quinta-feira, 30 de maio de 2013

Mais um passo denunciando velhice!


É verdade, ainda que com alguma lentidão, alcançámos ontem as 120 MIL VISITAS, o que não deixa de ser significativo.

O tempo que demorou a alcançar estas últimas 10 MIL visitas aumentou consideravelmente, pois aos 2 meses e 28 dias acrescentámos mais 20 dias.

Verifica-se assim que a média diária de visitas alcançada foi de 90,90, entre as 12 barras a sexta mais elevada.

Em relação às anteriores dez mil, houve uma queda diária de 22,73 o que é bem demonstrativo, apesar de não termos atravessado nenhum período menos propício como seria a época de férias ou de “festas”.

Já na última abordagem da mesma temática alvitrámos algumas razões para que isto aconteça sem, naturalmente, sabermos quantificá-las.

Evidentemente que o ALCOUTIM LIVRE não se podia manter sempre a aumentar o seu número de visitas, mas esperávamos que chegasse a uma estabilização, embora com pequenas oscilações, o que não se notou. A queda, como o gráfico apresenta, está a ser abrupta.

Não se verificou nenhuma mudança na orientação do conteúdo no espaço que se manteve dentro dos parâmetros defendidos na sua criação.

Durante este período o A.L. obteve a colaboração de mais dois alcoutenejos que foram atraídos por este espaço e do qual eram visitantes assíduos. Os textos aqui publicados demonstram bem o sentir pela terra onde nasceram, pela sua história, costumes e tradições que não esqueceram e que sabem traduzir em palavras, isto apesar de viverem distantes fisicamente do concelho de onde são naturais. Têm constituído uma mais valia para o espaço e criado um novo folgo para o mesmo.

É uma falácia dizer ou pensar que só se defende o concelho intramuros. Tanto dentro como fora há quem sirva ALCOUTIM e quem se sirva de ALCOUTIM, como é bem fácil de ver.

Durante este período verificou-se a visita de mais dois novos países, o Togo e Timor Leste, passando assim o seu número para 114.

Dentro em breve alcançaremos 5 ANOS de existência e faremos então uma análise que abrangerá vários parâmetros.


Mata - pulga


Planta anual da família das escrofulatiáceas, espontânea em Portugal, que prefere os lugares secos.

Cheiro muito activo (talvez ele provoque o afastamento do insecto e daí o nome) a flor é pequena e amarela.

Era muito usada para confeccionar vassouras, cujo fim era varrer eiras e chão do mesmo tipo.

Muito frequente no concelho de Alcoutim.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Candeia decorada


As candeias eram objectos domésticos muito importantes e chegaram ao tempo dos nossos avós!

Era com elas que se fazia a iluminação.

Este exemplar de cerâmica islâmica é decorado em melado e manganés.

Do período islâmico do séc. X-XI, tem de alt. 4,5 cm, de comp. 12,4 e de larg. 7,6.

Foi recolhida no Castelo Velho de Alcoutim e encontra-se em exposição no Núcleo de Arqueologia do Castelo de Alcoutim.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Caçar perdizes - com aboiz e com laço




Escreve

Gaspar Santos


Fruto da evolução natural, a perdiz pode vir a ser, no futuro (como diria Darwin) um animal do tipo “galinha”, tal é a sua tendência para não usar as asas. A perdiz logo que sai do ovo usa predominantemente as patas para correr com enorme velocidade. E quando os seres duma espécie, não usam (ou usam pouco) um órgão ao longo de muitos séculos dá-se a atrofia desse órgão (as asas), ao mesmo tempo que o intenso uso de outro (as patas) as faz desenvolver.

A perdiz está a tornar-se sedentária, inclusivamente faz o ninho e choca os ovos numa pequena cova no chão.

É pouco frequente usar as asas e apenas para transpor vales ou estradas situadas em plano mais baixo, em geral, para se defender, pondo-se em fuga. Dai que no início da época de caça por falta de uso quase não sabe voar. Com o treino para fugir aos caçadores, ganha um voo decidido e rápido de tal modo que eles dizem que ela tem guizos nas asas. Mas cansa-se muito. Depois de dois ou três voos seguidos na frente dum grupo de caçadores que vão a passo, muito mais devagar, ela cansada torna-se mansa a ponto de se deixar apanhar à mão.

Não usar as asas torna-a vulnerável e, muitas vezes, isso é-lhe fatal!

Meu avô tinha uma pequena e verdejante horta num barranco no meio de um terreno de amendoeiras e de cereal, muito seco no verão. Situava-se nas encostas muito pendentes para o Guadiana, a um quilómetro a norte do Montinho das Laranjeiras, junto do caminho do Balurco. Se ele não tomava as necessárias precauções as espécies cinegéticas (coelhos, lebres e perdizes), que iam beber a uma minúscula fonte donde colhia água para regar, comiam-lhe as couves todas.

Utilizava dois métodos para defender as couves e ao mesmo tempo caçar uma perdizinha, de vez em quando. Em ambos os métodos de capturar as perdizes aproveitava o conhecimento que havia dos seus hábitos. Um método era o aboiz e outro era o laço simples.

O aboiz era um engenhoso sistema de armadilha colocado no caminho que a perdiz percorria sempre que vinha da zona de charneca para a horta e que ali ficava marcado por uma vereda livre de ervas. A armadilha aproveitava um rebento em vara, das que se formam em baixo no tronco da oliveira, para servir de mola quando dobrada, e na ponta tinha um laço corredio de fio de sapateiro bem encerado que ficava levemente enterrado no caminho que ela percorria. Quando a perdiz passava, pisava o mecanismo de disparo da armadilha e o laço aprisionava-lhe as patas. Aproveitava assim o hábito rotineiro de fazer sempre o mesmo caminho habitual. No youtube podem ver-se descrições deste sistema também usado no Brasil com o nome de Armadilha de laço.
Com a devida vénia retirado de refugio-da-memoria.blogspot.com

O laço simples de fio de sapateiro encerado era colocado em duas ou três ou mais portas praticadas numa sebe de mato curto de cerca de 40 cm colocada de forma a impedir as perdizes de se aproximarem das couves. A perdiz para entrar por uma daquelas portas teria que enfiar a cabeça no laço, e na tentativa de entrar ficava presa pelo pescoço. Aproveitava aqui o facto de a perdiz não saltar a sebe mas preferir procurar uma porta sem deixar o chão.

Nunca averiguei se meu avô apanhava muitas perdizes com estes tipos de armadilhas. A horta dele, era perto do Posto da Guarda-fiscal e, embora não situada no caminho das rondas dos seus agentes, era quase impossível eles não suspeitarem de nada.


