sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A esteva, arbusto dominante no concelho de Alcoutim

[Esteva florida. Foto JV, 1990]

Há muito que pensava escrever algo sobre este arbusto que domina como mato os solos xistosos do concelho de Alcoutim.

É planta espontânea e própria de locais incultos do sul de França, Espanha e Portugal, sendo mais vulgar no sul nosso do País. Nasce com frequência nos intervalos das rochas, rasga o chão através das fendas dos xistos, conseguindo sobreviver onde poucos o fazem.

Procura solos ácidos não calcários de xisto, granito e quartzo. É um arbusto perene.
Da família das cistáceas (cistus ladanifer) é também conhecida por xara, havendo uma espécie de esteva a que se chama roselha.

[Roselha]
Atingindo até cerca de 2,5 m de altura, as folhas são persistentes e lanceoladas, de verde-escuro na face superior e um pouco mais claro na inferior.

As flores de cinco a oito centímetros de diâmetro compõem-se de cinco pétalas brancas, com um ponto de vermelho sangue a castanho na base de cada uma, sendo os estames amarelos.

Principalmente as folhas apresentam-se recobertas de uma espécie de resina aromática.

Os frutos constituem cápsulas globosas.

Uma das funções da resina é a de proteger a planta contra a acção do calor.

Quando cortada no estado de adulta resiste com dificuldade secando na maioria das vezes, mas quando jovem rebenta no ano seguinte com muito mais força.

É conhecida a utilização da esteva em vários campos: as folhas libertam uma espécie de resina (ládano) usada na perfumaria principalmente como fixador.

O médico português, João Rodrigues de Castelo Branco, mais conhecido por Amato Lusitano (1511-1568) já o utilizava como unguento.

O seu óleo também é utilizado para combater doenças de pele e acredita-se que tem propriedades sedativas.

Sabe-se que a esteva constitui um anti-séptico, anti-bacteriano e anti-viral.

Popularmente nalgumas regiões era utilizada para desinfectar feridas e aliviava as picadas do insectos. Igualmente era usada para combater a queda do cabelo.

É também utilizada na tinturaria para obter um tom verde-escuro.

O que acabámos de referir nem tudo é aplicável ao concelho de Alcoutim, pelo menos que seja do meu conhecimento.

A grande utilidade da esteva prendia-se à sua utilização como bom combustível. Era arrancada a pulso, no Inverno, pois é quando o terreno está mais brando. Atava-se, com a ajuda de outras plantas, como o loendro, aos molhos formando faxinas que umas sobre outras ficavam a secar para na altura própria serem carregadas nos burros que as levavam aos montes, por isso, ao lugar onde as pessoas viviam.

["Arreigota" de esteva. Foto JV]
Eram com elas que se aqueciam os fornos onde se coziam as amassaduras semanais do indispensável pão, base da alimentação. Por outro lado era a esteva que alimentava o fogo em que se faziam as refeições, muitas delas confeccionadas em panelas de barro.

Por estes dois pontos compreende-se facilmente a utilidade da esteva na vida comunitária.

Mas não fica por aqui a sua utilidade .

O seu uso como prego em várias situações, por exemplo, cortiços para abelhas e para fazer agulhas.

Na feitura de pequenas paliçadas para protecções de vários tipos, principalmente de carácter agrícola, na cobertura de abrigos para animais e ainda protegendo árvores novas do dente nocivo dos animais.

Com a modificação da vida e o abandono dos campos, os estevais vão naturalmente desenvolvendo-se. Hoje, protegem os coelhos e lebres, perdizes e javalis dos seus predadores. Tendo-se desenvolvido de um e de outro lado dos caminhos, muitos deles já não dão passagem ao homem que hipoteticamente poderia passar por lá.

Os veados que já vão existindo no concelho de Alcoutim encontram neles um bom refúgio e segundo afirmam os entendidos, as cápsulas do fruto da esteva proporcionam às mães fornecerem melhor leite aos cervatos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Alcoutim - Recordações II

Pequena nota
Vamos publicar hoje uma “nova” Recordação do nosso colaborador e Amigo, Daniel Teixeira, Director do Jornal RAIZONLINE e que foi publicada no nº 100 daquele Jornal, o 1º número de Janeiro de 2011.

Daniel Teixeira não é alcoutenense pelo nascimento mas tem no concelho de Alcoutim dois dos seus costados, facto que procura não esquecer, como mais uma vez o demonstra.

Na realidade o autor do artigo que tem por título” Manuel Inácio, que fora Palmira”, publicado neste blogue em 6 de Agosto de 2010 é da autoria do nosso colaborador Gaspar Santos e não de Amílcar Felício, como admitiu Daniel Teixeira.
São muito interessantes estas recordações de Daniel Teixeira que vêm enriquecer o património oral alcoutenejo e que desconhecíamos em grande parte.
Ficamos esperando por mais.


JV






Escreve

Daniel Teixeira





Pedindo de novo as minhas desculpas ao amigo José Varzeano por estar a retirar-lhe a integralidade da página / tema (os seus trabalhos espevitam-me a memória) gostaria de recordar aqui algumas das minhas memórias recolhidas sobre este tema dos médicos de alguma forma considerados milagreiros que se encontram normalmente referidos em memórias de sítios ou locais mais pequenos e predominantemente referidos como médicos dos pobres.

