segunda-feira, 30 de abril de 2012

A noite não é amiga


Poeta


José Temudo



A meio da noite calma


e de um sono sem enredo,


sem vida e sem alma,


acordo, subitamente, quedo,


e não volto a adormecer.


A sós comigo, sinto medo,


pois já sei o que vou ver:


como num filme de terror,


fico revendo, sofredor,


tudo o que de errado,


ao longo do meu passado,


fiz ou não fiz.


Caso a caso, vem toda a "estória".


Acaso se pode ser feliz,


preso a uma tal memória ?


É isto que com a noite vem,


sem eu ter feito mal a ninguém!

domingo, 29 de abril de 2012

Casos de toponímia

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA, Nº 0 DE ABRIL E Nº 1 DE MAIO DE 2000, pags. 2)

Desde há muito que é assunto que nos preocupa. As variadas designações escritas que ao longo de mais de trinta anos nos têm aparecido nas leituras que continuadamente fazemos sobre o concelho de Alcoutim, colocam-nos em muitos casos, dúvidas, ainda que haja situações em que elas não aparecem, tratando-se de erros tipográficos ou de leitura.

A lembrança deste escrito teve origem num erro, hoje muito em voga no concelho e que para mim foi praticado antes de 1985, possivelmente por erro de leitura pois o documento em que o encontrámos pela primeira vez, foi feito por alguém que não conhecia o concelho e teria lido Lombada por Lombardos, talvez por influência da placa toponímica que nos indica aquele “monte” do vizinho concelho de Mértola.

O primeiro mapa do concelho que conheci, a nível de folheto turístico, foi publicado em Março de 1969 pela Câmara Municipal, por Luís Cunha.

As estradas eram bem poucas, as nacionais e uma ou outra pequena estradita municipal para servir determinado monte. Poucas mais indicações existem e feitas de uma forma muito genérica. Indicam-se algumas produções, localizam-se zonas de minas, a existência de caça aqui e ali e pouco mais.

A nível toponímico existem bastantes erros certamente motivados por quem fez a recolha e ou por quem os passou ao papel. Mais grave é, lamentava-se o Presidente da Câmara do facto de constar no folheto que ele próprio tinha feito a revisão o que de maneira nenhuma podia corresponder à realidade.

Analisando o folheto, encontrámos bastantes erros como Pateiro em vez de Pateira, Coutada da Sede por Corte da Seda, Torneira por Torneiro, Corte das Damas por Corte das Donas, Silveiras por Silveira, Coifo por Coito, Monte Martim, por Monte Marim, Letão por Lutão, Bentes por Bentos, Cavaca por Cabaços (?), Galegos por Galego, Alcaçarias por Alcarias, Tramelgo por Tremelgo e Estradas por Estrada.

Como se vê pela relação, são bastantes Singulares transformados em plurais, possivelmente algumas gralhas tipográficas e outras razões.

Após o 25 de Abril, das primeiras coisas que se fez foi meter máquinas a abrir caminhos por onde pudesse passar um tractor ou uma motorizada, já que o isolamento era total, principalmente na freguesia de Vaqueiros. As estradas começaram a aparecer. Começa a haver necessidade de passar para o papel as estradas feitas e projectadas, os furos artesianos abertos por todo o concelho e outras indicações importantes. O mapa a que me referi é ajustado às novas realidades e naturalmente são corrigidos os topónimos. Desapareceu Pateiro (Pateira é o verdadeiro) e apareceu Lombardos. Segundo informações que recolhi junto dos moradores e fregueses, sempre conheceram o local por Lombada e não Lombardos. Em nossa opinião, a pequena povoação com dois ou três fogos, poderia chamar-se Fonte Zambujo do Meio pois situa-se entre os seus homónimos de Cima e de Baixo, mas os seus fundadores e vizinhos, assim não quiseram pois entenderam que Lombada identificaria melhor o lugar. Lomba e seus derivados como Lombada, são topónimos muito vulgares no País e têm origem topográfica: lombada é uma lomba prolongada, sendo lomba uma leve encosta. Lombardos (Mértola) é único no País havendo Lombardo no concelho da Covilhã.

Confesso que durante os onze anos em que exerci a minha profissão em Alcoutim e em contacto diário com os topónimos do concelho, por dever de profissão, nunca me passou pelas mãos, que me lembre, tanto Lombada como Lombardos.

Hoje fala-se na Lombada por lá ter sido construído, devido à posição central, edifício escolar que servia os três lugares e que, encontrando-se desactivado desde 1982, foi adaptado a núcleo museológico, tendo por base “A construção da Memória”.

Já fui acusado por ter contribuído para essa troca pois no trabalho que publiquei em 1985 Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…) ter incluído um mapa do concelho com a indicação de Lombardos.

Sem pretender tapar os erros que cometi nesse trabalho, tenho contudo de dizer que o mapa foi-me facultado pela Câmara Municipal, com o erro, e ao publicá-lo corroborei nele. Na descrição que faço da freguesia na página 370, não refiro Lombardos.

No valiosíssimo trabalho de Silva Lopes, “Corografia do Algarve” do século passado, indica-se Serros do Vinho por Serro da Vinha, Calrines por Clarines, Leitão por Lutão, Fremelgo por Tremelgo e Desperguiças por Preguiças.

Preocupa-nos no concelho e por motivos diferentes, outros casos de toponímia que a seguir abordaremos.

Os topónimos têm alguma semelhança com os antropónimos, principalmente no aspecto da indicação de matriz. Ambos vão sofrendo a transformação ortográfica com o decorrer dos tempos mas devem preservar as suas raízes, em muitos casos já difíceis de definir. Se hoje muitos topónimos são incompreensíveis, pensando que tem muito a ver com a sua adulteração no decorrer dos séculos.

Alguns dos casos que vamos apresentar, notámo-los logo que chegámos a Alcoutim, sendo o que mais se me evidenciou o de Martim Longo, duas palavras, ou numa só Martinlongo, ambas respeitando as regras ortográficas. Mas não é isso que está em causa, o que está em causa é saber qual é o verdadeiro topónimo.

Sempre escrevi Martim Longo da mesma maneira pois foi essa a indicação oficiosa que recebi e pela minha concepção toponímica a isso se ajustar.

Num escrito que fiz publicar na imprensa regional, em 1973, talvez por pensarem que estava errado, escreveram-no numa só palavra.


Lutão e Lotão são outro caso de dualidade de escrita mas não tem semelhança técnica com o anterior. Habituei-me a escrever com um “u” mas, analisada a situação, com um “o” poderá ter mais sentido toponímico.

E continuamos na freguesia de Martim Longo. Zorrinhos ou Zurrinhos, como se escreveu no Regulamento do Plano Director Municipal, publicado no Diário da República nº 285, Iª Série, de 12 de Dezembro? Se4mpre escrevi com um “o” e parece-me a mais consentânea com a realidade.

Arrizada, pequeno monte da freguesia que temos vindo a referir, vê-se normalmente grafado com um “z”, mas no Dicionário Corográfico de Portugal, de Amaral Frazão, aparece com “s”.

Monte Argil e Montargil é um caso semelhante ao da sede da freguesia a que pertence e para terminar os casos toponímicos que detectámos nesta freguesia, apresentamos um de tipo diferente. Afinal é Corte Serranos ou Corte Serrano?


