domingo, 10 de julho de 2011

Quinta-feira de Espiga



Apresentamos mais uma fotografia cedida para esta rubrica pelo nosso amigo e colaborador Amílcar Felício que além de o fazer com a sua prosa e poesia também o faz nesta área de igual importância.

Vem rotulada como passeio ao campo em dia de espiga e no ano de 1953. Já se passaram uns anitos e nessa altura ainda havia gente em Alcoutim!

O que menos interessa para os nossos visitantes / leitores são os nomes das pessoas. Será mais importante reparar na maneira de trajar, nas várias faixas etárias e nos notórios ramos de espiga que se vêem no regaço das jovens, uma das quais reconheço nitidamente e moradora na vila.

O Dia da Espiga é (era) celebrado no dia de Quinta-feira da Ascensão de Norte a Sul do País com algumas pequenas variações mas sempre com o mesmo sentido sagrado e com reminiscências de cultos pagãos.

É considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar, pois nele, acreditava-se “que havia uma hora em que tudo parava, as águas dos ribeiros não corriam, o leite não coalhava e o pão não levedava”.

Pelo menos da parte da tarde ninguém trabalhava e iam aos campos colher as plantas para “o ramo da espiga” e onde não faltava a espiga de trigo, que simbolizava o pão, o malmequer, o ouro e a prata, a papoila o amor, o raminho de oliveira em flor o azeite, a luz e a paz, e a videira o vinho e a alegria. Estas eram as mais tradicionais, mas havia quem lhe juntasse outras.

Era tradição que o raminho fosse pendurado atrás da porta principal da casa para que nela pudesse existir tudo aquilo que os vários componentes simbolizavam e só se retirava no ano seguinte com a substituição de um novo.

Era normal almoçar ou merendar no campo nesse dia.

Tudo isto hoje não passa de uma recordação já longínqua e que os jovens desconhecem de uma maneira geral.

sábado, 9 de julho de 2011

Crónicas Soltas - A huskvarna

Pequena nota

Apresentamos hoje mais um texto do nosso amigo e colaborador Daniel Teixeira que descreve com realismo e sabor picaresco as suas vivências em Alcaria Alta, monte da freguesia de Giões, concelho de Alcoutim, em meados do século passado.
Nessa altura, ainda a aldeia fervilhava de gente. Hoje está quase desabitada!


JV

(Publicado no Jornal Raizonline nº 106, de Fevereiro de 2011)







Escreve


Daniel Teixeira





Lembranças, recordações, saudades...são só as boas.
Tenho já falado por várias vezes nisto, aliás falo sempre nisto, desta forma, quando me refiro ao passado. Aquela parte do passado que nós vamos buscar nas nossas recordações é na sua larga parte o bom naco do tempo, a parte idílica, a parte melhor, o presunto, o cozido de couve, o arroz doce, ou mesmo as «nuvens» ou «sonhos» ou as filhoses, as empanadilhas com batata doce, o bom pão saído do forno e comido, logo ali, partido aos bocados com as mãos e mergulhado num prato de esmalte florido e decorado com mais um fundo de azeite bem verdinho e sal grosso.

Que belo momento meu deus, este do pão, que belo tempo, que bela lembrança, que coisa simples e que ideia nova que os montanheiros foram buscar: viver no simples, com meios simples e fazer deles, desses meios simples, dessas coisas simples, valorosos momentos: lembro-me bem do largo sorriso da minha mulher, citadina de gema, quando foi confrontada com esta inusitada merenda e este inusitado momento.•
Sentada nas pedras soltas da cerca - ela que ainda hoje tem medo das então abundantes lagartixas - e mandando também às urtigas os receios com a manutenção da «linha», era vê-la a molhar o pão e a rir como uma criança crescida. Pão quente com azeite e sal: quem se lembraria disso?

Pois...eles, os montanheiros, as mulheres dos montanheiros trouxeram esse momento desde o tempo dos seus avós e bisavós e mais que se lhe segue para trás : passavam homens e mulheres vindos das hortas chocalhando as asas dos baldes e a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda», via o seu pão cozido a desaparecer mas não se importava: ela tinha tempo, com três filhas e meia dúzia de hortas para regar, marido sempre ausente no pastoreio, tinha tempo...naquele tempo ela tinha tempo. Hoje, já não (!)...ou tem todo o tempo do mundo.

