domingo, 31 de março de 2013

Processos Políticos do Reinado de D. Miguel


Com edição em 1972 esta recolha de sumários de processos políticos do reinado de D. Miguel é obra de Jorge Hugo Pires de Lima, constituindo, primeiramente, uma Separata do “Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXVIII (1967).

Este volume foi composto e impresso nas oficinas da “Coimbra Editora, Limitada”.

É de 1402 o número total dos processos apresentados, o que demonstra bem o exaustivo trabalho realizado.

Aparece gente de todo o país e de todas as condições sociais, encontrando-se também muitos estrangeiros, como espanhóis franceses e ingleses.

O índice toponímico comporta Alcoutim com quatro entradas referindo os Acontecimentos revolucionários do Algarve, Manifes-tações sediciosas e Partidários do regime liberal.

O Prior de Alcoutim, José Joaquim Cavaco, que veio a ser cónego da Sé de Faro, o espanhol Sebastião Garcia Barroso e o P.dre. Valentim Timóteo da Conceição Aleixo, coadjutor da Paróquia que veio a estar preso na Torre de S. Julião da Barra são indicados como liberais.

Na devassa aberta em todo o Algarve em virtude dos acontecimentos ocorridos em Maio de 1828, foram pronunciados, entre muitos, o Governador da Praça de Alcoutim, Coronel Francisco Carneiro Homem Sotto Maior e o Tenente do Regimento de Artilharia nº 2., Isidro da Costa Leite, Governador Interino da mesma Praça.

Adquiri a obra numa Feira de Velharias em 2005.

sábado, 30 de março de 2013

"Viagens sem regresso", o seu movimento

Como vem sendo nosso hábito temos vindo a fazer pequenas análises sobre o movimento das várias rubricas que fomos criando ao longo de mais de quatro anos que o A.L. leva de existência.

Esta foi das primeiras a ser criada, pois deu-se a circunstância de ter falecido uma nossa amiga, que não sendo alcouteneja, exerceu vários anos o lugar de professora do ensino básico na aldeia de Martim Longo, onde após o 25 de Abril desempenhou o lugar de Delegada Escolar.

Se das 27 notícias que aqui temos dado, a grande maioria é de alcoutenejos, outros não o são e são publicadas por outras razões.

O espaço está completamente aberto a quem se nos dirija e desde que haja um mínimo de ligação.

Sabemos porque os nossos visitantes / leitores já se têm pronunciado quanto a isso, é o meio de terem conhecimento do falecimento de amigos e conhecidos.

A nível de visitas e que naturalmente não atingem números elevados, apresentamos até agora as cindo notícias mais procuradas.

1º - MARIA TOMÁSIA BARÃO (23.01.2013)

2º - MARÇAL LUÍS RITA (22.09.2011)

3º - MARIANA BARRADAS FRANCO (28.11.2011)

4º - ALFREDO PEREIRA AFONSO (11.10.2012)

5º - LUCÍLIA PEREIRA (07.03.2011)

O falecimento de Maria Tomásia Barão, apesar de ser o mais recente, apresenta um número que não prevíamos que pudesse ser alcançado, pois já ultrapassou em muito a centena de visitas, encontrando-se a grande distância dos demais.

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Estrazes" antes da via de entrada na vila





Escreve

Gaspar Santos



Os Estrazes nos anos 30 do século passado.
 Foto cedida pela Família Temudo
Até ao início da década de 50 do século passado a entrada na Vila de Alcoutim por estrada fazia-se pela Rua das Portas de Mértola, seguindo depois pela Rua da Misericórdia passando pela Praça da República e até ao cais pela Rua do Município ou pela Rua 1º de Maio.

Havia uma viela alternativa para quem entrava na vila a pé ou com um animal. Era uma azinhaga ou viela não pavimentada e muito suja, com uma largura média de 2,5 a 3,0 metros a que dávamos o nome de Estrazes. Esta via passava atrás, a norte dos quintais, dava uma pequena curva e contracurva retomando a mesma direcção nascente até junto da Fábrica de Foices já à vista da Igreja Matriz.

No lado esquerdo de quem entrava nas Portas de Mértola, sensivelmente onde hoje existe um pequeno miradouro, havia duas casas: a primeira onde residia o Ti Domingos de Horta, e uma outra, já então em ruínas, que em tempos tinha sido o lugar onde se abatia o gado a que dávamos o nome de Açougue. 

Do mesmo lado esquerdo a pouco mais de um metro para sul do muro actual e até onde hoje está a ponte sobre a Ribeira de Cadavais havia um muro em alvenaria com mais de 3 metros de altura que não deixava ver a Horta do Esteiro da D. Belmira. No fim deste muro e onde agora está o início da ponte, havia um portão de ferro de acesso à horta e ao galinheiro, após o que o muro já só chegava até ao nível do caminho, permitindo ver a Horta do Esteiro, a Ribeira e o Rocio do outro lado. 

Do lado direito, até ao acesso à Praça da República, terminavam os quintais. Percorridos cerca de 50 metros encontrávamos um edifício térreo só com duas divisões, cada uma com a sua porta e que constituíam duas residências: dum lado era da ti Libânia e do outro da ti Alice.

Ao virar para a Praça, à direita situava-se um prédio com certo porte cujo quintal ficava nas traseiras da Igreja da Misericórdia e do Hospital. Morava lá a Ti Guilhermina sogra do João Pescada, empregados da D. Belmira e Senhor Quaresma, e a porta mais próxima da Igreja dava acesso à casa onde o mestre Carlos sapateiro teve a última oficina antes de a fixar na sua residência na Rua Trindade e Lima. 

Planta parcial da  Vila de Alcoutim
 com a localização a vermelho dos  Estrazes.

Continuando mais para nascente, os Estrazes eram mais estreitos do que na parte poente, mas o trajecto é o actual após alargamento. Depois de passar o quintal da GNR, à direita havia um muro de parede de taipa que limitava o Quintal da Pensão Madeira e a seguir era limitado pela parede lateral da Fábrica de Foices.

