quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLIII




Escreve

Daniel Teixeira

OS VENDEDORES NO MONTE

Como se deve saber e até pela elementar lógica se chega lá, quanto maior é o povoado maior é o número dos seus comerciantes. A razão também é de lógica elementar, porque havendo mais pessoas maior é o volume das transacções e isso implica como é claro que exista quem as intermedeie.

No Monte de Alcaria Alta que na minha altura talvez fosse dos maiores das redondezas, havia a emblemática taberna/mercearia/armazém da Ti Inácia que antes fora dos pais (ainda conheci a mãe dela e não me recordo se conheci o pai, Pereira, se não estou enganado).

Havia o Ti Zé Luís, com botões e linhas de cozer, que vivia para as bandas entre - o - Além (quer dizer sem ser bem Além e já tendo deixado de ser Rossio), o Chico Artur que negociava gado por fora da terra e um outro (Senhor Manuel Vicente) na zona da praça que pelo que me apercebi só negociava com gado.

A nível das necessidades básicas e sem serem propriamente comerciantes havia um tosquiador barbeiro e um barbeiro (ocasional, este) acontecendo que o primeiro vendia também tabaco. Era o Ti Marcos já aqui falado por causa das coxas de rã e pela sua preocupação estética nos ornamentos tosquiados nas bestas.

O barbeiro ocasional (Pereira também, salvo erro) era um moço mais novo e uma vez apanhou-nos uma lebre com o cajado depois de os cães que levávamos a terem cansado. Nem nos deu cavaco, meteu a lebre na sacola e continuou a sua vida.

Ainda fizemos uma embaixada para ir falar com ele a sua casa mas a nossa diplomacia falhou estrondosamente por timidez: dos três que fomos nenhum teve coragem de falar no assunto e os nossos argumentos tinham sido minuciosamente estudados: pelo menos uma parte da lebre pertencia-nos se falhasse a exigência da totalidade dela. Falhou tudo e acabámos por debandar de casa dele usando o argumento da raposa e das uvas adaptado: «Deixa, por esses montes há mais lebres...».

Bem, o comércio não devia ser famoso, em qualquer dos casos aqui falados mas numa terra onde ainda circulava muito pouco dinheiro, tudo o que viesse era bom. No resto ia-se a Giões onde se encontrava o resto daquilo que poderia fazer falta. A bica do tal senhor que só ligava a máquina (de um bico) depois de se pedir a bica para poupar gás (agora há por lá cafés modernos) e antes disso havia as Festas com feira, onde era tradicional beber-se um copinho de salsaparrilha.

A festa de Giões, salvo erro só fui a uma, era organizada pela Igreja (pelo Padre) e tinha uma parte que fazia leilão de bolos ofertas das senhoras da aldeia e não só. O meu tio Zé Teixeira era o leiloeiro e tentava arrancar o máximo dos lances, como era seu dever, colocando qualidades nos bolos que por vezes eram prejudicados pela falta de beleza: tocava ao sentimento, na falta que o dinheiro fazia à Igreja, referia a simpatia da ofertante e por vezes fazia mesmo venda «agressiva», ameaçando retirar o produto do leilão se o lance não subisse, enfim...

Ora nesse dia estava ele no palanque com o microfone e estava no quem dá vinte, quem dá vinte e um, etc. etc. quando a meio do vinte e um interrompe com o «Corram, corram!! Corram à cerca da igreja que o restolho está a arder!»

Era quase fatal que isso acontecesse por ali porque os fogueteiros parece que tinham sebo nas mãos e aquilo era foguetada a torto e a direito. Mas o que eu achei piada (já ia tendo sentido de humor) é que acabado o serviço dos ocasionais bombeiros, para aí quinze minutos se tanto, lá estava ainda o meu tio com o bolo nas mãos e assim que as coisas acalmaram passou ao lance seguinte: «Quem dá vinte e cinco...vinte e seis, etc.». Ele sozinho e sem se mexer dali já tinha metido mais quatro lances na jogada...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Fogareiro a petróleo


O aparecimento desta “máquina”, de que nos lembramos ter acontecido em casa de nossos pais, constituiu uma verdadeira revolução na confecções dos alimentos, principalmente tendo em conta o tempo de duração.

Reportando-nos à sua chegada a Alcoutim que deve ter ocorrido em meados do século passado para a vila e uma ou outra aldeia, ele veio substituir o fogo a lenha efectuado no chupão (espécie de lareira pequena)) com o auxílio da trempe e do triângulo de ferro, isto quando as pessoas não tinham uma pilheira no exterior da casa e que constituía uma espécie de fornalha.

Em tempos mais recuados e nas casas mais modestas o fogo era feito a um canto da casa e o fumo saía por uma telha que se levantava no telhado.

Depois da iluminação passar do azeite para o petróleo, da candeia para o candeeiro, com as vantagens conhecidas, chegou a altura de substituir a lenha ou carvão pelo “moderno” e eficiente petróleo.

Havia vários tipos de fogões a petróleo mas o mais vulgar era o que a figura apresenta e ainda em condições de funcionar apesar de se encontrar bastante oxidado.

Constituído por um depósito de metal com uma pequena abertura circular e tampa de enroscar, que se destinava à introdução do petróleo, tinha também outro orifício, em posição inferior onde funcionava uma pequena bomba que pressionada obrigava a sair com menor ou maior intensidade o petróleo que incandescia ao passar por uma cabeça com duas entradas pois havia antes um pequeno receptáculo envolvente que se enchia de álcool desnaturado a que se lançava o fogo.

Na parte superior estava colocado um espalhador nas cabeças silenciosas, enquanto as ruidosas assim chamadas devido ao barulho que produziam tinham um sistema diferente pois a distribuição do calor era menos dividida.

Três espeques saíam da sua base formando os pés e uma trempe sobre a qual assentava uma base de diâmetro semelhante à do depósito e onde se colocavam tachos, panelas e outros utensílios destinados à confecção das refeições.

Era necessário ter “bicos” para poder substituir os que se iam estragando com o uso, trabalho feito com o auxílio de uma chave que funcionava nos mesmos moldes das chaves de velas. Indispensável era igualmente o espevitador que se destinava a limpar alguma impureza que se alojasse no bico.

Tiveram fama os fogareiros da marca Hipólito confeccionados em Torres Vedras.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Apagar calendário, esquece acontecimento?





Escreve

Gaspar Santos



Em França e na Bélgica fala-se a mesma língua, o francês. Haverá algumas diferenças, como é natural. Uma das diferenças ocorre no nome de alguns números e causa algum espanto perceber a sua razão de ser. É o caso do numeral setenta.

Os Belgas dizem: septante, septante et un, septante deux, septante trois…etc.

Os franceses dizem: soixante dix, soixante onze, soixante douze, soixante treize...etc

Mas se pesquisarmos junto das populações, uma grande percentagem, tanto de franceses como de belgas não sabe por que é assim… Já esqueceram!

Conheço um Professor Catedrático Belga da área de letras a trabalhar numa Universidade de Lisboa que sabe desta diferença linguística, mas desconhecia totalmente as razões para tal.

 Isto não foi sempre assim. Ate 1870 dizia-se da mesma maneira em França e na Bélgica.

Soube disto em Alcoutim em 1955. Disse-mo um Chefe de Conservação de Estradas que então lá chefiava os cantoneiros e tinha estudado na Argélia Francesa. Ele deu-me alguns dias explicações de francês quando eu estava em Alcoutim a convalescer por ter feito
operação a uma apendicite aguda no Hospital Militar da Estrela. Começara em Outubro os meus estudos secundários e não queria perder todo o mês de Fevereiro de 1955 entre doença e convalescença e ele fez o favor de me ajudar.

