sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Analisando a rubrica gastronomia / culinária


Não foi das primeiras que criámos neste espaço e surgiu da opinião de um dos colaboradores.

Foi dito logo que não se tratava de fornecer um conjunto de receitas e muito menos seria uma página de culinária no seu sentido técnico.

Além da apresentação de pratos genuínos sem os acrescentos que ultimamente é hábito fazer, incluímos na rubrica alguns dos condimentos mais habituais e pouco usados noutras regiões.

Não deixámos de referir algumas plantas silvestres que eram usadas na alimentação.

Referimos, igualmente, algo sobre a doçaria.

A nível de pratos, os mais procurados dentro das características que temos indicado foram:

                     1º – JANTAR DE GRÃO OU DE FEIJÃO (2011.02.06)

                     2º - CARAPAUS ALIMADOS (2011.03.25)

                     3º - MIGAS DE AZEITE (2011.03.03)

                     4º - FEIJÃO CARETO COM ATUM (2011.04.08)

                     5º - SALADA DE LEITUGAS (2011.08.04)

O 1º lugar é obtido, com grande diferença dos restantes, por um dos melhores pratos e genuínos da serra algarvia, infelizmente, pouco divulgado e até adulterado.

A DOÇARIA DE NATAL (2010.12.25) foi a 2ª mensagem mais visitada de todas da rubrica.

No aspecto de ervas aromáticas, silvestres e outros produtos locais, obtivemos a seguinte ordem:

                     1º - HORTELÃ DA RIBEIRA (2011.10.04) entre todas a que obteve maior número de visitas.

                     2º - ABÓBORA DE CASCA (2011.02.07)

                     3º - ERVA-LUÍSA (2011.06.13)

                     4º - CELGAS OU ACELGAS (2011.05.31)

                     5º - O ORÉGÃO (2011.09.21)

A hortelã da ribeira é uma erva aromática muito curiosa, muito utilizada no Alentejo e nas zonas confinantes como é a serra algarvia.

A abóbora de casca, que no Alentejo chamam abóbora de pau, ocupa a mesma zona de utilização, tendo a particularidade de ser confeccionada com a casca.

A erva-luísa, noutras zonas designada por lúcia-lima, será o chá mais utilizado no concelho de Alcoutim. Se não é, foi-o.

As celgas ou acelgas que continuam neste concelho a ser utilizadas nos pratos de cozidos e por fim, o orégão, indispensável em variadíssimos pratos e no tempero das azeitonas.

As preferências dos nossos visitantes / leitores demonstram uma certa racionalidade.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sopas de passarinhos



Cotovia
Desta vez não vou ter hipótese de apresentar fotograficamente o prato.

Desconhecia-o completamente e ao organizar o texto sobre a esparrela e ao procurar documentar-me oralmente sobre o assunto, sou informado da sua existência.

Todos nós sabemos que o concelho de Alcoutim é economicamente muito pobre e das dificuldades que o homem tinha para se manter , era necessário tirar de solos pobres todo o seu sustento e da família.


Alvéola
Os passarinhos que se apanhavam com as esparrelas durante um dia de trabalho proporcionavam uma refeição especial.


Depois de depenados e amanhados, derretiam numa caçoila umas tiras de toucinho, em cujo pingo fritavam com um dente de alho e uma folhinha de louro os passarinhos.

Retiravam-nos para uma vasilha, assim como os torresmos que ficavam, provenientes das tiras de toucinho. Acrescentavam ao pingo onde se tinha feito a fritura água quente, que se deixava ferver para a gordura ser bem distribuída.


Calhandra
Entretanto, tinham-se feito umas sopas de pão, que depois de bem acomodadas, eram cobertas por aquele caldo, que além do gosto do toucinho tinham também o dos passarinhos e dos condimentos.

As sopas comiam-se acompanhadas dos passarinhos e dos torresmos.

A utilização da gordura animal, tão prejudicial à saúde e hoje posta de parte, pelo menos quanto ao toucinho, justificava-se, como me explicaram.

Tordo
As oliveiras eram poucas, pois a abundância do gado movia-lhe tenaz guerra. Nas margens do Guadiana era onde existiam mais. O azeite pouco e a sua prioridade ia para a iluminação. O petróleo custava dinheiro que era escasso e que tinha preferências mais prementes.

Tratava-se de uma maneira de obter proteínas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As Casas de Hóspedes em Alcoutim até meados do séc. passado [3]


PENSÃO MARREIROS

Neste desenvolvimento das “Casas de Hóspedes” em Alcoutim pois é assim que são designadas nos conhecidos e não sei se ainda existentes Anuários Comerciais, avantajados volumes onde de tudo aparecia. Apesar das imperfeições contidas e provenientes dos representantes locais que procuravam preencher todo o formulário, o que não era fácil de fazer, ainda hoje constituem para mim uma fonte de pesquisa.

A Pensão Marreiros já não foi muito bem conhecida do colaborador deste espaço Gaspar Santos, pois quando iniciou a sua actividade há muito que não se encontrava na vila e daí não a poder abordar.

Calhou-me a mim que fui hóspede naquela pensão quase dois anos, até ao momento de me casar, tendo acabado por ficar a residir bem perto ou seja, na Rua de S. Salvador que nessa altura não tinha saída, em edifício já desaparecido.

O primeiro folheto desdobrável publicado sobre Alcoutim e o seu concelho tem lugar em Março de 1969 através de Edições Rotep, ordem de publicação 120 e por iniciativa do então Presidente da Câmara, Luís Cunha.

Acontece que nas indicações úteis, no verso, aparece como alojamento a Pensão Marreiros.

Antiga e desaparecida Pensão Marreiros. Óleo de JV

Cheguei a Alcoutim por volta das 17 : 30 h e acompanhado do Chefe da Repartição paralela, que me esperava, o primeiro caminho foi em direcção ao rio, ouvindo todas as lamúrias que me foi transmitindo. Ali é Sanlúcar do Guadiana, que eu já sabia pelas pesquisas que tinha feito, não na Internet que estava muito distante de chegar, mas nos livros que me foi possível encontrar.

O passo seguinte foi ir à pensão para saber se me podiam receber. Atenderam-me com toda a simplicidade e simpatia, mostrando-me como eram as instalações.

O edifício tinha algum aspecto pomposo e situava-se no Largo de S. Salvador, junto da Igreja Matriz sob a mesma invocação.

Foi reconstruído em lugar onde estaria em ruínas a residência paroquial. Reparar que todas as freguesias do concelho tinham habitação para o pároco e possivelmente coadjutor, a de Giões ainda funciona. Também se conhece a de Martim Longo, a de Vaqueiros e mesmo a do Pereiro que foi ainda há poucos anos destruída a sua ruína e englobada no rossio da aldeia, hoje espaço destinado à Feira de S. Marcos e aos mercados mensais.