Caso semelhante passa-se na freguesia de Alcoutim, onde aparece escrito Balurcos ou Balurco de Baixo (ou de Cima).

Em Vaqueiros anotámos dois casos. Galaxos ou Galachos e Traviscosa ou Troviscosa. Neste caso, quase não existe diferença já que a origem é a mesma, trovisco ou travisco, como é mais vulgar entre o povo.

Desconheço se existe algum registo oficial a nível nacional do nome de cidades, vilas, aldeias ou lugares ou se tal está previsto a nível concelhio. As minhas palavras, de leigo, são de alerta para a situação, procurando evitar desvirtuamentos.

Se efectivamente estão definidas as situações que apontei, penso que há que as fazer cumprir, começando pelos órgãos autárquicos, com naturalmente a Câmara Municipal à cabeça.


Continuo a pensar que deveria ser esta a entrar em contacto com os estabelecimentos de ensino e organismos oficiais no sentido de indicar a escrita correcta dos topónimos.

Se por outro lado as definições não estão estabelecidas e a confusão reina, é necessário que quem de direito e continuo a pensar ser a Autarquia, diligencie o esclarecimento devido, recorrendo aos meios ao seu dispor, não deixando de consultar técnicos das áreas em causa, historiadores, filólogos e linguistas, entre outros.

Depois dos esclarecimentos, é natural que uns continuem a escrever bem e outros mal, mas têm de ser os organismos oficiais a dar o exemplo.

Pela minha parte escreverei sempre como oficialmente me for indicado. O que existe é uma verdadeira anarquia escrevendo cada um como lhe apetece.

No futuro, ninguém poderá dizer que houve esquecimento!


sábado, 28 de abril de 2012

Vieira



O utensílio ou objecto que vamos referir hoje não é como a maioria dos já aqui apresentados, saído das mãos do homem.
A sua existência é que motivou por parte deste o seu aproveitamento.

Vieira é um molusco acéfalo, lamelibranco e comestível. A concha côncava que o protege chama-se igualmente “vieira”.

Esta concha, quando de dimensões razoáveis, utilizavam-na os alcoutenejos para recolher o azeite depois da azeitona ser salgada, pisada, escaldada e espremida dentro de um taleigo na queijeira. Ao correr para o alguidar de barro, a água ficava no fundo e o azeite, como mais leve, no cimo e daqui era recolhido pela vieira. Quando o alguidar estava cheio, abria-se o espiche junto ao fundo para correr a água russa.

Toda a gente tinha uma ou mais vieiras para esta tarefa anual e arranjavam-nas na praia de Monte Gordo onde apareciam em grande quantidade

Outra das suas utilizações era na preparação do almece para retirar o soro.

Esta concha era utilizada pelos romeiros, especialmente pelos que se dirigiam para Santiago de Compostela, no chapéu, constituindo com o bastão e a cabaça o símbolo da Ordem de Santiago.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Albricoqueiro


Já aqui escrevemos sobre várias árvores que se desenvolvem bem nesta região. Entre elas, aconteceu assim com a amendoeira, alfarrobeira, oliveira, romãzeira e outras.

Esta fotografia que tirámos a um nosso albricoqueiro deu o mote para a abordagem.

Tirada já lá vão uns anos, há dois aspectos que saltam à vista: o grande número de frutos que criou (já tinham caído muitos) e o local onde se encontra.

Só conhecemos o termo em Alcoutim, pois na nossa região conhecíamos aquele fruto por damasco, havendo uma variedade de frutos de maior dimensão chamada alperce.

Albricoque é mais um termo que herdámos do árabe albarkuke que ajustámos à nossa língua.

Devido às características pobres do solo e tal como acontece com a oliveira, o albricoqueiro obtém-se através de enxertia em amendoeira e por isso, podemos vê-los nos sítios mais agrestes.

A enxertia é feita através de “canudo” ou seja a “pele” que se destaca do “pau” interior através de movimento de rotação após corte circular. A pele tem de sair inteira e daí a designação de canudo. Procura-se na amendoeira um rebento de dimensões semelhantes, arregaça-se a pele como os macacos fazem às bananas e introduz-se o canudo até ficar justo e não partir. Pega com muita facilidade e é feito nos primeiros tempos da rebentação e quando dá “canudo”, tudo isto obedece a uma técnica ancestral.

Chamámos a atenção para o local onde se encontra.

Houve uma amêndoa que por ali caiu quando o poial era coberto de lajes e por vezes se criava algum espaço entre elas. Encontrou condições naturais para germinar. As raízes foram penetrando na pouca terra que foram encontrando. Entre as rochas apanhou “veio de barro”, como diz o alcoutenejo, chegando a altura de poder ser enxertada o que deve ter acontecido à volta de vinte cinco anos.

Quando se arranjou o poial, não houve coragem para o arrancar. No Verão, de vez em quando é regado e a água provoca naquelas circunstâncias uma fresquidão prolongada.

Os dicionários apresentam albricoqueiro como sinónimo de damasqueiro.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Urbanos cultivavam hortas






Escreve

Gaspar Santos


Está na moda e todos os dias os jornais falam de Hortas Urbanas. Hoje cabe referir como nos anos 40 e 50 do século passado os alcoutenejos já faziam esse cultivo, mas não lhe davam este nome.  
Quando o sargento Alfredo Lopes ainda não estava aposentado da Guarda-fiscal e a minha irmã Cremilde trabalhava nos CTT ele fez o comentário que ela cita algumas vezes: As pessoas em Alcoutim não têm muita iniciativa para criar o seu próprio trabalho. Ao contrário das de Martinlongo onde há mais iniciativa!

Minha irmã, escandalizada, nunca mais esqueceu tal afirmação. E, gostemos ou não, temos de concordar que sendo ela proferida nos finais dos anos 40 do século passado, ainda hoje quase se pode dizer o mesmo. Vale a pena reflectir sobre o porquê disto. A freguesia de Alcoutim tinha então, uma quantidade de pessoas com situação invejável, empregadas nos serviços: Câmara Municipal; Celeiro; CTT; Direcção Estradas; Escolas Primárias; Farmácia; Finanças e Tesouraria; GNR; Guarda-fiscal; Guarda-rios; Hospital; Notariado e Registo Civil.
Eram cerca de 165 pessoas (ou famílias) com empregos em serviços, que nem todas as outras freguesias juntas tinham. Como empregos desejáveis que eram, as pessoas daqui procuravam-nos e assim não eram muito estimuladas a criar o seu próprio emprego.
Mas se ambicionavam um emprego destes, quando o tinham, muitas vezes, não se limitavam só a ele. Nesse tempo, muitos desses trabalhadores dos serviços, na falta de outra ocupação, dedicavam horas do seu descanso a cultivar pequeninas hortas. Tinham uma ocupação muito saudável, e colhiam novidades que ajudavam a sua economia caseira. Hoje não são em tão grande número pois, pelas razões mais diversas, se abandonaram hábitos agrícolas.
É impressionante pensar que temos um modelo económico que exporta parafusos para importar pão, como bem disse há poucos dias o arquiteto Ribeiro Telles.

Por outro lado começa a estar na moda a exploração da terra em pequenas hortas por vezes dentro das cidades, havendo até Câmaras Municipais que abrem inscrições para entrega destas pequenas parcelas com cerca de 45 m2, a que dão o nome de Hortas Urbanas.