(ver texto do José Varzeano aqui)

O Dr. João Dias, referido pelo José Varzeano será um caso à parte e como tal será referido e lembro-me concretamente que a primeira memória que tenho de ouvir falar dele através da minha falecida mãe - «especialista» em memórias e de grande memória até ao final da sua vida - foi a já por mim referida ao José Varzeano no seguimento de um artigo de um colaborador do Blogue Alcoutim Livre - salvo erro o Amílcar Felício - história da mudança de sexo de um homem que tinha nascido com uma deficiência nos órgãos genitais e que fora considerado mulher seguindo um costume médico na altura e dados os conhecimentos e meios imperfeitos que havia nesses tempos: «Em caso de dúvida, fá-la mulher» ao que me consta ensinava-se entre colegas médicos (agora obstetras) na altura.

[O médico Dr. João Francisco Dias]

Encontrei vestígios desse tipo de comportamento na forma não médica quando do estudo de alguns livros de antropologia através da referência em tribos indígenas tanto em Africa como na América e mesmo na Oceânia tudo levando a crer que tal comportamento tomado de forma natural tenha tido lugar em todas as partes do globo. Não havia problemas em termos sociais evidentes durante o período da infância mas em despertando a puberdade o caso acabava por tornar-se complicado mesmo nessas sociedades primitivas.

Estas pessoas normalmente eram colocadas numa casta social específica acabando por tornar-se pessoas com direitos desiguais e normalmente relegadas para a exclusividade dos trabalhos domésticos ou auxiliares, cuidar de crianças, etc. não participando de forma activa na hierarquia normal da sociedade ou tribo, dependendo sempre em termos sociais e económicos dos progenitores (ou a quem fossem vendidos/vendidas). Breve, não eram nem uma coisa nem outra (homem ou mulher) o que visto segundo a linearidade lógica espontânea das sociedades primitivas teria a sua razão de ser: eram elementos desestabilizadores em estruturas delineadas secularmente: não li no entanto nada que me levasse a pensar que houvesse ou tivesse havido eliminação física dessas pessoas. (Radcliff-Brown e Daryl Forde, Engels, Espinas, Morgan, Bachofen, R. Fortune, etc.).

Ora e em relação a esta «operação - cirurgia» do Dr. João Dias foi-me relatado pela minha melhor fonte neste plano (minha mãe) que a pessoa um causa (uma mulher com pelo menos aparente genitália «feminina» mas hormonas masculinas ) era reparada pelo facto de acompanhar muito com os homens e de dar preferência à companhia destes em vez de se integrar no meio que lhe era considerado - artificialmente mas oficialmente - natural, o meio feminino. Este reparo serve apenas para fazer notar o «distúrbio» social que o seu comportamento mais livremente efectuado levantava milhares de anos depois das tribos primitivas e do que se falava sobre o assunto embora tivesse o contra de ser um meio relativamente pequeno.

A outra referência memorial que tenho, menos médica e até um pouco humorada refere-se ao facto de me ser apontado o sítio «exacto» onde o carro do Dr. João Dias tinha ficado avariado durante dias até que o levaram à força de bestas e cordas tendo isto acontecido no caminho cercado (de cercas) da portela do Monte das Velhas. Chamava-se Portela à «porta» de saída para o Monte mais próximo por vezes, outras vezes o mais frequentemente acedido por essa tal de Portela.

[Monte das Velhas. Foto JV, 2009]

Este preciosismo quanto ao local exacto do evento funcionava assim como que um ponto de honra para o pessoal de Alcaria Alta até por razões para mim paradoxais - tinham tido o carro do Dr. João Dias, ali, precisamente ali, durante dois ou três dias. O motivo da deslocação seria uma consulta a alguém do Monte (ao que me lembro um familiar de um Lavrador) e naqueles tempos para haver uma ida ou pedido de vinda de um médico - do único médico, diga-se - era porque já tinham falhado todas as tentativas caseiras.

[Vista parcial do monte de Alcaria Alta. Foto JV]

Aparentemente o Dr. João Dias teria enveredado directamente da estrada Alcoutim (Quatro Estradas dos Balurcos) - Martinlongo e metido pelos terrenos de cultivo que naquela zona até são bem planos e teria chegado até ali (percorrendo talvez 6 a 10 kms de cultivo ou mato, depende da altura) vindo da direcção do Monte das Velhas em linha quase recta para Alcaria Alta. Ali chegado as lajes e as pedras irregularmente compostas no solo puseram fim à sua viagem...mas não à sua tarefa, vindo logo gente buscá-lo em besta.

Ora estas referências dão alguma quase magia aos acontecimentos: automóveis talvez houvesse mais alguns na sede do Concelho mas não mais que um ou dois, seguramente; médico o Dr. João Dias era o único (havia outro o Dr. Mendonça mas para os lados de Cachopo) e quem fizesse uma operação daquelas também só havia uma pessoa (tanto para a fazer como a quem ela poderia ser feita); alargue-se tudo isto a toda a região algarvia, isolada ainda do resto do país pela Serra do Caldeirão e por uma estrada com as tradicionais nunca contadas 365 curvas, com um caminho de ferro incipiente (o troço Faro - Vila Real de Sto António foi completado em 1906) e teremos um trabalho verdadeiramente heróico da parte do pessoal de saúde em zonas de mais difícil acesso.
A capacidade de improvisação era necessariamente grande e a falta de medicamentos tanto por não existirem como por serem sempre caros para quem praticamente não conhecia o dinheiro tornavam as situações propícias à legenda popular e a algum exagero milagreiro.

