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sábado, 29 de junho de 2013

Soneto das Memórias...




Soneto
de
José Rodrigues



(Homenagem singela aos meus avós)

 


Lembro, do meu velho e adorado avô,
As estórias ouvidas nos seus joelhos,
A sua bondade e os sábios conselhos,
Que me ajudaram a ser, quem sou.


Recordo, da minha venerada avó,
A sua forma meiga de acarinhar,
O sorriso dela e o azul do seu olhar,
Difíceis de resumir, numa quadra só.


Memoro a chuva nos dias invernais,
Parte deles passados à volta da lareira,
Enquanto o tempo não serenava.


Revivo o luar que nos alumiava,
Em serões, com os amigos de brincadeira,
Nas límpidas e celestes noites estivais.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Vocábulos da minha terra





Versalhada
de
José Rodrigues



O Balurco de Baixo visto da Casa Branca. Foto JV

 
 
Eu gosto da minha Terra,
E dos vocábulos q´ela usa.
Ovelha que come, não berra,
Cântara de barro é enfuza.

Ramo grande é pernada,
Rebento novo é galhoto,
Terreno no monte, raciada,
Pássaro pequeno é ploto.

Coelho piqueno é caçapo,
Hortelã bravo é mantrasto,
Ganducho faz manta de trapo,
Arbusto pequeno é carrasco.

Aldrabice é cambalacho,
Sexo do homem é chula,
Cavalo com burra “dá” macho,
Burro com égua “dá” mula.

Onde há caca é cagadoiro,
Ovelha “faz” caganitas,
Bosta é trampa de Toiro,
O burro expele bonicas.

Acarta-se lenha em cangalhas,
E esterco nas gorpelhas,
As redes carregam palhas,
Encerram também as ovelhas.

Tigela grande é Pelengana,
Tacho de barro é caçoila,
Moça estouvada é magana,
Cueca d´homem ceroila.

Ordenha-se a cabra mocha,
Rouba-se o leite ao chibinho,
Amêndoa falida, tá xoxa,
Monte piqueno é Montinho

A perdiz faz recocão,
O coelho caçapeira,
Cotovia nino no chão,
A merrola na romaneira.

A cabra é bicho de mato,
Tem chibo de criação,
Chibo grande é chibato,
Ou simplesmente cabrão.

Lebre nova é laboracha,
Lebre macho é lebrão,
Lenha d´azinho não racha,
Figueira não ”dá” carvão.

Penêra passa a farinha,
Limpa-se o grão na joêra,
A grama é erva daninha,
Um tufo é uma rabolêra.

É na feira que se merca,
Leva-se a mrenda no talego
Rega-se do poço na cerca,
Adoça-se tramoço no pêgo.

O moiral guarda gado,
Lavra a terra o ganhão,
Com charrua e com arado,
Semeia-se seara de pão.

Ovo de negaça é endés,
Chama-se boleta à bolota,
Uma vaca é uma rés,
Raiz de esteva, arregota.

Filha de rés é bezerra,
Camisa também é blusa.
Eu gosto da minha Terra,

E dos vocábulos q´ela usa.

domingo, 16 de junho de 2013

Crónicas dos Balurcos [2]





Escreve

José Rodrigues



OS BAILARICOS PÚBLICOS
1
Durante as férias de Natal, de Verão, mas sobretudo nas férias de Carnaval havia bailaricos que constituíam sempre uma “festa”. Quando as realizações eram nos Balurcos a deslocação era fácil, pior era, por carência de transporte, quando aconteciam longe, mas enfim, a pé de bicicleta ou, circunstancialmente, nalgum carro alugado, tudo servia, o essencial era ir.

Os bailes eram sempre “abrilhantados” por acordeonistas (a excepção era, naturalmente, a festa de Alcoutim). Lembro-me de ter conhecido alguns desde miúdo, mas no final dos anos 60, princípios de 70 “pontificava” o Joaquim Manel dos Farelos, o melhor nessa época, talvez por ser o único. Os bailes realizavam-se normalmente em armazéns ou salões com alguma dimensão, onde se construía um palanque para instalar uma cadeira onde se sentava o tocador debitando, a partir dali, a música composta basicamente por marchas, tangos, valsas e corridinhos. Muitas das vezes o tocador fechava os olhos de tal maneira, que a malta dizia que ele sabia a música “de cor”, e por isso até se dava ao luxo de adormecer, durante a função. Junto às paredes, em toda a volta da sala, as cadeiras onde normalmente se sentavam as meninas mais as mães; os rapazes deambulavam por ali e só se aproximavam quando o tocador dava início a mais uma “moda”. Quando isso acontecia, disfarçadamente lá dávamos um sinal para o par pretendido, com a dissimulação possível não fosse acontecer o “cabaço”, que ninguém gostava que fosse tornado público. O baile ia-se desenrolando com algumas pisadelas pelo meio, resultantes de algum encontrão de outro par, ou do desacerto da própria dupla, resultante do resvalar errático dos dedos do tocador pelas teclas do “fole”, falhando assim a sequência das notas, estabelecida pelo compositor, da melodia que se propôs replicar. Apesar de tudo, normalmente as coisas iam caminhando e a gente gostava.


Nos intervalos tomava-se qualquer coisa na tasca improvisada, que dava apoio aos organizadores, onde se bebiam cervejas, laranjadas e gasosas “refrescadas” em bidões de água com umas sacas de serapilheira humedecida por cima, que eram os “frigoríficos” possíveis, num tempo em que a energia eléctrica ainda estava para chegar.