A razão é a seguinte: Em 1870 houve uma guerra entre a Alemanha e a França. A França perdeu essa guerra e sentiu fortemente a humilhação. Então os franceses nem podiam ouvir falar em septante (70).
E a gramática foi alterada: passou a dizer-se soixante dix (70) e soixante onze (71), soixante douze (72), etc. Os belgas como nada tinha a ver com essa disputa mantiveram a maneira de se exprimir.

O que os franceses fizeram em 1870 depois que apanharam uma valente tareia dos alemães é o que o Governo quer fazer agora, segundo a Associação 25 de Abril denuncia nesta moção: apagar o dia 25 de Abril do calendário:

Des. de João Pedro Rodrigues


Moção

Um decreto-lei do governo, que está em discussão na Assembleia da República, determina que para trabalhadores das embaixadas, missões bilaterais e serviços consulares portugueses o 25 de Abril deixe de ser feriado obrigatório.

Apenas o 25 de Dezembro, dia de Natal e o 10 de Junho, Dia de Portugal, serão feriados obrigatórios.
Os restantes feriados, sem ultrapassar nove, entre os feriados portugueses e os do país onde a missão está instalada, serão escolhidos pelos chefes da missão.

Tendo em atenção que as embaixadas são território nacional, não deixa de ser surpreendente que alguém pretenda, por esta via, suprimir o Dia da Liberdade e impedir que trabalhadores portugueses possam comemorar o dia fundador da nossa Democracia.

De há muito que está claro que o actual governo de Portugal pretende acabar com tudo o que cheire a 25 de Abril! […]

A sua intenção revisionista tem vindo a ser mascarada, com argumentos de “dívidas e memorandos” que têm servido de justificações para as alterações de natureza económica, mas principalmente social, que têm vindo a impor ao país.

Com as muito nefastas consequências, que todos vimos sentindo na pele.

Pois bem, as máscaras começam a cair e coube ao ministro dos Negócios Estrangeiros o primeiro acto a descoberto.

Com esta iniciativa, torna-se claro que se prepara a abolição do 25 de Abril como feriado nacional. Não é, no fundo, surpreendente. Era claro que já a anterior abolição dos feriados do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro, comemorativos da Revolução Republicana e da independência nacional, visava preparar o terreno para a supressão da memória dos principais acontecimentos históricos que estão na génese do Estado independente, livre e democrático, do Estado de Direito que hoje temos em Portugal e são a base da luta dos portugueses contra o desígnio mais vasto e inconfessado de quem está hoje no exercício do poder, que é o da substituição do regime democrático conquistado com o 25 de Abril por um outro tipo de regime, mais ou menos autoritário.

Contra isso, contra a destruição do Portugal de Abril, lutaremos sem desfalecimentos.

É nesse sentido que a Assembleia-Geral da Associação 25 de Abril, reunida a 15 de Dezembro de 2012, por unanimidade:

1. Repudia com veemência tal atitude revanchista e indigna do país que somos e dos cidadãos que prezam e honram a Liberdade e a Democracia que conquistámos, a 25 de Abril de 1974.

2. Apela a todas as organizações cívicas e aos cidadãos em geral, que se reclamam da Liberdade, da Democracia e da Justiça Social, a uma mobilização e luta pela não aprovação deste desejo do governo.
3. Apela à consciência dos deputados da Assembleia da República, que têm o dever de se opor a medidas que tendam a pôr em causa o regime democrático, a que não aceitem e aprovem a medida da supressão do 25 de Abril como feriado nacional, em todo o território de Portugal, que inclui, evidentemente, o das suas embaixadas e outras representações diplomáticas
.
Outra atitude manchará inexoravelmente a sua acção, tornando-os responsáveis pela consumação de um acto verdadeiramente anti-patriótico.

Lisboa, 15 de Dezembro de 2012

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O pintassilgo




O pintassilgo (Carduelis carduelis) é uma pequena ave passeriforme da família dos fringilídeos muito vulgar no concelho de Alcoutim. Distribui-se pela Europa ocidental e pelo norte de África.

Foi introduzida com êxito nos arquipélagos dos Açores, da Madeira e de Cabo Verde no século XIX.

É observada tantos nos meios rurais como urbanos, preferindo habitats semi-abertos com presença de árvores, como acontece em pomares e jardins. Não gosta das zonas fortemente florestadas.

O adulto distingue-se do jovem pela face vermelha e o resto da cabeça preto e branca.

O bico é cónico, cor de marfim e mais escuro na ponta e a plumagem misturada de vermelho, amarelo, branco e preto o que lhe concede um aspecto cromático.

Além da atracção visual que a sua plumagem oferece, tem um canto muito agradável e melodioso.

Alimenta-se de sementes, principalmente de cardo, mas no período da alimentação das crias ingere também insectos.

Fora da estação reprodutora, organiza-se em bando até cerca de 40 unidades.

Abril e Maio são os meses de acasalamento, regressando depois aos bandos com os filhotes quando para tal estiverem preparados.

As posturas são de 4 a 6 ovos azuis, com manchas pretas. Passados 1 a 14 dias nascem os filhotes, e a incubação é feita pela fêmea. Duas posturas por ano.

Na meia dúzia de citrinos que possuo no concelho de Alcoutim, existem sempre ninhos de pintassilgo. Os ramos densos próprios das árvores protegem-nos razoavelmente, em especial dos predadores, como acontece com os gatos vadios.

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Aves de Portugal e Europa, Guias FAPAS, (2ª Edição), 1995.
Atlas das aves nidificantes em Portugal, (1999-2005) Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, 2008.
Dicionário Verbo da Língua Portuguesa, 2ª Edição, 2008.
Wikipédia, a enciclopédia livre.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Os cheiros e os sons da minha infância!




  
Escreve

M Dias


O monte dos cheiros e dos sons. Foto JV 
Recordo os cheiros e os sons da minha infância e conservo deles  uma memória viva e doce A vida na serra, proporciona-nos experiências de tocar, cheirar, ouvir, manipular o que é mesmo natural, autêntico! Os cheiros, os sons e as texturas que a natureza nos oferece na sua espontânea naturalidade em cada estação do ano, (excluindo alguns poucos cheiros e sons desagradáveis que também não esqueci, como o cheiro do pocilgo, ou da matança do porco, e o som dos trovões e dos foguetes), as minhas memórias sonoras, tácteis e olfactivas são doces recordações. No Verão o cheiro das searas ceifadas, dos funchos, e junto do barranco os aloendros floridos, dos figos a secar ao sol, o som das pegadas das bestas e do linguajar dos donos que as conduziam, dos chocalhos do gado que à tardinha regressava aos currais, o zumbir de uma mosca no silêncio no quarto quando dormíamos a sesta (conhecida por folga), o cantar das cigarras em dias de muito calor e dos grilos à noite ao serão, o canto do galo ao amanhecer e da galinha quando acabava de pôr o ovo, dos cães que ladravam e corriam desenfreados atrás de um pobre gato, e o cheiro da terra molhada, quando ocasionalmente "desabava" uma trovoada de Verão. Chegava o Outono com os seus tons amarelados, muitas árvores já despidas, as primeiras chuvas, sempre insuficientes que mal faziam correr os estreitos regatos, a terra com manchas pretas das queimadas e o cheiro da lenha a arder, fazendo subir curvilíneas colunas de fumo no ar. Por essa altura começavam as lavouras e nesses anos ainda se ouviam as charruas e o lento caminhar das bestas a sacudir as orelhas, quando as peganhentas moscas as incomodavam.

