sábado, 19 de maio de 2012

Banco de Terras

Pequena nota

Recebemos do Sr. Mário Nunes com pedido de publicação, o seguinte texto que gostosamente satisfazemos.

Os textos aqui publicados sobre esta matéria têm sido muito procurados pelos nossos visitantes / leitores, nomeadamente o que o foi em 14.10.2011 e que tem por título – APROFIP – Associação de Produtores do Figo da Índia de Portugal.

Este espaço está sempre ao dispor de colaborações deste tipo.

Disponha sempre, Caro Sr. Mário Nunes.

JV

(...) José Varzeano,

Como grande amigo que é do concelho de Alcoutim e suas gentes, venho pedir-lhe a publicação do projecto "Banco de Terras" que a APROFIP - associação de produtores e profissionais de figo da india portugueses, já iniciou, através da sua página no facebook http://www.facebook.com/APROFIP e outros meios da C. Social .


O objectivo desta Associação é servir de mediador entre o futuro Produtor de figo-da-india (sem terras) e o Proprietário de terras pouco férteis e semi-abandonadas, que não pode ou quer explorá-las e por isso não usufruindo delas qualquer rendimento, mas se optar pelo arrendamento a tempo limitado, poderá rentabilizá-las no imediato e, ao mesmo tempo, proporcionar-lhe-á no final do contrato, uma fonte de rendimento significativo.

Outras informações acerca desta exploração agrícola de interesse comum e a respectiva minuta do contrato, poderão ser solicitadas pelo e-mail : adm.aprofip@gmail.com

Gostaria de aproveitar a oportunidade para informar os responsáveis das Reservas de Caça Associativa que a plantação ordenada de Figueira da índia poderá representar um investimento a curto e médio prazo de relevante importância financeira possibilitando, além dos benefícios à protecção e alimentação das espécies cinegéticas, um rendimento da planta a partir do 2º ano de vida e ao 5º / 6º ano uma rentabilização, por hectare, na ordem de 5.000 euros, através da colheita dos frutos, na venda dos cladóides para replantação ou para o fabrico de farelo biológico para ração animal.

Também a Apicultura será grandemente beneficiada pelas Figueiras da Índia que, num futuro próximo, venham a ser plantadas no concelho de Alcoutim, além da forte possibilidade de ser criado um pólo de atracção turística, durante o período de floração (maio/junho)  e na apanha do fruto (agosto/setembro) .

O concelho de Alcoutim, já antes o disse e volto a repetir, possui largos milhares de hectares de terrenos sem qualquer aproveitamento agrícola ou outro rendimento pecuniário relevante, mas que poderão ser aproveitadas para a exploração agro-industrial da fileira figo-da-índia, considerando que a maioria dos terrenos existentes na região possuem extraordinárias aptidões para o desenvolvimento desta planta secular no concelho, podendo contribuir fortemente para o seu desenvolvimento económico e social.

Apesar da acentuada desertificação, recuso-me aceitar, como alcoutenejo de alma e coração, que o concelho de Alcoutim seja uma aberração da natureza. Também nós possuímos algumas potencialidades relevantes, as quais devemos urgentemente identificar e explorar com responsabilidade, ordenamento e sustentabilidade, para que as gerações presentes e vindouras aqui se fixem e vivam em perfeita harmonia com a paisagem que a natureza nos quis favorecer.

Respeitosamente,

Mário Nunes

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Guerra de 1369 / 1371 (1ª Fernandina com Castela)

Castelo de Alcoutim visto por Duarte de Armas, séc. XVI

Ao falar nas guerras que passaram por Alcoutim nem todas tiveram um sentido bélico como parece ter acontecido com esta, já que não conheço referência escrita de hostilidades. Desta vez Alcoutim não foi palco de lutas mas palco de pazes.

Por morte de D. Afonso XI de Castela, foi a coroa disputada a D. Pedro, seu único filho legítimo, por D. Henrique de Trastâmara, filho bastardo. A guerra terminou quando D. Henrique assassinou D. Pedro, seu meio-irmão em 1369.