A meio da noite procedia-se à rifa do bolo que rendia mais umas coroas. O “leiloeiro” subia ao palanque do tocador, e pedia silêncio. Agarrava na bandeja e começava: - Ora temos aqui um belo bolo, oferecido à organização do “balho”, que vamos agora rifar. Pra começar está em “5 mil réis”, quem dá mais? Isoladamente, ou em grupo, iam sendo feitas ofertas, que o apregoador ia divulgando, à sua maneira, com pompa e circunstância: - sete mil e quinhentos, quem dá mais?… Dez mil réis… Doze e quinhentos, quinze, dezassete e quinhentos… Quem dá mais? Dezassete e quinhentos,… dou-lhe uma … dou-lhe duas… Vinte escudos, ali para aquele canto… vinte escudos, quem dá mais? Os que se digladiavam, lá iam cobrindo os lanços, mas a maioria estava desejando que acabasse a “rifa” para que a música pudesse ser retomada prosseguindo assim a “balhação”. Quando a coisa já estava mais do que espremida o leiloeiro lá se decidia: … dou-lhe uma… dou-lhe duas… ninguém dá mais? … dou-lhe três…! E mandava entregar o produto rifado ao titular da maior oferta. Havia vezes em que se rifavam também garrafas de bebida “fina” (normalmente vinho do Porto).

E o baile lá continuava até que as mães das meninas impusessem o recolher obrigatório. Normalmente pelas 4/5 da manhã terminava, numa altura em que o cansaço já se apoderava de nós, apesar de novos, ou talvez por isso! Regressava-se a casa com a música “impressa” no cérebro e adormecíamos ao som das valsas e dos tangos.

OS BAILARICOS PRIVADOS

Por haver poucos bailes públicos, nós inventámos os privados! Primeiro com um gravador de fita e mais tarde um gira-discos, fraquinho diga-se, mas que cumpriu sempre a função sem um mínimo de falha, a não ser, como às vezes acontecia, que falhassem as pilhas.

O velho gira-discos. Foto JDR

Era a juventude dos Balurcos, já na altura não muito abundante, mas que dilatava em tempo de férias. Os que não estudavam já tinham “descido” ao litoral para trabalhar em hotéis ou rumado à Grande Lisboa, onde tinham familiares ou então assentado praça, como voluntários, na Marinha. Nas férias por lá nos encontrávamos e muitas vezes organizávamos os nossos petiscos, e os já referidos bailaricos. A iluminação provinha do candeeiro a petróleo que, para o caso, até nem era o mais importante, a não ser para mudar o disco! O essencial mesmo era que não se “acabassem” as pilhas, que faziam “girar” o toca-discos. Quando as ditas falhavam e não havia suplentes, chegávamos a fervê-las num tacho com água, por forma a durarem mais uma hora, meia hora, ou dez minutos que fossem. E resultava!

As músicas eram as da época e iam desde o consagrado Roberto Carlos, que até já queria “buzinar o calhambeque”, passando pelo promissor Júlio Iglésias, com o “canto a Galicia”, o Francisco José, com o sucesso da “guitarra minha toca baixinho”, os “vinte anos” dos Green Windows, “goodbye my love goodbye” e “we shall dance” de Demis Roussos, Neil Diamond com “song, song blue”, ou de Daniel Gerard com “butherfly”, ou ainda do romântico Adamô, que as meninas adoravam, com o seu tema “tombe la nége”. E havia ainda tantos outros como: Beatles, Credence Clear Water Revival, Janis Joplin, Nélson Ned, etc. É no entanto impossível esquecer, a cereja no topo do bolo, que foi “Je t'aime,...moi non plus” de Jane Birkin e Serge Gainsbourg, de longe o maior sucesso nesses encontros dançantes, vá-se lá saber porquê?! Suspeito eu que, pelo facto de o disco ter sido proibido de “passar” nas estações de rádio existentes nessa altura!


Tudo isto se passou nos últimos anos da ditadura em que inventávamos a nossa própria liberdade, para mais tarde acabarmos “presos”, conjugalmente falando, já em plena Democracia. Foram tempos, nem melhores nem piores, mas simplesmente diferentes que, naturalmente, recordamos com saudade.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Crónicas dos Balurcos [1]






Escreve

José Rodrigues




O TI AFONSO DA EIRINHA

Normalmente a Eirinha não faz parte da toponímia dos Balurcos. Situa-se entre o Montinho e o Cerro, junto à Estrada Municipal nº1057 constituindo, por assim dizer, a “baixa comercial” comum aos dois núcleos habitacionais, não sendo por isso considerado individualmente, como Monte. É onde hoje existe ainda, o único estabelecimento comercial dos Balurcos, o Café e Mercearia da D. Teolinda, sendo que há 40/50 anos existiam ali, do lado do Cerro, a Taberna do Ti Zé Joaquim (José António, de nome verdadeiro), que também tinha oficina de Ferrador e, do lado do Montinho, a Mercearia do Ti Afonso, (António Afonso).

