domingo, 14 de abril de 2013

Jarrinha


 Jarrinha decorada a corda seca parcial.

Peça de cerâmica islâmica do período séc. X – XI.

Med. Alt. 7,7 cm (s/bordo), Diâm. 8,2 cm.

Recolhida no Castelo Velho de Alcoutim.

Em exposição no Núcleo Museológico do Castelo de Alcoutim e inventariada com o nº 46.

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Gradim, Alexandra, 2011, Cardoso, João, Catarino, Helena, Guia do Núcleo Museológico de Arqueologia, C.M. Alcoutim, p.27

sábado, 13 de abril de 2013

O meu avental multifunções!





Escreve

Maria Dias



Vou para a cozinha e ponho o meu avental. Começo as tarefas do fogão, da loiça, da mesa.

Toca o telefone. Com o meu avental ainda posto, vou ouvindo uma amiga angustiada e ansiosa por alguém que saiba e a consiga ouvir.

Vou-lhe dando algumas respostas (poucas) de ânimo e consolo, e volto ao refogado. Acrescento o arroz e reduzo o lume. Enquanto cose, venho ao computador, procurar notícias das “crianças” e/ou de alguma amiga, ou dar uma vista de olhos pelos jornais.
Ups, o arroz! Está quase a esturrar! Lá vou eu e o meu avental, a descer as escadas à pressa. Cuidado, acalma-te, ainda cais! (falo para mim mesma).

Tocam à porta. Pergunto quem é, e esquecida que ainda estou de avental, abro a porta ao carteiro. Assino os registos. E agora? São horas de almoçar e não vem ninguém. Lembro-me que é dia de trabalho. Estou só. Começo a almoçar. Acompanham-me as notícias da TV e o meu passarinho a competir com o seu estridente chilrear. Ainda com o meu avental, vou comendo, ouvindo, pensando nas famílias que a esta hora não terão nada na mesa.

Levanto-me, arrumo o prato, dou um jeito à bancada da cozinha.

Finalmente, retiro o meu avental, dou uma espreitadela ao espelho, um jeito ao visual e saio de casa. Vou para as minhas actividades lúdicas e/ou tratar de assuntos no exterior.

Final da tarde, regresso a casa. Volto a colocar o meu avental, preparo o jantar, a mesa e finalmente, janto acompanhada. A minha muito valiosa companhia de há já 30 e tais anos. Minutos depois, o meu avental volta ao seu cabide. Amanhã o dia promete não ser muito diferente.

Não muito longe, vão os dias em que tudo era muito mais agitado. O almoço era comido em pé, tarde e a más horas, e o passarinho chilreava sozinho em casa.

Por tudo o que tenho e por tudo o que vivi, DEUS SEJA LOUVADO.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O tojo


Mais uma planta que é muito vulgar no concelho de Alcoutim. É típica da flora Atlântica da Península Ibérica e de toda a Europa de clima temperado.

Planta arbustiva da família das leguminosas, com espinhos, folhas verdes, esguias e flores amarelas. O fruto é uma vagem achatada.

Cresce em terrenos pobres.

Há várias espécies de tojo com características levemente diferenciadas: o arnal tem espinhos robustos, o gatunha é baixo e ramoso, o molar, como o nome indica, é mais débil e com espinhos finos, o durázio está em posição contrária a este último, pois além de ser elevado tem fortes espinhos, o manso munido de pelos deitados e o gatão de ramos acetinados, são algumas das referidas.

O gatão poderá ter dado origem ao topónimo da zona rústica da freguesia de Alcoutim, nas proximidades da Ribeira da Foupana e conhecida por Fonte do Gatão.

O tojo é indicado para cama de gados, para estrume e aquecimento de fornos, mas em Alcoutim era só utilizado nas “matações” para chamuscar os porcos, visto arder com muita facilidade.

Derivado de tojo temas na nossa toponímia dezenas de casos, entre os quais Tojal, o plural Tojais, Tojeira entre outros.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Calor

Mais uma interessante fotografia que damos a conhecer aos visitantes / leitores do ALCOUTIM LIVRE, incluindo-a na rubrica Câmara Escura.