É então que D. Fernando, por ser bisneto de Sancho IV, o Bravo, se julga com direitos ao trono de Castela, o que é apoiado por certos magnatas, pois viam o assassino de seu rei como um usurpador desqualificado pela tara da bastardia.

Aclamam-no na Galiza, em Tui e Orense, Lugo, Santiago de Compostela e Corunha, por isso, nas principais cidades, tal como em Cidade Rodrigo, Carmona, Zamora, Valência de Alcântara e Baiona, na zona fronteiriça.

Faz um acordo com o rei de Aragão, a quem prometeu casar com a infanta D. Leonor e outro com o rei mouro de Granada.

Faz então D. Fernando uma incursão na Galiza, por terra e por mar, mas D. Henrique obriga-o a voltar ao reino, recolhendo-se a Coimbra. Como retaliação, D. Henrique invade o norte de Portugal ocupando Braga, Bragança e outras terras, pondo cerco a Guimarães.

D. Fernando envia uma esquadra de trinta e duas naus para sitiar o porto de Sevilha, tentando assim descongestionar a situação militar, o que não consegue, pois parte das embarcações são destroçadas.

Nem no mar nem em terra o rei consegue êxitos, pelo contrário, os resultados não foram positivos.

Nenhum dos antagonistas desejava uma decisão com receio de lhe ser desfavorável.

Gregório XI
O papa Gregório XI intervém com os seus medianeiros, no sentido de obter bons resultados.

Onde se irão realizar essas conversações que levarão ao tratado de paz? É Fernão Lopes que nos diz na Crónica de D. Fernando, Capitulo LIII - Como foi trautado antre el Rei Dom Hemrique e el Rei Dom Fernando, e com que comdiçoões. (...) em huuma villa que dizem Alcoutim, bispado de Silve no reino do Algarve.

Possivelmente no castelo, Fernão Lopes não o diz, reuniram-se em 31 de Março de 1371, o representante do papa, Dom Agapito de Columpna, bispo de Brixa e os procuradores de D. Henrique, D. Afonso Perez de Gusmão e D. João Afonso, conde de Barcelos, por parte de D. Fernando.

D. Fernando renunciava à coroa Castelhana e reconhecia Henrique II como rei. Foi estabelecido que os dois monarcas desavindos se comprometiam a manter, desde então, entre si, paz e amizade com troca de prisioneiros e devolução das terras conquistadas. Devia também D. Fernando, ainda solteiro, pois não casara com a infanta D. Leonor, filha do rei de Aragão, casar-se com uma das filhas de Henrique II, também Leonor.

Dispunha uma cláusula que a noiva viria para Portugal até ao dia 10 de Agosto. Traria em dote Cidade Rodrigo e Valência de Alcântara na Andaluzia e Monterrei e Alhariz na Galiza, que passariam à coroa do Reino de Portugal.

A 2 de Abril, na cidade de Évora, D. Fernando confirmou o tratado que historicamente ficou conhecido por PAZ DE ALCOUTIM e pouco tempo depois o mesmo fez Henrique II.

Não cumprindo o acordado, D. Fernando casa com Leonor Teles, o que esteve na origem da 2ª guerra.

A PAZ DE ALCOUTIM é o facto histórico mais importante passado nesta vila, até aos nossos dias, segundo a nossa opinião, contudo, o acontecimento continua sem nada que o lembre na vila, nem sequer uma placa toponímica.


NOTAS

Este assunto teve por base natural a Crónica de D. Fernando, de Fernão Lopes.

É o único assunto sobre Alcoutim que todas as Histórias de Portugal referem, mesmo os pequenos resumos, antigamente destinados à instrução primária (4ª classe).

Oliveira Martins, Fortunato de Almeida, Damião Peres, Veríssimo Serrão, Hermano Saraiva, Oliveira Marques, José Matoso e João Medina, entre outros referem nos seus trabalhos este facto, tal como Silva Lopes na sua Corografia do Reino do Algarve.



quinta-feira, 17 de maio de 2012

O pelourinho da Vila de Alcoutim

Onde foram parar restos do pelourinho!

