sábado, 15 de setembro de 2012

Cama de ferro tipo "hospital"


É assim designado este tipo de cama simples por ser o usado nos hospitais, que sem variar no aspecto, veio a ser modificado nas suas estruturas, a fim de facilitar a vida aos doentes e profissionais de saúde proporcionando articulações desejadas.

Sempre me lembro de as ver pintadas de branco, possivelmente a cor mais adequada à sua missão. Talvez por este motivo, a cor tivesse sido seguida por quem as adquiriu para servirem em suas casas, como ainda hoje se pode verificar nos exemplares com tendência a desaparecer.

Havia uma técnica para o seu embelezamento.

Quando a pintura, com o decorrer do tempo, começava a deteriorar-se era necessário renová-la. Para o efeito, raspava-se por vezes com o auxílio de um maçarico a petróleo.

Limpeza feita, era a altura de aplicar a primeira camada de tinta que servia de aparelho. Depois de secar, aplicava-se a segunda e era então que, ainda húmida, se acendia uma vela de estearina, cuja chama se ia passando como se desejava junto da pintura recente que absorvia o tisnado produzido pela chama dando-lhe um tom cinzento em vários locais, conforme a habilidade de quem a aplicava.

Estas camas, que nos hospitais eram só de um corpo, como a que a foto apresenta, nas habitações alcoutenejas havia-as, tal como as outras, nas três medidas estandardizadas, ou seja, de um corpo, de corpo e meio e de casal.

“Cabeceira” e “pés” iguais, existindo também o apetrechamento nos quatro pés de rodinhas de ferro móveis para fácil deslocação.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Castro-marinenses ilustres


(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO – SUPLEMENTO DO POSTAL DO ALGARVE DE 30 DE MARÇO  DE 2000) *


Vista aérea de Castro Marim.
Com a devida vénia de A Terceira Dimensão - Fotografia Aérea.
 
Prometi há uns meses, ao Sr. Dr. José Fernandes Estevens, Presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, procurar reunir e publicar pequenas notas biográficas de alguns castro-marinenses que pelas suas vidas deixaram o seu nome em destaque.

O tempo que entretanto dispus para o efeito não foi muito pelo que só me foi possível reunir nove, dos muitos que certamente viram a luz do dia naquela velhinha e histórica vila ou no seu concelho.

Nas leituras que habitualmente fazemos no intuito de conhecer melhor o passado de Alcoutim, raramente deixam de aparecer dados sobre Castro Marim. A nossa experiência de décadas, diz-nos que enquanto encontramos uma nota sobre Alcoutim, aparecem-nos nove ou dez sobre Castro Marim e normalmente de maior relevância.

 
DUARTE DE FIGUEIREDO E GUSMÃO

Ao tomar o hábito dos Carmelitas descalços, optou pelo nome de FREI ÂNGELO DE SANTA MARIA. Nasceu em 1664, sendo filho de Gaspar Lourenço de Gusmão e de D. Maria de Figueiredo, pessoas de virtude e distinção.

Começando os seus estudos em Tavira, passou a estudar cânones  na Universidade de Salamanca.

Depois de tomar o hábito religioso, foi ouvir lições de filosofia em Ávila e de teologia em Segóvia. Foi tal o aproveitamento que acabou por ficar em Segóvia na condição de professor de teologia.

Voltando a Portugal, vai para o convento de Viana onde continua a ministrar a mesma ciência.

Na sua Ordem exerceu os cargos de secretário da província, reitor do Colégio de Coimbra e definidor por três vezes, dando sempre provas de equilíbrio.

Das várias obras que escreveu, destaca-se Schola Moralis Lusitanensis, impressa em Lisboa por volta de 1734.
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 Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve - João Baptista da Silva Lopes.

 
FRANCISCO DE PAULA BRITO CABREIRA

Assentou praça em 2 de Janeiro de 1791 no Regimento de Infantaria de Tavira, tendo obtido a promoção a major em 26 de Abril de 1811.

Prestou bons e heróicos serviços nas campanhas de 1801 e de 1808 a 1812.

Pelas suas ideias liberais, vem a ser preso em Tavira no dia 27 de Maio de 1828, entrando na Torre de S. Julião da Barra um mês depois.

Veio a falecer, ainda preso e quando era major reformado, no dia 5 de Maio de 1830.
 

 Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

História do Cativeiro dos Presos de Estado na Torre de S. Julião da Barra (...) - João Baptista da Silva Lopes

 
JOÃO DA GUARDA CABREIRA

Era Juiz hereditário da Alfândega de Vila Real de Santo António quando em 1808 chefia a revolta que libertou a sua terra natal do domínio das tropas francesas.

Logo a seguir, apresenta-se ao Capitão - general do Algarve para marchar contra o inimigo em qualquer posto, abandonando assim o rendoso cargo de que estava investido.

Nomeado tenente - coronel do Regimento de Milícias de Tavira, aí serviu com muita honra até 1811.

Foi condecorado com o Laço da Restauração da capital e transferido da arma de Infantaria para o Estado Maior do Exército do Reino do Brasil (1814) e nomeado em 1829, governador do Forte das Maias, próximo da barra do Tejo.

Emigrou em 1834 para Modena (Itália) onde veio a falecer em 1851 e ficou sepultado.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

ANTÓNIO PEREIRA DA SILVA

Estudou na Universidade de Coimbra na Faculdade de Leis, tendo servido com essa especialização vários lugares no Reino.

