segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Cavalinhas cozidas com batatas



Este prato torna-se típico da Serra Algarvia devido à abundância de tal espécie piscícola nos mares algarvios.

Trata-se de um prato normal de peixe cozido com batatas.

A diferença, que lhe encontrámos, tem a ver com o facto de o peixe ser cozido, com bastantes orégãos, o que lhe dá um sabor especial, depois de previamente salgado.

As batatas são muitas vezes cozidas com a pele.

As cavalas, que por aqui aparecem, são normalmente de pequenas dimensões e daí o prato ser conhecido por “cavalinhas cozidas com batatas”.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Hilário da Palma Ventura, dos alcoutenejos mais inteligentes que conheci



Isto da escrita, só a sabe compreender quem a pratica.

Nunca escrevi por amizade e muito menos por encomenda, o que é prática vulgar. Nunca tive vocação para jornalista, mas sempre me senti bem a escrever, nem que fosse cartas para os amigos.

Lembro-me bem que quando cheguei a Alcoutim com os meus 28 anos, salvou-me do isolamento a circunstância de manter correspondência com dezenas de pessoas desde familiares a amigos.

Talvez não passasse um dia sem escrever para alguém.

Vem este pequeno intróito a propósito de tentar alinhavar meia dúzia de palavras sobre um saudoso amigo e não o faço por uma questão de amizade mas sim de justiça, pelo menos no sentido em que a tenho.

Conheci Hilário da Palma Ventura em 1975 quando com a esposa é colocado no Centro de Saúde de Alcoutim.

Não foi difícil entabular conversação e amizade com aquele alcoutenejo nascido no monte da Palmeira e originário de uma família rural.

Para aprender a ler e a escrever e obter aprovação no exame da 4ª classe, tinha de se deslocar diariamente aos Balurcos e se a memória não me atraiçoa, mais tarde à aldeia do Pereiro, onde faz exame da 4ª classe.

A criança Hilário, logo após a 4ª classe, tem de contribuir para o rendimento familiar e o seu primeiro trabalho é na estrada em construção entre Mértola e Vila Real de Santo António e sabem em quê? Como apontador. Escrevia bem e era eficiente nas contas. O encarregado viu logo o tipo de trabalho que era mais adequado. Tudo o que fosse de escrita passava pela sua mão com a supervisão natural do encarregado. O pai, o Sr. Ventura, que ainda conheci bem, era um dos trabalhadores braçais que ia vencendo a sua jorna.

Pouco tempo depois, alguém lhe arranja trabalho no Seminário de Faro, onde é trabalhador indiferenciado.

As suas capacidades não passam despercebidas à classe eclesiástica que procura um meio para que possa mudar de vida.

Bispo ou acessores conseguem obter da parte do Governo um subsídio mensal para que o jovem pudesse tirar o curso de auxiliar de enfermagem que realizou na cidade de Coimbra. Deve tê-lo feito com altas classificações mas sobre tal aspecto nunca se pronunciou.

[A entrada da Palmeira vendo-se a escola há muito desactivada. Foto JV, 2011]

Começou logo a trabalhar no Hospital da Universidade de Coimbra. Faz, entretanto, o Curso Geral dos Liceus e de seguida o Curso Geral de Enfermagem, pois só com habilitação deste tipo o podia realizar.

Casa com uma colega e como eram ambos de pequena estatura, os estudantes de medicina e os jovens médicos diziam com amizade que iam viver para o “Portugal dos Pequeninos”.

É instado por médicos e colegas no sentido de cursar medicina, respondendo-lhes sempre o mesmo que me respondeu: - Prefiro ser um enfermeiro razoável do que um mau médico.

Resolve ir com a esposa para Angola, onde trabalham por conta própria na então cidade de Nova Lisboa, hoje Huambo, e aí se encontrava quando se dá o 25 de Abril. Regressa naturalmente a Portugal com a esposa como já disse e é colocado no Centro de Saúde de Alcoutim acabado de inaugurar aparecendo aí jovens médicos no trabalho à periferia.

Hilário Ventura passava os tempos livres lendo tudo o que podia sobre a sua profissão. Tinha explicação técnica para tudo mas não a manifestava, a não ser em condições especiais.

Tenho algumas estórias a contar sobre ele.

