segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cerro da Mina e outras coisas...



Mais uma fotografia disponibilizada pelo alcoutenejo José Madeira Serafim e que tem constituído uma mais-valia para esta rubrica.

Datada dos anos 60/70 do século passado, apresenta como fundo o CERRO DA MINA com menos mato do que hoje acontece.

No plano médio que corresponde a “grosso modo” ao sopé da elevação e às margens da Ribeira de Cadavais podem ver-se as ruínas da Ermida do Espírito Santo com as tuneiras por perto, a habitação dos caseiros e os estábulos que dão apoio àquela que foi uma das mais ricas e produtivas fazendas das redondezas de Alcoutim. Podem ver-se centenárias oliveiras e à esquerda, na margem da ribeira, as copas dos citrinos que deram fama a Alcoutim pelo excelente gosto dos seus frutos.

No primeiro plano, podemos verificar que os telhados têm todos telhas de canudo e do lado esquerdo, um extenso telhado que afinal servia vários fogos, uns com acesso pela Rua de Nª Sª da Conceição e outros pela D. Sancho II.

É bem evidente a presença de três açoteias, mas sem as características das do litoral algarvio. Vislumbram-se quatro chaminés e não nos passa despercebida a mais bonita platibanda existente em Alcoutim com trabalhos de argamassa e que se situa na Rua da Misericórdia, mais concretamente, na “Parada”.

domingo, 15 de abril de 2012

Estará o surf penicheiro refém de uma utopia?





Escreve


José Miguel Nunes




“Hóspedes da Utopia” é a frase que vem na capa da Surf Portugal de Fevereiro. No editorial da mesma revista, mais um grande texto de João Valente, intitula-se: “De utopias e Realidades”, e começa com uma citação de Eduardo Galeano: “A utopia está sempre no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Não pude deixar de pensar: será que o surf penicheiro vive refém de uma utopia? ou serei eu?, já nem sei, às vezes falta só um bocadinho e penso que é desta, mas depois, na hora da verdade, acabamos por ficar novamente para trás.

Ao longo desta caminhada, difícil e muitas vezes injusta, alcançámos alguns feitos que muitos achariam impossíveis, lá está, utópicos, conseguimos. Mas é estranho, pois fico com a sensação que só nos deixam avançar até onde querem, e voltam novamente a meter-nos no sítio que acham que é o “nosso lugar”. É esta a impressão com que fico ao analisar esta caminhada que o surf penicheiro vem a fazer nos meandros dos grandes interesses que o surf começa a ter a nível nacional. Até parece que não fomos nós que alcançámos e merecemos tais feitos, mas que foram eles que nos deixaram lá chegar, quase que como um engodo, como um doce que se dá a uma criança para que ela se porte bem.

Foi frustrante não termos sido englobados na criação da primeira Reserva Mundial de Surf na Europa, onde o objetivo deveria ter sido, o de proteger a totalidade da melhor costa de ondas do País, e não, só uma parte dela. Fico a pensar se não terá sido algum tipo de retaliação, ou se foi simplesmente o colocarem-nos mais uma vez no “nosso lugar”.

Foi frustrante não termos ficado a fazer parte da rede denominada “World Surf Cities”, quando somos o único local do País com uma etapa do “World Tour”, onde pontifica um dos melhores “beach breaks” do mundo, e uma terra rodeada dos mais diversos tipos de ondas, com um potencial enorme em termos de crescimento no que há indústria do surf diz respeito. Mais uma vez dá a sensação de nos quererem colocar no “nosso lugar”.

Recentemente, foi criado um grupo de trabalho liderado pela Universidade Nova de Lisboa, onde a Organização Não Governamental SOS - Salvem o Surf é parceira, com o objetivo de determinar o valor económico, ambiental e social do surf em Portugal, um mega projeto verdadeiramente importante para o futuro do surf no país. Em meados do passado mês de Novembro iniciaram-se as reuniões preparatórias do mesmo, o surf penicheiro foi convidado a participar. Participou e partilhou informação, e agora quando definiram finalmente quem fazia parte do grupo, voltámos a ser colocados no “nosso lugar”, ou seja, voltámos a ficar de fora.

