terça-feira, 30 de março de 2010

Uma pequena aventura nas Festas de Sanlúcar



Escreve

José Miguel Nunes


Há “estórias” que só se podem contar passados alguns anos, esta é uma delas.
Recuemos então 23 anos, até 1987. Eram as férias da Páscoa, e como acontecia todos os anos encontrava-me em Alcoutim a passar esses dias. As festas de Sanlúcar são por essa altura, e nesse ano coincidiram com os dias em que aí estava, pois nem sempre acontecia, umas vezes, um ou dois dias antes de chegar, outras vezes, um ou dois dias depois de me vir embora.

[Virgem de La Rábida]

Tal como os espanhóis não falham as Festas de Alcoutim em Setembro, também nós não falhamos as deles, e claro, depois de jantar, lá pelas oito, nove horas, atravessámos o Guadiana em direcção a Espanha.

Nessa noite lá fomos nós em grupo até Sanlúcar, sinceramente já não me lembro nem quem, nem quantos éramos ao certo, mas entre amigos residentes em Alcoutim e outros vindo de fora, talvez fossemos aí uma dezena.

A festa estava animada em Sanlúcar, e claro o pessoal acabou por se dispersar, formando grupos mais pequenos. Uma “canha” aqui, uma “tapa” ali, com mais dois dedos de conversa, preferencialmente com alguma espanholita que sorrisse a uma piscadela de olho, lá iam passando as horas, sem que nos déssemos conta disso.

[Cais de Sanlúcar em 1986. Foto de JV]

Eu tinha ficado com o..., chamemos-lhe J.A., e a determinada altura demos conta que já não estava por ali ninguém do pessoal, aliás, já estava muito pouca gente na rua, olhámos para o relógio e a hora marcava já umas quatro da manhã, portuguesas, pois na hora espanhola, temos que acrescentar mais uma. Bem, dirigimo-nos até ao cais na esperança de ainda por lá estar alguém que nos levasse para Alcoutim, mas nem vivalma.

Depois de alguma conversa do que iríamos fazer, o J.A., residente na vila, sabia onde morava o barqueiro, e queria ir lá bater à porta, para ele nos ir levar a Portugal, ao que eu lhe dizia que era melhor não, pois já era tarde e ainda íamos arranjar confusão, mas ele tanto insistiu que lá fomos. Claro que ninguém abriu a porta.

[Alcoutim e Sanlúcar num óleo de JV, 1973]

Com isto, mais uma hora tinha passado. Viemos novamente para o cais e sentámo-nos nas escadas ao pé do rio, determinados a aguentar até de manhã e esperar que o barqueiro se levantasse e nos fosse levar. O grande problema é que o frio começava a apertar e tínhamos ainda pelo menos umas duas ou três horas de espera pela frente.
Começam então a germinar ideias para resolvermos a situação em que estávamos. O plano era simples: levar um barco dos que estavam atracados no cais, e a remos atravessávamos o rio, chegados a Alcoutim, íamos comer qualquer coisa a minha casa (onde eu estava sozinho, pois os meus pais ficavam em Afonso Vicente), vestíamos uma roupa mais quente e voltaríamos a Sanlúcar antes de nascer o dia, para depois regressarmos com o barqueiro e assim ninguém dava por nada … era o plano perfeito.
Bem pensado, melhor feito, agarrámos no barco e atravessámos o rio, ainda demos um pequeno encosto num iate que estava ancorado no meio do rio, mas nada de especial, acho que nem os tripulantes acordaram. Chegados à margem portuguesa, atracámos no cais velho, amarrámos bem o barco com uma das amarrações presa ao cais novo, e pusemo-nos a caminho de minha casa. A vila estava deserta, corria tudo às mil maravilhas. Comemos, vestimos uma roupinha mais quente, e preparávamo-nos para cumprir a segunda parte do plano, que basicamente era voltar a Espanha e deixar o barco no local de onde o tínhamos tirado. Como ainda tínhamos tempo, decidimos esperar mais um pouco, resultado, adormecemos…, acordámos já passava bem da hora de almoço. Bom, não tínhamos ido levar o barco, e isso ia dar alguma confusão na vila, pensámos nós, mas como ninguém nos tinha visto, até nem estávamos muito preocupados, não tínhamos estragado nada, só tínhamos trazido um barco “emprestado”, portanto, era só devolve-lo, nada mais simples.

[O cais novo nos dias de hoje. Foto JV]

Decidimos então ir até lá abaixo ver se se passava alguma coisa. Ao chegarmos à Sociedade, logo encontrámos pessoal amigo que nos contam que o alarido era grande, pois alguém tinha roubado um barco em Espanha e que este tinha ficado pendurado no cais, pois quem o tinha feito, não tinha dado folga suficiente na amarração a fazer conta com o vazar da maré. Logicamente este pormenor não fazia parte do nosso plano, pois não tínhamos previsto adormecer.

Já no café do Carlos e com a Guarda Fiscal à mistura, invadiram-nos de perguntas, como tínhamos vindo, a que horas, com quem, ao que nós lá íamos respondendo conforme podíamos. Sem nos contradizermos, lá conseguimos sem grande dificuldade engendrar uma história mais ou menos fiável que nos ilibou daquela situação. Problema resolvido.

Pouco depois, e já estávamos nós descansados, chega-me aos ouvidos que alguém tinha visto alguma coisa: dois moços a chegar de barco já madrugada dentro. A coisa começou a complicar-se outra vez, mas esse alguém era e ainda é muito meu amigo, e tinha-nos realmente visto chegar e reconheceu-nos, conforme me disse, no entanto,não foi muito difícil depois de uma pequena conversa, convencê-lo a não nos denunciar.
Lá se entregou o barco aos espanhóis e passados uns dias já ninguém falava do assunto. Ficou apenas a recordação de mais uma aventura em Alcoutim.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O lampião



Este é um dos utensílios, embora caído em desuso, ainda vai aparecendo à venda em estabelecimentos comerciais, nomeadamente drogarias. Se isso acontece, é porque há quem compre para uso.

O apresentado na foto, já velhinho mas ainda funcional, se for preciso, é mesmo do concelho de Alcoutim.

Chamava-lhe naturalmente candeeiro, como é, mas era natural que tivesse outra designação local para o distinguir dos outros.

Peguei no telefone e fui à minha informadora destes assuntos, já octogenária, nascida e criada num monte de Alcoutim, onde vive. A resposta foi rápida e sem qualquer dúvida: É UM LAMPIÃO.

Fiquei assim em condições para desenvolver o tema já que o resto é do meu conhecimento observativo, pois não me lembro de alguma vez me ter servido de tal objecto.

Lampião é definido nos dicionários por grande lanterna portátil ou fixa num tecto, esquina ou parede o que se ajusta perfeitamente a esta peça utilitária.

Antes de 1965 as ruas da Vila eram iluminadas por lampiões fixos a esquinas ou paredes.

Os lampiões dos “montes” eram estes candeeiros a petróleo, portáteis, com uma pega no cimo. O funcionamento para a produção de “luz” era muito semelhante ao que referimos quanto aos candeeiros de casa que já aqui abordámos, com torcida e obedecendo aos mesmos cuidados. Nestes, o que equivale à chaminé é igualmente de vidro mas mais robusto e certamente de tratamento diferente para suportar a diferença de temperatura e partir-se com mais dificuldade.

Este vidro era protegido por um arame forte em cruz cujo movimento fazia subi-lo para poder acender a torcida e logo se fazia baixar para não se apagar.

A configuração do lampião proporcionava duas protecções para evitar pancadas na chaminé.

O lampião era o candeeiro de rua que ajudava as pessoas a deslocarem-se de noite para a realização de tarefas, sendo das mais importantes o tratamento dos animais. Tinha a vantagem de com ele ser mais difícil o aparecimento de incêndio num local onde existia palha e outros elementos de fácil combustão.

Para outras deslocações, as pessoas do monte podiam corrê-lo todo sem lampião, que não punham o pé numa poça! Os outros, saltavam de uma e caíam noutra, como a mim me acontecia.

Tal como o candeeiro de casa, o tipo de lampião não era uniforme, tinha algumas variantes, possivelmente dependente do fabricante.

domingo, 28 de março de 2010

Português me confesso... ...com orgulho!

Pequena nota

É com prazer que partilhamos com os nossos visitantes / leitores um dos belos poemas que o nosso colega de profissão, colaborador deste ALCOUTIM LIVRE e amigo teve a amabilidade de nos oferecer, a mim e a minha mulher.
JV




Em vez das tradicionais amêndoas, é com muito gosto que vos envio dois simples poemas cuja virtude residirá unicamente no facto de irem contra a corrente dos sentimentos de desânimo, de descrença em nós próprios e, até, de algum desamor pátrio que grassam entre nós nestes tempos difíceis que estamos a viver.
Com os poemas, vão os votos sinceros e amigos de uma Páscoa alegre e feliz gozada na companhia daqueles que mais amais.









Vila do Conde, Páscoa de 2010.









Poeta

José Temudo





SER PORTUGUÊS

Um dia, se puder,
nesse dia, se souber,
com alegria, hei-de dizer,
sem “mas” e sem “talvez”,
o orgulho imenso,
sentido e tenso,
em ser português!