É do Ti Afonso, sapateiro de profissão e comerciante por opção, que vou falar na presente crónica. Lembro-me dele, desde que me conheço, pelo facto de ser vizinho e compadre dos meus avós. Foi uma pessoa com bastante humor, muito amigo dos clientes que visitavam o seu estabelecimento, muito informado mas com alguma dose de ingenuidade, extremamente bem formado e, sobretudo um homem bom, tal como sua esposa, a Ti Joaquina Pereira. Frequentemente o via a ler jornais e era cliente habitual da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian onde se misturava com a juventude na procura de literatura que lhe interessasse. Ouvi-o vezes sem conta a recitar poemas, nomeadamente “Os bichinhos que há no mundo”, de que retive na memória apenas a 1ª quadra (Os bichinhos que há no mundo / Eu te os vou nomear / O piolho está sesudo / E a pulguinha anda a pular.) ou a “Nau Catrineta”, entre outros.

Foi, também, um homem com preocupações sociais e, no início dos anos 30, em conjunto com o Cabo Galrito, residente no Cerro, fundou a meritória Instituição Mutualista, Lutuosa dos Balurcos, vulgarmente conhecida por Sociedade dos Caixões, cujo objectivo era pagar aos herdeiros dos sócios falecidos um subsídio para custear ou ajudar às despesas do funeral. O dinheiro para esse pagamento resultava da quota fixada, que era paga à Direcção, só quando acontecia o óbito de um associado, ou seja, não havia pagamento regular periódico.  

Sinalética toponímica. Foto JDR

Amigo de dizer piadas e de colocar problemas, lembro-me muitas vezes quando, com outros amigos, íamos à mercearia para fazer algum recado ou simplesmente para o visitar, de o ouvir dizer larachas do tipo: “Fó daí moço…!”, em que o “fó” era a contracção da palavra foge, que ligado ao “daí moço”, resultava na fonética desejada, para nos fazer rir. Uma vez requisitou na Biblioteca o livro, A noite e a Madrugada de Fernando Namora que depois nos mostrava, dizendo: - estão a ver este livro?! Olhem para isto?! E lia, com a pontuação que lhe convinha, o que constava da capa: Fernando, namora a noite e a madrugada!
A mercearia estava sempre limpa e bem arrumada. Sobre o balcão, corrido e bastante puído dos clientes lhe encostarem os braços, uma guilhotina de cortar bacalhau à qual eu sempre achei muita graça, e uma balança de pratos com armação em ferro fundido e pratos de “arame” (latão), que a ti Joaquina Pereira mantinha reluzentes de tão bem areados. Ainda sobre o balcão um boião de vidro com rebuçados que o ti Afonso vendia, a dois um tostão, e que também usava, quando lhe faltavam as moedas de 10 ou 20 centavos (1 ou 2 tostões), para a demasia. Na parte posterior, as tulhas em madeira onde armazenava os produtos da venda avulsa: grão, feijão, arroz, açúcar, griséus, etc. e por cima, na parede, um escaparate onde eram arrumados outros produtos, alguns já embalados, como: palha d´aço, bolachas baunilha, farinha 33, café em grão, línguas-de-gato, latas de conserva, OMO, TIDE, etc. Apesar da já existência destes últimos, no ramo das limpezas, ainda pontificava o sabão azul e branco em grandes barras, que eram cortadas, à medida que o cliente pretendia, por um instrumento feito pelo próprio ti Afonso, composto basicamente por um arame fino, em arco, cujas extremidades eram atadas a um cabo feito de um pedaço de vara de “jambuzo”. No escaparate também havia lugar para material básico de papelaria como: cadernos, sebentas, lápis, borrachas, folhas de papel azul de 25 linhas, etc. No resto do espaço algumas sacas, em pé e abertas, com produtos como: milho, cevada, favas ou mistura para animais. Existia também uma balança decimal, onde se pesavam os produtos de venda em maiores quantidades, como as ditas rações, ou então os produtos que também comprava aos vizinhos, sobretudo as azeitonas “verdes” para “britar” ou “arretalhar”, que negociava com compradores exteriores obtendo, também aí, alguma mais-valia.  

Devido ao negócio era homem de contas, e gostava igualmente de nos testar com problemas que ele inventava ou que teria ouvido ou lido, em qualquer outro lugar. Um dia, achando-me já “maduro” para a resolução de uma questão complicada, na sua perspectiva, colocou-me o problema/fábula do gavião e das 100 pombas, desconhecido para mim até essa data, e que nunca mais esqueci:
“Um gavião passa a voar e vendo um bando de pombas, pousadas, diz-lhes: Bom dia minhas 100 pombas! Respondendo elas: 100 pombas não! Nós pombas que aqui estamos, mais outras tantas como nós, mais metade de nós, ainda mais a quarta parte de nós e contigo Gavião, 100 pombas somamos”.

Posto o problema nestes termos, queria o Ti Afonso saber quantas pombas tinha o Gavião saudado. Para minha sorte, tinha ainda “fresca” a aprendizagem recente das equações de 1º grau e então pedi-lhe o lápis, que sempre trazia atrás da orelha, e num bocado de papel pardo, onde enrolava algumas das mercadorias, ali mesmo atribui o xis ao número de pombas e foi só estabelecer a equação e resolvê-la. Uns minutos depois dei-lhe a solução: 36 pombas. É claro que o Ti Afonso ficou admirado e satisfeito pelo meu desempenho, e se ele ficou contente, imaginem, agora, eu!