Os estrazes, além de ser uma via de entrada na Vila, constituíam um logradouro público com múltiplas funções. Na parte poente, sobretudo na que encostava ao quintal da ti Guilhermina servia para atar as bestas, como se fosse um estábulo público, enquanto os donos tratavam de assuntos nas repartições, acompanhavam funeral, iam a consulta médica, ou bebiam um copo na taberna; servia também de urinol para alguém mais apertado. Muitas vezes, o dono do animal ali amarrado, quando queria regressar a casa já bem bebido, tinha a desagradável surpresa de não encontrar a sua montada, que já regressara ao monte sem o cavaleiro, porque algum brincalhão já a desatara.

Do lado mais próximo da Fábrica de Foices, além de via de passagem, como sítio mais resguardado e tranquilo, servia muitas vezes aos forasteiros de retrete a céu aberto. A pródiga natureza, porque nesses dejectos se lhes ofereciam as sementes, punha em acção a sua função reprodutora, devolvendo a seu tempo algum tomateiro que dava uns tomatinhos muito pequenos e que ninguém colhia. Chamávamos-lhe, por motivos óbvios, tomates cagões. Muitos anos depois para surpresa minha, comi com algum espanto e relutância tomates muito parecidos com estes, quando viajava em avião da África do Sul.

Foto dos anos 30 que
 presumo ter sido tirada
  junto dos Estrazes
Lembro-me de assistir às obras de construção desta entrada na Vila pelas Portas de Mértola, com o sacrifício das referidas 6 casas e de parte dos quintais. Vimos melhorar a vila de Alcoutim segundo várias vertentes. Desde logo a sanitária, depois a beleza e a operacionalidade para o trânsito automóvel, sobretudo das camionetas de carreira que com frequência derrubavam os beirais dos telhados da Rua da Misericórdia na sua passagem. Atrevo-me a referir que foi a obra mais importante, a seguir ao cais novo, que até hoje se fez na vila de Alcoutim.

Foto dos anos 30 do séc. passado que presumo ser tirada junto aos Estrazes.

Obras mais recentes nos Estrazes no troço mais próximo do Rio vieram completar a anterior obra valorizando e embelezando a sede do concelho. 

Fizemos pesquisas em dicionários e na internet sobre a palavra Estrazes, com vista a obter a sua origem. Queríamos saber como e porquê os alcoutenejos lhe atribuíram este nome. 

Encontramos “preparo dos estrazes em lei de 1908 do Estado de S. Paulo, Brasil” donde extraímos o texto seguinte: … vários trabalhos para o melhoramento do solo, lavras diversas, montagem, desmontagem dos instrumentos agrários e tratamento e preparo dos estrazes. 

Impressionou-nos o detalhe, a ciência e a tecnologia agrária implícita naquela lei que tinha a ver com o elenco de matérias a ensinar numa escola agrária no Brasil, já naquela data. Embora não pudéssemos adiantar muito sobre o significado de estrazes ficamos a saber que a palavra foi levada para o Brasil e, possivelmente dum e do outro lado do Atlântico caiu em desuso.
Também encontrámos a palavra estrazos em espanhol, mas não conseguimos uma tradução e, apenas, o seu sinónimo de maltrapilho, rotura, rompimento.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Revolução de 1851 - Regeneração

Marechal Saldanha
Em 1849 Costa Cabral volta a assumir a presidência do ministério. Saldanha entra em colisão com ele, já então Conde de Tomar, sublevou algumas tropas mas não encontrou as adesões que esperava pelo que resolveu retirar-se para Espanha.


Aproveitando um novo movimento no Porto, o Marechal volta ao Reino, lidera o movimento e entra triunfante em Lisboa no dia 13 de Maio de 1851. A Rainha demite Costa Cabral e o seu gabinete e encarrega Saldanha de formar novo ministério.

Também este movimento não passou despercebido em Alcoutim, pois cinco dias após a entrada em Lisboa de Saldanha, realizou-se sessão extraordinária na Câmara Municipal lembrando que Sua Majestade a Rainha havia aceitado o movimento levantado pelo ínclito Marechal  Duque de Saldanha nas províncias do Norte e que o movimento tem sido aplaudido em todo o Reino.

Nestas circunstâncias cumpria também a Alcoutim dar “público testemunho de acatamento, adesão e respeito a Sua Majestade Fidelíssima, a Rainha” e de que “gostosos seguimos o movimento do Nobre Duque de Saldanha”.

O Administrador do Concelho levanta VIVAS a Sua Majestade a Rainha, à Carta Constitucional e ao Nobre Duque de Saldanha.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O grupo de 1964-66


Aqui estão os cinco do núcleo “duro”. O cenário, quando não é o Guadiana é o castelo da Vila, neste caso, mais adequado pelo seu recato para uma patuscada, acções muito praticadas em Alcoutim desde tempos “imemoriais” devido a vários condicionalismos.

Segundo consta, os alcoutenejos foram sempre bons anfitriões.

Como sede de concelho, que é desde os tempos da Dinastia Afonsina, tinha no exercício de funções os funcionários necessários, para cumprimento das tarefas, depois de ser condado da responsabilidade daqueles Altos Senhores da nobreza, depois da Casa do Infantado, voltando por extinção desta ao domínio real.

Se em muitos casos o recrutamento era feito entre os próprios alcoutenenses, havia situações em que os lugares eram ocupados por pessoas vindas de fora e nestas, na maioria dos casos, vindos através de concursos realizados a nível nacional.

Eram normalmente jovens e mantinham-se o tempo indispensável no exercício dessas funções e logo que podiam, transferiam-se para outros concelhos que ofereciam melhores condições de vida.

Se com a maioria acontecia assim, também houve quem se tivesse ligado pelo casamento a alcoutenejas como aconteceu a elementos da alfândega, guarda fiscal, contribuições e impostos, professorado, etc, havendo, igualmente, ainda que em menor número, alcoutenejos que se enamoraram de “forasteiras”.