Hilário, quando vem trabalhar para Alcoutim, era praticamente desconhecido dos alcoutenejos que se admiravam ao saber que era natural da Palmeira.

Um dia, no antigo café de João Guerreiro, na altura já arrendado, estava eu a falar com o enfermeiro Hilário e o Dr. João Dias, que já exercia a sua actividade em S. Brás de Alportel e que o conhecia dos tempos de Universidade. Entretanto, chegou outra pessoa que depois do enfermeiro sair perguntou ao médico:- Que enfermeiro é este? - e isto devido à sua baixa estatura . O Dr. João Dias respondeu de imediato: - Tomaras tu ter um quarto da inteligência que ele tem. Nunca me esqueci disto.

Pelo contacto que já tinha tido com ele já me tinha apercebido que além de ser um bom profissional era uma pessoa inteligente e culta, agora confirmado pelo Dr. João Dias.

Quando o meu filho que por volta dos 5 / 6 anos fez uma pequena cirurgia no Hospital de Loulé e o cirurgião soube que Hilário Ventura era enfermeiro em Alcoutim, disse-me logo que não era preciso lá ir para fazer o penso e tirar os pontos pois tinha plena confiança no trabalho do enfermeiro e efectivamente foi ele que o realizou. Ainda hoje o meu filho se lembra disso.

Um dia, ao cair da noite, estava em casa dele conversando enquanto fazia o jantar, visto que a esposa estava em Faro a frequentar qualquer curso ligado à profissão. Chega alguém à porta a chamá-lo. Apagou o fogão e veio logo para o Centro de Saúde. Vim, naturalmente, com ele. Era fim-de-semana e não havia médico. Traziam um indivíduo do Vascão que tinha dado um grande trambolhão quando andava a aprender a andar de motorizada. Trazia uma das pernas bem escalavrada. O enfermeiro Hilário deitou mãos à obra e eu ia ajudando naquilo que podia, pegando aqui e ali, dando isto ou aquilo. Fartou-se de coser e o paciente ia aguentando com estoicismo as dores. Aquilo metia-me uma certa impressão. Não sei quantos pontos foram, sei que foram algumas dezenas.

Depois de levarem o homem tratado para casa, voltou-se para mim e disse-me:- mas porque é que eu fiz isto e não mandei o homem para Vila Real?! É que eu só posso fazer isto mandado por um médico que assume a responsabilidade. Assim, se algo correr mal estou metido em trabalhos.

Hilário Ventura sabia que na 2ª feira de manhã tinha um jovem médico no Centro de Saúde em quem confiava.

No domingo, pegou no seu carro e fomos os dois ao monte do Vascão para saber como o doente estava e na segunda-feira de manhã foi buscá-lo para o médico ver e avaliar o trabalho.

Correu tudo bem e anos depois falei algumas vezes com o sinistrado recordando o assunto. Infelizmente já faleceu.

Havia um indivíduo, que era um homenzarrão e natural de Alcoutim, que tinha problemas psíquicos. Quando aparecia na vila era um terror, ainda que segundo parece, nunca fez mal e ninguém. Acabou por ir parar ao Centro de Saúde onde o enfermeiro Hilário, com a sua franzina figura, resolveu tecnicamente a situação. Hoje, já ninguém se lembrará disto.

Mais “estórias” teria para contar, mas as que deixo referidas são suficientemente justificativas.

Hilário Ventura era um acérrimo defensor da medicina preventiva, sobre a qual me fez imensas explicações alicerçadas em conceitos e elementos estatísticos que coleccionava.

Fez um levantamento populacional do concelho, com o auxílio de moradores nos montes, e onde entravam a indicação de doentes crónicos e outras situações que não posso precisar. Organizou um grande mapa onde todos esses elementos estavam referidos para uma orientação dos serviços primários.

Utilizei, no meu primeiro trabalho sobre Alcoutim, alguns destes elementos no que se refere à população dos “montes”, aliás, como é referido no texto.

Era fácil calcular que Hilário da Palma Ventura não iria permanecer por muito tempo em Alcoutim.