Muitas vezes convidava-nos, à noite, para jogarmos “ao rebuçado”. As apostas eram feitas com rebuçados que ele nos vendia e no jogo, designado naquele tempo por “estica” (uma espécie de poker), podiam entrar até 8 jogadores com um baralho de 40 cartas e o objectivo era fazer “pares”, “ternos” ou “quadras” de cartas com o mesmo valor facial, naturalmente de naipes diferentes, podendo, nas 5 cartas distribuídas em cada jogada, obter-se “um par”, “dois pares”, “um trio”, “um trio e um par” ou uma “quadra”. Lembro-me que o mais forte era a “quadra de ases”. No inicio de cada jogada todos apostavam um rebuçado para constituir a “mesa”, depois de concluída distribuição das cartas, (cinco na 1ª rodada e mais duas para substituir igual número rejeitado, na 2ª rodada), os que não tinham “jogo” iam “abaixo” (era expressamente proibido, aos desistentes, mostrar as cartas), os que “iam a jogo” apostavam, à vez, o valor que achavam conveniente, de acordo com a qualidade do jogo que tinha escondido, e quem quisesse ir até ao fim tinha que igualar a maior aposta, sendo que muitos faziam caixa (“bluff”), arriscando apostas elevadas, sem jogo que prestasse, ganhando algumas vezes, aos que desistiam com receio de perder, mesmo tendo as combinações mais fortes. Dos que ficavam até ao fim ganhava o que tivesse o jogo mais “valente” e, naturalmente, arrecadava todos os rebuçados da “mesa”.

Casa de Ti Afonso, hoje desabitada. Foto de JDR

Muitas outras “estórias” ficam por contar, por falta de espaço, como por exemplo as da sua faceta de caçador furtivo, onde era mestre em “armar” “arames” (laços) e “rateiras” com as quais apanhava lebres e coelhos, ou das conversas com o seu vizinho Zé Joaquim, de quem foi sempre muito amigo, ou em temas sobre o bem falar português com o ti Zé Dias, reformado da GNR e também vizinho ou, ainda, sobre os seus dois sonhos, aos quais sempre se referia com a chalaça que o caracterizava: um era viver até aos 100 anos e o outro possuir uma motorizada com três rodas. Nenhum deles, infelizmente, se concretizou. Faleceu em 1985, com 82 anos de idade.

Depois do 25 de Abril de 74, várias vezes o ouvi referir a terceiros, ter sido eu quem lhe tinha ensinado o significada da palavra Democracia. Lembro-me de termos falado sobre o assunto e confesso que hoje, quase 40 anos volvidos, seria muito mais difícil explicar tal significado, tendo em conta a realidade actual do país.

Foi infinitamente pouco, alguma coisa que lhe tenha “ensinado”, tomando por comparação o que aprendi com ele, sobretudo no que diz respeito aos valores e à forma bem-disposta e optimista de encarar a vida.

OBRIGADO e até sempre, Ti Afonso!

.

terça-feira, 21 de maio de 2013

"Passarinhos da minha Terra"





Versalhada

de

José Rodrigues



Antigamente nos Balurcos,
Havia vastos passarinhos,
Como Cotovias e Abelharucos,
Águias, Arvelas e Cucos,
Pica-paus e Boeirinhos.












Havia Picanços reais,
Trigueirinhas, Chachapins,
Poupas, Mochos, Pardais,
Pintassilgos e Zurzais,
Cabeças negras e Foins.








Papa-figos, Gaviões,
Piscos, Bufos e Pombos,
Tingesnas e Trigueirões,
Noitibós, Algrevões,
Merrolas e Rabilongos.






Milhafres, Peneireiros,
 Galinholas e Perdizes,
Andorinhas e Pedreiros,
Rouxinóis, Carraceiros,
Grifos e Codornizes.






Gaios, Pegas e Letras,
Papo-amarelos, Ferreiras,
Corvos e Barrigas-negras,
Cegonhas, Rolas, [Toutinegras],
E Corujas azeiteiras.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Recordações das férias grandes de há 40 / 45 anos [3]





Escreve

José  Rodrigues



A “FEIRA DE CASTRO”

Quando há dias passei por Castro Verde, a caminho do Monte, lembrei-me da famosa “feira de Castro”. Não porque alguma vez tenha tido o prazer de a visitar, mas por ter ouvido falar dela desde que me conheço. O meu avô e o meu pai, descreviam as épicas viagens desde os Balurcos até à feira de Castro Verde, (Almodôvar, Garvão e Serpa, eram igualmente importantes), a uns setenta e tal quilómetros, atrás das vacas, ou montados em bestas. É claro que “a cavalo” a viagem era incomparavelmente mais rápida e menos cansativa. Atrás das vacas, animais por natureza pachorrentos, tinham que partir uma semana antes da abertura do evento. Os animais iam pelo caminho, comendo o que podiam apanhar, durante o dia, e descansavam durante a noite.

Eram autênticas romarias que chegavam ao destino, por todas os caminhos possíveis, em caravanas de animais de todas as espécies: cabras, ovelhas, vacas, machos, burros, bestas muares, cavalos, porcos, etc. Em todo o caso, do concelho de Alcoutim deslocavam-se basicamente vacas, bestas e algumas ovelhas. Como é natural, nesses verdadeiros ranchos que se juntavam na deslocação e, também no próprio recinto durante os dias de permanência, aconteciam “estórias” verdadeiramente hilariantes. Escolhi duas como base a esta crónica.