Por todo o País ainda é possível encontrar muitos destes monumentos, símbolos do poder municipal, por vezes, em pequenas aldeias que foram concelho e hoje totalmente desconhecidas. Nesta altura, os Senhores das terras punham e dispunham!

Os pelourinhos parece terem origem nos Romanos, que nos sítios públicos colocavam ao alto uma pedra para amarrar e castigar os criminosos.

A instituição do foral possivelmente estará ligada à construção de um pelourinho colocado no centro da terra em frente à Câmara Municipal.

A partir do século XV as transformações judiciais e administrativas levaram o pelourinho a representar o poder judicial e o pelouro dos municípios.

Ainda que os criminosos continuassem a ser lá expostos, principalmente os forasteiros, a ele amarrados, o pelourinho começa a ser utilizado preferencialmente para a afixação de editais e a proclamação de posturas municipais e outras leis.

Os pelourinhos quando completos são constituídos por uma base ou plinto que pode ser circular ou facetada, ter ou não degraus, o fuste ou coluna igualmente circular ou poligonal, por vezes torsa e o remate que fechava a coluna normalmente o elemento mais trabalhado.

Conforme a sua feitura e elementos trabalhados, os pelourinhos podem-se classificar em góticos, manuelinos, clássicos e barrocos.

A implantação do regime liberal, no século XIX, com a transformação profunda de aspectos jurídico-administrativos, levou ao abandono total dos pelourinhos como símbolos do poder e o seu derrube e destruição significou, muitas vezes, o acabar com as leis do regime anterior. Reparar que estes monumentos aparecem mais nos pequenos povoados onde as lutas políticas tiveram menos impacto.

Nesta conformidade, Alcoutim também possuiu o seu pelourinho, possivelmente desde a concessão do foral de D. Dinis, datado de 9 de Janeiro de 1304.

A quando da cheia de 1823, ficou por terra, tendo a Câmara Constitucional, presidida por Jerónimo Mestre Guerreiro (de Giões), solicitado auxílio, certamente para o reerguer.

Luiz Chaves, especialista no assunto, classifica-o de gótico apeiado, o que não coincide com a descrição que dele é feita. (1)

Em 1906 a Câmara Municipal oficia à Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, dizendo: - (...) existiu na praça pública desta vila um pelourinho, de tosca arquitectura, sem dúvida devido à sua muita antiguidade, e como o mesmo se achava muito arruinado foi mandado demolir no ano de 1869.As actas das sessões municipais nada referem sobre o assunto. As imperfeitas cantarias foram empregadas nas obras de reconstrução do cais da vila.(2)

Guerreiro Gascon, a quem já nos temos referido em várias ocasiões, informa que em tempos ouviu ao Sr. Manuel António Torres (...) que o pelourinho, destruído cerca de 1878 para alargamento do trânsito (pensamos que possivelmente devido à construção da estrada Alcoutim-Pereiro) se elevava na actual Praça da República. Tudo isto lhe confirmou o Sr. Pedro Teixeira, enviando-lhe um desenho do monumento, feito de memória.
A desaparecida cadeia e onde antes tinha funcionado a Casa da Câmara.
Foto de JV

Mais informa que ficava “defronte da Loja do Serafim”, era todo em mármore, sendo os restos empregues nas obras do cais. Assentava sobre duas grossas pedras formando degraus. A sua coluna media cerca de metro e meio e igual dimensão deveria ter por face a pedra base. (3)

É tudo o que foi possível dizer sobre este monumento cuja coluna ou parte dele serve hoje de base de chuveiro no cais velho de Alcoutim.(4)


NOTAS

(1) – “Velharias - LXIII - Os Pelourinhos Algarvios”, Vieira Branco in Correio do Sul de 9 de Maio de 1937.