A última vez que a vi, passados não muito largos anos, andava com um andarilho arrastando-se pela casa e era tão diferente, tão diferente, a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda» ... O tempo é de facto um cavalo, como dizia o meu Tio Zé Teixeira, expressão que na altura e agora se compreende bem e talvez melhor por aqueles lados...pelos lados da serra. Anda muito depressa, o tempo, tão depressa que nem o vemos. Mas ele passa mesmo e deixa rastos bem vincados na terra e muito mais ainda nas pessoas.

O «tiro e queda», o marido da Ti Chica cujo nome real não me vem à memória tal a sua falta de ligação ao Monte, era pastor, daqueles pastores de grandes rebanhos, de centenas de cabeças. Durante os tempos que por lá andei ainda miúdo vi-o apenas uma vez, já de partida, calças repletas de remendos bem certinhos, como era uso, seifões de pele de ovelha acorreados na cintura e nas pernas, quatro ou cinco camisas e blusas «para não deixar entrar o calor» e o indispensável colete de bolsinhos elevados mostrando correntinhas de ferro presas nas botoeiras: canivete, bolsa de tabaco, isqueiro, carteirinha, tudo era preso à roupa por aqueles lados. Deixar cair alguma coisa era nunca mais a encontrar no meio das pedras, das ervas, do chão crestado ou enlameado, no emaranhado de estevas.

Corria as serras em busca de erva e uma ou duas vezes por ano ele e o rebanho acampavam em montes vizinhos de Alcaria Alta. Era quando ele vinha ao Monte e vinha ver a mulher: «dar o tiro» dizia-se por lá com ar de algum gozo.
Mas ele não tinha cara de merecer ser alcunhado, foi o que eu disse para mim quando o olhei bem: porte endireitado, ar sociável, quase contente por ver gente, pequenino mas ligeiro e rijo deu-me os bons dias sem nunca nos termos visto com um sorriso simpático e isso bastou - me para que ele ficasse a ser, para mim, ainda um miúdo a crescer na escola, um senhor, um senhor dos montes e das serras. Um navegador dos tempos secos, uma pessoa que vivia durante semanas de quase nada: pão, presunto, azeitonas, um ou outro tomate colhido numa horta ou a fruta raquítica daquelas paragens.

Talvez pescasse pensei...talvez em ratoeiras apanhasse coelhos, talvez, talvez...certo era para mim que ele não merecia ter aquela alcunha ou qualquer outra. «Tiro e queda»...mesmo que fosse: e era mesmo queda, depois do tiro.

Quer dizer a mulher ficava grávida ou pelo menos passados uns meses começava-se a notar a barriga na Ti Chica. Com pouco que falar para além de falar do trabalho estas coisas eram notadas, apontadas e maliciosamente faladas entre ela e as outras mulheres. «Ora...Ora!! Lá estão vocês!!» E ria a Ti Chica, como ela ria...
Teve «apenas» três filhas, contudo: a «fábrica» parou antes do tempo por causa daquelas coisas que acontecem às mulheres e só às mulheres depois de uma doença mais rebelde.•

Mais tarde, eu, casado de fresco, fiz centenas de fotografias daquele tempo e caso me tivesse esquecido de como era a Ti Chica e as suas filhas tinha sempre essa cábula: praticamente fotografava tudo o que mexia e o que não mexia; as hortas, apesar de pobres estavam bem decoradas de verdura, as árvores, mesmo as mais feias como as figueiras quase deitadas ou as alfarrobeiras, algumas centenárias, tinham sempre um pássaro ou alguma coisa que justificasse o clique.

Guardo essas fotografias todas num álbum: as moças da Ti Chica, de 14 / 15 anos, de jeans meia perna, tão bonitas que elas eram: uma de cabelos encaracolados louros, duas de cabelo castanho e ruivo. «Mal empregadas» naqueles montes, naquelas terras, regando hortas, indo ao poço, levando comida ao porco de engorda, tratando da lida da casa, cozendo roupa ou fazendo meia, vieram para a cidade...vejo uma de quando em vez: está tão velha cá como estaria lá apesar da relativa pouca idade.

Há tempos encontrei - ou fui antes encontrado - por um familiar da Ti Chica: trabalha num talho. Não me lembro dele lá mas lembro-me da mãe da Ti Chica e do padrasto de quem ele é sobrinho: a Ti Maria Joaquina, casada em segundas núpcias depois de enviuvar, de voz grossa, geria a casa: o marido já bastante mais velho que ela ainda percorria o monte apoiando-se num cajado. Moravam no Rossio...engraçado como uma Monte com tão pouca gente tinha tantos «bairros»: Era o Além, o Castelo, a Praça, a Portelinha e a Portela.

