerra de 1939-1945 que se lhe seguiu, renascia a esperança entre os exilados espanhóis bem como entre aqueles que queriam um mundo melhor, com o surto dos grandes movimentos sociais dos anos sessenta do séc. XX.

De facto, o Maio de 68 em França e o seu reflexo na Europa, as vitórias do povo vietnamita no Sudeste Asiático que ameaçavam ajoelhar o gigante americano, o Guevarismo em Cuba e um pouco por toda a América Latina assim como a generalização dos Movimentos de Libertação em África contra o colonialismo desde os anos cinquenta, com a proclamação de diversas independências, constituíam cada um ao seu nível uma lufada de ar fresco que parecia fazer estremecer as banhas de um capitalismo e de um imperialismo cada vez mais gordo e anafado. No conjunto pareciam convergir numa única corrente, que ameaçava transformar-se num furacão de proporções gigantescas que punha em causa inclusivamente, o equilíbrio paralisante das duas superpotências da altura: EUA e URSS.

Mas era principalmente a Revolução Cultural Chinesa de 1966 que emergia como que uma ferramenta estratégica e que parecia garantir no futuro, o êxito continuado dos movimentos sociais. Na realidade, era a primeira vez que se abanava pela raiz toda uma estrutura dirigente, instalada há mais de 15 anos em “nome dos trabalhadores” – mas que com o tempo se iria naturalmente “degradando e enferrujando” – libertando todas as energias populares contra os interesses quer de “apparatchiks”, quer das castas de burocratas e de tecnocratas que tenderão sempre a moldar o poder em seu benefício. Retiravam-se assim, todas as lições das experiências fracassadas da primeira metade do séc. XX.
Historicamente, era também a primeira vez que se tentava organizar uma nova sociedade a partir de baixo. Fazia-se história!

Tratava-se de facto de uma luz ao fundo do túnel, que voltava a acender a esperança de antigos combatentes e de milhões de jovens estudantes e operários de todo o mundo, desiludidos com o enquistamento de outras experiências, algumas das quais com mais de meio século de existência como na URSS e aonde já era visível que tenderiam todas, mais tarde ou mais cedo, a repor a ordem contra a qual se tinham levantado, reproduzindo um “capitalismo de estado” à sua medida. O futuro haveria de lhes dar razão. Mas havia muita esperança no ar naqueles tempos caramba! Tudo parecia possível! Possivelmente, passe o pleonasmo, pela juventude dos nossos olhares românticos também.

Contudo, seria sol de pouca dura. A casta de burocratas e de tecnocratas chineses na década de setenta mais uma vez levaria a melhor, reconquistando o poder e fazendo pagar “aquela afronta” com elevadíssimos juros. Na realidade, transformariam a China nestas três últimas décadas, num monstro poderoso de economia selvagem (*) em vias de se tornar no motor da economia mundial a qualquer preço, ultrapassando os próprios Estados Unidos que já lhe vão comer à mão. Refira-se que a China já é neste momento o maior detentor de Títulos de Tesouro dos Estados Unidos, tornando-se assim no seu maior credor actual e o Presidente do Banco Central Chinês pasme-se, teria sugerido recentemente a compra da totalidade da dívida pública portuguesa. Demonstrando dominar perfeitamente a “arte” do mais vulgar especulador financeiro, atente-se à terrível arma política a que estes chineses pretendem deitar mão para se tornarem nos novos senhores do mundo... ao que aquilo chegou!

Estas mudanças brutais reduziriam dramaticamente os direitos dos criadores de riqueza, os trabalhadores chineses, a um único “direito”: o “direito” a trabalhar 12, 16 ou até 24 horas por dia a troco de uma “tigela de arroz”, sendo reprimida qualquer tentativa de formação de organizações independentes. A isto se reduz o tão badalado “milagre económico chinês” e que os governantes chineses vão paulatinamente exportando pelo mundo e por essa Europa fora, deitando assim gasolina para o fogo da crise financeira actual e contribuindo desta forma para transformá-la numa crise económica cada vez mais aguda, com o beneplácito dos “crânios dirigentes democratas” europeus. Estes por sua vez, com esta política do “deixa andar” não só se tornam cúmplices na manutenção da actual situação ditatorial na China (refira-se a atitude recente dos governantes chineses perante o galardoado Nobel da Paz, o chinês Liu Xiaobo), como contribuem decididamente para o aprofundar da crise económica e do desemprego crescente a que assistimos na Europa, com a falência de fábricas e mais fábricas incapazes de competir em condições tão desiguais.