[O Palheto, o Barranco e o Cerro (Palmeira). Foto de JV, 2011]

Salvo raras excepções, como aconteceu com o Dr. João Francisco Dias, qualquer profissional permanecia muito pouco tempo em Alcoutim, por tudo o que isso encerra.
Alcoutim deu e continua a dar um grande número de profissionais de enfermagem. Quantos exercem a sua actividade em Alcoutim? Que eu saiba, nenhum. Quantos exerceram? Que eu saiba só o Hilário.

Quantos chefes de Repartição de Finanças pediram a sua colocação em Alcoutim? Que eu saiba, só um e muito transitoriamente. Todos os outros, mesmo com o lugar vago, rumaram para outras paragens.

Quantos tesoureiros da Fazenda Pública pediram a sua colocação em Alcoutim? Ainda que o lugar estivesse vago, dos dois que existiram, um pediu a sua colocação em Peniche e o outro em Faro.

Nada disto significa menos amor pela terra natal, significa sim procurar evoluir nas suas carreiras profissionais e ter melhores condições de vida, mesmo que aqui pudessem estar isentos de IRS.

O dinheiro nunca foi nem será para muitos tudo na vida. Faz falta mas outros valores se “alevantam”.

Hilário da Palma Ventura foi exercer em 1978 ou 79 a sua profissão, de que tanto gostava, para a cidade de Faro e na década de 80 ainda teve a amabilidade de me visitar na cidade onde resido desde 1980.

Fez parte, na qualidade de independente, do primeiro executivo da Câmara Municipal, eleito após o 25 de Abril.

Faleceu na cidade de Faro em 1998. Jaz no cemitério da vila de Alcoutim.

Não deixou descendentes.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Banco Alimentar contra a FOME do Algarve recolhe 170 toneladas

Pequena nota
Atendendo a que o Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve teve a amabilidade de nos fornecer os resultados alcançadas na acção desenvolvida e de que fizemos eco neste pequeno espaço, vamos partilhá-los com os nossos visitantes / leitores, alguns dos quais certamente prestaram a sua colaboração.
JV



O Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve angariou, no passado fim-de-semana, em mais de 140 locais distribuídos por todo o distrito, cerca de 170 toneladas de alimentos.

Atualmente, o BACFAlg presta assistência a 73 Instituições locais de Solidariedade Social que, por sua vez, distribuem os alimentos a cerca de 15.500 pessoas carenciadas em toda a região Algarvia, sob a forma de cabazes ou de refeições confeccionadas.

A nível nacional, quer as quantidades de alimentos recolhidas como o número de voluntários envolvidos, ultrapassaram todas as expectativas. Cerca de 36.000 voluntários ajudaram a recolher 2.950 toneladas de géneros alimentares. Um resultado que permitirá ajudar 2.047 Instituições de Solidariedade Social e 329 mil pessoas com carências alimentares comprovadas.

Ao longo da próxima semana, até 4 de Dezembro, haverá ainda a possibilidade de contribuir para os Bancos Alimentares Contra a Fome via online, a partir do site www.alimentestaideia.net. A nova plataforma, que se caracteriza por uma grande simplicidade, permite comprar por multibanco ou visa, ao mais baixo preço do mercado, um conjunto de 6 produtos alimentares essenciais para ajuda às famílias.

Também até 4 de Dezembro, prossegue a Campanha “Ajuda Vale”, nas lojas Pingo Doce/Feira Nova, Dia/Minipreço, El Corte Ingles, Jumbo/Pão de Açúcar, Lidl e Modelo/Continente, onde serão disponibilizados, em suportes próprios, cupões-vale de produtos selecionados (azeite, óleo, leite, salsichas, atum e esparguete).

O Banco Alimentar Contra a Fome do Algarve agradece a generosidade de todos quantos participaram em mais uma campanha de recolha de alimentos, quer através da doação de alimentos quer pelo seu trabalho voluntário, fazendo a diferença num cenário de grave crise económica e social.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Pequenos Apontamentos - Bairrismo

(PUBLICADO NO JORNAL POVO ALGARVIO, DE TAVIRA, DE 28 DE JUNHO DE 1973)