A Portelinha dava para sair para Santa Justa e lados de Vaqueiros; a Portela dava para sair para Giões, para Martinlongo por uma nesga de estrada e o resto a corta mato e mais que se encontrasse pelo caminho. O Além, o bairro do Além, era mesmo além, depois do Rossio. A Praça era mesmo uma praça, quer dizer um espaço empedrado vazio com uma fileira de casas só de um lado e duas outras em esquina. Por vezes aparecia a lógica: havia a Ti Mari Joaquina da Praça e a Ti Mari Joaquina do Rossio, esta a mãe da Ti Chica do Castelo.

Hoje nada mais por lá há: dizem-me que o Monte está mais arranjadinho, que os homens andaram a alcatroar as estradinhas e que roubaram a máquina de costura da minha avó: uma verdadeira antiguidade, uma relíquia, uma Huskvarna. Tac tac tac...tanta roupa que ela coseu, tanta costureira que ela ensinou...bem merece ter alguém que volte agora a cuidar dela.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Canga para bestas



Jugo ou canja são sinónimos na língua portuguesa. Enquanto nalgumas regiões do país usam jugo, noutras preferem a canja, o que acontece na região de Alcoutim.

São peças que se destinam a subjugar dois animais ainda que também as haja só para um e neste caso chamam-lhe normalmente cangalho.

No sul do país existem canjas para bestas (muares ou semelhantes) e são de ferro e em formato como a foto apresenta.

Aos paus entre os quais se fixa o animal à canga, chamam-se canzis.

As cangas usavam-se nos trabalhos de lavoura e quando animais de tracção.

Noutra altura referiremos as cangas para bois com a mesma função e muito diferentes destas.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os moinhos queimados



Transmitido pelo que escreveu o prof. Tindade e Lima em 1973 num semanário regional, anotámos o seguinte no nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, p.91: Dos Moinhos Queimados, próximo da vila, dizem que várias vezes tinham sido reconstruídos mas que os raios sempre os fulminavam, naturalmente atraídos pela natureza do terreno onde estavam erguidos.

Quando neste blogue publicámos em 5 de Julho de 2010 “Os moinhos de vento”, além de referirmos o que o alcoutenejo escreveu, acrescentámos o que obtivemos por via oral: Estes moinhos são (ou eram) também conhecidos pelos moinhos do Cerro dos Cadavais ou dos Escrivães. À roda deles ainda gira uma estória diferente da que acabámos de referir e que procura justificar a razão por que “ardiam”.

Dizia o povo... que o escrivão Manuel Torres (1) criou um imposto que era denominado popularmente por lágrimas das viúvas. Com o seu produto foram construídos os ditos moinhos, mais tarde destruídos por um raio. Reconstruídos, vieram a ter a mesma sorte.

O povo explicava o caso por castigo de Deus devido à origem do dinheiro, que consideravam não justa e ilegal.

Mas afinal, porque voltámos aos moinhos queimados, haverá alguma coisa a acrescentar?

Em recente pesquisa encontrámos um assento de óbito lavrado pelo P. António Madeira de Freitas (tio) de que respigámos: Às 6 da tarde de 21 de Junho de 1865 no moinho de vento extramuros desta vila, faleceu José Mateus, de 13 anos, solteiro, jornaleiro, morador na vila de Alcoutim, filho de Mateus Xavier (2) e de Josefa Martins, sendo vítima de um raio.

Admitimos que este moinho extramuros da vila seja um dos designados depois por moinhos queimados já que não conhecemos outros nas suas proximidades.

Significa isto que estas estórias/lendas acabam por ter algum fundamente, que com o decorrer dos tempos se vai deturpando, porque quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto, como diz a sabedoria popular.


Notas

(1) - Manuel (António) Torres, foi Presidente da Câmara e depois seu secretário durante muitos anos, exercendo também as funções de Provedor da Santa Casa da Misericórdia e figura de destaque no concelho no século XIX. É possível que por essas alturas tivesse sido criado qualquer imposto, não pelo escrivão, que não tinha competência para isso, mas pelo órgão executivo municipal de onde o mesmo teria feito parte. O povo ligou estes assuntos procurando encontrar uma justificação para o acontecido.
(2) – A família Mateus Xavier ainda existe na vila, admitindo tratar-se da mesma.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Em lugar de destaque

[Irá ficar assim?]

Os órgãos de comunicação social badalaram há dias os resultados provisórios do Censo Populacional de 2011 e foi a vez, como é habitual de Alcoutim ocupar um lugar de destaque (pela negativa) sendo o concelho que em todo o País teve a maior percentagem, de diminuição de população residente, isto em contrapartida com o que se passou genericamente no Algarve.