Quanto à de Alcoutim, o povo de uma maneira geral desconhece o assunto.

Em 1874 o P. António José Madeira de Freitas (sobrinho) andava nos arranjos ou reconstrução do prédio para nele viver , já que havia vendido as suas Casas Nobres à Câmara Municipal para lá instalar os seus serviços, o que ainda hoje acontece, apesar de se encontrar numa fase de transição.

Entretanto, como tinha acabado a obra, celebra com a Câmara um contrato de arrendamento de parte do edifício para servir de escola feminina pelo grande gosto que tinha que as meninas tivessem escola, mas não ofereceu as instalações. Foi aqui que andou à escola a ti Ana Brandoa, segundo me afirmou e ficou admirada de eu saber que ali tinha sido escola. “Aqui, ninguém sabe isso!” – Disse-me.

O prédio era de 1º andar e penso que a parte superior aproveitou um desnível de terreno, já que dava acesso a um quintal em posição superior, todo lajeado e onde existia uma cisterna.

Não assisti ao derrube do imóvel pois nessa altura já não me encontrava em Alcoutim, mas penso que além de pedra (xisto e grauvaque) teria parte das paredes em taipa, como era próprio da vila e foi o uso dessa técnica que levou ao desmoronamento de várias casas aquando da Cheia Grande de 1876.

No rés-do-chão abria-se porta de duas folhas com cercadura de argamassa sendo o lintel semelhante ao que existiu e conheci nas sacadas da antiga residência do capitão-mor.A porta abria para o Largo de S. Salvador. Dava acesso a um pequeno hall onde abriam duas portas, uma para cada lado.

Do hall e ao centro partia escadaria ao gosto alentejano, com os degraus constituídos na parte exterior por madeira e interiormente por ladrilhos. Era uma escadaria típica e interessante, feita com preceito.

Um pequeno corredor, em frente, dava entrada para ampla sala com chão de mosaico moderno e que constituía a sala de jantar ao meio da qual se situava grande mesa.

Ao cimo da escadaria, do lado direito de quem sobe, existia outro corredor que dava acesso, se a memória não me falha, a três quartos, sendo um o que eu ocupei.

No lado oposto, além de um pequeno compartimento onde fui armazenando algumas coisas que ia comprando para montar a casa e que me foi cedido graciosamente, havia pelo menos mais um quarto espaçoso onde ficaram familiares meus.

À volta da casa de jantar havia várias portas que correspondiam a outras divisões que não conheci. Uma delas, do lado direito, dava acesso a outra pequena divisão que por sua vez comunicava com a grande cozinha, toda lajeada, tendo ao fundo uma grande chaminé ao gosto alentejano. Debaixo dela me sentei muitas vezes recebendo o calor do fogo antes e depois de jantar. Era da cozinha que se tinha acesso ao quintalão a que já me referi e onde existia uma pequena divisão com sanita improvisada. O banho tomava-o num alguidar de zinco no quarto onde existia um lavatório de ferro ao gosto antigo, não faltando a água no jarro de esmalte.

O quintalão tinha a circundá-lo um poial corrido.

 

Hóspedes saindo da Pensão Marreiros em 1968. Foto JV
 
Presumo que no telhado a quatro águas as telhas de canudo fossem suportadas além de paus por caniços. O meu quarto e penso que os outros, tinham como tecto pano pintado com desenhos geométricos simples.

Do piso superior davam para o largo cinco janelas iguais de arco ogival e de caixilhos de madeira envidraçados, protegidos por portas de madeira. No piso inferior as janelas de molduras simples eram rectangulares e duas, uma de cada lado da porta.

Há que referir no prédio uma platibanda sem interesse especial.

Acabei de dar a minha visão do prédio onde funcionou alguns anos, poucos, a chamada Pensão Marreiros.

Pensão Marreiros porquê? Um aljezurense desse nome casou com uma alcouteneja e já com uma certa idade fixando-se em Alcoutim onde ela sempre viveu e era natural, segundo o colaborador, Amílcar Felício, uma das mulheres de Alcoutim que eram capaz de dar volta ao mundo e era verdade, pelo pouco que ainda conheci. Mulher muito prática, que nenhum homem lhe metia medo. Tudo o que fosse duro e grosseiro era com ela e uma moura de trabalho.

Tive sempre um bom relacionamento com ela, como tive com o marido de quem se divorciou. Foi uma das primeiras utentes do lar de Alcoutim, onde faleceu.

O casal dedicava-se à criação de gado, nomeadamente, bovino leiteiro, cujo produto a empregada vendia pelos fregueses da vila, freguês que depois passei a ser. Exploravam por arrendamento algumas hortas situadas na Ribeira de Cadavais que além de lhes fornecer o pasto para os animais e produtos hortícolas, tinham pomares principalmente de citrinos que comercializavam por grosso e a retalho.

Para casa tinham uma empregada que se encarregava da gestão da mesma. Desde a confecção das refeições à limpeza da casa, tudo lhe competia e ainda vendia o leite de casa a casa, como já disse.

As refeições eram as tradicionais a que me adaptei bem, já que tive mãe e avós maternos do Alto-Alentejo. Açordas, gaspachos e migas já eram do meu conhecimento ainda que feitos de maneira bem diferente.

A pensão funcionava, naturalmente, à base de funcionários que ali eram colocados e um ou outro passante, o que acontecia raramente.

Foi ali que conheci alguns pratos regionais, como as favas guisadas com casca, as sopas de peixe muge e o jantar de grão.

Peixe nessa altura em Alcoutim só peixe do rio, sardinhas, mucharras, charros e pouco mais, trazidos pelo vendedor ambulante, então em bicicleta motorizada.

Chamava-se ao muge o 365 o que tem um significado evidente.

Ninguém vendia peixe congelado, talvez porque as pessoas não estivessem habituadas a esse tipo de consumo. Nem peixe nem carne, incluindo frango. A energia eléctrica tinha chegado há pouco tempo e as pessoas não estavam ainda habituadas à sua utilização.

Carne era de carneiro quando os dois talhantes da terra faziam abate.

Afinal, tudo isto não se passou há tanto tempo como as pessoas possam pensar.

Hoje temos residenciais, restaurantes, pousadas e hotéis! Mas há dias em que se quer jantar e não se sabe onde.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A esparrela


Esparrela é uma armadilha de caça que tem outras designações conforme as zonas do país. É constituída por dois arcos de arame em semicírculo e iguais, havendo um que se desloca para a posição oposta que é envolto por uma espécie de gatilho e tranca numa pequena argola, ficando assim sobre pressão motivado por uma mola de reduzidas dimensões.

