quarta-feira, 29 de abril de 2009

1940 - 1950 - Como se divertiam os alcoutenejos

Escreve:
GASPAR SANTOS

Habituados como estão aos meios de comunicação que hoje levam às nossas casas diversão e entretenimento, como a rádio, televisão, aparelhagens de som e bons CDs , DVDs e vídeos, muitos Alcoutenejos não suspeitam do isolamento a que estivemos sujeitos nos anos 40 e 50 do Século passado.

Para se entender este isolamento e a carência de notícias que gerava, basta atendermos a que era um acontecimento a chegada pelo rio do “gasolina”, ou pela estrada uma camioneta de carreira. Muita gente de Alcoutim, mesmo sem esperar pessoas, gostava de assistir à chegada e à partida dos transportes.

Exceptuando os bailes que tanto na Vila como em todo o concelho nós protagonizávamos, para o que era suficiente, como animador, um acordeonista (ou com gaita de beiços) ou um grupo constituído por guitarra, bandolim e viola, era raro haver outro divertimento.

Os bailes mais selectos e de frequência mais restrita a que assisti organizava-os a Câmara Municipal no seu salão nobre, em geral por altura da Pinhata. Durante as Feiras Anuais, tanto no S. Marcos no Pereiro como na Feira de Alcoutim, sempre se realizaram bailes. O maior e mais popular passou a realizar-se todos os anos durante a Feira de Alcoutim integrado nas Festas que os jovens efectuam a partir de 1948.

Neste texto não nos ocupamos de futebol, que disputámos algumas vezes com equipas de Mértola, Santana de Cambas, Moreanes, Pomarão e Vila Real Sto António. Nem nos ocupamos de outros desportos de que se disputavam provas por altura das festas da Vila, nomeadamente andebol, voleibol ou outros ligados ao rio como natação ou pau de sebo.


[Os vizinhos espanhois animavam as festas com as suas danças e cantares]

Tivemos algumas vezes representações teatrais efectuadas por companhias de fora, nomeadamente da família de Leonel Mariani Lorador ou récitas organizadas com a prata da casa, que é como quem diz por rapazes e raparigas de Alcoutim.
Essas poucas representações realizavam-se no Teatro da Misericórdia... mas em tão pequeno número que não justificavam manter esse espaço em exclusividade. E por isso esta entidade acabou por alugá-lo ao mestre Manuel Pinto para oficina de carpintaria. Mesmo assim, por cedência deste artífice, ainda se realizaram algumas récitas. Mas no decurso do tempo o equipamento de cena foi-se degradando até o seu uso ser impossível.

Com a prata da casa, integrando rapazes e raparigas de Alcoutim, a Vila ainda teve, aliás com vida muito efémera, um Rancho Folclórico. Tivera também uma banda de música em época mais recuada que eu não cheguei a conhecer. Só vi os instrumentos que o Senhor Silva guardava em sua casa.

Felizmente acompanhámos na Vila, naturalmente com algum atraso, a evolução do cinema. Tivemos amostra de todo o género que a história do cinema relata. Só lamentamos ter sido tão poucas as vezes que tivemos acesso à sétima arte.

Vimos cinema mudo, cinema mudo comentado pelo operador, cinema acompanhado por diálogo suportado por disco a rodar em simultâneo em grafonola, e ainda cinema falado com o som registado na própria fita, sempre a preto e branco. Nem sei se nos anos 50 ainda lá chegou o cinema a cores, assim como as superproduções com grandes ecrãs que começavam então a surgir.

Foi assim que muitos de nós vimos as primeiras obras do cinema mundial, e o cinema dos mestres portugueses António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, Manuel de Oliveira etc. Costa do Castelo, Leão da Estrela, Aldeia da Roupa Branca e O Fado, História duma Cantadeira, foram alguns desses filmes.

Esse cinema foi levado a Alcoutim sobretudo por José Martins, um antigo ciclista já retirado da prática desportiva; pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI); e pela FNAT hoje INATEL através duma equipa cujo motorista era o José Afonso Fernandes de Alcoutim. O Brigadeiro Manuel Domingos também de Alcoutim era então o Director Geral da FNAT.

O cinema no verão era projectado junto à Casa dos Condes. O ecrã constituído por pano branco suportado entre dois postes situava-se junto ao canto da Igreja de Santo António. A sorte dava o privilégio ao agente da Guarda Fiscal de serviço à vista dos cais de ver o cinema, mas ao contrário, pela transparência do ecrã.

Tanto para o cinema como para qualquer outro espectáculo de circo ou de fantoches, ao ar livre no Verão, cada um levava a sua cadeira de casa.

Foi-nos dado assistir ainda a muitos outros tipos de espectáculos:
Teatro de fantoches ou como então se dizia: - os populares Robertos. Fados e guitarradas. Fados e Guitarradas por grupos de cegos. Ilusionistas, que em geral actuavam na sala da Sociedade Recreativa. Circo e contorcionistas. Pequenos Grupos de circo com animais.

Um destes pequenos circos ficou-me na memória por recorrer a uma cabra que subia a um escadote, no cimo do qual estava um pequeno cilindro de madeira com cerca de 5 cm de diâmetro onde a cabra se equilibrava sobre o topo. Depois, com as suas 4 patinhas e, sem se desequilibrar, dava várias voltas em cima do topo do cilindro.

Por vezes era pedida a participação do público. Chamavam uma pessoa ao palco. Em Alcoutim só havia uma família cujos membros tinham vontade de participar. Eram o mestre João Ricardo ou algum dos filhos. As outras pessoas eram tímidas, não eram capazes de se afoitar, mas...no dia seguinte por todo o lado a inveja falava mais alto e entrava em acção a crítica mais acirrada. Afinal os brandos costumes, como se gosta de dizer, não eram assim tão brandos.

Ainda sobre a participação do público, recordo-me de um espectáculo de circo na Sociedade Recreativa em que chamaram a colaborar um homem que soubesse trabalhar bem com uma marreta. Após muita insistência dos artistas e do público apresentou-se o António Pandeireta.


[Mestre João Ricardo aos 80 anos. Foto J.V.]

O artista do circo em calções e tronco nu propunha-se deixar partir uma enorme pedra sobre a barriga, apenas coberta por uma toalha, sobre os músculos ventrais esticados. Era necessário que o António Pandeireta desse uma marretada sem dó nem piedade em cima da pedra. O Pandeireta estava com receio de magoar o homem... insistiram... ele deitou a língua de fora no seu jeito característico, alçou a marreta e pum... a pedra partiu-se em duas, cada metade foi para seu lado e o homem não se magoou. Foi espectáculo!!! E aplaudido!

O anterior ponto de exclamação, um amigo meu dizia de “espantação”, traduz de facto o meu espanto face aos aplausos. É que o alcoutenejo é muito poupado nos aplausos aos artistas. Constatei isso nos anos 40 e 50 e mais tarde nos anos 70 já com outras gerações, deixarem conceituados artistas desapontados, por não ser reconhecida a sua exibição. Será uma questão de timidez, ou em Alcoutim se parte da convicção de que ao aplaudir, ao reconhecer a valia do artista, se fica apoucado?