È despachado para Goa, em 18o2 como Desembargador da sua Relação, vindo a ocupar o lugar de Chanceler em 1807.

Mais tarde veio a ser nomeado Conselheiro da Fazenda, funções que exerceu no Rio de Janeiro em 1820.

Voltou pouco depois ao reino vindo a falecer em Lisboa.

Teve o foro de Fidalgo escudeiro por alvará de 15 de Junho de 1807.

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Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do reino do Algarve - João Baptista da Silva Lopes

 
JOSÉ CABREIRA DE BRITO E ALVELOS DRAGO VALENTE DE FARIA PEREIRA

Por alvará de 25 de Junho de 1807, foi fidalgo cavaleiro da Casa Real.

Desempenhou as funções de sargento - mor da comarca de Faro.

Já velho, acompanhou os filhos quando estes marcharam para a Guerra Peninsular. Bateu-se com bravura, nos lugares mais perigosos, quando os franceses atacaram a praça de Peniche, dando assim um bom exemplo à guarnição.

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira


DOMINGOS CORRÊA AROUCA

Nasceu em 1791 e foi comendador da Ordem de Avís e de Nossa Senhora da Conceição, este fidalgo da Casa Real, por alvará de 4 de dezembro de 1834.

Como tenente, vai para Moçambique em 1810, onde comandou as companhias de Quelimane e Inhambane, tendo sido também governador deste distrito.

Já como coronel de infantaria, é nomeado governador de Cabo Verde em 16 de Junho de 1836, substituindo o coronel, António Joaquim Pereira Marinho.

Teve de fazer face a uma revolta fomentada pelo seu antecessor que tinha ficado no arquipélago, chegando mesmo duas das ilhas a negar-lhe obediência.

Este clima tinha a ver com as lutas políticas internas que se travavam no país entre os liberais.

Arouca resistiu com o apoio militar da corveta francesa Triumphante, cujo comandante obrigou Marinho a capitular.

Sá da Bandeira aceitou a demissão de Arouca e nomeia novamente o seu protegido, Pereira Marinho, para o lugar, isto em fins de 1836. O governo não decorre com tranquilidade, acabando o responsável por ser transferido para Moçambique, em 1839,

O afrontamento entre os dois militares deu origem à publicação de panfletos tendo terminado em 1842 com a publicação de Desmentido às acusações feitas pelo ex-Governador de Cabo verde e de Moçambique, o Sr. Joaquim Pereira Marinho, contra Domingos Corrêa Arouca, etc.

Corrêa Arouca pertenceu à Loja Maçónica União e Justiça, sediada em Lisboa.

Faleceu em 24 de Janeiro de 1861 como brigadeiro na reforma.
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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Dicionário Bibliográfico Português - Inocêncio Francisco da Silva- 1870

História de Portugal (Vol. VIII) Joaquim Veríssimo Serrão

História da Maçonaria em Portugal - A.H.Oliveira Marques - 1990.

 
TOMÁS ANTÓNIO DA GUARDA CABREIRA

Nasceu em 1793, sendo filho do tenente coronel João da Guarda Cabreira.

Tomou parte na Guerra Peninsular, pertencendo ao Regimento de Infantaria 14, onde alcançou o posto de tenente - ajudante.
 
Capitão em 1817, adere à causa de D. Miguel sendo forçado a emigrar para Espanha em 1826, donde regressa dois anos depois.

 Foi entretanto nomeado major de milícias em Tavira e na guerra civil que entretanto se desenrola obtém o posto de brigadeiro.

 Estava em Santarém quando em Março de 1834 foi incumbido de comandando dois mil homens ir ao Algarve e fazer frente a Sá da Bandeira que tinha desembarcado em Lagos com os seus homens. O encontro dá-se em S. Bartolomeu de Messines em 24 de Abril daquele ano e vence o inimigo. Já como Marechal de Campo, continuou operando no Algarve até à Convenção de Évora – Monte.

Preso em Faro, é morto pelos seus inimigos políticos.

Possuía as seguintes condecorações: - Cruz de ouro das Campanhas da Guerra Peninsular, Cruz da Batalha de Albuera e Medalha Militar de Fidelidade ao Rei e à Pátria.

Filho e neto, do mesmo nome, seguiram igualmente a carreira das armas, sendo o filho general e o neto coronel.

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 Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

* Vide nota do suplemento nº 21

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Quadros da vida rural alcouteneja [3]



Escreve 

M Dias



O NOSSO “AR CONDICIONADO” ERA ANTIALÉRGICO!


 O monte situa-se num vale, ladeado por serranias pouco arborizadas.

Nesse tempo, anos 50/60, os Verões eram em geral muito secos e os Invernos, frios e pouco chuvosos.


Quando chovia, os terrenos magros e xistosos, não retinham a água , o que dava origem as grandes barrancadas e ribeiradas. O sol, forte e implacável aquecia as pedras, que, durante horas se mantinham quentes, tal como as paredes exteriores das casas. Casas caiadas com apenas uma janela (algumas, nem isso) e portas baixas e largas com postigo, que arejava e não deixava entrar tanto calor. Por outro lado, as paredes, de pedra misturada com argamassa de terra, e bastante largas, constituíam uma barreira natural aos excessos de temperatura. A nossa casa, tinha em todos os quartos uma telha de vidro (clarabóia) e nas traseiras, uma pequena janela tipo seteira que provocava uma corrente de ar mais fresco depois do sol se pôr e arrefecia toda a casa. Enquanto se arrefecia a casa, ficávamos sentados nos poiais às portas com os pais e vizinhos. Poiais esses e ruas já baldeadas um bocado antes com água fresca do poço. No inverno, os serões eram à volta do lume (o fogo como lá se diz). Havia sempre um adulto que contava uma estória ou umas “graças” ou ainda os mais preguiçosos tinham de acabar os trabalhos de casa à luz do petróleo. Dessas histórias poderei um dia fazer referência…

A cair de sono, lá íamos para a cama. O meu colchão de carepas de milho com enxergões de palha de centeio por baixo, rasmalhava ao mais pequeno movimento, o que não me impedia de dormir os melhores sonos, em contraste com o meu de latex onde hoje durmo!