Em Faro (cidade) tivemos do Dr. Silva Nobre, também conhecido médico dos pobres, que também tem um busto em frente à casa onde habitou e onde foi o seu consultório, em frente a um Banco, rodeado de cervejarias e lojas de pronto a vestir e em Faro/Loulé a Dr.ª Fernanda Mealha, dermatologista e especialista conceituada em lepra, e força da especialidade - e não só - também considerada médica dos pobres, há poucos anos falecida, num relativo esquecimento, erradicada que foi - quase - a lepra.

A lição que pretendo tirar de todo este conjunto de referências acaba por responder um pouco à pergunta que o José Varzeano faz directamente e deixa também implícita outra parte no final do seu texto: o mito popular médico, tratar dos pobres, «fazer milagres» ou tratar dos mais pobres entre os pobres como o dizia Madre Teresa de Calcutá (ela também praticamente esquecida) não rende outra memória senão a memória popular. E esta, como sabemos, sendo curta de geração não tem forma de ser relembrada porque o orgulho institucional nos seus filhos ainda é bem mais curto.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O cemitério da Vila de Alcoutim - da origem aos nossos dias

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 10 e 17 DE MARÇO DE 1988)


[Cemitério da Vila de Alcoutim. Des. de JV]
Cemitério, Campo Santo, “Jardim das Tabuletas, acabam por ser sinónimos, dependendo de quem neles fala ou das circunstâncias em que o faz.

Templos, palácios, castelos, fortalezas e outras obras de arte, aparecem desenvolvidas noutros temas, mas não é vulgar, a nível individual, encontrarmos o mesmo tratamento para os cemitérios.

Habituado desde criança a visitá-los, sempre nos causaram curiosidade aqueles redutos, normalmente cercados de altos muros, desde o misticismo, passando pela monumentalidade, traduzida em sepulturas, jazigos e obeliscos, até aos usos e costumes que rodeiam os enterramentos.

Todos os cemitérios têm a sua história e um cicerone leva-nos junto do artístico mausoléu, do monumento às vítimas disto ou daquilo, de sepulturas que encerram verdadeiros dramas, muitas vezes figurados na decoração, até aos túmulos e sepulturas rasas, de figuras que ficaram na história do pais.

Até cerca da primeira metade do século passado, os enterramentos faziam-se no interior dos templos ou nos adros que lhe pertenciam. Esta prática transformou-se em dever de religião e a ela não foi estranha também a credulidade supersticiosa.

Vem de longe a condenação de tal prática, tendo saído legislação nos princípios do século XIX, nesse sentido.

Foi contudo letra morta e só com a implantação do liberalismo e por decreto de 21 de Setembro de 1835, se criaram os cemitérios públicos em todas as povoações, determinando-se que “cada corpo devia ser enterrado em cova separada”.

É, porém, o Ministro do Reino, Costa Cabral, que em 1844 faz publicar diploma em que determina “que é expressamente proibido enterrar os mortos dentro de qualquer igreja ou capela da freguesia ou concelho, onde houver cemitério público”.

Como várias autarquias tivessem feito saber ao Governo que não possuíam receitas para os construir, legislou-se no sentido de garantir meios para tal.

São conhecidas as revoltas ditas populares que se deram com o pretexto do não enterramento nos templos e foram necessários mais de dez anos para que as populações começassem a aceitar os cemitérios públicos.

[Capela de S. Sebastião vista por Duarte de Armas, séc. XVI]
Para a sua instalação procuravam-se cercas de antigos conventos e outros terrenos que eram património da igreja. Além de se olhar para o aspecto religioso, evitando maiores choques, não era menos considerado o económico.

O decreto nº 13 337 de 25 de Março de 1927, veio estabelecer praticamente as regras dos nossos dias, competindo às autarquias locais a fixação de taxas e outras determinações previstas naquele diploma e legislação posterior. (1)

Depois deste pequeno intróito, para nos situar no tempo e no espaço, procuraremos desenvolver o que se passou no concelho de Alcoutim, com incidência na vila.

Em 1518 sabe-se que … diante da porta primcipall das ilhargas da parede da parte do norte e do sul estaa ho adro da dita igreja (do Salvador) onde se emterrão os defuntos. (2)

Também o adro da Capela de Nª Sª da Conceição, nesta época, servia para enterramentos – e da redor da dita irmida (Capela de Nª Sª da Conceição) estaa o adro dela em que se enterram os defuntos. (3)

Quando a igreja da Misericórdia foi extorquida do seu altar, de pintura marmórea, sofrendo obras que a obliteraram, assistimos à remoção do pavimento, que se encontrava repleto de sepulturas.