Nesta altura (1964/66) a vila atravessava um período de decadência dos mais graves da sua existência. As trocas comerciais deixaram de se fazer por via fluvial passando para a terrestre, devido à abertura da estrada nacional 122 e ao prolongamento da 124. A vila perdia a função de interposto que tinha.

No núcleo enquadrou-se bem o cidadão alemão, estudante de geologia, Eckart Frischmunth, que os leitores já conhecem deste espaço e se não estou a errar no que vou dizer, os restantes quatro não têm pais alcoutenejos. Um algarvio de Vila Real de Santo António, outro de Castro Marim, um alentejano de Mértola e o outro que não conheço, mas sei que os pais não eram de Alcoutim.

Da esquerda para a direita, não conheço e dizem-me ser filho de uma funcionária pública que passou por Alcoutim, depois o cidadão alemão, António Antunes filho de outro funcionário público, o nosso colaborador Amílcar Felício, filho de um funcionário administrativo e José Francisco Cavaco, filho de um mestre alfaiate e que amavelmente me cedeu a fotografia.

terça-feira, 26 de março de 2013

O "Fanhonhas"




  
Escreve

José Temudo



Eu não disse? Puxa-se por uma cereja e logo vem um punhado delas!

Tal como nos casos anteriores, a figura de que vou falar era conhecida e referida em Chaves pela alcunha que lhe tinham colado. Conheci o “FANHONHAS” uns dias depois de termos chegado à cidade. Estávamos a dispor a mobília, os utensílios e os objectos decorativos, que tinham acabado de chegar pelos caminhos de ferro, nos compartimentos e lugares adequados, quando demos conta de que a iluminação de um dos quartos não funcionava. Saí à rua para saber de um electricista. E bem depressa encontrei quem me indicasse um.

“Está a ver aquela loja ali? É a do Fanhonhas. Ele é electricista.”

Entrei na loja e dirigi-me à única pessoa que lá se encontrava, um homem de estatura média, dos seus cinquenta anos de idade. Estava de costas para a entrada, arrumando caixas numa prateleira. Deu pela minha entrada na loja, e, sem se voltar, perguntou?

“O que deseja?”

“Boa tarde! O senhor é o snr. Fanhonhas?”

O homem virou-se para mim, lentamente, mirou-me de alto a baixo, e respondeu-me secamente, com algum azedume:

“Não, não sou o snr. FANHONHAS!”

Depois dele falar e do modo como o fez, dei imediatamente conta de que tinha metido o pé na argola. O homem era acentuadamente fanhoso e, embora eu desconhecesse o termo fanhonhas, logo me pareceu que fanhoso e fanhonhas eram uma e a mesma coisa. E desculpei-me, contando a verdade. Que éramos de fora, que estávamos a montar a casa, que um interruptor não funcionava, que saí à rua para procurar um electricista e que, na rua, alguém me disse para procurar nesta loja pelo sr. Fanhonhas.

“Bem. Disse ele, mais brando, eu sou mesmo electricista, mas o meu nome é José Dias.”

“E o snr. Dias poder fazer o favor de ir lá a casa arranjar o interruptor logo que possa?”, perguntei-lhe ainda receoso de lhe ouvir um não rotundo, mal humorado.

“E onde é que vocês moram?”

“É logo aqui, na Rua da Alfândega Velha”, respondi-lhe, já mais tranquilo.

“Na casa da viúva... ....?”, indagou ele, com o ar de quem estava relacionando dois factos.

“É nessa mesma.”

“Então você é filho do novo chefe das finanças?”

“Sou, sim, snr. Dias.”

“Está bem......está bem!” Pode ir indo, que eu lá irei, logo que o meu filho chegue. Pode ir indo.”


Jardim de Chaves
 E foi assim que conheci o snr. José Dias, o Fanhonhas, como era conhecido na cidade. Era um bom homem, um profissional competente e honesto, educado, talvez um pouco rabugento, cujo defeito maior era falar pelo nariz. Mas, não era por isto que ele era popular entre os seus conterrâneos. A razão era outra.... e boa. Em meados do século passado, nos meses quentes de verão, os flavienses tinham o saudável costume de ir para o Jardim Público gozar o ar fresco da noite, proporcionado pela proximidade do rio, pela acção de inúmeras árvores de grande porte, frondosas, e pela rega que o jardineiro fazia ao pôr do sol. As pessoas passeavam-se de cá para lá, sentavam-se nos bancos, conversavam........ e ouviam música, emitida a partir de uma cabina situada mais ou menos no centro do Jardim. A música que se ouvia era, duma maneira geral, a que estava em voga: tangos, valsas, sambas, rumbas, boleros, canções, e fados. A troco de 2$50, quem queria podia escolher uma música e dedicá-la à moça ou ao moço de quem gostava ou a alguém que queria homenagear!

Pois bem, o “disc-joquey”, o dono da aparelhagem sonora e dos discos e da voz inconfundível que lia as simpáticas dedicatórias, era nem mais, nem menos, o snr, José Dias, o conhecido Fanhonhas!

E era desta sua actividade que lhe advinha a popularidade, a boa popularidade de que desfrutava entre as pessoas da cidade.


Pequena nota

Este texto do nosso Amigo e Colaborador fez-nos recordar um facto passado e muito contado na nossa cidade de origem.
Havia um comerciante local no ramo fotográfico, então com grande movimento que tinha o seu estabelecimento, que ainda existe, numa das principais artérias da cidade.

O estabelecimento era muito procurado para aquisição de rolos, máquinas e revelação das fotografias, além de se tirarem fotos tipo passe e artísticas.

O proprietário tinha o mesmo problema do Sr. José Dias e havia por vezes alguma dificuldade em o compreender.
Um dia, uma senhora fez qualquer pergunta ao senhor que naturalmente lhe respondeu dentro da dicção que lhe era própria.

A senhora voltou-se para ele e disse-lhe: “Sr. Fulano, desculpe mas não percebi.”

O homem, já não muito satisfeito, voltou a responder como da primeira vez e a senhora voltou a dizer que não tinha percebido.

Então, aborrecido com o facto largou grande asneira.