Sabendo ou não desta prática, a G.F. nunca o incomodou, Quando agora recordo este assunto surge-me a ideia de que os agentes não diziam nada, mas participavam pela sorrelfa comendo algumas perdizinhas sem incomodarem o meu avô.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Alcoutim - 1918 / 20

Mais uma fotografia que nos foi amavelmente cedida por um leitor que nos solicitou um comentário.

Fizemos uma contraproposta no sentido de obter autorização para a sua publicação na nossa rubrica Câmara Escura acompanhada dos habituais comentários.

A nossa proposta foi imediatamente aceite, o que muito nos satisfez.

Alguns dados são referidos com a precaução necessária, pois os elementos obtidos são poucos.

Que a fotografia representa Alcoutim, vista do sul, na margem do Guadiana, ninguém tem dúvida.

Parece-nos que a foto é tirada de uma embarcação que desceria ou subiria o rio e isto pela espécie de gradeamento-protecção que aparece no primeiro plano.

Existe um postal comercial editado por uma firma de Vila Real de Santo António, dos anos 30, que aqui já apresentámos, obtido com um ângulo muito semelhante.

Poucas diferenças existem entre ambas, apenas pormenores.

A atracagem de pequenas embarcações é no mesmo lugar, ao “Pinhão” e em ambas se vêem pequenos barcos.

Avulta, naturalmente, o grande casarão pintado com ocre de cor escura, distinguindo-se do outro casario também por essa circunstância.

Nessa altura, a construção, que ainda existe com algumas transformações que o tempo e funções obrigaram a executar, servia de Secção da Guarda-Fiscal criada em 1885, incluindo a parte alfandegária que lhe estava anexa.

Há dados oficiais que temos publicado em outras circunstâncias que referem precisamente isso.

Antes desta ocupação tudo indica que tivesse pertencido à Mina da Cova dos Mouros situada na freguesia de Vaqueiros, que Pinho Leal refere no seu conhecido Portugal Antigo e Moderno como uma grande mina de cobre, servindo de entreposto comercial, com armazéns e serviços de escritório, já que o minério sairia por via fluvial.

Com a morte do seu principal accionista, o Visconde do Carregoso, a mina entrou em decadência e o Estado adquiriu o imóvel para instalações de departamentos próprios de fronteira, como a Alfândega com o seu corpo de guardas e depois a Guarda-Fiscal.

Quando se deu a extinção desta com um século de existência, o edifício que pertencia ao Ministério das Finanças foi adaptado para instalação dos seus Serviços locais de Finanças, o que ainda hoje acontece.

Na parte superior, vê-se algo do castelo onde se notam um resto de ameias, hoje conservadas e alguma vegetação na chamada “esplanada”, parte acrescentada e artilhada durante as Guerras da Restauração. Esta vegetação foi em parte banida, pois o seu raizame provocava desmoronamento das muralhas.

Do lado esquerdo da foto um interessante edifício com água furtada, porta e duas janelas, ainda o conhecemos de pé e de que hoje só resta a superfície.

São notórios os muros protectores dos edifícios, hoje o do lado esquerdo bastante degradado e a desmoronar-se, enquanto os outros foram reforçados e modificados.

A casa que se vislumbra por trás do edifício central, parece-nos ser a que pertenceu à família Rosário e onde hoje existe um local de repouso com bancos e espelho de água alegrado por um conjunto de repuxos. Este espaço tem o nome de Jardim Francisco do Rosário.

No seguimento do edifício central podem ver-se três aberturas (pontos negros) que constituiu uma habitação e hoje transformada em espaço comercial (Bar). Também é muito antigo o edifício que se segue de que se notam quatro aberturas, sendo duas maiores (portas) e as outras janelas. O acesso, devido ao desnivelamento, tal como o edifício anterior, é feito por escadaria. Encontra-se praticamente na mesma e está em venda.

Seguidamente, uma pequena casa onde murou o saudoso alcoutenejo Manuel João, vulgo Balbino e que se encontra hoje em estado de degradação.

O último edifício de que se vêem quatro aberturas constitui a hoje conhecida “Casa dos Condes” de Alcoutim, transformada em espaço de cultura, mas que quando chegámos à vila ninguém o referia.

Por último, a árvore que aparece na fotografia, parece-nos menos exuberante do que na do postal, pelo que admitimos que esta fotografia seja mais antiga.

Claro que nada de cais novo que só veio a ser construído em 1944.

Feito o nosso comentário à foto e havendo, como no começo referimos alguns dados que a acompanharam, sabemos que a mesma foi encontrada no espólio de duas senhoras irmãs do médico veterinário, Dr. José Maria de Sousa Dias Goulão (falecido em 1963), que esteve colocado na Intendência Pecuária de Serpa entre 1918 e 1920.

Atendendo a que tudo indica que a fotografia tivesse sido tirada no primeiro quartel do século passado, pelas razões apresentadas e que existe um relacionamento tácito entre o Dr. Dias Goulão e o Guadiana, a que Serpa não é alheia, é natural que na altura tivesse utilizado, por opção, a via fluvial ainda que mais extensa, muito mais cómoda. Todos sabemos que ainda em finais do século XIX, princípios do seguinte, eram frequentes os assaltos às diligências que transportavam os passageiros que pernoitavam em estalagens, muitas delas com más condições.

Poucas pessoas tinham máquina fotográfica na altura, mas o médico veterinário tinha estatuto e certamente sensibilidade para isso.

Sabemos que poucos anos antes o Dr. Afonso Costa foi figura central de um comício na Mina de S. Domingos e para lá chegar utilizou esta via, como nos informaram os alcoutenejos de então. A passagem do conhecido político por aqui originou uma alcunha “Afonso Costa” que se manteve como substituição de nome próprio até ao desaparecimento do visado.

Com a chegada do comboio a Vila Real de Santo António tudo ficou mais facilitado. Nessa época toda a vida do Baixo Guadiana era efectuada através da grande auto-estrada que o Guadiana constituía. Existiam ligações fluviais quase diárias entre Vila Real e Mértola, com passagem por Alcoutim. Por outro lado, o porto fluvial exportador do minério da mina de S. Domingos estava muito activo com vários barcos esperando pela sua altura de carregar.

Ainda que houvesse “ponte-barca”em Mértola para vencer o Guadiana, talvez fosse mais prático aproveitar o “autozorra” (espécie de carruagem para transportar pessoas entre a Mina e o Pomarão) e que utilizava o caminho-de-ferro das vagonetas.

Não esquecer que os Presidentes da República, Almirante Américo Thomaz e Dr. Jorge Sampaio, quando visitaram oficialmente a Vila de Alcoutim, fizeram o trajecto por via fluvial.

Da Mina para Serpa não conhecemos o que se passava, mas seria semelhante ao que acontecia nas redondezas.