Na rua em que moro em Lisboa as casas têm atrás um pequeno espaço que pode servir para horta ou jardim, e na frente só para jardim. É engraçado ver, ultimamente, sempre que para lá vai novo inquilino, o entusiasmo deste ou dos familiares na limpeza e preparação do cultivo deste espaço.

Eu que vivi a época áurea da agricultura em Alcoutim e que via de minha casa e do meu local de trabalho os serros cheios de searas de trigo, pouco rentáveis é verdade, e pedacinhos cultivados de pequenas hortas, sempre tenho escrito acerca da necessidade de cultivar os nossos campos para não termos que importar alfaces, alhos, cebolas, batatas, cenouras, couves, pepinos, pimentos e muitas mais hortaliças e frutas nomeadamente uvas de sabor desenxabido.

Tenho referido a este propósito e dado como exemplo os antigos grandes agricultores. Hoje chegou a hora de recordar muitos pequenos agricultores que não eram profissionais. Estes após a saída do seu trabalho nos serviços dirigiam-se para o campo, cada um para a sua hortinha donde tiravam algum proveito, ocupavam horas de lazer e faziam exercício físico que aliás não era ainda moda. Eram urbanos a cultivar Hortas na periferia da urbe.

À tarde após as 17 horas víamos pessoas, entre outras, como o Arnaldo Rodrigues, Francisco Palma irem direito ao Alcaçarinho; António Felício, Luís de Brito, José Peres, para o Barranco do Poço das Figueiras; Alfredo Lopes e José Amaral para o Barranco da Amarela; Leopoldo Martins para o Serro da Eira; António Santos para a Lourinhã; Alfredo Afonso e Domingos Mariano, João Batista, António do Rosário, Manuel Guerreiro para as hortas entre o Pego das Portas e o Pego Fundo. E dos agentes da Guarda-fiscal, quem não tinha a sua Hortinha?

Os Guardas da secção de Alcoutim faziam a sua horta mesmo em frente, no Pinhão. Os guardas nos postos ao longo do rio, na proximidade destes. Dedicando-se ainda nas horas vagas à pesca dos barbos com o covo de vime.

E hoje? Se os agricultores profissionais quase desapareceram e os campos estão abandonados, quase só se cultivando os pedacinhos mais rentáveis, nomeadamente aqueles em que há alguma água para regar, os agricultores não profissionais já quase não existem.
Revitalizar esse hábito seria saudável e rentável. Estou a lembrar-me e a insistir no cultivo da vinha. Uma cultura que se dá muito bem no vale do Guadiana e que nunca foi muito expandida no nosso concelho porque teve de dar o lugar aos cereais. Por todo o nosso país cada vez se explora mais a videira, às vezes em locais com pouca aptidão para tal. E em Alcoutim, porque não cultivar a vinha que tem tão boas condições para isso?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 DE ABRIL SEMPRE!




A situação económica do País não foi causada pelo 25 DE ABRIL.

Grande parte daqueles que se assenhorearam do poder político central e local e que dele têm gozado a seu bel-prazer com directrizes absolutamente erradas e tendo unicamente por fim as suas regalias e a manutenção no poder sem olharem para o desenvolvimento harmonioso do País são os principais responsáveis.

Quem vende o seu voto por um prato de lentilhas é a recompensa que tem.

O que fizeram aos milhões de euros que o País recebeu? Todos nós sabemos responder a isto.

A LIBERDADE É COMO A SAÚDE, SÓ SE LHE DÁ  VALOR QUANDO SE PERDE.

25 DE ABRIL SEMPRE E NUNCA MAIS 28 DE MAIO.



 

OBRIGADO SALGUEIRO MAIA PELO TEU EXEMPLO.
  


terça-feira, 24 de abril de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [13]

O LENDÁRIO


A SAIA CURTA DA PATEIRA

 



O lendário foi sempre um assunto que nos interessou e já algumas vezes o temos referido nalguns escritos.

Como quase sempre acontece nestes assuntos, as opiniões não são coincidentes, com diferenças no tempo e na descrição, quase sempre e obviamente, pouco definidas. O que todos referem é que ouviram falar na Saia Curta da Pateira!

Uns afirmam que sempre ouviram falar nisso, outros que é uma coisa relativamente recente. Quem tem razão, não sei.

Quem ronda hoje os oitenta anos, e mesmo quem já os passou, em jovens era-lhes metido medo com a aparição da Saia Curta da Pateira, se de noite passassem pelos sítios que ela notoriamente frequentava e que se situavam entre o moinho da Pateira, nas proximidades de Afonso Vicente e o Carapeto, hoje na berma da estrada, a caminho das Cortes Pereiras.

Sabe-se que vestia toda de branco e que a saia era curta e daí a sua identificação. Os malefícios que ela tinha causado ou causava, é que nunca consegui identificar pois quando se chega a essa explicação, ninguém adianta nada.

Ainda hoje, entre os poucos habitantes de Afonso Vicente e aqueles que lá nasceram, quando calha, é referida a Saia Curta da Pateira, conforme o espírito de cada um e as circunstâncias em que se fala.
Muito recentemente e para tentar encontrar mais alguma informação, perguntei a três naturais do monte se já tinham ouvido falar nela. Um, disse que nunca tinha ouvido tal coisa, (afastou-se muito cedo do monte) outro, o mais novo, que isso eram coisas do antigamente e o mais velho, rindo-se, “esclareceu”: - eles não sabem nada! A Saia Curta era de Afonso Vicente e tinha encontros nocturnos e amorosos com o lobisomem, das Cortes Pereiras, ao Carapeto!

Chegando entretanto um natural e residente nas Cortes Pereiras, não conhecendo a estória, acabou por afirmar que depois desta conversa percebeu porque é que um dia tinha visto sair do Carapeto, uma espécie de estrela cintilante que desapareceu a caminho de Santa Marta!

Quem é que sabe acrescentar mais a esta lenda que se não ficar escrita, se perderá com o decorrer do tempo? (1)

LENDA DO COIRO DE BOI

 



A lenda que se segue é extremamente sucinta mas nem por isso deixa de ter interesse a sua referência.

Já lá vão mais de trinta anos que a ouvi contar e ainda há pouco tempo a ouvi referir novamente.

Para os lados de Afonso Vicente – Santa Marta, a caminho do termo de Mértola, entre o Curral das Palhotas e a Umbria das Casas, está enterrado o coiro de um boi cheio de libras ou moedas de oiro.

Seria pelo que se diz, uma fortuna descomunal que nenhum arado ainda conseguiu localizar, nem mesmo muito mais recente as máquinas agrícolas que por lá têm trabalhado.

Dizem os crentes que está bem mais fundo e daí ninguém ainda o ter encontrado, mas um dia quando menos se esperar, será!

Há quem afirme que isto é verdade, pois consta, como muitas outras coisas, do livro de São Cipriano que por aqui teve os seus acérrimos cultores, não há muitos anos.

O livro de São Cipriano era muito respeitado nesta zona e é um livro que grande parte da população mais idosa já ouviu falar e que de uma maneira geral respeitam.

Ainda não consultei o livro! (2)


LENDA DO MOINHO DE Dª ANA


Esta pequena lenda foi-nos contada em Afonso Vicente (3) e já lá vão uns anos. O narrador ouviu-a contador à mãe natural desta povoação que por sua vez a tinha ouvido contar aos seus avós igualmente daqui originários.