A minha pergunta é simples: Será utópico pensar que o surf penicheiro algum dia chegará lá, será utópico pensar que algum dia o surf penicheiro terá uma palavra a dizer nas decisões importantes relativamente ao que se pensa, estuda e decide relativamente ao surf em Portugal, ou continuaremos naquele lugar em que somos convidados a ouvir o que foi decidido, de boca calada e olhar envergonhado, agradecidos ainda pelo facto de nos terem convidado a ouvi-los.



Os jogos de interesses, começam também agora cada vez mais a fazerem parte do fenómeno surf, e de quem tenta a todo o custo liderar o processo. Todos sabemos que nestes jogos de poder há sempre quem tenha de ser “queimado”, e no surf, somos sempre nós, continuando a máxima a ser: Lisboa (leia-se até à Ericeira) é Portugal, o resto é paisagem, e nós, paisagem, estamos cá para acatar as ordens daquilo que eles lá em Lisboa (leia-se até à Ericeira) decidem.

Não podemos nem devemos aceitar de ânimo leve estas situações, e acima de tudo não devemos continuar cabisbaixos e de sorriso nos lábios no lugar para o qual frequentemente nos empurram.

Temos de dizer alto e bom som perante todos, sejam eles quem forem, e acima de tudo sem medo, que Peniche e o surf penicheiro merece e exige ter outro lugar no surf nacional.

“Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”, e agora acrescento eu, caminhar de cabeça bem levantada, olhos nos olhos seja de quem for.

sábado, 14 de abril de 2012

São 100 os países que já nos visitaram!

No passado dia 9 e com a chegada da República de Madagáscar, alcançámos a centena de países que do seu interior já nos visitaram.

Madagáscar tornou-se independente em 1960. Situada próximo de Moçambique, os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à ilha em 1500, chamando-lhe o navegador Diogo Dias, ilha de S. Lourenço. Madagáscar tem hoje por capital a cidade de Antananarivo.

Ainda que grande parte o tivesse feito, segundo pensamos, por um simples acaso ou mera curiosidade (34 uma única vez e 11 por duas), a verdade é que de 10 já o fizeram mais de 100 vezes o que significa que nestes países temos visitantes a quem o nosso blogue interessa.

Estão neste caso o Brasil, a caminho das 10 mil visitas, E.U.A., França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suiça, Grã-Bretanha e Canadá. De todas só não temos feed - back da Grã-Bretanha.

De uma maneira geral são portugueses que emigraram para esses países, mas não só.

Entre 100 e 30 visitas temos mais cinco países, sendo três pertencentes à lusofonia ainda em desenvolvimento. Assim temos: Angola (68), Líbia (63), Itália (54), Moçambique (52) e Cabo Verde (30).



Num escalão inferior, mas com algum significado, temos Argentina (26), Macau (24), Rússia (23), Irlanda (22) e México (20).

Como se verifica o ALCOUTIM LIVRE chega aos quatro cantos do Mundo mas como temos provas, não serve só Portugueses.

Que continuem a visitar-nos é o nosso desejo servindo assim de estímulo para continuarmos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

As sugestões de Helder Pinho

(PUBLICADO NO DIÁRIO “ A CAPITAL”, LISBOA, 11 DE JULHO DE 1973)