Hei-de falar do que somos,
sem esquecer o que fomos.

Hei-de lembrar os castelos
altaneiros, rudes mas belos,
que erguemos ou conquistámos,
que perdemos e reconquistámos.

Não esquecerei cada palmo de terra que ganhámos,
e dos rios de sangue que por eles pagámos.

Recordarei os que, um dia, sonharam
-Homens de Estado, de Deus e do Povo -
e, determinados, abalaram
em busca de um Mundo Novo!

Hei-de falar dos mares que afrontámos,
dos caminhos que abrimos,
das terras distantes a que aportámos,
das ilhas que descobrimos!

Hei-de falar das fomes que passámos,
das doenças que sofremos,
das mortes que chorámos,
das saudades que tivemos!

Lembrarei as raças que conhecemos,
com que comerciámos,
a que ensinámos,
com quem aprendemos,
que nos estimaram,
com quem nos cruzámos!

E falarei daqueles com quem lutámos,
a quem muito roubámos,
que nos odiaram,
que nos esqueceram.

Hei-de falar da língua que criámos,
e que pelo mundo divulgámos!

Falarei dos trovadores,
dos poetas, dos provadores,
dos cronistas, dos historiadores!

Sim, um dia hei-de falar,
com orgulho, satisfeito,
deste povo singular,
de mil raças feito!

Se eu ainda puder,
se for capaz, se souber,
um dia, hei-de contar!


Vila do Conde, 10 de Outubro de 2009

sábado, 27 de março de 2010

Pego dos Penedos


A foto que ilustra esta nossa rubrica foi tirada em Agosto de 1992 sendo a resultante da habilidade do homem, da máquina e do tempo. Teria sido necessário chegar antes que o sol tivesse proporcionado aquelas sombras que lhe roubam nitidez.

Algumas ribeiras e os maiores barrancos do concelho originam pegos na época estival (pequenos reservatórios de água) que se tornam muito úteis para as populações das redondezas, hoje quase extintas.

Desde o alagar do linho ao lavar da roupa, passando pelo dar de beber aos rebanhos, para tudo serviam.

Apareciam por vezes situações de conflito, tendo a edilidade, por intermédio de posturas, regularizar as situações, determinando coimas para quem as não cumprisse.

Todos os pegos possuem os respectivos nomes para poderem ser identificados com mais facilidade.

O pego que apresentamos é como o título indica, o Pego dos Penedos e o seu topónimo não precisa de explicação, tal a evidência.

As penedias que o envolvem são de grande beleza, ora pelas tonalidades que apresentam ora pelos efeitos que a acção erosiva das águas, por vezes impetuosas (barrancadas) e durante milénios, têm provocado.

Outro aspecto que chama a atenção é o das plantas aquáticas que o cercam.

O murmurar de um pequeno fio de água correndo entre as rochas dá-lhe uma nostalgia impressionante. O seu fundo em rocha, que as águas moldaram, vê-se com plena nitidez, tal a transparência das suas águas.

Restará dizer que se encontra no Barranco do Tamujoso, oriundo de Santa Marta e é afluente da Ribeira do Vascão. Diz o povo que o conhece que tem água todo o ano.

Bebedouro da caça será hoje a sua maior utilidade.

Não me consta que haja informação turística sobre esta beleza natural.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Uma viagem pela EN 122 em 1945 -Como eram a camioneta, a estrada, e as pontes

Pequena nota

Mais um magnífico trabalho do nosso Amigo e colaborador que nos dá a sua visão de criança observadora e que o decorrer dos anos, não diluiu.
Ainda que já me tivesse sido contado uma versão, por pereirenses, esta retrata com pormenores engraçados e próprios da época, em que não falta o aviso do Sr. Francisco do Rosário.

JV






Escreve

Gaspar Santos




Em Junho de 1945 fui à Cidade de Faro pela primeira vez. Ia fazer exame de admissão ao liceu. Até Vila Real Santo António pela EN 122, depois até Faro de comboio. Tem hoje interesse referir apenas a viagem até Vila Real Santo António.

A estrada não era alcatroada. Era em Mac Adam (macadame)uma mistura de pedra britada e terra compactada e pressurizada pela passagem de um pesado cilindro. Levantava-se uma enorme poeira que entrava pelas frinchas da camioneta, depositava-se nas roupas e nos narizes. Havia mesmo alguns homens, mais preocupados com o seu aspecto, que viajavam envergando por cima do fato um ridículo guarda pó cinzento com riscas pretas.

O João Marques, que veio a casar com uma jovem do Pereiro, conduzia bem e era bom mecânico. Tinha essas duas qualidades que eram imprescindíveis nesses tempos. As estradas eram muito perigosas, com mau piso e muitas curvas. Na aproximação das ribeiras da Foupana e de Odeleite a sucessão das curvas resultava num “caracol” que punha à vista verdadeiros precipícios. As camionetas de tecnologia ainda muito mal dominada, sujeitas a avarias frequentes, exigiam que o motorista fosse capaz de se desenvencilhar também da parte mecânica.

O ajudante desse motorista ou revisor como se dizia nesse tempo era o Victor, um nosso velho conhecido. Fora empregado de lavoura da D. Carmem Caimoto e vivera na Rua das Flores em frente do nosso quintal nas instalações que nós conhecíamos como o palheiro do Victor.

A camioneta equipada com motor de explosão a gasolina, fora adaptada para consumir gasogénio. Um combustível a que, devido à falta da gasolina, se recorreu durante a guerra e que tinha origem no carvão vegetal. Este veículo tinha atrás uns cilindros semelhantes a panelas gigantes. Um cilindro onde o carvão ardia de maneira incompleta e, por não arder completamente, libertava uma mistura de dois gases. Um desses gases era o monóxido de carbono (ainda combustível), o outro era o bióxido de carbono já não combustível. Os outros cilindros constituíam filtros para separar a cinza dos gases.

[A camioneta que o autor descreve]

Este equipamento traseiro do veículo, ainda por cima complementado com uma escada para acesso ao tejadilho onde se acondicionavam as bagagens, prestava-se lindamente para a miudagem na Vila se pendurar e, na galhofa viajar umas dezenas de metros, às vezes até ao celeiro ou até à curva seguinte.

Era uma trabalheira fazer o motor funcionar com este combustível. Logo de manhã, para o arranque da caldeira havia que atestar de carvão e iniciar a sua demorada queima. Depois era necessário rodar uma manivela para aspirar a mistura até que esta já estivesse combustível, facto que o motorista testava com um isqueiro. Só depois o motor tinha condições para arrancar.

Este gás tinha pouco poder calorífico. Por isso a camioneta andava muito de vagar nas subidas, o motor aquecia muito, sendo necessário atestar a água de arrefecimento do radiador a cada 10 km andados.

As Ribeiras da Foupana, do Odeleite e do Beliche não tinham ponte. A sua travessia fazia-se dentro do leito das ribeiras sobre uma calçada, que também tinha umas passadeiras para peões. À falta de melhor, estas passadeiras indicavam em cada momento o nível das águas. O atravessamento no Inverno às vezes com caudais maiores dava problemas. Vezes houve em que as camionetas empanaram no meio da enxurrada e as pessoas cheias de medo tiveram que ser evacuadas, saindo pelas janelas. Pelo contrário no Verão com pouco mais de 20 cm de altura de água corrente não havia essa preocupação.

A camioneta, nesta minha viagem, como era habitual, teve outros problemas. Na saída do leito das ribeiras da Foupana e Odeleite devido ao íngreme da estrada o motor não tinha força para subir com os passageiros lá dentro. Assim as pessoas tinham que sair e durante 200 ou 300 m seguiam atrás do veículo e alguns até o empurravam. E foi assim comigo e outros passageiros. Só subiram aquelas rampas na camioneta as pessoas mais inválidas e senhoras que não quiseram sair. Na viagem de regresso, passados alguns dias, esta cena repetiu-se. E estas experiências tiveram-na as pessoas nesse tempo até surgir a tecnologia Diesel e o gasóleo.

Antes da Guerra (1939/45) Alcoutim era servida por camionetas a gasolina da Empresa Pilar de Tavira. Com a Guerra escasseou a gasolina e recorreu-se ao carvão/gasogénio nas carreiras da Empresa Rodoviária, com sede em Olhão. Só depois da Guerra surgiu a moderna tecnologia das camionetas a gasóleo – o motor Diesel.

[O IC 27 que proporciona hoje uma boa ligação entre Alcoutim e Vila Real de Sto. António]

Finalmente uma referência aos horários das camionetas. A Vila era ponto de passagem. A carreira tinha início de manhã na Aldeia do Pereiro, passava por Alcoutim e terminava em Vila Real de Santo António. À tarde fazia o percurso inverso. Tinha um horário, de manhã razoavelmente cumprido, caso o Senhor Francisco do Rosário não viajasse para Vila Real e mandasse informar o motorista: “Espere só um minuto que o Senhor Rosário ainda vai tomar banho”. Á tarde, quase no fim de percurso, a descontracção era maior. Muitos dias o João Marques atrasava-se a desempanar um automóvel ou moto ou por outro motivo. Mas as pessoas conformavam-se e não protestavam.