Foto de M Dias, Jan. 2013
Cheirava a terra lavrada, e muitas dezenas de passarinhos procuravam aí o petisco que saía da terra remexida. Ouviam-se asas de grandes bandos a bater! As primeiras azeitonas eram apanhadas e pisadas (britadas) para daí a poucos dias, frescas e saborosas serem consumidas, muitas vezes só com pão e tantas vezes serviam de almoço, ou merenda! Chegavam também as belas laranjas que cresciam em abundância até ao Inverno. No Inverno chovia bastante, corriam os barrancos e o cheiro húmido da água a correr batendo com força nas grandes pedras, parecia produzir fumo e lá íamos nós as miúdas pequenas a correr para apreciar aquela maravilha! Também o orvalho, de manhã, quando íamos para a escola cheirava bem e fazia esquecer a preguiça de levantar, quando o sol rompia e inundava aquelas paisagens de ervas carregadas de gotículas penduradas, lembrando rosários ou colares de pérolas

Mais uns dias de escola e chegavam as férias do Natal. Dormia-se de manhã mais um bocadinho, estava muito frio e muitas vezes acordávamos com o angustiante grunhir do porco a tentar lutar contra os braços de meia dúzia de homens que o seguravam e já lhe tinham passado uma grossa corda pelo focinho! Metíamos a cabeça o mais possível debaixo das mantas, tentando não ouvir os gritos do pobre animal cuja vida terminaria daí a poucos minutos.

Horrível mesmo para mim era aquele cheiro do sangue do pobre bicho ao lume a cozer. Apreciado petisco para a equipa de “assassinos”!

Esta época de matanças de porco, nunca mais acabava!

Voltávamos à escola e ainda o ano começava e o Inverno longe de acabar, mas já se viam naquelas chapadas (encostas viradas a sul) manchas esbranquiçadas de amendoeiras a florir, que ao aproximarmo-nos, nos presenteavam com o seu suave e doce aroma. Junto ao chão, plantas rasteiras, carregadas de flores, miudinhas, brancas, e depois as amarelas das azedas junto dos caminhos.

Estava próxima a Páscoa! O sol começava a aquecer, andorinhas passavam em voo rasante à nossa frente, muita passarada chilreava poisada nas árvores e começavam a construir os ninhos!

Floriam o alecrim, os rosmaninhos, as estevas e outros pequenos arbustos que ladeavam o caminho fazendo autênticas barreiras com muitas abelhas e borboletas a desfrutar das suas flores e do seu perfume.

Ao longo do ano, quase dia sim, dia não, alguém acendia e aquecia o forno, comunitário e não tardava a ser” inundado”todo o monte pelo belo cheiro do pão acabado de cozer!

Assustavam me as lagartixas que mal o sol começava a aquecer, corriam atravessando de pedra em pedra, muitas vezes sem respeitarem os nossos pés, fazendo com que eu tremesse de medo! Mas, teria muitas dúvidas em aceitar trocar por outra esta minha saudosa infância!

sábado, 26 de janeiro de 2013

Haverá fotografia mais antiga de Alcoutim ?

Começamos por fazer, como título, esta pergunta para ver se alguém nos responde afirmativamente.

Pensamos que não será fácil, mas é possível.

Esta apresentação só é viável pela valiosa colaboração do alcoutenejo José Madeira Serafim, que ao herdar este espólio dos seus pais o tem sabido conservar proporcionando-nos este regalar de olhos.

A fotografia é de 1873, contemporânea da que apresentámos sobre a Banda ou Filarmónica e o autor deve ser o mesmo, segundo dedução do nosso amigo.

Os 140 anos decorridos sobre a mesma causaram alguma degradação, aliada à técnica então utilizada, não se poderia apresentar em melhores condições.

Já nesta altura, e segundo pensamos, a fotografia é tirada de Sanlúcar e ainda que a sua configuração geral seja obviamente a mesma, encontramos algumas diferenças.

Como pontos de referência, o castelo, a igreja de Nª Sª da Conceição, a igreja de S. Salvador (matriz), hoje com uma configuração diferente devido a obras que foi recebendo ao longo dos anos, a capela de Sto. António, a residência Condal que já possuía as características que tem hoje, a Casa dos Pintos, a casa que habitámos durante nove anos, a primeira à direita de quem olha para a fotografia e até a pequena construção onde funcionou a venda do senhor Sabino já era como a conhecemos, notando-se bem a janela e a porta viradas para o rio.

O edifício onde posteriormente veio a funcionar a Guarda-Fiscal a partir de 1885 e hoje funcionam os Serviços Fiscais, lá está no seu lugar, notando-se bem os seus gigantes de suporte.

Noutro âmbito notamos restos da velha muralha que circunda o local da igreja matriz da qual parte um carreiro em direcção ao rio, o cais velho com alguns pequenos barcos por perto e o local onde se encontra agora o cais novo, que nos parece apresentar uns muros de suporte e caiados como era tradicional. Admitimos que estes muros tivessem sido feitos debaixo da orientação de Miguel Angel de Leon, que nós sabemos ter adjudicado à Câmara um trabalho deste tipo por estas alturas.

Reparar que ao largo encontra-se um barco à vela de alguma dimensão.

Não podemos deixar de reparar no coração da vila onde se nota alguma arborização no local em que se encontra hoje um bloco de habitação e comércio. Antes desta construção, existia o quintalão da família Rosário e lembramo-nos de aí existirem entre outras árvores, algumas oliveiras de porte avantajado.

Enigmático para nós é a mancha branca que aparece do lado esquerdo do castelo e que presumimos ser o local onde se encontrava a Porta de Tavira. Dá-nos a ideia que dessa mancha branca, corre, tanto para a direita como para a esquerda, uma mancha escura que poderá indicar restos da muralha da vila e que efectivamente passava por esses locais.

Pensamos que a deslocação de um fotógrafo à vila de Alcoutim, nessa época, não seria nada fácil, até porque esta arte, na altura, estava reservada a grandes senhores de sangue ou capital, que na maior parte dos casos era coincidente, pois quem tinha capital acabava por adquirir o título.

A nossa imaginação leva-nos a que tivesse havido alguma festa na vila de carácter religioso.

Admitimos que além das duas fotografias que já conhecemos, outras se tivessem tirado, que se terão perdido ou façam parte de algum álbum de família das muitas que ao longo dos tempos foram abandonando o concelho de Alcoutim pelos mais variados motivos.

Alguma aglomeração de gente junto da capela de Sto. António será talvez outra pequena achega para pensar assim.

Dominavam nesse tempo em Alcoutim, as famílias Teixeira, Freitas, Xavier, Pinto e Torres. É desta última que provêm as fotografias.

- Caro visitante / leitor, faça a sua análise e compartilhe-a connosco.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Matança do porco "Suvão" (Cevão)


Pequena nota
Já abordámos este assunto no texto a que demos o título "A matação do porco" e publicado neste espaço em 16.11.2011.
Com esta publicação não se trata de uma duplicação mas sim de um complemento ao que estão escrevemos  pois o espírito de observação e a linguagem utilizados são diferentes.
Qualquer alcoutenejo que se preze revê-se neste texto de António Afonso.
JV




Texto e Ilustração 
de
António Afonso



No monte onde nasci e também um pouco por toda a Serra Algarvia a tradição era cíclica e anual, exigindo ritual seguinte:
Todos viviam da agricultura de subsistência, da pastorícia, alimentavam-se essencialmente do que a terra produzia, à custa de muito trabalho; quase toda a carne consumida era de suíno, embora se abatesse um galo pelo Entrudo ou alguma galinha em dia de Festa, um borrego (malato) no final das ceifas (adiafa), por tal facto, era preciso providenciar a compra de um porquinho preto (bácoro) no início da Primavera ou, o mais tardar, na feira de S. Marcos no Pereiro.