Admitimos como já referimos que a foto tivesse sido tirada pelo Dr. Dias Goulão entre 1918/20 e numa viagem pelo Guadiana com destino a Serpa, ou vice-versa. Tudo são conjecturas que podem nada  ter a ver com a realidade.

Queremos expressar aqui o nosso agradecimento ao Senhor Eng. Carlos Machado, reformado da EDP, residente em Coimbra, genro do referido médico veterinário, que teve a amabilidade de nos enviar a fotografia e ainda outra que ficará para mais tarde, que nos forneceu os elementos que possuía e que acedeu a que fizéssemos a Câmara Escura de hoje.

Resta-nos terminar com estas palavras que nos enviou e são bem significativas: A razão do meu interesse por Alcoutim reside no facto de ter gostado imenso do local de todas as vezes que por lá passei, especialmente uma vez em que fiquei com minha mulher num hotel ou pousada sobre o Guadiana, já lá vão uns anos.

Bem-haja, Eng. Carlos Machado.


domingo, 26 de maio de 2013

Cinchos

Conjunto de vários cinchos com tamanhos diferentes, que se encontram em degradação e que serviram muitos anos no concelho de Alcoutim.

De fabrico artesanal eram feitos em folha (lata) ou folha zincada, principalmente pelos latoeiros da região, que além de os venderam nas suas oficinas, deslocavam-se às feiras e mercados regionais onde vendiam os seus produtos, entre os quais, cinchos.

São peças simples, constituídas por um aro onde se aperta o queijo para lhe dar essa forma tradicional e se espreme o soro. Tinham uns buracos para que este pudesse passar.

Os tamanhos eram diferentes, conforme o tipo de queijo a confeccionar. Nos queijos de pequena dimensão, os de leite de cabra são mais altos e os de ovelha mais baixos e um pouco mais largos, acabando por o volume ser idêntico.

O plástico quando apareceu também foi usado na sua feitura e hoje aparecem feitos com grande perfeição em inox que permitem a sua regulação e um fecho adequado. É a evolução dos tempos.


O termo cincho tem origem em cingir, apertar, cercar, envolver.


sábado, 25 de maio de 2013

Colaborador Luís Cunha [Colaboração póstuma]


Conseguimos reunir, admitimos, todos os artigos que este nosso saudoso amigo publicou sobre Alcoutim na imprensa, pelo menos, nesta altura, desconhecendo se o terá feito em qualquer outra. Nas nossas longas conversas nunca o referiu que o tivesse feito.

São 14 os artigos que aqui republicámos e foram publicados no Diário Popular de Lisboa e no Jornal do Algarve de Vila Real de Santo António.

Ainda que seja possível, não temos conhecimento que mais alguém tivesse feito esta recolha que no ALCOUTIM LIVRE tivemos a oportunidade de partilhar com os visitantes / leitores, a maioria dos quais desconheceriam completamente a existência de tais textos.

Apesar dos anos passados, foram, naturalmente, procurados e como é costume, apresentamos os cinco que despertaram maior número de visitas específicas.


1º - IRÁ PERDER-SE A VETUSTA IGREJA DA MISERICÓRDIA DE ALCOUTIM? (2011.02.08) – 43

2º - VELHOS USOS DE ALCOUTIM... (2010.08.02) – 38

3º - A PONTE PROJECTADA SOBRE A RIBEIRA DE CADAVAIS DARIA EXPANSÃO A ALCOUTIM (2010.02.25) – 27

4º - UMA ESTRADA MARGINAL LIGANDO ALCOUTIM A CASTRO MARIM OFERECIA EXTENSA ZONA VENATÓRIA AO TURISMO DO ALGARVE (2010.10.29) – 25

5º - ALCOUTIM E S. LUCAR (VILAS DE PORTUGAL E DE ESPANHA) DEVEM REATAR A AMIZADE QUE AS UNIA (2010.03.12) – 21

O primeiro foi o último que escreveu e fê-lo a nosso pedido.

Nestes textos mais procurados estão equacionados alguns dos principais problemas de Alcoutim, como o da ponte sobre a Ribeira de Cadavais e a estrada marginal, situações resolvidas nos mandatos do presidente da Câmara, Manuel Cavaco Afonso.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Mágoas. ofensas e dores"


Pequena nota
Recebemos do nosso colega, amigo e colaborador uma colectânea de alguns dos seus melhores poemas, editada recentemente, constituída por 109 páginas A/5 a que deu o título QUE PENA, TUDO SE TER PERDIDO! e que teve a amabilidade de nos oferecer com sensibilizante dedicatória, o que muito agradecemos.
É de lá que retirámos este poema de grande profundidade filosófica que partilhamos com os nossos leitores.
JV



Poeta

José Temudo





«Que o tempo tudo resolve,

que o tempo tudo cura,

com o tempo tudo se esquece.»

Dizem, consolam, filosofam.

Eu sei que não,

que nem sempre é assim,

que há mágoas, ofensas e dores

que ferem tão fundo o coração,

que ninguém lhes conhece o fim.

Que há mágoas, ofensas e dores

Que só acabam com a morte.

E essa é, ainda, a nossa sorte!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

ESCOLA DE ALCOUTIM - Construção arranca este ano


(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 25 DE JULHO DE 1985)
Ponte sobre a Ribeira de Cadavais em 1985. Foto JV.
A construção da Escola Secundária de Alcoutim deverá ter início no final deste ano, esperando-se que as aulas possam funcionar no ano lectivo de 1987/88 – disse ao nosso jornal o presidente do município.

A obra deveria já ter sido colocada a concurso, mas divergências surgidas quanto à sua localização fizeram adiar o processo.

Neste momento, segundo revelou Manuel Cavaco (que há dias teve uma reunião em Lisboa, na Direcção-Geral das Contribuições Escolares, para tratar do assunto), o projecto está ultimado, ficando concluído em Setembro. No mês de Outubro prevê-se a abertura do concurso público para adjudicação da empreitada e até ao fim do ano, ou no início de 1986, prevê-se o começo dos trabalhos, que se prolongarão por um período de 12 a 18 meses.

“O problema está desbloqueado e o local está confirmado” – disse o presidente da Câmara.

Capacidade para 300 alunos

A escola cujo projecto consubstancia uma tipologia diferente das actuais, com dois blocos separados, terá capacidade para cerca de 300 alunos, ficando preparada para ampliação futura.

O custo da obra está estimado em 94 mil contos e, para este ano, encontra-se inscrita uma verba de 10 mil contos no Orçamento Geral do Estado.

Este investimento está inserido no Programa de Desenvolvimento Integrada do Nordeste Algarvio, que está em execução.

A nova escola evitará a deslocação diária dos alunos do concelho para Vila Real de Santo António.

A sua localização em Alcoutim levantou alguma polémica no seio do próprio município e em Martinlongo, cujos habitantes reivindicaram para esta freguesia a implantação da escola em virtude de a população escolar ser aí em maior número.