A leitura de livros além de jornais (que na melhor hipótese chegavam no dia seguinte) também serviu de entretenimento e para dar alguma cultura aos alcoutenejos. Os livros eram escassos na generalidade nas casas de Alcoutim, mas essa lacuna foi temporariamente colmatada com a vinda de fora de bibliotecas itinerantes que nos deram oportunidade de ler algumas obras, porém sem outro critério que não fosse a nossa própria escolha. No entanto sempre foi melhor do que não as ter lido. As bibliotecas exibiam um “catálogo” com o nome das obras e o nome do autor e nós escolhíamos.


[Dançando as "Sevilhanas" no Cais Novo"]

Duas entidades deram-nos essa possibilidade: primeiro o SNI – Secretariado Nacional de Informação e depois a Fundação Calouste Gulbenkian. Foi nessa altura que eu “devorei” dezenas de livros.

Os folhetins radiofónicos ainda não tinham sido iniciados mas já os jornais, O Século e o Diário de Notícias, publicavam todos os dias uma página de um romance em folhetim que muitas pessoas liam avidamente. Mas o que me parece, aos olhos de hoje, muito especial é um tipo de leitura a que chamarei leitura para audiência colectiva.

Suponho que provinha de biblioteca itinerante ou de folhetim de jornal, um livro muito grande de aventuras ficcionadas cujo herói era o Rocambole do autor francês Ponson du Terrail que mestre João Madeira, vulgo João Ricardo, lia para várias pessoas ao serão na Rua 1º de Maio, durante as noites quentes de Verão. Havia, naturalmente, a descrição de cenas mais hilariantes ou mais violentas que entusiasmavam o António do Vinagre e as comentava e incitava o herói da maneira mais exuberante possível: Aí Rocambole! Aí Rocambole! Como se fosse possível modificar os acontecimentos por meio desses incitamentos. De longe, os jovens achavam graça e rejubilavam com este espectáculo.

Noutras noites de Verão havia, também, música nessa mesma rua. O Senhor Manuel Serafim acompanhava à viola uma guitarra ou bandolim dedilhado pelo Felício, Fernando Martins ou outro executante à porta da Sociedade Recreativa.

As partidas e as brincadeiras, que não eram exclusivo do mestre Carlos constituíam, também, um divertimento de muitos alcoutenejos, à custa no entanto do achincalhamento, e da troça de alguém.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Quando o perigo nuclear esteve para se instalar em Alcoutim


[Alcoutim, o Guadiana e Sanlúcar do Guadiana, 1991. Foto JV]


Pequena Nota

Só foi possível escrever este pequeno artigo, que o blogue vai publicar na sua rubrica Ecos da Imprensa, devido à amabilidade que um Amigo alcoutenejo teve de me oferecer documentação importante que chegou às suas mãos, dizendo que devido àquilo que eu já tinha escrito sobre Alcoutim, ficaria muito bem nas minhas mãos. A opinião é dele. Passou-se isto em fins dos anos oitenta do século passado e como não podia deixar de ser a documentação é mantida com todo o cuidado estando em vias de encadernação.

Este amigo, desde há muito que quando encontra alguma coisa que considera de interesse sobre Alcoutim tem o cuidado de me o informar, indicando a obra e muitas vezes tira fotocópias que me envia.

Certamente poucos alcoutenejos leram o artigo e a maioria não teve conhecimento da sua saída, segundo penso.

Vim mais tarde a encontrá-lo referido na Internet como um Artigo importante sobre o Algarve.
Mais recentemente, o meu Amigo, Dr. Mariano Calado, cita-o no seu interessante trabalho” A Maldição das Bruxas de Ferrel”, Edições Sempre-em-Pé, 2006.


Possivelmente muitos dos meus visitantes leitores desconheciam este assunto


(Jornal Escrito,Nº 19, de Fevereiro de 2000, p. I, encarte do Postal do Algarve de 24.02.2000)

Se existem assuntos menos conhecidos ou mesmo desconhecidos dos alcoutenejos, este será um deles, ainda que seja dos nossos dias.

A falta de divulgação pelo seu melindre e por outro lado a falta de conhecimento sobre tal assunto, para isso teriam contribuído.

Tentaremos hoje dar a conhecer em linhas gerais e a tosco modo o estudo realizado sobre a possibilidade de instalação de uma central nuclear junto do Guadiana.

Os governos de Portugal e de Espanha acordaram em 1964 mandar realizar um estudo para a instalação de uma central nuclear que servisse os dois países.

Por lhes ser comum, escolheram o último troço do Guadiana.

O trabalho foi entregue a duas empresas, uma de cada país e foi concluído em meados de 1967. Nesta altura tinha eu chegado a Alcoutim e ainda ouvi uns rumores sobre o assunto, mas não passou disso.

Tanto de uma margem, como da outra, foram inicialmente considerados vários sítios com condições aparentemente favoráveis, tomando em consideração só o factor topográfico. Outros, contudo, tinham peso importante como os que concerne à geologia e hidrografia.

Analisados estes dois últimos factores, optou-se pelo sítio da Várzea do Alcaçarinho, no que respeita a Portugal e pela Bárcia Redonda, em relação ao país vizinho.

[Bárcia Redonda - Espanha]


A Várzea do Alcaçarinho (alcácer em árabe significa castelo) bem conhecida dos alcoutenejos, situa-se a cerca de 2,5 km de Alcoutim e a 25 de Vila Real de Santo António. Trata-se de uma plataforma quaternária de xistos e grauvaques com uma área de 13 ha aproximadamente, sendo possível, sobre estas rochas, a fundação directa de todas as estruturas de uma central nuclear, qualquer que seja o seu tipo.


[Várzea do Alcaçarinho-Portugal]


Concluíram os técnicos pela viabilidade económica da instalação duma central nuclear de grande potência, da ordem de 500 a 600 MW, a entrar em actividade em 1975/76.

A repartição da potência seria dividida pelos dois países em partes iguais e no estudo não se pretendeu estabelecer qualquer premissa de propriedade mista, designadamente por motivos de ordem política internacional. Daí a apresentação de duas hipóteses, uma em cada país mas de realização comum.

Prevendo-se que não se realize a central com carácter de fornecimento de energia para os dois países, entendem os técnicos portugueses que deve ser encarada a hipótese de uma só para o nosso país mas de 300 MW e após estudo feito nesse sentido, já que o local é tecnicamente considerado excelente. Além dos factores positivos indicados, tomava-se em consideração a água, o isolamento e a fraquíssima densidade populacional.

Pensa-se na altura não ser fácil encontrar melhor local do que este.

Na zona, a agricultura, a pecuária e a pesca revestem-se de muito pequena importância, o que também é de considerar.

Prevê-se a utilização do rio para o transporte de peças grandes e pesadas, depois de efectuadas as obras indispensáveis para a descarga.

A mão-de-obra para a realização do empreendimento é calculada entre 1500 e 2000 homens havendo necessidade de recorrer a pessoal de fora da região e à construção de alojamentos O seu funcionamento criaria cento e cinquenta postos de trabalho.

É também afirmado que o sítio possui boas características do ponto de vista de segurança nuclear, visto que a zona, eventualmente afectada, é pouco povoada e de insignificante actividade humana.