A primeira tem a ver com um compatrício que tinha muita vontade de conhecer a feira de Castro. Por um motivo ou por outro, os anos iam passando sem que essa vontade se concretizasse, até que um dia chegou a oportunidade. A necessidade de adquirir uma besta que fizesse parelha com o macho castanho que já possuía, levou-o a decidir-se. Na antevéspera da abertura, logo a seguir à merenda, montou-se no dito macho, com uma manta de homem na albardadura, e uns alforges novos em que transportava alguns mantimentos para ele e para o animal, iniciou o sonho de conhecer a famosa “feira de Castro”. Abalou sozinho do Monte mas não tardou a encontrar companhia, como lhe convinha. O itinerário tinha-lhe sido indicado por um tio, com vasta experiência nestas deslocações. Passou por: Pereiro, Velhas, Farelos, Ribeira do Vascão, S. Bartolomeu da Via Glória (onde pernoitou), Diogo Martins, Góis, Ribeira de Carreiras, Castanhos, Ribeira de Oeiras, Espragosa, Figueirinha, Alcaria do Coelho, Viseus, S. Pedro das Cabeças e finalmente Castro Verde, onde chegou ao pôr-do-sol do dia seguinte. Pelas muitas horas que passou escarrapachado no macho, quando dele se apeou não conseguia endireitar-se por mó das dores nas cadeiras e das partes completamente assadas. Nessa noite andou pouco, arranjou estalagem para ele e para o macho e depois de ambos comerem qualquer coisa, deitou-se até no outro dia. Dormiu pouco, por ter estranhado a cama, mas ergueu-se cedo, notou algumas melhoras nas dores das cruzes, e pioras nas assaduras que nem o deixavam caminhar de forma normal, deslocava-se meio curvado com as pernas ligeiramente afastadas, como se alguma parte do corpo lhe pesasse mais que a conta, valeu-lhe nesta circunstância o bordão que tinha colhido de véspera, na Ribeira do Vascão, e no qual se firmava com vigor, tanto que até lhe lascou a extremidade, afiada, que embatia sucessivamente, e com toda a força, no chão. Assim andou todo o dia deambulando pela feira sem grande entusiasmo, e tanto que ele tinha esperado por aquele dia, para apreciar todo aquele gado! Talvez pelo ânimo que lhe faltava, não encontrou nenhuma besta que lhe agradasse, tendo comprado apenas um tamoeiro, uns sefões em pele de cabra, duas cilhas e um chocalho para a vaca. Marcou para o dia seguinte o regresso a casa. Manhã cedo despediu-se e abalou rumo ao Balurco e, ainda com a feira à vista, decidiu dedicar ao evento que o acolheu, a seguinte quadra:

Adeus oh Feira de Castro,
Que já te fiqui conhecendo,
Levo o bico do pau gasto,
E as bordas do cu ardendo.

Consta que nem mais quis ouvir falar da “Feira de Castro”!

A segunda estória tem muito mais probabilidades de ser verdadeira, e passou-se, supostamente, com uma pessoa que ainda conheci muito bem e pelo qual nutri grande simpatia. Pelo respeito que me merece a sua memória, não vou citar o seu nome. Para facilitar a redacção vou chamar-lhe, apenas, ti Manel.

O ti Manel possuía uma burra, já com alguma idade, que era as “suas pernas”, mas a velhice não perdoa nem aos animais, e resolveu que nesse ano iria à feira de Castro para a vender e adquirir uma outra, tanto quanto possível com as mesmas características mas bem mais jovem, como era compreensível. Tinha que ser, mesmo tendo pena da burrinha, que tratava com todos os cuidados e que mantinha gorda e lustrosa, apesar de nesse ano nem a ter mandado tosquiar, uma vez que seria dinheiro desperdiçado. O novo dono que tratasse desse assunto, pensou.

Aspecto parcial da antiga Feira de Castro.
Muitos negócios faziam-se logo a caminho da feira e foi o que aconteceu com o ti Manel. Abordado por uma família cigana, não aceitou a sua primeira “oferta”, apesar de ela não andar muito longe do valor que tinha cogitado para a venda do animal. Recusou à primeira, mas em nova abordagem, uns quilómetros mais à frente, aceitou nova proposta, tendo recebido o dinheiro combinado na negociação e entregue a burrinha com grande desgosto, mas a vida não se compadece com sentimentalismos. A albarda e o cabresto não entraram no negócio e foram carregados, bem como os alforges, na mula de um camarada de viagem, que ia vaga.

No dia seguinte começou cedo a procura da substituta, que até podia ser um burro, desde que cumprisse os requisitos traçados, sendo condição que, nesse caso, fosse capado. Numa ou noutra circunstância, o essencial é que fosse jovem, até uns 6/7 anos estava bem. O que não faltava naquelas feiras eram burros, a dificuldade era escolher, mas encontrou, finalmente, um animal que lhe preencheu as expectativas: a mesma estatura da anterior, mas um pouco mais escura na pelagem, com umas ancas que denotavam bom tratamento do antigo proprietário, pêlo bem aparado, com desenhos artísticos nas duas ancas e no rabo, “calçada” de novo, tanto nas “mãos” como nas patas e sobretudo mansa que nem um cão, embora “viva”. Os dentes não lhos conseguiu ver muito bem, mas pôde comprovar que, pelo menos, luziam de brancura. Não se preocupou muito com os dentes até porque nunca fora grande especialista em avaliar a idade dos animais por essa vertente, nem se calhar por qualquer outra, acrescento eu! Fez negócio! Entregou aos ciganos três vezes o valor pelo qual tinha vendido a sua, e tomou conta da nova aquisição com toda a satisfação do mundo. Nada mais o prendia à feira, até porque já tinha adquirido meia dúzia de utensílios que a mulher lhe tinha encomendado, e combinou o regresso com alguns camaradas que também já tinham comprado “as feiras”.