J. Vitorino propõe comissão

Entretanto, o deputado do PSD José Vitorino entregou em 11 de Julho um requerimento na Assembleia da República em que solicitava ao Governo um esclarecimento sobre se este tenciona nomear de imediato uma comissão que possa decidir com rapidez por uma justa localização da Escola de Alcoutim.

No requerimento, o deputado considera ser evidente que “a localização adequada e lógica da Escola é em Martinlongo, e isto sem considerar o sul do concelho de Mértola”.

Depois de afirmar que os  alunos da zona de Martinlongo (num raio de 15 km) são 218 e os de Alcoutim apenas 68, José Vitorino adianta ainda a recusa do seu partido em “discutir o assunto em termos políticos”.

Por fim, o parlamento algarvio questiona o Ministério da Educação sobre se “é ou não intenção do Governo nomear de imediato uma comissão que, sem pressões políticas de qualquer espécie, possa decidir com rapidez e em definitivo por uma decisão quanto à localização da Escola naquela zona serrana”.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Barranco do Tamujoso

O Barranco do Tamujoso ao Cerro da Machada. Foto JV, 2013

Já escrevemos neste espaço sobre o Rio Guadiana nas suas várias vertentes e como grande responsável pela existência da vila de Alcoutim e sobre os seus afluentes que se relacionam com o concelho de Alcoutim ou seja a Ribeira do Vascão, a de Odeleite, a da Foupana e também sobre a pequena ribeira de Cadavais ou de S. Marcos.

O conceito de barranco é muito vasto: - sulco feito no solo pelas enxurradas, barroca, ravina, precipício, ribanceira de rio, encosta íngreme não coberta de vegetação, escarpa, despenhadeiro.

Daquilo que nos temos apercebido em Alcoutim, barrancos são sulcos mais ou menos profundos, escavados nas encostas dos cerros para onde correm rapidamente as águas pluviais, os de maiores dimensões formam pequenos cursos de água no Inverno.

Dos barranquinhos passam para outros mais extensos e assim sucessivamente, havendo alguns de dimensões avantajadas, como provam os sulcos deixados pelas enxurradas.

Quando as chuvadas são intensas provocam aquilo a que os alcoutenejos chamam de barrancadas e isso servia para avaliar a persistência e volume das chuvas.

Era habitual os habitantes da vila apreciarem o volume das barrancadas transportadas para a ribeira de Cadavais onde as águas impetuosas saltavam das margens quando se aproximavam da foz e as suas águas eram “ludras”, termo que aprendemos em Alcoutim e que significa barrentas, pois ao correrem para os barrancos arrastavam a terra mais superficial, deixando muitas vezes os cerros no “osso”.

Pego da Machada. Foto de JV, 2013
É na zona mediterrânica, devido às suas características de solo e clima que se encontram com mais intensidade os barrancos.

Esta pequena introdução serviu para apresentar o Barranco do Tamejoso ou Tamujoso como o povo o indica.

Tem a sua origem, segundo dizem, para os lados do monte do Coito, vencendo a estrada nacional 122 através de um aqueduto nas proximidades de Santa Marta.

Pego dos Penedos. Foto de JV, 2013
No Inverno vai correndo com maior ou menor caudal conforme as chuvas e no Verão vão ficando alguns pegos, havendo alguns que nunca se secam e são aproveitados para o gado beber.

Em meados do século passado, as mulheres recorriam a estes pegos para lavarem a roupa, pois em casa isso não era possível por falta da mesma. Haver nas proximidades para beber, já era muito bom, pois por vezes isso não acontecia. Há notícias, no século XIX que em anos de estiagem as populações dos montes tinham de ir abastecer-se de água às ribeiras como meio de suprimirem essa falta e queixavam-se à Edilidade nesse sentido, solicitando a abertura de novos poços públicos ou do seu aprofundamento.

Depois de Santa Marta existe o Pego da Quebrada onde nas proximidades se explorou uma mina, depois, mais abaixo, o da Machada que tomou o nome de uma zona rústica  e logo a seguir o Pego dos Penedos que constitui uma espécie de bacia em pedra que retém com mais facilidade a água e ajeitando, talvez há milénios, a rocha às suas necessidades.
 
Pego da Arroteia. Foto JV, 2013
Um pouco mais abaixo, o Pego da Arroteia que de certa maneira obstrue o caminho.

O Pego seguinte é o Redondo e depois da “foz” do Barranco da Lapa há o Pego dos Peixes, depois o da Rocha da Abelheira e por fim o das Voltinhas do Ti André, que tomou este nome devido a um indivíduo do monte de Afonso Vicente que por ali tinha terras onde trabalhava e de que ainda existem descendentes no monte.

Desconhecemos se existirá mais algum até desaguar na ribeira do Vascão.

terça-feira, 21 de maio de 2013

"Passarinhos da minha Terra"





Versalhada

de

José Rodrigues



Antigamente nos Balurcos,
Havia vastos passarinhos,
Como Cotovias e Abelharucos,
Águias, Arvelas e Cucos,
Pica-paus e Boeirinhos.












Havia Picanços reais,
Trigueirinhas, Chachapins,
Poupas, Mochos, Pardais,
Pintassilgos e Zurzais,
Cabeças negras e Foins.








Papa-figos, Gaviões,
Piscos, Bufos e Pombos,
Tingesnas e Trigueirões,
Noitibós, Algrevões,
Merrolas e Rabilongos.






Milhafres, Peneireiros,
 Galinholas e Perdizes,
Andorinhas e Pedreiros,
Rouxinóis, Carraceiros,
Grifos e Codornizes.






Gaios, Pegas e Letras,
Papo-amarelos, Ferreiras,
Corvos e Barrigas-negras,
Cegonhas, Rolas, [Toutinegras],
E Corujas azeiteiras.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tamuje ou tamujo


Tamuje tem origem no castelhano tamujo, nome pelo qual também é conhecido em Portugal, principalmente nas zonas fronteiriças, onde a influência de linguagem mais se faz sentir. É também conhecido por sanguinheiro.

É uma planta da família das euforbiáceas, de ramos finos providos de longos espinhos, de folhas ovaladas em disposição alternada, espontânea em Portugal, principalmente nas margens dos cursos de água e em terrenos desprovidos de cal. A madeira é muito dura e a flor pequena e branca.

É muito frequente no concelho de Alcoutim, tendo sido a sua principal utilização a feitura, em verde, de vassouras para varrer arramadas (estábulos), o que acontecia desde recuados tempos.

Este arbusto deu origem em Alcoutim pelo menos a um hidrotopónimo, o Barranco do Tamujoso ou Tamejoso. Na freguesia e concelho de Mértola existe igualmente um “monte” com o mesmo nome.