Pequena nota
Trazemos hoje aos Ecos da Imprensa este pequeno texto que retirámos de um artigo mais abrangente de autoria do jornalista Hélder Pinho, falecido aos 55 anos em 2003.
Não tivemos o prazer de o conhecer e que seja do meu conhecimento foi dos poucos jornalistas que se referiram a Alcoutim no antes-25 de Abril com uma opinião ajustada àquilo que se passava por estas terras.
É evidente que existem erros que lhe foram transmitidos por publicações desactualizadas (únicas) que consultou para ajustamento do texto e que hoje são fáceis de detectar.
No nosso trabalho Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, a p. 21, transcrevemos a descrição, neste” post” a negrito que o mesmo fez, através da sua sensibilidade, da pequena vila do Guadiana.
Pouco antes do seu falecimento viemos a saber por intermédio de um alcoutenejo que Hélder Pinho conhecia e possuía o nosso trabalho, pois mostrou-o a esse alcoutenejo cuja casa de pasto frequentava com assiduidade e que se situava na “outra margem” do Tejo, como é hábito dizerem os lisboetas.
É uma singela homenagem a Hélder Pinho, conhecido por D. Pipas, crítico de gastronomia e apaixonado pela cozinha portuguesa.


JV




Escreve

Hélder Pinho


FEIRAS NA SERRA

As principais povoações dos concelhos limítrofes de Alcoutim (..) têm anualmente a sua grande feira. Assim, há festa e feira em Martim Longo a 17 de Agosto; em Giões a 4 de Agosto; na Vila de Alcoutim de 13 a 15 de Setembro e em Pereiro a 19 do mesmo mês.

MONUMENTOS

Em Alcoutim, de monumental, há as ruínas do castelo que parecem ser de fundação anterior ao domínio árabe. As chaves da fortaleza estão na Câmara Municipal. De admirar ainda o portal renascentista da igreja matriz.

GUADIANA SEM VIDA

O Guadiana é, pode dizer-se, uma potencialidade turística desaproveitada. As suas margens constituem óptimos locais de repouso e tranquilidade, em contraste com o bulício e cosmopolitismo das praias atlânticas. Mas nenhuma unidade hoteleira existe, contudo, rio acima. Alcoutim, sede de comarca não tem sequer uma pensão onde se poderia, por exemplo pernoitar após a subida do rio e almoçar ou jantar no seu castelo se para tal fosse aproveitado e não continuasse condenado à ruína.

[1ª Regata do Guadiana (descida) em 1973]

II Descida Internacional do Guadiana marcada para 2 de Setembro. Os próprios passeios fluviais em funcionamento deixam muito a desejar sob vários pontos de vista. Um deles, a sua desorganização e o próprio preço do bilhete considerado deveras exagerado já que os atractivos são mínimos (sempre a sardinha assada como se o Algarve nada tivesse mais para oferecer e as explicações necessárias, nulas...)

Quanto à pesca desportiva nada se conhece no sentido de se incentivar os amadores. O rio é rico em espécies oleícolas – tainha, robalo, lampreia, linguado, eiró, muge – muito especialmente após o fecho das Minas de S. Domingos ignorando-se, por ora, qualquer sintoma grave de poluição. Pelo contrário ao que se assiste com frequência e à passagem de arrastões, os quais violando as leis ali vão buscar parte da abundante fauna marinha.
(...)


SUBIDA FLUVIAL E DESCIDA POR ESTRADA
(...)
Põe estrada alcançamos Alcoutim, decorridos 44 quilómetros desde Vila Real. Debruçada sobre o Guadiana, tal qual a sua vizinha Sanlúcar, na margem espanhola do rio. A vila é linda na sua simplicidade. Alcoutim, com as suas ruelas e o pequenino porto fluvial, é um local ideal para repouso. Faltam-lhe, porém, infra-estruturas hoteleiras para permitirem ao forasteiro uma estada, gozada na pacatez do seu dia a dia. Caça-se em todo o concelho, nomeadamente nos montes das freguesias de Pereiro, Giões, Vaqueiros ou Martim Longo. Pesca-se no rio e aldeias há onde grande parte dos homens vivem da pesca fluvial: Laranjeiras, Guerreiros, Álamo e Foz.

(...)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O couto de homiziados de Alcoutim



“Coutos do Reino” ou “de Homiziados” são designações semelhantes. Couto significa “lugar imune e defeso” e homiziar é “dar asilo, guarida contra a acção da justiça”.