Reacção da senhora, voltando as costas:

"O sr. Fulano é muito malcriado!”

“Vê, como já percebeu”, respondeu o comerciante.

Eu não assisti ao diálogo mas dizem ser verdadeiro. Já se passaram pelo menos 60 anos!

JV

segunda-feira, 25 de março de 2013

Namorar é urgente!



Poema

de

MARIA DIAS


memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com


!3, 14, 15 anos!
Hormonas a fervilhar!
Desinquietam o corpo,
É urgente NAMORAR!

Amar é dar cor à vida,
Ver Luz na escuridão,
Seguir a sombra de alguém,
Ver real na ilusão.

Um olhar meio vidrado,
Um vazio que nos invade,
De tão doces sensações,
Que o coração, tremelica,
De  tantas palpitações!

Trocam-se olhares,
A face muda de cor,
Tocam-se os corpos sem querer,
Dão as mãos, atrapalhados,
E sorriem, sem saber,
Que o que está a nascer,
É a magia do amor.

Despedem-se, até para o ano!
Acabou o verão,
Na areia desenharam,
Um pequeno coração.

domingo, 24 de março de 2013

Jarro


Peça de cerâmica visigótica recolhida após a Cheia do Guadiana de 1876/77 por Estácio da Veiga no Montinho das Laranjeiras, pertence à colecção do Museu Nacional de Arqueologia e foi inventariada com o nº 15145.

Medidas: Alt. 16,72 cm e Diâm. 8 cm.

Encontra-se actualmente e devido a um protocolo existente entre aquela entidade e a Câmara Municipal de Alcoutim em exposição no Núcleo de Arqueologia do Castelo de Alcoutim.

Naquele período era usual a colocação nas sepulturas de vários objectos nomeadamente jarros e jarrinhas cerâmicos que exprimem a crença no percurso além-túmulo.

Na exposição do Núcleo tem o nº 42.

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Gradim, Alexandra, 2011,  Cardoso, João, Catarino, Helena, Guia do Núcleo Museológico de Arqueologia, C.M. de Alcoutim.

sábado, 23 de março de 2013

Arruda


 Planta subarbustiva da família das rutáceas (Ruta graveolens). Tem cheiro intenso e pouco agradável.

As flores são amarelas e os frutos secos. Das folhas extrai-se uma substância com aplicações medicinais.

É espontânea mas também se cultiva.

O seu nome entrou na nossa toponímia como acontece com Arruda dos Vinhos e Arruda dos Pisões

Aparece com frequência no concelho de Alcoutim.

Era utilizada em tempos para fazer as pessoas recuperar os sentidos e andava sempre por perto dos locais onde isso podia acontecer com frequência. Passar com um ramo de arruda junto das narinas originava a recuperação dos sentidos, segundo nos afirmaram. A causa poderá estar no cheiro activo que possui.

Por outro lado, os maiorais do concelho, quando as ovelhas estavam com monco (substância segregada pela mucosa nasal) introduziam-lhe no nariz um pau de arruda numa tentativa de cura.

Noutras regiões, era utilizada em actos de crendice, o que não me consta acontecer em Alcoutim.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A primeira viagem do "Mira-Terra"


 (PUBLICADO NO Nº 1 DO JORNAL DO ALGARVE DE 30 DE MARÇO DE 1957)

Fez, há dias, a primeira viagem, visitando o nosso porto, o navio-motor «Mira-Terra», da Sociedade Geral que carregou pirites e precipitado de cobre para a C.U.F. do Barreiro.

A nova unidade, há pouco entregue àqueles armadores, substituiu o velho navio do mesmo nome que durante muito anos e semanalmente visitou Vila Real de Santo António.

Pequena nota


Já não conheci as viagens que o “Mira-Terra” realizava ao porto fluvial do Pomarão onde carregava de minério oriundo da Mina de S. Domingos.

Os alcoutenejos, que têm hoje 60 anos, que viviam na sua terra, lembram-se bem dele e saudavam a tripulação na passagem junto à vila.

Ainda encontrei no cais novo  uma pintura indicando “Mira-Terra”, 14.10.1963 o que significava que ali tinha estado nessa data.

O “Mira-Terra” , navio de carga de 600 toneladas de peso bruto, foi construído em 1956 pela Companhia União Fabril.

Tinha um comprimento de fora-a-fora de 55,81 m e era movido por um motor de 600 cavalos ,com  uma velocidade máxima de 11 nós e tinha 14 tripulantes. Estava registado com o nº H 444.
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http://cabodofimdomundo.blogspot.pt/2007_11_01_archive.html

Alcoutim, capital do nordeste algarvio (Subsídios para uma monografia), António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), CMA, 1985, p 152

quinta-feira, 21 de março de 2013

Cortiço, uma outra utilização


Todos sabemos que cortiço é uma espécie de caixa cilíndrica feita da casca do sobreiro ou cortiça, que se destina a recolher enxames de abelhas com vista à produção de mel e de cera.

Vem de tempos recuados esta actividade e a utilização da cortiça como matéria adequada.

As chamadas colmeias móveis vieram substituir, com vantagem, no retirar dos favos os chamados cortiços.

Como também é conhecido, Portugal é o maior ou dos maiores produtores do mundo deste produto considerado o de melhor qualidade para rolhas e isolamentos, como matéria natural e eficiente.

No concelho de Alcoutim existem sobreiros em número significativo, ainda que não conheça a existência de sobreirais.

Uma das utilizações que os alcoutenejos davam aos cortiços, que por qualquer motivo não serviam como colmeia, era a de recipiente para colocar as azeitonas maçanilhas roxas em sal.

O exemplar que a fotografia apresenta foi-me oferecido, precisamente, para esse fim, já que nunca fui apicultor.

Coloca-se em posição invertida e as azeitonas são colocadas às camadas e cobertas de sal grosso, daquele com que se salgavam os porcos antigamente.

No caso, arranjei uma tampa de madeira para evitar a introdução de algo não desejável.

A espécie de “água-ruça” vai saindo naturalmente pela junção do agora fundo com o corpo do cortiço, visto não ser estanque.