Feita uma análise preliminar dos riscos de contaminação radioactiva do rio pelos efluentes líquidos da central, chegou-se à conclusão que é de excluir a possibilidade de contaminação em níveis perigosos.


[Pôr do Sol no Guadiana, 1988. Foto JV]

O perigo para as populações vizinhas resultante de um acidente nuclear, deve-se essencialmente à libertação de produtos de cisão que finamente divididos se comportam como aerossóis difundindo-se na atmosfera e podendo contaminar extensas áreas, com consequências mais ou menos graves em função de factores tais como a meteorologia, climatologia e microclimatologia do sítio e da demografia e bens materiais existentes nas áreas atingidas, razão porque lhe chamam factores específicos de segurança nuclear.

Desconhecemos as razões que evitaram a sua realização, apesar do relatório ser francamente favorável. Teria havido atraso na sua iniciação? Após 74 já não era possível.

O que seria hoje Alcoutim com uma central nuclear a 2,5 km? Não uma vila de Paz e de Sossego, onde é possível descansar e a poluição quase não chega. O que seria o Guadiana? Se agora já pouco peixe aparece, com a central até a hortelã da ribeira desaparecia!

Alcoutim passaria a ser um INFERNO.

Fazemos votos para que a hipótese nunca mais seja sequer, levantada.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Casuarina, árvore de interesse público


[A casuarina nos nossos dias]

Este escrito começou por me dificultar a escolha do título pois pensei que a designação de O PINHEIRO DO CAIS se ajustava mais ao conhecimento geral.

Acabei por modificá-lo atendendo a que já existe muita gente, uma parte significativa da população que a conhece pelo seu verdadeiro nome e isto a partir da altura que nela foi colocada em posição pendente uma placa de madeira que indica o seu nome e a circunstância de ter sido classificada como de interesse público, o que aconteceu por aviso publicado na 2ª Série do Diário da República, nº 74, de 29 de Março de 1999, pág. 4555.

A partir daí começaram a olhar para ela de uma maneira diferente. É que tal como as pessoas, as árvores também têm a sua história.

Eu sempre ouvi falar de uma azinheira nos Balurcos, penso que no Balurco de Cima, de porte descomunal e que debaixo da sua copa podiam semear-se não sei quantos sacos de semente. Parece que foi vítima de um vento ciclónico que a arrancou pela raiz, o que normalmente acontece a árvores de tão grande porte.

Não conheço nada escrito sobre ela e era interessante que existisse.



[A casuarina com cerca de treze anos de idade já tinha este bonito aspecto]







Possivelmente terão existido mais árvores no concelho, nomeadamente nas proximidades do rio que pelo seu porte e características deviam ficar nomeadas para conhecimento dos vindouros.

Árvores assim, despertam-me sempre muito interesse. Sempre gostei de árvores e as minhas favoritas são a oliveira e a alfarrobeira. Destas e de outras espécies, tenham plantado algumas.

Em 26 de Outubro de 1998 escrevi à Direcção-Geral das Florestas chamando a sua atenção para este exemplar e foi nesta altura que procurei saber o seu nome exacto pois de outra maneira o assunto ou parava ou teria um andamento diferente.

Transcrevo parte do que então escrevi:- Trata-se de um exemplar de casuarina, segundo penso, que a 1,30 m da base do tronco tem um perímetro de 3 metros e 22 e cuja altura nos parece ser cerca de 25 metros. Quanto à copa, que é enorme, não a consigo calcular. / Foi plantada há mais de cinquenta anos e “bebe” fartamente no Guadiana.
Termino a minha carta pondo-me ao dispor para qualquer outra informação necessária e que me fosse possível dar.








[A Casuarina já com a bonita idade de 34 anos]








O processo decorreu muito bem e fui gradualmente informado até à sua conclusão, tendo havido a amabilidade de me agradecerem o interesse e colaboração prestada.

Começamos o assunto praticamente pela actualidade, agora teremos de andar uns bons anos para trás.

Antes disso transcreverei os dados ainda não referidos e de mais interesse da Ficha da Árvore de Interesse Público que obtive na site http://www.afn.min-agricultura.pt/

Nome científico – Casuarina cunninghamiana Miquel
Nome vulgar – casuarina-ténue
Interesse histórico ou paisagístico – Bom exemplar de casuarina de fuste grosso, copa densa e frondosa. A árvore situa-se num pequeno terraço com uma excelente perspectiva sobre o Guadiana e a Vila Espanhola de Sanlúcar del Guadiana. O local é ponto de encontro e de realização de festas.

Perímetro da Base 5.0
Perímetro a 1,30: - 3,31
Diâmetro da copa norte/sul – 19.0
Diâmetro da copa este/oeste – 19,5
Altura – 23,7
Nota: - As medidas são em metros.
Última medição – 2006.
Idade (anos) – 90.


Este último dado tem um grande desfasamento, por excesso, perante a realidade como tentaremos justificar seguidamente.

Ainda que eu tivesse algumas informações sobre o assunto, elas não me permitiam tirar conclusões pois apareciam divergências notórias.

Através do alcoutenejo amigo e colaborador deste blogue, Eng. Gaspar Santos, foi possível recolher infomação bastante mais segura.

Quem plantou a hoje já “célebre” casuarina, foi um seu tio materno e padrinho, Manuel Martins que como cabo comandou o posto da GNR de Alcoutim e isto ter-se-ia dado em 1953/54, com mais hipótese para o último ano. Em relação a este ano, terá por isso cerca de 55 anos o que realmente é uma bonita idade mas muito inferior à apontada oficialmente, possivelmente por alguma informação errónea.


[Vista de parte do cais novo onde ainda não se encontrava plantada a casuarina. Além da Capela de Sto. António notam-se a venda do Sr. Sabino e a parte cimeira dos armazens do comerciante local, J.B.Guerriro. Esta fotografia foi gentilmente cedida pelo Sr. Eng. Gaspar Santos, de Alcoutim]

Se o cais foi inaugurado em 1944 e a árvore ainda não estava lá como se demonstra com a fotografia que se junta e gentilmente cedida por aquele nosso amigo, o que aliás não seria necessário por razões óbvias. Não se iria construir um cais em face da existência de uma árvore!

É-nos referido que o cabo Manuel Martins, natural dos Montes do Rio, se deslocava assiduamente de regador na mão e numa altura que não havia fornecimento de água ao domicílio para proceder à indispensável rega.

Conheci-a quando tinha cerca de doze anos e já possuía um porte apreciável.

Para quem possa desconhecer, direi que nos termos da legislação em vigor, o arranjo, incluindo o corte e a desrama deste exemplar fica sujeito a autorização prévia da Direcção-Geral das Florestas.

Aqui deixamos a nossa homenagem ao homem que teve a feliz ideia de plantar esta árvore, hoje um “ex-libris” da pequena vila raiana, nas margens do Guadiana.

domingo, 26 de abril de 2009

FAMÍLIAS NOBRES DO ARGARVE


Este título, de autoria do Visconde de Sanches de Baêna, foi editado em Lisboa, A Liberal – Officina Typographica, 216, Rua de S. Paulo, 216, em 1900.