Alergias? Urticárias? Não se ouvia falar disso!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Homenagem ao Dr. João Lopes Dias

Pequena nota
Devido a dificuldades encontradas no concelho de Alcoutim e a nível de internet, só hoje foi possível a publicação deste texto de autoria do nosso colaborador Gaspar Santos.
JV




Escreve

Gaspar Santos



Ontem, 5 de Setembro, muitos Alcoutenejos e amigos vindos de outros lugares tiveram ocasião de prestar homenagem ao Dr. João Lopes Dias no dia em que completaria 80 anos.

A sessão foi realizada pelas 21 horas no largo em frente ao mercado que se passou a chamar Praça Dr. João Lopes Dias.

 A viúva Dr.ª Victória Cassinelo Dias descerrou a placa toponímica.A cerimónia começou pela apresentação em ecrã gigante dos principais momentos da vida do homenageado.

A seguir o seu grande amigo Carlos Brito leu um emocionado elogio.

 Em representação da família João Cassinelo Dias, além de recordar o pai, leu um texto que este escrevera e não chegou a ler quando em 1996 foi agraciado pela Câmara Municipal de Alcoutim com a medalha de mérito municipal.

O Presidente Francisco Amaral encerrou a sessão evocando com saudade o homenageado seguindo-se um momento musical. Tanto pelo que referiram os oradores como pelas palavras que deixou escritas em 1996 recordámos emocionados o Homem sensível, amigo, inteligente, com enorme paixão por esta terra que o viu nascer.

domingo, 9 de setembro de 2012

"Memento mori..."



 
Poeta
 
José Temudo
 
 
 
 
Ainda bem agarrados,

ou da vida já desprendidos,

animados ou desiludidos,

bem amados ou mal queridos,

um a um,

 geração após geração,

sem escapar nenhum,

todos vamos indo embora.

quer queiramos, quer não,

levados pela mesma senhora!

Para onde nos leva,
 
para que lugar nos conduz,

 por que estrada ?

Para o temeroso reino da Treva,

para o esperançoso Reino da Luz,

ou para o insondável Reino do Nada ?

Na infindável e triste procissão

dos que, a conta gotas, vão andando,

um dia acompanhando,

 logo no outro acompanhados,

umas vezes chorando,

depois, por uma só vez, chorados,

já não sabemos por quem choramos,

se pelos que partem,

se pelos que ficamos.

sábado, 8 de setembro de 2012

O "Escaparate" e o seu movimento


 
Nesta pequena análise que vamos fazer sobre esta rubrica do nosso espaço, tomamos em conta os dados que obtivemos em 28 de Agosto último quando o tema já tem 93 mensagens.

Pelo nosso ponto de vista, consideramos importante tê-la criado pois assim damos indicações a quem procure ler ou consultar assuntos sobre Alcoutim e de uma maneira geral sobre o Algarve.

Não significa isto que todas as mensagens obedeçam a estes parâmetros pois de vez em quando por razões que nos assistem incluímos obras de carácter geral ou pessoal.

Duas pessoas chamaram-me a atenção para o interesse que a rubrica representa pois ambas, da área da investigação e com obra publicada, ainda que estejam no seu início, têm obtido nesta rubrica informações que lhe são úteis.

É fácil compreender que é dos temas menos procurados pelos nossos visitantes / leitores.

Tal como fizemos na análise anterior vamos indicar os cinco mais visitados:

1º - TESOUROS DO ARTESANATO PORTUGUÊS (30.11.2011)

2º - DICIONÁRIO DO FALAR ALGARVIO (10.03.2010)

3º - A GUERRILHA DO REMEXIDO (13.03.2011)

4º - HISTÓRIA DE PORTUGAL – X VOLUME – (1890-1910) (11.06.2010)

5º - HUMBERTO DELGADO (31.03.2009)
 
O 1º lugar é ocupado com uma obra genérica e que engloba como então dissemos aspectos do artesanato alcoutenejo. O 2º é mesmo sobre todo o falar típico algarvio um excelente trabalho que todos os algarvios deviam conhecer.

A 3ª posição é ocupada por um trabalho que se pode considerar sobre o Algarve ainda que tenha umas incursões no Baixo-Alentejo.

Ainda que o X Volume da História de Portugal de Veríssimo Serrão refira dois factos sobre Alcoutim não me parece o mais significativo de toda a monumental obra.

Por último temos “a prova provada” que se justifica de vez em quando referir obras que nada tem a ver com Alcoutim mas que são excelentes trabalhos como é o caso da biografia bem alargado do General Humberto Delgado, uma FIGURA NACIONAL.

Aqui fica esta informação com os comentários que os números nos sugeriram.
 