Quem não tinha cortiço procedia a este trabalho num cesto de cana velho que era protegido interiormente por folhas verdes de figueira.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim, Recordações - XLVI




 Escreve

Daniel Teixeira


A LÓGICA DAS COISAS

Tenho tido alguma dificuldade em fazer novas «memórias» dos tempos de Alcaria Alta não porque haja muito pouca mais coisa para contar, mas porque esta minha  ânsia da escrever memória se centra muito na base daquilo que é o Concelho de Alcoutim e naquilo que eu entendo ser a base natural do Concelho de Alcoutim.

Para meu desgosto ultimamente tenho lido mais sobre Alcoutim na sua perspectiva institucional (que é para mim o topo e não a base), nomeadamente os Orçamentos Camarários e outros documentos da mesma ordem, do que fiz durante provavelmente toda a minha vida e sem dar por perdido o tempo utilizado devo confessar que me sinto muito pouco vocacionado para esse tipo de «literatura».

As valorizações que são dadas, por vezes com fortes consonâncias «bairristas», que também têm o seu aspecto salutar pois que em muitas coisas sem competição não há desenvolvimento, chocam com a perspectiva que se tem sobre a economia e a crise que se vive e sobre aquilo que se considera fazer falta no país: sempre considerei a actividade da Câmara Municipal de Alcoutim como uma actividade de gerência da escassez, e escrevi bastante, noutros órgãos de comunicação por onde passei, sobre o louvável trabalho que foi sendo levado a cabo na assistência aos idosos, muitas vezes isolados em montes também isolados.

Quando os fiz, os elogios, tinha em atenção que ninguém merece viver abandonado e que depois de uma vida de trabalho duro era mais injusto do que tudo deixar as pessoas ao abandono, sobretudo porque na sua grande parte, também, via alguns aqui pelas cidades, que salvo raras excepções estavam mais «virtualmente» mortos do que aqueles que eu encontrava nas suas próprias casas nos Montes, curvados ao peso dos anos, fazendo aquele pouco que as energias lhes permitiam, mas vivendo no seu meio e vivendo a sua vida e não uma outra implantada pela força de circunstâncias que nunca pensaram vir a ter de viver.

Lembro-me, com alguma emoção (e pena, tenho de confessar) de um velhote que era do Alentejo e andava a meses em casa dos filhos: um deles vivia aqui em Faro, perto de mim, uma excelente pessoa, diga-se, com a sua vida profissional ocupada com horários alternados e puxados, restando-lhe pouco tempo, senão aquele que teria em sua casa, para dar um pouco de alegria e gosto de viver ao pai.

E eu via o velhote quase sempre no mesmo sítio, sentado, de cajadinho, sozinho, num dos bancos de uma avenida movimentada, sem olhar sequer o trânsito que passava. O senhor tinha sido pastor, um semi-solitário pastor na imensidão alentejana e o local escolhido por ele também não era dos mais indicados para fazer conversa com quem quer que fosse, mas para ele ficava próximo de casa e por ali se mantinha trinta longos dias horas a fio.

A manutenção das pessoas no local onde viveram sempre foi o que mais me pareceu normal e justo, salvo em condições que isso não permitissem. Por isso sempre achei bem essa gerência feita pelas entidades públicas, e nomeadamente pela função social da CMA. Também fui, utopicamente, guardando em carteira a possibilidade de um dia as coisas darem uma volta e voltarem a ser senão as mesmas, mas pelo menos a terem uma vida que não fosse decrépita.

Ao fim de tantos anos de conhecer isto, esta situação, o que verifico é aquilo que está patente aos olhos de todos: o agrupamento dos idosos em Lares (que são contudo um excelente fogo de vista eleitoral) leva a uma situação que não sendo carne nem sendo peixe acaba pela própria evolução das coisas por assemelhar-se progressivamente àquilo que é uma vivência em Lar, independentemente do sítio onde ele esteja colocado: em ambiente urbano ou rural.

O resultado é o mesmo: horas de levantar, horas de almoçar, horas para ver televisão, perca progressiva de laços com uma realidade que se viveu de facto e se passa a viver apenas na memória e na imaginação enquanto elas isso forem comportando.

Vivo ainda no passado e não sei se me devo afastar dele nestes planos: a minha Tia Bia adoecia e logo as mulheres da família e vizinhas se revezavam para tratar dela. A minha prima Felismina percorria todas as noites de lampião na mão da Portelinha até à Praça o longo e pedregoso caminho chovesse ou estivesse frio para a ir aconchegar e isto acontecia com todos, fossem homens ou mulheres. Este tempo, é passado, mas é uma lição que nunca esqueci nem esquecerei, e é este o «meu» Monte de Alcaria Alta.

Pelo Concelho, nem uma iniciativa de jeito foi tomada para fazer rejuvenescer esta vida e uma vida mesmo que não seja precisamente esta. Apesar de se verem, amiúde, alguns núcleos que vão mantendo alguma vida visível, estamos muito longe de encontrar um equilíbrio que fundamente em pequena medida que seja um salto em frente.

Uma parte dos núcleos que se mantêm devem uma parte substancial da sua vida àquilo que os outros núcleos neles agruparam, ou seja, deve-se a fusões e aquela função de motor dos poderes centrais (locais, neste caso) tem enveredado por encostos aos dinheiros públicos, sejam eles resultado de receitas próprias sejam eles resultado de Fundos de Equilíbrio inter-regiões.

A Pousada de Alcoutim foi um empreendimento megalómano, como o seu próprio impulsionador  tem sido ao longo dos anos, e qualquer estudo mesmo à flor apontava isso e Alcoutim encaixou-o e agora aguenta os restos à custa do erário público como terá também seguramente patrocinado parte do fogo de vista: não segui o processo nem me interessa muito, sei que é um «flop» estrondoso, de dimensão borlex-ceeiana, como era a onda na altura.