[Guernica, de Picasso]

Mas voltemos aos “nuestros hermanos” para recordar uma pequena estória passada com eles em Bruxelas, numa média fábrica de produção de “chaufagens” com cerca de 300 operários e em que a maioria dos emigrantes eram espanhóis, que incluía naturalmente alguns antigos combatentes. Mas aonde havia também húngaros fugidos de 1956, checos de 1968 que tinham vindo à procura de “um socialismo de rosto humano” mas que depressa se desiludiam, jovens romenos incrivelmente despolitizados, jugoslavos na busca de um capitalismo que pagasse melhor do que Tito ou pequenos camponeses albaneses descontentes com os exageros de políticas sectárias e dogmáticas que lhes tinham confiscado as terras, apesar de se tratar de economias familiares. Decidimos certo dia parar a fábrica, com o objectivo de conseguir uma melhoria significativa nas condições de trabalho que eram péssimas.

Era obra, numa sociedade de grande consumo saída do grande “boom” capitalista do pós-guerra e com tanto contra-vapor, aonde os delegados sindicais e os próprios sindicatos estavam domesticados (foi o começo das chamadas “greves selvagens” porque fugiam ao controle dos sindicatos; as grandes fábricas na altura só aceitavam operários sindicalizados, imagine-se!) e a ideologia das classes trabalhadoras belgas passava mais pelo “tá-se bem” entre duas cervejinhas do que por qualquer tipo de reivindicação, apesar do seu forte e vivo sentimento anti-nazi, honra lhes seja feita, principalmente na parte francesa (Valónia) já que os flamengos (Flandres) tinham o estigma de “colabos”, pois tinham constituído uma base significativa de apoio a Hitler.

Quando se decidia quem iria chefiar a delegação para negociar com a administração e passando por cima do delegado sindical em quem já não acreditavam, gritam quase em uníssono `”nuestros hermanos: vay el português”. Eu que com os meus pouco mais de 20 anos os reverenciava como verdadeiros heróis e ao pé dos quais me sentia um aprendiz de feiticeiro, devo confessar que me senti tremendamente honrado com aquele gesto de confiança por representar tão distinta assembleia.

Mas ainda estava muito verdinho. Depois de quase uma hora de espera à porta do gabinete da Administração para ver se nos desmobilizavam, lá apareceu o Director e a sua equipa. Lá lhe expus os nossos argumentos até ele confirmar que sim senhor, que tínhamos razão e que iam mudar e melhorar tudo. Já dava eu a situação como vitoriosa, quando sai detrás de mim um colega dos seus 40 e tal anos, filho de um antigo Capitão fuzilado da República e que de dedo em riste junto ao nariz do Director lhe pergunta: “pero vays a cambiar cuando: hoy, mañana, el fin del més, el año que vienne, cuando?” Faltava este “pequeno” pormenor! Só saímos de lá depois dele se ter comprometido com uma data.

(*) Viagem ao outro lado da barricada: Há sempre um português em qualquer parte do mundo para contar a história, caramba! Esta, faz-me lembrar aquele dito algarvio que diz que “quando o Vasco da Gama chegou à Índia já lá estava um algarvio!” e permite, entre outras análises possíveis, reflectir no que existe de aventureiro na massa de que é feito um português!
Encontrava-me por razões profissionais na segunda metade dos anos 90 em Barcelona, quando um amigo espanhol me diz: “anda cá comigo que te quero apresentar um compatriota teu, que tem 10.000 operários na China”. Claro que pensei para os meus botões: mais um portuguesito a arrotar postas de pescada! Cumprimentámo-nos cordialmente, como sempre acontece quando os portugueses se encontram no estrangeiro. Só no estrangeiro nos apercebemos quanto gostamos de Portugal! Quando cá estamos, os outros é que são bons... lá fora, orgulhamo-nos “disto” e achamos que afinal não há nada melhor!
Marcámos um encontro para alguns meses depois em Nuremberga na Alemanha, aonde tinha que me deslocar a uma feira. Já na Alemanha convidou-me para jantar no seu Hotel de 5 Estrelas.
Aparentava ser um português médio sem grandes rasgos. Pura ilusão! Tinha uma sensibilidade e uma lucidez impressionantes quer na análise das relações estratégicas no mundo, quer sobre o deslocamento no tempo, do centro de gravidade da indústria tradicional. Dizia-me ele há mais de 10 anos: “a Europa industrialmente já foi e agora quer acordar mas já é tarde. Agora vai ser a China o centro de gravidade e depois virá a Índia a um nível ainda superior”. Parecia uma profecia: sabemos hoje de que não existe uma grande empresa europeia ou americana, que não esteja sedeada na China, assim como conhecemos também a liderança das novas tecnologias pela Índia, que está à beira de acordar.
Naturalmente, também dava palmadinhas no rabo das empregadas durante o jantar à boa maneira portuguesa, ao que elas correspondiam com um sorriso nos lábios. Era uma questão de “status” no hotel aonde se hospedava normalmente! Parece que também dava gorjetas de 100.00€ (naquele tempo em marcos), como quem come tremoços. Portanto tudo lhe era permitido.
Contou-me a sua estória. Esta será certamente um exemplo prático, de como se terá processado o princípio do fim da China Popular. Parece incrível mas foi assim: foi para a China no rescaldo da Revolução Cultural. Acho impressionante alguém aventurar-se num país com uma cultura tão diferente e numa altura daquelas: é como pensar ir montar um negócio em Marte nos nossos dias, na minha opinião!
Alugou terrenos com todas as facilidades e mais algumas ao preço da “uva mijona” e com o agradecimento efusivo do governo chinês: blah... blah... blah..., blah... blah... blah..., blah... blah... blah... Fez contractos de aluguer de terrenos por períodos de 100 anos e nos quais deveria construir fábricas – propriedade sua, privada – enquanto os terrenos seriam sempre públicos, com a única obrigação de empregar no mínimo 300 operários por fábrica. Assim começou de fábrica em fábrica até se tornar num magnata.
À despedida ainda se disponibilizou: “se precisar de alguma coisa para aquelas bandas incluindo o Vietname, telefone-me para o meu escritório de Nova York, Macau ou Hong Kong que eu vou lá consigo, pois tenho bons amigos por aqueles governos todos...” Ok “amigo”, acho que não vai ser preciso, respondi-lhe “agradecido”!
O mundo dá tantas voltas caramba, ou cambalhotas eu sei lá... mas para aonde é que ele nos leva? Responda quem souber!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