Escreve


Trindade e Lima



De tarde, e enquanto esperávamos a hora de jantar, juntavam-se alguns dos usufrutuários do pavilhão cá fora no pátio. Palestrava-se, tocavam-se impressões e uma tarde perguntámos a um dos circunstantes de onde era natural. “ Do concelho de Oliveira do Hospital “ esclareceu-nos ele.”É um concelho onde existe S. Gião”acrescentámos nós , talvez atraídos pela aproximação semântica ou semelhança fonética com Giões do nosso concelho. “ É a minha terra natal”, acalorou-se o nosso interlocutor . E aqui fazemos uma pausa para formular uma pergunta :- Não teria sido uma família constituída por indivíduos com o nome de Gião que deu o nome àquela aldeia? Continuemos “Conheço um indivíduo natural de lá “ e declinei um nome. “Conheço muito bem, pertencemos à Comissão de Melhoramentos da nossa aldeia” o que nos foi depois confirmado pelo nosso conhecido.

[Um aspecto de casario em Giões. Foto JV, 2011]

Temos reparado que para o norte do país, talvez com acentuada preponderância nas Beiras, há nas pequenas aldeias Comissões de Melhoramentos que têm a sua sede em Lisboa. Os naturais de lá e que lá vivem, conjugam os seus esforços e o seu entusiasmo com os que emigraram e trabalham todos em favor do seu torrão que nunca esqueceu e fazem progredir.

O que se nota para o sul do país’
Uma apatia que chega a ser desinteresse. Assinalamos no Algarve os concelhos de Loulé e de S. Brás de Alportel que parecem constituir uma etnia aparte. Ali existe um bairrismo estuante, que já foi mais vivo, mas que volta a reanimar-se. Por que não hão-de os algarvios constituir as suas Comissões de Melhoramentos e dedicar-se a elas com entusiasmo e carinho? E há tempo que fazer...

Não nos iludamos e obcequemos com o barulho que se faz e os balões que se erguem.

Somos de um concelho por onde ainda há pouco passou uma alta entidade governativa. Na sede do concelho, falando com uma senhora que encontrou, perguntou-lhe: - “A senhora vive bem aqui? Isto traduz mágoa, dó, pelo abandono, pelo esquecimento a que estas regiões estão votadas. Não vale a pena espevitar este adormecimento para uma vida mais activa e sã?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Estatísticas - Movimento do mês de Novembro / 2011



Como temos vindo a fazer e dentro dos esclarecimentos anunciados, apresentamos o top ten do mês findo que nos revela algumas curiosidades, começando logo pelo que encabeça a lista.

1º - A ALDEIA DO PEREIRO E O SEU TOPÓNIMO (04.03.2010) – 160

2º - O “MONTE” DO MARMELEIRO – O LUGAREJO... (20.09.2011) – 54

3º - FORMA DAS FILHÓS DE ROSA – (02.01.2011) – 31

4º - ALCOUTIM NECESSITA DE MAIORES ATENÇÕES – 25

5º - A MEDIDA DO TEMPO – (11.09.2010) - 24

6º - PASSEIO PEDESTRE – QUINTA-FEIRA, 8 DE DEZEMBRO DE... (21.11.2011) - 24

7º - FERRARIAS, MONTE SUBSIDIÁRIO DA MINA DA COVA DOS MOUROS (14.06.2010) - 23

8º – HÁ 78 ANOS EM ALCOURIM! (17.11.2011) - 20

9º - AS ROMÃNZEIRAS – (22.07.2009) – 18

10º - A CRIAÇÃO DE GADO BOVINO – (26.06.2011) – 18


A ocupação do 1º lugar com uma postagem do 1º trimestre de 2010 surpreende principalmente pelo número alcançado, até agora nunca acontecido durante um mês.
O motivo para que tal tivesse acontecido, desconheço-o completamente.

Do Mês anterior só restaram dois, A MEDIDA DO TEMPO que passou da 6ª posição, para a 5ª, o que não nos surpreende visto aparecer quase sempre no top ten mensal e ALCOUTIM NECESSITA DE MAIORES ATENÇÕES (Ecos da Imprensa) que de 10º posição passou para a 4ª.

A nossa rubrica de Etnografia, com uma grande abrangência e interessados de todos os cantos do Mundo, está representada pela FORMA DAS FILHÓS DE ROSA que ocupa o 3º lugar.