 Depois, era necessário chamar o capador que procedia à extracção das glândulas reprodutores do animal, para que este medra-se e as hormonas sexuais não interferissem no sabor da carne e no desenvolvimento do animal, tendo em vista a engorda. Confesso, que este acto cirúrgico desprovido de qualquer anestesia, realizado com uma espécie de pequena adaga mourisca, muito me impressionava, pela crueldade e sofrimento infligido aos animais indefesos. Compreende-se perfeitamente, porque fugíamos a “sete pés”, quando algum malandreco mais velho, nos ameaçava que nos ia capar, por termos portado menos bem.

Passada a prova de sobrevivência, o animal, como omnívoro que era, comia de tudo um pouco, era assim uma espécie de “ecoponto de reciclagem,”pois, ingeria restos de comida para humanos, vegetais, frutas, cereais, farelos etc. Quando Novembro chegava, a sua dieta passava ser quase exclusiva de bolota, rica em hidratos de carbono, o seu peso aumentava a olhos vistos. O Inverno chegava e com ele o frio, tempo próprio para o abate, a tradição assim o exigia, pois os micróbios requerem temperaturas mais elevadas para se desenvolverem.

O dia da Festa se aproximava: - os convidados tinham de ser avisados com antecedência e todos os preparativos tinham de ser organizados. Este dia tinha um significado muito especial, juntava-se o útil ao agradável, era de certo modo o pretexto para reunir a família, falar de assuntos pendentes e até negócios.

A dona da casa tinha trabalhos específicos: limpar a casa, cozer o pão, preparar as louças, as roupas, a salgadeira, arear os tachos etc. Ao homem estavam-lhe reservadas outras tarefas: Preparar a lenha, as alfaias, palha de centeio para chamuscar, ir a Martim Longo comprar sal, café, açúcar e os chamados (adubos), especiarias – colorau, pimenta, pimentão e cominhos e ainda algumas guloseimas para as crianças.

Logo de manhã, começavam a chegar os convidados cheios de frio, eram familiares e amigos; servia-se-lhes o café da manhã, embora os homens geralmente optassem por um cálice de medronho e um bolo ou frutos secos. Havia então, um pequeno grupo que se  dirigia às instalações do animal (pocilgo), o dono  atava a uma pata traseira uma corda e conduzia o animal  ao local do sacrifício, onde a  determinado momento era dada voz de ataque. Todos se lançavam sobre o animal até o imobilizarem por completo, atando-lhe o focinho por prevenção; colocavam-no sobre uma mesa tosca de três pernas, era neste local que o matador espetava a longa faca no pescoço do animal, atingindo deste modo uma artéria de grosso calibre, agora o sangue vermelho vivo (carregado de oxigénio) jorrava em esguicho, sendo recolhido parte dele num tacho de metal amarelo - cobre (arame) que continha vinagre, evitando deste modo a coagulação.


Jazia agora no chão o corpo sem vida, procedia-se de seguida à retirada da camada superficial da pele (epiderme) com ao auxilio de palha a arder e com alguns utensílios próprios, retirava-se a pele do focinho (tromba), as unhas (cascos), passava-se à fase seguinte, lavagem e raspagem até ficar de cor clara.

Novamente em cima da mesa, dois cirurgiões tratavam de abrir o cadáver, dando início uma verdadeira aula de anatomia prática em praça pública, um fazia uma incisão superficial desde a ponta do esterno, percorrendo toda alinha branca até ao ânus, aqui uma circular para libertar o recto, tendo o cuidado de o atar para não fazer borrada, produzia mais duas incisões de cada lado, na pele do abdómen (barriga), onde dois ajudantes de campo introduziam os dedos indicadores e manejavam conforme necessário, agora sim: penetrava com os dedos na cavidade abdominal (pança) procedendo à completa abertura, ficando à vista os intestinos (tripas), puxava o estômago – (bucho) e o esófago (canal) retirando todas as vísceras para um alguidar, depois retirava ainda as banhas (mantas) das paredes laterais do abdómen.

Em simultâneo, o segundo cirurgião fazia a sua incisão (corte), desde o esterno até à boca , depois abria a o esterno a (caixa) com ajuda de dois ajudantes que forçavam as patas dianteiras permitindo assim o livre acesso livre à caixa torácica donde ia retirando os pulmões (bofes), coração - (máquina), fígado (cachola) e ainda o baço que por aqui chamam (passarinha), nome bastante sugestivo, retiravam-se ainda os presuntos, as espáduas (pás), as costeletas (aduelas) o cérebro (mioleira), ficando apenas a coluna vertebral (espinha), no interior da qual estava alojada a medula (tutano), mesmo esta iria ser subdividida e sepultada  na salgadeira juntamente com outras peças, nomeadamente os pezinhos , os presuntos onde seriam cobertos de sal, modo ancestral de conservação dos alimentos Não  existiam ainda, por lá, as arcas frigoríficas, mas  mesmo que existissem,  não tinham fonte de alimentação (energia eléctrica ) para que funcionassem.

Às mulheres estava reservado o trabalho de desmanchar as tripas, ripá-las e lavá-las e prepará-las para os enchidos, fritar a carne e fazer a banha e os deliciosos torresmos Após tamanha azáfama (canseira), chegava finalmente o esperado almoço que reunia todos à mesa comungando da mesma alegria. A ementa era constituída por pratos típicos do acontecimento, como: A (moleja) com cominhos, feita com o sangue do animal, a cachola e os bofes fritos, uma fritada de carne ou mesmo um guisado, tudo isto regado com um bom vinho caseiro de elevado teor alcoólico, capaz de deitar por terra o mais forte dos gigantes, caso não fosse moderado no seu consumo. O convívio prolongava-se pela tarde fora, com conversas interessantes ou não, até chegar a hora da despedida, acompanhada de um ou vários convites para as próximas matanças em casa do irmão, primo, cunhado etc.


Nota: Os termos a negrito representam regionalismos castiços utilizados pelo povo a que pertenço e me identifico.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Cozinha" de celgas "bravas"


Vamos apresentar hoje mais um prato genuíno do concelho de Alcoutim e que naturalmente também o é dos concelhos limítrofes, tanto do Baixo-Alentejo como da Serra Algarvia.

Este espaço não “embandeira em arco” com a utilização de variantes ditas genuínas e que na realidade não o são, procurando valorizar algo que afinal acabam por degradar.

Os exemplos são “mais que muitos” e que qualquer pessoa minimamente conhecedora da região detecta com grande facilidade.

O título que apresentamos é o original e próprio da região, necessitando de uma natural explicação que iremos procurar fazer.

A designação de “cozinha” já a tínhamos encontrado em trabalhos de Leite de Vasconcelos e em relação ao Baixo-Alentejo, significando a “grosso modo” todos os legumes que vão ao “fogo” para serem cozidos, o que já referimos neste tema.

À “cozinha” junta-se-lhe a designação que lhe dá o “gosto” e neste caso “celgas bravas”planta herbácea utilizada na culinária.

Nós conhecíamos a herbácea celga ou acelga e que em Alcoutim chamam celgas mansas, designando outra planta espontânea por celgas bravas. Afinal, viemos a concluir que as celgas bravas são a designação que os alcoutenejos dão aos catacuses.

Para os alcoutenejos as folhas dos catacuses são celgas bravas e o espigão que dá a flor e a semente é que é designado por catacuses.

Conhecemos aqui outra planta, a abrótea, medicinal, que é designada por “labroitas”ou “alabroitas” e o espigão que dá a flor e o fruto é chamado de “gaimão” (gamão).