D. Manuel de Meneses, 4º Conde de Alcoutim e a sua descendência

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 81 DE NOVEMBRO DE 2006, P.17)

O 4º Conde de Alcoutim, D. Manuel de Meneses, antes de receber o título usava o nome de Manuel de Noronha porque a linha varonil de que provinha, era essa.

Herdou a Casa de seu irmão, D. Miguel de Meneses que foi o 3º Conde, filho do 2º que morreu sem deixar geração.

Recebeu o título em 1 de Abril de 1564.

Casou com D. Maria (ou Mariana) da Silva que foi dama da rainha D. Catarina, mulher de D. João III.

Foi o 7º Capitão de Ceuta, cargo que exerceu durante dez anos, tendo guerreado activamente os mouros.

Estava em Ceuta quando da primeira visita a África de D. Sebastião, em 1574, que recebeu ostentosamente.

Em 1577 levou de Pinhão de Belas para aquela cidade do norte de África, Mulei Môamede, xerife deposto de Fez, cumprindo assim as instruções de D. Sebastião, interessado que estava em interferir na política marroquina. (1)

Na crise da independência que se seguiu à morte do rei, tomou partido por Filipe II que por intermédio de Cristóvão de Moura acabou por aliciá-lo, tal como a marquesa, uma vez que este explorou a vaidade da mesma, sendo por sua acção que o marido se deixou levar.

Para mostrar a sua importância, assinava somente “marquês” e ela, extremamente vaidosa, “marquesa”.

O marquês era dado como inacessível por ser considerado amigo de D. António, Prior do Crato. (2)

[Alcoutim, Casa dos Condes. Foto de JV, 1969]

Nas Cortes de Almeirim de 1580, reunidas para solucionar o problema da sucessão da Coroa, D. Manuel de Meneses, já do lado do monarca espanhol, foi eleito definidor da nobreza. Já tinha prometido entregar a Filipe II de Espanha, no momento oportuno, as terras fronteiriças que lhe pertenciam, (3) nas quais, como é óbvio, se incluía Alcoutim.

Tudo isto foi recompensado por Filipe II que lhe deu o título de Duque de Vila Real em 28 de Fevereiro de 1585, já desfrutando os títulos de 7º Conde e 5º Marquês e o de 4º Conde de Valença.

Morreu a 2 de Setembro de 1590. (3)

Do seu casamento com D. Maria da Silva, nasceram nove filhos, sendo três varões.

O primogénito, D. Miguel Luís de Meneses, veio a ser o 5º Conde de Alcoutim, 8º Conde e 6º Marquês de Vila Real e 1º Duque de Caminha. Casou duas vezes, sendo a segunda com sua sobrinha D. Maria Brites de Meneses, não havendo geração de qualquer dos consórcios.

Outro dos filhos foi D. Jorge de Lara que morreu criança.