As fotos apresentadas foram obtidas, precisamente, no Barranco do Tamujoso.

Tamujos no Tamujoso. Foto JV, 2013

domingo, 19 de maio de 2013

O monte dos Medronhais


Pequena nota:
Não conhecia nada do Monte dos Medronhais e não me lembro de alguma vez ter lido algo sobre ele a nível das minhas pesquisas, nomeadamente no arquivo histórico camarário quando o consultei de 1986 a 1988 por deferência do então Presidente da Câmara, Manuel Cavaco Afonso.
Através das Memórias Paroquiais (1758) encontrei referência a alguns montes da freguesia de Martim Longo de que desconheço a sua existência e por esse motivo postei em 24.06.2011 Martim Longo, montes indicados nas Memórias Paroquiais (1758) e que não identifico, solicitando aos visitantes / leitores qualquer informação sobre o assunto. Até hoje, nunca me chegou qualquer informação sobre o assunto através do meu e-mail.
Gostei muito de ter aprendido com o nosso colaborador a existência deste monte tipo alentejano e o que escreve sobre ele são parâmetros que normalmente abordamos.
Aqui deixo o meu obrigado ao António Afonso e pode ser que ele conheça algum dos montes que refiro na minha postagem de 24.06.2011.
JV





Escreve

António Afonso



O ALCOUTIM LIVRE muito tem escrito sobre os montes do concelho, contudo, haverá um ou outro que escapou, por desconhecimento da sua existência.

 Hoje irei falar sobre um pequenino Monte, perto de Martim Longo, «Os Medronhais». Este monte fica situado um pouco a Norte da sede de freguesia, talvez a dois quilómetros de distância, por um caminho de terra batida, em direcção ao Moinho do Ferreiro.

Visitei-o uma única vez, acompanhando um amigo, que me convidou. Teríamos cerca de doze anos e fomos levar uma cabra, cuja intenção era juntá-la ao rebanho para arranjar namorado; (chibato, bode) passada uma semana o animal voltou a casa e decorridos os cinco meses de gestação, passou à condição de mãe solteira e independente. Recordo que o aglomerado possuía as casas de habitação, as instalações para os animais, nomeadamente ramadas, palheiro, forno, alguns currais e pocilgo. Num vale próximo havia uma pequena horta com um poço, que produzia água destinada ao consumo dos habitantes, animais e rega.
O monte foi construído numa zona alta o que permite uma vista panorâmica privilegiada sobre os campos outrora cultivados por vastas searas: aqui e ali nota-se o branco do casario de outros montes em redor, alguns deles pertencendo ao concelho de Mértola.

Despertou-me interesse escrever algo sobre ele, por vários motivos: Trata-se de um aglomerado rural unifamiliar, implantado numa herdade, típico dos montes do Alentejo. Certamente, desta forma, teriam nascido todos os outros montes de maior dimensão existentes no termo de Alcoutim; porém, este continuou isolado, tal como outros que conhecemos, nomeadamente o Monte dos Guerra que lhe fica próximo, as Bringueiras, o Vale do Gimão, A-Dos-Gagos e o Monte dos Matos.

 O seu topónimo presta homenagem à flora local que provavelmente era também nome da herdade: Medronhais!... O pensamento transporta-me direitinho ao exuberante arbusto (Medronheiro - arbustus unedo) que por aqui nasce espontaneamente e um pouco por todo território nacional. Com folhas persistentes de um verde intenso e brilhante, a floração ocorre nos meses de Inverno/Primavera e apresenta-se em cachos de pequeninas lanternas brancas ou róseas, algumas delas irão originar frutos rugosos de cor verde, que à medida que se aproximam da maturação se tornam amarelos e finalmente vermelhos quando maduros.
Medronhos maduros

Na minha meninice, eu e alguns amigos de ambos os sexos, agarrávamos em cestos feitos de cana e íamos apanhar medronhos no meio dos matos que bem conhecíamos, sempre avisados (encarecidos) para que levássemos os chapéus e não ingeríssemos mais de três ou quatro frutos, devido às perturbações que poderiam causar. Os nossos frutos não se destinavam ao fabrico de aguardente, tinham outro destino; as nossas mães preparavam-nos e colocavam-nos em grandes frascos de boca larga. Quando coziam a amassadura, retiravam algumas colheradas daquela substância e adicionavam à massa do fermento, quando este era desfeito em água quente. Tinha efeito de catalisador, potenciando o levedar do pão.

Segundo informações, ainda no século XIX, dois irmãos de apelido Brito, do Monte da Estrada, vieram a casar no monte do Silgado, dando origem a todos os Britos da freguesia; um deles, Joaquim Brito, contemporâneo do meu pai, nos anos trinta do século passado, comprou a herdade e o Monte nele existente.

Passou aí a viver com a esposa e um irmão, o ti João Brito, figura muito peculiar; por cima da sua fatiota usava sempre uma pelica e uns safões de pele de borrego de cor acastanhada e ainda uma boina de orelhas que o protegia do calor e do frio. Encontrei-o muitas vezes na Ribeira do Vascão, oásis onde se refugiavam os pastores (maiorais) nas horas de maior calor, com seu rebanho de cabras (fato). Homem de poucas falas, era difícil entrar em diálogo.

O ti Joaquim foi pai de quatro filhos. A Celeste, o Joaquim, a Agostinha e a Alice que aí viveram, mas um dia ganharam asas e voaram. Seguiram os seus destinos; dois deles sei que emigraram para a Alemanha e hoje vivem em Faro, as outras duas filhas fixaram-se em aldeias vizinhas. Quando os seus pais faleceram o Monte ficou desabitado.

Mas, no início dos anos noventa, veio dirigir as Paróquias de Martim Longo, Vaqueiros e Cachopo, o Padre Peter, de nacionalidade Belga, que fora missionário em África, nomeadamente em Moçambique. Morou algum tempo em Martim Longo, recordo vê-lo, quando vinha buscar água ao Poço Novo do meu monte; mostrando-se sempre afável e conversador, dava boleia a todos os velhotes que encontrasse pelo caminho, toda agente gostava dele, mesmo aqueles que jamais entraram numa igreja.

Este senhor padre, porém era um homem simples, que amava a natureza genuína. Certo dia foi visitar os Medronhais, ficou encantado com a beleza do lugar bucólico e sossegado, pois era mesmo aquilo que procurava. Conversou com os donos e lá passou a viver. Julgo ser ele quem edificou aquela casinha branca, a construção mais recente, que podemos observar na foto; nesse lugarejo, quase no silêncio absoluto rezava as suas preces. Encontrando-se mais próximo do seu Deus, desfrutou este lugar durante alguns anos, até quase ao resto dos seus dias, amanhando a horta, plantando árvores, colhendo os frutos e ouvindo o chilrear das aves que esvoaçavam em liberdade! Era feliz na sua humildade e à sua maneira.