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Lisboa - Paris por cinco contos de réis [7]


 
 
Escreve

Amílcar Felício
 

 
Apesar do serão até altas horas na noite anterior, dia da chegada a Bruxelas, Armando e Faustino levantaram-se cedo e às 8 da manhã já lá iam com o Mário a caminho da Universidade Livre de Bruxelas à procura de trabalho. A oferta de trabalhos ocasionais naquele tipo de Sociedades de Consumo já instaladas há muito – consequência do grande desenvolvimento económico capitalista no pós-guerra – era longa e pouco usual para os costumes portugueses de então.

De facto, desde babysitter a dogsitter (passear cães no bosque para os aliviar do stress da vivenda calculem) havia de tudo um pouco. Optaram por um trabalho de polidor de carros numa oficina, pois tinham curiosidade em conhecer a mentalidade belga. Saíram-se airosamente da tarefa e os carros ficavam como novos, graças naturalmente às máquinas de polimento que manuseavam com mestria.


 Ficaram de boca aberta com o salário do primeiro dia, pois o pilim depois de convertido mentalmente em escudos – Armando e Faustino tinham dificuldade em sair do escudo, até parecia que estavam a adivinhar o futuro (!) – era o equivalente a quase 6 ou 7 dias de trabalho em Portugal. Era uma diferença salarial abismal! Aguentaram- se por ali toda a semana.

Trabalho-casa, casa-trabalho, lá iam conhecendo naturalmente cada vez mais gente, mas por mais gente que conhecessem nunca “saíam” do mesmo sítio: Portugal era quase sempre o local e o tema exclusivo de conversa. Parecia que viviam num bocadinho de Portugal que se tinha separado daquele Jardim à Beira-Mar Plantado e que andava por esse mundo fora à deriva, como a Jangada do Saramago.

De facto começavam a alargar rapidamente o leque de conhecimentos e amizades. Passavam os tempos livres a conviver e em debates acalorados ora na casa de um, ora na casa de outro ou a encharcar-se de filmes na Cinemateca, com filmes do Eisenstein e de outros realizadores russos da altura ao preço da uva mijona. Às vezes chegavam a palmar duas e três sessões contínuas até os olhos lhes ficarem vermelhos, como na Trilogia do Górki.


Marx

Era um fartar vilanagem de liberdade que nunca lhes tinha passado pelo estreito! E era um deslumbramento ver toda aquela realidade mítica do princípio do século, com toda aquela massa trabalhadora a saltar dos livros para o ecrã e a querer tomar em mãos o seu próprio destino, dando razão ao Marx e ao Lenine!
Mas quando olhavam para trás para o seu Portugalito que não os largava, sentiam-no sempre a uma distância enorme e parecia-lhes de que estavam no fim do mundo. De facto percorrer 2000 quilómetros por terra, dá uma sensação de distância tremenda! À noite então, quando saiam do Cinema ou de casa de um amigo às 2 ou 3 horas da madrugada com as ruas despidas de gente e vestidas do branco da neve que não parava de cair naquele Inverno terrível, sentiam-se uns autênticos Cavaleiros das Trevas num outro planeta. Punham-se a imaginar a sensação de que não teriam então, se estivessem na Suécia a 4000 quilómetros de Portugal. Provavelmente sentir-se-iam no outro lado do mundo!


Lenine

O facto é que o “sonho sueco” começava a esboroar-se e a arrefecer naquele gelo e a noção de distância de Portugal a dobrar, até os afligia quando pensavam nisso. Até que se decidiram finalmente a ficar por ali. E lá se deslocaram uma certa manhã à Sede da ONU em Bruxelas para legalizar a situação, pois andavam completamente clandestinos sem passaporte sequer, correndo naturalmente o risco de serem expulsos. Apresentaram-se ao responsável da ONU e contaram-lhe as suas estórias. Foram ouvidos atentamente sem qualquer interrupção. O responsável guardaria os seus comentários e as suas dúvidas para o fim.
Tratava-se de um tecnocrata austríaco já maduro na casa dos 60 anos, cuja experiência de vida pelo discurso que apresentava, pouco teria ido além de longos anos de confronto com a secretária e o caruncho da madeira, mas que tinha umas angústias existenciais e uns vaipes filosóficos de vez em quando, possivelmente para quebrar a monotonia do dia-a-dia: “cada vez compreendo menos os homens... os de Leste querem vir para o Ocidente e os que cá estão não se sentem cá bem, vá-se lá perceber isto! Ninguém se sente feliz onde quer que esteja, não dá para entender! Mas o que é que os homens querem afinal, vocês sabem-me dizer?”

E no meio destas dúvidas e angústias existenciais do responsável da ONU, Armando e Faustino lá formalizaram o seu pedido de Refugiados, que seria aceite alguns dias depois. Estavam finalmente legalizados e podiam movimentar-se por toda a Europa sem barreiras nem fronteiras, excepto para Portugal naturalmente. Bruxelas seria agora o seu porto de abrigo e o seu poiso dali em diante.

As primeiras notícias começavam a chegar de Portugal. A deserção de Armando tinha caído como uma bomba em Alcoutim com muita incompreensão à mistura, o que era natural. Desde “traidor à Pátria” a “cobardola com medo da guerra”, sussurrava-se de tudo um pouco à boa maneira alcouteneja. Alguns até garantiam que ele tinha ido fazer a guerra para Argel que tinha acabado 10 anos antes, mas que pelos vistos em Alcoutim ainda continuava, pois tinha tido um grande eco para aquelas bandas não se sabe bem porquê.