Aparece depois D. Luís de Noronha e Meneses, que devido ao facto de seu irmão e genro não ter deixado geração, veio a herdar o título, tendo sido o 6º e último Conde de Alcoutim que veio a morrer degolado no Rossio, em Lisboa, no dia 29 de Agosto de 1641, por ter participado na conjura contra D. João IV.

Casou com D. Juliana de Meneses (Tarouca) de cujo casamento nasceu D. Miguel Luís de Meneses que foi segundo Duque de Caminha, igualmente justiçado no Rossio e D. Maria Brites de Meneses que havia casado com seu tio, D. Miguel de Meneses, 1º Duque de Caminha, do qual enviuvou vindo a casar com D. Pedro Portocarrero, 7º Conde de Medelim.

Das seis filhas de D. Manuel de Meneses e de D. Maria da Silva, três vieram a casar:- D. Brites de Lara e Meneses com D. Pedro de Médicis, filho do grão-duque de Florença, Conde de Médicis. Recolhendo-se ao Mosteiro de Jesus, em Aveiro, cedeu o seu solar na cidade para se instalar provisoriamente o Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo, de Carmelitas descalças.

[Alcoutim, Casa dos Condes. Pátio interior. Foto JV, 2010]

Em 1620 operou-se a mudança para as novas instalações, tendo a nobre Senhora dado mil cruzados de renda, sendo quinhentos para obras e os restantes para missas por sua intenção. Na igreja ficou sepultada em túmulo de mármore, do lado do Evangelho.

Pretendeu fundar uma casa de religiosas, para o que pediu as licenças necessárias que depois de grande espera lhe foram indeferidas, falecendo em 4 de Junho de 1648, pouco tempo depois de receber a notícia da não autorização. Passou por isso pela morte do irmão, 6ºConde de Alcoutim e do sobrinho, 2º Duque de Caminha.

Era muito amada do povo que a conhecia por mãe dos pobres, amparo dos órfãos e viúvas, consolação de atribulados e remédio de afligidos. (4)

D. Juliana de Lara, foi outra das filhas de D. Manuel de Meneses e que veio a casar com D. Sancho de Noronha, 6º Conde de Odemira, filho póstumo do 5º Conde, D. Afonso de Noronha, que morreu na batalha de Alcácer-Quibir e de sua terceira mulher, D. Violante de Castro.

Depois da Restauração foi por D. João IV elevado a mordomo-mor da rainha D. Luísa de Gusmão, falecendo poucos dias depois da obtenção do cargo.

A outra filha que casou, foi D. Joana de Lara que o fez com João Álvares Pais de Meneses de Albuquerque. Sabemos que tiveram dois filhos:- Brás Álvares Pais de Meneses, capitão e D. Maria de Lara que casou com D. Duarte de Bragança, Senhor de Vila do Conde.

D. Filipa e D. Maria de Lara tomaram a clausura no Mosteiro de Santa Ana, de Leiria, de cujo castelo seu pai foi alcaide-mor. D. Inês de Meneses, que presumimos ser a mais nova, ingressou na Ordem de S. Bernardo, no Mosteiro de Almoster (Santarém).
A geração continuou com o segundo casamento de D. Maria Brites de Meneses e com D. Maria de Lara. (6)

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NOTAS
(1) – Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações – Alfa , 1982
(2) – O Cardeal D. Henrique , Mário Domingues , Ed. Romano Torres , 1964
(3) – Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Imprensa Nacional -Casa da Moeda.
(4) - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(5) - Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zairol, Lda.
(6) - http:// genealogia. sapo . pt/hom

domingo, 24 de outubro de 2010

Francisco do Rosário





Escreve

Gaspar Santos







Quando por todo o país se comemora o Centenário da Implantação da República, não podia deixar de lembrar o Senhor Chico do Rosário. Um político republicano, alcoutenejo ilustre, com quem privei e que era amigo da nossa família. Há muito que tencionava recordá-lo.

Era um homem de aspecto físico robusto, maciço, de altura mediana. Corajoso, frontal, sem timidez. De palavra fácil, dizia só as indispensáveis, compensadas com uma boa eficácia. A sua escrita era igualmente eficaz.

Morou alguns anos num edifício que esteve muito tempo demolido e que deu lugar ao espaço ajardinado, com um repuxo, na envolvente ao Castelo. Foi inaugurado com o seu nome no dia do município em 14 de Setembro de 2007.

[Jardim Francisco do Rosário. Foto JV]

Morava ali, mas logo pela manhã, de verão ou de inverno, podíamos vê-lo em tronco nu, envolvido por um casaco, dirigir-se à casa em frente à Fábrica de Foices, a chamada “sacristia”, onde se ia lavar. Não sendo um manga-de-alpaca, trajava sempre de fato completo e gravata muito suja nos dias normais de trabalho. Mas impecavelmente vestido quando viajava.