Noventa e dois anos depois teve a 2ª Edição, para o que se juntaram três responsáveis que foram os seus editores.

A edição é fac-similada e constituída por dois volumes, visto ter havido posteriormente uma Parte Segunda, editada em 1906, em Lisboa, Typographia do Annuário Commercial, Praça dos Restauradores, 27.

Ainda que não tenha já feito uma leitura total do trabalho, já deu para encontrar algumas pessoas que tiveram alguma ligação ao concelho de Alcoutim, como por exemplo Diogo de Mascarenhas de Figueiredo que foi prior de Martim Longo ou Diogo Lobo Pereira, natural de Loulé e que acudiu a Alcoutim quando o inimigo intentou acometer por este lado (1707).

Tive conhecimento da existência deste trabalho em Alcoutim, em 1968, por intermédio do comerciante local, e já falecido, João Baltazar Guerreiro que não o tinha completo. Mais tarde encontrei algumas citações mas nunca me tinha sido possível consultar o trabalho.

Através das novas tecnologias foi-me possível encontrar esta segunda edição que adquiri (nº 353) rubricado por um dos editores, Fernando Santos, em cuja livraria foi adquirido, Rua dos Chões, 121, 4710-230-Braga.

Quantas bibliotecas do Algarve teriam adquirido este trabalho?

Responda quem souber.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril de 2009 - 35 anos de democracia


Não quero deixar de assinalar a passagem deste dia que só aqueles que sentiram a falta de LIBERDADE compreendem. Os que a sempre tiveram, só a compreenderão melhor se um dia a perderem.

Eu não me admiro e até compreendo que aqueles que usufruíam de determinadas regalias não se sentissem bem com a mudança, compreendo-os melhor do que àqueles que no dia 26vestiram nova casaca.

O que para mim é revoltante é verificar que muitos que nada tinham, sem hipóteses de progressão nas suas vidas e que a Revolução possibilitou promoções de braço no ar e que hoje se encontram em situações estáveis, aproveitam todas as oportunidades para tentar denegrir o 25 DE ABRIL!

O que eu pretendo com este pequeno escrito é dar uma leve ideia do que se passou na vila há 35 anos.

Entre a diminuta população, menos de três centenas, as notícias que chegavam pela rádio eram recebidas pela maioria das pessoas com indiferença e desconfiança.

Os rádios também eram poucos e o sinal que chegava provocava uma audição com ruídos.

Ouvi comentários e até me lembro de quem os fez, que esperassem, porque em breve viriam as ordens para a cacetada e então é que iam ver.

Era aquilo a que estavam habituados com as outras tentativas abortadas de depor o regime, esquecendo-se que as condições de guerra motivaram a análise da política.

Sendo dia de São Marcos e como era habitual, o povo lá foi para o Pereiro, onde se realiza há séculos a maior feira do concelho e uma das maiores da Serra do Caldeirão.

A vila ficou quase deserta. Eu falhei o São Marcos pela primeira vez! Fiquei agarrado à rádio numa tentativa de me aperceber de como as coisas estavam evoluindo.

Segundo me consta, na Feira, só os feirantes pegavam na situação para tentarem convencer as pessoas a comprar os produtos.

O semanário regional, de maior expansão no Algarve traz um inquérito aos presidentes das Câmara. Pelas minhas contas faltam dois, possivelmente estariam doentes.

Na Música e animação (que) marcam o 25 de Abril no Algarve, não são indicados três dos concelhos, certamente por falta do jornalista

Nos 28 de Maio em Lisboa, Alcoutim estava sempre representado!

O desenho que ilustra este pequeno apontamento foi feito em 18 de Março de 1994 pela habilidosa mão do alcoutenejo João Pedro, hoje vogal na Assembleia Municipal de Alcoutim.

Desculpa não ter pedido autorização para a publicação, que certamente não me seria negada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Ribeira de Cadavais

O topónimo Cadaval deve estar no nome comum cadava ou cadavo mais o sufixo al e assim cadaval significa abundância de cadavas ou cadavos e, portanto lugar onde ficaram bastantes restos de matos e árvores que se queimaram. (1)

A ribeira de Cadavais ou de S. Marcos é formada pela colaboração de vários barrancos. O do Poço Velho junta-se ao Grande, perto de Tacões, formando outro de maiores dimensões que toma a designação de Ladrões que no século XVIII ainda se vadeava. (2)

É o ribeiro dos Ladrões que unindo-se ao do Alcoutenejo, oriundo da “lagoa” de Marim, dá origem à ribeira que vem desaguar mesmo junto à vila.


[Alcoutenejo com barrancada, 2008. Foto J.V.]

Por esta região, os terrenos que ladeiam os barrancos são aproveitados para pequenas hortas e plantação de árvores mimosas, uma vez que se tornam mais frescos e aráveis. As oliveiras são muito utilizadas, por enxertia dos zambujeiros, pois nos cerros têm dificuldade em sobreviver.

No caso da ribeira de Cadavais, esse aproveitamento torna-se mais notório, pois existem melhores condições naturais.

Tal como junto ao rio, são terrenos muito disputados e encontram-se bastante divididos. É o pomar da vila. Saborosos citrinos daqui saiam a caminho da capital, onde o seu nome gozava reputação. Os produtos hortícolas têm campo propício ao seu desenvolvimento. Esta bacia é considerada como zona de maior quantidade de água. De há uns anos a esta parte, os pomares estão quase todos abandonados pois segundo dizem, já ninguém quer os citrinos de Alcoutim.


[Ribeira de Cadavais dos tempos antigos.]

A riqueza hortícola da zona não foi estranha aos povos que por aqui passaram, atribuindo-se aos Árabes a construção de algumas noras existentes, tendo mesmo aparecido vários objectos desse período, como por exemplo alcatruzes de barro que se guardam em museus. (3)

No princípio deste século, numa propriedade do P.deAntónio, quando andavam em trabalhos de cava apareceram grandes potes de barro que partidos mostraram um pó muito brilhante a que os jornaleiros chamaram ouro. (4) Possivelmente tratar-se-ia de arte funerária romana.

A ribeira que pouco antes da foz descreve curvas e contracurvas caprichosas, em épocas invernosas traz grande corrente, conhecida por “ribeirada”, pois nela se juntam as águas pluviais das terras circunvizinhas.

O correr das águas (ludras como aqui são designadas) dá origem a um barulho característico, inconfundível e poético.


Na época estival ficam-lhe vários pegos, entre os quais o do Corvo, da Arvela, do Calhau Branco, das Portas e Fundo, junto do qual a D.H.G. fez construir umas passadeiras em 1952.

Já em 1883 o vereador, Manuel António Torres, faz ver à Câmara a grande necessidade que há de se colocarem umas passadeiras na passagem da ribeira para a Fonte Primeira e outras onde se passa para a horta junto do reguengo de Lúcio Domingues. (5)

“Ontem à tarde (29.09.1949), após ter acabado de cair nesta região chuva torrencial que devastou os terrenos, principalmente os que estavam de alqueive, não tardou uma hora que a ribeira de Cadavais (...) viesse com uma enchente, cujo golpe de água atingia uma altura de três metros. As várzeas, junto às margens, foram invadidas pela enorme torrente, arrancando árvores, destruindo muros, rasgando terrenos e levando consigo alguns objectos agrícolas. Poços e noras ficaram entulhados. Só ao fim de meia hora as águas começaram a baixar. Sofreram enormes prejuízos as propriedades de José Peres Pereira, António Madeira do Rosário, Belmira Lopes Teixeira, José Pedro Severiano Teixeira, Alfredo Lopes e Bárbara Trindade.