Destina-se à apanha de passarada, como cotovias, boieiros, calhandras e arvelas ou qualquer outro que accione o sistema.

Em tempos que já lá vão, era muito utilizada pelos homens quando andavam a alqueivar a terra preparando-a para as novas sementeiras.

Ao abrir os regos, levantando a terra que possuía alguma humidade, as larvas começam a aparecer e a passarada apresta-se para se alimentar.

Conhecedor da situação, o “ganhão” não deixava de levar as suas esparrelas que ia armando pelos regos, camuflando-as com terra, deixando só à vista o travão do gatilho.

O isco mais usado e eficiente era uma larva que se extraía da esteva já velha, cuja ponta se partia e de onde se recolhia uma ou duas com cerca de um centímetro de comprimento, Atava-se pela cabeça ao travão do gatilho, ficando o “rabo” liberto para se movimentar, chamando assim a atenção da presa, que ao pretender comer a pequena lagarta accionava o mecanismo, ficando entalada nas duas peças semicirculares.

Para se apanhar as arvelas, a esparrela tinha que se colocar em posição invertida, porque de outra maneira comia a larva, o disparo fazia-se, mas ela, devido à posição inicial, escapava-se.

Outra época procurada para o uso da esparrela era durante a apanha da azeitona que se armava debaixo das oliveiras e o engodo era a azeitona. Destinava-se a apanhar os tordos, aves já um pouco maiores.

Não posso deixar de referir um facto que minha mulher ainda hoje conta.

Quando tinha três ou quatro anos, em casa de seus pais trabalhava um “ganhão” a quem chamava ti Chico.

Na época do alqueive, o trabalhador ao regressar a casa trazia-lhe sempre um passarinho que assava no “fogo” feito para confeccionar as refeições e ao mesmo tempo aquecer o ambiente.

O contrato era sempre o mesmo, a cabeça era para o caçador.

A pequenita, quando ele chegava, procurava-lhe nos bolsos o pássaro que sabia que ele trazia, apesar de dizer que não. Recordações de infância que não esquecem.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

D. Juliana de Lara


Filha de D. Manuel de Meneses, 4º Conde de Alcoutim e 1º Duque de Vila Real, neta de D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Alcoutim.

Era sobrinha paterna de outra D. Juliana de Lara que ao casar com D. João de Lencastre, foi 1ª Duquesa de Aveiro.

Casou em 1598 com D. Sancho de Noronha, nascido em 1579, filho póstumo do 5º Conde de Odemira e que nasceu pouco tempo depois da morte de seu pai, ocorrida na batalha de Alcácer-Quibir.

O título foi-lhe concedido pelo cardeal -rei D. Henrique.

Foi-lhe confirmada a alcaidaria-mor de Alvor nos mesmos termos em que a tivera seu pai mas os rendimentos pertenceram a sua mãe, viúva, e durante toda a vida.

Desempenhava as funções de Mordomo-mor da rainha D. Luísa de Gusmão quando faleceu a 12 de Dezembro de 1641, sem deixar descendência.

A Casa de Odemira veio a ser incorporada na Casa Cadaval.
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Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Vol III. INCM.

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 2 Vol., 1982.

domingo, 25 de novembro de 2012

Os saca-rabos

 
Na nossa região de origem, nunca tinha ouvido falar em tal e não fazia parte do nosso vocabulário. Foi em Alcoutim que o aprendemos.

Este carnívoro de porte médio (2/3 quilos) desenvolve a sua actividade principalmente de dia e é frequente no Alentejo e no Algarve, ainda que ultimamente já tenha sido visto mais para norte. Parece ter sido introduzido na Península Ibérica pelos árabes que o terão trazido do Norte de África.

Distribui-se pela Ásia Menor, África e Sul da Europa, foi muito querido pelos antigos egípcios, pois era devorador de ovos de crocodilo. Parece ter origem na Etiópia.

É conhecido também por mangusto e escalavardo.

O corpo é alongado e de aspecto fusiforme, focinho pontiagudo, patas curtas e cauda bastante longa, podendo chegar a 50 cm de comprimento.

As orelhas são pequenas e os olhos redondos, pequenos e de cor de âmbar.

Os machos distinguem-se das fêmeas por serem um pouco maiores. A cor da pelagem é entre o cinzento-escuro e o castanho, sendo a ponta dos pêlos cinzenta prateada. No Verão a pelagem é mais curta, escassa e clara.
 
Saca-rabo vítima de cães no concelho  de Alcoutim
em 1989. Foto JV
Alimenta-se de ofídios, pequenos mamíferos, principalmente roedores, insectos, anfíbios, ovos, aves, peixes e até vegetais, contudo, a sua presa preferida é o coelho.

Na primeira metade do século XX devido à Campanha do Trigo que deu origem à eliminação de muito matagal mediterrânico, a espécie regrediu, mas com o abandono dos campos, os matagais recrudesceram e a espécie voltou a expandir-se, já se encontrando alguns exemplares mais a norte do país. A configuração do seu corpo e mais características são próprias destes ambientes.

Procuram as proximidades de linhas de água, já que a água é indispensável à sua manutenção.

Utiliza como toca as luras abandonadas pelos coelhos, que através das suas fortes garras adaptam ao corpo para além de grutas de difícil acesso.

Acasalam na Primavera e a gestação é de cerca de 80 dias e de 2 a 4 crias. Os machos são poligâmicos, podendo fecundar várias fêmeas. As crias estão com a mãe, cerca de um ano, até à nova ninhada. O macho participa nos cuidados parentais. Com três meses acompanham a fêmea na caça e alcançam a maturidade sexual no segundo ano de vida.

A fêmea tem apenas uma ninhada por ano.

Ao acompanharem a mãe, as crias seguem em fila indiana, cada uma com o focinho por baixo da cauda da que a precede e daí o nome de saca-rabos.

Em Alcoutim vimos dois exemplares, o que a fotografia apresenta e que foi vítima de cães. O outro vimo-lo numa jaula e desconhecemos o destino.

Os alcoutenejos faziam-lhe crua guerra.

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sábado, 24 de novembro de 2012

Como eu vi Odivelas

 

Escreve

M Dias


Considerei um “mal necessário” ter de vir viver para Odivelas no início da década de 80.

Não gostei da pequena vila, apertada num vale, entre serras, por onde corre o Rio da Costa.