A percentagem obtida é de 23, 21 % , o que é bastante significativa, verificando-se um aumento considerável em relação ao censo anterior, calculada em 17,53 %.

Desde 1960 que é notória a diminuição da população com o abandono para outras regiões em procura de melhores condições de vida, o que é legítimo e se aplaude. Cintura industrial de Lisboa e de Setúbal e depois o litoral algarvio quando o turismo se começou a desenvolver, primeiro no fornecimento de mão-de-obra para construção, depois no comércio, nomeadamente na restauração.

Por outro lado a França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo principalmente foram destino de muitos alcoutenenses.

Se é verdade que o decréscimo populacional se inicia na década de 60 atingindo 28,08%, inicia-se um travão em 1981, pois a percentagem passou para 21,23, continuando a descer na seguinte (1991) para 13,14.

A partir daí tem sido sempre a subir, pois passou para 17,53 em 2001, encontrando-se agora em 23,21%.

É evidente que não existe uma varinha mágica para modificar esta situação e seria quase impossível invertê-la, contudo, acreditamos que seria viável uma estabilização ou pelo menos colocar o travão, que não se verifica.

Não somos ingénuos para acreditar que o mal vem das regras do Ordenamento do Território, significando isto tentar tapar o sol com uma peneira. Não contestamos que poderá ter alguma importância mas distante de ser a única.

O fenómeno não é exclusivo do concelho de Alcoutim, alberga todo o interior do país e onde muitos políticos procuram inverter a situação, quase sempre sem o conseguirem.

Tudo isto tem a ver com variadíssimas situações nas quais não podemos escamotear os erros de políticas inadequadas e praticadas a nível nacional e local. Isto é o que nos parece ser a verdade.

Alcoutim praticamente não produz nada a não ser como couto cinegético em que se transformou, mas isso é uma gota de água para as suas necessidades. A florestação vai produzindo os subsídios, mas já se vêem muitas zonas abafadas pelos matos. O desenvolvimento verificado é muito lento e veremos quando atingem a maturidade. E os incêndios?

[O futuro previsto será este?. Foto JV, 2010]

Os campos deixaram de produzir cereais como tinha que acontecer e a “riqueza” que constituía a amêndoa desmoronou-se como um baralho de cartas devido a muitos factores principalmente ao desconhecimento técnico. Os alcoutenejos semearam as suas amendoeiras como os árabes o fizeram e não conheciam as castas adequadas ao terreno e clima!

Quem os auxiliou nessa tarefa? Ninguém. Hoje, não se apanha uma amêndoa e servem de alimento aos javalis.

Não são os vizinhos espanhóis que estão a plantar olivais no Alentejo como os portugueses nunca fizeram? Ainda há dias ouvimos na rádio dizer que os espanhóis estavam a arrendar terrenos em Elvas para semear alhos!

São estas pequenas coisas que originam grandes diferenças.

Não é possuir umas dezenas de postos de trabalho nas autarquias que resolve problemas deste tipo, como é por demais evidente e até acontece que há quem viva noutros concelhos.

O assunto merece uma abordagem séria com troca de opiniões emanadas de sectores diferentes e de pessoas conceituadas e habilitadas nessas áreas de intervenção.

Se assim não for, a derrapagem continuará a acelerar e dentro de vinte anos a grande maioria dos “montes” estará completamente despovoada.

Esta é a minha opinião que aqui expresso como cidadão contribuinte do concelho.

Para terminar e nem tudo ser negro diremos que as Câmara de Alcoutim e de Terras do Bouro, das mais pobres do país, são os municípios que pagam mais rapidamente aos seus fornecedores ou seja, num prazo de 3 dias! Valha-nos isso.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Por amor (Poema)

Pequena nota
Mais um excelente poema que José Temudo oferece aos leitores do ALCOUTIM LIVRE, cheio de realismo e de actualidade.
Eu penso como o poeta pensa, a grande diferença é que não sou capaz de o transmitir em verso e muito menos em palavras harmoniosas.
OBRIGADO José Temudo por mais este belo poema que os nossos leitores irão apreciar.