Verificando a idade
Ao chegar ao Monte poisou a arreata no chão, como era seu há-bito, enquan-to descarre-gava os have-res. Eis senão quando,a bur-ra apanhou o passo e, sem hesitações, dirigiu-se à arramada, para surpresa do ti Manel que incrédulo exclamou: - mas como é que o raio da bur-ra, sem nunca cá ter estado, sabe o caminho da malhada? Pouco tempo demorou a perceber, com a ajuda de alguns vizinhos que acudiram a seu pedido, que afinal a “nova” e a “velha” burra, eram a mesma criatura.

Durante a noite os ciganos tinham tosquiado a jumenta, deram-lhe uma coloração mais escura com um qualquer pigmento diluído em azeite, para tornar o pêlo mais sedoso, lavaram-lhe os dentes com uma zaragatoa embebida numa “pasta” feita à base de ervas e ferraram-na de novo nas quatro patas. Ficou assim montada a armadilha em que o ti Manel se deixou “apanhar”, embora acreditemos que não de propósito. Certamente que os ciganos que negociaram a compra, não eram os mesmos que negociaram a venda ou, quem sabe, até eram!

Parece que quem não se ralou mesmo nada, e tampouco se sentiu minimamente prejudicada com o negócio, foi a burra!   

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Recordações das férias grandes de há 40/45 anos [2]




Escreve

José Rodrigues





A CAMIONETA DAS 5


O acontecimento de cada dia, mesmo aos domingos e feriados, era “a camioneta das 5”, como vulgarmente era conhecida. A camioneta das 5, era o regresso da carreira diária, entre Vila Real de Santo António e Beja, cujos horários fixados nos Balurcos de Baixo eram: no sentido ascendente 10h e 30m, e no descendente às 17h e 30m. O seu percurso desenrolava-se, em toda a extensão, pela estrada nº 122, sendo que no Cruzamento, fazia o desvio pela 122-1 até Alcoutim, retornando ao ponto de início do desvio, para retomar o percurso na 122 (tanto na ida, como na volta). Era, na época, o único autocarro que fazia ligação à capital do país, com transbordo em Beja, e era por esta via que as pessoas da zona se deslocavam de, e para a Grande Lisboa, para onde o fluxo migratório tinha sido, e ainda era nessa altura, bastante significativo. Ir à camioneta permitia saber as novidades, conviver, e ver quem partia e quem chegava.

Nesse tempo existiam no Balurco de Baixo, no entroncamento da Estrada Nacional nº122 com a estrada municipal n º1057, que atravessa os Balurcos em toda a extensão, a venda e mercearia da ti Catrina Botelha ao lado da qual se situava a paragem da camioneta, e em frente, do outro lado da estrada municipal, a venda do ti Zé Cavaco. A ti Botelha detinha a agência da Rodoviária e o ti Cavaco o Posto Público de Telefone, tendo tido também, em tempos, a distribuição do correio. Por cima da porta da Ti Botelha havia um letreiro, ainda visível apesar da remoção do reboco em alto-relevo em que fora construído, onde se lia: JOSÉ DIONISIO GONÇALVES – Negociante de Solas e Cabedais, este anúncio devia-se ao facto do marido da Ti Botelha, sapateiro de profissão, ter tido, em tempos, negócio nessa área.

O pátio em frente da paragem da camioneta enchia-se de gente, onde era frequente sentir-se um aroma intenso a uma mistura entre o “tabú” e “madeiras do oriente”; havia quem viesse só pelo convívio, quem viesse esperar familiares ou amigos que chegavam, os que partiam e os que os vinham acompanhar. As bagagens eram maioritariamente compostas por cestos e canastas de cana com tampa do mesmo material ou cobertos com pano-cru cosido nas respectivas bocas, cestas de vime ou de empreita, uma ou outra mala de cartão castanha ou protegida por forra em tecido cinzento, sacos de viagem em napa, castanha ou preta, numa imitação pobre de pele e, imagine-se, até bicicletas “pasteleiras”, que normalmente eram usadas para complementar a viagem dos respectivos proprietários, até à camioneta ou desta até ao destino final ou, quem sabe, nas duas situações. Grandes rótulos, em forma rectangular, de madeira ou em cartão grosso, amarrados à bagagem, com corda de sisal, identificavam o titular, e o destino.

O destino dos que partiam situava-se, na maior parte dos casos, entre Vila Real e Faro, ou Lisboa para alguém que em vez de seguir de camioneta no dia seguinte, preferia apanhar o comboio-correio em Vila Real e viajar a noite inteira até Lisboa. Incluíam-se neste último caso os militares que, creio, já que tinham desconto nos caminhos-de-ferro. Quanto aos que chegavam, provinham de Lisboa, de Mértola onde muita gente que se deslocava para fazer compras, ou da Vila onde iam tratar dos mais variados assuntos relacionados com as repartições próprias da sede de um concelho.

Actual pátio da Ti Botelha. Foto JDR

No largo em frente da venda do ti Cavaco jogava-se às malhas. Equipas aguerridas que gritavam, quando “trucavam” ou “revidavam” e tiravam meças ao milímetro adivinhando-se, mesmo à distância, que os jogos eram bem disputados e renhidos.