Desde o início do século XIV que se criam coutos para homiziados, sendo o primeiro conhecido o de Noudar, por carta de D. Dinis de 16 de Janeiro de 1308 que dava garantias a quem ali se fixasse, por espaço de cinco anos. (1)

A notícia mais antiga que encontrámos sobre o couto de homiziados de Alcoutim é-nos dada pelo pároco local quando responde ao quesito 17 do questionário enviado em 1758.

Pergunta – Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria?

Resposta –“ É cabeça de Concelho, e é couto, tanto no criminal como no cível: são privilégios que os Reis concederam e confirmados por muitos Reis para se acoutarem na dita vila trinta homiziados no criminal, como (caso) não sejam de Lesa Majestade; sodomia, heresia este foi concedido por El-Rei D. Afonso V mas não está em muito “veo”; estas leis mandou conceder a esta vila este privilégio assim como se tinha concedido à Antiga Mértola; mas com diferença que em Mértola servia o couto para cinquenta homiziados; e Alcoutim para trinta.”
§ “E no cível por dívidas para outros trinta; no cível foi concedida esta Mercê por El-Rei D. Dinis em cujo tempo era esta vila uma povoação; e assim fala o mesmo Rei = a minha Póvoa de Alcoutim - mas sempre é antiga vila; porque o Senhor D. Afonso V lhe chama concelho de Alcoutim e de então para cá se intitula Vila de Alcoutim.” (2)

Certamente que as chancelarias de D. Dinis e de D. Afonso V conterão esta matéria, mas que nunca consultámos ou vimos referido em qualquer livro.

Possivelmente o pároco baseou as suas afirmações em função do conhecimento próprio, adquirido nalguma fonte ou transmitido pelo poder político local que devia possuir documentação nesse sentido.

O que posteriormente se transmitiu tem esta base que Pinho Leal divulgou no Portugal Antigo e Moderno nos seguintes termos: Era couto no crime para 30 criminosos, por privilégio de D. Affonso V e para 40 no cível por privilégio de D. Dinis. (3) A diferença existente está no número prescrito para o cível que indica mais dez.

Vejamos o que indicam outras obras consultadas e vindas a público posteriormente.

No O Domingo Ilustrado de Agosto de 1897, p. 103, escreveu-se: Foi couto no crime para 30 réos, prerogativa concedida por D. Afonso V, e já D. Diniz lh´a havia feito para 40 delinquentes no civil.
Em Portugal, Dicionário Histórico (4), encontrámos:- Foi couto no crime por privilégio de D. Afonso V e de D. Dinis.
O Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular (5), que também consultámos sita Pinho Leal.

[D. Dinis]
D. Dinis concedeu foral a esta vila em 9 de Janeiro de 1304 com medidas importantes e deu-lhe outros privilégios no qual se inclui o seu povoamento (ou repovoamento); contudo, os especialistas na matéria não referem a concessão de couto de homiziados por parte do rei Lavrador.

Os coutos de homiziados que tiveram mais incidência na zona fronteiriça, foram estabelecidos com o sentido de incrementar o povoamento das localidades e ao mesmo tempo ter gente para acorrer à defesa quando fosse caso disso, pois eram sempre as primeiras zonas afectadas em caso de guerra. (6)

Quanto ao privilégio de D. Afonso V, está devidamente documentado.

O rei Africano querendo fazer mercê a João Freire de Andrade, fidalgo da sua Casa e alcaide-mor da vila de Alcoutim, determinou por carta régia outorgada em Ceuta a 7 de Janeiro de 1458, que pudessem viver nela e seu termo quinze homiziados. Estabelecia a condição de que os autores dos crimes que aí fossem residir não os tivessem praticado num raio de cinquenta quilómetros em torno da localidade. Consignava ainda no presente diploma que o couto de Alcoutim ficaria ao abrigo dos privilégios concedidos aos homiziados do couto de Mértola.