É bem cedo que a municipalidade se preocupa com a criação de cemitérios públicos, pois, em sessão de 26 de Julho de 1836, é deliberado oficiar às Juntas de Paróquia do concelho para que de 16 de Agosto em diante começassem a obra dos cemitérios, visto ser o tempo mais próprio. (4)

Não teria dado resultado desejado pois, quatro anos depois, a edilidade decidiu que se passassem as ordens mais determinantes às Juntas de Paróquia para fazerem os cemitérios no prazo de três meses, excepto o de Martim Longo, que deverá aprontar-se dentro de um mês. (5)

Apesar disso, e no que se refere à paróquia de Alcoutim, só em 22 de Dezembro de 1843se realiza uma reunião na “Capella de Nª Sª da Conceição” com os principais cidadãos da vila e da freguesia para resolver o problema.

[Capela do cemitério. Foto JV, 1989]
Além da Câmara, presidida por Paulo José Lopes, encontrava-se o Administrador do Concelho, António Joaquim Pinto, o Prior, António José Madeira de Freitas (tio) e o Ajudador desta vila, a Junta de Paróquia, constituída por Joaquim Madeira, José António Torres, António Joaquim Botelho e Pedro José Roiz e os seguintes cidadãos: Francisco José de Barros e Manuel José da Trindade, como representantes da vila, José Maria Cravo e José Martins Capelo, das Cortes Pereiras, José da Palma de Afonso Vicente, Manuel Lourenço Joana do Vascão, Manuel Conceição, de Sta. Marta, José Nobre, da Corte da Seda, Francisco Vicente, do Torneiro, José Romeira, Manuel Gomes e Domingos Vaz Reis, dos Balurcos, Manuel Dias, da Palmeira, Manuel Henriques, das Laranjeiras, João Martins dos Guerreiros do Rio e António da Palma, do Álamo.

Como se verifica só a vila, Balurcos e Cortes Pereiras possuíam mais de um representante. Os Balurcos e as Cortes Pereiras constituem aglomerados de “montes”.
A reunião tinha por fim tomar humma medida que obste ao prejuízo que ameação os enterramentos dos defuntos nos templos, aonde já não há sepulturas vagas para os continuarem a receber e aonde a lei e as autarquias não consentem que se enterre…

Depois da explicação minuciosa e ponderada do Presidente da Câmara e tomando em conta a urgência de um tão transcendente negócio e os meios de pronto providenciar sobre o repouso legal e decente para os finados, se acordou unanimemente de fazer um cemitério em o sítio de S. Sebastião, ao sul da Ermida, pegado à mesma.

Para o cemitério se fazer era necessário concorrerem com a importância de 80$000 réis todos os fogos da freguesia que, no último lançamento ou rol da côngrua do Prior e Ajudador, pagavam de 950 réis para cima, pagando cada um na proporção dos seus haveres.

Os trabalhos braçais seriam feitos pelos fogos que pagavam verba inferior àquela, entrando neste serviço o das cavalgaduras.

Deliberou-se também que os trabalhadores seriam dirigidos por uma comissão composta pelo Presidente da Câmara, Administrador do Concelho e Prior da Freguesia, à qual cumpria levar a efeito a feitura do dito cemitério, o mais depressa possível, fazendo chamar para o serviço braçal ou habitantes competentes ou suas cavalgaduras, por turnos.

As verbas seriam arrecadadas por José Guerreiro, que para o efeito foi nomeado, competindo-lhe também mandar pagar os utensílios necessários e materiais, pagando aos pedreiros e mais jornais, dando depois conta de tudo.

Acordaram os participantes em nomear como olheiro da obra, José Gregório de Andrade, que era oficial de diligências da Câmara e que veio a falecer em Julho de 1844.

Ao habitante que não trabalhasse com assiduidade e cuidado no dia ou dias que lhe pertencessem, seria tal trabalho considerado nulo.

Deliberou-se, finalmente, que de tudo fosse dado conhecimento ao Governador Civil, pedindo autorização para fazer a derrama e poder obrigar os trabalhadores a dar até três dias de trabalho. (6)

Pelo que fica dito, também o cemitério alcoutenejo foi construído num lugar “sagrado”, terreno contíguo a uma pequena ermida, ou talvez mais correctamente, no adro alargado dessa ermida, situado bastante para além do recinto amuralhado.

Verificamos que junto à porta da capela do cemitério, que tudo indica ser a anterior ermida de S. Sebastião, se encontram pedras sepulcrais (sepulturas) tal como eram feitas nos interiores e adros dos templos. São pertença de famílias gradas da terra e têm carácter vitalício.

Em princípios de 1846 já o cemitério devia estar em funcionamento, visto ser pedido à Câmara autorização para cercar um terreno que fica junto ao rio entre o cercado de Maria Filipa, o cemitério e o cercado de José Pedro Aragão. (7)

Em 1849 levanta-se polémica entre o prior e a Câmara com intervenção do Governo Civil, por causa da concessão de um terreno que, segundo o prior, apertava muito o caminho para o cemitério, no sítio dos Lagares. (8)

O cemitério passa da responsabilidade da Junta de Paróquia para a da Câmara Municipal em 1 de Fevereiro de 1893.