O açude do moinho de Dona Ana, na margem esquerda da Ribeira do Vascão e por isso do concelho de Mértola, ia-se todos os anos embora pelo que tinha que ser reparado anualmente originando grandes despesas.

Numa situação desesperada e para tentar resolver o problema a proprietária (D. Ana?) teria oferecido à santa da sua devoção metade do rendimento que obtivesse.

Diz a lenda que o açude nunca mais se foi embora!


GUERRILHAS – ESTÓRIA E LENDA


No período conturbado das lutas entre liberais e absolutistas o sistema de guerrilha foi muito utilizado e a serra algarvia, nomeadamente a do Caldeirão utilizada para essa acção pois possibilitava bons esconderijos.

É tradição que a serra, naturalmente conservadora se inclinava para a posição política de D. Miguel que tinha bom apoio na igreja conservadora, ainda que houvesse nesta bastante gente liberal, leia-se de esquerda.

O concelho de Alcoutim, então com seis freguesias tinha à testa deles pelo menos cinco padres progressistas e um que admito conservador, o de Martim Longo.

Existem por todo o concelho estórias mais ou menos lendárias sobre “factos” ocorridos e Afonso Vicente não escapou a elas, hoje talvez desconhecidas dos seus poucos moradores.

Ao aperceberem-se da aproximação dessas hostes, os afonso-vicentinos montavam os burros levando algo que pudessem comer e escondiam-se nos barrancos tendo a preocupação de atar uma pedra ao rabo dos burros para que assim não zurrassem denunciando a sua localização. A verdade é que quando um burro zurra, levante sempre o rabo!

Roubo é sempre roubo mas a violência praticada sobre as pessoas, principalmente sobre as mulheres, suplanta tudo.

Vamos contar novamente a estória que ouvimos a uma natural desta povoação e há muito falecida.:- :Passando por ali uma hoste de “malhados”, lobrigou à porta de seus pais uma donzela e logo se propõem levá-la. Aflito, o pai, impotente para salvá-la, concorda com o chefe do grupo mas que, antes, teriam de comer e beber em sua casa para festejar o acontecimento. Com o desenrolar da festa, o chefe acabou por reconsiderar e deixar a moça, prestando-se o pai a ceder sempre a sua casa, quando por ali voltassem. (4)

NOTAS

(1) – Blogue Alcoutim Livre, A saia curta da Pateira, postagem de 23 de Setembro de 2008.
(2) – Blogue Alcoutim Livre, A lenda do Coiro de Boi, postagem de 2 de Janeiro de 2009.
(3) -. Manuel Joaquim dos Santos, natural e residente em Afonso Vicente.
(4) – Estória-Lenda contada pela sra. Ana da Costa, de Afonso Vicente.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma versalhada dos anos 30 do século passado

Pequena nota

Sou por vezes interrogado por leitores do AL como é possível manter uma escrita quase diária sobre ALCOUTIM e o seu CONCELHO visto tratar-se de uma pequena vila lá para os lados da Serra do Caldeirão e junto ao Guadiana.

Além da consulta em bibliotecas e arquivos, não tanto como desejávamos e que já se desenrola há mais de quarenta anos, procurei sempre olhar para as coisas com olhos de ver e não despercebidamente. Talvez esteja aqui a razão de ter sempre algo para dizer e escrever.

Ainda que tivesse recolhido informação, muita deixei desaparecer mas a verdade é que eu só vivi onze anos em Alcoutim e o meu trabalho não era este. Além da execução da minha profissão era obrigado por lei a trabalhar para duas entidades das quais recebia uma importância mensal quase simbólica!

Numa conversa telefónica habitual com o nosso Amigo e Colaborador Gaspar Santos recordei a existência de estes versos reproduzidos por uma alcouteneja que os ouviu em criança e que nunca mais esqueceu.

Tive oportunidade há muitos anos de os transmitir a um dos netos do autor que os desconhecia completamente e que muito agradeceu dizendo que representavam bem a ideia com que tinha ficado do seu avô.

A versalhada traduz bem as vivências de Alcoutim na época e vários têm sido os “Quaresmas” que têm passado pela Vila, uns de lá, outros de fora e com roupagens diferentes, ora de oiro, ora de pechisbeque. E continuarão a passar...

O autor que se identifica foi cabo da Guarda Fiscal, nasceu 1855 e faleceu em 1936.

Foi pai, entre outros do professor Manuel José da Trindade e Lima que foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim e professor na vila.

A alcouteneja que me transmitiu os versos faleceu não há muito e de provecta idade.

Chamava-se Lucília Pereira, vulgo Pimenta.

Esta publicação acaba por ser uma maneira de a recordar.

JV




Venho a meu povo contar

Uma cena muito engraçada

O Quaresma foi ao cemitério

Entrou com o coveiro à cabeçada



O homem quando o viu pela frente

Em camisa e sem chapéu

Aterrorizado bradou

Valha-me aqui Deus do Céu.



Senhor Quaresma tenha tino.

Porte-se como um homem sério

Olhe que está praticando um crime

Dentro de um cemitério.



E é o Senhor Quaresma

Chefe de uma secretaria

Que vem ao cemitério

Praticar tal selvajaria!



Um homem que assim procede

Não devia ser nada

Devia de estar internado

No manicómio Bombarda.



Sei que o Senhor que diz

Que me tem um ódio fatal

Nada lhe levo por isso

Visto que o meu é igual.



Visto que o meu é igual

Ou talvez muito superior

É como o outro que diz

Amor paga-se com amor.



Quem estes versos fez

É velho mas não covarde

Nome, sobrenome e alcunha

JOSÉ FRANCISCO DA TRINDADE

sábado, 21 de abril de 2012

Castro Marim Quinhentista - O Foral Novo (de 1504) e o Tombo da Comenda (de 1509)




Trabalho editado pela Câmara Municipal de Castro Marim em 2000 comporta 186 páginas de 17X24 cm e de bom papel, capa a cores que representam ruínas da zona fortificada daquele antigo baluarte defensivo do país.

Trabalho de alto sentido técnico apresenta-se dividido em duas partes, sendo a segunda, a mais dilatada, constituída por um apêndice documental onde se inserem, entre outros,o Privilégio para que Alcoutim seja couto (1408 – 1529) e Privilégio das saboarias de Castro Marim que inclui as de Alcoutim e aldeia de Martim Longo.

Os textos enriquecidos com importantes notas a propósito com citações e indicações que abrangem um vasto campo de acção.

O trabalho é ainda valorizado por boa fotografia a cores, reproduz vários documentos e recortes de pormenor dos desenhos do Livro das Fortalezas de Duarte de Armas.

É autor deste trabalho um dos mais conceituados historiadores do Algarve com vasta obra publicada, o Mestre em História, Dr. Hugo Cavaco, nosso amigo, que teve a amabilidade de nos oferecer um exemplar com dedicatória.

Hugo Cavaco tem raízes alcoutenejas, mais propriamente, na freguesia de Giões.




Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXVI

Escreve

Daniel Teixeira





DISCURSO SOBRE O FIGO DE PITA


Flôr do Figo de Pita
Deu-me Deus (talvez tenha sido Ele) ou a própria vida, através da chamada experiência que é concedida aos «mais velhos» a estranha e pouco cómoda faculdade de ser um pouco ou muito céptico mesmo. Há coisas em que não acredito desde logo, outras a que dou o benefício da dúvida e outras em que acredito de facto porque preenchem a minha mente com aquela esquematização que eu aceito e compreendo pelo menos como potencialmente possível. Mas não vou além disso...mantenho-me agarrado à chamada dúvida cartesiana...

