segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pucarinho


Peça de cerâmica islâmica do século X / XI, medindo de altura 14,1 cm e de diâmetro 12,3.

Recipiente utilizado à mesa para beber. O seu nome em árabe seria surayba.

Foi recolhido no Castelo Velho e encontra-se em exposição com o nº 46 no Núcleo de Arqueologia no Castelo de Alcoutim.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A sela

 
 
Assento acolchoado que se coloca no dorso do cavalo, para maior comodidade do cavaleiro, é designação basilar e comum.
 
O exemplar que apresentamos, que foi usado e ainda existe em Alcoutim, deverá ter perto de oitenta anos e foi ele que nos possibilitou esta abordagem.
 
Até meados do século passado foi relativamente vulgar no concelho de Alcoutim e utilizado por alguns dos chamados lavradores locais. Eram usados, principalmente, em machos ou mulas ,pois o cavalo, animal menos resistente a estes terrenos, era muito menos frequente.
 
Na altura em que a diferença era feita entre quem se apresentava num macho gordo, bem aparelhado e em que a sela era peça principal e quem se transportava num burro e montado numa albarda. Hoje a diferença é feita entre os automóveis topo de gama e os populares, entre os veículos “políticos” do concelho e os do povo.
 
Existem muitos tipos de sela, além da portuguesa temos a americana, originária do México e introduzida pelos espanhóis e a inglesa a mais divulgada no mundo.
 
A sela portuguesa engloba vários modelos entre os quais “D. Dinis”, “Ribatejo” e “Relvas”.
 
É feita com couro de suíno e tiras de metal que ficam ao longo da armação para lhe dar mais elasticidade e consistência.
 
Esta sela portuguesa é composta pelo assento (a parte central), a patilha, a de trás e o cepilho, a da frente. As partes laterais são as abas e por baixo ficava o suadouro.
 
Além da sela encontram-se os estribos, uma peça que fica presa nas laterais da sela por um tipo de cinto de couro que serve para apoio e dar impulso ao montar o animal.
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Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1972
Wikipédia, a enciclopédia livre


sábado, 29 de dezembro de 2012

Analisando a rubrica "Figuras do Baixo Guadiana"

Sérgio Pica trabalhando no seu "atelier" na Ribeira de Santarém.
Foto cedida por seu filho Bruno Ribeiro.

Quando criámos esta rubrica tencionávamos que fosse bem abrangente dos quatro concelhos que constituem a região designada por Baixo Guadiana, ou seja, os concelhos de Mértola, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Se nas primeiras postagens isso foi evidente, acabámos por nos dedicar mais às alcoutenejas, já que era dessas que possuíamos maior informação através de pesquisas que temos feito ao longo destes últimos 40 anos.

Penitenciamo-nos por o não ter feito em relação aos outros concelhos, pelo que a diferença entre o número de alcoutenejos e os outros é considerável. O tempo não chega para tudo!

São até hoje 39 as “Figuras” abordadas e a nível de movimento verificámos o seguinte:

 
1º - Sérgio Pica (2010.04.28)

2º - António José Madeira de Freitas (2009.04.21)

3º - Maria Eduarda de Freitas (2008.07.16)

4º - Marina Ramos Themudo (2009.05.07)

5º - António Vicente Campinas (2009.02.07)

Dos cinco mais procurados e nos termos que temos vindo afirmando quando fazemos análises deste tipo, quatro, naturalmente, são alcoutenejos, dos verdadeiros, daqueles que lá nasceram.

A figura grada de António Vicente Campinas, vila-realense e antifascista é a excepção.

A primeira posição é ocupada a distância considerável, pelo que foi pintor de arte profissional, autodidacta, Sérgio Pica que nasceu nos Balurcos, “monte” do Deserto.

Seguidamente, surge o Padre António José Madeira de Freitas (tio), uma das figuras centrais alcoutenejas do século XIX, ocupando o 3º lugar a republicana Maria Eduarda de Freitas, uma mulher plurifacetada, a que recentemente foi dado o seu nome a uma “quelha” na Vila de Alcoutim.

Encerra o escol alcoutenejo, Marina Ramos Themudo, que saibamos a única doutorada nascida na vila de Alcoutim. Esta é mesmo doutora e não dra, não haja confusão.

Nunca é demais voltar a referir que esta classificação nada tem a ver, nem de perto nem de longe, com o valor real das pessoas, mas não deixa de ser uma curiosidade.

Admitimos que a sua procura signifique o desconhecimento e curiosidade dos alcoutenejos pelas “figuras” que lhe apresentamos em pequenas notas biográficas que conseguimos organizar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

"De que falam os velhos?"


Pequena nota

Não consigo passar sem deixar uma pequena reflexão sobre este poema.

Possivelmente, isso acontece por me encontrar na faixa etária que o poeta refere e por isso mesmo, podê-la analisar com realismo.

Tudo o que a poesia nos diz é a realidade que todos sentem quando chegam a uma determinada idade. Contudo, há muitos que não chegam a ter esta experiência.

Encontrar as palavras ajustadas à situação, ligá-las com harmonia e sonoridade, é o que poucos sabem fazer, como eu, mas não é o que se passa com o meu sempre jovem colaborador, cuja poesia transmite um toque especial a este espaço.

Aqui deixo ao “velho” colega de profissão, alcoutenejo pelo coração, o meu abraço de admiração.

JV

 


 Poeta

José Temudo

 

 

Os velhos falam do passado.

De que mais hão-de falar?

 

Do tempo que corre, apressado,

das dores que devem calar,

da tristeza, que sempre magoa,

da vida breve, que se escoa?

De que mais hão-de falar?

 

Da Primavera, de flores, do sol, do Verão,

dos passeios que jamais farão,

de petiscos, que não vão comer,

de roupas ,que não vão usar ?

De que mais hão-de falar?

 

De livros, que já não podem ler,

de filmes, que jamais verão,

dos filhos que os esquecem,

dos netos, que os desconhecem,

da vida viva, que passa ao lado ?

De que mais hão-de falar?

 

Do futuro, ignorado,

do presente, mal amado?

Os velhos falam do passado,

do vivido e do imaginado,

com vontade de voltar!