A partir do núcleo inicial, constituído como já dissemos, pelo terreno contíguo e a sul da capela, o cemitério tem sido alargado. A primeira fase teria sido a que se situa a norte e é nela que se constroem as primeiras “catacumbas”.

Qualquer dicionário apresenta-nos o significado deste termo um pouco diferente do que tem em Alcoutim. Aqui, a catacumba, ou “forno”, significa uma espécie de gavetão onde é depositada a urna. Aéreas, são feitas em filas sobrepostas, sendo as primitivas de “barro” e ladrilho, com tecto levemente abaulado. Agora, impera o cimento. Secção rectangular, variando o preço conforme a localização. Nas antigas, tapavam a entrada com uma lápide de epitáfio simples. Nas actuais, válidas por vinte anos, há quem mande tapar a urna com uma pequena parede, reservando o espaço restante para a colocação de fotografias, epitáfios, lamparinas e outros objectos normalmente de uso religioso. Portas gradeadas de ferro ou alumínio protegem e decoram a entrada.

Há no cemitério um único jazigo, já construído no nosso século. Não se vendem sepulturas e os ossários são do tipo das catacumbas.

Duas ou três sepulturas antigas têm pequenos obeliscos.

O cemitério é vedado por altos muros, como manda a legislação e possui dois ciprestes, árvores que simbolizam a morte, a tristeza e a dor.

O portão de acesso é artística peça de ferro forjado, enquadrado em obra de alvenaria em que se destaca uma placa de pedra com inscrições de um pensamento alusivo ao local.
[Sepultura de António Pedro Teixeira. Foto JV, 1989]
Não esquece que uma das primeiras medidas tomadas pela comissão administrativa da Câmara Municipal, após o 25 de Abril, foi a feitura de catacumbas, que já não existiam, para as quais o cofre municipal não dispunha de verba. Valeu na circunstância o auxílio do Governo Civil.

Após aquela data o cemitério voltou a ser aumentado e presentemente mostra-se bem cuidado.

Aqui repousam alguns filhos dilectos, tanto pelo nascimento, como pelo coração. Desta terra, alguns vindos de terras distantes, a seu manifesto desejo ou de seus familiares.

Referir o culto local dos mortos, ainda que completasse o tema iria alongar desmesuradamente este escrito.

Terminaremos dizendo que os povos que antes de nós povoaram esta região deixaram vestígios funerários, formando uma necrópole recentemente encontrada quando dos trabalhos da estrada marginal, mesmo junto ao caminho velho (via romana?), no barrando do Vale de Condes. Estavam visíveis três ou quatro sepulturas e o local merecia a abordagem de peritos.


NOTAS
(1)-Elementos base recolhidos no Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, na História de Portugal, de J Veríssimo Serrão e no Dicionário Enciclopédico Lello.

(2)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, Edição da C.M.V.R.S.António, 1987, pág. 43.

(3)-Idem. Ibidem, pág. 16

(4)-Livro das Actas da C.M.A., nº 1, de 8 de Junho de 1834 a 29 de Abril de 1841.

(5)-Idem, Sessão de 6 de Agosto de 1840.

(6)-Livro dos acórdãos da CMA, de Junho de 1841 a Dezembro de 1849.

(7)-Acta de 23 de Março.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Estatística - Movimento do Mês de Janeiro / 2011




1º ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL! (10 de Junho de 2010)

2º D. FERNANDO DE MENESES, 1º CONDE DE ALCOUTIM (3 de Abril de 2009)

3º A ROCA E O FUSO (21 de Novembro de 2010)

4º CASTELHANOS, UM “MONTE” COM NOME ESPECIAL (13 de Agosto de 2009)

5º ALCOUTIM – RECORDAÇÕES (10 de Janeiro de 2011), colaboração de Daniel Teixeira.

6º CABAÇOS, O ÚLTIMO MONTE POR ESTE LADO DA FREGUESIA… (5 de Agosto de 2010)

7º ALGUIDARES (9 de Junho de 2009)

8º JOEIRA (2 de Setembro de 2010)

9º FESTA DE AFONSO VICENTE (17 de Agosto de 2010)

10º - AGUA-PÉ ALCOUTIM LIVRE (10 de Setembro de 2010)



O Top Ten do mês findo sugere-nos algumas considerações.

Mantêm-se os dois primeiros como os mais procurados durante o mês, tendo contudo havido uma troca de posições pois e surpreendentemente o ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL! é o mais visitado e a uma diferença considerável.

Além destes só se encontra, passando da 5ª posição para a 10ª, ÁGUA-PÉ “ALCOUTIM LIVRE”.

A Etnografia está bem representada com A ROCA E O FUSO (3º), ALGUIDARES (7º) e JOEIRA (8º), o que significa que existe um número considerável de visitantes/leitores que aprecia esta rubrica que em boa hora criámos.

O nosso colaborador Daniel Teixeira com ALCOUTIM – RECORDAÇÕES ocupou a 5ª posição.

O ano de 2011 está representado por uma postagem, 2010 por seis e ainda temos três de 2009, sendo a mais antiga de 3 de Abril de 2009.