Pelas 17,30, mais minuto menos minuto chegava finalmente a camioneta, agitavam-se os que partiam, e assomavam-se os curiosos na ânsia de ver quem chegava, havia até pausa no jogo das malhas para matar a curiosidade. Ao volante o experiente Palminha e como cobrador o Russo (penso que se chamava Vargas), que só não marcavam presença, no dia da sua folga semanal. O Russo, sempre com a malinha dos bilhetes e do dinheiro a tiracolo, geralmente mal-humorado e cheio de pressa, arreava a escada que dava acesso ao tejadilho da camioneta, (era lá que, nesse tempo, era transportada toda a bagagem) e com algumas ajudas descarregava os haveres dos que terminavam viagem, para a seguir içar os volumes dos que a iniciavam, (as malas, os sacos, os cestos, as canastas, as bicicletas, as caixas, etc.), posto isto, dirigia-se à venda onde inquiria a ti Botelha, a quem tratava por madrinha, se havia algum despacho. Concluído o serviço e já com os passageiros acomodados nos seus lugares, saltava ligeiro para dentro da camioneta, pela porta de trás e, batendo com o alicate fura-bilhetes na coluna metálica onde os viajantes se agarravam ao entrar, dava ordem de marcha ao condutor. Era assim porque, segundo diziam as más-línguas, cobrador e condutor não se falavam há anos, não havia comunicação verbal, só o alicate dava ordens de arranque, ou de paragem se fosse esse o caso. Conta quem viu que um belo dia, nas Quatro Estradas, o bom do Palminha confundiu o som do alicate com o som do encalhar do relógio, ou de outra peça metálica da bagagem de mão, de algum passageiro, e pôs-se em marcha com o Russo ainda em terra, só dando pela sua falta na paragem de Santa Marta, uns 5 quilómetros à frente. Não teve outro remédio senão dar a volta à camioneta e regressar ao Cruzamento para retomar o 2º elemento da tripulação. Poder-se-ia pensar que haveria discussão no reencontro mas as mesmas testemunhas afirmam que nem nessa circunstância houve qualquer troca de recados. Tal era a zanga!

Com a abalada da camioneta, rumo a Vila Real, começava também a debanda do pessoal, permanecendo aqueles que estavam entretidos nas malhas, ou os que ficavam com a barriga encostada ao balcão, numa ou noutra tasca onde, não raro, se assistia ao homicídio, involuntário embora, do belo cante alentejano. Era já o vinho a “falar mais alto”.

Íamos saindo, sem pressas, já com o “cheiro” no jantar, (ou na ceia, como o meu avô teimava em chamar-lhe), apesar de haver ainda “um pedaço de sol”.


Duas notas breves:

A carreira entre Vila Real e Beja ainda hoje existe mas não é todos os dias da semana e há muito que deixou de ser “a camioneta das 5”. Mesmo que haja quem ainda insista em chamá-la por esse nome, “a camioneta das 5”, marcou uma época e nunca mais poderá ser a mesma.

Quero solenemente afirmar, para que não fique qualquer dúvida, que os dois profissionais referidos no texto sempre me mereceram o maior respeito e, do que ficou escrito mais ou menos fantasiado, nunca se pôs em duvida a sua competência e profissionalismo. Digo-o com legitimidade de quem muitas vezes viajou, na camioneta das 5, até Vila Real, em trânsito para Faro onde estudava, e pude comprovar a proficiência do seu trabalho. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Recordações das férias grandes de há 40 / 45 anos [1]


Pequena nota
O nosso recente colaborador inicia hoje a sua colaboração, passe a redundância, em prosa com um texto de grande realismo que mostra aos jovens de hoje como era a vida na altura e este ainda teve o privilégio de poder estudar o que estava vedado à grande maioria dos jovens alcoutenejos.
J V

 



Escreve

José Rodrigues



ALGUNS DIAS DE TRABALHO NO CAMPO

Em Balurcos, naqueles dias estivais do final dos anos 60, inícios dos anos 70, do século passado, nada se passava de novo na passagem lenta do tempo, como se esse tempo nunca mais tivesse fim.

Os meus avós “impunham-me” o adágio popular, que diz: “deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”,

Costa
O deitar era-lhes sempre difícil controlar, mas o toque de alvorada era dado por volta das 6,00 da manhã, quando o meu avô batia com o cajado no postigo da porta da casa (separada da deles) onde eu dormia. Não havia hipótese de safa. O pequeno almoço, constituído alternadamente, por uma torrada besuntada com toucinho cozido, sobra do jantar do dia anterior, ou uma costa, ou até um caldo de farinha torrada, vezes havia em que marchava apenas o café e pão com “dentes”. A primeira refeição seria no entanto rematada com os melhores figos, doces, frescos, colhidos directamente da figueira ou por umas amêndoas esquecidas da safra anterior, torradas pelo sol, em cima da árvore (as do chão faliam ou rançavam e por isso não eram comestíveis).

Depois do “café” tínhamos pouco tempo para albardar a burra e zarpar ao destino onde, desejavelmente, devíamos chegar ao mesmo tempo do clarear do dia, para a apanha das amêndoas ou das alfarrobas, cujo produto da venda, num tempo em que ambas ainda valiam “alguma coisa” acrescentava rendimento, para ajudar (mal) a subsistência da família. Para garantir o sustento dos animais, nomeadamente da burra e do porco, apanhávamos também os figos, que poderiam ser consumidos em “verde” ou em “passas”, depois de aturado processo de secagem no almeixal. Os dias de brandura aproveitavam-se para apanhar e transportar para a eira os tremoços, fundamentais, depois de adoçados, para misturar na travia do porco. Os tremoços eram, geralmente, tão saborosos que até nós os comíamos, salpicados de sal grosso.