De que mais hão-de falar?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Serões de Inverno



 

Escreve

António Afonso

Para compreender melhor esta crónica, devemos situar-nos, em termos de tempo, nos anos 50 do século passado, num lugar remoto no Nordeste Algarvio, a rádio não era extensiva a todos, a televisão não tinha chegado e os outros meios de comunicação, alguns não tinham nascido.

Ao final da tarde, ao regressarmos da escola, tínhamos de realizar tarefas que nos tinham sido confiadas previamente, como sejam: ir ao poço buscar água, alimentar os animais, preparar a lenha para alimentar a lareira durante a noite, etc. Conjugávamos então parcerias com os amigos e tudo se resolvia, airosamente, desta forma de ajuda mútua.
Era à luz da candeia ou do Petromax, que iluminavam quase nada (por isso havia tantos meninos " curtos de vista"), que fazíamos os trabalhos de casa, auxiliados por os mais velhos que nos ajudavam na leitura de palavras esquisitas, problemas deveras bicudos, com várias casas decimais e torneiras que debitavam vários hectolitros por minuto e tanques com enormes capacidades, muito maiores que a capacidade mental de um aluno de dez anos. O meu preceptor era o António Miguel, rapaz metódico e aplicado que me tentava explicar aqueles enigmas.

Os trabalhos eram feitos em ardósia (pedra preta, com um caixilho de madeira de cantos arredondados), escrevíamos com giz, ou na falta dele, fabricávamos nós os próprios lápis com taliscas do Barranco da Corte (Xisto foliáceo), só posteriormente passávamos tudo a limpo para o caderno.

Devo acrescentar, que esta pedra, que vos falo, não é mais que um antepassado do célebre computador Magalhães. Ainda hoje, quando as crianças me pergunta a idade eu respondo dizendo-lhe que sou da idade da pedra. – Então o tio é "muita" velho!

Após o jantar, aqui chamado ceia, a mãe lavava a loiça, as meninas corriam para a casa da Ti Maria Francisca, ouvir na rádio, o folhetim do Tide, cujas personagens centrais eram a Esmeralda e o Guilherme, originando muitos nomes por aquelas bandas. O serão era feito à volta da fogueira, admirando a cor e a forma das labaredas e ouvindo as histórias dos mais velhos. Mas as verdadeiras noites Mágicas e grandiosas tinham lugar com a chegada do primo Afonso da Alcaria Alta, vinha colher os frutos, ficando alojado na casa do Tio Guerreiro, vinha montado numa mula de cor clara, coberto com uma capa alentejana com gola de raposa, fazia-se acompanhar da mulher, prima Zabelinha e do filho, o primo Celestino.

O primo Afonso era, sem sombra de dúvida, um exímio contador de histórias, umas vividas outras imaginadas, reproduzidas com tanta graça e realismo que nos atraía como as tivéssemos a viver in loco; havia sido guarda republicano a cavalo nas planícies do Alentejo e aí acumulado muitas vivências; homem corpulento com voz grossa que brotava dos confins da alma, que nos encantava simplesmente!

Que Saudades desses tempos de criança!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Cotovias

As cotovias de que existem vários géneros e espécies são aves de pequeno porte da família dos alaudíleos, isto é, gregárias, acastanhadas, de dedo posterior alongado.

Alimentam-se de sementes e na época de acasalamento também de insectos.

São próprias do velho continente nomeadamente da península Ibérica, ilhas Baleares e sul de França.

Em Portugal são muito mais vulgares em toda a zona de fronteira, principalmente no Baixo-Alentejo e no Nordeste Algarvio, onde se situa o concelho de Alcoutim.

A cotovia do monte ou montesina, de cor um pouco mais escura e a de poupa são as mais vulgares em Alcoutim. A primeira procura os terrenos elevados e matosos, em especial onde existam estevais, pobres e de clima seco. A de poupa, mais acastanhada, frequenta as áreas mais planas e abertas. Não é fácil a distinção entre estes dois tipos que por vezes frequentam as mesmas zonas.

Ao contrário da montesina, a de poupa não poisa nas árvores.

São conhecidas pelo seu canto característico, o seu voo é ondulante, caracterizado por descidas rápidas e ascensões lentas, isto alternadamente.

As crias nascem cegas, implumes e fracas.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"NATAL DESIGUAL"





Poesia

de

M Dias

 Brilham Estrelas, Bolas, Anjinhos

No Pinheirinho Enfeitado!

Mais um Natal se aproxima,

Há Sorrisos, Alegria,

Votos de Festas Felizes,

No ar alguma magia,

Aos olhitos dos Petizes!

Bem pensada e repensada,

Está completa a nossa lista,

Aí vamos nós, comprar!

Faz-se figura, a ofertar,

Com um grande laço vermelho,

Num embrulho espampanante

Coloque uma traquitana,

Esqueça a crise, ódios, rancores

Mas de ofertar, não desista!


Expurgou sua indiferença,

Ajudou uns pobrezinhos,

Agora, aliviado,

Vai comprar seus presentinhos!


Passou por um lar de IDOSOS,

Virou a cara e seguiu,

Está com pressa de chegar,

Ao conforto do seu lar,

Os seus pais? Ah! Já esquecia,

Tenho de lhes telefonar!

domingo, 23 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS


COM

PAZ, SAÚDE, PÃO E AMOR

 
 para todos os visitantes / leitores, espalhados por esse Mundo fora, abnegados colaboradores e suas famílias e todos os alcoutenenses incluindo os que estoicamente vão permanecendo no concelho, são os votos do
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Lembrando o que não esquece


Passa hoje o 83º aniversário do matrimónio destes então jovens solteiros.

O seu casamento realizou-se na Igreja de Nª Sª da Conceição, Matriz da Freguesia da Várzea, concelho de Santarém, sacramento ministrado pelo P. Manuel Escabelado.

Ela, de 21 anos, natural de Estremoz, ele de 23, nascido em Penafiel. Encontraram-se em Santarém!

Do enlace resultaram três filhos, nove netos e sete bisnetos, existindo, entretanto, cinco trinetos.
 