(2) – “A Derrocada do Pelourinho e da Câmara de Alcoutim pelas Cheias do Guadiana em 1823”, José Carlos Vilhena Mesquita, in Jornal do Algarve de 8 de Agosto de 1991.

(3) - Foi pena que o desenho não tivesse sido publicado acompanhando o artigo. Quem sabe se não existirá no espólio do Sr. Guerreiro Gascon!

(4) – “O destino do Pelourinho da Vila de Alcoutim”, José Varzeano, Jornal Escrito nº 37, de Novembro de 2001, p III, encarte de 22 de Novembro de 2001 do Notícias do Algarve.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Há 43 anos em Alcoutim !



Hoje a postagem vai ser de homenagem ao nosso valioso colaborador neste tema, José Madeira Serafim.

É datada de Março/Abril de 1969 e foi tirada numa casa na Rua S. Salvador que já não existe.

Nela, ao centro, o “homenageado”, hoje já de cabelos brancos e alguma barriguinha dado que os anos não perdoam quanto a estas coisas.

Do grupo fotografado só um não é alcoutenejo.

Admito que a máquina fotográfica fosse do José Madeira Serafim, homem virado a estas coisas.

RECORDAR É VIVER.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da Freguesia de Alcoutim [16]


OS CABOS DE POLÍCIA

Afonso Vicente nos dias de hoje. Foto de JV, 2012

Durante a Monarquia Constitucional existia a figura de cabo de polícia que era representante do Regedor da Freguesia. Havia-os espalhados pelos montes, auxiliando-o assim, na função de autoridade policial.

Não eram remunerados pelo exercício de tais funções, apenas recebendo percentagem sobre algumas multas cobradas.

Com acção em Afonso Vicente conseguimos identificar quem exerceu essa função desde 1836 até 1842, conforme o quadro que se segue.


CABOS DE POLÍCIA

1836 – MANUEL BARTOLOMEU

1837 – FRANCISCO COSTA

1838 – MANUEL BARTOLOMEU

1839 – LOURENÇO AFONSO

1840 – FRANCISCO GOMES

1841 – ANTÓNIO FERNANDES

1842 – JOSÉ ROSA

Sabemos que Francisco Costa foi nomeado em Sessão da Câmara Municipal de 15 de Maio daquele ano e José Rosa na de 27 de Fevereiro de 1842.

Era a esta autoridade policial que competia resolver os problemas que fossem surgindo na sua área de acção.

Pensamos que uma das características para a sua escolha baseava-se em serviço militar cumprido e nalguma juventude para poder actuar com decisão quando fosse necessário.

Os cabos de polícia estavam dependentes do Regedor e este do Administrador do Concelho, representante no concelho de Governo e do poder policial.

Em 1879 o Administrador do Concelho, Manuel José da Trindade e Lima, quando tomou posse existiam 296 cabos de polícia no concelho tendo substituído 66, ora por serem atendidos os seus pedidos ora por incompatibilidades várias.

O Código Administrativo de 1936 acabou com os Administradores do Concelho, mantendo o Regedor, mas pensamos que foram banidos os cabos de polícia, possivelmente pela expansão da GNR.

As funções até então da competência do Administrador passaram a ser desempenhadas pelo Presidente da Câmara.

O lugar de Regedor foi extinto com a Constituição Política em vigor.


NOTA

(1) – Ofício nº 101 de 21 de Outubro de 1879, do Administrador do Concelho.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

As parteiras (apelidadas de curiosas)

Pequena nota
Apresentamos hoje um interessante texto que um leitor assíduo do AL teve a amabilidade de nos enviar.
A situação foi despoletada pela recente publicação neste espaço de uma relação de enfermeiros e paramédicos naturais deste concelho e continua aberta a quem quiser colaborar.
Era bom que se pudesse organizar uma lista destas CURIOSAS que tantos serviços prestaram aos seus semelhantes o troco do bem servir pois não cobravam nada pelo seu trabalho limitando-se a receber a recompensa que lhes quisessem prestar.
Em tempos antigos era a parteira-curiosa que levava à pia baptismal o neófito e por vezes servia de madrinha.
Temos por enquanto muitos alcoutenejos que nasceram com o auxílio destas pessoas e de uma maneira geral todos sabem o nome da curiosa que os assistiu. Havendo colaboração, não seria difícil organizar para a posteridade uma relação destas pessoas para serem recordadas pelos vindouros com o respeito e admiração que merecem.