Pousada de Alcoutim. Foto JV, 2009

Por isso e para não falar muito mais, repito aquilo que tenho dito por diversas formas desde sempre: perdido o interesse atractivo de Alcoutim (Vila) desde há pelo menos 50 anos, seria altura de as pessoas se lembrarem um pouco da história e se lembrarem que as «cidadelas» tiveram a sua importância (e têm-na em termos históricos) mas que de base de sustentação passaram desde há séculos a ser bases sustentadas. E sem sustento não há castelo que aguente...

terça-feira, 19 de março de 2013

D. Francisco de Meneses, primo do 2º Conde de Alcoutim


Segundo filho de D. Henrique de Meneses e de D. Maria de Meneses, filha do Conde de Cantanhede.

Serviu em Ceuta quando aquela Praça era governada por seu primo D. Nuno Álvares de Noronha.

2º Cerco de Diu
Em 1538 vai para a Índia comandando uma das naus na armada do Vice-rei D. Garcia de Noro-nha.

É-lhe concedido o governo da Fortaleza de Baçaim onde ob-teve sucessos.

Coube-lhe socorrer a Praça de Diu, em 1546, a mando do Governador D. João de Castro e onde se encontrava sitiado D. João de Masca-renhas, que mais tarde na crise dinástica causada pela morte de D. Sebastião, veio a vender-se a Filipe de Espanha auxiliando-o na sua acção.

Apesar do seu ardor na luta perdeu a vida na refrega.

Não casou nem deixou descendência.

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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi / Público, Academia Portuguesa da História, Volume V, 2007.

Enciclopédia Histórica de Portugal, Volumes 8 e 9 , Edição Romano Torres, 1938.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Conjunto "Musical" (1952/53)


Já se passaram 60 anos sobre a existência e actuação deste conjunto “musical” alcoutenejo.

Grupo musical para quem não o conheceu, pois segundo diz quem nos cedeu a fotografia-lembrança, só sabiam tocar campainhas de porta e em Alcoutim, nessa altura não existiria nenhuma!

Segundo os exemplares cedidos, as fotografias em Alcoutim tinham quase sempre dois cenários:- o cais e o castelo. Afinal, eram ambos a razão da existência da vila. Se isso não acontece hoje em relação ao castelo, tem a ver com o acesso pago.

Do sexteto, três já não estão entre nós. Do terceto que está ao meio, ao centro o nosso colaborador Gaspar Santos, que nos cedeu a foto, tendo ao seu lado direito João Dias (médico) e José Pedro (ferreiro), ambos falecidos.

No primeiro plano, com uma cana servindo de micro, Francisco Manuel (bancário) falecido.

No último plano, à esquerda, José Martinho, guarda-fiscal reformado e do lado direito Raul Quaresma que se pensa ainda viver, já que não existe qualquer informação sobre ele.

O “conjunto” interpretava principalmente mambos, com relevo para os interpretados por Silvana Mangano (Roma 1930 – Madrid 1989).

Mais uma recordação de Alcoutim nos meados do século passado.

domingo, 17 de março de 2013

Um fim de tarde em Alcoutim: sonho ou realidade [3]




Escreve

Amílcar Felício





De facto a primeira brisa da tarde naquele fim de dia sufocante de Agosto dos finais da década de cinquenta do século passado, tardava em chegar. E os homens por ali continuavam à conversa sentados no muro em frente à casa da Tia Catarina das Portas no diz que diz para entreter o tempo, enquanto enrolavam de vez em quando um cigarro de onça Duque ou de Três Vintes, encalmados com um calor dos diabos como já não se via há muito. Havia um ou outro que puxava por um cigarro Provisórios ou Definitivos, mas eram raros.

A vermelhidão do Céu para os lados dos Moinhos derrubados da Corte do Tabelião misturada com o sol que já ia baixo, fazia-nos imaginar o “Fogo do Inferno” dando-lhe uma coloração de romã bem madura e de uma tal intensidade que metia respeito, o que agourava grandes calores diziam os camponeses que se orientavam pelos sinais do tempo ao longo do ano, prevendo com uma precisão quase científica quer os dias de grandes calores e de grandes branduras durante as madrugadas de Verão, quer os dias de trovoadas e de grandes geadas no Inverno.
Moinhos derrubados ... Foto JV
 Méh!!! Méh!!! Méééééhhhh!!! ouve-se ao longe o rebanho do Ti Guerreiro, com uma ou outra magana de uma ovelha mais esganiçada e fora de tom e uma nuvem de pó que denunciava desde logo a sua presença. Vinham pelo Caminho do Pocinho adiante, com o pastor praticamente da minha idade, o meu amigo Zé das Cortes Pereiras atrás delas a orienta-las. Às vezes ia espera-lo e fazia-lhe companhia quando ele vinha mais cedo e lá íamos os dois atrás do rebanho até ao Castelo, aonde as ia amalhar.

Rua T. e Lima. Foto JV
Passa entretanto o pequeno Ti Perdigoto e quase que nem se dava por ele se não fosse a sua burrinha. “Mas o Ti Zé Revés ainda não passou e ele não se costuma atrasar (?)”, diz um dos presentes. “Com a calma que está não admira nada que o trabalho corra mais devagar e com certeza que vem mais tarde para casa (!)” diz logo outro a seguir, acrescentando que a esta hora já a Tia Custódia Peres estará a barafustar por causa da demora: “com esta calma, aquele homem quando chegar já tem o gaspacho a ferver, pois ainda tem que ir tratar dos animais e primeiro que ele se despache!” “Boas Tardes Ti Zé Altura (!)” respondem os homens ao cumprimento do Ti Zé que passava entretanto, pois embora trabalhasse no rio havia dias que entremeava com o trabalho no campo. Que raio de nome que haviam de pôr a um homem tão pequeno, parece mesmo que lhe puseram o raio do nome só para gozar com o homem!