Recordo-me da sua figura altiva, muito compenetrado a conduzir uma “charrette” puxada por um cavalo. Esta, com pneus, fora adaptada nas oficinas da família à custa da parte traseira de automóvel dos anos 20 em fim de vida. Recordo-o passeando na feira de S. Marcos no Pereiro pendurado num enorme charuto…ele que nem fumava. Ou, não sendo religioso, atento na primeira fila do espaço por ele cedido para um culto evangélico que as autoridades dos anos 50 não quiseram ceder. Isto para referir o seu aspecto cheio de si e de auto-estima.

Tinha um trato afável e simpático sob aquela altivez. Que ainda era mais cavalheiresco quando se tratava de sua mulher a quem tratava com muita ternura por Armindinha, ou, quando calorosamente atendia pessoa que ele muito estimasse.

Recorriam a ele para meterem empenhos (hoje diríamos cunhas) junto de influentes. Ia terminar a tropa na Marinha um jovem da freguesia do Pereiro de nome Guerreiro que se queria empregar. Fardado, visitou o Almirante Gago Coutinho, já muito velhinho, que lhe perguntou: ”o que queres meu marujo” ao que ele responde “sou de Alcoutim e quero empregar-me na Alfandega em Vila Real Santo António”. Diz o Almirante: “és protegido do Francisco do Rosário… está descansado…deixa aí a tua identificação”. O Guerreiro nem tinha ainda falado do Rosário, mas aproveitou. Depois de empregado, agradeceu ao Senhor Chico do Rosário, que nada sabia e se limitou a dizer, sem qualquer azedume: “foste então tu a aproveitar a cunha que eu meti para outro…”

Era uma pessoa generosa, de uma família também generosa. Disso, são exemplo as refeições de papas de milho que fornecia gratuitamente na sua moagem de cereais do Pereiro a muitos pais de família esfomeados que nos anos da II Guerra Mundial lá iam com uma senha do racionamento comprar 4 ou 5 kg de farinha de milho.

Tinha já preocupações com o ambiente nos anos 20 quando foi Presidente da Câmara, ao fazer sair um folheto alertando para o perigo do sulfato de cobre das Minas de S. Domingos que ao escorrer para o rio matava os peixes.

[Bancos da Capela. Des. JV]
Recordo-me das nossas conversas nos bancos da capela (designação dada à Igreja Matriz) quando líamos os jornais. Ele era assinante e grande leitor da República, mas não deixava de ler outros jornais como o Século. Por vezes eu estava na capela a ler O Século e ele aparecia. E dizia na sua forma assertiva, seca e de poucas palavras: “ dá cá o jornal” e lendo todos os títulos de uma ponta a outra ia pontuando no fim de cada título que não lhe interessava, “merda, merda!”.

Enquanto ele lia O Século emprestava-me para eu ler o República. Foi assim que acompanhei a evolução e o fim da Guerra Mundial 1939/45. As eleições inglesas a seguir à Guerra. As esperanças que ele alimentava de que os Aliados no rescaldo da Guerra, pusessem fim às duas ditaduras Ibéricas. O Lançamento das duas Bombas Atómicas. A Guerra da Coreia, a destituição do General Mac Arthur após quase lançar outra Bomba Atómica na Coreia. Nunca percebi, porém, qual o grau de simpatia que lhe merecia cada líder das três grandes potências Aliadas.

Uma vez interpelei-o: “que povo Inglês é aquele que depois da vitória de Churchill na guerra, logo a seguir dá a vitória a Atlee nas eleições”. Resposta: “É a democracia, rapaz! Churchill empolgou o povo na guerra. Na paz e para a sociedade inglesa agora é melhor Attlee. Não é ingratidão”.

O exemplo do Senhor Chico do Rosário esclareceu-me o dito Inglês “time is money”. O tempo parece ter-lhe sempre escasseado. A falta de tempo levou-o algumas vezes a atrasar a camioneta de carreira de manhã quando ia para Vila Real ou à tarde quando ia para o Pereiro. A falta de tempo, que mais parecia falta de dinheiro, fê-lo muitas vezes telefonar para a funcionária do correio, dizendo: “ Santinha aguarda pelo meu pagamento até amanhã pois não posso ir agora aí”; ou para o Senhor Leopoldo do Grémio da Lavoura (que fora empregado no seu comércio) com o mesmo pedido, o que às vezes deixava essas pessoas preocupadas. Mas, com mais ou menos diligências, pagou sempre.