JV





Poeta



José Temudo



Quando, um dia,
ao acordar,
ficar sentado,
em silêncio, parado,
sem pensar,
sem vontade,
vazio de amor e de amizade,
sem desejar
ver nada nem ninguém,
nem a manhã que principia,
nem a mulher que me quis bem;
quando, no meu olhar,
já não houver
nem tristeza, nem alegria,
nem esperança, nem desespero,
mas só indiferença, sem tempero;
quando chegar o dia, essa hora,
não há que reflectir:
por favor,
ajudem-me a ir embora,
a, sem demora, partir.
POR AMOR!




Hoje eles, amanhã nós!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Estatísticas - Movimento do mês de Junho / 2011




1º - A CHARRUA (2011.05.26) – 40

2º - AS ROMÃZEIRAS (2009.07.22) – 29

3º - DIOGO DIAS, UM DOS VÁRIOS CASOS EM QUE O ANTROPÓNIMO… (2010.08.18) – 23

4º - DO TRIGO DE SEMENTE ATÉ À FARINHA (2011.05.10) – 22

5º - RIBEIRA DA FOUPANA (2010.06.27) – 18

6º - O CEMITÉRIO DA VILA DE ALCOUTIM, DA ORIGEM AOS NO.. (2011.02.02) – 16

7º - ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL (2010.07.10) – 16

8º - O CANIÇO (2009.07.08) – 15

9º - 4º CONVÍVIO-FESTA 2010 MONTE DOS TACÕES (2010.08.23) – 14

10 – 1ª FEIRA DE ARTESANATO DE ALCOUTIM (2010.06.12) – 14


Aqui estamos mais uma vez e como já vai sendo hábito para apresentar o movimento do ALCOUTIM LIVRE segundo os parâmetros que já indicámos convicto do que dissemos seja efectivamente verdade.

O top ten traz naturalmente grande mexida em relação ao mês anterior. Mantiveram-se ALCOUTIM LIVRE, IMPARÁVEL! que de 2º passou para 7º, a 1ª FEIRA DE ARTESANATO DE ALCOUTIM que de 3º passou a 10º e DO TRIGO DE SEMENTE ATÉ À FARINHA que de 7º subiu ao 4º lugar.

O mais procurado foi A CHARRUA contemplando assim a rubrica Etnografia.

Os dois montes do concelho do mês passado caíram aparecendo contudo DIOGO DIAS, UM DOS VÁRIOS CASOS EM QUE O ANTROPÓNIMO DEU ORIGEM AO TOPÓNIMO que ocupa a 3ª posição.

O ano mais representado é o de 2010 com cinco, seguido de 2011 com 3. De 2008 não aparece representante.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Barroso, monte airoso da freguesia de Martim Longo



Barroso é uma pequena povoação pertencente à freguesia de Martim Longo. Situa-se entre as Mestras, a 1,5 km e a Arrizada, a 2,5, outras duas pequenas povoações da mesma freguesia.

Passa-lhe relativamente próximo, a cerca de 1000 metros, a ribeira da Foupana.

Entre este monte e a Arrizada passa a estrada nº 124 que liga toda esta zona da serra do Caldeirão ao Algarve litoral.

A estrada, que lhe dá acesso, é a que percorre o planalto do Pereirão, freguesia de Martim Longo cuja principal povoação é o monte do Pessegueiro, possivelmente o monte mais importante de todo o concelho de Alcoutim.

Quando o visitámos, era um lugarejo muito airoso, florido, com as casas bem cuidadas, pelo menos aquelas que vimos.

A notícia mais antiga, que possuímos e como acontece quase sempre, é a que nos dá as Memórias Paroquiais (1758), ainda que o pároco não tenha indicado discriminadamente o número de vizinhos.

Também sabemos que a pastorícia tinha lugar de destaque e em 1774, Silvestre Roiz (Rodrigues) manifestava na Câmara o seu gado constituído por bovinos, ovinos e caprinos.

Em 1797 o padre da freguesia, Manuel Machado de Athaíde, no “rol da desobriga pascal”, refere nesta povoação as casas de João Rodrigues Castanho, Maria Dias, António da Palma, António Fernandes, Silvestre Rodrigues, José Dias Neves, José Neves, José Fernandes e José Rodrigues Dias. (1) Verificamos assim que o manifestante de gado, possivelmente lavrador, cerca de vinte anos depois aparece referido.

Abordaremos agora o topónimo que nos aparece referido seis vezes no país, sendo uma delas dando o nome a uma serra. Segundo José Pedro Machado (2) provém do adjectivo barroso “em que há barro”, “abundante em barro” e já estudado por Leite de Vasconcelos.

[Vista parcial da povoação. Foto JV]
O feminino barrosa é mais frequente, identificámos 17 (3), além de muitos mais no plural e outros com raiz idêntica.