Não deixa de ser curiosa a posição ocupada por PASSEIO PEDESTRE – QUINTA-FEIRA, 8 DE DEZEMBRO DE..2011, evento de que aqui demos notícia.

A nível de montes do concelho, além do MARMELEIRO temas aqui referência igualmente ao das FERRARIAS, freguesia de Vaqueiros.

AS ROMÃNZEIRAS, talvez por ser época delas, aparecem na 9ª posição e A CRIAÇÃO DO GADO BOVINO fecha o top ten.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tesouros do Artesanato Português


Este interessante volume, que tem por base trabalhos em Madeira, Fibras Materiais Afins, é uma edição com a reconhecida qualidade da Verbo de Novembro de 2001-

Os textos são de Teresa Perdigão e a fotografia de Nuno Calvet.

De formato 23X31 cm, tem 205 páginas de bom papel fortemente ilustradas e de encadernação industrial cartonada.

O concelho de Alcoutim está representado pela “Flor da Agulha” (Martim Longo), apresentando várias bonecas (págs. 134 a 137) e duas fotos de artesãs a trabalhar.

Mas não fica por aqui a participação do concelho de Alcoutim, visto a página 160 ser preenchida por várias peças de cana, de tamanhos e formatos diferentes e que são obra do cesteiro António Francisco Ramos de Alcaria Queimada , freguesia de Vaqueiros.

Adquiri o conjunto de volumes, quase a preço simbólico, numa Feira do Livro que teve lugar na cidade onde habito.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Termo de Alcoutim em 1791




Escreve


Gonçalo Roiz Vilão



Ao pesquisar por livros e jornais do final do século XVII, mais concretamente no ano de 1795, deparei-me com um artigo do Jornal de Coimbra, escrito por José Feliciano Castilho, que descrevia o estudo da viagem ao Algarve feita em 1791 por Luís António de Oliveira Mendes, membro da Academia de Ciências de Lisboa, que percorreu o Algarve e visitou o concelho de Alcoutim. Descreve o estado das estradas, a ausência de pontes e a falta de máquinas no despontar da industrialização, as diferentes culturas da vinha, da oliveira. Faz-nos compreender as dificuldades da labuta árdua que os homens e mulheres do termo de Alcoutim viviam nestes tempos para levarem o pão á boca das suas famílias.

Surpreendeu-me por trazer aos dias de hoje alguns aspectos desta zona que embora pudéssemos imaginar, não tinha a ideia de ficarem registados. Uma época acontece e perde-se nos anais do tempo e da memória se não for registada e com este registo fica mais uma partilha sobre o nosso concelho:

[Alcoutim visto por Duarte de Armas. Livro das Fortalezas, séc.XVI]

“ No anno de 1791 em que viajei o Algarve tomei conhecimento, que os Espanhoes colhiaõ a Salicornia, e algumas especies de Salfola, que nascem espontaneamente nas vizinhanças de Faro, e depois de fazerem a combusttaó destas plantas levavaõ as cinzas para Espanha; porém como a sahida delas exigiaô alguns direitos na Alfandega da dita Cidade, ha mais de dez annos, que deixando de fazer semelhante colheita nesses sitios a praticaõ nos sapaes da Moita. O termo de Alcoutim abunda muito em Loendro (Nerium Oleander ), dele tiraô os Espanhoes as cinzas que levaõ para Espanha , e segundo as informações que tive no anno de 1790 levariaõ nesse anno 120 alqueires das ditas cinzas.”

As estradas em 1791:

“São de huma absoluta necessidade as Estradas no Algarve; porque à excepção da de Castro Marim até Tavira não observei em todo aqueile Reino no anno de 1790 huma só, que excedesse muito de tres palmos de largura.
A falta d' Estradas causa no Reino do Algarve males incalculáveis. (Como podem haver carros faltando os caminhos, por onde elles se possáo mover? Não havendo Estradas e carros difficulta-se muito o fabrico das casas, de que percisáo os lavradores para viver, e outros usos ruraes. Que despeza e trabalho náo terião para acarretar em bestas a pedra necessária para fazer hum edifício?