Quer dizer sou como São Tomé, em muitas coisas é preciso ver para crer, pelo que aquilo que me aparece com uma ordenação que considero razoável fica durante uns tempos em banho-maria e o resultado desse banho, mais ou menos prolongado, tanto pode dar para um lado como para o outro, quer dizer pode regressar onde nunca deveria ter saído ou avançar para uma escala de potencialidade mais elevada, sempre com o até ver em carteira.
Ora eu acredito nas pessoas, na sinceridade daquilo que dizem e fazem, nas boas intenções que demonstram, na vontade que espelham. O meu cepticismo não se debruça sobre o ser humano porque nesse tenho plena confiança, mesmo que as coisas nem sempre corram bem, dá-se e mantém-se ainda o benefício da dúvida.
Quando a fé me falha por algum evento menos esperado jogo sempre mão do argumento máximo, muito superior para mim em qualidade ao de Santo Anselmo que se bem me lembro diz que Deus é a maior coisa que há no mundo e que de tal forma o é que não se pode conceber algo maior que ele: andamos neste mundo há milhões de anos, temos aguentado com quase tudo e por isso também não é por morrer uma andorinha que se acaba a Primavera embora fosse melhor que ela não morresse. Logo o ser humano é o ser mais resistente que há no mundo e de tal forma o é que não se pode conceber a sua finitude.
Ora bem e dito isto, no seguimento do que é quase uma perseguição ao figo de pita fui falando com pessoas que detêm algumas delas aquele saber dos sábios e tenho tido boas respostas e boas confirmações e esclarecimento de dúvidas minhas quer por essa via quer por consultas bibliográficas que tenho feito.
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Figueiras de Pita

Informei-me também sobre o que acontece com o figo de pita por esse mundo fora: na sua grande parte (aliás é mesmo a grande parte) tem lugar em países chamados de emergentes, que é aquela denominação simpática que é dada ao antigo Terceiro Mundo. Mesmo em Itália, que é um país já emergido, as plantações de figo de tuna que existem estão situadas nas zonas tradicionalmente mais pobres: Sicília, por exemplo. Não tenho nada contra, antes pelo contrário, mas é pelo menos curioso que, embora se enverede nalguns casos pelo conceito do figo da índia como especialidade muito apreciada no mercado Europa, por exemplo, a descrição da sua génese maior apareça como alimento de recurso.
São aquelas coisas que acontecem e às quais nós vamos estando habituados: o alimento do pobre é-lhe surripiado e torna-se uma cara especiaria para consumo dos ricos ou menos pobres. Existem estudos sobre plantações de figueira da índia nos mais diversos países do mundo, devendo segundo a lógica serem os mais desenvolvidos aqueles que advêm, por exemplo, do México, país donde a planta alegadamente é originária. Conta-se até que as civilizações primitivas, ainda que evoluídas para a sua época, deste fruto e desta planta faziam uso: - as maiores plantações no México estão por exemplo situadas na ancestral zona das pirâmides . Assim em termos de consumo, mesmo esporádico no correr dos séculos, podemos dizer que a tuna é milenar como planta e como objecto de consumo. 
A sua utilização como forragem e como legume (o interior das «folhas» dizem que sabe a feijão verde) coloca-a numa posição privilegiada em termos de aproveitamento: no entanto a maior parte da produção brasileira de figo da índia é para exportação e a grande superfície Pingo Doce teve ( ou tem) este produto à venda - importado.

Existem vários factores interligados na exploração conveniente deste produto de uma forma maximizada nos seus resultados que vão desde experiências de congelação até experiências de redução do teor em água (85% em natura) por osmose destinados a aumentar o tempo de prateleira do figo da índia. Na congelação obtiveram-se resultados de durabilidade quase estonteantes enquanto que na osmose os resultados são de longe mais fracos, muito de longe, mesmo. Claro que os custos da osmose e da congelação em termos proporcionais acabam por colocar dilemas. Ao mesmo tempo a abortagem de florações permite colheitas distanciadas no tempo.
Ora tendo mostrado aqui que me informei sobre o produto resta-me agora regressar ao Concelho de Alcoutim...sabemos perfeitamente que existe uma ideia, uma associação formada em Martim Longo destinada a explorar as potencialidades de explorações de figo de pita ou piteiras de uma forma geral.
Não vou ir muito mais longe nesta crónica que pretende deixar de ter a componente de ficção pelo menos neste número: espero sinceramente que a ser mais completado o desenvolvimento desta actividade os habitantes locais venham a beneficiar de forma directa: através da entrega das suas produções (mesmo com espécies menos indicadas) e que através deste processo de recolha do existente se fomente a substituição (quando for o caso disso) das espécies existentes e que mesmo pelo arrendamento de terrenos para plantio se crie uma renda, pequena que seja, que possa ser utilizada como rendimento (pequeno que seja) e que de alguma forma tudo isto sirva para fazer reformular e revigorar o existente tanto a nível do plantio como da reorganização do ambiente rural nomeadamente da parte edificada (e derrocada).
Não será nunca o milagre das flores de piteira...mas que não seja também um processo que passe ao lado das populações locais, quer de forma directa pelo incremento das produções quer de forma indirecta pelo pagamento de rendas relacionadas ou não com os valores de produção.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Guerras de 1336/1339 - Da política dos casamentos

D. Afonso IV casou a filha D. Maria com o rei de Castela, Afonso XI, em 1328.
A forma desumana como este rei tratava a rainha e posteriormente ter retido D. Constança, filha de um nobre que se lhe opunha, noiva destinada ao infante herdeiro do trono, D. Pedro, deu origem à declaração entre ambos de uma guerra que se desenvolveu com terríveis devastações nas fronteiras, com invasões, surtidas, escaramuças, incêndios, pilhagens e prisioneiros.

Abrangeu principalmente zonas fronteiriças, da Galiza ao Minho, da Andaluzia ao Alentejo, ao Algarve Oriental.

A pequena vila raiana devido à sua posição fronteiriça também foi cenário destas lutas conforme refere Rui de Pina na Crónica de D. Afonso IV e que transcrevemos: (...) El Rey de Castella (...) ajuntou consigo segundo se diz dez mil cavallos a fora muytas outras gentes de pé para danificar a Portugal, & por suas jornadas foy ter ao rio Guadiana onde correu por Alcoutim, o qual acharão ermo, & aly por pontes feytas com grandes lançadas nas barquas, & galés que mandou trazer, em hum dia passou toda a sua gente a Portugal, & dahy foy a Villa de Castromarim em que estava o convento primeyro da Ordem de Christo, & esteve sobre elle alguns dias, & por combates & afrontas que lhe der trabalhou polla tomar, & não pode, porque avia dentro homens de vergonha (...).



[Foto aérea de Castro Marim gentilmente cedida pelo Blogue A Terceira Dimensão - Fotografia aérea. http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt]

As guerras que duraram cerca de quatro anos e que incluíram também confrontos navais, terminaram por interferência do Papa Bento XII, assinando-se a paz em Sevilha a 10 de Julho de 1339 e isto já tendo em conta os rumores que corriam de novo ataque dos sarracenos para o qual os cristãos se deviam preparar.