A foto foi tirada em 1965 e o seu autor, o Dr. Eckart Frischmunth, deu-lhe um título bem ajustado e que nós naturalmente mantivemos.

Mais uma vez está patente o espírito observador do autor cuja fotografia tem por fundo dois cães, que   à sombra de um prédio procuram libertar-se do calor de Julho ou Agosto, que os atormenta.

O local parece não nos oferecer muitas dúvidas, será na antiga Praça da República.

O pequeno aglomerado de gente que se nota ao fundo é que se torna mais difícil de determinar a sua localização, mas parece-nos ser à porta da repartição do Registo Civil ou dos Paços do Concelho.

A título de curiosidade, podemos dizer que pelos anos de 1968 o número de canídeos na vila era superior ao número de habitantes!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"Sonho ou Loucura"


  

Poeta


José Temudo





Sonho, sim, confesso,
não quando adormeço,
mas, quando acordado,
passeio,
ao longo da marginal,
alheio,
ao imenso mar
e ao extenso areal,
às gaivotas que pairam no ar,,
aos barcos pequenos que baloiçam
nas ondas que em espuma se esvaem!
Indiferente aos que por mim passam,
de tudo e de todos esquecido,
liberto do corpo, dos sentimentos, das emoções,
insensível às formas, aos sons, às cores,,
isento de alegrias e de dores,
sem deus, sem leis, sem tradições,
assim fico, todo dentro de mim,
sonhando que todos os seres,
que o Deus todo poderoso,
que a mãe Terra, úbere generoso,
que o mar, largo, profundo, temeroso,
e que o infinito e insondável céu,
são tudo criações minhas,
um teatro gigantesco, fantasioso,
em que, certo, certo, só existo EU !

terça-feira, 9 de abril de 2013

Alcoutim (Em O Século)


(PUBLICADO EM “O SÉCULO”NÚMERO EXTRAORDINÁRIO COMEMO-RATIVO DO DUPLO CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL, LISBOA, JUNHO DE 1940)
Alcoutim é mo Algarve uma das mais lindas terras, pela sua excelente posição geográfica, e pela brancura do seu casario alegre, brancura esta, que é, aliás em todas as povoações algarvias, uma característica de beleza. E nem só beleza, mas também tradições tem a vila encantadora.

A 66 quilómetros de Faro, situada na montanha onde principia a serra de Monchique, na margem direita do Guadiana, Alcoutim foi uma das melhores fortalezas de Portugal. A praça de armas está rodeada de muralhas com três portas, que se chamam de Guadiana, de Mértola e de Tavira, existindo nesta última a seguinte inscrição: «Alphonsus VI Rex Portugaliae et Algarbiorum, 1661». O castelo em ruínas era quadrado.
Castelo de Alcoutim. Finais anos 60. Foto JV
Povoação muito antiga, que se supõe datar do princípio do domínio serraceno, o seu nome antigo era Alcoitinium, o que parece confirmar a sua existência no tempo dos romanos.

D. Sancho II a tomou aos mouros, em 1240 e D. Deniz mandou-a povoar, reedificar o castelo e deu-lhe foral, em 1304 com todos os privilégios de Évora, doando-a à Ordem de Santiago. D. José I elevou-a a vila. Pertenceu à Casa do Infantado.

Além do castelo, Alcoutim tem uma linda capela, fundada por D. João IV para comemorar a Restauração da Independência e dedicada a Nossa Senhora da Conceição. No castelo de Alcoutim se fizeram pazes entre dois reis Afonsos: o de Portugal e o de Castela. Junto do Cerro de Santa Bárbara, ao Norte da vila, há vestígios de fortificações antigas e ali, sobre um rochedo alto, se fez um reduto artilhado.

Na agricultura tem o concelho de Alcoutim, com as suas cinco freguesias, a base maior, quasi única, da sua economia. O terreno é fértil, como todo o do Algarve e produz especialmente trigo, do qual chegam a exportar-se 1.000 000 de quilos. E também se exportam carnes, lãs, queijos e amêndoas.

