quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Peça Arqueológica


Peça ornamental em mármore encontrada a cerca de dois metros e meio de profundidade e que nos parece revelar alguma imponência, tomando em consideração a decoração apresentada.

A descoberta teve lugar em 1986 a quando do restauro de uma habitação no centro da vila de Alcoutim, mais propriamente na Rua da Misericórdia.

Desconhecemos o seu destino.
(Foto J.V.)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como o Dr. Dias salvou uma mula de morte certa

Escreve:
Gaspar Santos

Há mais de 50 anos o Dr. João Francisco Dias fez obras de grande restauração da sua casa. O filho João, também médico e também já falecido, procedeu a nova restauração do mesmo prédio. No decorrer desta segunda obra lembrei-me do acidente havido durante a primeira e que passo a descrever.

Aquele prédio onde a família então residia, tinha um quintal contíguo que se situava na parte mais distante da Praça da República. Na parte traseira do quintal havia um muro de suporte de terras com cerca de 5 m, contíguo à rua. Hoje o quintal praticamente desapareceu.

Durante as obras essa rua, em plano superior e pouco concorrida, foi utilizada para descarga dos materiais de construção (areia, cascalho, pedras, etc.) que eram transportados numa carroça puxada por uma mula. A técnica era a seguinte: a carroça encostava a traseira aos escombros do muro já demolido na parte superior, ficando ao nível da rua, apenas travada por um barrote de madeira que era suposto a roda não galgar. Imobilizada a carroça, o carreiro desengatava a mula, levantava os varais e as matérias a granel escorregavam caindo para o quintal.

Mas, uma vez a carroça não se imobilizou, a sua roda galgou o barrote já muito afundado no entulho e deu-se o desastre indo despenhar-se da altura dos cerca de 5 m, com a sua carga de areia arrastando a própria mula engatada nos varais.

A mula com um dos varais que se tinha partido espetado na barriga estava com enorme sofrimento. A sua reacção de pânico e o seu estrebuchamento ainda mais acentuava esse sofrimento.

Naquele entretanto começou a juntar-se gente e alguém foi dizer ao Dr. João Francisco Dias o que tinha acontecido.

A reacção imediata deste distinto cirurgião não foi diferente da que teria se se tratasse de pessoa humana. Apareceu imediatamente. Recrutou os homens presentes para segurarem a mula, para poder arrancá-la do suplício, retirando-lhe o grosso pau que estava espetado na barriga.

Sempre com a colaboração das pessoas que imobilizavam o animal, procedeu à sua operação cirúrgica perante a estupefacção de todos que observavam atónitos. Assim livrou a mula de uma morte certa por peritonite devida à perfuração intestinal.

Deste médico muito se tem falado e escrito acerca da sua bondade, competência e profissionalismo para com os seus pacientes mas nunca se falou deste incidente que mostra como ele compreendeu que o mundo era um todo em que todos os seres vivos merecem a nossa atenção e que não devemos alhearmo-nos do seu sofrimento. Afinal o Dr. João Francisco já partilhava da visão ecológica tão em moda hoje.

domingo, 26 de outubro de 2008

Ivete Encarnação Rodrigues de Noronha

Com 60 anos faleceu no dia 24 do corrente na vila de Alcoutim, de onde era natural. Ivete da Encarnação Rodrigues de Noronha, filha de Eliseu Rafael da Encarnação e de Almerinda Rodrigues Guerreiro, já falecidos.
Era casada com Manuel Palma de Noronha, deixando dois filhos e duas netas.
A Ivete que bastante sofreu fisicamente com as doenças que a atacaram foi a sepultar na sua terra natal, acompanhada de familiares e amigos.
Conhecia a Ivete há 40 anos, assisti ao seu casamento. Fazia parte com as suas irmãs da juventude de minha mulher, até porque foram criadas bem perto.
Aqui deixo as minhas sentidas condolências a toda a família.

UM CASAMENTO EM ALCOUTIM NO ANO DE 1885

No meu livro, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…), 1985 e como explico a pág. 261, ao abordar os casamentos à antiga, ainda que possuíssemos alguns apontamentos, acabámos por transcrever um interessante artigo com o título “Velhos usos de Alcoutim” que o nosso saudoso amigo, Sr. Luís Cunha fez publicar no Jornal do Algarve de 3 de Fevereiro de 1973.