Ao longo deste rio, estende-se uma comprida várzea que vem da Pontinha à Póvoa de Sto Adrião. Na frente de Odivelas, virada de costas para Lisboa, viam-se grandes couvais e outras hortaliças, que se dizia, alimentavam o Hospital de Santa Maria...

O acesso principal à vila era feito por uma pequena e velha ponte que me fazia estremecer sempre que a chuva fazia transbordar o rio.

Os transportes públicos resumiam-se a autocarros da Rodoviária Nacional. Era um martírio matinal e ao fim do dia passar a garganta estreita do Sr. Roubado.

Senhor Roubado

Nesse tempo chegava mais depressa um burro a Lisboa do que um Porshe subindo a Calçada de Carriche a essas horas.

Os habitantes diziam: “vou a Lisboa...”, como se esta fosse uma cidade longínqua, e iam “apanhar a carreira...”!

Esta característica rural, a par do seu importante núcleo histórico, agradava-me.

Existiam apenas um cinema, um velho campo de futebol, a Sociedade Musical e o pavilhão Olaio, onde se praticavam algumas modalidades desportivas.

Pelas encostas iam surgindo urbanizações com prédios mais confortáveis e coloridos, embora quase sempre implantados em “terrenos baldios”., pois a urbanização ficava com a estrada que lhe dava acesso e pouco mais.

O meu bairro ENCANTOU-ME! Construído no cimo de uma pequena encosta verdejante e luminosa, servido por duas largas estradas, ouviam-se os chocalhos das vacas, o patear das mulas e machos e o cantar dos galos ao amanhecer. Os novos moradores eram na maioria jovens. Conhecíamo-nos de vista e cumprimentávamo-nos. Encontrávamo-nos no único mas moderno parque infantil onde brincavam os nossos rebentos.

Sentia-me numa pequena aldeia, aos pés de uma grande cidade e o regresso a casa embora penoso, valia a pena! Dava até para esquecer o cheiro nauseabundo do rio e da fábrica do sebo que em certas direcções do vento chegava a meio da encosta.
Odivelas de hoje

Ao contrário de mim que fui perdendo juventude e energia, ODIVELAS é hoje uma CIDADE, Sede de Concelho, rodeada e atravessada por belíssimos acessos de e para todo o País, uma linha de Metropolitano e razoáveis transportes de superfície.

Tudo isto surgiu em cerca de 30 anos!

Perdeu, é certo muito da sua ruralidade mas ganhou em qualidade de vida. Falta-me falar ainda do grande salto na cultura, no lazer, na diversidade dos seus actuais habitantes e nos apoios sociais. Ficará com certeza para uma próxima oportunidade.

Mas, atrevo-me ainda a sugerir: a “cereja em cima do bolo” seria mesmo a recuperação e embelezamento da nossa frente ribeirinha. Será demais pedir um “mini-Parque das Nações”? (já temos um começo... para quando a continuação?)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Rotunda dos Bombeiros ou rotunda do Desleixo?


(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA DE 2007.01.00 Nº 83 Pág.2)

 
Quando procuramos conhecer uma terra ou uma região em passeio turístico, não deixamos de observar com cuidado tudo o que se nos oferece, passando pela parte monumental e artística, a verificação da harmonia do tecido construído e respectivas características, a existência e o tratamento de zonas verdes, a preocupação dos serviços de higiene e a afabilidade de suas gentes, entre outros aspectos e conforme a sensibilidade de cada um.

Vem isto a propósito do novo acesso criado à vila de Alcoutim que evitou umas tantas curvas mas que acaba por ir parar ao mesmo sítio, já que a circulação pelas ruas medievais se torna complicada, principalmente para veículos maiores. Ultimamente e pensamos que bem, foi instituído um único sentido o que facilitou um pouco mais a circulação.

O novo acesso veio beneficiar o campo de futebol, penso que sem qualquer utilização, e principalmente o Quartel dos Bombeiros, o que se tornava indispensável.

Não vou comentar o grau de inclinação que a estrada apresenta e se assim foi executada é porque tecnicamente é admissível.

Optou-se pela criação de uma rotunda, para mim talvez um pouco exagerada, sistema nos últimos tempos muito utilizado e com vantagens muito consideráveis em relação aos cruzamentos. Em certos sítios usaram e abusaram das rotundas, podendo algumas ser dispensáveis. Contudo, há situações em que admira ainda não terem sido criadas. Por passar nestes últimos dias por um desses locais, verifiquei com satisfação que já existia uma rotunda.

Ainda que o IC 27 lhe tenha tirado muito movimento, parece-me que às Quatro Estradas, a criação de uma rotunda seria muito vantajosa, tal como aconteceu em relação a Martim Longo.

A Avenida dos Bombeiros já foi inaugurada, como atesta a placa instalada e consequentemente a rotunda também o teria sido, à qual se terá atribuído o mesmo nome.

Quem visitar pela primeira vez Alcoutim e utilizar aquele acesso que é recomendado, a primeira impressão não vai ser positiva, pelo contrário, a rotunda será por ele baptizada como a Rotunda do Desleixo, pois nela grassa a erva daninha! E isto nada tem a ver com verbas elevadas, tem a ver com o bom senso, com o bom gosto, com a sensibilidade de cada um. Bastaria um simples arrelvamento para tudo modificar. E os arbustos geometricamente cortados e as flores coloridas? E os loendreiros? Penso que a Câmara Municipal tem nos seus quadros funcionários aptos para estes serviços.

Estará a rotunda esperando que apareça um “Marquês de Pombal” ou um “Sousa Martins”? Talvez.



 
Pequena nota

Publicámos este pequeno texto em Janeiro de 2007como crítica construtiva àquilo que observámos no acesso principal da Vila de Alcoutim, juntando uma fotografia elucidativa daquilo que afirmávamos.

Tempos depois, que eu não posso precisar, aquilo que considerámos um desleixo foi rectificado o que certamente nada teve a ver com a opinião manifestada como sempre acontece em casos desta natureza (!!!).

O aspecto da rotunda passou a apresentar-se com decência e isso é importante para quem chega.

Na nossa modesta opinião e não passa disso, a decoração da mesma é triste com a apresentação de cores escuras que se junta ao negro da prensa industrial, sendo excepção o branco dos cilindros de pedra. Havia outras hipóteses. Entretanto a prensa apodrece e será a altura de colocar “um marquês de pombal”.

O lado direito da estrada que presumo ser património municipal continua em bruto, salvo se entretanto recebeu algum melhoramento.

Não é preciso ser engenheiro, arquitecto ou doutor para conceber a decoração de uma rotunda como esta, basta ter bom gosto.
 