A indústria representa-se por duas espécies: cerâmica de barro (louças de uso) e foices.

O povo é laborioso e simples, acolhedor e amável, amando com excepcional e exemplar carinho a terra que é o fundamento da sua vida económica. A-pesar da fertilidade do solo, os homens do concelho de Alcoutim trabalham com exaustivo esforço, e só assim conseguem viver sem dificuldades.

Alcoutim e Sanlúcar. Finais anos 60. Foto JV

São lindos os panoramas que Alcoutim oferece aos visitantes. As montanhas, como os montes menores e as planícies formam um conjunto admirável, que encanta e seduz. Poucas terras do Algarve se lhe comparam ou excedem em beleza e atractivos naturais.

Em tempos recuados o favor de reis e de fidalgos lhe deu importância e a acrescentou em riqueza e esplendor. Depois, como sucedeu a grande parte do País, as lutas civis, a política e o desinteresse de muitos dos seus filhos permitiram que Alcoutim caísse no abandono absoluto. Até mesmo a política nova com dificuldade lá chegou. Nos últimos vinte anos nenhumas obras se fizeram no concelho. Apenas estão em construção as estradas 106 – 2ª e 108 – 2ª, que ligará o concelho ao resto do País, com o qual Alcoutim não tinha vias de comunicação indispensáveis ao seu progresso e desenvolvimento. À estrada 106 – 2ª faltam as pontes nas ribeiras de Beliche, Foupana, Odeleite e Vascão. A conclusão dessas obras é da maior importância e urgência. Só quem visita Alcoutim pode avaliar a falta que tão importante melhoramento tem para o nosso concelho.

E não só esta aspiração tem o concelho, mas muitas mais, entre elas a ligação telefónica com o País, o cais da vila, que está estudado desde 1936, mas para o qual não se deu mais um passo; uma estrada que ligasse Martinlongo e Vaqueiros, duas freguesias importantes que, no Inverno, ficam completamente isoladas do concelho, em especial a última.

É estranhável, de facto que Alcoutim, com tão poucas aspirações, não consiga vê-las realizadas, sobretudo se pensarmos que melhoramentos do mesmo género e até maiores têm obtido aldeias e freguesias de menor categoria.
Capela ou Igreja de Nª Sª da Conceição. Finais dos anos 60.
Foto JV
Os homens esforçados e inteligentes que se encontram à frente do Município, desajudados de qualquer auxílio do Estado, têm em projecto a construção de cemitérios em todas as freguesias, pois os que existem estão absolutamente condenados visto que ficam no centro das povoações; e, também para todas as aldeias, o abastecimento de água e a construção de caminhos. Este problema de caminhos é o mais premente, pois não os há no concelho. Resolver esse problema é um dever dos poderes públicos, pelos prejuízos que a falta de caminhos causa a populações que tanto trabalham pela valorização da riqueza pública.

Se o Estado, com o seu estímulo e ajuda material, não acode ao concelho de Alcoutim, outro largo período correrá sem que os seus habitantes vejam satisfeitas as suas tão legítimas aspirações.

Se o leitor alguma fez for ao Algarve, não deixe, a-pesar de tudo, de visitar Alcoutim, vila encantadora, e os panoramas admiráveis que dele se descobrem.

Pequena nota
Quem escreveu este texto não se identifica, admitindo que pudesse ter sido alguém que vivesse em Alcoutim e que ocupasse lugar político localmente importante.
As fotografias que apresento são dos anos 60 e de minha autoria, já que as constantes do texto não estão em condições de as transportar para este espaço. As que empregámos correspondem às apresentadas no original no que diz respeito ao local fotografado.

Na parte introdutória encontram-se como é fácil de perceber alguns erros sobre a história, aliás erros que se foram repetindo por muitos anos.

A análise das potencialidades de Alcoutim e seu concelho estão, quanto a nós, impregnadas de bairrismo. Procura o autor depois dar umas picadas no seu próprio partido político, lamentando a falta de auxílio e criticando o facto de “Até mesmo a política nova com dificuldade lá chegou”.