Igreja de Nª Sª da Conceição, matriz da Várzea. Foto JV
2008

Festejaram as Bodas de Oiro no mesmo edifício onde 50 anos antes se tinha realizado a Boda e voltaram a estar presentes dois dos convivas.

São meus pais que recordarei sempre com muito AMOR e SAUDADE.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

“Casino Ambulante" – Gaitinha, Jogo de Feira


Pequena nota

Mais uma interessante recordação que o nosso apreciado colaborador, Gaspar Santos nos traz hoje e totalmente desconhecida pelo menos das duas últimas gerações. Também eu tenho uma leve noção do “gaitinha” nas feiras da minha terra pelo que penso ser de uso geral.

Sempre ouvi falar num alcoutenejo que fez toda a sua vida com esta actividade mesmo quanto foi proibida como jogo de azar com dinheiro à vista o que me parece ter sido uma medida do “Estado Novo”. O indivíduo faleceu em acidente de viação há poucos anos.

Desapareceu do seu monte ainda jovem e a que nunca mais voltou tendo deambulado pelo litoral algarvio e o seu último aparecimento conhecido foi há uns bons anos na Feira de S. Marcos o que provocou barafunda com a entidade policial (GNR).

Esta pequena nota ajusta-se ao texto seguinte que dá a conhecer a muitos alcoutenejos esta desaparecida e ilícita actividade.

JV
 

 
 
 
Escreve

Gaspar Santos

 
O alcoutenejo nos momentos de descanso das suas lides da lavoura também gostava de jogar inocentes jogos de cartas, ou assumia mesmo algum risco em partidas a dinheiro. Conheci até um comerciante que, quando nada havia para fazer, ele e o filho jogavam às cartas a dinheiro…que no entanto, voltava de novo para a mesma gaveta da venda donde tinha saído.

Nos anos 40 e 50 do século passado, nas feiras do concelho de Alcoutim, nomeadamente na feira de Alcoutim e no Pereiro na Feira de S. Marcos exploravam um jogo, penso que com autorização legal, a que davam o nome de Gaitinha.

Mesmo em contexto das grandes dificuldades financeiras que afectavam a generalidade das pessoas do concelho, havia sempre umas moedas para arriscar quando se proporcionava ocasião para tal. E, tenho a certeza, de que ninguém dos que ali jogava lhe passava pela cabeça ganhar muito dinheiro.

O Gaitinha, constituído por uma mesa articulada fácil de transportar, era em caricatura, um casino ambulante em miniatura! No tampo tinha desenhada uma quadrícula de 6 quadrados numerados de 1 a 6 e, num dos lados o desenho de um circulo.

 
Cada quadrado servia para os jogadores ou apostadores colocarem em cada jogo as moedas que queriam apostar, na esperança de que o número de pintas na face do dado correspondesse ao número do quadrado e assim ganhar. O círculo desenhado na mesa era o sítio em que repousava um dado coberto por um copo de alumínio.

O dono da mesa, ou seja o homem que explorava este jogo, gritava com insistência e voz bem sonora, para entusiasmar os jogadores: Gaitinha! Gaitinha!

Ao mesmo tempo, com a mão, agitava o copo com o dado lá dentro que fazia uma música característica, e produzia um espectáculo que nós os jovens, não jogando, achávamos muito divertido.

Quando colocava o copo sobre o círculo, aguardava que os jogadores mais retardatários fizessem as suas apostas. Completadas as apostas, com alguma solenidade  o “Banqueiro” levantava o copo mostrando o dado. Quem apostara no número que o dado mostrava virado para cima ganhava o dobro do que apostara.

Contemplando, portanto, naturalmente, um apenas ou vários dos apostadores que tivessem jogado nesse número… ou ninguém se não tivesse havido apostadores nesse número.

Havia várias hipóteses de jogo, de que se dão dois exemplos:

1) Seis apostadores arriscavam um escudo cada um no seu número; A banca recebia seis escudos e àquele que a sorte favoreceu pagava dois escudos; ganhando, portanto, quatro escudos.

2) Um apostador arrisca um escudo num número, e não há mais nenhum a apostar; se lhe sair recebe dois escudos. A banca perde um escudo.

Numa feira ou mercado o “banqueiro” escolhia o local de trabalho que lhe parecia melhor para captar os apostadores. E, como não precisava de muito espaço e o próprio equipamento era fácil de deslocar, ele ia-se mudando de um lado para outro até afinar o melhor posicionamento para o seu negócio.

O “banqueiro” não conhecia matemática nem teoria dos jogos, nem que os jogos de casino são matematicamente estudados de modo que as probabilidades de ganho favoreçam ligeiramente o próprio casino. Ele sabia por experiência do ofício que as pessoas gostavam de ali se divertir, gastando alguns cobres que ele poderia embolsar sem grandes considerações até de equitatividade do jogo.

Lembro-me de pelo menos um homem que operava nos mercados e feiras no concelho de Alcoutim, mas não sei o seu nome.

 Algumas mesas mais sofisticadas tinham duas quadrículas desenhadas: uma preta e outra vermelha e o jogo realizava-se com dois dados. Um vermelho e outro preto. No fundo correspondia a dois jogos em simultâneo. Ainda vi algumas vezes este jogo assim com um ar mais sofisticado na feira de Alcácer do Sal, mas nos últimos anos deixei de o ver. Penso que por se tratar de jogo a dinheiro e sendo um casino artesanal a legislação o teria proibido.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Todos a conhecem na vila de Alcoutim e arredores!


Esta fotografia foi tirada em Alcoutim em 15 de Junho de 1970, por isso, já passaram 42 anos!

Que tenha sido em Alcoutim não engana nenhum alcoutenejo, já que apresenta como fundo o Guadiana, Sanlúcar com o seu inconfundível castelo de São Marcos, onde na minha última estada em Alcoutim verifiquei que andava em obras.

Reparar que ainda não tinha sido construído o “Bairro Novo” que hoje ocupa a parte cimeira da povoação.
 
Não é propriamente para a fundo da foto que a nossa atenção vai, mas sim para as três meninas que fotografei, não tendo a mais velhinha e a da esquerda nada a ver com Alcoutim, ainda que a mais nova tenha voltado a Alcoutim há perto de seis anos.