 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

As Casas de Hóspedes de Alcoutim até meados do século passado [2]


 


Escreve

Gaspar Santos



A PENSÃO MADEIRA

Aspecto da fachada principal.
Foto JV, 1971
A Pensão Madeira funcionava no edifício onde hoje é a Farmácia Caimoto, mesmo ao lado da Igreja Matriz de Alcoutim. Era explorada por Custódia Madeira, uma senhora que tinha três filhos: Alfredo, Palmira e Alzira.

Este edifício foi mais tarde restaurado mantendo todavia a mesma fachada. A entrada principal era onde hoje é a porta da farmácia e dava acesso ao 1º andar e terraço. À direita existe um portão de ferro onde outrora havia um portão de madeira, que dava entrada para o quintal e as cavalariças. Deixemos a descrição do interior da pensão para José Varzeano que, em solteiro, esteve aqui hospedado quando já era Pensão Marreiros, nome do novo hospedeiro.

 Para além do edifício referido e praticamente em ângulo recto por detrás da casa de António Luís Fernandes e da Fábrica de Foices desenvolvia-se um quintal estreito mas muito comprido, murado do lado da Ribeira de Cadavais até quase à porta do logradouro da GNR, deixando um estreito caminho a que se dava o nome de “estrazes”.

O quintal tinha dois portões que davam para os “estrazes”: um a meio e outro no topo poente junto ao logradouro da GNR. Nele semeava o vizinho Domingos Corvo favas, ervilhas e outros legumes, além das ervas de cheiro com que a Senhora Custódia Madeira condimentava as comidas. Este quintal foi sacrificado com a construção da actual rua de continuidade com o Largo da Igreja.

Tinha um poço muito fundo, com cerca de 25 m. Tomo esta medida pelos metros de corda que a Senhora Custódia comprava quando tinha de substituir a que servia para içar o balde. No verão apenas tinha pouco mais de um metro e meio de altura de água. A secção quadrada em alvenaria desde o gargalo até cerca de 5 m abaixo do solo, assentava em rocha xistosa. Para baixo, nessa rocha mantinha a secção quadrada embora mais tosca tal como fora escavado até ao fundo. Encostava ao muro do gargalo um tanque de lavar roupa que as empregadas da pensão utilizavam. Tirava-se a água com um balde atado a uma corda e por meio de uma roldana.

Esse poço fazia parte de um sistema que incluía uma cisterna localizada no terraço da pensão e que era alimentado a partir do poço através de água que escorregava por uma telha de canudo encimando o muro, que ainda lá está a ladear um caminho até ao terraço. A outra margem deste caminho encostada aos muros de suporte dos quintais vizinhos tinha um canteiro de flores que se continuava até ao terraço.

A água desse poço tinha mau gosto, não sendo utilizada senão para lavagens. Meus pais, que sempre tiveram boas relações de vizinhança com a proprietária da pensão, estavam autorizados a tirar do poço a água que quisessem, o que nos deu um grande conforto, pois o abastecimento alternativo era longe e caro. Aqui bastava tirar a água aos baldes do poço e subir a rampa do muro derrubado para o nosso quintal.

O velho portão da pensão.
Foto JV, 1971
Para além da água que este poço fornecia, tinha uma outra utilização igualmente nobre: fazia as vezes de frigorífico quando este utensílio doméstico ainda não tinha chegado a Alcoutim. A senhora Custódia Madeira utilizava-o por vezes e outras vezes eram pessoas que lho pediam para refrescar cervejas ou vinho para alguma festa. Quem conhece o calor dos nossos verões sabe, com certeza, avaliar a necessidade de bebidas frescas, frescura essa que esta água tinha o mérito de lhes conferir.

O tipo de pessoas que aqui se hospedavam eram funcionários públicos em princípio de carreira, caixeiros-viajantes, ou alguma pessoa que se vinha tratar com o Dr. João Dias. O atendimento e os pratos que serviam, bem como o grau de satisfação e de fidelidade dos clientes, para não me estar a repetir, direi que era o mesmo da Pensão Botelho sua concorrente, já aqui referida no dia 4 de Novembro.

 Conheci alguns hóspedes que me ficaram na memória: o Professor José Amaral, família de pintores dinamarqueses, Almeida Carrapato viajante, Araújo Ribeiro industrial de moagem, vários chefes de finanças como Mário Pires, Manso Ribeiro, e o lavrador Silva que lá ia às vezes comer e que por morte deixou à Senhora Custódia o usufruto da horta na curva da ribeira atrás do Lar de Alcoutim e um cercado de amendoeiras na Fonte da Serra.

O Senhor Silva era talvez a pessoa mais rica da vila. Além de ser um grande proprietário de terras e laranjais era funcionário da Câmara Municipal, tendo chegado a Chefe de Secretaria interino. Era porém um alcoólico inveterado e tinha fama de ser um D. Juan, parece que com muitas aventuras no seu passado. Quando apanhava uma bebedeira maior ficava adoentado e ia curar a ressaca hospedando-se na Pensão Madeira onde lhe davam uns caldinhos e alguma aspirina até passar.

Da família dinamarquesa (um casal com duas filhas e um filho) ali hospedados eram todos pintores de quadros a óleo. A sua técnica era do tipo naturalista e pintavam sobretudo paisagens. Estiveram hospedados duas grandes temporadas com um intervalo. Os jovens filhos solteiros integraram-se muito bem na juventude alcouteneja, eram agradáveis e geralmente estimados. Iam aos bailes e o Henry e uma irmã estiveram à beira de casar em Alcoutim.

O Jorge era um adolescente com forte gaguez mal se percebendo. Natural do distrito de Leiria, no início dos anos 40 esteve hospedado na Pensão Madeira enquanto se tratava com o Dr. Dias. Estava acompanhado de um familiar mais velho. Fomos amigos e convivemos muito pois o nosso quintal e o da pensão eram contíguos e dava para brincar em baloiços e com o meu cavalo de madeira. Mais tarde, aí pelos anos 60, fui encontrá-lo internado no Hospital Júlio de Matos muito revoltado com a vida e também com o familiar que o acompanhara durante o tratamento. Não foi capaz de superar as dificuldades de comunicação e a sua mente adoeceu.

A Pensão Madeira também tinha capacidade de alojar as bestas e até as carroças e/ou charrettes, meios de transporte que os hóspedes utilizavam quando ainda não havia ou não se tinha generalizado o automóvel. Era nesse estábulo que o vizinho Domingos Corvo guardava a sua burra.

No tempo a que me reporto era ali empregada Maria Miquelina, de Alcoutim, em permanência, com a ajuda de Maria Rufino de Balurcos quando havia mais trabalho, e ainda outras pessoas em trabalhos de carácter sazonal. 