NOTA
Para organizar este assunto, consultamos, entre outras, as seguintes obras:

História de Portugal, Fortunato de Almeida, 1945.
Dicionário de História de Portugal , Dir. de Joel Serrão.
História de Portugal, José Hermano Saraiva, 1993.
História de Portugal, Rui Ramos (coord.), 2009
Portugal Militar, Carlos Selvagem, (2ª Edição), 1994.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Guilhos



A Etnografia foi tema que começou tarde mas que se tem desenvolvido sendo um dos mais dinâmicos deste espaço.

Sabemos que igualmente é muito procurado não só por alcoutenejos pois os objectos e utensílios caíram em desuso na sua grande maioria e foram utilizados em várias regiões do país.

Guilho parece ser termo de origem espanhola o que pelos lados de Alcoutim não admira.

Era palavra que desconhecíamos e que a aprendemos na pequena vila do Guadiana.

Esta espécie de cunha em ferro e de variadíssimos tamanhos destina-se a partir a pedra em que o concelho de Alcoutim é abundante. Conforme o tamanho assim é o lugar de aplicação. Utilizam-se, simultaneamente, vários guilhos, alguns que ficam presos na rocha contribuindo deste modo para a abrir em lascas ou lâminas longitudinais.

O alcoutenejo recorria frequentemente ao seu uso para remover rocha de xisto, que apesar de fracturar em linhas longitudinais é necessário ter conhecimentos para o fazer.

No século passado havia homens que se “especializavam” nessa arte e eram requisitados para esses trabalhos. Muitos deles faziam muros de pedra solta, alguns dos quais ainda se mantêm, apesar dos anos decorridos. Fazer um muro de pedra solta requer a sua técnica e é muito diferente de o fazer argamassado.

Adquirimos estes conhecimentos ao assistir à abertura de uma “fossa”, pois era o único local disponível que o proprietário possuía para essa construção. O trabalho foi duro mas a técnica na utilização de guilhos e palancas levou-o de vencida.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Domínios da Casa do Infantado no concelho de Alcoutim

A Casa do Infantado foi instituída por alvará de D. João IV a favor dos filhos segundos dos nossos monarcas. A sua criação data de 11 de Agosto de 1654. (1)

O primeiro património com que D. João IV dotou esta “Sereníssima Casa” foi o ducado de Beja, anexando-lhe inteiramente a grande Casa que fora confiscada ao Marquês de Vila Real (Conde de Alcoutim) e duque de Caminha. (2)


[Palácio dos Marqueses de Vila Real, Condes de Alcoutim, em Vila Real]

Também os prédios e quinta de Queluz, que pertenciam aos traidores Mouras, Marqueses de Castelo Rodrigo, foram confiscados e nela incorporados. (3)


A medida procurava assegurar a manutenção dos filhos segundos da Coroa, evitando que saíssem do País, procurando, por outro lado, larga descendência real, garantindo a sucessão e permitindo inclusive, evitar conflitos com os seus irmãos primogénitos, quando estes subiam ao trono. (4)

Continuou a receber novas doações de diversos tipos e o seu domínio alastrou por todo o País.

Depois da Casa de Bragança era a do Infantado a mais abastada do Reino, como domínio senhorial.

No reinado de D. João V, o infante D. Francisco, Senhor dela, podia fazer mercê de 21 prestimónios que lhe resultaram pela Casa de Vila Real, apresentava 47 igrejas paroquiais, provia 11 alcaidarias-mores e senhor de 38 vilas repartidas por todo o País.

[D. Pedro II]
Além do infante D. Francisco, foram seus Senhores, o infante D. Pedro, seu pai, mais tarde D. Pedro II, o marido de D. Maria I, D. Pedro III, o infante D. João, mais tarde D. João VI e por fim, D. Miguel I.(5)

Como se vê, só D. Francisco não foi rei.

[D. Miguel]
As propriedades que os Condes de Alcoutim aqui possuíam e eram muitas, foram, como se disse, confiscadas para a Coroa quando o 6º. Conde, D. Luís de Noronha e Meneses foi executado no Rossio com outros fidalgos, por conjura contra D. João IV.

Silva Lopes diz que o termo desta vila está repleto de herdades que eram da Casa do Infantado. (6)

Foi possível fazer a identificação de algumas dessas herdades, presentemente desmembradas por heranças e vendas, contudo, os nomes permanecem na gíria popular e na maioria dos casos na matriz predial rústica.

Na freguesia de Alcoutim, identificámos as seguintes: - Primeira do Mosteiro (?), pertencente a Pedro José Rodrigues Teixeira por remição do foro em 1859, no montante de 105.300 réis; Segunda do Mosteiro (não será Esteiro?) ou Rossio que pagava de foro a satisfazer por Santa Maria de Agosto, 64 alqueires de trigo e foi arrematada por Manuel Garcia da Trindade em 10 de Outubro de 1859 por 1.200.00 réis; Primeira de Diogo Lopes que pagava de foro 22 alqueires de trigo e foi remido por José Pereira; Segunda de Diogo Lopes, com foro de 19 alqueires de trigo, remido por D. Maria Raimunda Pinto; João Fernandes (o Rossio partia com a Herdade da Casa de João Fernandes (7) que pagava de foro 11 alqueires de trigo e foi remido por D. Maria Raimunda Pinto em 1860; Brita Cornes, remida em 1859 por Domingos Martins, dos Balurcos, por 210.060réis; Grandaça, cujo foro foi remido em 1859 por Manuel Revez e José Carvalho pela quantia de 21.060 réis; Bacelar, adquirida em 1859 por José Fernandes Perdigão, por 105.300 réis e Palmeira, talvez a mais pequena ou menos valiosa, pois só pagava de foro 6 alqueires de trigo, remido por José Mestre, em 1859 ou 60.

No Pereiro, eram as do Posto Fuzil, pertencente a H.ºs de Manuel Afonso e Domingos Martins, da Portela; Ruy Martins, com foro de 14 alqueires de trigo, remido por D. Maria Raimundo Pinto; Galega, com foro de 16 alqueires de trigo, remido por José Nobre e de Soudes, de 45 alqueires de trigo, de foro, remido por João Mestre.

Respeitante a Martim Longo, encontrámos referência às de Aroeira ou Daroeira, de José Nunes e que anteriormente tinha pertencido a José Cláudio da Fonseca e José da Cruz; Zorrinhos, remida em 1859 por José Gonçalves e no valor de 263.592 réis; Finca Rodilha, de Sebastião da Guarda Cabreira e mais tarde de José da Costa Afonso e Carrascal (ou Castelhanos), remida por 224.640 réis, em 1859 a favor de António Pereira, dos Castelhanos. Existia também nesta freguesia uma courela denominada Joanna Vianna cujo foro foi remido em 1859 por José Fernandes, também de Castelhanos, pela quantia de 21.060 réis.

Não encontrámos quaisquer propriedades nas freguesias de Giões e Vaqueiros admitindo que elas pudessem ter existido. Talvez tivessem sido transaccionadas anteriormente.