Olha o Ti Adriano e a Tia Custoidinha “Zorra” como eu lhe chamava quando estávamos sozinhos, para ouvir depois as suas ameaças “qualquer dia levas (!), olha que eu dou-te (!), só tu é que me chamas isso, ouviste (?)”. Era mentira, todos lhe chamavam nas costas pela Custoidinha “Zorra” para a distinguir das outras Custódias que por lá havia na Vila. Possivelmente devem ter alguma hortinha por aí, pois o Ti Adriano só a apregoar e a vender peixe... “Viva ´Sargento´ Diogo, então e como é que vai o novo negócio (?)”, perguntam os homens ao Ti Diogo que vinha com a burra carregada de peças de fazenda, possivelmente das Cortes Pereiras e da Afonso Vicente e que experimentava agora esta nova maneira de ganhar a vida. “Cá se vai andando rapazes, cá se vai andando, mas o pessoal anda com pouco dinheiro...” responde ele calmamente a caminho de casa.
Rua D. Sancho II onde vivia o
"Sargento" Diogo.

O Manel Sapateiro passava apressado sem dar de vaia a ninguém com um molho de corriol às costas, pois ainda tinha que ir dar comida aos coelhos. “Este Manel tão bom moço e com tão pouca sorte, comentam os homens... depois de um dia de trabalho na Oficina com o pai e com o tio Chico desde as 7 ou as 8 horas da manhã, ainda tem que ir apanhar erva e tratar dos coelhos!” Às vezes lá se safa mais cedo da Oficina digo-lhes eu e aproveita a ida à erva para dar dois chutos na bola, quando estamos a jogar na Fonte Primeira. O Manel Tostão vinha logo a seguir. “Estás por cá agora Manel, não me digas que vieste passar as férias à Vila (?)”, pergunta um dos homens. Mas o Manel Tostão ia tão distraído, que só disse Boas Tardes com aquele seu sotaque já à moda de Vila Real. “Este com aquele sotaque também já deve ter bebido água do Poço Velho lá em Vila Real”, diz maliciosamente um dos presentes. “Se calhar contratou para aí algum cercado ao terço, diz logo outro a seguir e sempre fica com umas amêndoas para o seu próprio fabrico de bolos, pois apesar de sacristão, nunca abandonou a arte mesmo depois de se ter ido embora da Vila”.

“Boa Tarde, estávamos a ver que não vinha hoje Ti Domingos!” “Boa Tarde pessoal”, responde o Ti Domingos da Lourinhã que ia a cavalo na sua burra pois a idade já era muita e com vontade de chegar a casa o mais depressa possível para tratar do jantar. Era quase sempre dos últimos a chegar à Vila, e agora ainda por cima desde que os filhos se foram embora depois que o Senhor Munhós fechou a Padaria, vivia sozinho e ainda tinha que ir fazer o gaspacho e era por isso que era sempre dos últimos a chegar à Venda do Ti António Joaquim. Logo a seguir vinha o Ti Zé da Horta com a sua burrinha pela mão, quase ao mesmo tempo que o criado dos Caimotos, o Ti João Borralho. Possivelmente combinam-se e como as casas são perto uma da outra, sempre fazem companhia e vão trocando umas palavras pelo caminho. O Ti Zé Brandão seguia-os a uns cinquenta metros. “Óh Ti Zé que grande carga de lenha que leva diz-lhe um dos homens, olhe que hoje vai ter que fazer um bom serão para descarregar a burra e arrumar essa lenha toda?” “Nem pensem nisso... isto vai ser rápido, isto vai ser rápido podem crer!”

Casa onde vivia Mestre Cândido
O Mestre Cândido passava entretanto e virava para a calçada direito ao Largo da Parada. “Então esse ontem avariou-se (?)” pergunta um dos homens ao Mestre Cândido que se deslocava com dificuldade de Petromax na mão e escada às costas. “É verdade rapazes, este ontem não estava a funcionar lá muito bem e tive que lhe dar para aqui uns apertos, pois ali no Largo da Parada sempre faz falta para a entrada na Vila”. O Senhor Leopoldo passava de novo estranhamente para o Celeiro. Àquelas horas os homens admiraram-se e perguntam-lhe se vai fazer serão ao que ele responde que não, que se tinha esquecido de meter os pintassilgos no Celeiro e já agora aproveitava e tratava logo deles. “Você também já não lhe bastavam os canários que tem lá em casa, agora também arranjou mais esses para se coçar”, diz-lhe logo um dos presentes. Mas o Senhor Leopoldo era mesmo assim, era um passarinheiro apaixonado que fazia reprodução de canários e que se dedicava a todos os pintassilgos que por ali procriavam junto ao Celeiro, principalmente na amendoeira junto ao aqueduto do Caminho do Poço das Figueiras perto da casa do Ti Robalo.

“Que esquisito comenta um dos homens, o Ti António Soeiro e o Senhor José Soeiro ainda por lá andam, não dei por eles passarem! Querem lá ver que deu algum trangomango ao homem, pois o Senhor José Soeiro como é epilético costumam dar-lhe aquelas salipantas”. “Se calhar ficaram sem água na nora diz logo outro e como as marés são vivas, possivelmente estão à espera que a nora faça alguma água para acabar de regar o laranjal”. Deve ser isso e de certeza que a minha amiga Ritinha Soeiro aproveitou o atraso para fazer uma limpeza mais a fundo nos galinheiros, pensei logo cá para mim.
Rua Dr. João Dias onde viviam os irmãos "Soeiro".
Óleo de JV
 Vê-se ao longe o Amigo António do Brejo que vinha pelo Caminho do Pocinho. “Olhem o Sacramento do Altar hoje também vem pela Vila que fino”, agitam-se os homens no muro mal o vêm à distância. “Isso é porque deixou a cabra a pastar no campo esta noite, se não tinha ido pelo Caminho do Celeiro”, diz logo outro a seguir. Os homens não resistem à sua passagem e mal ele pisa a calçada metem-se logo com ele: “Olha o Amigo António que gordo e lustroso que anda caramba, mas que bela panela com que ele anda agora (!)”,  dispara de imediato um provocador. O Amigo António para, enfrenta aquele magote de gente e interpela o provocador: “olha lá pá, já jantaste?” Não, responde-lhe o provocador meio acabrunhado. “Então anda já comigo que eu vou despeja-la (!)” e lá segue na sua passada curta pela calçada adiante, cigarro de mortalha ao canto da boca como se nada tivesse acontecido.