No anno de 1790 me informarão no Térmo dÁlcoutim que, quando querião levar a mó de algum moinho para o lugar do seu destino, era ella conduzida pela força de quarenta ou sessenta homens por subidas e descidas violentas consumindo muito tempo e despeza, e ordinariamente acontecendo graves perigos. A falta de Estradas difficulta, e até impossibilita o carreto dos estrumes, de que percisáo as terras, a importação e exportação das pròducções da Natureza, e Industria.”

As pontes:

“Não causa menos detrimento na Agricultura, e Commercto do Algarve a falta de Pontes, que n'elle se observa. Em todo este Reino desde o Cabo de S. Vicente até Villa-Real de Santo Antonio apenas se encontrão duas Pontes, huma em Loulé, e outra em Tavira sem embargo de elle ser cruzado com difFcrentes ribeiras e rios, que tem origem nas Serranias de Caldeirão e Monchique, que engrossão muito com as chuvas do Inverno. No anno 1790 me informarão no Têrmo d´Alcoutim, que por não haver Ponte na ribeira da Pouparia muitos Lavradores no tempo do Inverno percisavão dar huma volta de duas Iegoas e meia., para irem lavrar as suas terras.
Por falta de Pontes, primeiro morrem todos os annos muitos passageiros, e gado nas ribeiras de Vascão, Foupana, e do Deleite. Segunde, os Lavradores não podem nos tempos das enchentes lavrar as suas terras. Terceiro, difficulta-se o carreto dos fructos dentro do Reino, e a exportação dos supérfluos para outras Províncias. Quarto, sem Pontes e caminhos em bom estado mal se podem cultivar os muitos terrenos incultos, que se observa em todo o Reino do Algarve.”

Os carros:

“Os carros de cõnducção tão percisos para os usos Economicos, e Militares são mui poucos no Algarve. No annó de 1790 não se contava hum só em todo o Termo de Alcoutim que terá mais de trinta legoas quadradas, e então somente havião dons no de Castro Marim. No resto do Reino creio que n'esse tempo serrão muito raros. Eu desde o Cabo de S. Vicente até Villa Real de S. Antonio não encontrei hum só, em que podesse notar a sua descripçáo. Por falta de carros acarretavam os Lavradores para as suas eiras o trigo e centeio, depois de ceifado, em jumentos e outras bestas muares.”

As Máquinas:

“As Máquinas percisas para espremer o azeite e vinho erão pouco conhecidas no Algarve, quando eu lá estive, segundo as informações, que então me derão. Em Alcoutim mettião as uvas em saccos, que depois pisaváo com os pés para d*ellas tirar o mosto, e por falta de hum aparelho competente perdião huma boa parte d'elle, que se podia aproveitar espremendo o bagaço; a mesma rotina seguião a respeito das azeitonas, e já depois de estar meia adiantada a podridão d'ellas ; de maneira que os habitantes d'aquella Villa , e seu grande Termo, não sabião no anno de 179O o que era hum lagar de vinho e azeite, e os do resto d'este Reino pouco mais adiantados estavão n'aquelle tempo.”

Boas práticas rurais:

“Estas • boas práticas ruraes erão desconhecidas no Algarve no anno de 1790; e também em alguns lugares d'aquelle Reino os Algarvios estão tão aferrados a certo género de cultura, que se descuid.ío de procurar aquelles , que são mais acommodados á natureza do terreno , em que vivem , e circunstancias locaes» Sirva para exemplo 0 grande Termo da Villa de Alcoutim: todo o vinho, que aqui houve no anno 1790, apenas chegou a vinte e nove pipas, quando sendo todo elle hum Paiz montanhoso he muito acommodado para vinhatarias e olivaes ; devião também cuidar n.'estes gejieros de cultura, que lhes dariáo muito proveito ; porque a cultura dos grãos pelo modo , com que afazem, não lhes rende mais do que o quádruplo ou quintuplo da sua semente em annos abundantes ; e nos estéreis, como lhes falta o pão, são obrigadas as Famílias a desamparar seus lares, e procurar outra habitação,, como aconteceo no,anno de 1777, e outros mais antingos, de que ainda ha memoria; por isso he pequena a População d'aquelle vasto Termo, pois no anno de 1790 «era somente de 6:360 almas. “

O mel:

“Nos corgos , entre as serras , bastantes colmeias ha em cortiços de sovereiros ou azinheiras, que produzem excellente mel pela abundância de plantas aromáticas: exporta-se algum, assim como a cera; fabti* cando-se outra em varias terra*. Não ha porém maior abundância senão em as freguezias da serra de Tavira e Alcoutim. O de superior qualidade cresta-se há beíra-mar e barrocal.