Explicado isto, compreende-se a designação de celgas bravas”, que os alcoutenejos consideram mais gostosas do que as mansas.


O primitivo “prato” cozinha de celgas era extremamente simples. Após demolhado, cozia-se o grão com as celgas, temperado com azeite. O “molho” sobrante da cozedura era deitado sobre as pequenas fatias de pão previamente dispostas em recipiente adequado.

Um prato pobre, próprio da região, recorrendo-se às plantas espontâneas para lhe dar um gosto agradável.

Os alcoutenejos continuam a utilizar as celgas bravas na sua alimentação, mas agora e devido às melhores condições de vida, adicionam às celgas, além de alhos areios, chouriça vermelha e preta, tromba, orelha ou chispe de porco ou toucinho entremeado, que são cozidos, simultaneamente, com o grão e plantas espontâneas.

A carne é separada do restante e a sopa de pão comida em primeiro lugar ou ao mesmo tempo do restante conforme o gosto de cada um.

Nunca tinha comido tal mas desta vez tive essa oportunidade e a carne, para nós, passa a ser o menos importante, mas sim o gosto que fornece ao grão e ao pão a planta espontânea.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Maria Tomásia Barão


Chegou-nos a notícia do falecimento, pelas 9 horas de hoje, em Alcoutim, de Maria Tomásia Barão, filha de Ti  Gregório Barão, que ainda conhecemos de avançada idade e que desempenhou a actividade de barqueiro e de Ti Maria dos Ramos.

Maria Tomásia faleceu aos 91 anos, em casa de seu filho mais novo e era bem conhecida de todos os alcoutenejos.

Teve seis filhos, o mais velho e o mais novo do sexo masculino e que se encontram fixados por vários locais, incluindo o estrangeiro.

O Ti Gregório  ajudou-a a criar, pelo menos os mais novos, lembramo-nos muito bem de os ver seguros pelas suas mãos, um de cada lado a percorrer as ruas da vila.

Teve sempre uma ligação forte ao mais novo, o nosso amigo José António, o único que verdadeiramente criou e com quem toda a vida viveu.

Era o seu menino, que não queria perder por nada e quando o via em “perigo” recorria à GNR a quem solicitava ajuda. Diga-se de passagem que foi dele que sempre recebeu carinho e apoio.

Ainda a tínhamos visto na nossa recente estada em Alcoutim com alguma desenvoltura.

Desaparece assim mais uma figura emblemática de Alcoutim, facto que damos a conhecer a todos que a conheceram.

O seu funeral realiza-se amanhã para o cemitério de Alcoutim.

Condolências aos seus, em especial ao José António, a quem enviamos um grande abraço. -Serás tu Zé o que vais sentir a falta da tua mãe.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

PEQUENA EXPLICAÇÃO DEVIDA AOS VISITANTES/LEITORES

Alcoutim. Largo de Sto António. Jan de 2013
Não passou despercebido aos visitantes/leitores deste espaço, pelo menos aos mais assíduos e em especial aos diários, que os há, um menor número de mensagens emitidas, o que durante bastante tempo não se verificou.

Acontece que depois de uma ausência de cerca de seis meses, foi-me possível voltar ao concelho de Alcoutim, temática que tem por base este blogue.

Além do mais, tratava-se de ir podar as videiras e algumas árvores que vão resistindo à falta de cuidados a que têm sido votadas por variadíssimos motivos, entre os quais o avançar da idade, que vai provocando a diminuição das faculdades físicas, além, como é escusado referir o “roubo” contínuo que o “governo” me vai fazendo na minha pensão de reforma para a qual descontei, sem fugir num centavo, durante 36 anos.

Mas “eles”, uns jovens e alguns rapazecos, depois de meia dúzia de anos de políticos de meia-tijela, só deixaram de receber a reforma e o vencimento porque o Sócrates teve a má ideia de acabar com os dois tachos. E de tal maneira é apetecível, que não o querem largar de maneira alguma! Consideram-se futebolistas ainda a altura!

Era para lá estar oito dias mas acabei por ficar 18!

Coincidiu com a minha chegada, uma alteração na orgânica técnica do blogue, o que não me permitia inserir as indispensáveis ilustrações. Além disso, tinha que me deslocar a 4 km de distância para conseguir obter sinal, o que nem sempre é possível.

Sem o “informático” que me costuma ajudar por perto para proceder à alteração que me diz ser necessária, recorri aos seus préstimos para a colocação das mensagens, enviando-lhe o texto e as ilustrações e foi assim que consegui continuar a postar para um possível “deleite" dos fiéis leitores deste blogue.

As minhas desculpas pelas razões apontadas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

UM FIM DE TARDE EM ALCOUTIM: SONHO OU REALIDADE? [1]


Escreve

Amílcar Felício





Rua das Portas de Mértola
Imaginei-me sentado entre os homens no muro que dá para a Ribeira em frente à casa da Tia Catarina das Portas, como acontecia noutros tempos já bastante recuados. Para ser mais preciso, estaríamos para aí na segunda metade da década de cinquenta do século passado e os homens já comentavam uns para os outros de que se aquilo continuasse assim, qualquer dia quando aqueles velhos desaparecessem não haveria mais braços para trabalhar no campo. Ainda por cima, acrescentavam eles, agora já não eram só os moços que iam para a tropa e que por lá arrumavam a vida, como também famílias inteiras que tinham começado a zarpar! E o pior é que isto estava a acontecer, diziam eles, quer na Vila quer até nos próprios Montes!

Aquele muro logo à entrada da Rua das Portas de Mértola, era um dos lugares nevrálgicos da Vila e o poiso dos mirones e dos linguarudos que por ali se juntavam, nos dias em que o calor apertava e que até cortava a respiração. Tinha sido construído pela Empresa dos Pataroxa há cerca 10 anos atrás, na mesma altura em que rasgaram todos os quintais existentes junto ao Esteiro, para construir o prolongamento da estrada até à Praça e que só chegava naquela época até à entrada da Vila. Demoliriam também as casas em frente à Venda e à Mercearia do Senhor Simões, fazendo naquele local o Ajardinado a 45º que ainda por lá existe e murando naturalmente a entrada da Rua. Toda a pedra tinha vindo da Pedreira do Senhor Felício que ficava entre a curva da Amoreira e o Aqueduto das 3 Bocas e que foi comprada a 1 escudo a tonelada ou o metro cúbico, já não me lembro ao certo e transportada pelos famosos camiões do Pataroxa que baptizariam para sempre o meu amigo do peito, o Zé Pataroxa filho do Lázaro e da Ana, que corria descalço pela Vila naqueles tempos gritando que “aqui vai o camião do Pataroxa!”

Sentados no muro, esperávamos pela primeira brisa da tarde que vinha da Ribeira e que deveria estar a chegar a qualquer momento, naquele mês de Agosto abrasador. O Sol parecia mesmo que se estava a preparar para dormir nos Moinhos derrubados da Corte do Tabelião e as sombras dos que chegavam à Vila, eram àquela hora do dia muito maiores do que eles próprios, dando-nos a sensação de que vivíamos numa Vila de gigantes. Eram quase 8 horas da tarde mas ainda estava uma calma enzorrada que mal se conseguia respirar e que até nos fazia sentir almareados!

O Chico e o Manel Balbino aproveitando as marés vivas e a preia-mar que dava lá para as 9 horas, subiam lentamente a Ribeira numa das suas lanchas para deixa-la em seco nos eucaliptos do Senhor Joaquim do Rosário, perto das passadeiras do Pego Fundo, para reparar alguma racha ou pequena fresta de última hora que se tinha aberto com aqueles calores. O Chico de remos nas mãos lá ia dando umas remadas de vez em quando ao sabor da corrente e o Manel com uma antiga lata de cavalas em conserva que levaria entre dois a três litros, lá deitava para a Ribeira a água que ia entrando para a lancha.