Há anos, após nova legislação sobre as matrizes prediais obrigando à identificação das propriedades, vimos na Hortinha no caminho para o cemitério, na mesma oliveira, uma placa de madeira com “Proprietário Joaquim António do Rosário” e outra com “Propriedade de José Hermógenes Duarte Rosário. Indiciava e, dizia-se, haver confusão de partilhas que não teriam ficado claras entre o Senhor Chico do Rosário e o Irmão António que, pensamos, já estará hoje esclarecida.

[Moinho da Chada, Pereiro, onde funcionou primitivamente a moagem. Foto JV, 2006]

Conheci o Senhor Francisco Madeira do Rosário, já como gerente comercial da Fábrica de Foices de Alcoutim e da Fábrica de Moagem de Cereais do Pereiro, pertencentes à família. Nos anos 30 do Século passado possuíram também um estabelecimento em Alcoutim de vinhos e mercearias e tudo o que hoje se pode adquirir num supermercado. Aí nesse estabelecimento e nos montes compravam ovos para exportar para Espanha, tendo para isso um armazém em Sanlúcar.

Na fábrica de foices, enquanto o irmão António Madeira do Rosário dirigia as questões técnicas e procedia à última etapa do trabalho em série que era picar as foices, ele procedia à sua embalagem em caixas, e à sua colocação no mercado e às tarefas de promoção por todo o Alentejo e Algarve.

[Actual Rua S. Salvador onde funcionou a fábrica de foices. Foto JV, 2009]

Algumas pessoas no concelho, por atribuírem mais mérito ao trabalho manual e comparando os dois irmãos, consideravam que o António do Rosário era quem trabalhava. Quero aqui salientar, para ser justo, o trabalho de gestor do Francisco. Era ele que encomendava as toneladas de aço e carvão e outros combustíveis que a fábrica consumia. Tendo ainda alguma componente manual na embalagem das foices. O mesmo se passando com a moagem do Pereiro.

Era um político anti-fascista e anti-Salazarista, importante antigo militante do Partido Republicano Português (PRP) no concelho, tendo sido várias vezes preso pela PIDE. Aderiu ao PRP após uma conversa estabelecida casualmente com o Doutor Afonso Costa durante uma viagem no “Gasolina” da carreira Vila Real Santo António – Mértola. Essa longa conversa funcionou como uma lavagem a um cérebro que já tinha predisposição republicana e, foi assim, sem desfalecimentos até á sua morte.

Foi o último Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, durante a República, entre 1920 e 1926. Mas, segundo consta, do seu mandato não se encontram actas, despachos ou qualquer documento assinado por si. Teriam sido destruídos durante o Estado Novo? Foi exonerado após o Movimento do 28 de Maio de 1926. Sendo substituído pelo Prof. Trindade e Lima, delegado escolar, colega da Prof. D. Arminda do Rosário, mulher do Senhor Chico do Rosário.

Alguns anos depois, já em 1940, a vida profissional da D. Arminda foi alterada ao ser transferida para Vila Real de Santo António, por haver poucas alunas a leccionar e a Escola Feminina de Alcoutim passou a ter uma Regente Escolar. Estas razões oficiais nunca convenceram nem a ela nem ao marido.

Quando da Revolta Monárquica do Porto em 1913 ele era militar em Tavira, onde atingiu o posto de sargento, tendo marchado para o Porto com o seu regimento.

Participou no Algarve na revolta de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura Militar, encabeçada no Porto pelo General Sousa Dias. No Algarve a revolta rebentou no dia 4 de Fevereiro com bombardeamento de Faro a partir da canhoneira Bengo comandada pelo 1º Tenente Sebastião José da Costa. O Blog Almanaque Republicano descreve os acontecimentos no Algarve e faz uma lista (que reconhece não exaustiva) de participantes. Refere que foram 174 detidos e recolhidos no dia 20 de Fevereiro na Penitenciária de Lisboa. Constam dessa lista, além do Rosário, Almeida Carrapato, tenente Francisco Ribeiro … e mais alguns amigos dele que conheci em Alcoutim quando lá iam em serviço e o visitavam.

Colaborou ainda em mais golpes contra o Estado Novo, sendo preso e objecto de buscas várias vezes por motivos políticos, mas a sua disposição nunca quebrou e prestou ajuda a perseguidos políticos na passagem clandestina da fronteira.

[Praça da República onde funcionou o comércio da Família Rosário. Anos 60]

Ainda colaborou na mobilização dos seus simpatizantes nas Campanhas eleitorais de Norton de Matos, Humberto Delgado etc. Voltou a ser suspeito e preso, ele e seus filhos por altura da fuga do capitão Henrique Galvão do Hospital de Santa Maria.

O dia da queda da ditadura, 25 de Abril de 1974, já ele não festejou, pois tinha falecido em 1972. Os seus familiares festejaram por ele.