Os Montes do Concelho, rubrica que tem os seus apreciadores, está representada pelos montes de CASTELHANOS (4º) e pelos CABAÇOS (6º), substituindo assim os de TACÕES e da MESQUITA.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Festejando o S. Martinho em 2010

Faz parte das minhas tradições festejar o São Martinho com a abertura de água-pé, uma bebida que muito aprecio quando efectivamente é água-pé, com graduação à volta 6/7 graus e não vinho. Tem de constituir a água do pé mas que naturalmente tivesse sido mal espremido para assim conter algum mosto.

O lugar de fermentação deve ser fresco e não conter qualquer outro produto que não seja este a fim da fermentação não ser influenciada por cheiros e odores estranhos.

Apesar de um percalço ocorrido durante a fermentação, a que escapou estava como é habitual, bem cozida e com bom paladar.





A acompanhar-nos, tivemos o grande prazer de ter um casal Amigo, amizade que a escrita proporcionou.

A água-pé foi aberta no dia 11 de Novembro pelas 10 da noite, cozeram-se as castanhas e bebemos uns “canecos”. Um jarro deu para p três! Afinal bebemos pouco!

Esta postagem é dedicada àqueles dois bons amigos, entrados na idade (o que não parece) mas jovens de espírito, ou não se tratasse de um poeta!

Aqui lhe deixamos um grande abraço com votos de boa saúde.

Como pequena nota complementar dizemos que AGUA-PÉ ALCOUTIM LIVRE é das postagens mais visitadas neste blogue.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Recortilha




Estas duas peças não são originárias de Alcoutim. A de cima, em metal (amarelo) é largamente centenária e sofreu uma pequena reparação, pelo menos, há mais de sessenta anos. Hoje constitui para mim uma relíquia e é uma peça de museu. Ainda que o orifício onde gira a roda dentada esteja já um pouco largo devido ao uso, caso haja necessidade ainda está funcional.

O outro exemplar, em oposição, é dos nossos dias e um misto de madeira torneada (cabo) e metal branco.

Entre estes dois modelos existe outro que era o mais vulgar e todo em madeira trabalhada ao torno, incluindo a roda.

Eram vulgarmente designadas por “cartilhas” destinando-se ao corte da massa estendida, desenhando assim as peças para fritar.

Em tempos mais recuados, nem todas as casas tinham esta peça, que além de ser relativamente cara para muitas bolsas, também não se encontrava a vender com facilidade.

Quem não as tinha, não deixava de fazer filhós por causa disso ,pois cortava a massa com uma faca e tinha o problema resolvido.

O problema de hoje não se prende com a recortilha, ao alcance de qualquer bolsa, mas sim com o fazer a massa, que os jovens na grande maioria não deseja aprender, sendo mais fácil comprar as filhós na pastelaria da esquina.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Fernandilho, mais um antropónimo que deu origem ao topónimo



Já aparece referido nas Memórias Paroquiais de 1758 com 7 vizinhos, o que na altura constituía um número médio da freguesia.

Situa-se próximo da margem direita da Ribeira de Odeleite, passando-lhe a nova estrada entre o “monte” e a ribeira. Por sua vez a povoação que tem dois acessos, é atravessada por um barranco que vai desaguar à Ribeira de Odeleite.

Pertence à freguesia de Vaqueiros mas até à reforma administrativa (1836) pertencia ao termo de Tavira.

Situa-se a 40 km de Alcoutim, sede do concelho e a cerca de 10 da sede da freguesia a que pertence.(1) Quem estiver na aldeia de Vaqueiros tomará a E.M.- 506.

O ramal Bentos – Fernandilho, Taipas e outros foram postos a concurso em princípios de 1992.

A povoação recebeu a energia eléctrica em 12 de Dezembro de 1984 (2)

Em 1995 foi aberto um caminho rural com início nesta estrada, na distância de 3 km e que chegou à zona do Barranco da Laje. (3)

Este topónimo único no país é segundo José Pedro Machado um diminutivo de Fernando (4). Parece revelar influência castelhana local (5). Quem foi o tal Fernandilho ou Fernandinho que terá dado origem à pequena povoação é que não será fácil saber.

Fernandinho há vários espalhados pelo país, tal como Fernando e o patronímico Fernandes.

Em 1995 é instalado o telefone público (6) e um ano depois tem lugar o painel de caixas do correio (7).

Procedeu-se à reparação do lavadouro público com a colocação de novos tanques. (8)

[Outro aspecto do "monte" do Fernandilho. Foto JV, 2010]

A construção de um aqueduto para regularização das águas teve lugar em 2002. (9)

Em 2004 é colocada água ao domicílio, (10) ainda que não exista o indispensável saneamento básico.

A construção do parque de merendas tem lugar em 2005 tal como a recuperação do antigo poço público. (11) Os arruamentos são melhorados no ano seguinte. (12)

Foi inaugurada em 15 de Julho de 2006, nesta povoação, a Cooperativa Agrícola de Rega que abrange os “montes” de Fernandilho, Taipas, Alcarias e Bentos e que contava na altura com 40 associados e que tem como principal objectivo a construção de uma barragem, possibilitando assim a rega de terrenos agrícolas. (13) Entretanto está a construir-se um açude com uma capacidade de retenção de 1500 m3 de água.