Cultura das Oliveiras:

“A cultura das oliveiras pôde adiantar-se muito no Algarve e em Alcoutim todas as terras altas e baixas d"aquelle Reino são acommodadas para ellas : ainda mesmo na cordilheira de montes, que o sepárão da Província do Alem-tejo existem vargens' incultas aonde se podem criar muitos olivedos.
Contão-se differentes variedades d'oliveiras no Algarve, assim como na Província do Além-Téjo, e Traz-os-Montes; e sendo humas mais fructiferas do que outras, a enxertia he o único meio de as melhorar, e então terá o Proprietário com a mesma despeza. huma colhèita mais abundante. He para sentir que em todas as Províncias de Portugal seja quasi inteiramente despresado este modo de melhorar os olivaes.
Podem os habitantes do Algarve ainda com menos trabalho multiplicar os seus olivaes n'aquelle Reino: basta só enxertarem o quasi infinito numero de zambujeiros, que lá existem sem que d'elles fação caso algum. Eu observei muitos em Janeiro de 1791 nas margens occidentaes do Guadiana, que estando então por amanhar são bem próprias para vinhas e olivaes.
No anno 1790 me informarão, n'aquelle Reino, que costumavão arrancar as Oliveiras, que por doentes não daváo fructo. He abuso culpável! Quanto melhor he procurar remédios, que possão curar a doença, do que privarem-se d'aquellas arvores, que tantos annos custão a fazer.”

Cultura das Alfarrobeiras:

“As Alfarrobeiras são arvores, que somente tenho observado em grande quantidade no Algarve, conservão sempre a sua folha, como as oliveiras e laranjeiras , florecem no mez de Dezembro, gostão de hum clima o mais benigno, por isso eu não as vi em Alcoutim, e outras terras do alto Algarve , que ficão em huma maior altura a respeito do nivel do mar ; ainda mesmo no baixo Algarve a cultura d'ellas se pôde multiplicar nos-tefrenos incultos , que lá vi, e melhorar pela enxertia ; porque entre as variedades das Alfarrobeiras humas são mais fructiferas do que outras.” (*)

(*) Retirado de: Jornal de Coimbra 1790 Volume I, por José Feliciano de Castilho

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Visita da Imagem de Nª Sª da Conceição a Alcoutim


Já apresentámos nesta rubrica três fotografias da visita da Imagem de Nª Sª de Fátima a Alcoutim em 23 de Fevereiro de 1947.

Foram possíveis apresentar pela colaboração dos alcoutenejos Amílcar Felício, Carlos Barão e José Madeira Serafim.

A primeira que publicámos, registava a passagem da procissão na Rua da Misericórdia junto ao edifício da Santa Casa, a segunda a saída da Imagem da Capela de Nª Sª da Conceição e a terceira quando o cortejo se preparava para descer o escadório que dá acesso ao templo.

A foto de hoje, do mesmo evento religioso, é tirada na Praça da República, vendo-se ao fundo o edifício do Capitão-mor e onde funcionaram durante muitos anos os serviços de Finanças locais.

A Procissão dirige-se para o Cais Novo onde se irá realizar uma Missa Campal.

Foto cedida por José Madeira Serafim a quem agradecemos.

domingo, 27 de novembro de 2011

Montinho da Várzea, o último do concelho por este lado

Pequena nota
Concluímos hoje a volta que demos por todos os montes da freguesia serrana de Vaqueiros, a mais afastada da sede do concelho mas aquela onde se consegue ver algum aproveitamento dos terrenos e onde resta a pastorícia de pequenos ruminantes, gado ovino e principalmente caprino.
Referimos aqui no TEMA Montes do Concelho-Vaqueiros, 30 pequenas povoações, algumas completamente desabitadas e outras muito perto disso. Escrevemos o que nos foi possível.
Além disso incluímos no TEMA – Ecos da Imprensa na postagem de 2009.07.06, “A Capela de S. Bento e o monte de Alcaria Queimada que fizemos publicar no Magazine do Jornal do Algarve de 26 de Abril de 1990.
Todos os vaqueirenses podem, assim, encontrar neste espaço algo sobre as pequenas povoações onde nasceram, eles ou os seus antepassados.
É o nosso pequeno contributo. Até aqui, que eu saiba, ninguém o tinha feito.