Pensávamos nós, na altura, que seria a única coisa publicada sobre o assunto e hoje sabemos que assim não é e admitimos que possa existir algo mais sobre o tema.

O Dr. Tito de Bourbon e Noronha, que refiro a pág. 32 do meu trabalho, Saúde e Assistência em Alcoutim, no séc XIX, 1993, formado em medicina pela Escola Médica do Porto, concorre e é colocado em Alcoutim em meados de 1885, onde só permaneceu um mês, mas o suficiente para se ter inteirado de muitas coisas que acabou por transpor para o papel num artigo intitulado ALCOUTIM e publicado no jornal de Vila Franca de Xira, Vida Ribatejana (meados dos anos 30).

Muitíssimo bem escrito, surpreende-me como em tão pouco tempo conseguiu apanhar tanta coisa típica da região

Com a devida vénia transcrevemos parte daquele artigo, no qual descreve primorosamente um casamento a que assistiu e que muito apreciou pelo seu ineditismo, pelo menos para ele.

Escreveu assim:


“Nem só aborrecidas atribulações passei naquele inolvidável mês da minha iniciação como médico municipal, não senhor; para desopilar o baço e o fígado tive a boa sorte de assistir a uma cerimónia que, pela sua inédita originalidade, me deixou as mais graciosas e hilariantes recordações.

Foi um casamento de serranos aborígenes. Descem a serra em direcção à vila dois cortejos separados, o do noivo e o da noiva, montados nos imprescindíveis muares engalanados à espanhola, de cores berrantes, envergando as mulheres os trajes domingueiros da região e os homens pesados capotes de três cabeções e chapéu largo de feltro.

A noiva vem entre as duas madrinhas, com toda a seriedade e compostura, olhos no chão e nas orelhas de algum animal mais recalcitrante.

Após a cerimónia religiosa são atiradas sobre os nubentes mãos cheias de trigo, símbolo da abundância, e, e retiram, caminho da serra, separados como vieram, parentes e amigos da noiva para casa dos pais desta, os do noivo para a casa respectiva, às vezes em lugares muito afastados.

Em cada uma das duas casas se celebra o banquete nupcial, tendo como peça obrigada um carneiro assado a meio da mesa e aos quatro cantos alguidares de vinho.

Bebem os comensais por tigelas, que enchem nos alguidares, sendo da praxe, para mostrar fartura, entornar-se muito líquido, de modo a que no fim da refeição a toalha mudou totalmente de cor, não tendo uma só nódoa branca. Depois, já noite, vai o cortejo do noivo para casa da consorte.

Espera esta a visita na quadra maior, sentada em uma cadeira ou canapé, ladeada das madrinhas, cobertas as três cadeiras com vistosa manta alentejana.

À volta, os convidados conservam para a ocasião, o maior recato e compostura, falas em surdina, gestos ponderados.

A meio da casa ergue-se um montão de móveis, mesas, cadeiras, bancos, tripeças, o mais avantajado possível e igualmente coberto de colchas, é o trambolho.

Ouve-se o reboliço fora e tropear de animais; é o noivo que chega.

Bate-se à porta; levanta-se, solene, uma das madrinhas e, pausadamente, se dirige à porta, e, sem abrir, pergunta:

- Quem bate, quem está aí?

E o noivo, fora, responde:

- É o António do Pereiro; está cá a senhora Maria da Cruz, a rosa de Jericó que veio, para aqui de manhã?

- Não está cá, vá procurá-la a outra parte.

- Mas como, com uma noite tão escura e tão maus os caminhos? Darão comigo as bruxas! Diga para onde ela foi.

- Foi para o pego.

A estas horas? Para lá não foi ela que é muito medrosa.

- Foi para o poço.

- Ao poço me deitava eu por ela, mas já por lá passei e não a vi.

E o diálogo continua, mandando-o a madrinha procurar a partes várias, nem todas limpas e bem cheirosas, com grande gáudio dos assistentes de dentro e de fora, até que esgotada a fantasia e a paciência do noivo, é aberta a porta e entra tudo de roldão, noivo à frente.