Com o envelhecimento da dona da pensão esta passou a ser gerida pelo Senhor Marreiros dando continuidade a esta casa de hóspedes nos anos 60.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sede da APROFIP - Associação dos profissionais de figo-da-índia portugueses, será em Alcoutim


Decorreu recentemente um inquérito entre os 53 sócios fundadores da APROFIP, que terminou no dia 10 do corrente, no sentido de se escolher o local da Sede da Associação.

Conforme proposta apresentada na Assembleia Geral e aprovada, a sede localizar-se-ia no concelho mais votado.

Manifestaram-se 45 associados, 36% dos quais indicaram o concelho de Alcoutim.

A Direcção encetou diligências no sentido de obter apoios, nomeadamente autárquicos para a sua efectivação.

A APROFIP tem sócios fundadores nos concelho de Abrantes, Arronches, Arraiolos, Beja, Castelo Branco, Castelo de Vide, Évora, Lagoa, Mértola, Nisa, Olhão, Portalegre, Santiago de Cacém, Serpa, Sesimbra, Silves, Tavira, Viana do Alentejo e Vila Franca de Xira, além de naturalmente Alcoutim.

São 20 concelhos que se distribuem pelo sul do país, desde as zonas do Ribatejo e Estremadura, passando por todo o Alentejo e naturalmente o Algarve.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Levantamento Arqueológico-Bibliográfico do Algarve



No formato de 22X21,5 cm em bom papel, comportando 225 páginas e numa edição da Delegação Regional do Sul da Secretaria de Estado da Cultura, 1988, constitui um valioso trabalho de recolha e inventariação temática do que se tem escrito sobre o Algarve.

Começa o trabalho por uma relação alfabética de ESTAÇÕES, SÍTIOS E ACHADOS COM INTERESSE ARQUEOLÓGICO; FREGUESIAS E CONCELHOS A QUE PERTENCEM, passando depois para a BIBLIOGRAFIA RESPECTIVA, ordenada, naturalmente, por concelhos e ordem alfabética.

A parte seguinte diz respeito à BIBLIOGRAFIA propriamente dita, indicando os autores e os locais onde foram publicados. A parte final indica os artigos ou notícias não assinadas e termina com a relação das PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS CONSULTADAS.

Foi através deste trabalho que tive conhecimento de vários artigos publicados sobre Alcoutim e o seu concelho, ainda que não me tivesse sido possível encontrar muitos deles.

São várias dezenas os topónimos que a relação apresenta entre as páginas 49 e 52. São muitos os autores que dedicaram alguns dos seus trabalhos a Alcoutim.

Seis dos primeiros dos meus trabalhos, ainda que modestos, fazem parte desta inventariação.

A equipa de investigação bibliográfica foi constituída por jovens licenciados com o suporte dos arqueólogos Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes e do seu rigor científico.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Rancho dos Guerreiros"


 
Esta fotografia foi-nos amavelmente cedida com o rótulo “Rancho dos Guerreiros”.

Admitimos que a fotografia tivesse sido tirada em meados da década de 50 do século passado.

Entre outros significados, rancho é um grupo de pessoas com tarefas semelhantes, especialmente de trabalhos agrícolas e também grupo folclórico que se dedica à música, ao canto e à dança. É neste sentido, segundo pensamos, que este grupo foi organizado, não para continuidade mas para uma actuação específica, aparecendo mesmo, no primeiro plano um acordeonista.

Pelo que nos têm contado, nas primeiras festas da vila houve batalha de flores no rio em frente da vila e também na praça, o que mobilizou a mocidade local e vizinha que na altura era pródiga.

Os trajes fazem lembrar os usados no litoral algarvio, pelo que nos é dado verificar no usado por alguns grupos folclóricos daquela região.

A fotografia é, certamente, tirada nos Guerreiros do Rio e até nos parece que a habitação que lhe serve de fundo é aquela que apresentamos, como bem restaurada, no recente texto que aqui publicámos sobre a mesma povoação.

Já nessa altura a frontaria não era caiada de branco, tal como ainda hoje acontece, tendo assim, sido respeitada, possivelmente, a cor original.

Estes jovens com sangue na guelra são hoje gente na casa dos oitenta e alguns já não andarão por cá, como é natural.

Estariam talvez esperando pelos barcos para os transportar a Alcoutim, pois nessa altura para sair dali só de barco ou de burro!

domingo, 18 de novembro de 2012

Tal como sino rachado




Poeta

José Temudo


Aquela ave canora
 
que ouço no meu horto,
 
canta ou chora?

E eu, estou vivo ou morto?

Tal como sino rachado

ou fino cristal partido,

já não emito sonido
 
se acaso sou tocado!
 

sábado, 17 de novembro de 2012

Álamo, onde os romanos deixaram mais vestígios


É o último dos “montes do rio” que vamos abordar distando 12,5 km de Alcoutim, freguesia a que pertence mas apenas a quilómetro e meio do vizinho Guerreiros do Rio.

Se estivermos a percorrer a estrada marginal (E.M. 507) ao sair dos Guerreiros do Rio encontramos, após uma leve subida, uma rotunda cuja primeira saída nos leva à Corte das Donas e a segunda ao Álamo, continuando assim a estrada marginal.


Rotunda do Álamo. Foto L.M.
As várzeas do rio aqui são mais extensas, constituindo bons locais de cultivo onde vicejam vinhas e abundam oliveiras, figueiras e outro arvoredo frutícola.

Esta zona devido à sua localização e características do terreno foi sempre procurada para a fixação dos povos, entre os quais visigodos, romanos e árabes que por aqui foram passando em procura de melhores condições de vida. Talvez, por isso, por aqui tenham sido encontrados os mais importantes achados arqueológicos.

Entrada da povoação pelo lado Norte. Foto JV
Estácio da Veiga indica-o como sede de “povoação romana extinta ou arrasada” (1), mas desconhece-se o nome que teria tido, tanto esta como as povoações vizinhas já ocupadas em épocas distantes.

O “muro velho”, como o povo do monte lhe chama, constituiu uma represa ou barragem que os romanos construíram no barranco da Fornalha. Foi Estácio da Veiga que a identificou em 1877, mandando levantar uma planta.

O muro deveria ter tido no início um comprimento de cerca de 50 metros, possuindo actualmente a altura máxima de 3 e a espessura da mesma medida (2) e com contrafortes. O topo do muro tem cerca de 2,3 m e os sete contrafortes estão afastados uns dos outros igualmente 2,3 m. A espessura é de metro e meio e o comprimento de 1,6 m.