A da direita, a dos totós, que só não nasceu na Vila de Alcoutim mas que foi lá criada desde tenra idade e nunca deixou de estar ligada à vila onde vive e trabalha.

Se o avô era uma das pessoas mais conhecidas em todo o concelho, a neta não lhe fica atrás, ainda que os motivos sejam diferentes.

A carinha ainda é a mesma se repararem bem, apesar de já ser avó babada. Era uma criança extremamente meiga.

Escuso-me a dizer o seu nome ao visitante leitor alcoutenense, pois certamente já identificou de quem se trata. Se não souber e quiser, eu informarei.

Para ela um beijão do JV

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim- Recordações, XLI




Escreve

Daniel Teixeira


OS CRIADOS EM ALCARIA ALTA

Havia em Alcaria Alta duas famílias de lavradores com condições para terem criados, mas este termo tem uma conotação hoje que corresponde muito pouco àquela que tinha nesses tempos. Havia uma hierarquia entre o pessoal que trabalhava por conta de outrem e um criado, caso do «Pão de Centeio» ou Zé Lourenço já por mim falado por causa do seu terror das trovoadas, era criado mas era simultaneamente ganhão.

O ganhão era um indivíduo que trabalhava ou estava em condições de trabalhar sozinho, que dominava as técnicas agrícolas, nomeadamente a lavoura e o tratamento do gado e era uma pessoa em quem se confiava no sentido técnico do termo. Já o ajudante era isso mesmo, não tinha autonomia reconhecida para trabalhar a sós e fazia parte de grupo ou grupos de trabalho onde exercia as suas funções subordinadas.

Em princípio e pela lógica, confesso que não me debrucei muito sobre isso nem isso fazia parte dos meus interesses de criança, um ajudante deveria trabalhar sob as ordens do ganhão mas pelo que me apercebi essa hierarquia embora fosse espontaneamente respeitada não tinha grande necessidade de ser aplicada de forma mais autoritária. Aliás os próprios patrões procuravam informar-se de como corriam as coisas.

Cada um deles sabia aquilo que tinha de fazer e quando não sabia o ganhão «sugeria» que ele, ajudante, começasse noutro lado quando tinha acabado a fila dele em vez de começar noutra para onde se encaminhava mas isso era mais porque o ganhão tinha a experiência e sabia que era assim que se fazia talvez desde sempre.

De criadas só conheci uma, a Mariazinha, que tinha sérios problemas de ingenuidade (era mesmo poucochinha, coitada) e entrava em paixão assolapada cada vez que um trabalhador ocasional que por ali ficasse uns dias em labuta lhe prometia casamento.


Os da casa, quer dizer, os trabalhadores mais permanentes sabiam disso e punham o prometedor em sentido enquanto por outro lado a patroa da casa dava uma descasca na miúda, descasca carinhosa, diga-se, por aquilo que fui ouvindo. «Olha que aquilo é só conversa, etc. etc.» e por vezes quando a coisa não acabava à primeira o dito era convidado a fazer o saco e a evitar voltar a pedir trabalho ali.

O Zé Lourenço tinha um dialecto próprio que era difícil apanhar à primeira. Parecia que gaguejava um pouco mas isso devia-se ao facto de atropelar as palavras. Era o chamado falar de roldão, ainda a gente estava a tentar perceber a primeira palavra e já ele ia na quinta, mas era porreiro, não muito sociável, muito metido consigo mesmo, como se dizia.

Tinha os tais fiozinhos presos nas casolas dos botões que por sua vez prendiam desde faquinha a onça de tabaco, isqueiro e tudo o mais que tivesse nos bolsos. Era fio de guita pelo que era pelo menos estranho ver-lhe a jaqueta escura bordejada de fiozinhos claros, mas era mesmo assim. Em toda a sua vida não deve ter deixado cair nada dos bolsos, nem mesmo em dias de aflição com as trovoadas.

Diga-se que uma trovoada no campo e em campo aberto não é nada agradável de se ver, com uma profusão de raios a rasgarem o céu e estrondos quase atómicos, mas o problema dele é que não assimilava que não havia nada a fazer e que as suas rezas a Stª Bárbara talvez o ajudassem a ele mas não resolviam o problema da tempestade. Nunca caiu um raio por aqueles sítios no meu tempo.

Como estou a fazer um trabalho que tem a ver com fertilidade, maternidade e paternidade acabei por me lembrar de uma coisa que até agora, neste escrito, estive vai não vai para não referir: o Zé Lourenço tinha uma ideia fixa que era ser chamado de «pai».

Não vou alongar aqui este texto com uma descrição do trabalho que estou a fazer mas o certo é que esse factor, ser pai, ou mãe, ou ter a potencialidade de o ser é em certas culturas levado muito a sério, nomeadamente e em maior escala nas mais primitivas e contribui em muito para a classificação social ou ausência dela do indivíduo.

Alcaria Alta. Casa de lavradores.

As coisas cruzam-se por vezes percorrendo os caminhos mais diversos e embora não tenha a intenção de meter o Zé Lourenço no meu estudo não posso também deixar aqui de encontrar anseios ancestrais que ainda existem hoje.

Já devo ter dito e dado a perceber que mesmo sendo um trabalhador competente ele não tinha a noção toda da fotografia: quer dizer a câmara escura dele tinha falhas de lampadário e a noção que ele tinha de algumas coisas saía desfocada, por vezes e muitas vezes.

Não era muito frequente mas acontecia mais que uma vez ele dirigir-se a miúdos e miúdas (crianças) do Monte e sair-se com essa do: «Chama-me pai, por favor!!». Acontecia por vezes e era mesmo dado todo o desconto por aqueles que sabiam dessa sua mania mas havia vezes em que os miúdos ou miúdas iam dizer aos pais e muitos destes não gostavam nada, como é claro.

Mas lembro-me de numa reunião familiar em casa dos pais de uma miúda se ter chegado à conclusão que isso não fazia mal: ele, Zé Lourenço, ficava contente e em troca a miúda recebia um par de sapatos. Mas só foi uma vez e tinha de ser só uma vez. E o Zé Lourenço, nesse minuto e nesse dia foi chamado de pai.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

D. Pedro de Noronha, tio-avô do 1º Conde de Alcoutim

 
Bispo de Évora e arcebispo de Lisboa de 1424 a 1452. Nasceu nas Astúrias por volta de 1382 e foi figura poderosa da Corte.