[Azenha do Conde de Alcoutim na ribeira de Cadavais, Séc. XVI, Livro das Fortalezas de Duarte de Armas]


O povo desta vila não se lembra de ver a pequena ribeira com tão grande caudal”.

Foi esta a notícia que o correspondente do Diário de Lisboa, na vila, enviou para publicação.

Para a petizada, no Verão, a ribeira constituía a piscina natural onde aprendiam a nadar para depois passarem a utilizar o rio.

Muitos alcoutenejos devem o saber nadar à existência da ribeira.

No mapa de Portugal de Fernando Álvares Seco, de cerca de 1621, está representada uma ribeira, junto a Alcoutim, designada por Bellaxarim, que nos parece ser termo de origem árabe.


NOTAS

(1)-Lendas, Historietas e Etimologias... Alexandre de Carvalho Costa, 1958.
(2)-Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV, A.H. Oliveira Marques, 1987.
(3)-Informação prestada pelo Sr. Luís Lopes Corvo que foi proprietário de uma das noras.
(4)-Informação prestada pelo nosso bom e saudoso Amigo, Sr. Mário Vicente um dos jornaleiros.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Dezembro de 1883.

terça-feira, 21 de abril de 2009

António José Madeira de Freitas

O Padre António José Madeira de Freitas, num meio tão pequeno como foi sempre Alcoutim, é obrigatoriamente uma figura de referência, ainda que eu não conheça escrito, nem por via oral, nada que o tivesse colocado numa situação de destaque.

Mesmo que se vá esbatendo no tempo, talvez ainda se encontrem hoje nos mais idosos filhos de Alcoutim, quem dele tivesse ouvido falar a pais e avós, nomeadamente para contarem sobre ele uma estória picaresca, como por exemplo ouvi contar ao meu sogro.

Para complicar mais o assunto, o Padre António, como era conhecido pela população, teve um sobrinho precisamente com o mesmo nome, que igualmente foi sacerdote e profissionalmente contemporâneo do seu tio, que acabou por substituir após a sua morte.

O P. António José Madeira de Freitas nasceu em Alcoutim em 1796, sendo filho do Alferes de Ordenanças António Sebastião de Freitas, igualmente de Alcoutim e de D. Maria Joaquina, filha do Capitão de Ordenanças Manuel Martins Lemos e natural de São Sebastião dos Carros, do concelho de Mértola. (1)

Foi seu avô paterno, José Carlos de Freitas Azevedo, natural do Porto, que foi chefe da secretaria da Câmara Municipal durante muitos anos e que casou com a alcouteneja, D. Rita do Carmo. Presumo que veio a fazer um segundo casamento com D. Maria da Conceição Botelho.

Segundo a lápide sepulcral existente no cemitério da Vila, paroquiou a freguesia de S. Salvador desde 1835 até 25 de Maio de 1872, data do seu falecimento.


[Igreja Matriz de S. Salvador, da Vila de Alcoutim, des. de J.V.]

De carácter oficial sabemos que por Mercê de D. Maria II, Carta de 16 de Dezembro de 1841 é nomeado Pároco da Igreja Paroquial de S. Salvador de Alcoutim, (2) admitindo nós que ele tivesse exercido desde 1835 e até àquela data as funções de carácter interino.

É seguro que em 1834 era Pároco da Igreja do Espírito Santo do Pereiro, talvez tenha exercido essas funções desde 1820, por isso, muito jovem e após a ordenação.
(3)

O P. António tinha uma irmã mais nova doze anos, D. Rita Antónia Joaquina do Carmo (1808-1858) que casou com Pedro José Rodrigues Teixeira (1810-1890), natural de Giões e que foi durante cerca de quarenta anos secretário da Câmara.

O Padre Madeira de Freitas que se encontrava muito debilitado, faleceu no dia 25 de Maio de 1872 em sua casa na Rua de Santo António na vila de Alcoutim. Ainda que fossem lavrados pelo seu coadjutor há muito, assinou os termos até treze dias antes do seu falecimento.

O epitáfio foi lavrado nos seguintes termos: À sombra da cruz / Aqui repousam / O P. António José Madeira de Freitas (Tio) / E o P. António José Madeira de Freitas (sobrinho) / Ambos naturais desta Vila de Alcoutim / Cuja freguesia Paroquiaram, o primeiro desde 1835 até 24/5/1872, data do seu falecimento e o segundo desde Julho de 1873 até 13 de Junho de 1906, em que faleceu.



[Paços do Concelho de Alcoutim que antes foram casas nobres do P. António, onde faleceu.Des. de J.V.]

Foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia de 1847 a 1853. (4)
Prestou informações a Francisco Xavier d`Ataíde Oliveira para a organização do livro As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, 1898, como o autor anota e agradece a págs. 279.

Entre os bens imóveis que deixou constavam a morada de casas nobres em que residia na Rua de Santo António, na vila de Alcoutim e a fazenda da Amarela constituída por pomar, algum arvoredo e terra de semente. (5)

Esta zona rústica ainda assim conhecida, já o era no reinado de D. João III e onde existiam uns moinhos, no esteiro. (6)

Parece-nos que o topónimo rústico, Cerro do Padre António, ainda hoje existente e próximo da vila, não terá a ver consigo mas com o sobrinho que possivelmente foi seu proprietário.
____________________________________________

NOTAS

(1)-Assento de óbito–PAALCT/001/LIV 15 – 1872
(2)–PT-TT-RGM/H/200735
(3)–A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 2007, pág.263.
(4)–Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), 1985, pág.250
(5)–Testamento de 4 de Julho de 1853.
(6)–TT – Livro 1 dos Místicos, pág. 68 v.

Pequena Nota
A título de curiosidade direi que o Padre António baptizou quatro dos trisavós de meu filho, e uma das suas tetravós, Maria do Rosário, foi apadrinhada em 7 de Março de 1807 pelo pai do sacerdote, então Alferes António Sebastião de Freitas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Favas à maneira de Alcoutim, na Várzea


O último fim-de-semana foi passado na Várzea, concelho de Santarém.

O jantar de sábado e mesmo ao jantar, não se dispensou que a base fosse a típica sopa de pedra, confeccionada em Almeirim e que tanta fama e proveito tem dado a esta cidade das margens do Tejo.

Para o almoço de domingo, estava planeada uma caldeirada que um dos familiares se prontificou a confeccionar, ao seu jeito.


Cerca da meia-noite, o prato foi posto de parte pois tinha surgido outra hipótese. Havia um outro familiar que nos informou que já tinha favas capazes de comer e quando fosse à caldeirada levaria uma saca cheia delas.