- Ah! lá está a minha rosa de Jericó!

E, cego de amor, investe denodadamente para diante, esbarra com o trambolho, que com grande fracasso desmorona tombando o rapaz no meio dos destroços.

Ferve ao rubro o entusiasmo; a madrinha, solenemente, ainda cede o seu lugar ao noivo e, esquecido o comedimento, começa o bailarico, que deixa a perder de vista um batuque cafreano.”

Entre estas duas descrições existem coisas comuns e naturalmente algumas diferentes, mas no seu essencial, são coincidentes. Temos que tomar em consideração que entre os casamentos a que ambos assistiram, haverá um espaço de tempo de cerca de quarenta anos o que apesar do isolamento existente, sempre teria provocado algumas alterações com ajustamento ao tempo.

O Dr. Tito de Noronha foi substituído pelo Dr. José Cunha que veio a ser o pai do Sr. Luís Cunha, autor do artigo que já referimos.


Está no nosso pensamento procurar localizar este casamento no Arquivo Distrital de Faro.

Aqui deixo estas pequenas considerações que possibilitam certamente a alguns alcoutenenses o conhecimento de tal descrição e que de outra maneira lhes seria mais difícil obter.

sábado, 25 de outubro de 2008

Chegou a Laura, Viva a Laura!


Chegou a Laura! Viva a Laura!

No passado dia 22 de Setembro resolveu aparecer vendo a luz do Mundo na cidade de Faro esta mocita com 3,3 kg e 48 cm de altura.

Esperada para mais tarde, ao saber que os seus bisavós faziam nesse dia 45 anos de casados, resolveu fazer o seu aparecimento para assim os felicitar. Se eles já não esqueciam esse dia, agora, comemoram-no duplamente.

A Laura veio engrossar o número de são-brasenses, passando a viver na Vila de São Brás de Alportel.

Depois de ter dado conhecimento do casamento de seus pais através da imprensa, dou a conhecer ao Mundo na globosfera, a sua chegada, desejando-lhe as maiores venturas e felicitando os seus babosos pais, avós e mais familiares, com um abraço muito especial para o seu tio, meu querido Amigo, Diogo que entre todos consegue ser o mais efusivo!

A Laura tem fortes e velhas raízes de um dos seus costados na freguesia de Alcoutim, mais propriamente nas Cortes Pereiras onde nasceu uma das suas bisavós.

Que o Mundo seja Bom para ti, Laurita.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ruínas da Capela de Sta. Marta


Esta velha capelinha que é pelo menos do século XVI, encontra-se há muito em ruínas, tendo sido substituída por uma nova edificada em 1991 no monte mais próximo da estrada nacional.

A última festa em honra da Padroeira, e nesta capela, realizou-se em 1939.

Foto: J.V.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

GUARDADOR DE GADO HÁ 60 ANOS!


É localmente designado por maioral das ovelhas pois é o gado ovino a que mais se dedicou e ainda pastoreia aos sessenta e oito anos de idade, nas redondezas do monte que o viu nascer.

Viu a luz do dia em Afonso Vicente, freguesia e concelho de Alcoutim, no ano de 1940, sendo um dos cinco filhos do casal.

Dos cinco, só ele não foi à escola por razões que o têm atormentado toda a vida e não encontra explicação.

Aos sete anos, quando devia de ir para a escola, começou a guardar duas ovelhas pretas, uma branca e uma cabra, igualmente branca, e que eram do pai.

Pouco depois e no monte em que nasceu, vai guardar quatro vacas do padrinho, recebendo o pai 15$00 por mês, referente ao seu salário.

Numa ida ao mercado do Pereiro, uma residente num monte vizinho, ao fazer trajecto por Afonso Vicente, viu o moço que lhe pareceu poder ser útil e sabendo quem eram os pais, com eles falou, contratando-o para lhe guardar duas porcas parideiras. Tinha dez anos e o pai recebia 20$00 por mês.