Em 1991 o Censo Populacional atribui-lhe 46 habitantes e dez anos depois, são 41. Hoje, pouco passarão de trinta.
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NOTAS
(1) – Google Earth
(2) - Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(3) – Alcoutim, Revista Municipal nº 1, Maio/Junho de 1995
(4) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, II Vol. p. 634
(5) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 21, p. 160
(6) – Alcoutim, Revista Municipal nº 1, Maio/Junho de 1995
(7) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12.
(8) – Alcoutim Revista Municipal, nº 8 de Setembro de 2001, p. 13
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p. 8
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p. 9
(11) – Alcoutim, Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005, pp 15 e 16.
(12) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13, de Dezembro de 2006, p. 13
(13) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 15 de Julho de 2009, p. 16

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim, homem culto e requintado

Pequena nota
O presente escrito é uma adaptação, com pequenas alterações, do artigo que publicámos no Jornal do Baixo Guadiana, nº 85, de Maio de 2007 e que tinha por título:-“ D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim – um bom patrono para a Escola Básica Integrada local” já que os dados que referimos sobre a figura, para mim são quase os mesmos que hoje possuo.
Certamente que os responsáveis entenderam que a hipótese apresentada não reunia condições para tal, continuando à espera que surja efectivamente um nome que mereça tal distinção, o que poderá não levar muito tempo a encontrar.
A título puramente informativo podemos dizer que desde Maio até hoje a postagem “D. Fernando de Meneses, 1º Conde de Alcoutim (3 de Abril de 2009)” é a grande distância de todas as outras, a mais procurada no ALCOUTIM LIVRE. Porquê, não sei.

JV

Dos seis fidalgos que usaram o título de Conde de Alcoutim, parece-nos ser este o que no âmbito nacional atingiu maior projecção, já que é considerado uma pessoa com boa formação em todos os aspectos que na época eram importantes e próprios de uma figura de prestígio.

Os genealogistas e historiadores dão-no como tendo nascido provavelmente em Ceuta em 1487 (em 16 de Abril a sua mãe encontrava-se em Alcoutim) e falecido em Santarém em 1543, por isso, com cerca de cinquenta e seis anos.

Além de 2º Conde de Alcoutim, era 5º de Vila Real, e 3º Marquês do mesmo título, 2º Conde de Valença, 5º Capitão de Ceuta e Alcaide-mor de Leiria.

À Casa de Vila Real pertencia a tença da Judiaria de Alcoutim.

Entre muitas outras, foi Senhor das vilas de Valença, Caminha, Valadares, Almeida, Alcoentre, Chão de Couce, Pousaflores, Maçãs de D. Maria, Vagos, Azurara e Pindelo.
Toma o título de Conde de Alcoutim em 1499 quando lhe falece o avô, por isso, com cerca de doze anos e é com essa idade que dá uma lição pública de Retórica na Universidade de Lisboa.

Aos dezassete e com a presença do Rei D. Manuel, pronunciou em latim a oração solene da abertura da Universidade de Lisboa.

Foi discípulo do humanista siciliano, Cataldo Parísio Sículo, que o exalta como modelo de fidalgo renascentista. Foi igualmente aluno de Simão Vaz.

É considerado um insigne latinista tanto em prosa com em verso.

De 1512 a 1527 foi capitão e governador de Ceuta, funções que desempenha com valor militar.
Casa em Dezembro de 1519 com a sua prima D. Brites de Lara, filha do Condestável de Portugal, D. Afonso, filho bastardo do Duque de Viseu, D. Diogo e da Marquesa de Vila Hermosa, sobrinho de D. Manuel I e de sua mulher D. Joana de Noronha.

Deste casamento nasceram cinco filhos, vindo a ser o primogénito o 3º Conde e o secundogénito, 4º , por falta de descendência do irmão. D. Joana de Lara veio a ser pelo casamento, Duquesa de Aveiro; D. Bárbara de Lara, Condessa de Castanheira e D. Maria de Lara foi freira no Convento de Santa Clara, de Santarém.

D. Pedro de Meneses é apresentado como destro e generoso para com os adversários no jogo das canas, toureiro hábil, matando de uma estocada certeira. Bom dançarino, cantor e tocador de harpa. É assim que o define Cataldo Sículo.

Em 1524 e devido ao falecimento de seu pai ocorrido em Almeirim, já possui o título de Marquês.



Em 1526, sai de Lisboa à frente da embaixada que irá entregar a Infanta D. Isabel, irmã do Rei D. João III, a seu marido o Imperador Carlos V da Alemanha ou Carlos I de Espanha.

Esperava receber o título de Duque, o que não veio a acontecer.

[Monumento na Cidade de Ceuta a D. Pedro de Meneses, ascendente dos Condes de Alcoutim]

Em 1534 já se encontrava restaurada a Ermida de Nª Sª da Conceição, na vila de Alcoutim, o que foi feito pelos moradores com o auxílio do 3º Marquês de Vila Real com a dádiva de sessenta e três mil reais. No interior do templo, lá estava a divisa “aleo”.

Igualmente não passa despercebida a mesma divisa em brasão que encima o portal da igreja matriz da vila de Alcoutim.