Dizendo eu que as iria fazer à maneira de Alcoutim, enquanto um dos interlocutores já conhecia tal prato feito a quando de uma visita àquela zona e de que gostou muito, o outro não conhecia tal coisa e mostrou-se entusiasmado em conhecer.

Rapidamente a caldeirada foi substituída pela favada com cascas que só mais duas pessoas conheciam, sendo uma natural de Alcoutim.

Tudo ficou combinado e no domingo pelas nove horas estávamos a fazer as compras necessárias num hipermercado e a caminho dos campos ubérrimos de Almeirim. As chuvadas dos dias anteriores obrigaram-nos à utilização de botins de borracha de cano alto.


[Um aspecto do almoço]

As faveiras estavam lindas, carregadas de favas tenras e saudáveis, mesmo em boas condições para serem feitas daquele modo. Com favas assim, qualquer um sabe cozinhar!

Enchemos a saca pois pelas nossas contas seriam à volta de dezassete pessoas. Apanhámos um bom molho de folhas de alho e outro de cebola, indispensáveis para tal prato. Porque os coentros já estavam espigados, tínhamo-nos abastecido no hipermercado tal como das indispensáveis alfaces, para a salada à montanheira.


Não havia tempo a perder pois para cozinhar para tanta gente leva o seu tempo.

Armado em cozinheiro fui dando as minhas ordens e mobilizando o pessoal disponível.

Apesar do tacho ser bastante grande, arranjámos outro mais pequeno para auxiliar pois apesar de não ser fácil o cálculo, não temos muita experiência com quantidades tão grandes em cozinhar para tanta gente ainda que já o tivéssemos feitos várias vezes para maior número de pessoas.

Entre os convivas havia alguma curiosidade em conhecer tal prato. Estávamos contudo precavidos com outro, para quem não gostasse.

Acabámo-nos por juntar dezassete pessoas, em que se incluíam duas crianças e a bebé Maria Zita que já foi vedeta deste blogue. Foram naturalmente as únicas que disseram não ao prato, todos os outros comeram e repetiram e o tacho maior ficou no fundo.
Acompanhámos com vinho branco de Almeirim e tinto da Várzea, local onde nos encontrávamos reunidos.

[A Zita, a mais jovem conviva, com três meses]
Naturalmente que houve outras variedades mas que não interessam para este texto.

Toda a gente gostou das favas à maneira de Alcoutim e foram-me pedidas explicações para a sua confecção, dizendo que na primeira oportunidade iriam fazer.

Penso que é assim que se divulgam as coisas boas de Alcoutim sem basófias e pedantismo.

Foi por isso que escrevemos este texto que pode chegar aos quatro cantos do Mundo!

Defendamos os nossos usos e costumes, as nossas tradições.


[As convivas menos jovens, bisavós maternas da Zita]

domingo, 19 de abril de 2009

Informação pertinente

Como é próprio da minha maneira de estar nas coisas, devo aos meus visitantes/leitores uma tentativa de explicação da minha ausência nos últimos dias, principalmente àqueles que diariamente nos visitam.

Por motivos que desconheço inteiramente, o meu blogue bloqueou, nem para a frente, nem para trás e entrar nele nem pensar.

Calculo que o bloqueio possivelmente teria atingido todos aqueles que o abriram pois tivemos algumas informações nesse sentido.

Mobilizei o meu técnico privativo no sentido de solucionar o problema como já teriam verificado, mas certamente que repararam que desapareceu o contador.

Não foi este o único blogue a que isto aconteceu mas até agora e por aqui ainda não se conseguiu chegar a uma conclusão, esperando em breve instalar outro.

A isto se sobrepôs uma ausência de quatro dias por visita à minha cidade natal e à freguesia da Várzea, onde entre outras coisas fui festejar os 118 anos de um MENINO que se chama CORREIO DO RIBATEJO, que transversalmente já esteve em três séculos!


Foi apaparicado pelo seu jovem e dinâmico preceptor, amas, aios e mais criadagem que não deixaram de estar presentes e cantar os “Parabéns a você”.

O rei (Presidente Moita Flores) em representação da Câmara presenteou-o com a assinatura de um protocolo que prevê a sua digitalização e os primeiros 30 anos já estão e tivemos oportunidade de ver algumas páginas.

A contrapor a isto muitos reis não mandam coleccionar os jornais dos seus reinos, boletins ou revistas. É que estas coisas não dão votos! Moita Flores, se não for Presidente da Câmara, tem imensas coisas para fazer.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Monte do Torneiro, subsidiário dos Balurcos

Para completarmos as pequenas notas monográficas das povoações da freguesia de Alcoutim, iremos hoje referir o monte do Torneiro que como o título indica é (era) subsidiário dos Balurcos.

Estes artigos têm sido publicados ao longo dos anos na imprensa regional e agora com mais intensidade neste blogue, LIVRE de tudo e principalmente de falta de ESPAÇO.

Situa-se a cerca de 9 km da sede do concelho. Saindo da vila pela estrada nº 122-1, às Quatro Estradas, tomamos à esquerda a estrada 122. Passamos pelo posto de abastecimento de combustíveis e pouco depois, novamente à esquerda, uma placa indica-nos Torneiro. Esta estrada, identificada com o nº 1057 (o mesmo da dos Balurcos), é uma obra efectuada antes do 25 de Abril, desconhecendo-se a razão dessa prioridade, certamente ligada ao Antigo Regime.

A estrada, após uma curva pronunciada, possibilita-nos ver ao fundo, numa pequena altura, a povoação.

Os terrenos da esquerda estavam limpos e nas proximidades do monte notava-se a existência de arvoredo, nomeadamente alfarrobeiras e amendoeiras, não faltando a vinha. Um tanque proporcionava a rega de uma horta.

A povoação que se situa nos antigos terrenos da Herdade do Bacelar, que pertenceu aos Condes de Alcoutim e mais tarde à Casa do Infantado e depois alienada no Liberalismo pela burguesia local, poderá ter origem em instalações deste latifúndio que a grosso modo iria desde as proximidades dos Guerreirinhos até ao rio.



É de tipo concentrado, desenvolvendo-se à volta do “terreiro”onde se encontrava o forno comunitário. Era ali que se armava o mastro em dia de festa.

A estação elevatória (1987) proporcionava o fornecimento de água a cinco fontanários.

Hoje, existirá fornecimento da mesma ao domicílio, com o natural pagamento a que se acresce uma taxa pela recolha do lixo, além claro, do pagamento do ramal. Estaria tudo certo se houvesse o resto, o esgoto, o que completaria o saneamento básico.

Ainda que eu seja leigo na matéria, a verdade é que o esgoto, feito para aquilo a que chamam fossas, causará vários problemas de salubridade.

No terreiro existia uma casa com interessante fachada, trabalhada a argamassa e que presumo ser do segundo quartel do século passado. Talvez seja isso que tivesse obrigado o Regulamento do Plano Director Municipal de Alcoutim a considerar a existência de construções de qualidade plástica. (1)

Em 1989 a Câmara Municipal em parceria com a Junta de Freguesia e por administração directa estava a proceder à pavimentação dos respectivos arruamentos. (2), para em 1996 ser concluída a repavimentação da estrada de acesso à povoação. (3)

Abordemos agora o topónimo, assunto que de uma maneira geral interessa às populações que muitas vezes o apresenta ligado a uma “estória” bem arquitectada e que nada tem a ver com a realidade.