De regresso do Pereiro, sede da freguesia mais central do concelho de Alcoutim, voltou a passar por Afonso Vicente para que o moço fosse com ela e iniciasse o trabalho para o qual já tinha idade bastante, segundo as concepções da época! Lá seguiu o mocinho com a nova patroa.

A experiência não podia ser muito gratificante. Lá partia com as duas porcas, conduzidas por uma varinha.

Como o guardador das ovelhas se tivesse despedido, passou ele a executar tal trabalho. Eram trinta as ovelhas à sua guarda. O pior era o conteúdo do taleigo, constituído por um bocado de pão, umas peles de chouriça, ou um bocado de toucinho rançoso. Em alternativa, umas azeitonas ou uma mão cheia de figos secos, alguns com bicho.

Ainda que o patrão fosse, segundo afirma, boa pessoa, o pior era a patroa que não suportava pela sua maneira de ser e pelo tratamento.

Em tal situação, escolheu a alternativa de fugir para casa dos pais aos quais afirmou que se o obrigassem a regressar, sabia o que havia de fazer.

É preciso aqui dizer que a situação do Francisco não era inédita. Nesta zona da serra algarvia, onde a pobreza dos solos era notória e as famílias numerosas um facto, não havendo possibilidades económicas de criar a prole, logo que os moços pudessem realizar alguma tarefa, sendo a mais utilizada o guardar gado, eram encaminhados para quem os concertava, recebendo o pai mensalmente determinada quantia que iria ajudar a criação dos irmãos mais novos. Era uma situação aqui considerada inteiramente normal e muitos dos que por aqui nasceram, passaram por essa situação, como ainda hoje se pode comprovar.

A patroa perdeu aquele moço que dormia no palheiro, logo arranjou outro pois, os candidatos ao “emprego” eram sempre muitos.

O regresso à casa paterna levou-o a guardador de ovelhas, no próprio monte, pois era necessário arranjar outro “patrão”.

Esteve uns tempos pelo monte guardando vacas ou porcos aqui e ali, até que um dia teve de abalar novamente e por volta dos catorze anos foi substituir na vila o irmão que lhe seguia na idade, guardando vacas. Nesta altura, o pai recebia 75$00 por mês.

Por lá se manteve cerca de dois anos e é nesta altura que perde a mãe, o que provoca a degradação da situação.

Aos dezoitos anos é concertado por um lavrador da freguesia do Espírito Santo, concelho de Mértola para maioral das ovelhas e começa ganhando, já para si, 100$00 por mês. Ali se manteve vinte e três anos, no mesmo patrão, pelo que, certamente se sentia bem. Entretanto foi melhorando as condições económicas com a criação do seu pegulhal que chegou a sessenta e seis ovelhas e três cabras, tal como o salário que era de 12 contos por ano quando deixou a casa.

É no período “Marcelista”, segundo afirma, que começa a descontar para a segurança social, mas quando chegou à idade de reforma (65 anos), não possuía os descontos que afirmava que lhe tinham feito, eque acabaram por não entrar onde deviam. Ao ser verdade esta situação e não tenho razões para pensar o contrário, alguém se aproveitou do seu analfabetismo e principalmente da confiança depositada.

Infelizmente isto não aconteceu só nesta área, aconteceu igualmente no comércio e na indústria e até em autarquias locais. Tenho conhecimento de várias situações, algumas badaladas na imprensa diária. Isto tem a ver com as pessoas e não com as áreas de acção.

Ainda hoje, aquele monte, que foi muito habitado e hoje está quase deserto, tem para ele um sentido especial.

Dentro da mesma freguesia, arranja novo patrão onde se manteve seis anos e começa a vencer 35 contos ano e comer.

Desentende-se com ele (1987) e vai exercer a sua profissão para a zona de Moura, Serpa e Vidigueira. Vence 23 contos mês e levam-lhe uma casa onde dorme, que o patrão desloca conforme a necessidade de pastagem. Guardava entre 400 – 500 ovelhas e mantém-se aqui três anos.

Em 1990 regressa ao anterior patrão, que tinha abandonado por um desaguisado, (vencendo 25 contos mensais) mantendo-se aqui até 2002, altura em que resolve regressar ao monte onde nasceu com o seu pegulhal, dizendo que agora não trabalhava para mais ninguém, por dinheiro nenhum. Estava farto de sofrer por esses xarazes!