JV


[Placa toponímica escrita por algum estrangeiro. Foto JV, 2011]

Quando visitámos pela primeira vez este pequeno monte e já lá vão uns bons anos, não conseguimos ver ninguém, ainda não estava electrificado e isso acontecia porque não estava habitado.

Hoje as coisas são um pouco diferentes, pelo menos, quanto às melhorias de condições de vida.

As várzeas ou vargens, a que foi buscar o nome, são terrenos planos situados em vales e que oferecem boas condições para cultivo, pois além da riqueza da constituição do seu solo têm normalmente água por perto.

Nestas condições não admira que esta zona fertilizada pelas águas da ribeira de Odeleite tenha sido sempre procurada pelo homem que nela via condições de sobrevivência.

As Memórias Paroquiais de 1758 já o indicam referindo Vargem e logo a seguir Montinho, possuindo ambos três vizinhos pelo que se equiparariam.

Ainda que pertencessem à freguesia de Vaqueiros, faziam parte do termo da cidade de Tavira como o pároco informa no questionário a que respondeu para dar satisfação ao pedido formulado em 1758.

Este sistema, que acabou em 1836 pela chamada reforma de Mouzinho da Silveira, tinha em conta as dificuldades que possuiam para se deslocar, nomeadamente o vencer os cursos de água e onde não existiam pontes. Aliás, por aqui as pontes só chegaram depois do 25 de Abril de 1974.

A construção da estrada nº 508 e a chamada ponte dos Galaxos sobre a Ribeira de Odeleite vieram tirar estas pequenas povoações do isolamento total em que se encontravam. Até então, as crianças dos Galaxos ainda que mais próximo da escola da Várzea, optavam pela do Zambujal, visto não terem necessidade de vencer a ribeira, principalmente no Inverno. Quando apareceu a ponte, desapareceram as crianças!

A estrada foi pavimentada em 1991. (1)

[Um aspecto da pequena povoação. Foto JV, 2011]

Em 1984 e quando se procedeu a um inquérito para a instalação da energia fotovoltaica, esta povoação foi uma das questionadas. Na altura, tinha treze habitantes em 4 fogos, havendo dois emigrantes. A opção acabou por ser Vale da Rosa e por pouco tempo.

Em 1998 segundo um bom conhecedor da freguesia devia ter três ou quatro habitantes. Hoje (2011), restarão dois.

Veio a receber energia eléctrica, procedendo-se à inauguração em Novembro de 1999 e ao mesmo tempo em que o foi o monte das Ferrarias. (2)

O abastecimento de água ao domicílio teve lugar em 2006.

Os arruamentos foram pavimentados em 2009.

O painel de caixas do correio tinha sido colocado em 1996. (5)

Está a 16 km de Vaqueiros, sede de freguesia e a 37 de Alcoutim, sede de concelho.
Ficam-lhe próximos Preguiça 3 km, Jardos 3,5 e Galaxos a 4,5.

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NOTAS

(1) – Boletim Municipal nº 8 de Abril de 1991.
(2) – Alcoutim, Revista Municipal nº 7 de Março de 2000, p. 15
(3) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13, de Dezembro de 2006, p. 14
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 15 de Julho de 2009, p. 17
(5) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12

sábado, 26 de novembro de 2011

Bolso de arame



Objecto feito pelos agricultores com arame de forma côncava que se adaptava ao focinho dos animais e que tinha por fim evitar que fizessem estragos, nomeadamente, comer o que não deviam.

Era muito utilizado quando se carregava o trigo para a eira, evitando assim que comessem o cereal.

Reparar que há argolas destinadas à prisão ao cabresto.

Esta peça, por motivos óbvios, está completamente fora de uso no concelho.

Para o mesmo fim igualmente se faziam bolsos de corda.

O exemplar fotografado foi-nos oferecido pelo Sr. Custódio do Curral da Arvela, Cortes Pereiras e a descrição que fazemos foi-nos na altura, transmitida por ele.