JV





Escreve 

António Afonso


 Em tempos idos e de má memória, nesse mundo rural fechado, no meu concelho e não só, o direito à Saúde era apenas uma miragem. É aqui que entra em cena esta Figura -a Parteira, a que eu ouso chamar MAGA -hoje será da mais elementar justiça recordá-la.

Ela punha em prática os seus conhecimentos empíricos transmitidos pelas mães e avós, ajudando as parturientes a dar à luz em ambientes menos próprios. Eram chamadas de noite ou de dia, lá iam elas com o seu xaile de lã (aqui chamado de CARINHOSA), se era Inverno ou de guarda -sol se era verão. Nada pedia em troca!


Chegada ao local tornava-se a Chefe das operações, os homens e as crianças eram mandadas para a rua, refugiavam-se na casa da vizinha, as mulheres e ajudantes andavam num corrupio, com bacias e alguidares, panos que haviam sido corados ao sol e passados a ferro de brasa (embora desconhecessem a palavra esterilização), águas quentes e frias e o milagroso sabão azul para lavar e desinfectar; arregaçava as mãos, lavava-se, benzia-se, por vezes rezava! e ordenava a parturiente a colocar-se na posição ginecológica, agarrar-se aos varões de ferro da cama e fazer força quando surgissem as dores, quando se ouvia o grito dilacerante e o choro da criança - tinha-se dado o supremo milagre, O nascimento! Porém se as coisas corriam mal, era necessário buscar o médico a léguas de distância, por vezes era tarde demais Mesmo quando a parteira não tinha sucesso, jamais alguém a incriminava, tal era o respeito!

Recordo-me que aqui há uns anos, de ir visitar ao Hospital Pulido Valente, um arquitecto, nascido no Pêro Dias, nestas circunstâncias, ele não me conhecia, apresentei-me dizendo-me filho da senhora tal, ao que a namorada respondeu. Sim, é aquela senhora que te ajudou a nascer! Palavras que muito me emocionaram.

domingo, 13 de maio de 2012

Barco do Correio




Escreve

  
Gaspar Santos





O Barco do Correio transportava diariamente a correspondência que entrava e saía do concelho de Alcoutim. No concelho o transporte fazia-se de bicicleta. Na data em que esta foto foi tirada o barco era este, propriedade de Manuel Feliciano e cujo mestre se chamava Amândio André Pereira. O dono do barco e o seu mestre moravam nas Laranjeiras.

O barco do correio fez durante vários anos o transporte das malas dos CTT sob contrato estabelecido com o prestador do serviço, que ao longo dos anos não foi sempre o mesmo. Tinha carreiras regulares, sem um horário preciso, pois dependia dos ventos e marés. Um dia vinha de Vila Real de Santo António, donde partia de manhã depois das 9 horas, para Alcoutim. No dia seguinte fazia o percurso inverso partindo de Alcoutim depois das 18 horas. Mais tarde quando o correio passou a ser transportado pelas camionetas de carreira melhorou a distribuição da correspondência. Este era ao mesmo tempo um transporte com que passageiros e carga podiam contar e que prestou nestes anos muitos bons serviços na falta de melhores alternativas. Também neste aspecto as camionetas vieram destronar a via Rio Guadiana logo que esse progresso chegou.