Ruínas da barragem romana
 
Presume-se que a barragem tivesse tido uma capacidade de 2.100 m3.

É uma obra hidráulica de alguma dimensão, possivelmente para servir a povoação romana, que deverá ter existido nas redondezas e de que Estácio da Veiga fornece mais alguns dados.

A muralha, devido à técnica de construção, tem-se mostrado de uma solidez impressionante e o povo considera-a “eterna”.

Este monumento foi classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 26-A/92, de 1 de Junho.

Estátua de Apolo
Estácio da Veiga explorou, igualmente, o resto de um edifício romano denominado a “Igreja”, formado por vários compartimentos rectangulares. Um pouco ao sul, mais casas arrasadas com sepulturas romanas escavadas nos pavimentos. Foram aqui encontradas três estátuas fragmentadas, sendo uma de divindade (3), mais propriamente de Apolo, em mármore com 1,69 de altura. Está representado nu, apoiado a um tronco de árvore onde repousa a correia e a aljava. Faltam-lhe a cabeça e os dois braços. Encontra-se no Museu Nacional de Arqueologia com o nº de inventário E – 5467.

Encontra-se presentemente no núcleo museológico de arqueologia no castelo de Alcoutim uma réplica desta estátua.

Foi recolhida ainda alguma cerâmica.

Sondagens feitas num velho caminho detectaram uma via romana.

Muitos objectos têm sido destruídos pelos achadores que desconhecem o valor arqueológico que possuem, talvez hoje não tanto, mas em 1970 ainda ouvimos contar destes achados e mesmo a descrição de algumas peças que depois foram partidas. Isto acontecia, normalmente, quando andavam a lavrar.

Segundo nos afirmaram recentemente, o Álamo é o monte em que vivem mais estrangeiros de todos os considerados “montes do Rio”.

O casario do “monte” estende-se alcandorado pela encosta. Notam-se algumas casas típicas com platibandas e fachadas trabalhadas em argamassa e policromadas.

Chama-nos a atenção um interessante exemplar bem restaurado, tendo sido informado que é obra de estrangeiros, que de uma maneira geral preservam aquilo que nós não somos capazes de fazer.

Interessante construção do primeiro quartel do século passado
e que estrangeiros preservaram. Foto JV

Na década de 70 do século passado existia um forno de cozer pão comunitário. Era conhecida a arte de fazer cadeiras e da cestaria.
 
A povoação já beneficia do saneamento básico. Anteriormente a água era distribuída por nove fontanários e antes disso por dois poços públicos.

As crianças iam à escola que se situava nos Guerreiros do Rio por ser o monte mais central.

Em 1939 a Câmara tinha pedido a criação de um posto de ensino escolar. (4)

Em 1991 foi concluída a pavimentação dos arruamentos (5) que após o saneamento básico tiveram novamente de ser pavimentados.

Tal como na maioria dos montes da freguesia, existia uma Lutuosa.

Em meados do século passado funcionavam na povoação dois estabelecimentos comerciais.

A povoação vista do Sul. Foto JV
 
O “Álimo” como o pároco de Alcoutim o indica no questionário formulado em 1758 e que ficou a constituir as Memórias Paroquiais, é dado como tendo 15 vizinhos.

Em 1839, segundo Silva Lopes, apresentava 21 fogos e no recenseamento de 1991 era dos montes do rio o mais populoso, com sessenta e quatro moradores e cinquenta e sete fogos.

Em frente, no outro lado do rio, a propriedade rústica conhecida por “Fonte Santa”.

O topónimo prende-se naturalmente à flora. Álamos (ou choupos) são por aqui vulgares, junto ao rio.

A linha limite da freguesia, segundo ouvimos dizer, passa por este lado passa, ao Barranco das Pereiras, onde nas proximidades funcionava um posto da Guarda-Fiscal e que foi construído em 1890.
 
Seguindo a marginal, vamos encontrar um novo monte. mas já pertencendo ao concelho de Castro Marim, a Foz de Odeleite, cujo posto pertencia à Secção da Guarda Fiscal de Alcoutim.

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NOTAS

(1) - Carta Archeológica do Algarve.

(2) - Aproveitamentos Hidráulicos Romanos a Sul do Tejo, António de Carvalho Quintela, José Luís Cardoso e José Manuel Mascarenhas, 1986.

(3) - Arqueologia Romana do Algarve, Maria Luísa Estácio da Veiga Affonso dos Santos, 1971.

(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Dezembro.

(5) - Boletim Municipal, Nº 8 de Abril / 91.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

É pouco vulgar e tem origem em Alcoutim!


Foto de Família no Montinho das Laranjeiras em 1938 (*)
 
Nasceram nos montes do rio, ele no Montinho das Laranjeiras e ela nos Guerreiros do Rio, casaram e viveram na vila de Alcoutim até seguirem o trajecto que todos temos de percorrer, tendo sido sepultados no cemitério local, primeiro ela aos 85 anos depois ele com 96 feitos.

Do casamento criaram-se quatro rebentos, três meninas e por fim um rapaz, todos nascidos na vila de Alcoutim onde fizeram a instrução primária.

Duas delas casaram com alcoutenejos e a outra com um beirão. Das três só uma viveu sempre em Alcoutim. Todas enviuvaram, tal como o rapaz que também veio a casar fora.

Até aqui tudo normal.

A mais velha tem 92 anos, seguindo-se a segunda com 91, a terceira com 82 e o rapaz, o menino das manas, com 79.

Somam a bonita quantia de 344 ANOS!

Digam-nos lá caros leitores se conhecem algum casal que tivesse tido “apenas” quatro filhos (faleceu uma de tenra idade) e que juntos se mantenham somando 344 ANOS! Nenhum ficou pelo caminho!

Se conhecerem, denunciem o caso.

Pois nós conhecemos e vamos denunciá-lo para espanto de muitos.

O casal era constituído por António Patrocínio dos Santos, guarda-fios de profissão e D. Luísa Martins, os filhos são D. Violante Martins dos Santos, 92 anos, residente em Setúbal, viúva do alcoutenejo José Parreira Baptista, que foi cabo da GNR, D. Cremilde Martins dos Santos, de 91, residente em Alcoutim, aposentada como encarregada da Estação dos CTT de Alcoutim durante largos anos, viúva do alcoutenejo, Francisco Martins que também foi cabo da GNR e eleito vereador da Câmara Municipal de Alcoutim nas primeiras eleições autárquicas após o 25 de Abril, D. Maria Martins dos Santos, de 82, residente em Portimão, viúva de Humberto Ferreira da Silva que foi relojoeiro de profissão e por , Gaspar Martins dos Santos, de 79 anos, engenheiro electrotécnico formado pelo Instituto Superior Técnico, nosso prezado Amigo e colaborador do ALCOUTIM LIVRE desde a primeira hora e casado com a Senhora Dra. Maria de Lurdes, residentes em Lisboa.