Hoje parece mentira como nos transportávamos naquele tempo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Os primórdios do ensino na Vila de Alcoutim

Ao cidadão espanhol, Carlos Vieira, descendente por linha colateral do Prof. Simão Vieira


[Rainha D. Maria II]
O ensino primário é instituído em Alcoutim no ano de 1840.

Por Mercê de D. Maria II, A Educadora, datada de 17 de Janeiro daquele ano e registada no liv.11, fl. 232 e 232 v. é passada Carta de Professor proprietário da Cadeira de Ensino Primário de Alcoutim, a Francisco José de Barros. (1)

Em 4 de Junho de 1851, por isso, onze anos depois aparece-nos um Francisco José de Barros, por Carta Régia, nomeado Sub-Director da Alfândega de Alcoutim, admitindo nós que se possa tratar da mesma pessoa, mas é difícil afirmá-lo já que por essas alturas havia com frequência nomes iguais, nem sempre distinguidos com Júnior ou Sénior.

Esta situação já nos tem levado a grandes confusões.

Em 1866 é rejeitada a criação de uma cadeira ou escola de Francês ou Inglês, princípios gerais de Administração Pública, Economia Política ou Industrial, atendendo à repugnância quase geral que se dá nos habitantes deste concelho relativamente à instrução.

Tal escola, a ser criada, ficaria sem alunos.







[O benemérito Conde de Ferreira]

Logo a seguir a Câmara não aceita também o legado de 1.200$000 réis do Conde Ferreira para o edifício escolar, alegando o fraco recurso do cofre Municipal, a pequenez da terra e diminuto número de alunos. O Governo Civil perfilha também esta opinião.

[Um dos primeiros locais onde funcionou a Escola Masculino]
Em 1873 a mesma autoridade faz sentir à Câmara a necessidade desta pedir a criação de uma escola primária para o sexo feminino no concelho. Analisado o assunto em Sessão de Câmara, esta acaba por aproveitar a ideia e deliberar solicitar a criação de uma escola de meninas nesta vila, oferecendo para o efeito, casa e mobília para a mesma. Para justificar o seu pedido, informa que a freguesia tem 2385 almas em 715 fogos, que existem nela 195 meninas entre os seis e os catorze anos e que a distância a que fica a escola mais próxima é de 30 km. Possivelmente referiam-se a Mértola ou a Vila Real de S.to António.

Em Sessão de 5 de Abril do ano seguinte, o vereador Torres declara que se apresentava um bom ensejo para obter casa para a escola de meninas que tinha sido criada no ano anterior e que ainda não tinha sido posta a concurso, nem se poria, enquanto a Câmara não mostrasse ter casa e os utensílios necessários. O Rev. Prior da freguesia (P. António José Madeira de Freitas, sobrinho) estava arranjando umas casas no Largo da Igreja e que tendo todo o empenho em que a escola fosse provida, não tem dúvidas em arranjá-la de modo a satisfazer os fins em vista. E é logo adiantada a renda de mil réis mensais.

[Local onde funcionou a 1ª Escola Feminina de Alcoutim]
A 12 de Novembro de 1874 já a escola para as meninas está pronta a funcionar, pois é enviado um auto de inspecção da mesma em que se declara a sua conformidade.

Este edifício já não existe e no testamento do seu proprietário é indicado como “casas nobres”. Foi derrubado depois de 1977 para um empreendimento turístico que nunca chegou a funcionar. Nesse local encontra-se hoje a Farmácia Caimoto.

A sala de aula tinha 5,85 m de comprimento por 3,85 de largura, sendo a altura de 3,37 m. Não era contudo, assoalhada. Em 1876 frequentada por 16 alunas e regida pela professora temporária, Teresa de Jesus Maria Almeida que tomou posse em 1 de Junho de 1875, inaugurando a escola.

A escola do sexo masculino, apesar de ter uma maior frequência, 19 alunos, era bem pequena. Funcionava nesta altura nos baixos da Câmara e era regida pelo professor, também temporário, António Simão Vieira.

Em 23 de Dezembro de 1875, o médico José Maria Alves Cardoso e outros cidadãos requerem a criação de uma escola nocturna para o ensino de adultos. Na Sessão de 14 do mês seguinte a Câmara limitou-se a louvar o pensamento dos requerentes.

[Capela de Sto. António onde funcionou provisoriamente a escola dos rapazes]
Devido à grande enchente do Guadiana em Dezembro, de 1876, a escola de meninas passou a funcionar “na casa que se poude arranjar” e a do sexo masculino não funcionava por ainda não estar pronta a Capela de S.to António, mas dentro de dois ou três dias se abrirá, segundo informa o Administrador do Concelho.

A escola masculina foi transferida da Capela de S.to António para uma casa situada na Rua do Esteiro, pertencente à viúva e filho de Paulo José Lopes, pagando-se de aluguer 1100 réis por mês. Contudo, o professor não aceita de bom grado a mudança, tendo-se gerado grande polémica.

O Administrador justifica-se perante o Governador Civil do seguinte modo: “Em tempo algum a Câmara contraiu obrigação de dar casa para escola. O respectivo professor fazia-a na sua residência. Como o novo mestre não tivesse casa capaz para o efeito, a Câmara cedeu uma térrea nos Paços do Concelho. A casa que agora alugou é melhor que a anterior e serviu já muitos anos de casa escolar no tempo do professor, Francisco de Barros.”

Dias depois, 31 de Agosto de 1877, o professor apresenta-se a requisitar as chaves e iniciar as aulas.

O prof. Vieira mostra-se um homem activo (não só na política) e oficia à Câmara expondo as grandes vantagens de se adoptar nas escolas o método de ensino de João de Deus. Apresenta um alvitre compatível, segundo ele, com os fracos recursos do Município, para o sobredito método poder difundir-se neste concelho. A Câmara mandaria a Faro um professor leccionar-se no dito sistema pois naquela cidade está pessoa habilitada oficialmente a fazê-lo. Depois, o referido professor viria ensinar os demais existentes no concelho.

A Câmara foi deixando o assunto de sessão para sessão e nunca mais resolveu.

O prof. Simão Vieira, de ideias republicanas, deixa de exercer funções em 21 de Fevereiro de 1884, certamente por pressões políticas e é substituído por Francisco Dias de Almeida. (2)

Em 28 de Junho de 1928 toma posse uma comissão administrativa das escolas, constituída por Manuel José da Trindade e Lima, professor, Dr. José Pedro Cunha, médico e José Ildefonso, comerciante.

[Edifício Escolar construído nos inícios do Estado Novo]
Pensamos que é por estas alturas que se constrói a escola da vila que serviu até aos inícios da década de setenta e que hoje alberga dependências dos serviços de obras da Câmara, Junta de Freguesia e no rés-do-chão os serviços de Tesouraria e de Águas do Município além do Posto de Turismo que ocupou a residência do professor após as devidas adaptações.

A Comissão Administrativa da Câmara Municipal nomeada pelo “Estado Novo” criou variadíssimos postos escolares espalhados por todo o concelho e alguns deles vieram a transformar-se em Escolas, mas este assunto não se insere neste trabalho.


NOTAS(1) – ANTT – PT-TT-RGM/h/200787 (Registo Geral das Mercês do Reinado de D. Maria II).
(2) – “ Um século de ensino escolar no concelho de Alcoutim (1840-1940)”, in Jornal do Algarve de 4 de ril de 1991.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Luís Cunha

Pequena nota

Aproveitamos esta rubrica “Figuras do Baixo Guadiana” para simultaneamente apresentar o último colaborador (a título póstumo) do ALCOUTIM LIVRE.
A sugestão foi lançada pelo colaborador Gaspar Santos que bem conheceu Luís Cunha e sempre o admirou. Não a podíamos deixar de apoiar e logo inserimos a sua fotografia no lugar devido.
Temos a certeza de que se tivesse sido possível a existência do ALCOUTIM LIVRE no seu tempo, estaria desde a primeira hora ao nosso lado com os seus textos sucintos mas profundos e em defesa da sua terra natal que muito amava.
Luís Cunha que fixou residência nos arredores de Faro e não em Alcoutim poderá ser visto por personagens retrógradas como não amante enão defensor da sua terra, mas isso são conversas sem clarividência e de objectividade duvidosa.

JV




Nasceu na vila de Alcoutim em 8 de Janeiro de 1911.

Filho do Dr. José Pedro Cunha e de D. Domingas da Palma, fez a instrução primária na sua terra natal, tendo sido aluno do prof. Trindade e Lima e iniciou o curso liceal na cidade de Faro, concluindo o sétimo ano no Liceu do Funchal.

Vem para Lisboa onde se matricula na Escola Superior Colonial, curso que concluiu apesar das divergências frequentes com a orientação rígida do corpo docente.

No dia 3 de Fevereiro de 1940, apesar da grande cheia do Guadiana, toma o “gasolina” e vem à terra natal despedir-se de familiares e amigos pois ia tomar rumo a Moçambique, iniciando a sua brilhante carreira profissional.

Exerce funções nos distritos de Manica e Sofala, Zambézia e Gaza, aposentando-se como Intendente Administrativo. (1)

De uma cultura fora do comum, era pena fluente que bastante escreveu em louvor e defesa da sua terra, deixando colaboração no Diário Popular (2), Jornal do Algarve e provavelmente em outros.