No outro lado da Ribeira o Ti António Brandão e os filhos, mais novos do que eu uns 4 ou 5 anos pois o Chico teria para aí uns 6 anos e o Américo uns 7 ou 8, ainda regavam as laranjeiras. Nunca lhes sobrava tempo para a brincadeira! A mãe, a Tia Catarina Brandão já tinha passado há um bom bocado para casa. Vinha quase sempre mais cedo para fazer o jantar. Um pouco mais adiante, perto dos escombros da velha Igreja do Rossio, o Manel do Rossio lá ia atrás das vacas do Ti Gato encaminhando-as lentamente para a ordenha habitual da noite, pois a Tia Maria do Leite a mulher do Ti Valentim, ainda tinha que fazer a distribuição do leite pela Vila. 

Os netos do Ti Gato, o Martinho – o picada da mosca – e o irmão mais novo o Eduardo, também lá iam atrás das vacas para dar uma ajuda. As primas, a Liete e a irmã estavam um pouco mais à frente já ao pé das casas, com os cântaros de lata na mão que o Ti Zé Emídio fabricava. O Martinho tinha ficado conhecido pelo “picada da mosca” porque todos os anos quando lhe pedíamos na Escola para trazer umas laranjas do Rossio, desculpava-se sempre com o mesmo argumento “de que este ano não podia trazer nada, pois estavam todas picadas da mosca”. 

No lado de cá da Ribeira no Esteiro, a Tia Libânia e o Ti Marreiros aproveitavam até ao último raio de sol e às vezes até entravam pela noite dentro para acabar a rega do laranjal. Os cães do Ti Robalo não paravam de ladrar à passagem das mulheres para o Poço das Figueiras, no meio daquele reboliço de fim de tarde e a Tia Emília da Horta, a Ivone, a Maria de Lurdes e o Martins que tinha vindo substituir o Manel Noronha, andavam numa fona a fazer o jantar, a arrumar as bestas ou a tratar das galinhas e dos porcos. Na Eira Branca enxergavam-se alguns vultos de um lado para o outro, sem se perceber muito bem o que é que andavam a fazer. Deveria ser a Barborinha, o marido o Ti Zé e o filho, o meu grande amigo Zé Martins, que andavam na lida do fim do dia. 

O Ti Zé Joaquim Bruxo do Enxoval também já lá ia apressado estrada abaixo direito à lancha, para ver se ainda aproveitava quase uma hora de maré para chegar a casa antes que ela virasse, com dois grandes cestos do avio que tinha vindo fazer à Vila. Vinha sempre aviar-se à mercearia do irmão o Ti António Joaquim, menos o tabaco que ele próprio fabricava, secando umas ervas de campo muito bem cheirosas que embrulhava depois na mortalha. Também o meu amigo de Escola o António, o Brejeiro como a gente lhe chamava, tinha acabado de passar com o pai que tinha vindo vender umas hortaliças, uns ovos e umas galinhas à Vila e lá iam os dois sempre vestidos de preto e de chapéu na cabeça direitos ao Cerro da Mina, que tinham que subir a pé por uma vereda de cabras a caminho do Brejo aonde moravam. O preto era a sua sentida e eterna homenagem à esposa e mãe que tinha morrido há já alguns anos. 

Mas... com o regresso a casa, a Vila ganhava outra energia. Para acabar o dia faltava apenas tratar dos animais e do jantar. Depois eram os longos serões à conversa nos poiais das casas ou nas pequenas cadeiras artesanais feitas de loendro e de junco, a que se lhe juntava de vez em quando umas cantigas alentejanas que ecoavam pachorrentamente por aquelas ruas adiante e que muitas vezes iam para lá da meia-noite, à espera que o fresco da madrugada chegasse mais cedo nas noites mais acaloradas. Mas ainda faltava chegar muita gente à Vila como veremos na próxima crónica...

 (continua)


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES, XLII


Escreve

Daniel Teixeira




Alcaria Alta

TEARES E RETALHOS

A Ti Maria Antónia da Ladeira era chamada da «ladeira» porque vivia numa casa na ponta de um pequeno cerro que conjuntamente com os outros faziam o aglomerado de cerros maior onde estava «plantado» o Monte de Alcaria Alta.

Em teoria um conjunto de montes chama-se de serra, mas seria abusivo chamar serra ao monte onde estava situado o Monte de Alcaria Alta até porque a altitude não era significativa, embora isso tivesse lugar, a pouca altitude, só em termos gerais.
A altitude era enorme para quem tinha de subir e descer aqueles montes e mesmo andar dentro do Monte aos altos e baixos era bastante cansativo. Na altura de miúdo e jovem não reparava muito nisso, mas já depois de uns quantos anos ininterruptos de cidade fomos lá com um casal amigo, almoçámos na Portelinha (atrás da venda do Zé Artur) e subimos ao Castelo (casa da minha avó - já falecida na altura) para dormir a folga e dormimos todos quatro horas de enfiada, sem dar por isso.

Não fizemos no total mais de quinhentos metros e quando acordámos foi despedirmo-nos das pessoas, pegar no carro e arrancar. Acabámos por fazer uma outra paragem, ainda com cansaço, com um desvio para Cacela Velha, onde na altura se comia marisco (ostras incluídas) por bons preços, aliás na altura era quase de borla, comparativamente.
Fiz o reparo sobre a ladeira e a Ti Maria Antónia - da Ladeira - porque não havia, na altura, mais Maria Antónia nenhuma no Monte e estes acrescentos sobre as localizações das suas moradas tinham precisamente por objectivo fazer desde logo distinguir as pessoas.

Talvez a senhora Antonica Vilão fosse Maria também mas não havia razão para que esta «Ladeira» como alcunha complementar tivesse lugar porque a outra, a ser Maria, também, era a senhora Antonica e assim a conheci desde sempre. Um irmão dela era Antonico (mas não era Vilão) e um filho também se chamou Antonico (Vilão).
Já falei nestas crónicas sobre isto: Ti Mari Joaquina do Rossio, Ti Mari Joaquina da Praça, enfim, para evitar estar a utilizar os apelidos (Guerreiro, Pereira, etc.) havia esta forma simplificada de nomear as pessoas.

Claro que estas denominações serviam para conversas entre terceiros mas não serviam para ter com a própria pessoa. A Ti Maria Antónia da Ladeira, em presença era a Ti Maria Antónia, unicamente, nem se justificava que se acrescentasse «da Ladeira», por exemplo estando-se em presença da própria pessoa.

Agora me lembro que os homens tinham a honra de serem chamados por nome e apelido e nem me lembro de haver necessidade de acrescentar o que quer que fosse talvez porque - só pode ser - não havia coincidências de nomes e apelidos. O meu avô era o Ti Dionísio e havia no Além o Zé Dionísio que não era «Ti» porque na altura ainda era bastante novo (aqui bastante novo quer dizer 40/50 anos).

Pois bem e regressando à senhora, ela tinha um tear e isto de ter um tear implica que se seja tecelão, mais pelo facto dele ter de servir para alguma coisa pois ao que parece era uma máquina bastante cara, complicado de usar e muitos deles resultavam de heranças de mãe para filha.

Acho que no fundo todas as mulheres sabiam tecer mas havia as que tinham tear e as que não tinham. O maior trabalho era realmente armar os fios e as linhas e o resto, que não era pouco, era dar ao pedal e aquela coisa pesava mesmo e devia ser bastante custoso levar um dia inteiro de trabalho naquilo.