O padre Peter veio a falecer em Faro, a 7 de Dezembro de 2001, vítima de doença incurável, mas por sua expressa vontade, desejou ser sepultado no cemitério local de Martim Longo, onde repousa. Os seus familiares respeitaram solenemente o seu derradeiro desejo. Ao seu funeral, que teve lugar a 08 de Dezembro de 2001, dia da Padroeira da aldeia, Nossa Senhora da Conceição, estiveram presentes centenas de paroquianos, que quiseram deste modo, prestar a ultima homenagem a esta alma que sempre praticou o Bem. Toda a cerimónia fúnebre foi presidida pelo bispo do Algarve, D. Manuel Madureira e pelo bispo auxiliar D. Manuel Quintas.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia quiseram perpetuar a sua memória, atribuindo posteriormente, o seu nome a um largo próximo da Igreja Matriz, em sinal de gratidão e respeito por aquele filho adoptivo de Martim Longo.

O monte que outrora habitou regressou à condição de despovoado, à semelhança de outros que encontramos por lá, infelizmente fruto da desertificação humana.

sábado, 18 de maio de 2013

Panela



Apresentamos hoje nesta rubrica mais um objecto cerâmico recolhido no Castelo Velho de Alcoutim.

Trata-se de uma panela islâmica do séc. XI com 23,2 cm de altura e 22,7 de diâmetro aproximando-se assim, a grosso modo de uma forma cúbica.

Interessante verificar que as panelas que serviram os “montanheiros”até meados do século passado tinham um formado muito parecido e era nelas que lentamente, ao “fogo” da esteva, se confeccionavam os saborosos “jantares” de grão, feijão ou couve e onde um pequeno naco de carne de porco, nomeadamente toucinho ou enchido, temperava a preceito.

Encontra-se em exposição no Núcleo Museológico de Arqueologia do Castelo de Alcoutim.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Do rossio, resta o nome!



O cidadão alemão, Dr. Eckard Frischmuth presenteia-nos com mais esta magnífica fotografia, tirada, admito, do Cerro da Mina que percorreu insistentemente na pesquisa de dados e que foi usada no sentido de organizar a sua tese científica na área da geologia.

A foto é de 1965/66 e apresenta-nos em primeiro plano a várzea do “Rossio”, um dos locais mais ubérrimos de todo o concelho de Alcoutim, ainda que hoje produza o mesmo do que qualquer “bico de cerro”, pois o estilo de vida no País modificou-se totalmente.

Os subsídios foram-se e o País ficou no “osso”!

Esta fotografia foi tirada com a escolha de um interessante ângulo, apresentando a alvura do seu casario em contraste com o escuro do castelo. Nos cerros próximos nota-se a arborização que o trabalho do homem, sem qualquer auxílio estatal, efectuou para poder sobreviver.

A magnitude do Guadiana não passou despercebida ao fotógrafo, que não podia nem quis menosprezar, com todas as suas potencialidades e como grande via de acesso.

Ao fundo lá está o posto fiscal do Alcaçarinho, hoje transformado em residência de férias.

Nesta altura, a vila natural ainda não estava conspurcada de elefantes brancos.

O nosso agradecimento ao Dr. Eckard Frischmuth por mais este belo trabalho, pois não é fácil encontrar algo semelhante.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Talhos em Alcoutim a meio do século XX

Pequena nota
Este interessante e enriquecedor texto sobre os talhos da vila de Alcoutim acaba por dar seguimento ao que publicámos no Jornal Escrito, nº 61, de Março de 2004, encarte de O Algarve, nº 4785 e que teve por título “O corte de carnes verdes na Vila de Alcoutim”.
Na nossa rubrica Ecos da Imprensa publicámo-lo em 22 de Outubro de 2009.
Esta matéria dizia respeito às acções do século XIX, em especial ao legislado pelo Liberalismo.
O artigo agora apresentado relata o que se passava na vila em meados do século seguinte, ou seja, no século XX.
JV




Escreve

Gaspar  Santos



A vila de Alcoutim tinha vários talhos em meados do século XX. Abatiam e vendiam em geral caprinos e ovinos, mais raramente porco pois quase toda a gente engordava pelo menos um e portanto não comprava; e ainda mais rara a carne de vitela devido à dificuldade de a vender rapidamente quando não se dispunha de frigorífico para a conservar durante alguns dias. A galinha de campo e o peru, por vezes, um ou outro dos talhos os vendia.

Alguns talhos preparavam e vendiam pezinhos de borrego e, também, molhinhos feitos a partir do buxo (estômago) destes mesmos animais, enrolado sobre um ramo de hortelã. Hoje naturalmente estes subprodutos dos talhos devem ter caído em desuso em Alcoutim, mas não em outras terras e, até talvez mesmo sejam desconhecidos da generalidade dos alcoutenejos.

Cada um destes talhos era constituído por um balcão provido de balança do tipo romano ou do tipo pratos suspensos. Tinha na parede atrás do balcão um armário provido de porta de rede impeditiva da entrada das moscas, e nuns ganchos suspendiam as carcaças dos animais. Na parte de dentro do balcão havia um tronco grosso de árvore de que um dos topos de secção circular servia para cortar os ossos com um cutelo. Na parede atrás do balcão estavam penduradas as facas, serras e outros instrumentos de cortar a carne.

Ao homem do talho ou talhante também dávamos o nome de carniceiro. Açougueiro como dizem no Brasil deve ter caído em desuso, mas chamava-se açougue o local onde eram mortos os animais ou seja o matadouro.

Cada talho tinha o seu rebanho. Era o seu viveiro ou “armazém vivo”! Grande parte deles não tinha pastagens próprias. Este gado a aguardar a morte (algumas ovelhas também procriavam entretanto) pastava nos logradouros públicos: Serro da Eira, campo de futebol da Fonte Primeira, bermas dos caminhos públicos e, uma ou outra sortida pelos campos vizinhos. E, também, dentro da própria vila. Muito próximo da casa de meus pais, o largo junto da Igreja Matriz criava muita erva durante o inverno e servia muitas vezes para estes rebanhos pastarem.

Os Talhos localizavam-se na zona comercial de então:

Praça da República em 1969

-Talho do Joaquim do Rosário, na Praça da Republica, num edifício a seguir aos Paços do Concelho, que pertencera a Vicente Romana.

Rua da Misericórdia em 1969

-Talho da ti Ermelinda/ João Victor – na Rua da Misericórdia no lado direito na casa hoje de Anabela Fernandes.

Balança de Ti Pimenta
-Talho da ti Maria do Nascimento/Ti Pimenta no lado esquerdo da Rua da Misericórdia nas traseiras da casa de Ilda Afonso. Mais tarde mudaram o local do talho para as escadinhas da Rua da Aparada.