Armando sabia compreender aquelas incompreensões passe a redundância e não lhe ficava a mais pequena mágoa pessoal contra aquela gente com quem tinha crescido, de quem gostava e por quem tinha um enorme afecto. Na realidade tinha plena consciência da força da ideologia conservadora dominante e do matraquear há quase 50 anos sempre na mesma tecla do “Deus, Pátria e Autoridade” e o tempo que estas coisas levam a mudar!

Por outro lado conhecia perfeitamente o habitual cochicho alcoutenejo próprio dos meios pequenos aonde não acontece quase nada e a que achava imensa graça. Costumava responder aos críticos que o acusavam de não conhecer aquela gente e de gostar de gente falsa: “se a gente também não faz um bocado de má língua e fofoca, o que é que andamos a fazer cá neste mundo?”

Ironia do destino, na realidade pouco mais do que o Padre da altura teria compreendido a sua atitude e ousado ir felicitar eufórico o pai de Armando, pela decisão que o filho tinha tomado. O Cabo da GNR foi psicologicamente abalado informa-lo de que tinha um mandato de captura para o filho: “nem sei como lhe hei-de dizer isto!” começou assim a conversa. “Não diga nada homem, que eu já sei tudo... respondeu-lhe o pai de Armando, aliviando o Senhor daquela situação desagradável.

Pelo contrário, as forças oposicionistas espalhariam rapidamente a notícia pelo Algarve e pelo Alentejo. O cargo de alguma importância local que o pai de Armando desempenhava na altura, serviria às mil maravilhas de caixa de ressonância dando uma força e uma visibilidade à notícia, que seria impossível de outra maneira – mais uma vez uma coisa má acabava por ter o seu lado bom - o que levaria uma brigada da pide a deslocar-se a Alcoutim para negociar com o pai de Armando o seu regresso, com a garantia de que nada lhe aconteceria, para colocar um ponto final naquela derrota pública local e certamente fazer posteriormente o contra-ataque ideológico em prol do regime. Naturalmente que o assunto morreria por ali, pois Armando só mais tarde viria a saber destas peripécias, quando foi visitado pela mãe um ano mais tarde.

Mesmo em Bruxelas teria oportunidade de confirmar aquele impacto regional da sua deserção, quando visitava certo dia a mãe de um amigo natural da Vidigueira e que nem conhecia Alcoutim. Quando Armando lhe perguntou como é que as coisas iam em Portugal a Senhora respondeu: “vão muito mal amigo, aquilo está tudo a desfazer-se, veja lá que até já o filho do Presidente de Alcoutim desertou!”. Armando riu-se e apresentou-se à Senhora como deve ser. Foi uma gargalhada geral!

Armando e Faustino depois de terem decidido fazer de Bruxelas o seu novo poiso, naturalmente saíram de casa dos amigos que os tinham acolhido e começavam a organizar as suas vidas, alugando a sua própria casa. Contudo ao fim de menos de 1 ano, separaram-se por divergências profundas de concepções do mundo e da vida. Tinham optado por diferentes modos de vida. Faustino começava a afastar-se daquela comunidade que o tinha acolhido e a deixar-se deslumbrar com a vida marginal de Bruxelas e de Amesterdão que o encantava e que visitava regularmente.

E assim por ali andaram, cada um por seu lado quase 5 anos que lhes pareceram uma eternidade, até que o 25 de Abril lhes abriu as portas do regresso. Armando saberia do acontecimento logo às 7 horas da manhã quando entrava para o trabalho, por intermédio de um operário espanhol amigo que tinha ouvido na rádio, notícias de movimentações militares em Portugal. Informou de imediato os colegas portugueses que ali trabalhavam, tendo decidido entre eles eleger um dos operários mais esclarecidos da fábrica, para consultar a comunidade e tirar a limpo o que se estava a passar.

 
As notícias que trazia a meio da manhã eram animadoras, falando de grande adesão popular ao Movimento Militar em todo o país. Portugal, os Capitães de Abril e o povo português mereciam nesse mesmo dia honras de primeira página, em todos os jornais franceses e belgas. Era um espectáculo ler aquilo! Desta vez parecia que não era “a morte que tinha saído à rua num dia assim” como cantava o Zeca Afonso na altura. Era a Grândola e o Povo que tinham tomado conta dela e ameaçavam tomar conta da própria vida.
 
A comunidade portuguesa viveria os acontecimentos com entusiasmo e como se neles estivesse a participar colada ao rádio e lendo jornais, embora com alguma desconfiança à mistura pois quando a esmola é grande... e com o receio natural de que se tratasse de uma operação de maquilhagem para continuar tudo na mesma, pois o homem que se dizia estar por detrás do movimento não lhes merecia grande credibilidade pelas suas conhecidas ideias neo-colonialistas.

Por isso nada de precipitações, era preciso seguir os sábios ensinamentos de S. Tomé, até mesmo aqueles que não fossem católicos! No entanto pelo sim pelo não, sentiam que era melhor começar a fazer as malas...

(CONTINUA)
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ALGARVE - Reflexos Etnográficos de uma Região


 São 92 páginas A/4 com ilustrações  a preto e branco e de bom papel que reúnem mais de 50 artigos publicados no jornal O Olhanense por Adérito Fernandes Vaz.

A temática desenvolvida tem a ver, como o título indica, com aspectos etnográficos que abrangem a região do Algarve, nomeadamente, o Litoral.

O Algarve retratado nestas dezenas de artigos constituía a azáfama de uma vida que o turismo veio transformar.