Depois disso várias pessoas dele se abeiraram para com ofertas tentadores procurarem levá-lo para a vida que bem conhece. A todos resistiu devido à experiência acumulada.

Quantas noites de temporal passou deitado em cima da parede de um curral protegido por um plástico, para assim evitar a água proveniente da chuva que caía ininterruptamente!

Dias e dias seguidos passados atrás dos rebanhos sem regressar ao ponto de partida, alimentando-se do pouco que levava e sempre a mesma coisa, afastado de qualquer local onde pudesse adquirir qualquer alimento!

Dias e dias sem ver ninguém!

A única ligação afectiva era com os cães que o acompanhavam, fiéis servidores de uma dedicação sem limites e com quem repartia o pecúlio e carinhos!

Nunca o deixaram brincar em criança, hoje brinca com os guias do rebanho que o conhecem muito bem e se prestam às brincadeiras, entre as quais consta o medir forças! É interessante ver a relação de amizade que tem com os cães que frequentemente lhe pedem festas que prontamente satisfaz.

De toda a vida de pastor, o pior que lhe acontece é quando, por dever de ofício, tem de espetar a faca para matar alguma cabeça do seu rebanho! Zanga-se com elas, chama-lhe muito nomes (ah ovelha de um cabrão!), atira-lhe pedras, dá-lhes pauladas, mas custa-lhe muito ter de matá-las, o que raramente acontece. Rejeita igualmente comer a sua carne ou fá-lo com muita dificuldade!

Este homem praticamente nunca tem um dia livre! Os animais necessitam de comer todos os dias.

Pela amizade que lhe dedico tenho tentado convencê-lo a vender o rebanho que lhe dá muito trabalho, ocupando-lhe o dia e a noite e até porque a saúde é precária. –Fique com meia dúzia de cabeças para matar o vício e descanse alguma coisa depois de tantos e tantos anos de trabalho de grande dureza. Assiste-lhe esse direito! O que tem é pouco mas chega-lhe perfeitamente, já que sempre viveu com pouco. Não o consigo convencer, aquela foi e será sempre a sua vida!

Comprou umas casinhas na sua terra natal, mandou-as arranjar, mobilar e tem o indispensável para viver. Gosta muito de ver televisão, tem máquina de lavar, frigorífico, esquentador, etc. Regressa todos os dias a casa.

Vive com um irmão que é igualmente solteiro e está reformado.

Este homem que passou uma vida repleta de desumanidades, seria considerado numa situação de risco para a prática de atitudes menos correctas e que por aí proliferam. É precisamente o contrário, um coração bondoso e sempre disposto a auxiliar quem dele precise, preocupa-se mais com os outros que o rodeiam do que com ele.

É incapaz de ofender alguém, só o fará involuntariamente.

Apesar de tudo, tem ainda boa memória.

Em sua casa está sempre posta a mesa para quem chega. É lá que se juntam as poucas pessoas do monte.

Francisco André, um homem que passou uma vida duríssima, e contrariando o que os técnicos dizem muitas vezes, fez desenvolver em si o sentido humanitário!

Este texto antes de ser publicado foi lido ao protagonista da vida real para o poder confirmar, o que naturalmente fez.

MOIRAL CHICO, VENDA AS OVELHAS E DESCANSE QUE BEM MERECE.

sábado, 18 de outubro de 2008

Quem salva a secular Capela de Sto. António, na Vila de Alcoutim?




(Foi publicado no Jornal do Algarve de 18 de Maio de 1984)

Nota Prévia
Este artigo, escrito para a imprensa regional há vinte e quatro anos e que trago agora a este blogue, é só um de alguns que tenho escrito em defesa da pequena vila raiana e realizado ao longo de quarenta anos. O José Varzeano foi, é e será sempre um crítico daquilo que pensa que está errado. As minhas críticas não são de agora, são de sempre.

Foi com um título igual, mas referente à Capela de Nossa Senhora da Conceição, que em 4 de Maio de 1974, neste periódico, tentámos alertar a opinião pública e a dos responsáveis, para a ruína que se aproximava.