Era filho de D. Afonso, Conde de Noreña (Astúrias), condado que incluía o Senhorio de Gijon e de sua mulher a Condessa D. Isabel e era neto natural paterno de Henrique II de Castela e materno natural de D. Fernando de Portugal.

D. Pedro foi o primogénito e teve como irmãos D. Fernando de Noronha que devido às imposições do casamento passou a ser D. Fernando de Meneses, 2º Conde de Vila Real e avô do 1º Conde de Alcoutim, também Fernando de nome, D. Sancho de Noronha que foi o 1º Conde de Odemira e D. Constança de Noronha, duquesa de Bragança, pois casou com D. Afonso, o 1º deste título.

Falecendo os pais em França quando eram todos muito novos, vieram para Portugal ficando ao cuidado do seu tio-avô, o Rei D. João I.

O Papa Martinho V e a instâncias de D. João I nomeia-o em 11 de Janeiro de 1419 bispo de Évora e falecendo D. Diogo Álvares, Bispo de Lisboa, nomeou-o para este lugar, contra a vontade do Cabido da Sé que preferia o Chantre da Sé de Coimbra.

Parece que o prelado não teria seguido a vida religiosa por sua vontade mas imposta por D. João I e, por isso, muitas vezes faltou às suas obrigações pastorais.

Teve primeiro um filho, cuja identidade da mãe se desconhece, depois manteve relações com D. Branca Dias Perestrelo, moça da rainha D. Leonor de Aragão e filha do donatário da ilha de Porto Santo, Bartolomeu Perestrelo, de quem teve os restantes filhos.

Delegou alguns dos seus poderes em vigários gerais que se encarregavam de administrar a diocese.

Por tudo o que aconteceu, foi admoestado pelo Papa Martinho V.

Em 1428 D. João I aproveita para o enviar à Corte de Aragão para tratar do casamento de D. Duarte, futuro rei, com D. Leonor de Aragão de que se saiu airosamente.

Acabou, por isso, por ficar muito afecto à Rainha D. Leonor, apoiando-a contra as pretensões de seu cunhado D. Pedro que veio a ocupar o lugar de regente do Reino.

Por tudo isto, entrou em conflitos com a Câmara de Lisboa acabando por resignar e retirou-se para a sua Vila de Alhandra.

Continuando a ser agravado pela Câmara de Lisboa que expunha as más acções que este tinha cometido, retira-se para Castela, tendo o Regente D. Pedro sequestrado as suas rendas.

Por intervenção de Urbano V e devido a pressões dos seus apoiantes junto da Santa Sé, D. Pedro deixa-o regressar a Lisboa em 1442.

Faleceu em Lisboa a 12 de Agosto de 1452 aos 70 anos e ficou sepultado na Sé de Lisboa.

Foi uma das figuras mais poderosas da Corte na primeira metade do séc. XV.

Legitimou alguns dos seus filhos com todos os direitos como se legítimos fossem. Aconteceu isso ao mais velho, D. João de Noronha, Alcaide-mor de Óbidos, que casou com D. Filipa de Ataíde e depois com D. Mécia de Vasconcelos e a D. Isabel de Noronha, que foi Marquesa de Montemor-o-Novo, D. Pedro de Noronha, Senhor do Cadaval, Comendador da Ordem de Santiago e foi embaixador de D. João II a Inocêncio VIII e que casou com D. Catarina de Távora e D. Fernando de Noronha, alcaide-mor de Salir, Guarda-mor e Governador da Casa da Rainha D. Joana, a “Excelente Senhora”e que casou com D. Constança de Albuquerque, irmã de Afonso de Albuquerque. D. Fernando de Noronha e D. Constança de Albuquerque foram pais do vice-rei da Índia, D. Garcia de Noronha.

Além destes teve mais três filhos.
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Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Imprensa da Universidade, 1921

História de Portugal, Edição Monumental da Portucalense Editora, Porto, 1928 (Dir. Lit. de Damião Peres)
 
Quem é quem, - Portugueses Célebres, (Coord. Leonel de Oliveira) Círculo de Leitores, 2008

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um pedido a Jesus





Escreve 

 M Dias


Menino Jesus,

Por todo o Mundo Adorado!

Andas distraído?

Ou apenas zangado?


Andas triste, não é?

Pois, eu percebo!

Este Mundo actual,

Não quer saber de Fé.


Os homens, estão descrentes

Prepotentes com os mais fracos!

Animalescos, insensíveis,

Guerreiam e, mantam sem dó

Por meia dúzia de “patacos”


Já não caçam com pedra lascada,

Sabes? Inventaram armas mortais,

Mas sem saberem bem porquê,

Desataram a usá-las,

Esquecendo o 1º mandamento,

Amai-vos uns aos aos outros,

E ainda, não matais!

Não querem saber,

Irmãos, matam irmãos,

Pelas razões mais banais!


Oh, querido menino Jesus!

O mundo que ainda temos,

Será possível concertar?

Faz-nos um milagre sagrado,

Intercede junto do PAI,

Para que os homens tenham,

Em vez de ganância e ódio,

Tolerância em abundância,

E oceanos de AMOR para dar!

Aceita desta humana que te adora,

O meu humilde muito obrigada.

M Dias

domingo, 16 de dezembro de 2012

Um algarvio que nunca viu o mar


(PUBLICADO NO EXPRESSO DE 4 DE MAIO DE 1985)

António Rodrigues é um algarvio com 73 anos e que não se lembra de ter visto o mar. Tem passado a sua vida em Vale da Rosa, um lugar perdido entre os montes, aqui descarnados, ali cobertos de vegetação agreste no inóspito nordeste do Algarve. Um caminho terrado rasgado por entre os socalcos permite chegar a este lugar habitado por cinco famílias em cinco casas muito brancas, mas nenhum transporte público tem Vale da Rosa no seu percurso e as quatro crianças do lugar têm de fazer a pé três quilómetros atalhados pelo mato para poder chegar à escola mais perto.