Apesar de tudo é possível verificar o atraso confrangedor em que o concelho se encontrava apesar de se viver há pelo menos 12 anos na Política Nova que alguns alcoutenejos e não só, abraçaram, como é natural.

As estradas, a electricidade e a água não chegavam mas havia União Nacional, Mocidade Portuguesa, Legionários e... bufos.

E ainda não acabaram!

JV

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Chico Salvado Pirolito" natural de Balurcos


Pequena nota

Como verificaram logo à primeira vista, vamos apresentar hoje um novo colaborador pois a nosso convite acedeu a prestar o seu auxílio ao ALCOUTIM LIVRE tornando-o assim ainda mais versátil e pujante.

É sempre uma honra para nós podermos contar com um novo estilo e uma nova visão das coisas. Pelo pouco que conhecemos, estamos certos que o nosso novo colaborador irá criar, como todos os mais o têm feito, leitores assíduos aos seus textos, ora em prosa, ora em verso.

O Eng. José Rodrigues, hoje na situação de reformado, é natural do concelho de Alcoutim mas naturalmente não reside lá.

Aqui lhe deixamos o nosso agradecimento e que com a sua acção possa contribuir para um melhor conhecimento de Alcoutim e do seu concelho com a verdade que é apanágio deste espaço.

Inicia o seu trabalho com uma “versalhada” em que caracteriza os homens e as mulheres da terra a que tem gosto de pertencer, procurando utilizar os termos próprios das gentes e as actividades que balizavam as suas vidas.

JV

 


Escreve

José Rodrigues




Chico Salvado Pirolito,
natural de Balurcos

(Este conjunto de quadras é uma homenagem ao passado, de muitos homens e mulheres da minha terra.)


Em noite chuvosa e fria,
De mil novecentos e tal,
Não preciso bem o dia,
Mas era no mês de Natal,

Nasceu um lindo mocito,
Filho querido e adorado,
De Zé Custóido Pirolito,
E de Sarafina Salvado.

Nos Balurcos foi parido,
Por obra da graça Divina,
Depois do Zé ter perdido,
O juízo pla Sarafina.

Aos seis meses baptizado.
P´lo padrinho ficou Chico,
P´la mãe quedou Salvado,
E pelo pai Pirolito.

Cresceu com tantas agruras,
Que nem a ler aprendeu,
Foram muitas amarguras,
Q´a puta da vida lhe deu.

Homem sem ser menino,
Roubaram-lhe a ilusão,
Foi moiral em pequenino,
Aos quinze anos, ganhão.

Aos vinte deixou a Terra,
Assentou praça militar,
Obrigado a ir à guerra,
Sem razões pra garrear.

Depois desmobilizado,
De volta à terra natal,
Como futuro: o passado,
Pra continuar tudo igual.

De manhã migas de pão,
Para beber, café preto,
Ao jantar, jantar de grão,
À ceia, fejão careto.

Ainda esteve emigrado,
Mas não foi muito feliz,
Dizia não se ter dado,
Com os ares de Paris.

Voltou de vez prá Terra,
Onde tinha a namorada.
Homem que nasce na serra,
Não troca a serra por nada.

Casou com a Etelvina,
Toda vestida de branco,
Tiveram uma menina,
Que foi de si o encanto.

Matavam sempre um cevão
Pra ter carne para o ano,
Com festa na matação,
Propagando o desengano.

Toucinho na salgadeira,
E a choriça pendurada,
Durava menos q´uma jeira,
E tinha que ser condutada!

Todos os dias trabalho,
Sempre o mesmo fandango,
Alguma noite de balho,
No outro dia, acefando.

Colhia batatas em Março,
Em Dezembro era o mato,
E com seu macho picarço,
Alquevava de carramato.

Despunha couves na horta,
Alfaces, coentros, fejão,
Até já tinha a vista torta,
De tamanha esganação.

Em Outubro semeava trigo,
Mondava a seara em Fevereiro.
Só podia contar consigo,
Era assim o ano inteiro.