Tivemos o prazer e a ventura de ser seu amigo. Muito conversámos. Aceitou sempre a crítica mordaz que fazíamos sobre a sua terra, dizia-nos que tínhamos razão naquilo que afirmávamos, mas que nos faltava conhecer o outro lado, o que um dia havia de acontecer, como efectivamente aconteceu.

Esperávamos sempre um pelo outro para disputarmos o cafezinho num dramático jogo de trinta e um que na maior parte das vezes nos obrigava a perder à forçada tal o conhecimento que tínhamos da maneira de jogar um do outro!

Em carta que nos endereçou, datada de Faro a 29 de Janeiro de 1974, comentava: Sabe que eu, embora lhe pareça o contrário, não tenho grandes coisas mais a dizer sobre Alcoutim, porque já tudo me esquece e não escrevi quando devia.
A frontalidade que o caracterizava causou-lhe alguns dissabores, mesmo a nível profissional, mas cimentou o seu carácter.

De uma honestidade intocável, simples e bondoso, conhecia a sua terra e o seu povo como ninguém.

[Última Casa que habitou a Família Cunha na Rua da Misericórdia. Des. de JV]

Presidiu aos destinos camarários desde 4 de Maio de 1967 a 3 de Abril de 1969.

Não se sentia, como nos confessava, nada vocacionado para tal missão que aceitou desempenhar a muito custo e em situação muito especial.

Um dia o Governador Civil convoca-o para uma reunião na qual lhe transmite a grande notícia da construção de umas tantas escolas no concelho. Luís Cunha ficou praticamente indiferente, o que levou o Governador a perguntar:- Então estou a dar-lhe esta notícia que muitos colegas seus queriam ouvir e não fica satisfeito?!

Luís Cunha, com o conhecimento que tinha do seu concelho e com o sentido de equilíbrio que o caracterizava, comentou:- Senhor Governador, essas escolas deviam de ter ido para o meu concelho quando eu andava à escola, quando estava povoado, quando não havia estradas , quando as crianças que viviam nos montes eram muitas e não aprendiam a ler por falta de escolas e professores. Agora que o concelho está a ficar sem gente e que as crianças vão rareando, as escolas de muito pouco servirão, ficarão devolutas dentro de muito pouco tempo, gasta-se o dinheiro e a sua manutenção fica constituindo um encargo para o município que não tem meios para o suportar.

Foi mais ou menos assim que Luís Cunha respondeu ao Governador e meia dúzia de anos depois as suas palavras estavam completamente provadas.

Adorava calcorrear os serros de xisto, de espingarda às costas, mesmo que não desse um tiro, sentar-se junto do paredão do velho cais, esperando que o peixe picasse, sentir junto à lareira o calor consolador da esteva crepitante ou saborear um prato regional que não trocava a qualquer outro e em que as irmãs eram exímias.

Faleceu na cidade de Faro a 16 de Janeiro de 1981 onde passou os últimos anos.

As lajes de xisto de várias tonalidades utilizadas na vivenda que mandou construir nos arredores de Faro, eram oriundas de uma sua propriedade situada em Alcoutim. Queria sentir algo da sua terra, bem perto de si, prestando-lhe assim uma homenagem.


NOTAS

(1)-Dados biográficos fornecidos por sua irmã, D. Clarisse Cunha, nossa saudosa amiga.
(2)-Acontece que o correspondente do Diário Popular era seu cunhado. Os artigos foram escritos por Luís Cunha mas enviados pelo correspondente que nessa qualidade veio a ser contemplado em Abril de 1968 com um prémio monetário, atribuído a nível nacional.

NB
Texto extraído de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 2ª Edição, em preparação.

domingo, 21 de março de 2010

Fontes de Zambujo montes do sul da Freguesia do Pereiro

Iremos hoje abordar estas três pequenas povoações relativamente perto umas das outras e que se distinguem, como é habitual, por de Cima, de Baixo e do Meio.

As Memórias Paroquiais (1758) apresentam-nas no seu conjunto tal como indicamos.

Situam-se como o título refere na parte sul de freguesia, aquela que sem dúvida tem melhores solos no aspecto agrícola e é por lá que se encontra o maior e melhor número de árvores, principalmente oliveiras e azinheiras.

Enquanto no nosso trabalho, A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», 2007, fizemos a abordagem separada, aqui vamos fazê-la em conjunto até porque há dados que são fornecidos sem qualquer distinção.

Para as encontrarmos, uma vez na sede de freguesia, a aldeia do Pereiro, tomamos já dentro dela o caminho municipal nº 1051 e que foi concluído em 1988.

Passamos o Barranco da Aldeia e depois o da Fornalha. Deixamos à direita dois moinhos há muito desactivados e mais adiante o despovoado monte da Silveira.

A estrada ainda que estreita é asfaltada e suficiente para o movimento que suporta. Foi repavimentada em 2001. (1)

Começa-se a descer e as oliveiras a aparecer nos terrenos mais baixos, enquanto nas encostas algumas amendoeiras.

Um pequeno desvio à esquerda leva-nos a um “monte” situado bem no alto de um cerro, estamos na Fonte Zambujo de Cima.

[Fonte Zambujo de Cima, 1992. Foto JV]

Grandes “arramadas”próprias de antigo lavrador local para recolha dos animais que trabalhavam a terra. Além dos burros, machos e mulas o lavrador não dispensava um macho bem gordo e aparelhado que o conduzia onde necessitava, aldeia, vila e montes circunvizinhos e que constituía um sinal de abastança.

[Chaminé de 1967. Foto JV, 1992]
Junto ao “monte” ainda havia terrenos limpos e produtivos. Uma eira e chaminé interessante datada de 1967.

Energia eléctrica só depois do 25 de Abril. A água foi distribuída por cinco fontanários e levada ao domicílio em 2005(2). Existiam três furos artesianos particulares.

As ruas da povoação foram pavimentadas em 1993 e colocado painel de caixas do correio em 1996.

Fica a 4 km do Pereiro.

A pastorícia era actividade importante para os moradores, 15 em 1991 e 11 dez anos depois, segundo os censos populacionais. Já em 1771 o era como provam os manifestos feitos por António Rodrigues, João da Palma Cavaco e Manuel Lourenço e constituído por centenas de cabeças, nomeadamente cabras e ovelhas.(3)

As Memórias Paroquiais (1758) referem como produtos da terra trigo, cevada, centeio e linho (quesito 15).

[Fonte Zambujo de Cima, 2006. Foto JV]

A nível histórico referimos que com o liberalismo, António Gonçalves, natural de Alcaria Ruiva, concelho de Mértola, e que veio casar com a filha de um lavrador local (Ana Cavaco) (4), presidiu à Junta de Paróquia entre 1835/38 e em 1839 era o Procurador Fiscal na Câmara de Alcoutim. Em 1850/51, exerceu o cargo de Juiz Eleito da freguesia em que residia.

Foi vereador na Câmara de Alcoutim pelo menos em 1854 tendo assumido a presidência da mesma entre 1855/58.

António Cavaco e José Guerreiro eram dos maiores contribuintes da freguesia.

Igualmente em 1858, António Botelho pertencia à Junta de Paróquia e José Guerreiro foi Juiz Eleito em 1854.

O já referido António Cavaco ou outro com o mesmo nome, juntamente com outros lavradores da freguesia, em 1891, comprometeram-se a adiantar “verbas que estavam em falta por alguns fregueses”, a fim dos serviços da padroeira (igreja matriz) poderem funcionar até ao pagamento das importâncias em falta, isto desde que a Junta de Paróquia não lançasse por enquanto a contribuição (derrama) que a lei lhe facultava.(5)

Fomos procurar a segunda Fonte de Zambujo. Voltámos a percorrer em sentido inverso o pequeno ramal que nos tinha levado ao monte de Cima, voltando assim à estrada municipal 1051. Mil metros andados encontramos o pequeno núcleo populacional que procuramos. Era lá que se encontrava, por ter uma posição central, a escola do ensino primário que reunia as crianças dos “montes” próximos, desactivada em 1982 por falta de alunos e aproveitada, após restauro e adaptação, para núcleo museológico, A Construção da Memória, inaugurado em Junho de 1998 (6) mas depressa encerrado como não podia deixar de ser.

Ainda havia (1992) um rebanho de 100 ovelhas. Dois fontanários para três moradores.

Em 1931 foram concedidos 500$00 para arranjo do poço existente, trabalho fiscalizado pelo vereador da Comissão Administrativa da Câmara, José Teixeira.(7)

[Lombada ou Fonte Zambujo do Meio. Foto JV, 2006]

Alguém, um dia, trocou, por pura ignorância, o topónimo Lombada por Lombardos, isto aconteceu já depois do 25 de Abril quando se fez a actualização de um primeiro folheto turístico mandado editar pelo então presidente da Câmara, Luís Cunha. O desdobrável, a cores, veio cheio de gralhas o que aborreceu bastante aquele nosso Amigo, como nos manifestou. Com a Corografia do Algarve, de Silva Lopes, aconteceu o mesmo como se pode verificar.

Já fomos acusados do erro nos pertencer por na chamada “Monografia de Alcoutim” termos publicado um mapa do concelho onde o erro existe. Acontece que este mapa nos foi fornecido pela Câmara Municipal e só posteriormente o detectámos.