No início da Guerra Civil de Espanha estava em Madrid, deu colaboração aos republicanos e estava em Alicante no final. Consta que chegou a estar preso, com a vida por um fio, de que teria sido salvo por intervenção de um seu adversário das lutas eleitorais durante a Primeira República, de nome Ramires de Vila Real Santo António.

Durante a Guerra Civil de Espanha e no princípio da Guerra Mundial que se lhe seguiu, a correspondência para a família Rosário era lida em primeiro lugar pelo Quaresma um hitleriano e PIDE que era então Chefe da Secretaria da Câmara e Gerente da Delegação da Federação dos Trigos.

Casou com D. Arminda Duarte Rosário. O casamento deles rodeou-se de um aspecto curioso. Estava na hora da cerimónia no Registo Civil e ele ainda estava num dos bancos da Capela a ler o jornal. Foi lá o pai chamá-lo, admoestando-o “não tens vergonha, a noiva e os padrinhos já estão no Registo e tu ainda aqui”. Resposta: “tragam aqui o livro do Registo Civil que eu assino já” e assim foi, levaram-lhe o livro e ele assim ficou casado.


[Cidade de Vila real de Sto. António onde faleceu Francisco Madeira do Rosário]

Um casamento muito duradoiro em que ele foi sempre de muito carinho pela Senhora D. Arminda. Tiveram dois filhos, que se licenciaram em engenharia civil: José Hermógenes Duarte Rosário, falecido no ano passado e Francisco Rosário (de quem eu era muito amigo) falecido em acidente com gás durante o banho. Acompanhei o seu velório e verifiquei que o Pai sentiu um grande golpe com a sua morte. Quando lhe demos um abraço de pêsames ele disse-nos, “eu é que devia estar ali” – já tinha perto de 80 anos.

Morava, já viúvo, nos últimos tempos de vida, em casa do filho José na Praceta José Lins do Rego em Lisboa, e vi-o muitas vezes a ler o Jornal numa pastelaria ali perto no Campo Grande à esquina com a Avenida do Brasil.

No dia 5 de Outubro de 2010, nas comemorações do Centenário da Implantação da República foram descerradas placas toponímicas na vila, que perpetuam três nomes de alcoutenejos ligados à República, entre eles o de Francisco Madeira do Rosário.

Curiosamente, quando éramos membros da Assembleia Municipal de Alcoutim, e se construía o Bairro do Rossio, sugerimos à Câmara (pois a A.M. não propõe), o nome de Francisco Madeira do Rosário para uma rua nesse Bairro. Foi imediatamente recusada. Pareceu-me então, que toda a Assembleia o desconhecia! Fiquei satisfeito por lhe ser dado agora esse reconhecimento.

O que dizemos acima são observações pessoais enriquecidas e datadas por leitura do Blogue Almanaque Republicano, do Blogue + Algarve, da Revista Municipal nº 14 de Janeiro de 2008, da Galeria dos Presidentes de Alcoutim e do Livro QUEM FOI QUEM? 200 Algarvios do Século XX, Glória Maria Marreiros, Edições Colibri, Lisboa, págs 439 e 440.

Considero importante não deixar esquecer esta figura que em muitos aspectos admirámos e estimámos em vida, pelo que aqui fica o meu testemunho, dando a conhecê-la de uma forma mais ampla, mais realista e isenta,

sábado, 23 de outubro de 2010

A razão das nossas razões

Pequena nota

Como é do conhecimento dos nossos visitantes/leitores, existe um intercâmbio entre o JORNAL RAIZONLINE e o ALCOUTIM LIVRE atendendo o benefício que ambos podem obter.
O JORNAL, de grande expansão no MUNDO LUSÓFONO, nomeadamente no BRASIL onde conta com um leque alargado e conceituado de colaboradores tem sido um veículo importante para levar ALCOUTIM a essa e a outras partes do MUNDO como provam as visitas verificadas, nomeadamente do Brasil.
No seu último número o JORNAL que reproduz o nosso artigo sobre a Implantação da República, o nosso Amigo Daniel Teixeira, seu Director, na COLUNA UM faz um comentário, a outros comentários, apresentando aquilo que considera ser a sua razão.
Não deixou de ter uma palavra para os problemas alcoutenejos e é interessante constatar que lhe chama a sua terra (sua no sentir, no amar nas vivências que teve) , quando na realidade não o é, mas sim de alguns dos seus antepassados.
O farense Daniel Teixeira ficou marcado para todo o sempre por esta pobre região encravada na serra do Caldeirão.