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, na sua Adenda, pág. 892 diz:- Os topónimos mais dignos de nota são (...) Torneiro (...) do antigo “torno” (talvez nascente de água).

José Pedro Machado diz que Torno, donde derivou Torneiro, é topónimo frequente em Portugal e na Galiza, antigo substantivo masculino torno, “bolhão de água”, nascente abundante. (4), pelo que as opiniões manifestadas não são divergentes.

Encontrámos o registo em Portugal de treze topónimos referentes a povoações, sendo este o único ao sul do país. (5)

E porque o topónimo tem a ver com “água”dizemos que segundo a imprensa da época noticiou, (19 de Março de 2005) os habitantes perderam a confiança na água do furo. Houve uma altura em que aparecia negra com resíduos desagradáveis pelo que a população recorria a um poço situado a mais de cem metros da povoação.

A nível populacional a primeira notícia que temos é a que nos dá as Memórias Paroquiais (1758) que lhe atribui 7 vizinhos o que deve rondar cerca de vinte pessoas, os mesmos que o Vascão e mais um do que o Marmeleiro que lhe fica próximo.

Em 1839 os fogos eram dezassete, ao nível de Marmeleiro, Cerro dos Balurcos e Palmeira. (6)

Em 1976 e já em franco retrocesso populacional, segundo um mapa estatístico organizado no Centro de Saúde, tinha sessenta e nove habitantes.

No recenseamento populacional de 1991, os trinta e três habitantes constituíam quinze famílias e a povoação tinha quarenta e seis edifícios.

Presentemente, deverá rondar as duas dezenas, acompanhando a desertificação do concelho.

No século XVIII vários moradores desta pequena povoação desempenharam funções de tesoureiro da Irmandade de Nª Sª da Conceição, na vila. Assim, Manuel Dias em 1742 e 1755, Manuel Martins em 1758, Custódio Roiz em 1765 e José Dias em 1768.
(7).

Em 1771 fazia o manifesto de seus gados na Câmara Municipal, Mário Gonçalves, constituído por gado bovino, caprino e ovino.

A quando da criação de um novo cemitério que a lei impunha, realizou-se uma reunião da Capela de Nª Sª da Conceição no dia 22 de Dezembro de 1843 com a presença das forças políticas da vila e com representantes de todos os montes da freguesia. O Torneiro fez-se representar por Francisco Vicente.
Nesta reunião foi deliberado construir o novo cemitério que é aquele que ainda existe com as alterações que foi necessário introduzir, nomeadamente quanto ao espaço. (8)

Devido ao prejuízo causado pela cheia do Guadiana de 1876 são indemnizados Francisco Dias, Vª com 100 mil réis e António Rodrigues com 20 mil. (9)

[Machado de pedra polida (xisto), des.]
A presença da passagem do homem por esta zona está testemunhada pelo achado de um machado de fibriolite, quebrado na parte superior da extremidade oposta ao gume, um outro de pedra polida (xisto), de secção elíptica e ainda outro de pedra polida que deve ter sido primitivamente machado e que depois parece ter sido utilizado como polidor e martelo.

Estes objectos foram recolhidos por José Leite de Vasconcelos e encontram-se em Lisboa no Museu Etnológico. (10)

[Antiga Escola dos Balurcos]

Não me consta a existência de qualquer estabelecimento comercial, recorrendo os seus moradores ao longo dos tempos aos Balurcos. As crianças frequentavam igualmente a escola do Montinho do Cerro e assim se justifica o título dado ao escrito.

O Monte do Torneiro foi janela aberta no dia 29 de Maio de 2006 por tudo o que foi televisão, rádio e jornais, pois foi visitado pelo Senhor Presidente da República que aí avaliou a sua tensão arterial e viu cozer pão, o que naquele monte já não se devia fazer há muitos anos. É que foi aqui que se iniciou o” Roteiro para a Inclusão”.

NOTAS

(1)-Diário da República, I Série de 12 de Dezembro de 1995.
(2)-Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989, pág. 4)
(3)-Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 196, pág. 8
(4)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, Vol. III, pág. 1420.
(5)–Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C.Amaral Frazão, Editorial Barreira, Porto, 1981.
(6)–Corografia (...) do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(7)–Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), António Miguel Ascensão Nunes, 1985, pág. 346
(8)–“O cemitério da Vila de Alcoutim – da origem aos nossos dias”, José Varzeano, in Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988.
(9)–Acta da Secção da C.M.A., de 24 Abril de 1877
(10)–“Objectos arqueológicos de Alcoutim”, in O Archeologo Português. Pp 198 a 200.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Cais Novo


[O cais em dia de Festas da Vila, 1998]

Já aqui referimos em duas pinceladas o pouco que conhecemos do cais velho. Seria razoável e quase obrigatório fazer o mesmo em relação àquele que todos hoje ainda designam por cais novo.

Com o aparecimento dos adubos artificiais, os barcos da C.U.F., que vinham ao porto fluvial do Pomarão buscar o minério da Mina de S. Domingos, aproveitavam para trazer carregamento desse produto para distribuir pela Serra Algarvia e parte do Baixo Alentejo.

Alcoutim, devido à localização, foi escolhido para ponto de desembarque.

O cais existente não reunia condições para atracarem barcos de tal calado, pelo que tinham de atracar ao largo e proceder-se dali ao trabalhoso transporte para terra. Havia por isso necessidade de construir um que oferecesse boas condições.

Em 1940 existia impaciência na vila pois esperava-se o início das obras que estavam estudadas desde 1936 (1) e isto apesar do Governador Civil ter comunicado ao Presidente da Câmara que tinha já sido concedida a verba de 150 contos para o efeito. (2)

Segundo nos informaram, o então Ministro das Obras Públicas, Eng. Duarte Pacheco, aqui se deslocou várias vezes para se inteirar directamente do desenrolar dos trabalhos que devem ter terminado em 1944 a fazer fé na placa existente no local.

Pessoal especializado aqui se instalou executando a obra a que naturalmente o povo começou a designar por “Cais Novo”.

Obra robustíssima, as plataformas assentam sobre trinta e dois pilares de cimento armado, alcançando alguns mais de trinta metros de comprido conforme nos afirmam testemunhas oculares. Contornando a periferia das placas, os pilares são vinte e um e de forma cilíndrica. Interiormente e ligados por barras de cimento armado, formando rede, os pilares são oitavados e em número de onze.

[Navio da Marinha de Guerra atracado ao cais novo em 1969]
Das quatro plataformas que o constituem de diferentes alturas, a mais alta é a maior, formando um decágono irregular e côncavo.

Desta, desce-se por um lanço de seis escadas para outra e ainda outra.

Quando a mina de S. Domingos deixou de ser explorada, em meados da década de sessenta, cessou o movimento do cais, ao qual podem atracar barcos de mais de duas mil toneladas.

A construção do cais veio como “sopas depois do almoço”. O seu período de actividade, breve como as rosas de Malherb, reduziu-se, quando muito, a uma década. (3)

De tempos a tempos, algum iate de maior calado, uma “Enviada” em passeio ou barco de vigia costeira, aqui atracavam provocando alvoroço na vila.