Para garantir acumulação de energia potencial calorífica, necessária à lareira no Inverno e ao aquecimento do forno do pão todo o ano, acarretava-se com a burra, aparelhada de cangalhas, a lenha de esteva que fora arrancada, junta em fascinas, e embarbada, no Inverno anterior. Aos poucos e poucos, íamos ampliando o manturo, para regozijo da minha avó.

Caldeirão
Outra actividade obrigatória era a rega da cerca, cuja água era retirada do poço, conforme se podia, com um caldeirão suspenso por uma corda na qual se davam, a espaços, alguns nós por forma a não escorregar pelas mãos, mesmo assim, frequentemente, apareciam as desgraçadas “burrefas” que ao rebentar causavam algum padecimento. Muitas vezes eu fazia uma “tácita sociedade” com o meu avô, resultante da verificação insofismável dos seguintes factos; ele ainda com força nos braços e as pernas já a fraquejar, eu já com o vigor nas pernas, que ainda me faltava nos braços. Usávamos então a seguinte táctica: ele sentava-se no gargalo do poço e tirava a água com o caldeirão, a pulso, com uma facilidade que me impressionava, e depois despejava-a numa lata (balde cilíndrico) de chapa de zinco, que levava dois caldeirões e que eu transportava, num ápice, vertendo o seu conteúdo nas covas das plantas (batatas, feijão, couves, etc.) e nas leiras (cebolas, alhos, coentros, etc.), ou até nas árvores que careciam de rega (limoeiros, laranjeiras, etc.). Era uma parceria perfeita, ele descansava enquanto eu transportava e ao invés folgava eu, enquanto ele atestava a lata.

Pela razão manifestada na parágrafo anterior, o lugar “a cavalo” na burra, era sempre do meu avô, quer na ida, quer na volta entre a carga, sendo o limite de volume e peso dessa mesma carga, fixado de acordo com a necessidade de ele ter que ir e vir sempre montado. O trabalho durava, normalmente, até 10,30 / 11,00, hora a partir da qual era praticamente impossível trabalhar no campo, por via do calor, vindo directamente do sol a pique, ou daquele que era irradiado do solo, que entretanto tinha aquecido. Já tá uma calma dum cabrão, afirmava o meu avô, e eu corroborava imediatamente, por motivos fáceis de adivinhar. Mas o melhor e mais incomodativo sinal de que a jornada se esgotava tinha a ver, sobretudo, com o canto estridente e repetitivo da cigarra, que é das coisas mais irritantes que se podem ouvir no campo, por aquelas paragens. O mal-estar agravava-se com o leite das figueiras pegado aos braços ou com os piolhos das amêndoas  a percorrer as nossas costas, causando tal comichão, que o coçar pouco amenizava, mesmo recorrendo à ajuda do tronco de alguma amendoeira ou azinheira, uma solução a que a burra também acedia frequentemente, quiçá com melhores resultados do que nós. Outro problema residia na água potável de enfuzinha que, ou se esgotava cedo ou, não se esgotando, ficava quente que nem um caldo de açorda. Levando também em conta que a pouca água que se podia encontrar nos barrancos, por essa altura do ano, já estava imprópria para consumo, imaginem o sofrimento!
Burra albardada
A primeira sensação de alívio do dia experimentava-se quando arreávamos a carga no monte, fazendo depois recolher a burra à arramada , a segunda quando, com a ajuda de uma falha de sabão azul e brando e de uma cápsula de champô com “sabor” a maçã , todos os produtos agarrados ao exterior do corpo, acumulados pela transpiração, pelo pó, pelos já aludidos leite da figueira e piolhos das amêndoas ou, certamente, por tudo isso à mesma vez!

Matava-se igualmente a sede com a água sempre fresca do poço, devido à profundidade do seu nível. Ficava novo e fresco que nem uma alface e de caminho para casa carregava ainda dois cântaros de água, de 25 litros cada, destinado a beber, cozinhar e lavar, parcimoniosamente, a pouca louça que se sujava (a água canalizada chegaria muitos anos depois).

"Mujo"
Prontos para o almoço, que a minha avó preparava e onde normalmente não havia grandes surpresas. Um gaspacho acompanhado de uma sardinhita assada ou frita não era mau, mas um feijão careto de azeite e vinagre, com um ovinho cozido também não estava mal, umas postas de peixe mujo com uma saladinha de alface, também entravam, como entravam igualmente, uma sopas de bacalhau, ou de presas com alhos areios. Digamos que eu não era esquisito, comia bem e cumpria o ditado, que diz: barriga de moço, não tem osso. A dieta podia não ser modelo de equilíbrio, mas não se passava fome e, se necessário, recorria-se ao suplemento do pão com azeitonas, que nunca faltavam, e que tão bem sabiam, às vezes!

Cumprido o dia de trabalho, tinha o resto do dia livre de tarefas laborais, a não ser que surgisse algum imprevisto. Sabia então bem dormir uma folga, cuja duração era inversamente proporcional à duração das horas de sono da noite anterior.