A solicitação de D. Fernando de Meneses, conde de Alcoutim, genro de João Freire, que fez a apresentação da carta de D. Afonso V, o rei D. Manuel confirmou-a em Évora a 12 de Julho de 1497. Entre as alterações introduzidas ao diploma afonsino, alargava-se o número de homiziados para trinta, ao mesmo tempo que se restringia para trinta e cinco quilómetros a zona de interdição aplicada aos delinquentes.

[D. Afonso V]
A instância de D. Pedro de Meneses, neto materno de João Freire de Andrade, Marquês de Vila Real e 2º Conde de Alcoutim, o rei D. João III ratificou os privilégios concedidos pelos seus antecessores em 23 de Agosto de 1530. (7) Contudo, estabelecia a seguinte restrição: as casas dos homiziados teriam forçosamente de estar localizadas “dentro do dito castelo ou amtre o muro e barreiras”, sem que tivesse qualquer validade o diploma anterior que permitia ao alcaide autorizar os homiziados a construir casas no exterior do castelo.

[Castelo de Alcoutim visto do "Largo da Porta de Tavira". Foto JV]

Filipe I de Portugal e a pedido de D. Miguel de Meneses, 5º Conde de Alcoutim, confirma-lhe, em Lisboa a 20 de Janeiro de 1595, a carta e para sempre, desse privilégio já usufruído pelos seus antepassados. (8)

Uma lei de 1433 excluía do direito de asilo nos coutos os crimes de traição, aleive, heresia, sodomia, homicídio voluntário, rapto de mulher casada, furto público e assalto em estradas, sendo acrescentado depois os incendiários de searas. As Ordenações Manuelinas excluiram moedeiros falsos, falsários de escrituras e os que atacassem os oficiais de justiça.

Quando D. Sebastião visitou Alcoutim, no dia 4 de Fevereiro de 1573, saíram-lhe ao caminho três barcos com setenta homiziados que andavam em Castela, os quais, em alta grita, vinham-lhe pedir misericórdia. Perdoou logo a quarenta e cinco, permitindo aos restantes que fossem a Évora apresentar as suas petições, pois tratavam-se de casos mais graves. (9)

Os coutos foram abolidos definitivamente em 1790. (10)


NOTAS

(1) – História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vol. II, 1978. P.251
(2) – Memórias Paroquiais.
(3) – 1873, Vol. 1, p. 81.
(4) – Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, 1904, Vol. I, p. 175
(5) – Américo Costa (12 Volumes) 1929 – 1949.
(6) – António Henriques Oliveira Marques, “Couto”, Dicionário de História de Portugal, (Dir. de Joel Serrão), Livraria Figueirinhas, Porto, Vol.II, p. 225.
(7) –“ Elementos para o estudo dos Coutos de Homiziados instituídos pela Coroa” Portugaliae Histórica, Humberto Baquero Moreno, Vol II, Lisboa, 1947.
(8) – Castro Marim Quinhentista – O Foral Novo (de 1504) e o Tombo da Comenda (de 1509), Hugo Cavaco, Edição da C. M. Alcoutim, 2000, pp 175, 176.
(9) - Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve, Francisco de Sales Loureiro, 1984
(10) – Dicionário de História de Portugal Ilustrado, I vol. Círculo dos Leitores, 1982, p 105.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Corpo de mulher (Poema)



Poeta


José Temudo




["Mulher", de Júlio Pomar]


Lindo! Que lindo!

disse e repetiu,

olhando, sorrindo,

fascinado,

o corpo desnudado,

da jovem mulher.

Recordando, absorto,

o distante passado,

já morto,

o corpo dela e o seu,

belos, firmes, duros,

como dois frutos maduros,

desejando-se,

amando-se,

desfalecendo,

apagando-se.

Sorriu.

Lindo! Que lindo !

Disse e repetiu:

Que lindo! Que lindo!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [11]

CALVÁRIOS

Calvário é segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea um regionalismo algarvio que significa pequeno cruzeiro de pedra ou de ferro que assinala no campo o lugar onde morreu alguém.