O que mais nos confrange é a Entidade responsável continuar a insistir no erro apesar de todos os reparos feitos. Fá-lo por teimosia ou ignorância.

Lombada é a Fonte de Zambujo do Meio já que se situa entre a de Cima e a de Baixo. Era esta a designação que se lhe atribuía pelo menos em meados do século passado.(8)

O topónimo Lombada, de que existem vários exemplos no país, é de origem topográfica, do substantivo feminino lomba.

Para alcançar o “monte” que nos falta, o de Baixo, continuamos a descer na mesma estrada, para pouco depois subirmos, pois a pequena povoação situa-se numa elevação.

Distará cerca de 6 km da sede da freguesia.

[Oliveiras e montado. Foto JV, 2006]

A zona que percorremos, ainda que acidentada e contrariamente ao que acontece noutros locais é bastante arborizada, com algum montado e oliveiras provenientes de enxertia de zambujeiros, além de amendoeiras.

Em 1991 são-lhe atribuídos 20 habitantes para no censo seguinte serem 15.

Temos elementos que em 1992 existiam oito moradores em quatro fogos.

[Fonte Zambujo de Baixo. Foto JV, 2006]

O monte recebeu energia eléctrica, arranjo das ruas e o fornecimento de água praticamente na mesma altura que os seus homólogos.

A última vez que lá estivemos (2007), só dois fogos eram habitados com efectividade.

A estrada termina neste “monte” e existe um caminho para as Soudes.

As Memórias Paroquiais de 1758 atribui às Fontes de Zambujo 23 vizinhos (fogos) e setenta e duas pessoas e Silva Lopes, na Corografia do Algarve, 1841, mas referente ao ano de 1839, indica que as Fontes do Zambujo têm 16 fogos.

Nos dois últimos censos existem duas indicações:- Fonte Zambujo e Fonte Zambujo de Cima. Pensamos que a designação de Fonte Zambujo corresponde ao que designamos como a de Baixo e a do Meio.

Deixámos para o fim aquilo que costumamos fazer no princípio, a abordagem do topónimo.

Trata-se de um topónimo composto por Fonte e Zambujo e de fácil explicação.

No nosso país, na Galiza e no Brasil, “Fonte” é um topónimo muito frequente, só ou acompanhado, existindo também variadíssimos derivados.

A existência de água e consequentemente de “fontes” foi sempre indispensável e importante para a fixação do homem, o que aqui veio a acontecer. Para a distinção de qualquer outra recorreu-se ao reino vegetal optando-se pelo zambujo (zambujeiro ou azambujeiro) certamente devido à sua existência na zona e que por enxertia veio a originar oliveiras.

O topónimo tem sido designado ao longo dos tempos por Fontes de Zambujo, Fontes do Zambujo ou Fonte Zambujo, o mais recente.

É o que se nos oferece dizer sobre estes “montes” hoje quase despovoados.


NOTAS

(1) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 8 de Setembro de 2001, pág. 3
(2) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11, de Janeiro de 2005, pág. 9.
(3) – Livro de Manifestoz e Arolam. to da Camera doz Gadoz, iniciado antes de 1771 (faltam folhas)
(4) – Assento de Óbito nº 19, de 8 de Setembro de 1866 (Freguesia do Pereiro), in Arquivo Distrital de Faro.
(5) - Acta da Sessão da Junta de Paróquia do Pereiro de 21 de Janeiro de 1891.
(6) - “Alcoutim inaugura Museu do Pereiro”, in Jornal do Algarve de 2 de Julho de 1998.
(7) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 6 de Agosto de 1931
(8) – Vide acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 28 de Fevereiro de 1942

sábado, 20 de março de 2010

História de Portugal, IX volume [1851-1890]


O IX Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, abrange o período O TERCEIRO LIBERALISMO, tem 422 páginas e foi publicado em 1986.

Este volume, tal como os anteriores, continua a fazer referências a Alcoutim. Significa isto que a Vila de Alcoutim continuava a desempenhar o seu papel no contexto nacional.

Desta vez as duas referências dizem respeito à situação aduaneira.

Assim:

Alfândegas

Pág. 287

O Decreto de 7 de Dezembro de 1864, assinado por Joaquim Tomás Lobo de Ávila, dividia as alfândegas em duas circunscrições: marítimas e de raia com as respectivas delegações. No que respeita ao Continente, o quadro junto mostra a sua distribuição:
Alfândega de 2ª classe……………Olhão

Delegações da mesma: (1ª Ordem) Lagos, Vila Nona de Portimão, Faro, Tavira, Vila Real de Sto. António, Alcoutim e Pomarão. (2ª Ordem) : Albufeira e Fuzeta
Tudo se conjugava assim para o decisivo assalto a Lisboa, que Napier foi bloquear enquanto o exército de Terceira avançava no Baixo Alentejo. Já o marquês de Palmela tinha enviado forças de Vila Real de Santo António para se apoderarem de Alcoutim e Mértola

Pág. 292

Classificação das Alfândegas feita por Fontes Pereira de Melo em 1882
Delegação Marítima de 1ª Classe: (…) Tavira Olhão Mértola, Vila Real de Sto. António e de 2ª Classe, (…) Fuzeta, Alcoutim e Albufeira

sexta-feira, 19 de março de 2010

37 Anos a escrever sobre Alcoutim e o seu concelho

Faz hoje precisamente um ano que fiz uma “postagem” invocando os meus 36 anos de escrita sobre Alcoutim e o seu concelho, abrangendo vários aspectos, principalmente de índole histórica.


Não me vou repetir, direi contudo, que até hoje assinei 476 textos, 110 em jornais e revistas e 366 neste espaço que criei e venho mantendo há 21 meses com o mesmo entusiasmo do primeiro dia.


Na imprensa regional foi o Jornal do Algarve que publicou o maior número (50), seguido do Jornal do Baixo Guadiana com 32 e o Jornal Escrito (da AJEA) como suplemento de vários semanários do Algarve, com 21. O Distrito de Faro e o Diário do Sul publicaram esporadicamente dois textos cada.


De índole mais técnica a revista STILUS publicou três trabalhos de maior extensão e o Magazine do Jornal do Algarve vários artigos com alguma amplidão.




Além disso, publiquei dois livros de índole monográfica, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, numa edição da Câmara Municipal de Alcoutim e há muito esgotado e A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», 2007, edição da Junta de Freguesia do Pereiro.


Foram publicados igualmente três pequenos opúsculos, Alcoutim Visto através das Posturas Municipais (1834/1858), 1989, Saúde e Assistência em Alcoutim no séc. XIX, 1993, ambos editados pela Câmara Municipal de Alcoutim e 50º Aniversário do Grupo Desportivo de Alcoutim, 1998, numa edição do GDA.

Para publicar na imprensa regional aquilo que tenho postado no ALCOUTIM LIVRE e ao ritmo que é seu apanágio, só daqui a 117 anos estes textos estariam todos publicados!


Isto não passa de uma brincadeira com os números, mas a verdade é que a imprensa com suporte em papel irá reduzir consideravelmente, como as crianças de hoje verificarão mais tarde.

Naturalmente que não incluí aqui o que tenho escrito sobre outras regiões.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Banheiras e alguidares (de folha)


A diferença entre banheira e alguidar é bem pequena; a banheira possui uma “bica” para despejar a água.

Na foto apresentada e feita na Feira do Artesanato de Alcoutim (2009) apanhei as duas peças.

Ambas feitas de folha zincada pelos artífices das redondezas (latoeiros ou funileiros), profissão que se poderá dizer que se encontra extinta, pelo menos na região. A primeira era mais fina, mais cara e consequentemente própria de quem tinha maior poder económico, enquanto os alguidares podiam ter várias utilizações eram mais fáceis de fazer, consequentemente mais baratos.

Antes de 1965, a água era comprada às cargas (vide o artigo aqui publicado e da autoria do colaborador deste blogue Gaspar Santos) pelo que se tornava cara originando a sua poupança.

Em 1969 aluguei uma casa em Alcoutim, que tinha sido recentemente restaurada e que já não existe, pagando a maior renda praticada na Vila, 400$00 mensais! Canalização para água quente não existia e banheira de ferro, marmorite ou louça, nem pensar. Tinha o luxo de possuir um chuveiro com ligação à rede, cuja água se escoava por um ralo! Era tipo balneário desportivo dos meus tempos de praticante! O alguidar era indispensável.

Era uma peça que Mestre José Emídio fazia com frequência, vendia na sua oficina na vila, na Rua Portas de Mértola e nas feiras e mercados das redondezas.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Corte da Seda (Alcoutim) - Fichas da minha gaveta

(PUBLICADO NA REVISTA STILUS, Nº6/7, JAN/DEZ, 2004 DA AJEA (ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS E ESCRITORES DO ALGARVE))

Ao Nuno

Quando a mente trabalha no sentido de escrevinhar alguma coisa, é porque teve algo que a espicaçasse. A escrita, para mim, começa quase sempre por aí. A lembrança, o facto passado que nos vem à memória, germina, por vezes durante muito tempo, cresce, enforma e, quando bem adubado, dá fruto, mas nem sempre assim acontece por falta de amadurecimento.

Não digo que a ideia deste pequeno apontamento seja de hoje, mas afinal só agora irá germinar.