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BIBLIOGRAFIA

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Vol. II, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História

Enciclopédia Verbo-Luso Brasileira de Cultura. – Edição Séc. XXI

Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zarol

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Estudos sobre o Século XVI, Américo da Costa Ramalho, 2ª Edição, IN-CM, 1982

História do Ensino em Portugal, Rómulo de Carvalho

Azurara, Subsídios para a sua monografia, Bertino Guimarães, Eugénio Freitas e Serafim Neves, Porto, 1948.

“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, Vol. II, 1985.

Archivo Historico Portuguez, Anselmo Braamcamp Freire, Vol II, Lisboa, 1904.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Ensino Primário nas Cortes Pereiras

Antes do ensino primário oficial chegar às Cortes Pereiras, apareciam os chamados mestres de escola que procuravam transmitir o pouco que sabiam a troco de alguns escudos ou de produtos agrícolas, conforme as possibilidades de cada um e o contrato formulado.

Um velho amigo, (1) nascido em 1917 nas Cortes Pereiras e que fez exame da 4ª classe, deslocava-se diariamente à vila, onde estava matriculado na escola, tendo sido aluno do prof. Trindade e Lima.

Segundo me informou outro amigo de Afonso Vicente e há muito falecido, (2) já havia escola oficial nas Cortes Pereiras em 1929, visto ele ter passado do posto de Sta. Marta, que frequentava, para a escola das Cortes que, entretanto, tinha sido criada.

[2ª lugar onde funcionou a escola, no Monte Longo. Foto JV, 2009]

Dizem-me que a escola teria começado a funcionar numas casas no Monte Longo que eram propriedade de António Gomes Alves e como este tivesse tido necessidade delas, cedeu uma divisão para a professora exercer o seu ministério, nas casas onde vivia e que recentemente foram restauradas, igualmente no Monte Longo. Exercia as funções a professora oficial, Maria José Correia.

Houve grandes confusões com esta nova mudança, pois tratando-se de uma casa agrícola havia movimento e os alunos não se concentravam, o lavrador António Gomes Alves resolveu oferecer o terreno necessário, se o povo assim quisesse, para construir uma escola onde o ensino pudesse ser praticado.

A população apoiou a ideia e com o dinheiro de uns e o trabalho de outros depressa puseram as quatro paredes de pé e que ficaram constituindo a escola por onde passaram gerações e gerações de cortes-pereirenses.

Na sua frente fizeram um pequeno pátio que constituía o recreio das crianças.

[Edifício construído pelo povo para funcionar a escola primária, hoje sede da Associação "Unidos do Monte". Foto JV, 2010]

Pelos elementos que me têm fornecido, esta escola deverá ter iniciado as suas funções em 1934 e nestes anos António Gomes Alves era vogal da comissão administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim e foi-o por largos anos.

A professora Maria José Correia que exerceu o lugar por vários anos foi substituída pela professora Maria Celeste Martins que exercia essas funções pelo menos em 1954/1956. (3)

Em meados do século XX a população começa a descer com o abandono das terras e a procura de melhores condições de vida, primeiro com deslocações para a cintura industrial de Lisboa, principalmente na zona sul, depois para o litoral algarvio e mesmo para o estrangeiro, nomeadamente para a França e Alemanha.

As dezenas de crianças em idade escolar começam a descer a olhos vistos e é já numa situação de total declínio que se constrói o último edifício escolar. Este sim com um mínimo de condições para o efeito, até porque obedecia a um plano nacional.

Uma sala, casas de banho, uma cisterna,” hall” e amplo recreio, devidamente murado.

[O último edifício escolar, de modelo oficial e que funcionou nas Cortes Pereiras. Hoje foi adaptada a casa mortuária. Foto JV, 2010]

O número de alunos desceu tão consideravelmente que, cerca de 1980 a escola foi encerrada por falta de frequência. Os existentes começaram a ser transportados para a escola da aldeia do Pereiro, ajudando esta a manter-se por alguns anos ainda que poucos.



NOTAS
(1) – O nosso saudoso amigo, José Martins, vulgo José Coelho, que se fixou em Afonso Vicente.
(2) – António Patrício, vulgo António Pedro, que trabalhou muitos anos na extinta Junta Autónoma das Estradas, onde se aposentou.
(3) – Anuário Comercial.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Bom exemplar de galo



A Câmara Escura de hoje é em “homenagem” ao nosso colaborador e Amigo, Amílcar Felício, para lhe fazer crescer água na boca!

Nos anos 50/60 tal exemplar não teria escapado ao surripianço da malta e daria para grande trupe.

Foi criado num monte próximo da vila de Alcoutim e não em qualquer aviário, mas sim num galinheiro com condições sanitárias.

Ainda que no decorrer dos anos tivessem sido criados outros exemplares de tamanho aproximado, este que limpo ultrapassou os seis quilogramas, tinha, como a foto mostra, uma plumagem magnífica.

A sua alimentação foi constituída por farelos, trigo, folhas de couve e ervas da horta. Os caracóis constituíam um petisco especial e que motivava grande reboliço na capoeira.

Não o provei visto ter feito questão de ser destinado ao meu meeiro. Regalei-me com outro, um pouco mais pequeno e de cabidela, coisa que hoje raramente se come e quase ninguém conhece.

Amílcar, tenho muita pena, mas pelo meu lado, o galinheiro acabou por falta de assistência.