Esta foto, que deve ter sido tirada em 1948, mostra dentro do barco do correio da esquerda para a direita: o mestre Amândio Pereira, Cremilde Martins dos Santos que nos cedeu a foto, a sua irmã Maria Martins dos Santos, Fernando Dias, uma jovem de Sanlúcar cujo nome desconhecemos, Maria Julieta Batista, Augusto Parreira Batista e João Dias. Os terrenos em Espanha desprovidos de mato. Ainda vinha longe a utilização do Guadiana como marina.


sábado, 12 de maio de 2012

De Couto no Pecado à Vila do Sal - Castro Marim [1550 - 1850]



Mais um importante livro para a história do Baixo Guadiana neste caso abordando um assunto “COUTO” que foi comum a Mértola, Alcoutim e Castro Marim que tendo uma base igual as concessões têm algumas diferenças tomando em consideração as necessidades locais e reais.

Castro Marim recebeu degredados durante 350 anos, condenados pelas autoridades inquisitoriais e da coroa.

O estudo aprofundado divide-se em três partes. A I aborda “Castro Marim: Inquisição e degredo”, a II “Castro Marim: o degredo e o Estado” e a III “Os mais procurados de Portugal [1771]”.

É muito interessante a leitura deste valioso trabalho que nos apresenta vários quadros indicando a origem e os motivos porque foram degredados

Na última parte apresenta a lista dos que não compareceram para cumprimento da pena de degredo e que por isso eram procurados (1771)

Curioso é verificar que os autores deste trabalho não são portugueses. Geraldo Pieroni é brasileiro e concluiu o doutoramento em História pela Universidade de Paris – Sorbonne, em 1996. Em 2000 já apresentava várias publicações dentro da temática da sua especialização.

Timothy Coates, natural dos EUA concluiu o doutoramento pela Universidade de Minnesota, em 1993. Recebeu a medalha de Grande Comendador da Ordem de São Tiago, honra outorgada pelo Presidente de Portugal, pelo seu trabalho de divulgação da História Portuguesa nos Estados Unidos.

Numa Edição da Livraria Sá da Costa Editora em parceria com a Câmara Municipal de Castro Marim tem o formato de 16X24 e 173 páginas apresentando várias fotografias e mapas a cores.

Da sua Bibliografia consta o nosso trabalho Alcoutim, capital do nordeste algarvio, Subsídios para uma monografia, C.M. Alcoutim, 1985), apresentando no Prefácio e Agradecimentos (p.12) em nota de rodapé uma alusão ao nosso trabalho.

O livro foi-nos oferecido pela Câmara Municipal de Castro Marim, o que muito agradecemos.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Turquês


A turquês é um instrumento geralmente de ferro constituido por duas peças de formato semelhante, que se cruzam e se movem em volta de uma cavilha ou parafuso. Tem a função de agarrar ou arrancar algum objecto.

São utilizadas em diversas profissões onde têm por vezes configurações diferentes mas sempre com uma função semelhante.

Distinguem-se as turqueses de carpinteiro, sapateiro, ferrador, pedreiro ou ferreiro que são aquelas que de momento nos vêm à memória.

A que a foto representa é uma turquês normal na qual é bem visível o seu fabrico artesanal que deve ter ocorrido em Alcoutim numa das variadíssimas forjas existentes no concelho em finais do século XIX.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXVII




Escreve


 Daniel Teixeira



A MINHA AVÓ COELHO (a)

A minha «Avó Coelha» como lhe chamávamos era de facto minha tia avó e era uma velhota extremamente bonita, tinha aquele ar de senhora mesmo, como se dizia também por lá embora a «maldição» do costumeiro chapéu e do lenço apenas deixasse ver um pouco dos seus lindos cabelos brancos na zona da fronte e pouco mais.

Tínhamos um grande carinho por ela e agora penso se também não haveria um pouco de piedade da minha parte, mas de uma forma ou de outra, por simpatia directa ou intermediada pela pena dela ser cega o certo era que gostávamos todos os três irmãos e uma irmã adoptada de ir buscá-la a casa dela para a levar a casa da filha.