Conheço há mais de trinta anos este “monte”, designação que por aqui significa povoação, não sede de freguesia, e que pertence à freguesia de Alcoutim de cuja vila dista cerca de cinco quilómetros.

Se sairmos da vila e tomarmos a estrada nacional nº 122 – I, iremos encontrar à direita, poucos quilómetros andados, uma placa que nos indica Corte da Seda e seguindo-a, poucas centenas de metros percorridos, encontramo-nos na povoação.

Um pequeno largo, se assim se lhe pode chamar, possibilita a manobra de veículos, principalmente a inversão de marcha.

Recentemente, ali foi edificado um pequeno “monumento” de cariz religioso que obriga a uma reflexão

Quando se pretende dizer algo sobre uma povoação, o seu nome é sempre assunto a abordar.

O topónimo é composto. Corte, muito vulgar no Baixo-Alentrjo e no Algarve, principalmente na zona serrana e no barrocal, com incidência considerável no concelho de Alcoutim, já estudado e com explicações nem sempre coincidentes, pensamos que neste caso está relacionado com a criação de gado, mais propriamente com a sua recolha, designando um prédio misto.

Com significado idêntico temos os seus derivados Cortelha e Cortelo, por exemplo.

[Entrada do "monte". Foto JV, 1986]

Quanto a Seda, e pelo temos consultado, há quem o considere de origem obscura, contudo, a Profª Doutora Helena Catarino (1) arqueóloga que tem dedicado muito do seu trabalho científico a este concelho, ainda que não possua referências documentais, nem evidências arqueológicas, pensa que a produção de seda, sector têxtil que os muçulmanos desenvolveram, poderia ter-se estendido, nos séculos X – XI para ocidente de Niebla, onde a actividade está documentada, chegando ao Algarve Oriental, através de oficinas familiares e onde aproveitaram os vales abrigados do interior da Serra e próximos do Guadiana para a plantação das amoreiras.

A existência hoje na zona, de topónimos como Corte da Seda, Alcaria das Amoreiras (Castro Marim) e Amoreira (Tavira), não constituirão resquícios longínquos dessa actividade muçulmana?

Acontece que no caso da Corte da Seda, os terrenos à sua volta as características que referimos e que além disso, um pequeno riacho que lhe passa próximo é designado por Barranco das Amoreiras. O alimento para as larvas, através da folhagem de tais árvores, estava garantido.

Pensamos que a hipótese aventada tem plena justificação.
O General João de Almeida (2) refere a existência de vestígios de um castro Luso-Romano que terá dado origem à actual povoação.

Dois machados de pedra polida foram encontrados na zona, achando-se um deles num museu de Lisboa, tendo sido recolhido por Leite de Vasconcelos (3) e o outro, que tive oportunidade de observar, na posse de um particular.

Quem o recolheu, pensava tratar-se de “uma pedra de raio” e devido ao jeito da sua configuração, utilizava-o como bate estacas para prisão de animais, pelo que se encontra com algumas fissuras, É de tamanho considerável.

Através de explorações efectuadas por Helena Catarino, sabemos que no Curral Velho, num cerro rodeado de pequenos barrancos e a cerca de mil metros a sudoeste do “monte”, foram encontradas telhas de vários tipos e recolhidos fragmentos de olaria com decoração impressa com corda e alguns bordos grosseiros com características tardo-romanas ou alto-medievais.

Segundo as informações recolhidas junto de habitantes do”monte”, aqui terá existido uma necrópole com sepulturas cobertas de telhas.
Outro sítio arqueológico de interesse, está localizado no Montinho, entre a Cortr da Seda e o Marmeleiro, lugar que teve imensa ocupação romana e muçulmana.

Junto dos moinhos e perto do “monte” existem sinais de ocupação antiga.

A povoação é de tipo com-centrado, assentan-do em xisto vivo, numa pequena elevação com cotas rondando os 160 metros.

As ruelas, sem alinhamento e onde o piso já se encontra arranjado desde 1991 (4) são contornadas ora por casas de habitação, algumas modernamente transformadas, nem sempre da melhor maneira, ora por arramadas e palheiros com típicos boqueirões, construções na sua maioria já desactivadas.

[Velho, típico e desaparecido palheiro. Foto JV, 1970]

Nas moradias mais antigas, construções toscas de xisto e grauvaque e de lintéis de madeira, normalmente zimbro ou zambujo, há anos ainda se podiam ver pilheiras, lajes de xisto, saídas da parede, junto à porta, que se destinavam a colocar o tacho das papas, para arrefecer.

Na rua principal, se assim se lhe pode chamar, situava-se o forno comunitário, (vulgo do monte) de construção imemorial e que a todos servia.

A energia eléctrica chegou após o 25 de Abril de 1974. Água com bomba elevatória e três fontanários para a sua distribuição. Telefone público.

Em 1927 a população solicita à Câmara Municipal a abertura de um poço visto se encontrar sem água para beber. Houve dificuldades para a cedência do terreno que acabou por ser concedido a troco de 300$00 (5).

O Diário de Lisboa de 3 de Setembro de 1949 informa que há mais de um mês o poço público se encontra completamente esgotado, valendo na circunstância os proprietários que ainda têm alguma água nos seus poços.

Na Corte da Seda, as crianças deslocavam-se diariamente à vila, a pé, para frequentar a escola, o que era uma distância considerável.

Nas décadas de 50/60, o “monte” tinha algumas dezenas de habitantes, não havendo casas devolutas, as quais se dedicavam à pastorícia e à agricultura. Tal população proporcionava então a existência de uma venda (taberna), logo à entrada do monte e no ponto oposto, outro pequeno estabelecimento comercial à base de produtos alimentares.

Começa, entretanto, o êxodo da população para a cintura industrial de Lisboa e depois para o litoral algarvio, onde o turismo precisava de braços para a construção civil e hotelaria. Juntando os que emigravam principalmente para a França e Alemanha, originou a que, em 1976 a população já estivesse reduzida a quarenta e seis habitantes, para no censo de 1991 serem apenas dezoito! Hoje, treze anos passados, ainda será menor.

A criação de gado está documentada com certa relevância em 1771 e anos seguintes, englobando gado bovino, ovino, caprino e mesmo porcino. Eram nesta altura manifestantes de gado, entre outros, Manuel Vicente, o Velho, João Lourenço, Francisco Domingues e José Martins. (6)

No século passado, exploraram-se nas proximidades, duas minas: uma de cobre, designada da Roça Fria, situada entre o Barranco da Amarela e o Moinho do Escrivão, e outra na Casa Velha, próximo do caminho para o Marmeleiro.

No decorrer dos tempos, alguns dos naturais ou residentes neste monte têm desempenhado funções politico-administrativas e de solidariedade social a nível concelhio de algum relevo.

Assim, Gaspar Vicente foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia em 1752/53 e Manuel Vicente, possivelmente da mesma família foi escrivão da mesma instituição de 1763 a 1765.

Também o alferes Custódio Afonso foi presidente da Câmara em 1835 e Manuel Cavaco, um dos maiores contribuintes do concelho, em 1858 fazia parte da Junta de Paróquia.

A Corte da Seda fez-se representar por José Nobre numa reunião efectuada em 22 de Dezembro de 1843, na Capela de Nª Sª da Conceição, na vila, para resolver o problema dos enterramentos na freguesia e que veio dar origem à criação do actual cemitério.

A Cheia do Guadiana de 1876, conhecida por Cheia Grande, cuja altura a que chegou, placas na vila e em Sanlúcar ainda mostram, causou prejuízos significativos a estas gentes pois eram proprietários de fazendas (várzeas) nas margens do Guadiana. Manifestaram na Câmara esses prejuízos e indicamo-los por ordem decrescente, Isabel Custódia, Isabel da Palma, Vª, Manuel Guerreiro, José Dias dos Santos, Manuel Alexandre, José Martins e Ana Madeira, Vª.

A presença do Remechido e seus sequazes no concelho é um facto, tendo mesmo incendiado as Casas da Câmara, na vila.

Além do que ficou lavrado nos livros camarários, as mentes registaram e a tradição oral tem transmitido com a deturpação natural, no decorrer dos anos.

Por todos os montes ainda existem estórias para contar mas que se vão perdendo por falta de registo.

Destas estórias registei, entre outras, a que me foi contada na vila por quem tem hoje quase noventa anos e que a ouviu contar à avó. Trata-se de uma família que tem raízes seculares na vila e não sei mesmo com alguma ligação à Corte da Seda.

Diz assim: Na Corte da Seda um homem, abordado por hoste de guerrilhas, é instigado a fazer a entrega do dinheiro que possuía, o que não faz, alegando que não o tinha. Como represália, é atado ao rabo de um dos cavalos. Perto da Corte Tabelião, já exausto, acede a voltar para trás e entrega todo o dinheiro que tinha em prata e que não era pouco, salvando assim a vida!

É referido mesmo o nome da família da vítima, penso que ainda existe no monte.

Quando as pessoas fugiram à aproximação dos guerrilhas, faziam-no em burros, escondendo-se onde podiam. Sempre me têm dito que atavam uma pedra ao rabo do burro para que assim não zurrasse, denunciando a localização.

A designação rústica de Eira do Capitão, era capaz de nos levar a algum habitante que teria exercido funções nas “Ordenanças”.