Manta de Lã
A passagem daquilo a que eu chamo «navette» (vai - vem) que é uma peça em madeira que vai e vem com o fio que cruza e percorre sucessivamente em largura a peça a tecer e assim vai até ao final da tecelagem do pano em comprimento era impulsionada da esquerda para a direita do pano por um misterioso carolo que resultava também do movimento da pedalada.
Ou seja, a pedalada não só fazia alternar cruzando em x sucessivos os fios para o tecido nos bastidores (lã, retalho ou o que fosse) mas também accionava uma engenhoca que dava a pancada no vai - vem e o levava até ao final (ponta direita).
Ora o meu problema aqui, e de notar que faço questão de não ir consultar nenhum canhenho ou a Net sobre esta coisa, é o de saber como vinha depois o vai - vem da direita para a esquerda do pano e explico porquê:
Eu apesar de não ser muito aconselhado a um homem (mesmo miúdo) estar a apreciar o trabalho das mulheres, gostava de ver a senhora a tecer e não ela em especial mas ela estava muito tempo no tear ao contrário das suas colegas que conhecia que o faziam esporadicamente. Aliás era à Ti Maria Antónia da Ladeira que se mandava fazer as nossas mantas, fossem elas de lã ou de retalho.

De esclarecer que o retalho, talvez julgado um tecido pobre, agora recuperado em termos de prestígio pelo advento do turismo, era obtido durante o ano através do recorte de bocados de tecido que sobravam dos afazeres da minha mãe que era costureira também e teve como aprendizes as minhas primas quase todas.

Eu mesmo aprendi a fazer uma série de coisas que me desenrascaram e desenrascam bastante, tal como cozer botões, zippers, fazer bainhas, etc. Tudo à mão, no meu caso, nunca consegui acertar com o pedalar da máquina de costura...

As mantas ficavam giras porque à partida os novelos dos retalhos eram desde logo divididos por tonalidades e embora houvesse uma forte tendência para o abstraccionismo no conjunto talvez estivesse aí também uma parte da sua beleza.
Pois bem e voltando à navette (vai - vem) eu lembro-me que a Ti Maria Antónia da Ladeira aproveitava a minha presença por ali para me pedir para lhe passar o tal vai -vem da direita para a esquerda. Nunca procurei saber mais sobre isto mas acho que quando eu não estava presente ela tinha de se levantar do banco e ir ela mesma fazer esse trabalho.

Ora, se assim fosse, ela não só tinha o esforço de dar a pedalada (os bastidores eram enormes e logo deviam ser pesados) como ainda tinha de fazer quilómetros por dia para ir jogar o fio (na navette) da direita para esquerda.

Todas as histórias têm um final feliz e esta também vai ter (mesmo que eu esteja enganado quanto á parte da navette) : o marido dela, trabalhador nas suas propriedades no campo, era como todo o pessoal do Monte...pouco gastador ou gastando o estritamente indispensável e vendendo as suas alfarrobas, amêndoas, azeitonas, etc.
Alguém um dia, um parente salvo erro, que trabalhava num Banco disse-lhe que era melhor ele guardar o dinheiro no Banco, que ter o dinheiro em casa não era grande coisa, apesar dos tempos serem ainda bem diferentes, etc.

Ao que parece ele foi buscar o dinheiro que tinha em vários locais (buracos nas paredes como era uso) e o tal bancário ia caindo para o lado.

Os números aventados foram de diversa ordem, isto lá para os anos 60's, mas ficou assente por alguém que viu o talão do depósito que eram setecentos e cinquenta contos mais ou menos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

D. CATARINA D `EÇA, NETA DOS 1ºs CONDES DE ALCOUTIM

Pórtico da Igreja dos Loios, Évora

Neta dos 1ºs Condes de Alcoutim visto ser filha de D. Afonso de Noronha, 4º filho do casal, que foi o 5º Vice-rei da Índia e que casou com D. Maria d `Eça.

Devia ter nascido por volta de 1550 e foi dama da rainha D. Catarina, mulher de D. João III.

Foi a última filha do casal.

Quando o pai governava Ceuta em nome de seu irmão, D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim e consequentemente seu tio, que serviu com grande préstimo, conseguindo gloriosas acções de armas, foi chamado por D. Afonso V ao Reino em finais de 1547.

Ordenou-lhe este que deixasse sua mulher, D. Maria d`Eça, a governar aquela Praça, em sua substituição, tal o conceito em que a tinha.

D. Catarina veio a casar com D. Rodrigo de Melo, que por morte de seu irmão passou a ser o filho mais velho do 2º Marquês de Ferreira, o que veio levantar algumas questões sucessórias entre ele e o sobrinho, filho do seu irmão mais velho que tinha falecido.

D. Rodrigo de Melo acompanhou D. Sebastião na desastrosa batalha de Alcácer-Quibir onde se bateu com ardor.

Veio a morrer de uma bala que lhe entrou pela boca a 4 de Agosto de 1578.

Entretanto, tinha falecido D. Catarina d `Eça. que foi buscar o nome à mãe e não ao pai, em 1573 segundo o epitáfio sepulcral que se encontra na Igreja de S. João Evangelista (Lóios) em Évora, local construído para receber os Melo.

Da ligação nasceu D. Francisco de Melo que morreu criança.

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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, 2007.

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, IN-CN, 1996.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PARA, EM E DE... ALCOUTIM

(PUBLICADO EM “POVO ALGARVIO”, Nº 2027, TAVIRA, 21 de ABRIL DE 1973)




Escreve

Álvaro Pais




... ... ... ...

De novo na estrada. Uma guinada a leste. Vamos em direcção a Alcoutim, a «vila pequenina», como estamos, acostumados a ouvir chamar-lhe ternamente, em apreciadas colunas deste jornal. Pequenina, mas muito asseada e de uma paz e sossego encantadores, ao menos por já raros neste barulhento mundo em que vivemos. À porta do café três rapazes conversavam pacatamente. Junto do rio, dois guardas vigiavam pachorrentamente. Mas qualquer coisa no ambiente nos sorria, nos acenava, nos acarinhava.
Sei das aspirações de Alcoutim e acho-as justíssimas. Mas que, quando as satisfizerem, não lhe tirem este cunho de graciosidade e precioso arcaísmo, que a distingue entre tantas! Façam-lhe as “armadilhas” do turismo à volta, mas não a abafem, não a desvirtuem, como têm feito a outras terras, não lhe tirem o encanto insubstituível que a reveste.

Dão nas vistas os capiteis das colunas, que separam as três naves, um pouco desproporcionadas, mas interessantes, embora de estilo pouco definido, e uma pia de água benta envolvente e tetralobulada.

A visita tinha de ser rápida e não dava tempo a verificar a exactidão dos apontamentos que outrora tirara, donde constava um baixo relevo no baptistério, colorido e muito aceitável, representando o Baptismo de Jesus, e cercado por uma orla onde se lia a a enigmática legenda: “1663 – Capitulum Sacrosantae Lateranensis Ecclesiae”.Que poderia ter o Cabido da Igreja de Latrão com Alcoutim?

Também anotara duas imagens antigas com interesse – uma Santa Catarina e uma Nossa Senhora com o Menino, a primeira do século XVII e a segunda do XVI. Existirão?

No altar da nave do Evangelho, havia uma telas, muito estragadas – Cristo crucificado, S. Miguel Purgatório e mais três pequenas com imagens de santas mas cobrindo pinturas em tábua muito melhores, Alberto Sousa e eu anotámos que “tudo isto, a não ser aproveitado na reconstrução, devia ir para um museu”. O que lhe teria acontecido?