Desde o património construído que passa pela habitação, chaminés, moinhos, noras mouriscas, poços, eiras, fornos de pão ou de cal, passando pelos carros de mula ou cegonhas de tirar água, tudo está descrito com o cuidado exigível, muitas vezes alicerçado nas informações de quem com a matéria conviveu.

Muitos dos exemplares referidos na altura encontravam-se em completa ruína e em vias de extinção, pelo que o trabalho tentava chamar a atenção para o facto de se ir perdendo a memória colectiva.

O Natal Algarvio com as suas características muito próprias, as charolas, o Carnaval, as maias e muitos mais aspectos são tratados nesta colectânea.

Não são esquecidos os trajes , o canto e a alimentação, tal como os passatempos.

Existem coisas semelhantes ao que se passava na Serra, mas também se notam diferenças.

A edição pertenceu à Secretaria de Estado da Cultura – Faro, 1994 que me ofereceu o exemplar.

domingo, 2 de setembro de 2012

O 25 de Abril de 1974 em Alcoutim



Desenho do alcoutenejo João Pedro Rodrigues
 
Mais um ano se passou e mais uma vez não dei cumprimento àquilo que sempre pensei fazer, dar testemunho escrito do que aconteceu em Alcoutim após o estalar do Movimento das Forças Armadas.

Pensei sempre fazê-lo com o afastamento do tempo, se a vida e a saúde tal me viessem a permitir.

Trinta e oito anos estão passados, distância suficiente para cumprir essa intensão e a vida deixou-me aqui chegar com memória e outras condições para o realizar.

Não irei apresentar datas e documentação, sirvo-me da memória e da minha visão dos factos. Possivelmente a documentação básica terá desaparecido, como é vulgar acontecer por toda a parte e em Alcoutim ainda mais!

A vila e o concelho passavam por uma letargia confrangedora motivada, entre outros factores, pelo abandono do rio como via de penetração, deixando a povoação de ser o armazém do concelho. A abertura das duas estradas “matou” a vila, pois as coisas começaram a chegar primeiro às aldeias do que à sede do concelho!

A escola, com um único professor, era mantida a custo pelos filhos dos guardas-fiscais e com artimanhas bem conhecidas, mas muitos destes, logo que lhes fosse possível e muitas vezes através de promoções, fugiam para o litoral onde podiam dar outro futuro aos filhos.

Nessa altura, já os jovens do concelho de Alcoutim dispensavam o ingresso na Guarda-Fiscal para rumarem ao litoral onde os seus braços eram precisos na hotelaria e serviços similares, enquanto os mais idosos e menos habilitados transferiram a força que utilizavam no amanho dos campos para a construção civil. Todos conhecemos industriais destes ramos espalhados pelo litoral, nomeadamente, na zona do sotavento, daqui oriundos e que à custa do seu esforço conseguiram vencer na vida.

A Secção da Guarda-Fiscal raramente tinha um oficial a comandá-la e as repartições públicas estavam muitas vezes desprovidas das suas chefias efectivas. Havia gente, que no dia em que tomava posse, apresentava imediatamente o pedido de transferência.

 
Paçod do Concelho, des. de JV

A Câmara Municipal tinha um quadro de seis funcionários e de uma maneira geral não havia chefia efectiva. Isto chegava muito mal para manter a porta aberta. O orçamento rondava os 400 contos e muito esticado dava para pagar a estes funcionários!

Não havia dinheiro para nada. Os dejectos da canzoada e as ervas daninhas proliferavam pelas ruelas da velha vila.

Chegou a não residir, em todo o concelho, um único licenciado! Nem mesmo médico! As certidões de óbito eram passadas pelo regedor da freguesia, como a Lei então mandava!

Salvo raras excepções, só permanecia na vila quem não tinha qualidades para progredir nas suas carreiras profissionais.

Foram muito poucos os que depois de adquirirem formação regressaram à sua terra!

O saneamento básico (água, energia eléctrica e esgotos) tinha chegado à vila em 1965, a última sede do concelho a receber tal benefício! Havia, desde os meados do século passado, a estrada que ligava Mértola a Vila Real de Santo António passando por Castro Marim, deixando Alcoutim a seis quilómetros como beco sem saída! O IC 27 ainda a deixou a uma distância maior.

A acção de um filho da terra e a população com contribuições monetárias ou em trabalho possibilitaram a construção de um pequeno posto receptor de sinal que dava para ver televisão, porque nem isto era possível com um mínimo de qualidade.

O dia 25 de Abril, dia de São Marcos, é um dia movimentado em todo o concelho, devido a realizar-se a maior feira que tem lugar na aldeia do Pereiro.

À hora de abrir a repartição, lá estava para cumprir a minha obrigação. Quando apareceu o colega de trabalho, que se deslocava da então vila de Olhão e que trazia o rádio ligado, deu-me logo a novidade da confusão que ia pelo país. Este colega tinha passado pela guerra colonial.

 
Para mim, não causou grande admiração, pois tinha acabado de ler a 2ª edição de Portugal e o Futuro, de António de Spínola, entretanto, retirado de circulação e que adquiri, vejam lá, na própria vila de Alcoutim, onde não se vendia um apara-lápis, quanto mais um livro!

Já partiu, por vontade própria, quem mo arranjou, facto que nunca esqueci.

O livro, que hoje só tem um significado histórico, ainda que extremamente moderado, foi como uma bomba na sociedade portuguesa mais adormecida.