[Antigo e desaparecido forno comunitário. Foto JV,1970]

Maria da Assunção e Custódia da Assunção, deste monte, pelas dez horas da noite do dia 9 de Julho de 1890 atravessam no sentido Espanha-Portugal, clandestinamente, o cordão sanitário da área, instalado devido à cólera que grassava naquele país, pelo que foram postas de quarentena. (7)

Uma última referência para o facto de uma fotografia do monte que apresenta em vários planos quatro beirais de telha de canudo, as paredes caiadas e componde a objectiva uma parreira e uma malva, Tudo isto simples mas genuíno.

Este recanto que a máquina captou, foi escolhido para ilustrar uma obra literária que refere o património cultural popular do nosso país. (8)


(Meu Caro Nuno, por agora é o que consta das minhas fichas sobre a terra de teus pais e onde nasceram e acabaram alguns dos teus ascendentes e brincaste na tua meninice, visitas sempre que te é possível e a que dedicas carinho)


NOTAS

(1) “O Algarve Oriental durante a Ocupação Islâmica”, in Al`- Ulya, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.
(2) Monumentos Militares Portugueses, 1946
(3) “Objectos Arqueológicos de Alcoutim”, in O Arch. Port., Lisboa, Vol. .XXIV, 1919
(4) Boletim da Câmara Municipal de Alcoutim, nº 9 de Dez/91.
(5) Acta da Sessão da C.M.A. de 21 de Julho de 1927.
(6) Tomo de Manifestoz da Camera dos Gadoz, iniciado em 1771 (?)
(7) Of. Nº 125 de 10 de Julho de 1890 do Administrador do Concelho de Alcoutim ao Governador Civil de Faro.
(8) Portugal – Património Cultural Popular 1 – o ambiente dos homens, Hélder Pacheco, Areal Editores, 1985.

terça-feira, 16 de março de 2010

Os antigos privilégios alcoutenejos vistos através das Memórias Paroquiais (1758)

[A Vila de Alcoutim vista por Duarte de Armas]

No nosso trabalho ALCOUTIM, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, enumerámos da pág.153 a 178 aquilo que na altura considerámos serem privilégios concelhios.

A abordagem que hoje vamos fazer nada tem a ver com essa.

[Un aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter a todos os párocos do reino os interrogatórios a que tinham de responder]

Depois de conhecermos e tentar ler e interpretar o seu conteúdo, procurámos reunir as respostas que os párocos das então seis freguesias do concelho deram aos quesitos 17 e 22.

O quesito 17 é feito nos seguintes termos: Se é couto, cabeça de concelho, honra ou behetria?
Quanto ao 22 pergunta o seguinte: Se tem alguns privilégios, antiguidades ou outras cousas dignas de memória?
Às actuais cinco freguesias juntava-se na altura Cachopo, mais tarde (1836) passada para o concelho de Tavira, onde se encontra.

Vamos então ver as respostas que deram os párocos que responderam ao inquérito quanto aos privilégios existentes (quesito 17).

Alcoutim - É cabeça de concelho e é couto, tanto no criminal, como no cível: São privilégios que os Reis concederam e confirmados por muitos Reis para se acoutarem na dita vila, trinta homiziados no criminal, como (caso) não sejam de lesa-majestade, sodomia, heresia, esta foi concedida por El-Rei D. Afonso V, mas não está em muito uso; este Rei mandou conceder a esta vila este privilégio assim como se tinha concedido à Antiga Mértola; mas com diferença que em Mértola servia o couto para cinquenta homiziados e Alcoutim para trinta.
E no cível por dívidas para outros trinta; no cível foi concedida esta mercê por El-Rei D. Dinis – em cujo tempo era esta vila uma povoação e assim fala o mesmo Rei – a minha póvoa de Alcoutim – mas sempre é antiga vila, porque o Senhor D. Afonso V lhe chama concelho de Alcoutim e de então para cá se intitular vila de Alcoutim.




[D. Afonso V]

GiõesNão se sabe que seja couto, cabeça de concelho, Honra ou Beetria, salvo como comparte do termo de Alcoutim participa de algum privilégio da dita vila, tendo-os.

Martim Longo E por esta mesma razão pertence ao couto que goza por privilégios Reais e antigos a Vila de Alcoutim.

PereiroÉ couto porque muitas pessoas de fora, carregados de dívidas ou de outras vexações vêm à vila de Alcoutim e se sujeitam, fazendo termo na Câmara, a que chamam, graça (?) de burlão e por isso não podem ser citados nem obrigados a pagar as tais dívidas.

VaqueirosTodo este termo é couto para os que falidos de bens se acolham nele pelo privilégio de Beetria (?)

CachopoQue ainda que alguns dizem que este lugar de Cachopo logre os privilégios de ser couto, contudo não consta nem se descobrem fundamentos certos para assim se observar, e somente o apelidam por certo em razão de o ouvirem aos seus progenitores e não por sólida e fundamental razão que para isso tenham.
Contudo outros afirmam que constam os seus privilégios dos livros da Câmara da Vila de Alcoutim.

Ainda que as respostas dadas tenham níveis diferentes, dependendo do conhecimento do assunto, do interesse de quem respondeu e até do tempo de permanência na paróquia, poderá concluir-se que o concelho de Alcoutim nessa altura gozava do privilégio de ser couto no crime e no cível, o primeiro concedido por D. Afonso V e o segundo por D. Dinis.

[D. Dinis]

Analisemos agora as respostas dadas ao quesito 22 que procuram referir mais qualquer outro privilégio.

O pároco de Cachopo escreveu Que não consta haver privilégios (...), o de Giões alinhava pelo mesmo diapasão, Não tem privilégios (...), enquanto o de Martim Longo afirmou: Este lugar da freguesia de Martim Longo não consta que tenha privilégios ou antiguidades, mas tão só os que goza o Couto da Vila e termo de Alcoutim (...).
São de outro nível as respostas dos três restantes.

O pároco do Pereiro encontrou alguma coisa, escrevendo: Tem esta freguesia e todas deste termo privilégio de se não fazerem soldados, por se acharem na Câmara da vila provisões dos Senhores Monarcas antigos que lhes concederam essa graça.

O conhecimento deste privilégio chegou aos nossos dias.

É muito interessante a resposta que o Cura de Vaqueiros deu e que numa transcrição livre, aliás como todas as outras, aqui faço: Dizem os antigos que este termo tinha muitos privilégios concedidos pelos Senhores Reis, como eram não se fazerem soldados, nem ainda auxiliares neste termo, de não se darem cavalgaduras para carruagens e de se não pagar portagem nem real de água e o de não serem obrigados os seus moradores a possuir cavalos e ainda outros mais, que todos estão derrogados por incúria e negligência da Câmara porque espera quarenta anos que houve notícias que estes privilégios estavam em Lagos na secretaria do Conde General deste Algarve e apenas se acham em vigor o das beetrias, o da homenagem concedida a todos os filhos do Algarve.
Para o leitor que não conheça, damos a seguir uma breve indicação recolhida em dicionários específicos, do que eram esses privilégios.

Portagem – Imposto que incidia sobre a compra e venda de mercadorias (uma espécie do actual IVA).

Real de água – imposto sobre a carne, o peixe e o vinho.

Beetria – povoação ou território onde, na Idade Média, os homens auferiam do privilégio de escolher o seu senhor, que o defendia e protegia as suas liberdades. Até ao reinado de D. João I, as beetrias eram conhecidas como coutos ou honras.

Homenagem – Cerimónia que faz parte do contrato feudo-vassálico e processa-se após a homenagem, na qual o vassalo, de pé e com a mão no Evangelho, daí a religiosidade da cerimónia, jura fidelidade ao seu Senhor.

Falta-nos referir o testemunho do prior de Alcoutim, o que nos apresentou maiores dificuldades na leitura.
Lemos o seguinte:- Os Privilégios que tem, ou antiguidades, são já os acima declarados; outros muitos dizem que havia mas não há clareza deles, pois é senso que só com esses favores podia aqui haver habitação, por ser terra sem desafogo cercada de serros sem outro alívio mais que a vizinhança do Guadiana e sendo esta vila tão vizinha e fronteira a uma vila de Castela e em tempo de Guerras de tão perigosa habitação. É certo e o clama, a voz comum deste povo de Alcoutim que muitos privilégios havia os habitadores desta vila e seu termo e o mesmo povo de Alcoutim se queixa de alguns Provedores do Algarve os terem sumido/como sucedeu no ano de 1747, porquanto ter o Senhor D. Pedro II Rei de Portugal que Santa Glória haja, como [na altura] Senhor do Estado do Infantado feito mercê aos pobres moradores de uma pouca de terra para os pobres sobreditos semearem todos os anos alguma coisa para ajuda da sua passagem no dito ano, sendo Provedor de Tavira o Doutor Manuel Gonçalves de Carvalho e vindo a esta vila a tombar [arrolar] e a fazer os bens do concelho, por ordem que para isso tinha de Sua Majestade, não fez nada mais que obrar (?) tudo contra as ordens que trazia e deixou os pobres privados da mercê referida; porquanto os bens do concelho ou do couto deixou como de antes estavam sem os (...) nem tombar; e os bens do Infantado, como era esta esmola aos pobres moradores desta vila, tombou e o fosse com toda a impiedade; e querendo os pobres reclamar e fazendo requerimentos tiranamente os não ouviu e cruelmente os ameaçava com prisões de que os pobres desmaiados e destituídos de socorro com esperanças de que representando ao Senhor Infante esta injustiça por todas as razões (... ...).
Esta foi a resposta que o pároco de Alcoutim deu à pergunta 22.