Não só consigo, contava,
Porque a Etelvina Maria,
Fazia a lida da casa,
Do nascer ao fim do dia.

Colhia figos em Agosto,
As ferrovas em Setembro,
Em Outubro espremia mosto,
Fazia azeite em Novembro.

Pra montar tinha um burrito,
E uma cabra pra dar lête,
Por companhia um canito,
Q´acudia por Manolete.

Quando vendia um chibinho,
Pela feira de S. Marcos,
Sempre dava algum jetinho,
Pra arramendar os sapatos.

E uma porca no curral,
Criava alguns bacoritos,
Que na feira do Azinhal,
Dava mais uns testanitos.

Um dia acordou o Monte,
E a má nova correu,
Ontem, à meia nonte,
O Pirolito morreu.

Abateu-se uma desgraça,
Ficou sem pai a menina,
A casa ficou sem graça,
E viúva a Etelvina.

Levaram-no a enterrar,
E diante do corpo do Chico,
Eram todos a encomendar,
A alma do Pirolito!

domingo, 7 de abril de 2013

Navio de carga "Alcoutim"


Na secretaria da Câmara Municipal de Alcoutim existia, nos finais da década de 60 do século passado, pendurado numa parede a fotografia de um barco que eu presumo ser este. Penso que não havia qualquer texto explicativo e perguntar algo sobre ele seria descabido já que ninguém sabia explicar-me o brasão de armas da Vila. Desconheço o destino de tal quadro.

Se é este o barco que estava representado, o que tenho algumas dúvidas, tratava-se de um navio de carga construído em Vancouver, Canadá em 1943.

Adquirido pela Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes de Lisboa, é reconstruído em 1946 pela Companhia União Fabril, no Estaleiro Naval da A.P.L., em Lisboa e registado na Capitania do porto de Lisboa, em 16 de Janeiro de 1947, com o nº G 484.

Tinha um comprimento de 134,56 m, boca máxima de 17,38 e um calado à proa de8,15.
O peso bruto é de 10.526 toneladas e tem uma capacidade de 14 395 m3.

Com uma máquina que desenvolvia uma potência de 2500 cavalos, alcança uma velocidade máxima de 11 nós.

A tripulação compunha-se de 35 elementos.

Certamente que o nome dado teria sido uma homenagem à pequena vila ribeirinha na margem do Guadiana.

A actividade marítima esteve sempre muito ligada aos alcoutenejos, possivelmente devido ao seu contacto diário com as águas do Guadiana, rio que potenciava a sua existência.

Foram imensos os mancebos que escolheram a Marinha quando tiveram de cumprir o seu serviço militar e alguns acabaram por seguir essa carreira, alcançando muitos o oficialato.

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http://navios.no.sapo.pt/naviosc.html

http://bordolivre.no.sapo.pt/set_out2002/pag4_45&46.htm

htt://naviosenavedaores.blogspot.pt

sábado, 6 de abril de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim, Recordações - XLVII



  
Escreve

Daniel Teixeira




ALCARIA ALTA E OS CIGANOS

Devo começar por confessar que faço parte de um sector dentro da minha geração onde ser cigano tem o significado usual que tem atravessado muitos anos da nossa história. Não vou, pois, neste texto, «armar-me» em defensor acérrimo dessa etnia até porque eles disso não sentirão seguramente falta e também não vou dizer que me coloco ao lado daqueles que a não toleram de todo.

Vou contar uma história sem tirar nem por. Comecei cedo a criar esta convicção quase neutra que tenho hoje sobre a etnia cigana. Sou um «produto» desta sociedade em que vivemos e nada lhe acrescento neste plano nem nada lhe retiro.

A sua errância tem servido para alimentar inúmeros sonhos de liberdade e fuga às regras sociais mais custosas sobretudo quando somos jovens, a sua capacidade de viverem numa sociedade que os hostiliza e não os hostiliza conforme as circunstâncias e as conveniências pontuais tem merecido algumas referências também pontuais e o seu relacionamento com o conceito de autoridade, tanto internamente na sua comunidade como externamente na sua relação com os «outros» já foi inclusivamente objecto de teses académicas.