Para quem o lesse, era fácil calcular que algo estaria em movimento e quando apareceu o Movimento das Caldas, confirmou o que a generalidade das pessoas pensava. Por tudo isto, a informação que o meu colega me tinha dado não me causou grande surpresa. Depressa me desloquei a casa, a uns duzentos metros do local de trabalho e fui buscar o rádio para ouvir as notícias.

A maioria da população, que na altura rondava as três centenas, tinha-se deslocado para a Feira de S. Marcos, aproveitando os transportes especiais, mas pagos.

A força policial de nada sabia, esperando, contudo, a todo o momento, receber as ordens habituais para a repressão necessária a qualquer hipotética manifestação e à prisão de alguém que tivesse dado a entender que “politicamente” estava com o movimento.

A verdade é que as horas foram passando e as notícias não chegavam e a conversa começou a mudar um pouco de tom, mas sempre na esperança de receber as novas que se desejavam.

Nos anos anteriores, era hábito ir ao S. Marcos após o encerramento de repartição, mas desta vez não havia tempo para isso, era preciso estar atento ao que se ia passando.

Nos dias seguintes, na vila, não se ouviam comentários de uma maneira geral e as pessoas mais idosas nem sequer queriam ouvir falar em tal, afastando-se quando se pretendia falar no assunto, na grande maioria, estas pessoas tinham passado pela Guarda-Fiscal e Guarda Nacional Republicana e muitas ficaram “vacinadas”.

Geralmente, como sempre acontece, eram os jovens os mais entusiasmados, aparecendo por vezes os excessos, isto apesar da tentativa dos pais os apaziguarem.

Começaram a surgir as escritas pelas paredes, que hoje tenho pena de não ter fotografado, ainda que fossem comuns às feitas nos outros sítios e que os jornais traziam sem as peias da censura.

Há uma que não me esqueço pelo erro ortográfico: Fora com o Provedor da Mesiricórdia. E sei quem o escreveu, hoje, um “cinquentão” há muito afastado da vila pela sua actividade profissional.
 

Era notória a falta de consciência política das pessoas. Como opositores ao regime era notada a Família Rosário, principalmente, Francisco Madeira do Rosário, (que já não vivia na vila, mas continuava a ser figura local de referência) mais dois anciãos, um que chegou a pertencer à comissão administrativa da Junta de Freguesia, dados como simpatizantes do Partido Comunista, claro além de Carlos Brito, nome que até aí quase não se podia pronunciar na vila, ainda que fosse conhecido de todos. Eu não o conhecia.

É evidente que havia gente que apesar de não ter qualquer ligação à oposição também não a tinha à situação, desejando a implantação de um regime democrático.

É preciso não esquecer que existia formalizada a União Nacional já designada por ANP com os seus militantes, como não podia deixar de ser e até a existência de legionários, ainda que não tivesse visto nenhum fardado. Conheço contudo dois casos em que foram fazer a entrega das fardas. Igualmente alguns alcoutenejos exerceram funções com maior ou menor notoriedade na PIDE/DGS.

Hoje há quem pretenda esconder estes factos!

Reuniram-se meia dúzia de habitantes da vila, não mais, cujos nomes não interessa referir, que procuraram auxílio de alcoutenenses residentes noutros locais e com a ajuda do MDP/CDE (Faro) organizaram um grande plenário na vila de Alcoutim que levou à nomeação de uma comissão administrativa constituída por um representante de cada freguesia e que entre si escolheram, por voto secreto, o seu presidente, no caso, o representante da freguesia de Alcoutim, Fernando Lopes Dias. Representava a freguesia de Martim Longo, Joaquim Pinheiro Moreira, a de Vaqueiros, Manuel António Guerreiro, o do Pereiro, penso que era Henrique António e a de Giões um indivíduo acabado de chegar à aldeia após a sua reforma como funcionário de uma escola de Lisboa.

Nesse plenário, que reuniu centenas de pessoas na Praça da República, esteve presente Carlos Brito que usou da palavra e naturalmente foi muito aplaudido. O plenário teve a presença e o apoio do MDP/CDE de Faro. Foram vários os oradores , que a esta distância não posso precisar, mas tenho a certeza que também usou da palavra o Eng. José do Rosário. Presidiu à Mesa o Dr. Castro Fernandes.

Isto aconteceu, aproximadamente, um mês depois do 25 de Abril, tendo sido das primeiras Câmaras do País a passar por esta situação, o que seria impensável para muita gente.

Entretanto, nas freguesias foram efectuados, igualmente, plenários mais ou menos democráticos e constituídas comissões administrativas.


Placa toponímica que substituiu
 a histórica existente
Depois foram as transformações e situações inerentes a tal período, com avanços e recuos. Também por aqui se falou nas célebres listas de pessoas a abater se a mudança política tivesse pernas para andar, o que não aconteceu.

Nesta altura, já se notava a mudança de casaca em todos os sectores e começava o burburinho dos partidos políticos com a tentativa notória e legítima de implantação do MDP/CDE.

O Partido Comunista, muito activo e com novos militantes, era o único organizado, mas nunca obteve votos significativos do povo, ainda que tivesse conseguido eleger por duas ou três vezes o seu cabeça de lista como vereador no executivo municipal, o que deixou de acontecer a partir de 1985.

Era compreensível que os partidos políticos tentassem obter no concelho estruturas próprias, até porque, entretanto, chegavam as eleições. Enquanto alguns se filiaram neste e naquele, outros optaram por manter a sua independência, o que não significa que escondessem as suas preferências. São os independentes que dão a cara, enquanto há os independentes que a não dão e desejam estar bem com Deus e com o diabo.