[D. Pedro II que quando Infante foi Senhor da Casa do Infantado]

Dá para perceber o fundamental: os bastantes privilégios que a vila e o termo possuíram e as razões que levaram a isso, numa zona de frequentes conflitos fronteiriços e onde era imperioso fixarem gente. Por outro lado e pertencendo Alcoutim à Casa do Infantado, o então filho segundo de D. João IV, como Senhor dessa Casa, concedeu aos pobres de Alcoutim terrenos para agricultarem, procurando minorar as suas faltas.

O Provedor de Tavira, do qual até consta o nome, acabou com o privilégio e quando o povo naturalmente reagiu, ripostou tirana e cruelmente, ameaçando-os com a prisão, não lhes deixando apresentar as suas razões.

Admito que esses terrenos fossem os do antigo rossio, muito antes de começarem as mutilações que o liberalismo motivou.


Os coutos foram extintos em 1790 e os outros privilégios por decreto de 10 de Abril de 1821.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Última debulha!



A última seara de trigo para “pão” em Afonso Vicente, freguesia de Alcoutim, ocorreu em 1991 e a foto tirada em Agosto de 1992 representa a debulha já mecânica, contudo, a sementeira foi ainda feita com burros, sendo o seu autor José Joaquim Mestre, falecido há pouco mais de um ano.

A partir daqui a semente que se deita à terra é para pastagem do gado ainda existente, nomeadamente ovino ou para alimento da casa de “aviário”, como tenho ouvido chamar a velhos caçadores. Todavia, já não são os burros que lavram mas sim as máquinas.

Neste local, procuram hoje crescer pinheiros mansos.

domingo, 14 de março de 2010

A aldeia de Vaqueiros

Pequena nota
Atendendo a que decorre hoje na aldeia de Vaqueiros a 12ª Feira do Pão Quente e Queijo Fresco, resolvemos “postar” o que retirámos de um nosso trabalho sobre o tema que se segue e escrito já lá vão uns anos.
As diferenças encontradas hoje serão muito poucas.

JV

[Praça central]

A aldeia de Vaqueiros parece nunca ter sido grande e é considerada pobre.
Situa-se sobre um monte, rodeado de outros mais altos. (1) Dista 3 km da margem direita da Ribeira da Foupana e cinco da esquerda da de Odeleite. (2) Pitoresca e serrana, julga-se ter tido origem em povoação árabe. (3)

Fica a trinta e nove quilómetros da sede do concelho e a nove da aldeia de Martim Longo.

A aldeia (e toda a freguesia) a partir do 25 de Abril “abanou”, já que até aí vivia praticamente isolada do Mundo! O povo de Vaqueiros só tinha deveres, não usufruía de direitos que eram praticamente nulos. Se a mesma situação se passava a nível de todo o concelho, foi esta freguesia, desde sempre, a mais esquecida.

[Casa típica. Foto JV, 1997]

A quando do 25 de Abril, possuía uma estrada de macadame que a ligava a Martim Longo, única na freguesia e um edifício escolar de uma sala, seria tudo. Nada de energia eléctrica, água ao domicílio e esgoto, nem mesmo as ruas estavam pavimentadas. Hoje usufrui de tudo isso já que o saneamento básico teve lugar em 1985. (4) Igualmente tem um edifício onde funcionam a extensão do Centro de Saúde de Alcoutim e os serviços administrativos da Junta de Freguesia. Um moderno e interessante Centro de Dia, encontra-se bem enquadrado, não tendo sido esquecidas as árvores que lhe prestam bom auxílio em todos os aspectos.

As casas de cariz antigo, algumas em ruína, misturam-se com novas construções que nada têm a ver com as habitações típicas, nem nos materiais empregues, nem aberturas e plantas.

É notória a aplicação de alumínio em portas e janelas de velhas casas, o que lhes dá um aspecto horrível, devido ao contraste existente.

Frente à igreja e a um plano inferior, desenvolve-se o largo principal da aldeia, o Largo da Igreja, não há muitos anos transformado numa tentativa de embelezamento, que segundo a nossa opinião, não resultou.

Uma placa central cujo pavimento é coberto por módulos de cimento, podia-o ter sido por lajes de xisto que lhe dava um aspecto completamente diferente. O verde representado por desajustadas plantas colocadas em manilhas circulares, inestéticas, podia ter sido substituído por loendros ou mesmo roseiras trepadeiras que cobririam armação metálica.

Uns tantos bancos sem qualquer protecção solar e no centro um objecto de cimento, feito em série e, quanto a nós, sem qualquer interesse.

De tudo, salva-se o bebedouro - repuxo onde as pessoas se podem dessedentar .

Em fins de 1996, a Junta de Freguesia procedeu à implantação da toponímia e números de polícia, como se impunha.

[O contraste]

Anotámos os seguintes:- Rua da Cooperativa, do Poço Novo, Dr. João Dias, da Boa Vista, Beco de S. Cristóvão, Rua do Carmo, Travessa do Sol Posto, Rua de Nª Sª da Conceição, da Ti Júlia, da Ti Mestra, da Loja, de S. Pedro, do Vale, Travessa Vasco Santana, do Pinheiro, e Rua de S. Luís.

Na análise toponímica, encontrámos quatro antropónimos:- o do Dr. João (Francisco) Dias, de cuja placa devia constar o motivo pelo qual foi dado o nome (médico ? benemérito ?), ano do nascimento e falecimento, a par de dois nomes populares, artérias já assim conhecidas por lá terem vivido pessoas com esse nome. O que falta é representado pelo nome de um actor há muito desaparecido que continua na memória do povo. Até quando?

Outro dos ramos explorados foi a hagiotoponímia que não esqueceu, entre outros, S.Pedro, seu patrono.

Circunstâncias locais dão o nome às restantes artérias.

As ruas foram pavimentadas em 1988 (5) e faz-se a recolha de lixo.

NOTAS

(1)-Corografia do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(2)-Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(3)-Algarve - Alcoutim (Folheto Turístico) - Edição da R. T. A. - Setembro de 1988.
(4)-Jornal do Algarve de 6 de Junho de 1985.
(5)-Jornal do Algarve de 16 de Agosto de 1988.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Alcoutim e S. Lucar (Vilas de Portugal e de Espanha) devem reatar a amizade que as unia

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR (LISBOA) DE 13 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota
Publicamos hoje, na nossa rubrica Ecos da Imprensa mais um texto de autoria do nosso saudoso Amigo, Luís Cunha, publicado num jornal diário há 42 anos. Apesar da distância, mantém alguma actualidade e um regalo de leitura.
Quantos leitores do ALCOUTIM LIVRE tinham conhecimento deste texto? Muito poucos para não dizer nenhuns.
É mais uma razão para a sua publicação e homenagem ao seu autor.

JV







Escreve
Luís Cunha



Em tempos longínquos, que ficaram para além do nosso conhecimento directo, um feliz concurso de circunstâncias favoráveis proporcionava o esplendor e fortuna desta terra.

Alcoutim e a fronteira vila espanhola de San Lucar eram “irmãs siamesas” que o Guadiana ligava como veia de seiva corrente.

Entre elas havia-se estabelecido um extraordinário intercâmbio comercial de gado grosso, cavalar e muar, e vasta comunicação humana em termos de verdadeira amizade e sob todos os pontos de vista.

Os cruzamentos sanguíneos mais apertavam esses laços, e ainda hoje, bastos anos decorridos, todos os estabelecimentos agrícolas marginando aquele lado do rio são dos descendentes desses velhos portugueses.

No campo espiritual, em comunhão simpática, o português conferia animação aos festejos e diversões espanholas – que sem isso não se efectuariam – e vice-versa. A coisa chegava a ponto de o ser português ou espanhol em nada importar no derimir de uma pendência.

[A foto publicada com o texto, "Uma vista de S. Lucar, vila espanhola separada de Alcoutim (que se vê ao fundo) pelo Guadiana", não é esta que foi tirada por mim, em sentido contrário, em 1973]

Pode com facilidade crer-se que a origem comum esteja na base destes factos e que o isolamento em que ambas se encontravam do resto dos respectivos países constituísse forte contributo para a conservação do passado.

Quando o nosso próprio conhecimento começa, já as coisas não eram bem assim, apesar de existir ainda abundante comércio de vários artigos e frequentes contactos pessoais.

A guerra civil espanhola pôs fim a tudo isso. A rígida interdição de comunicações retirando ao rio a função de elo de ligação fez dele barreira isoladora, agente responsável de distinção, e, ao terminar, o estado dos ânimos não era de molde a facilitar retorno ao passado.

Depois de toda essa experiência, os dois povos reconhecem hoje a necessidade de arrimar-se na defesa da sobrevivência.

O acordo luso-espanhol de 1960 criou no seu conteúdo os meios indispensáveis à abertura da fronteira ao trânsito de pessoas e veículos, mas faltou até hoje a materialização das suas disposições.