A nível de população, Silva Lopes não o refere no quadro anexo à sua Corografia do Algarve, (1841) onde indica o número de fogos em relação ao ano de 1839.

Do que se conhece, o auge populacional é alcançado com 83 habitantes em 1940. Em 1911 já possuía 82. Em 1960 já se encontrava em decréscimo (77), passando a 63 em 1970 e 40 em 1981. (4)

Dez anos depois, 1991, o respectivo censo indica o mesmo número de habitantes em dezoito fogos mas vinte anos passados o número deve ter descido consideravelmente em sintonia com o que aconteceu no concelho.

As crianças frequentavam a escola da Corte Serranos que ficava a uma distância de 3,5 km, hoje, se as houver, têm que se deslocar a Martim Longo a 10,5 km.

A energia eléctrica foi inaugurada em 4 de Dezembro de 1985 (5) e em 1989 foram concluídos os fontanários. (6)

A construção de um pontão com passadeiras foi uma obra importante para a população.(7) Existe uma barragem de terra.

Em 1998 foi colocado um painel de caixas do correio (8) para em 2001 a água ser levada ao domicílio. (9)

O Clube da Caçadores de Ferradouro mantém uma zona de caça associativa.

Dista 40 km da sede do concelho.



Notas

(1) – Os Montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos, Edições Cosmos, 1993, p.30
(2) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte / Confluência, 1993, p. 224
(3) – Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.
(4) - Os Montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos, Edições Cosmos, 1993, p.74
(5) – Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985
(6) – Boletim Municipal nº 5 de Setembro de 1989, p 5
(7) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4, de Dezembro de 1996, p 8
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, p 11
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p. 12.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A nordeste de todas as histórias



Publicado em 1999 e editado pela Câmara Municipal de Alcoutim com o apoio da Associação IN LOCO, é constituído por 71 páginas de 24X16,5 cm e ilustrado por variadíssimos desenhos em consonância com os temas abordados.

É seu autor José Manuel Simão que reuniu 9 histórias que a sua pena retrata com minúcia e o espírito de observação e proximidade não deixou que lhes escapassem.

As 9 histórias têm por título: 1 Serra S.O.S. Cultura, 2 Os Anos da Fome, 3 Guadiana: Memórias do Contrabando, 4 Na Rota do Carvão, 5 O Ciclo do Linho, 6 Monda até Casar, 7 Quando o Entrudo era Entrudo, 8 A Pesca no Guadiana e 9 Uma Batida às Raposas.

Pelo título do trabalho e das histórias pode verificar-se que têm muito a ver com o concelho de Alcoutim.

José Manuel Simão é um alcoutenejo por quem temos muita estima. Penso que ainda preside à Associação ALCANCE.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Coisas alcoutenejas - A oliveira na economia concelhia



Pequena nota
Nesta rubrica do blogue que permite aos mais jovens leitores tomarem conhecimento de artigos publicados na imprensa regional, neste caso há dezassete anos, incluímos hoje este que se mantém de certa maneira actualizado, pelo menos na sua essência histórica.
Pensamos que muitos dos” menos jovens” leitores desconhecem igualmente esta publicação que realizámos num semanário onde então colaborávamos.

JV

(PUBLICADO NO MAGAZINE DO JORNAL DO ALGARVE DE 30 DE ABRIL DE 1994)

O tema que vamos abordar foi-nos sugerido pelo último que fizemos vir a lume e deste tipo talvez venhamos a publicar mais algum.

No nosso trabalho já aqui várias vezes indicado, a ele nos referimos quando falámos da agricultura, das saboarias e da oleicultura. Pensamos que na altura escrevemos o principal da tríade oliveira, azeitona e azeite.

Oito anos passados sobre aquele trabalho, além de uma ou outra pequena transformação operada, adquirimos mais conhecimentos documentais, aperfeiçoámos os orais, efectuando ao mesmo tempo uma observação mais incidente sobre o assunto.

***

A oliveira, originária da Ásia Menor, propagou-se por toda a zona mediterrânica. Em Portugal deverá ser anterior ao domínio romano, povo que nos deixou o seu nome.

Existe do norte a sul do país, não gostando contudo das nortadas agrestes nem dos ventos do mar.

O seu cultivo desenvolveu-se na época muçulmana, povo que nos deixou o nome do produto da sua maceração, o azeite, que guardava em potes e talhas de barro, tal como a azeitona, pratica que chegou aos nossos dias.

A oliveira era considerada na Antiguidade como um símbolo de sabedoria, de Paz, de abundância e de glória.