Vivia no Além (já aqui falei dos «bairros» em Alcaria Alta) e a filha dela (minha Tia Bia) morava na Praça. O Além e a Praça são os lados nascente e poente do Monte e era preciso percorrer uma enfiada de azinhagas ainda no Além, atravessar o Rossio passando em frente à casa da minha tia-avó Zabelinha e subir uma relativamente bastante inclinada azinhaga logo ao lado do agora local da ex-escola primária, desembocar em frente à casa da mãe do Sebastião (agora psicólogo) e fazer mais cerca de 50 metros até à porta do quintal da minha Tia Bia. Dado o estado dos caminhos era um percurso demorado acrescentado pelo facto dela não ver. Coisas que acontecem e que a gente chega a pensar se é melhor ser cego de nascença ou cegar numa idade já adulta.

Claro que não é melhor nem uma coisa nem outra, são as duas más, mas deve ser muito doloroso mesmo ter levado cerca de 50 anos a ver e de repente perder a vista. Não sei exactamente qual foi a causa mas sei que ela ainda esteve no velho hospital de Faro, agora sede da Misericórdia e na altura Hospital na sua grande parte servido em enfermagem por Freiras e propriedade da Misericórdia de Faro.

Tinha esta minha «avó» de nome um grande e natural desgosto por ter perdido a vista e não se podia falar nisso com ela. O facto de dizermos «veja» era suficiente para a vermos a chorar. Por isso o termo «ver» não podia ser usado, mesmo que não quiséssemos mesmo significar com a sua utilização ver, mas sim utilizando-o como forma de expressão.

Andava a meses como se dizia por lá: um mês na sua casa que era ao lado da casa do filho e logo indirectamente em casa do filho, o Ti Zé Coelho, outro mês em casa da filha que vivia em Alcaria Alta, altura em que lá passava o dia e ia dormir a sua casa no Além. Era quando nós a íamos buscar, de manhã. Quem a levava sempre à tardinha era a filha para a ajudar a deitar-se também. No terceiro mês deste calendário «a meses» ia para casa da filha que vivia em Giões, casada com o meu Tio José Teixeira aqui já falado em anteriores crónicas, e que por princípio a vinha buscar no seu carro de mula.

Foram raras as vezes que a vimos partir para Giões. Quase nunca calhava no nosso tempo de estadia por lá, pelo que a maior parte do tempo ela estava em Alcaria Alta quando nós lá estávamos. Fazia malha, meias mais propriamente, e era assim que entretinha a vida. Viúva - nunca cheguei a conhecer o seu marido - tinha um filho que não teve filhos. Lembro-me vagamente da mulher dele - encontrávamo-nos por vezes na Valdégua, uma parte da horta com este nome dividida entre os dois irmãos (minha tia e meu tio) mas que nós usávamos muito sobretudo para a brincadeira. Tinha dois poços, um de escaleiras e um outro de puxar de balde com corda e como se podia gastar água em justa medida aproveitávamos para fazer os banhos caseiros: balde de água - sabão - balde de água

Este meu tio ficou viúvo relativamente cedo e podia ter casado de novo, pretendentes não lhe faltaram ao que soube. Não era muito dado, como se usava dizer das pessoas pouco expansivas, também, mas era simpático: dormi uma noite em casa dele, já pelos meus 20 anos, não me lembro exactamente por qual razão porque quartos livres não faltavam por aqueles sítios mesmo que a nossa casa não tivesse lugares disponíveis.

Levava a sua lavoura e o tratamento das hortas naquilo que eu hoje acho ser uma quase clandestinidade: tínhamos hortas vizinhas, como a Valdégua que já referi, mas não me lembro de alguma vez o ter encontrado na labuta da rega. Não sei exactamente porque reparo nisto, mas era suposto termos uma relação mais chegada e tal não acontecia.

Escrevo muito sobre falecimentos em Alcaria Alta, sei isso perfeitamente, mas também é preciso ter em conta que quase todo o pessoal que eu conheci por lá foi falecendo e que para falar das suas vidas e dos meus contactos com eles não posso esquecer isso. é triste mas o tempo foi passando: mesmo os mais novos por uma razão ou por outra desapareceram e neste caso do meu Tio/Primo Zé Coelho fui assistir ao seu velório feito ali em casa dele, no quarto dele mesmo, onde já em caixão ficou à espera do dia seguinte para seguir para Giões.