Existem ou existiram nas redondezas desta pequena povoação os seguintes calvários, designados pelo nome rústico do local em que se situaram: Eira da Cruz, que acabou por adquirir este nome devido ao facto da existência do calvário, Isabel Vaz que igualmente deu o nome ao local, Medrolheira, Lavajo e Pego Escuro.

CALVÁRIO DA EIRA DA CRUZ

É mais um cruzeiro erigido para assinalar o local onde morreu alguém.
A localização é próxima do monte, mais concretamente perto do seu antigo acesso do Sul.

Por volta de 1968 numa conversa tida com uma alcouteneja, (1) foi-me dito que o edifício em que funcionavam na altura os serviços de Finanças na vila de Alcoutim tinha sido propriedade e residência do capitão-mor, oriundo de Tavira e de nome Aragão. (2)

Dizia-me essa senhora que a sua habitação também lhe tinha pertencido, tendo sido adquirida aos seus herdeiros por um ascendente que presumo ter sido o seu avô paterno.

Dizia-me então que o referido Aragão tinha sido levado por uma hoste de guerrilhas e que a criada ou governanta teria seguido na sua peugada com um saco de dinheiro em prata oferecendo-o no sentido de livrar o seu amo, o que não se verificou e acaba por ser assassinado próximo de Afonso Vicente, onde acabou por ser erguido, por esse motivo, um calvário.

[Maioral Chico na Eira da Cruz. Foto JV]

Muitos anos depois e em contacto com esta povoação fui informado por um afonso-vicentino, já octogenário (3) que se lembrava ainda de ter visto o assento do calvário, mas desconhecia completamente a sua estória.

Mais uma vez, e como é natural, desapareceu o “monumento” mas ficou o nome.
Todos os que conhecem aquela zona sabem localizar onde é a Portela e a Eira da Cruz, a estória é que poucos hoje conhecerão. Aqui fica para a posteridade.

CALVÁRIO DE ISABEL VAZ

Situava-se este cruzeiro muito perto do monte de Afonso Vicente, mais propriamente tomando o caminho Norte da povoação, em direcção ao Serro da Machada. Cerca de duzentos metros andados, do lado direito do caminho, ainda conheci o soco de calvário, erigido para assinalar o lugar onde morreu alguém de uma maneira dramática.

Além dos idosos, gente ainda relativamente jovem sabe situar tal base, mas só os mais velhos sabiam contar a razão da sua existência.

[Maioral das cabras a caminho da Isabel Vaz. Foto JV]

Curioso destas situações, vieram-me contar (4) a estória que receberam de geração em geração, sem a poderem situar no tempo.

Marcadamente situada no século XIX, é-me contado que uma moça do monte de Afonso Vicente foi levar a um dos moinhos da ribeira do Vascão um saco de trigo a fim de ser transformado em farinha para a confecção semanal da “amassadura”, base da alimentação destes povos. Carregado o burro, regressa ao “monte”com a preciosa carga. Depois de percorridos alguns quilómetros e já próximo do “monte” o burro espantou-se, corre desalmadamente e a moça não o aguenta e cai, de tal maneira que presa à arreata, da qual não se consegue desembaraçar, é arrastada e acaba por morrer.

A dor e o constrangimento de tal situação, pouco vulgar, fez os familiares erigirem um pequeno “monumento” para assinalar tão inaudito acontecimento e para que perdurasse, como memória, através dos tempos.

O cruzeiro há muito que desapareceu e à sua base, que ainda conheci, penso que já aconteceu o mesmo.

Muita gente conhece o sítio rústico da Isabel Vaz, antropónimo e nome de família vulgares na zona e constante da desaparecida matriz predial rústica.
Desapareceu o calvário, ficou contudo e para todo o sempre, o nome da vítima nele invocado: ISABEL VAZ.

CALVÁRIO DOS MEDRONHAIS OU DA LAPA

Segundo informações recolhidas, estes pequenos cruzeiros, que assinalam no campo o lugar onde morreu alguém, não existem na freguesia do Pereiro e não tenho conhecimento que nas restantes do concelho tivessem tido lugar, ainda que não tivesse feito qualquer prospecção nesse sentido.