Também dois fornos de cozer pão, um em Martim Longo, arrematado por D. Maria Dionísia em 10 de Outubro de 1859 e outro na Rua da Misericórdia de Alcoutim, arrematado no mesmo dia por Manuel Garcia da Trindade, pertenciam àquela Casa, tal como umas casas na Rua Direita, (actual Rua D. Sancho II) na vila e que em 1833 pertenciam aos H.ºs do Capitão-mor, Sebastião José Teixeira e que depois foram de José António de Torres. (8)

Pensamos que esta casa, que se situa na Rua Direita da Porta de Tavira, ainda que no decorrer do tempo, tivesse sido transformada e adequada às novas concepções de vida, foi aquela em que viveu e faleceu António Maria Corvo que foi Presidente da Câmara Municipal e casou com uma senhora Torres. Com a morte desta foi vendida pelos seus herdeiros.

Entre outros, sabemos que exerceram funções desta Casa em Alcoutim, Francisco Rebelo, em 1659, oficial de Fazenda e escrivão dos órfãos, vencendo anualmente 50.000 réis, mais 40 mil, várias mercês e 1 moio de trigo : em 1682 o licenciado João Gonçalves Costa era o procurador letrado da portagem de Tavira e Alcoutim, funções pelas quais recebia anualmente 6.000 réis; três anos depois, Belchior Baptista Delgado exercia o cargo de procurador letrado do almoxarifado de Tavira e Alcoutim, recebendo também e anualmente 6.000 réis.

Em 1691, Lourenço Diogo Bajão, igualmente licenciado, é o procurador do mesmo almoxarifado, recebendo igual quantia.

Tal como se sabe que o ouvidor de Barcelos, em 1655, era responsável também pela ouvidoria de Beja, Serpa e Alcoutim e em 1699 o almoxarifado de Tavira e Alcoutim rendia 1 871 650 réis e 38 moios e 18 alqueires de trigo e 18 alqueires de cevada. (9)
[Palácio de Queluz]

A Casa do Infantado foi extinta e os seus bens integrados na Fazenda Nacional, por Decreto de 18 de Março de 1834, de D. Pedro IV, com excepção dos Palácios de Queluz, Bemposta e mais um ou dois que ficaram reservadas para recreio régio. (10)

Como dissemos, as herdades vieram a ser arrematadas pela burguesia local.

Foi último donatário da Sereníssima Casa do Infantado em Alcoutim, o Barão de Beduído.

Convém, por isso, referir alguns traços gerais sobre estas figuras.

Nicolau Xavier de Figueiredo Melo de Bulhões Castelo Branco, 1º Barão de Beduído (Estarreja), nasceu em 1761 e faleceu em 1821. O título foi-lhe concedido por D. João VI, em 1818.

Guarda-roupa da capela deste monarca, casou em 1791 com D. Maria de Penha de França Pereira de Lacerda, açafata de D. Maria I.

Herdou de seus pais bens e honras, sendo por mercê régia, senhor dos foros da vila de Alcoutim em duas vidas. O seu pai já tinha sido guarda-roupa de D. Pedro III, Senhor da Casa do Infantado.

O 2º. Barão foi João Maria de Figueiredo de Lacerda Castelo Branco. Nasceu em 1797 e morreu em 1858, sendo filho do 1º Barão, a quem sucedeu na Casa, prazo e haveres.

Foi major de cavalaria e ajudante de campo de D. Miguel quando este era comandante do exército do reino em 1823.

Acabou por aderir à causa liberal para onde se passou.

Faleceu sem deixar descendência. (11)



NOTAS

(1) - Dicionário Ilustrado da História de Portugal [A.C.] Vol. I p. 342, Edição Alfa., 1982
(2) - Dicionário de História de Portugal (Dir. Joel Serrão) [A. De C.], Vol. III, p.316, Livraria Figueirinhas / Porto, s/d.
(3) - “Breves Anais do Palácio de Queluz”, Caetano Beirão, in Panorama, nº 5 - III Série, 1957.
(4) - História de Portugal, J. Veríssimo Serrão, Vol. V. p. 128 ,Ed. Verbo. 1980
(5) - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
(6) - Corografia do Algarve, 1841, p. 396
(7) - Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Março de 1846.
(8) - Livro mod 1-A de Registo de rendas dos prédios e juros de capitais pertencentes à Fazenda Nacional, no concelho de Alcoutim - termo de abertura de 13 de Março de 1867. - Arquivo da Repartição de Finanças de Alcoutim.
(9) – A Casa e o Estado do Infantado – 1654 – 1706, Maria Paula Marçal Lourenço, JNICT, 1995 (Vários quadros)
(10) - Dicionário de História de Portugal (Dir. Joel Serrão), Vol III, p.317.
(11) - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Afonso Vicente foi um grande monte da freguesia de Alcoutim [12]

A FARINAÇÃO

Numa zona onde a cerealicultura e a pastorícia foram o sustentáculo da economia, a farinação não podia deixar de ser uma actividade importante.

Tinha lugar através de moinhos de vento ou de água, azenhas que se situavam na ribeira do Vascão. Numa função de âmbito restrito podemos igualmente referir as mós manuais, segundo parece de origem romana e aqui designados por “molinetas” ou “molnetas”, que se destinavam a moer milho para confecção das tradicionais papas de milho ou xarém. Podiam também moer trigo para a confecção de papas de frangolho.

[Velha molineta afonso-vicentina. Foto JV]

[Moinho da Pateira ainda com capelo. Foto JV]

Existiu junto ao monte e a norte um moinho à vela que os mais idosos afonso-vicentinos, isto por volta de 1970, nunca viram de pé. O que todos conheceram e que os poucos habitantes ainda conhecem é o sítio onde se localizou e por isso, chamado “moinho de vento”.

A sul da pequena povoação, os designados moinhos da Pateira (três) e que o último deixou de trabalhar pela força do vento cerca de 1945, mas em 1950 já estava a funcionar através de motor.

Um destes moinhos estava relativamente bem conservado ou pelo menos tinha as paredes de pé e o capelo que há anos foi retirado, segundo informação recebida, para reparação mas que ainda estará por realizar, isto se o motivo da retirada foi esse.

Pertenceram em tempos a Ti Fastina de Afonso Vicente e que vivia numa casa que seus herdeiros venderam para ser a sede da Sociedade Recreativa local.

Nesta altura podia verificar-se que servia de degrau para a mesma parte de uma velha mó que tinha servido naqueles moinhos.

Depois o moinho passou para a posse da família Gomes das Cortes Pereiras e foi ela que introduziu o motor deixando de aproveitar a força eolólica.

Consta-nos que foi adquirido há vários anos pela Câmara Municipal, havendo o intuito, pelo menos na altura, de o restaurar e pô-lo a funcionar como atracção turística. Parece que foi nesse sentido que a cúpula foi retirada mas a verdade é que esta foi a única acção que conhecemos para esse fim.

Era a este moinho que recorria, naturalmente, a população de Afonso Vicente.

Além dos moinhos de vento procuravam em alternância os hidráulicos nos períodos chuvosos e que existiam relativamente perto ou seja na ribeira do Vascão.

Um dos mais procurados era o dos Clérigos, a que o povo chamava Cleros, na margem esquerda e por isso, no concelho de Mértola. Tinha dois rodízios e um açude muito bem construído. Pertencia à Herdade dos Colgadeiros propriedade de João Celorico Palma. Deixou de funcionar em meados dos anos 50 do século passado.

Próximo deste existia o moinho da Corte Miguel que nada deve ter com Miguel Angel de Leon, o espanhol que presidiu ao município de Alcoutim e que foi barbaramente assassinado em 1878. Já não funcionava nos primeiros anos do século passado.