Trata-se de uma questão discutida e não discutida ao mesmo tempo, uma questão neutra, se quisermos, tal como eu apresento aqui neste meu texto. Por curioso que possa parecer a imagem que existe sobre os ciganos, em Portugal e um pouco por todo o mundo é quase a mesma que existe em relação à negritude nos países que preferem ignorar que possa existir um problema simplesmente não falando nele.

Pois, e começando propriamente, a minha mãe, essa para mim extraordinária contadora de histórias, contou-me talvez centenas delas e eu infelizmente só de quando em vez arranjo princípio, meio e fim para as contar. A primeira que aqui conto e que entra dentro deste contexto, foi logo quando o meu irmão mais novo nasceu.

Todos nascemos no antigo Hospital da Misericórdia de Faro, gerido por freiras, por razões que se prendem não tanto com a falta de ideia do uso da parteira, mais utilizada na altura, mas porque as gravidezes da minha mãe todas elas foram de risco, exceptuando a última, em que se tratou já do assunto numa perspectiva preventiva.

Os cuidados pré-natais eram praticamente inexistentes e todos até ao mais novo nascemos com peso excessivo. Este, o mais novo, já «beneficiou» de uma parte desses cuidados e acabou por nascer com um peso a aproximar-se daquele que agora é considerado normal para um parto normal.

E a primeira parte desta história nasceu logo quando ele nasceu. Encontrando-se a minha mãe na enfermaria já com o meu irmão nascido, deu entrada uma cigana que teve o seu rebento ao qual a minha mãe por vizinhança de camas assistiu. Nascido o bebé trataram de o lavar, naquele tempo numa arcaica pia quase semelhante em dimensão àquelas que temos hoje nas nossas casas de banho.

Pois o miúdo naquela natural aflição de ter nascido para o mundo e começar logo por ser manipulado daquela forma naquela operação agarrou-se à torneira com a força que tinha e não a largava, daí que uma Freira (religiosa e que em princípio não deveria ter opinião) com humor um pouco infeliz saiu-se com esta: «Olha lá o ciganito, mal nasceu já quer roubar a torneira!» Pois é, da ancestral fama não se livrou, o pobre do miúdo que nem sequer sabia ainda que era cigano nem o que era ser cigano.

E a história continua, com outros personagens, alguns anos antes. Contou-me a minha mãe que havia amiúde ciganos que passavam com as suas trouxas pelos montes e seus arredores, acampando aqui e ali, normalmente ao pé de cursos de água ou de poços e entre os Montes que frequentavam na sua errância havia Alcaria Alta.

Ora numa dessas passagens por Alcaria Alta terá desaparecido um porco de um pocilgo e tendo os ciganos pernoitado por lá e já tendo partido de madrugada logo lhes foi atribuída a autoria do roubo.

Embora a fonte desta informação seja credível (caramba, foi a minha mãe que me contou!) eu ainda hoje me pergunto como é possível roubar-se um porco, de noite que seja, sendo a sua gritaria (do porco) tão forte e estridente que é até capaz de acordar um morto.

Mesmo que o tivessem morto, o ruído (o guinchar) do porco teria sido grande, pelo que aqui só posso acreditar ter acontecido aquilo que normalmente é atribuído também aos ciganos e sobretudo às ciganas, que é o conhecimento mágico de alguma poção capaz de meter o animal a dormir a horas certas e durante o tempo necessário para que a troupe alcançasse as redondezas.

Ora o montanheiro não nada em dinheiro e por natureza precisa do porco, é o seu alimento de Inverno e para além do mais era seu, era do primo Custódio («Custóide» em Alcarialtês) num sítio onde todos são primos. Tinha-lhe custado a criar para além do custo em bacorinho e havia mais um rol de argumentos usados nestas ocasiões e noutras semelhantes.

Depressa a solidária revolta juntou alguns voluntários para irem em caça dos ciganos e do porco. Movimentaram-se depressa estes, e só o facto de o montanheiro ser também naturalmente um bom pisteiro permitiu que eles fossem alcançados já perto de Martim Longo, por onde tinham seguido via Ribeirão e proximidades de Santa Justa, Foupana acima depois.