O quarto era pequeno e as pessoas que iam ficando na rotação do velório não deixavam nenhum espaço livre; algumas conseguiam sentar-se, outras ficavam de pé e para entradas e saídas era um acotovelar obrigatório. De quando em vez vínhamos cá fora tomar ar, fumar um cigarro e ouvir os tradicionais «a vida é assim» ou «é o caminho que todos temos de seguir» ou «era um bom homem» o que de facto era embora como já disse muito metido consigo mesmo. Tínhamos mesmo de ir lá vê-lo a casa ou no largo entre a sua casa e a casa da sua mãe porque não era mesmo pessoa de visitas a casa dos outros, nem mesmo da irmã a não ser por razões de negócios ocasionais.

Sobre ritos funerários li bastante, não tudo porque em Portugal não há uma cultura especificamente direccionada para o estudo dos cultos e do luto, pelo menos que eu saiba, mas agora e passados estes anos todos lembro-me das carpideiras relatadas no Norte de Portugal num estudo universitário e lembro-me também que por ali era difícil ver alguém chorar nos funerais. Havia a comoção, havia lágrimas, mas salvo nas alturas do cortejo funerário não se ouvia mais que soluços logo abafados pelo ombro ou pelo consolo de próximos.

Ao mesmo tempo lembro-me dos cultos mortuários em pleno período já da Renascença, em que em ambiente urbano, os quartos dos falecidos ficavam literalmente repletos, não só de familiares e conhecidos mas de qualquer pessoa mesmo: bastava que vissem o padre passar para a extrema unção que era de tradição segui-lo e entrar na casa do normalmente já falecido.

Quando do falecimento do meu primo Zé Francisco, tempo antes deste do Ti Zé Coelho, apercebi-me que a minha prima viúva dele queria fazer aquilo a que se pode chamar de sinalização e resguardo de luto entalando panos pretos nas pedras da casa e dos cercados aparentemente para assim informar as pessoas que naquela casa havia um falecido do que foi demovida pela minha mãe sob argumento de que «isso já não se usa».

Não se usava mas usou-se, sendo assim: o objectivo, penso eu, seria talvez não tanto informar as pessoas de um evento que num meio pequeno como era Alcaria Alta era logo de conhecimento público, mas talvez mais fazer um resguardo, quase sacro, uma «defesa» do descanso do defunto.

Nunca aprofundei isto, os cultos funerários vão-se perdendo também em favor dos funerais relâmpago de agora e as recolhas que tenho lido usam cerca de 70% das anotações da Idade Média, normalmente referindo as doações à Igreja feitas pelos falecidos.

Não vem a talhe de foice um pouco de humor nesta situação mas quando do falecimento de um outro familiar de Alcaria Alta, na Igreja de Giões, o Padre que veio de Mértola porque não havia outro disponível nas paróquias do Concelho fez o serviço dele encomendando a alma do defunto e dizendo a respectiva Missa.

Ficámos ali no Largo da Igreja conversando um pouco e ao fim de cerca de meia hora vimos que o carro onde tinha vindo o Padre, o carro funerário, não arrancava e que o pároco ali estava sentado imóvel como se estivesse rezando para si mesmo. Todos achámos muito bem, aquele recolhimento, em alma de uma pessoa que ele só tinha visto uma vez e já falecida até que alguém se lembrou que na confusão dos irmãos e dos primos ninguém sabia quem pagava ao Padre até que se chegou à conclusão que entre todos os possíveis pagadores todos eles tinham pensado que tinha sido o outro.

Lá se foi pagar ao Senhor Padre com pedidos das maiores desculpas. Ele, delicado, ali tinha ficado aquele tempo todo, nada dizendo sobre isso nem mandando dizer...