«Os que cá nasceram nos últimos trinta anos estão todos a ir embora, só os mais miúdos é que ainda cá estão e até esses logo que tenham 13 ou 14 anos hão-de ir para o Algarve, para a construção civil». Para este natural do Vale da Rosa, o Algarve é aquela terra de riqueza junto ao mar. «Isto aqui na serra é um sítio para irmos passando os dias até à morte. Vivem cá quinze pessoas, quando morrerem as estevas hão-de crescer por cima de tudo isto e tudo vai desaparecer.»

Esta conversa está registada na memória desde há um mês, antes ainda da inauguração da central fotovoltaica de Vale da Rosa, em 12 de Abril. Desde esse dia, o aproveitamento  da energia solar fez mudar a vida e a esperança aos quinze moradores de Vale da Rosa.

O «25 de Abril oferecido... pela França»

Era demasiado dispendioso fazer chegar a Vale da Rosa os fios condutores da energia eléctrica. A solução foi encontrada através de uma oferta do Governo francês por intermédio da Agence pour la Maitrise d`Energie: uma central voltaica com dois grupos de painéis (seis painéis num grupo, sete no outro) com a potência de um Kilowatt de ponta e através da qual a radiação solar é directamente convertido em energia. Jaques Chazell, embaixador francês em Portugal, foi a Vale da Rosa em 12 de Abril e ouviu uma velha mulher emocionada, dizer que aquilo era um milagre, e uma outra, das que foi ganhar a vida para a hotelaria no litoral, discursou e disse que o «25 de Abril» chegou a Vale da Rosa com onze anos de atraso mas chegou .

A oferta francesa, para além do equipamento transformador de energia, incluiu também um televisor e um frigorífico por cada uma das cinco famílias de Vale da Rosa. No começo desta semana, os frigoríficos já armazenavam a carne dos porcos entretanto mortos e ao que se conta, a partir das seis e meia da tarde, todos os dias, toda a gente está diante do televisor. Há quem já tenha sintonizado a televisão espanhola e tenha ficado fiel. De qualquer modo, portuguesa ou espanhola, não importa, as quinze pessoas de Vale da Rosa não tiram os olhos do televisor, mesmo que os filmes sejam legendados e apesar de a maioria da população não saber ler.

Vale da Rosa ainda vive a descoberta da energia eléctrica e até o telefone que funciona por feixes, sem fios, é uma novidade que a população ainda tem dificuldade em utilizar.

S.S.

Pequena nota

O algarvio de 73 anos, que se fosse vivo, teria 100, sabia bem o que estava a dizer apesar de ter vivido sempre naquele pequeno meio. Possivelmente seria analfabeto, pois quando nasceu, escolas eram coisa que por ali não existia, o que, aliás, também hoje acontece.

Na altura eram quinze pessoas, incluindo quatro crianças. Segundo penso saber, já há uns anos que não vive lá ninguém, a não ser que o regresso badalado já tivesse tido lugar o que sinceramente, não acredito como o Sr. José Rodrigues nunca acreditou. E mais tarde ou mais cedo, as estevas apoderar-se-ão do “lugar perdido entre os montes, aqui descarnados, ali cobertos de vegetação agreste no inóspito nordeste do Algarve” como escreveu o jornalista.

JV

sábado, 15 de dezembro de 2012

Cerâmica de cozinha islâmica - Panela


 Apresentamos hoje uma panela do período islâmico (século XI / XII) recolhida na Villa Romana do Montinho das Laranjeiras, enquadrada na cerâmica de cozinha.

É decorada com pintura branca, mede de altura 14,7 cm e de diâmetro 19,4.

Encontra em exposição no Núcleo Museológico de Arqueologia no Castelo de Alcoutim.

Bem conservada assemelha-se bastante às panelas de barro ainda utilizadas pelos alcoutenejos na primeira metade do século passado para a confecção das suas refeições.

Foto de JV

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Gorani em Coimbra com os estudantes de Alcoutim (*)


Pequena nota

Como tínhamos dito, aqui está a transcrição de parte das páginas 124 e 125 do livro de José Gorani “Portugal –  A Corte e o Pais nos anos de 1765 a 1767”, Edição de 1945.

Além da referência ao contacto com os alcoutenejos, transcrevemos, igualmente, a impressões deixadas pela Universidade.

JV

 (...)

O Desembargador Figueira, tendo muito que fazer nesta cidade, deixou-me com o tempo mais que suficiente para visitar os amáveis jovens que me haviam acompanhado de Alcoutim a Aldeia Galega. Foi em Coimbra que estes simpáticos moços acabaram por, de todo, me fazer esquecer a sua leviandade. Prodigalizaram-me todas as provas da sua amizade sincera e proporcionaram-me o conhecimento das mais divinas belezas do Mondego.

Cidade de Coimbra

Excepto à hora das refeições, em que me cumpria acompanhar o Desembargador, o resto do meu tempo, enquanto permaneci em Coimbra, foi todo passado na companhia dos encantadores rapazes, para os quais não encontro suficiente elogio. Embora me custasse, tive, porém, de os deixar. Houve lágrimas! E, devo confessá-lo, não existe ninguém mais amável, mais nobre e mais desinteressado que um rapaz português. Se tivesse agora comigo os meus jornais de viagem, quantas coisas vos não poderia contar destes estudantes tão espirituosos, tão cheios de engenho e tão instruídos como admiravelmente comportados! Por eles conheci todos os professores, bem como muitos estudantes; toda a gente foi amabilíssima comigo.

Encontrei na Universidade antigas rotinas de Coimbra professores de grande saber. Embora fossem obrigados a seguir antigas rotinas, eles estavam a par de todas as descobertas feitas no estrangeiro. Em história natural, trabalhava-se ali superiormente e Buffon, que era um ídolo em França e noutros países, não o era na Universidade de Coimbra, onde chamavam à História Natural deste autor”o romance da Natureza”.