Ainda que desse escrito não tivesse resultado nada de palpável, talvez o “bicho que morde a consciência” germinasse.

É-me grato referir, hoje, que a Capela de Nossa Senhora da Conceição, se não foi recuperada totalmente, sofreu obras de beneficiação que evitaram a prevista ruína. A Edilidade, salvou a honra a tempo.

Dizíamos então nesse “escrito” e à guisa de introdução, entre outros assuntos, o seguinte: “Fala-se com frequência no derrube da Capela de Santo António, fronteira à residência que a tradição aponta como tendo sido condal…”.

Já em 22 de Setembro de 1973, e continuo a citar este jornal paladino do Algarve, o nosso saudoso amigo, Luís Cunha, por nós alertado, procura defender de ataque vândalo, a Igreja da Misericórdia. Tudo em vão.

Apesar de nos encontrarmos a algumas centenas de quilómetros, chegam-nos vozes “certeiras” do breve derrube daquela velhinha capela, sem ser necessária a habitual expropriação, já que, segundo consta, o “proprietário” satisfaz-se com a construção de uma nova, noutro local.

É velha a ambição de alguns mostrarem ao forasteiro, o que não lhes pertence: a alva Sanlúcar do Guadiana. Mas existem maravilhosos miradouros naturais que têm como fundo aquela povoação do país vizinho! Lembramos, por exemplo, o do Cerro da Castanha onde se situa o posto retransmissor da RTP, para o qual só falta acesso, se mais não fosse possível fazer.

Situada na parte baixa da vila, junto do Guadiana, além de servir para o que foi erguida, tem sido utilizada para tudo, desde escola, no século passado, a arrecadação nos nossos dias, passando por casa mortuária.

Consideramo-la, principalmente pela sua singeleza, um ex-libris da vila.

Se se pretende puxar o turismo do litoral como parece, para a serra-ribeirinha, são necessários, sem dúvida, empreendimentos como alguns que estão em curso, mas é indispensável conservar, melhorar sem desvirtuar, o pouco que a vila oferece e de que a igrejinha faz parte integrante. Bem basta o que tem sido feito, impossível de reparar!

Se é conveniente tornar o local mais airoso e amplo, derrubem a antiga escola, ainda que seja uma boa construção, mas não matem a velha capelinha. Quando muito, limpem-lhe a sacristia, um pouco desfasada. Embelezem o local, ajardinem-no, transfiram para lá o “busto”do Dr. João Francisco Dias, mas tomem em consideração e como ponto fulcral a Capela de Santo António.

Piquem e reboquem as paredes, reparem o telhado mantendo a velha telha, se o óculo for de pedra e constituir uma peça única, como pensamos, limpem-no das camadas de cal que os anos têm sobreposto. Mantenham o interior. Só precisa de cal. Não toquem no solo ladrilhado. Se assim fizerem, no conjunto terão a peça de maior valor e … Sanlúcar continua a ver-se.

Com a ponte sobre a ribeira de Cadavais (ou de São Marcos) e estando a vila a projectar-se para o lado de lá, não destruam o pouco que existe na parte velha (bem basta o que já foi feito!) e invistam na vila nova.

Esperemos que o bom senso evite mais uma catástrofe e a Capelinha de Santo António se mantenha de pé por muitos e muitos anos, como ex-libris da vila.
Os vindouros julgarão.

N.B.
O Jornal do Algarve de 1 de Junho seguinte, traz a seguinte notícia:
Na Rádio Renascença, o “Apontamento do Dia” do Jornal das Regiões”, de 24 do mês findo foi exclusivamente dedicado ao artigo que recentemente publicámos do nosso prezado colaborador, José Varzeano, com o título “Quem salva a secular Capela de Santo António na vila de Alcoutim?”.


Por outros dados que vim a obter, estou convicto que o meu escrito acabou por ajudar a salvar a capelinha, hoje recuperada e que constitui um ex-libris da pequena vila do Guadiana.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Como era o Entrudo nas Cortes Pereiras há 75 anos


Para
Maria Antónia.

Como já tivemos ocasião de escrever em várias ocasiões, o Entrudo ou Carnaval foi a época festiva por excelência de toda a Serra Algarvia.