Seguidamente existia o moinho de Dª Ana, na margem direita e consequentemente no concelho de Alcoutim que podia pôr a funcionar três moendas ao mesmo tempo. O seu açude era um dos mais altos e poderosos muros de pedra feitos na ribeira. Deixou de funcionar em 1966. Era também muito procurado.

[Moinho de Dª Ana, levada.]


Continuando em direcção à foz, encontramos o moinho Pedro, na margem esquerda e que pertencia a Manuel Silvestre, das Cortes Pereiras e a Ildefonso da Mesquita. Ainda existem vários vestígios, incluindo mós. Foi aqui moleiro António Inácio das Cortes Pereiras, bom mestre na arte e conhecido por Ti Glindim que ia alternando o seu trabalho neste moinho e no de vento das Cortes Pereiras do mesmo proprietário. Parou em 1961. (1)

Junto à foz, o moinho de D. Miguel ou do Melão pela sua configuração ovalada e este sim, parece ter sido mandado construir por Miguel Angel de Leon depois de 1860. É uma robusta construção que está quase coberta devido ao assoreamento. Quando o conhecemos, o nosso cicerone afirmava que as mós tinham ficado lá dentro e que pertencia à Herdade do Monte Novo de Santa Marta.

De uma maneira geral, os moleiros tanto sabiam trabalhar nos hidráulicos como nos eólicos, utilizando-os conforme se tornavam mais produtivos e isto conforme as estações do ano.

Está documentada a existência de moinhos no concelho de Alcoutim, pelo menos ,desde o século XV.

NOTA

(1) – Engenhos Hidráulicos Tradicionais, Parque natural do Vale do Guadiana, Rui Guita, Edição do Instituto de Conservação da Natureza / Parque Natural do Vale do Guadiana, 1999

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cerro da Mina e outras coisas...



Mais uma fotografia disponibilizada pelo alcoutenejo José Madeira Serafim e que tem constituído uma mais-valia para esta rubrica.

Datada dos anos 60/70 do século passado, apresenta como fundo o CERRO DA MINA com menos mato do que hoje acontece.

No plano médio que corresponde a “grosso modo” ao sopé da elevação e às margens da Ribeira de Cadavais podem ver-se as ruínas da Ermida do Espírito Santo com as tuneiras por perto, a habitação dos caseiros e os estábulos que dão apoio àquela que foi uma das mais ricas e produtivas fazendas das redondezas de Alcoutim. Podem ver-se centenárias oliveiras e à esquerda, na margem da ribeira, as copas dos citrinos que deram fama a Alcoutim pelo excelente gosto dos seus frutos.

No primeiro plano, podemos verificar que os telhados têm todos telhas de canudo e do lado esquerdo, um extenso telhado que afinal servia vários fogos, uns com acesso pela Rua de Nª Sª da Conceição e outros pela D. Sancho II.

É bem evidente a presença de três açoteias, mas sem as características das do litoral algarvio. Vislumbram-se quatro chaminés e não nos passa despercebida a mais bonita platibanda existente em Alcoutim com trabalhos de argamassa e que se situa na Rua da Misericórdia, mais concretamente, na “Parada”.

domingo, 15 de abril de 2012

Estará o surf penicheiro refém de uma utopia?





Escreve


José Miguel Nunes




“Hóspedes da Utopia” é a frase que vem na capa da Surf Portugal de Fevereiro. No editorial da mesma revista, mais um grande texto de João Valente, intitula-se: “De utopias e Realidades”, e começa com uma citação de Eduardo Galeano: “A utopia está sempre no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Não pude deixar de pensar: será que o surf penicheiro vive refém de uma utopia? ou serei eu?, já nem sei, às vezes falta só um bocadinho e penso que é desta, mas depois, na hora da verdade, acabamos por ficar novamente para trás.

Ao longo desta caminhada, difícil e muitas vezes injusta, alcançámos alguns feitos que muitos achariam impossíveis, lá está, utópicos, conseguimos. Mas é estranho, pois fico com a sensação que só nos deixam avançar até onde querem, e voltam novamente a meter-nos no sítio que acham que é o “nosso lugar”. É esta a impressão com que fico ao analisar esta caminhada que o surf penicheiro vem a fazer nos meandros dos grandes interesses que o surf começa a ter a nível nacional. Até parece que não fomos nós que alcançámos e merecemos tais feitos, mas que foram eles que nos deixaram lá chegar, quase que como um engodo, como um doce que se dá a uma criança para que ela se porte bem.

Foi frustrante não termos sido englobados na criação da primeira Reserva Mundial de Surf na Europa, onde o objetivo deveria ter sido, o de proteger a totalidade da melhor costa de ondas do País, e não, só uma parte dela. Fico a pensar se não terá sido algum tipo de retaliação, ou se foi simplesmente o colocarem-nos mais uma vez no “nosso lugar”.

Foi frustrante não termos ficado a fazer parte da rede denominada “World Surf Cities”, quando somos o único local do País com uma etapa do “World Tour”, onde pontifica um dos melhores “beach breaks” do mundo, e uma terra rodeada dos mais diversos tipos de ondas, com um potencial enorme em termos de crescimento no que há indústria do surf diz respeito. Mais uma vez dá a sensação de nos quererem colocar no “nosso lugar”.

Recentemente, foi criado um grupo de trabalho liderado pela Universidade Nova de Lisboa, onde a Organização Não Governamental SOS - Salvem o Surf é parceira, com o objetivo de determinar o valor económico, ambiental e social do surf em Portugal, um mega projeto verdadeiramente importante para o futuro do surf no país. Em meados do passado mês de Novembro iniciaram-se as reuniões preparatórias do mesmo, o surf penicheiro foi convidado a participar. Participou e partilhou informação, e agora quando definiram finalmente quem fazia parte do grupo, voltámos a ser colocados no “nosso lugar”, ou seja, voltámos a ficar de fora.

A minha pergunta é simples: Será utópico pensar que o surf penicheiro algum dia chegará lá, será utópico pensar que algum dia o surf penicheiro terá uma palavra a dizer nas decisões importantes relativamente ao que se pensa, estuda e decide relativamente ao surf em Portugal, ou continuaremos naquele lugar em que somos convidados a ouvir o que foi decidido, de boca calada e olhar envergonhado, agradecidos ainda pelo facto de nos terem convidado a ouvi-los.



Os jogos de interesses, começam também agora cada vez mais a fazerem parte do fenómeno surf, e de quem tenta a todo o custo liderar o processo. Todos sabemos que nestes jogos de poder há sempre quem tenha de ser “queimado”, e no surf, somos sempre nós, continuando a máxima a ser: Lisboa (leia-se até à Ericeira) é Portugal, o resto é paisagem, e nós, paisagem, estamos cá para acatar as ordens daquilo que eles lá em Lisboa (leia-se até à Ericeira) decidem.

Não podemos nem devemos aceitar de ânimo leve estas situações, e acima de tudo não devemos continuar cabisbaixos e de sorriso nos lábios no lugar para o qual frequentemente nos empurram.

Temos de dizer alto e bom som perante todos, sejam eles quem forem, e acima de tudo sem medo, que Peniche e o surf penicheiro merece e exige ter outro lugar no surf nacional.

“Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”, e agora acrescento eu, caminhar de cabeça bem levantada, olhos nos olhos seja de quem for.