Obrigado pelas suas palavras e um abraço do


JV








COLUNA UM
Escreve
Daniel Teixeira




Há dias coloquei a correr no DJ (curso automático) da nossa Rádio Raizonline um spot descrevendo as ambições ou planos ou preferencialmente esquema natural do Jornal e da Rádio que no seu final diz quase textualmente o seguinte: «nós seguimos um bom caminho, os outros é que estão errados», e nesse mesmo final não consegui conter um perceptível sorriso quase riso porque me lembrei daquilo que dizem alguns doentes mentais.

Hoje calhou visitar um Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental e entre algumas afirmações que nem sempre recordo «apanhei» para esta colecção de palavras que aqui segue hoje, que é convicção entre alguns desses mesmos doentes mentais que o «doente mental perigoso - ou com perigo para os outros ou para a sociedade» é aquele que não está «ali» porque eles, de uma forma geral estão medicados, são cuidados, são seguidos por profissionais a quem se atribui competência.

Na verdade faltaria acrescentar que na perspectiva de alguns nem todos os que lá estão (no D. Psiquiatria e S. Mental) serão (doentes mentais a tanto ponto conotativo), que eles é que estão certos (e neste plano referido acima sobre o ser cuidado ou não ser cuidado a lógica é realmente imbatível e terá de se achar que sim) e voltemos ao meu texto afirmação que levou a esta pequena divagação dadas as palavras por mim utilizadas e a conotação geral que lhes é dada.

Temos afirmado desde sempre que o nosso mundo, o nosso ambiente de trabalho se quisermos é aquele que resulta naturalmente da chegada e da complementação dos nossos colaboradores. A nossa actividade enquanto corpo director e redactorial do jornal limita-se a fazer uma gerência quase nula dos conteúdos publicados, a uma organização esquemática para trazer alguma diversidade temática a cada número, a tentar manter que a dado volume de poemas corresponda um volume calculado de contos e a estes um dado volume de crónicas e trabalhos de cultura e etc.

Depois e desde sempre, as coisas têm acontecido naturalmente e se realço hoje este facto é porque realmente interessa re - frisar o mesmo e porque ele se torna bastante fácil de ser visto através da análise de uma «simples» secção - a cultural.
Se seguirmos a ordem de colocação no seu índice próprio, ela também resultante de uma ordem quase aleatória na sua composição, veremos que temos em primeiro lugar o escritor Santomense Francisco Costa Alegre que frisa bem dentro das linhas escritas a condição do escritor em São Tomé e Príncipe e faz mesmo uma comparação entre uma novela depois telenovela e filme de um autor português (Equador, se chama a dita na sua origem) lamentando que a mesma referindo S. Tomé nem sequer tenha lá posto os pés para ser rodada.

A seguir vem o nosso amigo e colaborador Manuel Fragata de Morais que nos conta uma história que mete em jogo também a relação entre o grande e o pequeno, entre o rico e o pobre, entre o europeu e o africano.

O nosso amigo Acas - António Carlos Affonso dos Santos, fala-nos de um cantador cego e da importância do cantador / contador de histórias como elemento relacionado com a população pobre e como elemento credibilizador do noticiado noutros meios de comunicação.

O José Varzeano, que é uma personagem que admiro muito, e não é por falar da minha terra mas sim porque desenvolve um trabalho quase inglório de antropologia - de tudo ao fim e ao cabo - baseando os seus relatos numa região serrenha algarvia que se encontra em vias de extinção depois de ter tido alguma importância no contexto económico e social geral.

A Arlete Deretti Fernandes fala-nos da leitura no Brasil, fazendo referências à necessidade de alfabetização ao mesmo tempo que relata noutro texto a triste sina dos professores sina essa que é quase universal. Na verdade toda a gente (todos os políticos) fazem questão de defender a educação verbalmente e normalmente fazem questão de realizar o contrário assemelhando-se muito à filosofia e história do «soba» esperto que não queria que ninguém soubesse mais que ele (pelo menos durante o tempo da sua vida).

Salto o meu texto que refere Florbela e a filosofia estóica e a análise bem interessante no plano psicológico de Montaigne para entrar da dualidade campo cidade do Afonso Santana.

Dentro de tudo o que aqui descrevo há um fio condutor que pode até considerar-se uma corda daquelas de amarração dos navios.

Seja em São Tomé e Príncipe, seja em Angola, seja em Alcoutim, seja na dualidade campo cidade, na escrita, nos relatos a situação é a mesma no seu plano geral, vistas que sejam as especificidades das preocupações resultantes das histórias locais.

Quem em termos de comunicação social não reconhece isto, não consegue ler de forma clara esta diversidade unificada (e não única) está verdadeiramente errado e nós estamos de facto certos. Só isso...