Era já tarde, talvez pelas cinco da tarde e os ciganos sentindo-se seguros já prepararam as trouxas para estacionar. E lá foi um dos mais novos a Martim Longo chamar a Guarda tendo o resto do pessoal ficado de vigia. A patrulha quando chegou era já noite e para desgosto de todos e sobretudo do primo Custóide assistiram a toda a operação de desmembramento do animal, à sua colocação nas brasas e pior ainda sentiram chegar aos estômagos há muito vazios o cheirinho a carne assada.

Quando a guarda chegou pôs logo aquela malta toda em sentido. Naquele tempo a guarda não gozava de um grande prestígio em relações públicas e passou-se logo aos factos. Apesar das tradicionais negações depressa se chegou a um forçado acordo: os ciganos pagavam o porco por um preço que foi considerado justo e para o primo Custódio e os outros que o acompanhavam estava tudo certo.

Mas a Guarda tinha ainda em carteira a sanção acessória: aquela tribo nunca mais ia a Alcaria Alta e ficava com o encargo de dizer às outras tribos que não podiam pernoitar nas imediações do Monte. E assim aconteceu, assegurou-me a minha mãe: quando apareciam ciganos por lá nem era preciso ir lá dizer-lhes o que quer que fosse; chegava ao entardecer arrumavam as trouxas e iam-se embora.

No meu tempo não cheguei a ver ciganos lá pelo Monte, mas - dizia-me a minha mãe - se eles viessem havias de ver que agora, que são passados mais de trinta anos, os ciganos não pernoitam nos arredores de Alcaria Alta.

Sinceramente acho que a minha mãe aqui na parte final me enfiou um barrete, mas como criticá-la se a história está tão bem contada!?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Foices e foicinhas



Esta alfaia agrícola, ainda que já não tenha a importância que teve, é um verdadeiro símbolo do trabalho campesino.

Como é sabido, na nossa língua o ditongo oi substitui-se de uma maneira geral por ou, sendo assim, diz-se foice ou fouce.

Naturalmente, aos exemplares mais pequenos chamam-se foicinhas ou foicinhos.

Trata-se de um instrumento formado por duas partes, uma barrinha curva de ferro ou de aço e com gume serrado.

Na extremidade que não é curva é embutida por um cabo de madeira que se destina a poder efectuar o seu manejo.

Utiliza-se para ceifar ou segar, isto é a cortar as searas maduras. Tendo sido Alcoutim um concelho cerealífero teve grande importância local, tanto no seu uso como no fabrico.

Sobre a sua feitura e técnica já o nosso colaborador Gaspar Santos se pronunciou neste espaço com um interessante texto (*) que enriqueceu o nosso conhecimento, pois a única coisa que sabíamos era ter existido uma afamada fábrica artesanal de foices. A técnica é-nos explicada por este colaborador. Enquanto em Alcoutim eram feitas com uma única barrinha, os concorrentes utilizavam duas, pois se as fizessem só numa, partia-se com muita frequência.

Havia em todo o concelho várias fabriquetas de foices e se a memória não nos falha, a última a funcionar foi em Corte Serranos, freguesia de Martim Longo, isto já depois da nossa presença em Alcoutim.

Ao picar a foice, ou seja construir o serrilhado que ficava sempre virado para cima, determinava o seu uso ora por dextros ora por esquerdinos. Havia de vários tamanhos sendo as dos homens maiores. As pequenas, como já dissemos, chamavam-se foicinhas ou foicinhos destinavam-se ao corte de erva para os animais.

A mudança tecnológica para a ceifa mecânica obrigou naturalmente ao fecho destas pequenas fabriquetas, pois se o uso da foice não acabou, reduziu-se drasticamente.

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(*) - Vide Blogue ALCOUTIM LIVRE, post de 3 de Julho de 2009 – A Fábrica de Foices de Alcoutim – Qual o segredo da sua tecnologia??