Outro calvário situado na área de Afonso Vicente é conhecido ou designado por calvário da Lapa ou dos Medronhais viso ter sido erguido nesta zona rústica.

Tem garantidamente mais de oitenta anos e dele só resta o plinto e mesmo este já bastante degradado.

[Restos do calvário da Lapa ou dos Medronhais. Foto JV]

É muito pouco o que sabemos sobre ele. Devia ter sido erguido em finais do século XIX ou princípios do seguinte para assinalar a morte de um elemento da família Bento de Afonso Vicente, que foi beber ao barranco da Lapa.
(5)

Quando estava de bruços bebendo sofreu um ataque epiléptico que o vitimou.

É esta a estória ainda contada pelos habitantes mais idosos das redondezas e que se vai esvaindo com o decorrer dos anos. (6)

CALVÁRIO DO LAVAJO

Por volta de 1934, na zona de hortejos do Lavajo, onde existem bastantes oliveiras, pôs termo à vida, por enforcamento, numa azinheira, um indivíduo do Monte do Paço das Cortes Pereiras. Tentou antes o suicídio por afogamento.

Os familiares erigiram-lhe no local em sua memória um calvário de que restam poucos vestígios.

CALVÁRIO DO PEGO ESCURO

É também conhecido pelo calvário de D. Ana.

Distante do “monte”e nas proximidades da Ribeira do Vascão, mais propriamente perto do Pego Escuro e do moinho de D. Ana, foi erguido para indicar o local onde encontraram morto um maioral que andava pastando o seu gado por aquelas paragens. Segundo a tradição ficou sepultado nesse lugar Há uns anos ainda existiam ruínas. Hoje o local, segundo dizem, não é possível alcançar a pé, pois o mato é mais alto do que as pessoas.


NOTAS

(1) – D. Belmira Lopes, neta do Capitão Paulo José Lopes que foi Presidente da Câmara de Alcoutim. Ficou sepultada no cemitério de Alcoutim, no único jazigo existente e junto de sua filha única, falecida aos dezoito anos e vítima de tuberculose.
(2) – Em documentação do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Alcoutim encontrei referência a um Aragão mas que por falta de mais dados não me possibilitou a identificação desejada.
(3) – António José (vulgo Frederico), natural de Afonso Vicente e recentemente falecido.
(4) - Maria Catarina Borralho, natural de Afonso Vicente, então octogenária e já falecida.
(5) – António Constâncio Bento.
(6) - Alcoutim Livre, postagem de 26 de Novembro de 2010, “Calvário da Lapa ou dos Medronhais”.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

AS TERRAS, AS SERRAS, OS RIOS - As Memórias Paroquiais de 1758 do concelho de Mértola


AS TERRAS, AS SERRAS, OS RIOS. - AS MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758 DO CONCELHO DE MÉRTOLA são um trabalho editado pelo Campo Arqueológico de Mértola, 1995.

De formato 17X24 cm comporta 129 páginas.

Possui a transcrição das respostas dadas pelos párocos ao inquérito de 1758 no concelho de Mértola, apresenta quatro quadros sobre as mesmas tratando várias temáticas.

Além de um mapa do concelho com a configuração das freguesias então existentes, apresenta outras ilustrações.

Na 1ª parte analisa os inquéritos paroquiais setecentistas (1721, 1732 e 1756, além do de 1758 o móvel do trabalho).

A organização, introdução e propositadas notas são da responsabilidade de Joaquim Ferreira Boiça e Mª de Fátima Rombouts de Barros.

Este indispensável trabalho para o conhecimento da história local tem sido pouco realizado pelas respectivas autarquias a quem nos parece pertencer essa tarefa.

A Câmara Municipal do Concelho de Mértola direccionou o seu trabalho para a área da cultura (o que não costuma dar votos) nomeadamente, valorizando o seu património histórico e arqueológico que estava completamente abandonado.

Dá gosto percorrer os núcleos museológicos locais situados na vila medieval onde o restauro de edifícios ruas e ruelas tem sido feito com conhecimento e equilíbrio.