Desafio quem quer que seja de encontrar noutro país uma Universidade que se avantage à de Coimbra em arqueologia, grego, hebreu, caldaico e  árabe. Quase todas as lições era proferidas em latim e principalmente as de Moral, Medicina, Jurisprudência, Direito canónico, Sagradas Escrituras, História eclesiástica e Teológica. Assisti a algumas lições e adquiri o mais profundo apreço por este Universidade, onde todos os professores dispunham de grande liberdade.
D.Afonso IV

Mostraram-me, nesta Universidade, uma redução do estabelecimento que eu vira em Roma, mas em maior, no famoso Colégio da Propaganda fide. Este estabelecimento devia a sua origem a D. Afonso IV, que em 1348 já pensava na maneira de dilatar o Cristianismo e os seus domínios nos países longínquos. Este príncipe quis aproveitar a favor do Estado a virtuosa coragem e o zelo ardente dos religiosos, que já então se ofereciam para correr mares e terras em busca de prosélitos da sua religião e de fiéis súbditos dos seus reis. Existiam então muitas imprensas para dar à estampa os livros elementares dos idiomas dos povos bárbaros que estavam espalhados pela África, Ásia e América. Havia também uma biblioteca constituída por livros impressos em todas estas línguas, cartas, estampas e outras obras, de todos os géneros, que pudéssemos industriar os jovens que se desejassem aprontar para percorrer tais países com proveito próprio e do Estado .Mostraram-se outrossim cartas escritas pela mão deste mesmo D. Afonso IV e fizeram-me os maiores elogios de todos aqueles que se separam de pais, amigos e hábitos para ir ao fim do mundo levar a luz da religião de costumes e hábitos benignos, transportando-se a climas inóspitos, percorrendo países desconhecidos, sob o rigor do tempo, vencendo precipícios e atravessando desertos, sempre no risco de encontrar, por onde andam, a miséria e a doença – tudo para simplesmente humanizarem os selvagens. Mas este estabelecimento admirável, de que só os abusos são condenáveis, apenas floresceu até fim da primeira dinastia.

(...)

(*) Título da nossa responsabilidade.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

D. João III


 Esta excelente colecção dos Reis de Portugal lançada em boa hora por Temas e Debates apresenta-nos a biografia de D. João III de autoria da Doutora Ana Isabel Buescu.,

Com o formato de 17,5X25 cm, comporta 416 páginas e 26 fotografia a cores colocadas ao meio do volume entre as páginas 192 e 193.

Além de novos elementos que a investigação proporcionou, mostra em anexo 14 quadros temáticos elucidativos da época, seguidos de uma cronologia que abrange os acontecimentos importantes passados neste reinado, no Reino, nas Ilhas e Espaços Ultramarinos, na Europa e por último África, América e Ásia. Não deixa de apresentar como complemento as genealogias que o reinado motiva.

Além do Índice remissivo exibe uma relação extensa de Fontes e Bibliografia.

Alcoutim aparece referido quatro vezes, todas relacionadas com o título nobiliárquico: pág.. 43, D. Pedro de Meneses, futuro Conde de Alcoutim, discípulo dilecto do humanista italiano Cataldo, pág.123, que refere o féretro de D. Manuel com a presença entre outros do Conde de Alcoutim, pág.133, no juramento de fidelidade a D. João III, no qual esteve presente o Conde de Alcoutim e pág. 136, em que Gil Vicente põe em verso o que imagina ter pensado a fidalguia, na qual se encontra o Conde de Alcoutim.
 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Pequena análise sobre a colaboração de Daniel Teixeira


Vamos ter hoje a oportunidade de fazer uma pequena análise à colaboração de Daniel Teixeira nos moldes das que já efectuámos sobre as de Gaspar Santos e José Temudo.

Presentemente, Daniel Teixeira é o 2º colaborador com mais textos publicados e que somam 44, contra 61 de Gaspar Santos e 42 de José Temudo.

A sua disposição de colaborar com o A. L. tornou-se uma mais valia para este espaço por todo o potencial que encerra de ordem cultural, académica, memorial e jornalística.

Se tudo isto não bastasse, a sua escrita livre e escorreita oferece-nos quadros de grande realismo que absorvemos.

A área de observação é principalmente a “montanheira” com todos os seus problemas de sustentabilidade, de usos e tradições, do trabalho de sol a sol.

Nos quarenta e quatro textos aqui reproduzidos isso é notório e onde o realismo é palavra chave.

De nós e de todos os outros colaboradores, com excepção de M Dias, não é possível obter textos deste quilate, já que nenhum de nós teve essas vivências.

Sem Daniel Teixeira o ALCOUTIM LIVRE não seria o mesmo, pois apresentaria esta falha importante, aliás, como outras que não conseguimos suprir, como já temos referido.

Os artigos foram visitados com a especificidade já referida, pela seguinte ordem a nível de movimento:

1º - A MIGRAÇÃO NO CONCELHO DE ALCOUTIM (2010.02.24)

2º - CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES – XVI [Figos de pita, medicina caseira e bruxaria] (2011.11.06)

3º - CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES – XVIII [O galope do tempo] (2011.12.06)

4º - ALCOUTIM – RECORDAÇÕES – III [Não tem subtítulo] (2011.03.02)

5º - CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES – XXVI [Discurso sobre o figo de pita] (2012.04.21)

O 1º lugar é obtido por um estudo alargado sobre a temática e que constitui um dos mais procurados do ALCOUTIM LIVRE, tratando-se de um texto essencialmente técnico.

Depois vêm as crónicas com destaque para a XVI que aborda o figo de pita, assunto hoje muito badalado no Sul do país. Verifica-se, igualmente, que a 5ª posição é ocupada pela Crónica XXVI que novamente aborda o figo de pita.

Significa isto que tal temática está a merecer o interesse de muitos visitantes / leitores.

Pela nossa parte, confessamos que muito temos aprendido com os textos de Daniel Teixeira, ainda que alguns dos assuntos abordados fossem do nosso conhecimento, só agora tirei muitas dúvidas e cheguei a conclusões.

OBRIGADO DANIEL TEIXEIRA PELA VALIOSA COLABORAÇÃO.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Tecendo cilha


Quem teve a amabilidade de nos enviar esta e outras fotografias para publicação neste espaço e que muito o tem enriquecido não nos deu nenhuma dica sobre a mesma, a não ser que seja proveniente dos “montes do rio”.