***

Os olivais, no Algarve, não se prantam de estaca … porque não prendem por causa da terra ser seca; mas logo a natureza proveu de tantos zambujeiros que, nacendo nas próprias fazendas e pelos montes, convidam os homens a lhe fazer benfeitoria; nem se sente nisto falta algua, informa-nos o sempre consultado Frei João de S. José. (1)

No século XVI a enxertia dos zambujeiros continuava, A sua forte raiz originava bons olivais com apreciável produção.

Na freguesia de Vaqueiros aproveitavam os zambujeiros, arrancando alguns melhores que enxertavam, transportando-os depois para cercados que fazem nalguns pedaços menos fragosos, a fim de os livrar dos estragos do gado (2) que era abundante.

Ainda hoje se pode verificar esta prática por todo o concelho, que só não é mais utilizada pelo abandono da terra e consequente falta de braços.

De todo o concelho, é a freguesia de Alcoutim a que possui mais oliveiras, existindo alguns pequenos olivais, Já Silva Lopes dá notícia de um excelente olival na várzea do Pontal. É nas várzeas do Guadiana que existe um maior número de oliveiras, principalmente nos sítios designados por Premedeiros, Lourinhã, Abrigo, Vale de Condes, Vinagre e Grandaça.

[Oliveiras numa horta. Foto JV]

As margens das ribeiras e dos barrancos são outros dos locais onde se desenvolvem, ainda que em menor número.

Chegam a aparecer no cimo dos serros, onde apanham algum “veio de barro”, mas naturalmente o porte é pequeno. É nas várzeas do rio que atingem maior volume, havendo exemplares de porte avantajado.

A Corografia Portuguesa, do Padre Carvalho Costa (1712) refere que Martim Longo recolhe algum azeite. Já em 1639, Rodrigo Mendes Silva, aponta Alcoutim como uma zona de produção de azeite, acompanhada no Algarve por Loulé, Tavira e Faro.

Em 1888 o Presidente da Câmara informa o Agrónomo Chefe da 9ª Região Agrária, com sede em Loulé, que “neste concelho até à presente data não tem aparecido nas oliveiras moléstia alguma. (3)

[Olival na Lourinhã. Foto JV, 2011]

Várias castas existem na zona, sendo a mais vulgar o maçanilha branco. Verdeal, cordovil e galega são outras das existentes.

A primeira azeitona a apanhar é vendida para conserva e os compradores aparecem em princípios de Outubro. Nos primeiros dias de Novembro, apanha-se para britar, retalhar, para água e só depois para o sal e azeite.

O varejo faz-se com canas. É tradição local que as oliveiras molhadas, quando varejadas, deixam de dar frutos por largos anos!

No chão colocam-se panos para facilitar o apanho. Só se utiliza o varejo nas azeitonas destinadas ao fabrico do azeite.

O transporte das pequenas sacas de linhagem fazia-se e ainda se faz em muitas casas, ao dorso de asininos que já começam a rarear no nordeste algarvio, onde existiram em grande número, como o maior auxiliar do homem do campo.
A produção de azeite é sempre referida quando é necessário informar o que o concelho produz.

Para demonstrar o interesse que a oliveira tem para os alcoutinenses, bastará dizer que existem destas árvores em terrenos de outros, o que nunca encontrei em qualquer outra parte. Isto acontecia porque em partilhas as oliveiras eram criteriosamente divididas.

Por vezes as terras iam passando de mão em mão, mantendo-se as árvores na posse de outros. Algumas vinham de herança que já não era possível determinar.

A azeitona, para o alcoutenejo, desempenha um papel importante na alimentação.

Utiliza-a como acompanhante nas refeições, de quatro maneiras:- britadas, retalhadas, de sal e de água.

As britadas são pisadas com uma pedra (quem tem, pisa com um maço de madeira) de maneira que o caroço não se parta. Deitadas em água, adoçam com a mudança frequente da mesma principalmente se for quente. Depois, temperam-nas com orégãos ou erva-das-azeitonas, casca de laranja, alho esmagado sem se lhe tirar a pele e sal. Com as retalhadas que, como o próprio nome indica, são golpeadas, procede-se da mesma maneira e pelo que sabemos, assim se passa noutras zonas do país.


[Azeitona maçanilha. Foto JV, 2010]

As azeitonas de sal são algo sui generis destas zonas, pelo menos não o encontrei em qualquer outra parte do país e quando pergunto aos meus amigos e conhecidos de outras zonas, nunca encontrei ninguém que conhecesse este sistema de conservá-las.