-Talho de Guerreiro, quase em frente donde hoje é a mercearia de Rosa Inácio.
No atendimento, os homens eram mais despachados: tanto o Rosário como o Guerreiro cortavam a carne atiravam-na para cima da balança e o peso parece que quase sempre estava certo ou pelo menos arredondavam as contas em escudos não estando com minudência de trocos.

Já as mulheres não eram assim. Colocavam a carne na balança, coçavam na cabeça se o peso se afastava para menos, ajeitavam os ponteiros para ver se o peso crescia e de má vontade lá iam buscar mais uma nesga de carne para completar. Se pelo contrário o peso era mais faziam as contas e o freguês pagava a diferença.

O alcoutenejo tanto comia o borrego ou o cabrito, como comia os animais mais velhos: ovelhas e carneiros, cabras e bodes, ao contrário de outros povos. No Portugal do Norte comem preferencialmente animais jovens, enquanto na nossa vizinha Andaluzia não comem os borregos e os cabritos porque, dizem, sabem a “leche”. Em Alcoutim não era muito vulgar comerem leitão por isso os talhos não o vendiam.

Hoje não há talhos. Apenas aos sábados estaciona junto ao mercado, no Bairro do Rossio, uma carrinha que vende carne, suponho que até nem tenha muita freguesia. O peixe do rio, a outra fonte alternativa de proteínas, também passou a ser menos abundante.

Embora a população residente fosse menor nesse tempo, o Hospital consumia e os doentes e acompanhantes que acorriam a consultar o Dr. Dias também representavam uma população não residente consumidora. E as pessoas estavam apenas sujeitas ao mercado local.

Havendo hoje maior população na vila, com maior poder de compra, hábitos de maior consumo, e tendo ainda uma série de restaurantes, por que dispensaram os talhos?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

"Costura"


Como é do conhecimento geral, é frequente encontrar nas jovens de hoje quem não saiba pregar um botão, fazer uma bainha ou qualquer outro pequeno trabalho de costura.

Com o rodar dos tempos, a assimilação de tarefas por ambos os sexos, sem distinção, é cada vez menos diferenciada.

Profissões que  foram vedadas ao sexo feminino são hoje exercidas com toda a naturalidade. É dos nossos dias o poderem exercer funções de juiz, nas forças armadas ou nas forças policiais. Quando ingressei na categoria profissional em que vim a aposentar-me, era impedido o ingresso ao sexo feminino, só permitido, se a memória não me falha, durante o período “marcelista”. Desta maneira, nunca me encontrei com senhoras em concursos públicos.

Taxistas, mecânicas, motoristas de longo curso, pedreiras, entre outras, são algumas que muito recentemente se vêem exercer.

Mas o assunto a desenvolver não é sobre esta temática, servindo apenas de mera introdução.

Pretendo hoje apresentar um objecto utilitário que foi muito usado no concelho de Alcoutim, aliás, em todo o país, mas com características diferentes de região para região, mas sempre com a mesma funcionalidade.

Costura é, naturalmente, o acto de costurar, isto é, coser tecidos, peles ou outros materiais, confeccionando ou reparando peças de vestuário.

Assim, é natural que os utensílios a utilizar como tesouras, dedais, agulhas de vários tipos e materiais a utilizar como linhas, elásticos , botões, molas ou colchetes se encontrem no mesmo lugar.

Nasce assim a necessidade de arranjar esse objecto, normalmente de reduzidas dimensões.

A matéria para a sua confecção era variada e muitas vezes diferente de zona para zona, conforme a sua existência natural.

Os canaviais nas margens do Guadiana e seus afluentes, tal como junto aos barrancos, eram um precioso recurso a que os alcoutenenses deitavam mão para resolver muitos dos seus problemas.

A cana no concelho de Alcoutim constituiu um sustentáculo importante na vida alcouteneja, como já o escrevi.

Entre muitas utilizações que não vou repetir, o alcoutenejo tecia pequenas cestas de cana sempre com uns efeitos mais requintados e que constituíam na casa a cesta da costura, normalmente com duas asas laterais, como a foto apresenta.

Este exemplar andará, segundo a sua possuidora, por volta de um século de existência, notando-se perfeitamente a cor acastanhada da cana que os muitos anos de “vida” motivaram.

Por uma questão prática, deixou de se chamar ”cesta da costura” para apenas se dizer costura.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O mais valioso dominó do Mundo!






Escreve

José Miguel Nunes




Depois de o meu pai ter feito uma mobília de quarto completa para a neta, e de ver a “loucura” dela com a prenda que acabara de receber, recordei-me de um dominó feito pelo meu avô José Custódio, que guardo religiosamente.

Está completo, e ainda na caixa original, onde está escrito pela sua mão, o seguinte: “Dominó”, na tampa, na parte lateral, “José Custódio – Pomarão”. Infelizmente não tem data, mas não andarei muito longe se apontar para a década de quarenta do século passado.

E foi assim, que numa tarde de Sábado, passei pelo menos um par de horas a jogar dominó com a minha filha… com o dominó do seu bisavô, algo que lhe fazia um bocadinho de confusão, diga-se.

Durante a jogatana não consegui evitar que algumas recordações do meu avô me viessem à memória, nomeadamente as suas jogatanas, não de dominó, mas de “três setes,( jogo de cartas caído em desuso e abandonado pelas entidades responsáveis pela sua conservação),” na barbearia do Sr. João Ricardo, com a mesa cheia de feijões. É também para isto que estas relíquias servem, para recordar.

É muito provável que aquela mobília se parta, fruto do uso, aliás foi para isso que ela foi feita, para ser usada, mas tenho a certeza que alguma daquelas peças irá perdurar, e será essa, que permitirá daqui a alguns anos recordar o que agora acontece, trazendo à memória outras recordações.

Contas feitas, jogámos seis jogos. Perdi cinco a um. A Maria, com a felicidade normal de quem ganha, disse: este dominó do avô velhinho dá-me mesmo sorte.

Espero que sim, que lhe continue a dar sorte. Um dia será dela, que o guarde com tanto carinho como eu.


sábado, 11 de maio de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLIX





 Escreve

Daniel Teixeira




HISTÓRIAS POSSÍVEIS POUCO CONFIRMADAS

Como se sabe, Alcaria Alta não é uma povoação fronteiriça e mesmo agora com as melhores estruturas rodoviárias não é fácil ir de Alcaria Alta a Espanha, mas havia, curiosamente, muitas histórias que me eram contadas relacionadas com Espanha.  

Como já tenho dito o meu avô dedicou-se à actividade de contrabando em pequena e para mim inocente medida, mas no seu caso eu acho que ele sempre foi um andarilho, naquele sentido de procurar sempre coisas diferentes e para conseguir isso tinha de se deslocar a sítios diferentes.