Tê-lo-ia feito ou por desconhecimento ou para aquilatar o texto que sobre ela reproduzimos em função da nossa observação e deduções que poderão nada ter com a realidade.

Olhando para a fotografia várias coisas saltam à nossa vista.

Uma delas é a existência da cadeira bem típica da região e hoje quase desaparecida. A cadeira não está a ser utilizada para o que foi criada. Parece-nos que estará a servir de suporte para a feitura de cilha, ainda que nunca tivéssemos visto fazer tal coisa, mas a lição recentemente dada pelo colaborador Daniel Teixeira levou-me a tirar essa conclusão que esperamos esteja certa.

Não nos podia passar ao lado a existência do alguidar de zinco sobre o poial destinado aos banhos e encostado à parede da casa para escorrer.

Os figurantes que hipoteticamente poderão ser avós, filha e netos, sendo o fotógrafo o genro, prepararam-se para a foto, não tendo sido mesmo esquecido o chapéu e o lenço para o casal anfitrião.

Penteado e vestido da jovem fazem, naturalmente, a diferença e a “avó” não deixa de carinhosamente abraçar o neto, retribuição que a filha lhe faz.

O mais novinho e mais reguila parece estar um pouco desconfiado. Pelo seu trajar verifica-se bem que não são crianças criadas por ali.

Presumimos que possa ser fotografia tirada nos anos 40 / 50 do século passado.

Haverá alguma verdade em tudo isto?
 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O mercado do peixe



Escreve

Gaspar Santos




O mercado situava-se junto a esta  muralha.
Foto JV, 2010.

A vila de Alcoutim teve mercado do peixe até ao princípio da década de 40 do século passado. Estava encostado à muralha da capela, no lado nascente da Capela de Santo António, um pouco abaixo donde hoje é o Restaurante Soeiro. Foi demolido durante a construção do cais novo, para lhe dar melhor acesso.

O telheiro teria, na minha avaliação, cerca de 8 m por 5 m. Oito metros encostado e cinco metros saído da muralha. O solo era de pedra e não tinha bancas de venda. O telhado de telhas de canudo suportado por caniço e paus, apoiava-se por um lado à muralha e pelo outro em dois pequenos pilares de alvenaria. Um funcionário da Câmara Municipal procedia à sua limpeza deitando alguns baldes de água trazida do rio, que para lá regressava pela valeta.

Era aí que de manhã os próprios pescadores do rio ou um intermediário vendiam. Acabados de pescar vinham ainda vivos, ou pelo menos muito frescos barbos, muge, enguias ou, na época própria, lampreia (muito raramente) ou sável, saboga e machinho (muito abundante em Abril).

O peixe vindo do mar era vendido de manhã se era pescado no dia anterior e viajara durante a noite. No Verão, quando os vendedores aproveitavam os ventos intensos do sul e demoravam na viagem menos de três horas desde Vila Real, vendiam o peixe à tarde. Quase sempre vendiam carapaus, sardinha, cavala, sarda, ou besugos, salmonetes, robalos, chocos etc.

Com alguma frequência ocorria competição entre os vendedores. Para se despacharem para regressar a casa ou por já terem bebido um copo a mais, baixavam muito o preço e os consumidores não se faziam rogados, aproveitando.

Vi algumas vezes pessoas comprar um cento de carapaus por 20 centavos de escudo. Era para depois de salgados, secá-los ao sol pendurados num fio.

Durante a construção do cais este barracão foi sacrificado à estrada de acesso. A venda do peixe passou a fazer-se ao ar livre na Rua do Município, e nunca mais houve vontade, espaço e dinheiro para construir um mercado.

Ainda se chegou a ventilar a ideia de utilizar como novo mercado o espaço da Capela de Santo António, mas essa ideia foi esquecida e muito bem. A Vila de Alcoutim só alguns anos após o 25 de Abril de 1974 voltou a ter mercado outra vez.
 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Abelharuco


Abelharuco, abelheiro, abelhuco, barranqueiro, melharoco ou milheiros são alguns dos nomes que toma esta ave da família dos meropídeos que se alimentam principalmente de abelhas.

É bastante comum no sul da Europa e no norte de África e em terrenos abertos.

Tem plumagem de várias cores entre as quais castanho claro e escuro, amarelo, azul claro, verde, vermelho, além do preto e com a característica de serem brilhantes.

Em Portugal, é o Alentejo e regiões confinantes que procura, encontrando-se principalmente nas regiões de Évora, Elvas, Barrancos, Mourão, Castro Verde e Mértola e como tal em Alcoutim. Também é comum nas rias de Alvor e Formosa, assim como na Reserva de Castro Marim.

Tem um chamamento muito característico.

As espécies são mais de duas dezenas e classificam-se em dois géneros: a que nidifica na Europa e no Norte de África e migra para o Sul deste continente e a exclusivamente africana que nidifica na região do Cabo, migrando para o Norte e Centro deste continente.

As migrações têm lugar no período da reprodução.

A alimentação tem por base os insectos (abelhas e vespas) como o próprio nome indica, não lhe passando despercebidas as térmitas e os gafanhotos. As presas são caçadas em voo altos mas antes das ingerirem extraem-lhe o ferrão.

Vivem em colónias, mas algumas espécies em casais isolados. Os ninhos são feitos nas margens dos rios, onde escavam em túnel e as posturas contêm entre dois a seis ovos, os filhotes recebem cuidados dos progenitores no ninho durante um mês e depois durante cerca de três semanas.

É uma ave de tamanho médio e de cauda comprida.

A existência desta ave em Alcoutim foi-nos indicada pelos colaboradores Gaspar Santos e Amílcar Felício. Este último informou-nos que sobrevoavam a vila em bandos a altura considerável e que nidificavam para os lados do Pego do Corvo, na Ribeira de Cadavais, onde se deslocava para as poder observar mais de perto.
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Aves de Portugal e Europa., Bertel Bruun, Hákan Delin e Lars Svensson, 22ª Edição, 1995
Atlas das aves nidificantes em Portugal – (1999 – 2005), ICNB, 2008