Há sempre um livro para comprar no Posto de Turismo.

Foi o que aconteceu com este em 2003.

Damos por bem empregue o dinheiro que pagamos de impostos para aquela autarquia.

domingo, 8 de abril de 2012

A almotolia


Almotolia é palavra que deriva do árabe almutli. A língua Portuguesa é fértil em palavras com esta origem, visto os árabes terem permanecido por largos tempos na Península Ibérica onde deixaram além de termos linguísticos da sua origem, alguns usos, costumes e principalmente técnicas de construção e de cultivo introduzindo várias plantas.

O significado lato do termo abrange uma vasilha de pequenas dimensões, forma mais ou menos afunilada, de gargalo estreito e comprido que se destina a uso de líquidos oleosos, incluindo o azeite e petróleo. É feita de material metálico, lata, alumínio ou qualquer outro semelhante e em determinadas situações de plástico.

São usuais almotolias para azeite, ultimamente têm aparecido de inox e também se utilizavam para petróleo, hoje quase banido da vida doméstica.

Outros tipos de almotolia e muito usados, constituem pequenas vasilhas para óleo que se destinam a lubrificar tudo o que tenha necessidade disso, principalmente máquinas.

Ainda que o sistema seja baseado nos mesmos princípios, aparecem almotolias mais práticas e eficientes que os novos fabricos trouxeram.

A almotolia que apresento é uma foto tirada no concelho de Alcoutim e era própria das máquinas de costura da época, pois em casa de meus pais existia uma semelhante.

Tenho por fim olear a máquina para poder cozer com maus desenvoltura e ao mesmo tempo conservá-la.

Funcionava levemente inclinada e fazendo-se pressão no fundo que era maleável.

É peça para mais de 80 anos.

A Etnografia é o segundo Tema a alcançar a centena de "post".

sábado, 7 de abril de 2012

Guerras de 1476 / 1479 - Da Sucessão de Castela


[Batalha do Toro]

Em 1474, Henrique IV de Castela, ao morrer, deixara por herdeira D. Joana, a Beltraneja, no dizer de alguns, por atribuírem a sua paternidade não ao rei mas sim a D. Beltran de la Cueva.

Para a sucessão, os castelhanos optam por D. Isabel, irmã de Henrique IV que entretanto, tinha casado com D. Fernando de Aragão.

D. Afonso V, que desposara sua sobrinha D. Joana, casamento que não chegou a ser consumado, porque o Papa não concedeu a dispensa necessária em razão do parentesco, quis fazer valer os seus direitos, invadindo Castela onde contava com alguns partidários.

A 2 de Março de 1476, dá-se a batalha de Toro entre os exércitos da rainha D. Joana e da rainha D. Isabel, comandados, respectivamente, por Afonso V e Fernando de Aragão.

O resultado, segundo a visão portuguesa, foi duvidoso, visto a hoste do príncipe D. João ter saído vencedora, ao contrário do que sucedeu ao pai. Para Castela foi uma clara vitória.

[D. Joana, a Beltraneja]
Enquanto os portugueses desenvolveram a sua acção militar na região de Zamora, os castelhanos faziam verdadeiras razias ao longo da fronteira portuguesa, tornando-se cada vez mais intensas no decurso de 1476.

As povoações raianas do Alentejo, desde Castelo de Vide a Serpa, passando entre outras por Marvão, Portalegre, Campo Maior, Elvas e Moura, sofreram devastações.

Mais ao sul, parece ter sido Alcoutim a única povoação atingida pelos efeitos devastadores desta guerra.

A paz foi firmada em 1479 pelo Tratado de Alcáçovas, sendo negociador por parte de Portugal o príncipe D. João.

O rei de Portugal renunciou a quaisquer direitos à coroa castelhana e por compensação, obteve concessões em África.

NOTA

Este assunto teve por base a História de Portugal de Oliveira Marques e a dirigida por José Hermano Saraiva, Edições Alfa.