É como se vê, uma família com características de longevidade.

Que se vão mantendo por mais uns bons anos são os nossos votos.

Nos 75 anos de Gaspar Santos que suas irmãs fizeram questão de comemorar
e onde se reuniram algumas dezenas de Amigos, quase todos de
longa data e onde tivemos o prazer de estar presente com a minha mulher.
Gaspar Santos usando da palavra tendo à sua esquerda a esposa e as duas irmãs Cremilde e Maria.
LISBOA, 2008
 
(*) Pequena nota

O sentido de família que esta fotografia mostra, hoje é raro encontrar.

António Patrocínio dos Santos está sentado e de gravata.

Da esquerda para a direita e na 4ª posição encontra-se a avó paterna destes quatro irmãos, de cabelo branco e a seu lado a nora, esposa de António Santos.

A única criança presente é Gaspar Santos, de risquinho ao meio, protegido pelas mãos da sua irmã mais velha, Violante, então já uma senhora. Do outro lado e igualmente protegendo o menino a outra irmã, Cremilde (de blusa branca) também uma senhora.

Os restantes são tudo familiares.

Além deste sentido de família que já referimos, notamos um ambiente típico alcoutenejo

Casa de telha de canudo onde não se vêem janelas e toda caiada de branco. Não falta junto da porta a tradicional pilheira e o poial comprido ao longo da parede. Lá está a lata que se caiou e encheu de terra para colocar uma roseira que embelezava o local. Também não falta a parreira, que recebe as águas do telhado por um tipo de caleira, para fazer sombra na época de calma e ao mesmo tempo dar uns cachos para comer ou espremer na queijeira e fazer vinho, representado por um barril que se vê à direita.

Alcoutim era assim!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Os limites entre Alcoutim e Castro Marim desde o Guadiana até à Ribeira de Odeleite


Já publicámos neste espaço um texto sobre a divisão do concelho de Alcoutim com o de Loulé. Iremos hoje abordar a mesma temática mas entre o concelho de Alcoutim e o de Castro Marim, segundo a descrição e a nossa interpretação só abrange a parte que vai do Guadiana à Ribeira de Odeleite.

Em 11 de Junho de 1844, os secretários das Câmaras de Castro Marim e de Alcoutim, juntamente com os informadores dos concelhos, António Madeira e Manuel Gonçalves, do Álamo, Manuel Vicente, João Maria, Domingos Lourenço e Manuel da Palma, dos Guerreiros do Rio e José Ribeiro e José Dias, de Corte das Donas, só para referir a parte de Alcoutim, reuniram-se no Barranco da Ferreira que é entre o do Carril e o da Pereira.

Não conseguiram chegar a acordo apesar dos alcoutenejos dizerem que tinham cedido “em mais de 15 moios de terra”. (1)

A demarcação efectiva, se efectivamente o foi, só veio a realizar-se cerca de um ano depois.

Para o efeito, reuniram-se no dia 28 de Abril de 1845 no sítio da Foz, concelho de Castro Marim, os Administradores dos dois concelhos, por Castro Marim, Francisco Xavier dos Reis e por Alcoutim, José Cláudio da Fonseca. Presentes os informadores João Martins, dos Guerreiros do Rio e José Dias, da Corte das Donas, por parte do concelho de Alcoutim.

Verifica-se assim que o número de informadores por parte de Alcoutim e em relação à primeira tentativa de acordo passou de oito (2 da Álamo, 4 dos Guerreiros do Rio e 2 das Corte das Donas) para dois (1 dos Guerreiros do Rio e 1 das Corte das Donas sendo José Ribeiro o único que repetiu a missão de informador.

Após o juramento sobre os Santos Evangelhos, para sem dolo nem malícia informarem o melhor modo de se fazer a divisão dos dois concelhos, com a maior comodidade possível dos habitantes dos “montes” limítrofes e depois de madura reflexão, as Câmaras decidiram acordar na seguinte demarcação: Começando pela parte do Guadiana à foz do barranco da Ferreira e por este acima até meter no regato que vai dar à ponte da Corga do Curral da Gafa, onde se tanxou o primeiro marco; e deste partindo pela Corga acima até ao dito curral, o qual ficou servindo de marco; e em seguida deste à Eira do Castelo, onde se tanxou o segundo marco; e deste aos palheiros do Val das Zorras, e deste aos Palheiros de João d’Amoreira, tudo em linha recta, e ficando servindo de marcos as edificações mencionadas; e dos ditos Palheiros de João d’Amoreira parte em direitura à altura do Serro do Mello, onde se tanxou o terceiro marco; e deste em seguida vai dar à altura do Serro do Pego das Veredas, servindo de quarto marco uma pedra nascidia aonde se fez uma cruz, ficando comum para os dois concelhos o terreno que há desta pedra ao quinto marco, que foi posto no cimo da Rocha do dito pego, assim como o que dista da mesma pedra da cruz ao sexto marco, que foi posto no cume do Pontal, que vai dar à oliveira de Manuel Dias da Corte das Donas, margem da Ribeira, cujo terreno, como acima se leva dito fica comum para logradouro dos gados de ambos os concelhos e por ele poderem comodamente chegar a beber ao dito Pego das Veredas.
 
Foz da Ribeira de Odeleite

Assim ficou demarcado, lavrando-se a competente acta.

A divisão com o concelho de Castro Marim tinha ficado resolvida, isto segundo o que consta da competente acta, contudo, o vereador fiscal da Câmara de Alcoutim em sessão municipal de 2 de Janeiro de 1850, por isso, cerca de cinco anos depois, chama a atenção para o facto de serem notórios os abusos e vexames cometidos pelos “rendeiros do ver”, tanto deste concelho como dos limítrofes, para com os habitantes dos “montes” confinantes e tudo devido à falta de uma linha divisória. Pede à Câmara que tome providências no sentido de se efectuar tal divisão, uma vez que o assunto não tinha ficado resolvido da primeira vez que tinha sido posto.

Não encontrámos nada em actas seguintes sobre o assunto, pelo que não sabemos esclarecer a situação. O que sempre ouvimos dizer em Alcoutim, é que a partilha se faz pelo barranco das Pereiras e sebemos que existe na chamada estrada marginal uma placa toponímica indicando a divisão dos concelhos.

NOTA

(1) – Acta da Sessão da C.M.A. de 18 de Junho de 1844