Ninguém trabalhava e quem semeasse nessa altura já sabia que não colhia nada pois era comida para os ratos que dela davam conta, era a afirmação dos velhos sabedores destas coisas e que se impunha.

Pela manhã comia-se uma fritada proveniente do porco morto em Dezembro e como era tradicional feita em manteiga, como aqui ainda se chama à banha.

Por volta das duas horas, comia-se o galo, que se tinha guardado com esse fim, de cabidela ou guisado com batatas.


Quem não tinha o galo de Entrudo, matava uma galinha de que faziam canja e cerejavam (1) a carne, isto é, depois de cozida e partida, passavam-na por uma frigideira com banha ou azeite, tostando-a.

Para a noite estava destinado o grão cozido com pé de porco, na panela de barro e em lume brando. Havia que ter o cuidado de pôr uma pedra a ela encostada para evitar que tombasse e a comida se entornasse. Conta-nos a nossa informadora que, segundo a avó dizia, uma panela sem pedra, é uma panela de merda!
Outros optavam pela couve cozida no mesmo recipiente com chouriça e toucinho.

As filhós de canudo, passadas por mel, já estavam feitas e constituíam o doce apetecido.

A solidariedade neste período de festa era igualmente uma tradição manifestada na ajuda a quem não tinha. Levavam-se aos mais necessitados uma chouricinha e um bocado de toucinho e o pouco de cada um junto a outros, proporcionava igualmente nesses dias uma mesa melhor.

A nível de folguedo, mascaravam-se em grupos que percorriam as casas do monte e onde pretendiam não ser conhecidos, o que algumas vezes acontecia, pois os visitados diziam que o farranchão (2) era um e afinal era outro.

Para se mascararem procuravam muitas vezes roupas antigas que estavam guardadas nas velhas arcas de castanho e que só nesses dias saíam.

O baile de Entrudo, há sessenta ou setenta anos, tinha lugar na Eirinha, o sítio mais adequado e até porque, quando chegava à noite e o frio apertava, passava-se ao salão do comerciante que ficava em frente, José Martins.



Começando por serem bailes de roda ao som dos cantares que passaram de geração em geração, introduziram-lhe primeiro a gaitinha de beiços e depois o fole ou concertina, passando depois aos pares “agarrados”

Cantava-se e dançava-se, pulando toda a noite!

Enquanto os moços dos montes vizinhos deixavam por vezes a folia local e enquadravam-se nesta, as moças não arredavam pé dos seus montes, organizando os bailaricos e tentando cativar os jovens de fora.

Na Quarta-Feira de Cinzas, era o enterro do Entrudo, com o defunto no esquife e o chorar lamuriento com grande alarido, como convinha, de farranchões e farranchonas.

Depois, até para o ano, eram os votos formulados.

Seguia-se o merecido descanso, dormia-se até se recuperarem as forças, pois o trabalho que tinha ficado por fazer, urgia.

O Monte do Vascão, ainda que pequeno, tinha um bom grupo de moças que se organizavam bem, disputando os moços das redondezas.


NOTAS

(1) Vide Dicionário do Falar Algarvio, Eduardo Brazão Gonçalves, Algarve em Foco, Editora, 1996, p. 66.
(2) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 1985, p. 277.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tavira - Memórias de uma cidade



TAVIRA, Memórias de uma Cidade, é um excelente trabalho de 350 páginas A/4 dividido em duas partes, a primeira constitui uma cronologia da História de Tavira que começa antes do Século XIII e chega aos nossos dias, a segunda um Dicionário Enciclopédico da História de Tavira.

Deviam ter sido muitas e muitas horas, durante anos que o autor ocupou na compilação destes dados, profusamente ilustrados.

É um trabalho profundamente abrangente abordando variadíssimos parâmetros que o autor, Ofir Renato Chagas, deixa como presente à cidade que o viu nascer.

Em edição do autor veio a público em Dezembro de 2004, mas só em 2006 tive oportunidade de o adquirir na cidade de Tavira, em cuja livraria encontro sempre algo para comprar.

Já possuía outros trabalhos do autor.