Havia na igreja mais três painéis de pintura não boa – um Nascimento, uma “Entrega do Escapulário do Carmo” e uma “Visitação”. Todas estas peças, mesmo que não tenham grande valor artístico, têm-no iconográfico e histórico e nunca se devem destruir nem alienar.

É claro que também não pude rever os paramentos e peças de ourivesaria que anotara: uma casulo francesa, do século XVI, com sebastos de veludo, panos laterais de seda lavrada e guarnições de brocatel; e outra casulo verde, também do século XVI, em damasco com sebastos de brocatel; uma custódia de prata dourada, do século XVII, em dois corpos sobrepostos, havendo no superior uma estatueta de N. Senhora da Conceição; dois cálices de prata branca, um liso, outro cinzelado, do século XVII: e um cofre para a guarda da Eucaristia, de prata e madre-pérola.

Os retábulos da capela-mor e da colateral esquerda pareceram-me restaurados, por sinal com desvirtuamento das suas características, principalmente o segundo, que classificáramos como do século XVI ou princípios do XVII, apondo esta observação: “ se não for aproveitado no restauro, deve ser destinado a um museu”.

À saída da paroquial, ainda fui mostrar à minha gente a lápide da Misericórdia a indicar a altura da cheia de 1876 e apontar-lhe, de longe, a pitoresca e algo sumptuosa capela de Nossa Senhora da Conceição, donde se goza razoável panorama do rio, pueblo fronteiriço  de S. Lucar e cerros circunvizinhos.

Propriedade da Câmara Municipal; já existia em 1712 e deve ter sido restaurada logo após a Restauração de Portugal, quando D. João IV difundiu largamente o culto da Padroeira de Portugal, pois certamente é mais antiga, como o afirma o seu pórtico de arco ogival e ornamentos retintamente manuelinos. Lá dentro tem um interessante retábulo de talha dourada e pintada, do século XVII, encimado pelo escudo português coroado, aos lados do qual se vêem a palma e o ramo de cedro – alusões aos passos bíblicos adaptados à Virgem; “exaltada com a palma em Cades e como o cedro no Líbano”.

Nestas evocações chegáramos àqueles três banquinhos frente ao rio, tão acolhedores e onde se deve estar tão bem em noites calmas de verão, quando uns sinos se fizeram ouvir. Instintivamente voltámos os olhos para a torre, mas logo percebemos que o som... vinha de Espanha. Curioso! Estávamos em Portugal, ouvindo tocar os sinos em Espanha! Mas – mais curioso ainda – Começámos a ouvir uma voz que dizia: “En nombre del Padre y del Hijo... “ Um alto-falante transmitia a missa de San Lucar, inundando de religiosidade todo o “pueblo”, os campos, o rio, e a povoação portuguesa fronteiriça. Nós, em Portugal, ouvimos missa em Espanha!

Achei curioso, prático, perfeitamente actualista, “aggiornante” e – vamos lá! – triunfalista (encaixem os “anti”!. Seria muito difícil suprimir, o triunfalismo se é preciso ganhar uma causa! De contrário, virá o “derrotismo”.

Impunha-se a partida, tanto mais se aproximava a hora do almoço, programado para “piquenique”. Este realizou-se bucolicamente junto à ribeira da Foupana e... foi coroado em glória pela garrafa de champanhe com o prior de Cachopo, fidalga e fraternalmente, celebrou a nossa passagem pelo seu “vaticano”, depois de se ter apreciado a obra de persistência e dedicação que representa aquela igreja. Mas isso fica para outra vez!

sábado, 12 de janeiro de 2013

OUTRO JOGO EM ALCOUTIM – AS RIFAS



Escreve

Gaspar Santos





Detentor de bens cuja posse era dispensável, e, para fazer algum dinheiro com vista a cobrir outras necessidades mais urgentes, o alcoutenejo muitas vezes rifava alguma coisa. A rifa consistia em atribuir um valor ao produto a rifar, muito maior do que aquele pelo qual os interessados o comprariam. Isto é, um valor superior ao do mercado e dividi-lo em 100 ou 200 bilhetes e vender cada um deles identificado por um número. Vendidos todos os números, que iam sendo registados numa folha de papel, seria feito um sorteio que, se sério, era por extracção de uma pedra numerada do saco de um loto.

No início da minha adolescência saiu-me um enorme galo no bilhete 9 duma dessas rifas. Da minha sorte tive grande satisfação, nessa data e que durou muitos anos, até que intempestivamente vim a saber que houvera batota.

A vizinha Elisa mãe do Castro Fernandes tinha nesse tempo muitas bocas a quem pôr à mesa. Quando as dificuldades económicas eram maiores, pegava num galo da capoeira ou num borrego e rifava-o para realizar algum dinheiro. O exemplar a rifar acompanhava vivo a venda dos bilhetes ao colo da dona. Devo acrescentar que esta prática não era exclusivo dela, pois muitas outras pessoas assim faziam uma vez por outra.

Numa dessas vezes eu comprei-lhe o nº 9. Saiu-me o galo. Depois meus pais decidiram que o galo era muito grande só para nós e, por isso, ele o levaria para comer com os amigos na “Sacristia” (!!) que é como quem diz, com os homens da fábrica de foices e outros daquela “confraria”.

 Essa foi a desculpa para mim. Depois levou-me um prato do guisado para eu provar e não ficar só com água na boca.

Esta recordação viveu comigo vários anos até que já fora de Alcoutim, em Lisboa, calhou em conversa com esta família falarmos disto.

Qual não foi o meu espanto quando ela me contou a verdadeira versão, até com alguma alegria por desiludir a minha satisfação. Ei-la:

Quando faltavam ainda muitos bilhetes, digamos um terço do total, ela fez venda das rifas ao tesoureiro da Fazenda Pública Vitoriano Ferreira a quem mostrou a lista dos concorrentes. Ao que ele disse: compro todos os números que faltam se sair no 9 ao Gaspar.
E foi assim que minha ilusão se apagou. Mas se esse pormenor se apagou, não caiu no esquecimento o facto na sua totalidade.

Ao divulgar esta recordação serve também para lembrar a vizinha Elisa Fernandes, uma mulher solidária, com garra, que criou muitos filhos com dificuldades mas sérios, honestos e trabalhadores de quem fui e sou amigo. Lamento que esta nossa vizinha e amiga tivesse uma morte trágica por atropelamento em Lisboa.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

FORQUILHA DE MADEIRA

Este utensílio agrícola indispensável nas antigas eiras, com a mecanização da debulha verificada no concelho de Alcoutim em meados do século passado, praticamente, deixou de existir.Hoje, poucos haverá pendurados e sem qualquer uso num palheiro desactivado ou em qualquer outra arrecadação, olhados por quem os conheceu na sua utilização, faz recordar tempos passados.

A forquilha de madeira (também a havia em ferro como já aqui apresentámos), era constituída por uma haste a chamada cabo que se liga a um pedaço de madeira de cerca de dois palmos de comprido a que se chama coração e no qual se fixam pelo menos três dentes, igualmente de madeira. A variação do número de dentes tem a ver com vários factores, principalmente, com o tamanho do coração.

Na sua feitura eram utilizadas madeiras resistentes, como o azinho no cabo e no coração e o zambujo para os dentes incrustados na peça do meio através de orifícios feitos com um trado, ferramenta muito utilizada nestas zonas.

Era trabalho destinado ao abegão, mas havia quem se ajeitasse a fazê-los para o seu serviço.

Utilizava-se na debulha dos cereais, nas eiras, para espalhar o material, o que também se fazia com o forcado depois remexia-se a palha com o fim de a separar do trigo.