Se fizermos uma retrospectiva, vamos encontrar hoje gente que depois de dar a cara pelo Partido Comunista, fá-lo depois pelo PSD com passagem pelo PS. Outros, que desde a UDP já votaram no PCP, PS e PSD, segundo afirmam, mas grande percentagem das mudanças, incluindo militantes, faz-se por benesses que o partido do poder lhes oferece, seja ele qual for, estando preparados para num próximo volte face, actuarem com a mesma desfaçatez e com o “orgulho”de quem motivou a mudança.

Isto não é de agora, é de sempre, desde o mais alto nível ao mais baixo.

Quem não conhece, a nível nacional, figuras gradas do Partido Comunista que se passaram para o PS e em maior número para o PSD onde foram recebidos de braços abertos! E aqueles que vieram dos grupelhos de extrema-esquerda e hoje enriquecem, nomeadamente, o PS e o PSD!

Há outros que mudaram o seu sentido de voto mas têm vergonha de o dizer, ainda que o demonstrem. Estão no seu pleno direito.

Se todos conhecemos isto a nível nacional, é evidente que o mesmo acontece a nível local em qualquer parte do País.

Lista vencedora
 das 1ªs Eleições
Se forem verificar as listas apresentadas desde o 25 de Abril para os órgãos do poder local, verificarão com muita facilidade as mudanças operadas e não atribuam a mudança à circunstância de serem independentes, pois não é a filiação que dá consciência política. Mudam conforme os seus interesses e da sua família e isto acontece porque as figuras gradas dos partidos os recebem de braços abertos, esquecendo-se que na primeira oportunidade mudam novamente. Os caciques não existiram só durante o liberalismo e a 1ª República, são e serão de sempre e hoje são bem conhecidos.

Outros concorrem como independentes, mas quando são eleitos não mantêm essa independência e filiam-se logo no partido que os elegeu, isto quando existem contrapartidas económicas. Conheço, contudo, e no poder autárquico quem nunca o tivesse feito, honra lhe seja dada.

Os “revolucionários” foram engolidos pela própria revolução e depois de um período de transição, é a vez dos que estavam no campo oposto de se assenhorearem do poder.

 Não foi só no 25 de Abril, foi sempre assim e em todo o país. Vejam o que aconteceu com a República. Muitos monárquicos foram a pouco e pouco virando as suas casacas e transformaram-se em “grandes” republicanos voltando ao poder político.

Este é o meu testemunho sobre o 25 de Abril em Alcoutim.

Haja quem divulgue o seu, pois não fui só eu que o vivi.
 

sábado, 1 de setembro de 2012

Estatística - Mês de Agosto de 2012


 
Como já vem sendo hábito, apresentamos hoje o Top Ten referente ao mês último findo.

A ordem foi a seguinte:

 
1º - Aldeia do Surf (16.07.2011) – 59

2º - APROFIP – Associação de Produtores de Figo da Índia (14.10.2011) – 56

3º - Hortelã da Ribeira (14.10.2011) – 40

4º - A erva-luísa (13,06.2011) – 37

5º - Mostra Internacional de Rendas de Bilros (02.02.2012) – 25

6º - A Sociedade dos Caixões (03.09.2011) – 19

7º - Abóbora de casca (07.02.2011) – 17

8º - Sopa de beldroegas (24.08.2011) – 16

9º - A Ribeira do Vascão (12.07.2010) – 15

10º - A Capela de S. Bento em Alcaria Queimada (18.05.2010) -15

 
Curioso verificar que os dois primeiros do mês anterior são os mesmos tendo apenas mudado de posição. O 1º do mês anterior passou agora a 2º e vice-versa.

APROFIP – Associação de Produtores do Figo da Índia vem-nos habituando há alguns meses a estar sempre neste quadro, pelo que parece ser um sinal demonstrativo do impacto que está a causar, se mais não for pela curiosidade que o assunto vai despertando.

Quanto à Aldeia do surf talvez tivesse aparecido por estarmos num período de férias e isso ter originado uma maior procura, principalmente, pela gente jovem a quem tal desporto é mais adequado.

Igualmente se torna curioso o 3º posto ser ocupado por quem obteve no mês passado o 4º., ou seja,  Hortelã da ribeira. Significa isto que os três repetentes do quadro do mês anterior ocuparam agora as três primeiras posições.

Outro facto que chama a atenção é a inclusão de quatro mensagens relacionadas com a gastronomia / culinária, o que demonstra que os nossos visitantes / leitores têm interesse por esta área. Enquanto a hortelã da ribeira é uma curiosa erva aromática espontânea, a erva-luísa conhecida noutros locais do país como lúcia-lima é planta, igualmente, muito aromática que tem por fim a confecção de um chá através das suas folhas e troncos sendo utilizado para determinados achaques.

A sopa de beldroegas, se a memória não me atraiçoa, aparece pela primeira vez, tal como a abóbora de casca que no Alentejo é conhecida por abóbora de pau.

A Mostra Internacional de Renda de Bilros ocupa a 5ª posição, possivelmente, por ser procurado como artesanato de grande qualidade.

No 6º lugar está A Sociedade dos Caixões, que como dissemos, recentemente, é o segundo texto mais procurado dentro destes condicionalismos, do nosso colaborador Gaspar Santos.

A Ribeira do Vascão e A Capela de S. Bento em Alcaria Queimada fecham o Top Ten.

O ano de 2011 está representado por 7 mensagens, 2010 por 2 e uma única de 2012.