Não se pode dizer que tenha corrido muito no sentido actual, até porque naquele tempo correr muito era andar para aí num raio de cinquenta ou setenta quilómetros: tinha uma série de profissões base, desde tosquiador a cardador, a pastor, a lavrador, a ceifeiro, a podador, a comerciante, a contrabandista, trabalhador braçal em estradas e caminhos de ferro, enfim, não devo esgotar aqui todas as artes que ele exerceu, mas dou uma ideia que qualquer uma delas, se excluirmos a semi – sedentária de tratar das suas terriolas, implicava deslocação.  

Normalmente as herdades do Alentejo no caso da ceifa, os montes em redor para tosquiar e cardar, a serra de Tavira para o comércio das panelas de barro, a zona de Castro Marim a Alcoutim para trabalhar na estrada, e já mais no litoral para trabalhar nos caminhos de ferro, na instalação das linhas e todo o conjunto de coisas que isso implicava, desde trabalhar de picareta a carregar carris.

Sem que se possa tomar como exemplo este caso único é preciso acrescentar que o meu avô não era caso único. Normalmente deslocavam-se grupos para um lado e outro, para uma profissão ou outra no sentido de conseguirem complementar aquele pouco que a terra lhes dava, embora eu sempre tivesse a sensação que nunca faltava comida, coisa que parece ser comum ou normal em zonas rurais de todo o mundo, se excluirmos aquelas que sofrem efeitos constantes de secas.  

Poderia não haver bifes mas havia pão, queijo, chouriça, morcelas, cozidos de couve, grão, nacos de presunto e toucinho, ovos, ervas aromáticas, ervilhas, favas, batatas, enfim...ainda sinto o cheiro dos cozidos de couve portuguesa a abobrarem à rés das brasas na panela o dia inteiro.


Talvez a zona nordeste algarvia estivesse, em termos da globalidade que atrás referi, numa zona limiar entre as zonas de seca e as zonas com chuvas regulares, e por vezes excessivamente abundantes, mas este tipo de alternância sazonal fomentava a migração de proximidade, o aproveitamento de algumas obras públicas que necessitavam de mão de obra não qualificada, o trabalho nas minas, enfim, se formos contar hoje por aquilo que sabemos raro é o filho da terra que por lá se ficou a seguir aos anos 60 o que singularmente quer dizer que as alternativas migratórias de proximidade existentes deixaram de produzir o efeito esperado.

Na região litoral do Algarve o mesmo se passou, e passa, quando a indústria começou a ser mais escassa e o turismo, como fonte alternativa de alimento não estava - e ainda não está nem nunca estará - implantado ao ponto de ser uma valência real de emprego duradouro e fixação populacional. 

Lembro-me que ser empregado na hotelaria nos anos 60/70 era ter de percorrer todo o Algarve litoral, da ponta de Sagres a Vila Real de Sto António, por vezes por períodos escassos de três meses no Verão e regressar a penates para «passar o inverno» nalguns trabalhos ocasionais que fossem surgindo. Neste plano o fenómeno da migração não é exclusivamente serrano, ainda que se possam encontrar diferenças nas graduações.

Havia no entanto, nesta relativa pacatez serrana do período sedentário histórias que se contavam e para além das mouras encantadas, que requeriam um pouco de imaginação, havia histórias sobre as deslocações feitas, o trato dos patrões e contramestres e toda a envolvência que funcionava como um jornal ou enciclopédia oral servindo de informação e cautela nas deslocações futuras.

Mas, quase fora destes contextos, e ombreando em termos de desfasamento com o real do dia a dia num sector específico da memória colectiva havia as histórias sobre a guerra civil de Espanha. Para além da leitura conjunta do jornal à porta do avô da Odília Guerreiro chegavam entremeadas algumas notícias sobre fuzilamentos na raia envolvendo portugueses. Sei de cor duas, uma com um final mais ou menos feliz e uma outra que terá custado a vida ao incauto e inocente pastor da nossa nacionalidade.

Eram os chamados fuzilamentos por engano: as tropas ou as patrulhas franquistas chegavam a determinada povoação onde lhes teria constado por meio de informadores que havia por ali gente republicana e por aquilo que me diziam a escolha era feita de forma aleatória.  

O que salvaria os portugueses seria o facto de não serem espanhóis, mas esse factor pelos vistos não contava em toda a sua medida e para além do mais os documentos na altura não eram de porte obrigatório e em muitos casos nem sequer os havia.

Provar que se era português e sujeitar-se à sanção por ter atravessado a fronteira sem autorização era difícil, pelo que se tomava (tomavam eles) o método de inquirir o informador se fulano era ou não era, o que é um método bastante falível, tanto mais que em caso de ser afirmado o desconhecimento da parte do informador isso valia como factor de certeza alternativa. Ou seja, fulano não sabe se beltrano é português ou espanhol logo beltrano é espanhol.

Dos dois casos que ouvi falar um baqueou mesmo nas costas de um muro e o outro foi salvo no último minuto pela providencial chegada de um outro informador mais informado: o homem era português, estava daquele lado porque envolvido no pastoreio nem se apercebera que estava do lado de lá e como precisava de comprar algumas coisas no lugarejo estava ali e ia-se já embora.

Claro que as pessoas estavam do lado de lá, nem outra coisa seria pensável (ou seria dificilmente pensável) por razões de conflitos fronteiriços, mas nunca ninguém fará essas contas, como é claro. Para além daqueles portugueses que foram combater dos dois lados (porque os houve nas hostes franquistas e nas hostes republicanas) terão morrido neste sumário sistema de abate bastantes pacíficos camponeses.

A guerra civil de Espanha foi de alguma forma intensamente vivida pelas populações raianas, isso sabe-se e ainda há dias foi publicado neste jornal um artigo sobre oTenente Seixas a sobre a sua intervenção em Barrancos e à recolha que fiz quando escrevi aqui um artigo sobre o contrabando na raia  posso agora acrescentar mais isto: «Eurico Mestre, 70 anos - Corte Gafo de Baixo - «Por vezes vinham para aqui espanholas fugidas da guerra, cansadinhas, cheias de piolhos, comiam saramagos amargos. Uma rapariga espanhola contou-me que eram dezoite e as outras ficaram na fronteira, não conseguiram passar, com tanta fome lá ficaram caídas, ela teve mais força!». - «Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um contributo para o seu estudo», pág. 52

Esta guerra foi intensamente vivida, de facto, agora saber porque foi criada e sobreviveu esta transmissão memorial sobre os fuzilamentos «por engano» num Monte cuja relação geográfica é distante com os locais dos eventos é matéria complexa, que na minha opinião só pode dever a sua perenidade à grande força da reprovação social.