E no meio da gargalhada geral e do riso amarelo do provocador, os homens por ali continuavam à espera de uma brisa que estava difícil de chegar...

(continua)

sábado, 16 de março de 2013

As Casas da Câmara dos concelhos Portugueses e a monumentalização do poder local


Trabalho de folgo, como nunca pode deixar de acontecer numa tese de doutoramento, fomos encontrá-lo em forma de PDF e isto por informação de pessoa amiga.

É constituído por dois volumes, englobando o I a matéria em si (911 páginas) e o II (981) com Anexos.

Trabalho exaustivo sobre a matéria, o Volume I divide-se em três Partes.

A 1ª contempla A emergência da Casa da Câmara no Portugal Medieval, a 2ª aborda As Casas da Câmara dos Velhos concelhos Portugueses e por último, a 3ª escalpeliza A arquitectura das Casas da Câmara Portuguesas.

Após a Conclusão, apresenta as indispensáveis Fontes e Bibliografia, terminando com um Índice de Imagens.

Encontram-se referidos os edifícios, espaços, celeiro público, os currais do concelho, matadouros, fornos de cozer pão, mercados, alpendres, casa de “Ver-o-Peso”, casas dos almotacés, residência dos magistrados (juiz de fora e corregedor) gafarias, roda de expostos, capelas, pelourinhos, forca e muitos mais assuntos que estão ligados à temática que o título sugere.

Na Bibliografia encontrámos duas referências a trabalhos nossos, como segue:

Varzeano, José – “Coisas Alcoutenejas – A desaparecida cadeia [de Alcoutim], Jornal do Algarve / Magazine, 30 de Novembro de 1993, pp 17-18 e

Varzeano, José – “Coisas Alcoutenejas – Os Paços do Concelho [de Alcoutim] – Os actuais funcionam há 110 anos”, Jornal do Algarve / Magazine, 24 de Fevereiro de 1994, pp 17-18.

Por outro lado, a Fig. 774 apresenta a Cadeia de Alcoutim num desenho da nossa autoria e que acompanhou o mencionado artigo.

A tese foi apresentada por Carlos Manuel Ferreira Caetano.

sexta-feira, 15 de março de 2013

A curvilínea recta vital


 

Escreve

Maria Dias



Acredito que a recta curvilinear da vida, que nos acompanha da concepção até à morte, traz previamente desenhadas muitas e acentuadas curvas e contracurvas, subidas e descidas, escadarias mais ou menos íngremes.
Nascemos (dizem) tábua rasa, apenas com as ferramentas para nos adaptarmos ao mundo cá de fora.

Na primeira década de vida, não vislumbramos, nem temos qualquer noção do fim da recta.

Na segunda, adquirimos essa noção mas vimo-lo mui...to longínquo!
Entrando nos trinta, começamos a admitir que na verdade esse fim poderá surgir, ao virar da esquina, mas, não. Não me irá acontecer a mim.
Aos 40 temos filhos adolescentes e começamos a temer que a sua inconsciência, lhes possa ser fatal. Aí, nada nos preocupa mais do que proteger ainda mais os nossos “rebentos”. Eles preenchem totalmente a nossa atenção. Queremos a todo o custo evitar que nos tragam em perigosos sobressaltos.

Aos 50, Já um pouco cansados, abrandamos a marcha e eis senão quando, olhamos para o lado e aí está, o nosso primeiro neto.

Nova energia percorre a nossa alma e agarramos ainda com mais força e cuidado o nosso volante, porque agora a noção do fim está cada vez mais presente, mas precisamos que ele fique cada vez mais longe.

Aos 60, década perigosa, surgem as complicações associadas ao decorrer dos anos que vivemos e sem darmos muito bem por isso, inconscientemente, negamos.

Não, não é da idade!

Vou começar a praticar mais assiduamente exercício físico, e vigiar melhor a minha saúde.

Vou viajar, divertir-me, porque preciso de esquecer as maleitas!
Aos 70, as ditas maleitas aumentam e a curva acentuada e descendente obriga-nos a socorrermo-nos do motor para melhor agarrarmos à estrada a “velha máquina”.

Aos 80,temos uma gran...de experiência de condução, mas não a podemos pôr em prática...

Se a memória não desistiu antes das pernas, já vemos o fim muito próximo e sem demora há que arrumar as malas!


Para quê ir acumulando experiência e saber se nos vai faltar tempo para o utilizar?

Fosse eu a estar na criação do Mundo e tantas coisas seriam diferentes!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Cebola albarrã


Planta espontânea e bolbosa da família das liliáceas e frequente em Portugal.

As flores são brancas e o bolbo que por vezes atinge tamanhos razoáveis, é tóxico e tem utilização medicinal.

A cebola albarrã é também conhecida, conforme as regiões onde se desenvolve, por esquila e cila.

No concelho de Alcoutim designam-na por cebola “albarrana”, maneira popular de dizer albarrã.

Albarrã tem origem no árabe al-barrãn que significa «de fora, exterior», «camponês».

Antigamente e quando os hábitos higiénicos eram muito rudimentares devido a vários condicionalismos, nos quais se encontrava a dificuldade de obter água e sendo a região de Alcoutim uma das mais quentes do país, a frequente transpiração provocava o “assar” das partes mais sensíveis, como os sovacos e as virilhas.

Para combater a situação ferviam as cebolas albarrãs em água e lavavam as partes afectadas com ela.

Como no rossio da aldeia do Pereiro nasciam muitas cebolas deste tipo, havia quem lhe chamasse a aldeia das “cebolas albarranas”.

Não lhe conhecemos outra utilidade.
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Dicionário Prático Ilustrado, Dir. de Jaime de Séguier, Lello & Irmão Editores, Porto, 1972.

Dicionário da Língua Portuguesa, Edição Domingos Barreira, 4ª Edição, Porto, 1984.

Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1991.

A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007.