Escolhendo as azeitonas já roxas e mais gradas, vão se colocando às camadas num cesto de cana ou num cortiço, polvilhando-as convenientemente de sal. Quando se utiliza o cesto, é hábito colocar no fundo uma folha de couve. A acção do sal vai fazendo mirrar a azeitona que começa a engelhar e o líquido vai escorrendo. Quinze a vinte dias depois podem-se começar a comer. Retiram-se do recipiente, passam-se por água bem quente para tirar o sal e ao mesmo tempo, incham. Depois são passadas por um fio de azeite e ficam prontas a servir. É curioso que sendo conservadas em sal, acabam por não ser salgadas. Constituem um aperitivo bastante agradável que os alcoutinenses ainda não souberam aproveitar convenientemente, no aspecto gastronómico.

[Azeitonas britadas]
Restam as azeitonas de água que o alcoutenejo conserva em potes ou talhas de barro, como os árabes que por aqui passaram, já faziam. Ultimamente os potes de barro começaram a ser substituídos por vasilhas plásticas, mais duráveis, de limpeza e transporte mais fáceis e que não ganham mau gosto, nem “salitram”, como acontece com o barro. Ainda por cima, são muito mais baratos!
[Azeitonas de sal]
Para calcular a quantidade de sal que a água deve levar, coloca-se nela um ovo que à medida que a salinidade aumenta, vai subindo na água até atingir a superfície, altura em que a salmoura fica em condições. Depois, é deitar na água as azeitonas escolhidas entre as maiores e mais sãs. Duram de ano a ano e sempre em boas condições.

A maçanilha é a melhor para conserva.

É tradição que antigamente as azeitonas se adoçavam no rio. Metidas em sacos que se prendiam à margem, às quatro marés ficavam boas!

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Como dissemos no escrito anterior, os alcoutenejos faziam o azeite e o vinho nas “queijeiras” que descrevemos como pudemos e apresentámos dois modelos.

Agora, acrescentamos as alfaias:- Um pequeno vaso de barro, um pilão. Uma saca, uma caldeira de bom tamanho para aquecer a água e duas panelas para cozer o azeite.

Esta prática ainda a encontrei a espaços, nos fins da década de sessenta dos nossos dias.

[Velha oliveira no "rossio" da Vila. Foto JV, 2011]

O primeiro lagar que apareceu nas redondezas, foi um de varas nos Balurcos e por volta dos anos cinquenta, industrializado, outro junto da vila e ainda funciona. Dizem-me que entretanto instalaram outro nos “montes do rio”.

Na época própria, aparecem compradores de azeitona, ou a troca, que colocam em lagares, alguns distantes, Por vezes, arranjam comissionistas nos “montes”.

Em 1989 as oliveiras, sem excepção, carregaram de azeitona de uma maneira que não há memória entre os anciãos locais. Ninguém se lembrava de tal! Mesmo as oliveiras há muito abandonadas e onde o bravo domina, deram frutos!

A azeitona era tanta que não havia braços suficientes para a apanhar. Entretanto, começou a chover, a azeitona já madura caiu e foram os javalis e o gado que a aproveitaram.

A madeira, depois de seca, aproveita-se para fazer cadeiras, principalmente as travessas, já que a sua rijeza é imprescindível nessa utilização.

É preciso não esquecer que as saboarias pretas de Alcoutim estavam na mão de Lancerote de Franca, almirante das galés de D. Fernando, (4) passando em 1385 por deliberação de D. João I para Afonso de Franca, filho do primeiro contemplado. (5)

No fabrico de sabão, como se sabe, uma das matérias primas é o azeite e as suas borras.

Zambujeiro deu origem a dois topónimos no concelho – Fonte Zambujo, na freguesia do Pereiro e Zambujal, na de Vaqueiros.

Para terminar, indicamos a prova “provada” da importância que a oliveira representa para o concelho:- o brasão da vila comporta “ramos de oliveira frutados de sua cor”.

O destaque heráldico da oliveira, como fruto, é significativo no contexto económico do concelho.


NOTAS
(1) “Duas descrições do Algarve no século XVI” – Cadernos da Revista de História Económica e Social, Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, Livraria Sé da Costa Editora, 1983.
(2) Corografia do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(3) Ofício nº 32, de 19 de Março de 1888.
(4) História de Portugal, Vol. I, Joaquim Veríssimo Serrão, 1977, pág. 358.
(5) Dicionário de História de Portugal, Joel Serrão (Dir. de)