Quando da visita do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, para inaugurar o abastecimento de água e energia eléctrica à vila, em 12 de Junho de 1965, o “Aviso” João de Lisboa que o trouxe, aqui atracou. Gonçalo Velho, da mesma categoria também aqui esteve na altura da Guerra Civil de Espanha. (4)

O cais rodoviário, anexo ao fluvial, tendo perdido completamente a utilidade para esse fim, tem sido utilizado por deferência da Junta Autónoma dos Portos, a que está afecto, para recinto de realização das “Festas da Vila”. Posteriormente foi igualmente vedado e transformado em recinto desportivo e quando disponível, como parque de estacionamento.


[La Belle de Cadix atracado ao cais novo]

As tripulações de alguns barcos que aqui têm atracado, para memória, deixaram gravado esse facto. Notam-se os mais recentes (na altura):- “Maria Cristina” - 29.08.1958, “Mira Terra” - 14.10.1963, “Silva Gouveia” - 30-09.1964 e “Maroto” - 30.08.1970.


NOTAS

(1)-O Século - número Especial de 1940.
(2)-Acta da Sessão da Câmara Municipal, de 25 de Fevereiro de 1939.
(3)-“Uma estrada marginal ligando Alcoutim a Castro Marim, oferecia extensa zona venatória ao turismo do Algarve”, Luís Cunha, in Jornal do Algarve de 7 de Abril de 1973.
(4)-Informação prestada pelo Sr. João Parreira Baptista, alcoutenejo que foi profissional da Marinha.

domingo, 12 de abril de 2009

A Vela e o Rio


1ª REGATA À VELA ALCOUTIM – VILA REAL DE STO. ANTÓNIO

Outra relíquia que em Setembro faz 36 anos!

Trata-se da partida, manhã cedo, da 1ªRegata à Vela (que seja do meu conhecimento), entre Alcoutim e Vila Real de Sto. António, isto em Setembro de 1973 e que mais tarde vieram a ter continuação, chegando aos nossos dias.

Disparei o “caixote” da janela do meu quarto, prédio que já não existe.

A partida teve lugar pouco depois da boca da ribeira e o principal apoio foi prestado por uma traineira.

Além desta possuo outra foto muito semelhante.

sábado, 11 de abril de 2009

Algumas intempéries alcoutenejas nos últimos dois séculos

(Publicado no Diário do Sul de 26 de Junho de 2001)



A passagem do recente mau tempo por todo o país, fez-me pensar em coligir alguns dados sobre alterações climatéricas notórias e passageiras que adquiri nas leituras que tenho feito sobre o passado alcoutenejo.

Publiquei, no espaço que ocupo num semanário regional e já centenário, nos princípios de 2000, uma memória intitulada Quando nevou no meu bairro (1), que tem alguma semelhança com aquilo que agora irei escrever. Contudo, enquanto agora me reporto a documentação, naquela circunstância utilizei só a memória, até porque o espaço intitula-se Memórias do Meu Bairro.


As alterações climáticas, quando acentuadas, provocam sempre situações mais ou menos complicadas.

Não pretende este pequeno apontamento, inventariar todas as situações que nestas circunstâncias causaram alarme na vila ou no concelho e delas excluímos, à partida, as situações de enchentes no Guadiana, e que tratámos noutras ocasiões. (2)

Veremos então o que obtivemos:


Se estivéssemos falando de uma região transmontana ou da Beira, a neve era assunto que com tudo se relacionava, desde o clima à habitação, passando pela flora, fauna e até à alimentação. Referi-la aqui, no nordeste algarvio, onde o calor aperta e a falta de água se faz sentir, vale pela excepção.



Nos últimos cinquenta anos dois nevões caíram sobre a região de Alcoutim (de uma maneira geral em todo o País) provocando a admiração e curiosidade dos alcoutenejos.

Em 1945 nevou com alguma intensidade, mas no dia 2 de Fevereiro de 1954 o nevão foi forte e provocou o gáudio dos “moços pequenos”, a curiosidade mas também a preocupação dos adultos, já que um nevão deixa sempre prejuízos.

O correspondente do Diário de Lisboa, na vila, dá a seguinte notícia, que veio a ser publicada no dia 8. (3) É lindo o aspecto da vila de Alcoutim, debruçada sobre o rio e em frente da espanhola San Lucar del Guadiana. Tanto as serras como as árvores desaparecem sob o alvo manto. Os flocos de neve que caem das amendoeiras floridas parecem as próprias flores. Pena é que tantos ramos, principalmente de oliveiras, se tenham partido devido ao peso da neve. Àquela vila têm-se deslocado numerosos forasteiros para admirar o lido panorama. O frio continua tendo o termómetro marcado zero graus, o que é raríssimo naquela região. Os lavradores estão satisfeitos porque, “ano de nevão, ano de pão”.

Nas nossas leituras encontrámos outras situações anormais no aspecto atmosférico.
Em Maio de 1844, na freguesia de Martim Longo e em especial na zona da Barrada, Pêro Dias e Azinhal, houve huma horrível trovoada que devastou as searas daqueles sítios. (4)

Nos dias 14 e 15 de Outubro de 1850 teve lugar nas freguesias de Alcoutim e Pereiro, grande temporal que causou inúmeros prejuízos e deles partilhou a Câmara já que a parede que ampara a estrada que segue pelas Portas de Mértola, caiu e corre grande perigo se não for levantada com brevidade.

Algumas fazendas da ribeira estavam completamente destruídas, ficando cobertas de cascalho. (5)


[Ribeira de Cadavais - Pego Fundo]
Em Fevereiro de 1855 não foi possível convocar os quarenta maiores contribuintes do concelho, já que devido ao tempo ir tão chuvoso, as ribeiras não davam passagem. (6)

Por último, um nefasto acontecimento. Pelas nove horas da noite do dia 17 de Março de 1883 pairou sobre a freguesia de Alcoutim uma forte trovoada, resultando cair “uma faísca eléctrica” no monte de Guerreiros dos Balurcos e em casa de Manuel Gaspar, onde se achavam várias pessoas. Matou instantaneamente um homem, mal feriu outro, assombrou ainda outro e matou uma vaca que estava numa “arramada” próxima. (7)

Certamente que muitos mais factos se passaram neste espaço de tempo e sobre este aspecto, mas não encontrámos mais referências na documentação consultada.


NOTAS

(1)-"Memórias do Meu Bairro - XXXV - Quando nevou no Meu Bairro", in Correio do Ribatejo de 11 de Fevereiro de 2000.
(2)-"Há um Século A Grande Cheia do Guadiana provocou tragédia em Alcoutim", in Jornal do Algarve de 3 de Dezembro de 1976.
(3)-A notícia englobada em “Continua a haver neve em diversos pontos do País”, era ilustrada com fotografia de 11,5 x 7,5 cm com o seguinte título: A vila de Alcoutim apresenta este aspecto. - Correspondente - Leopoldo Vicente Martins.
(4)-Acta da sessão da C.M.A. de 3 de Novembro de 1844.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Novembro de 1850.
(6)-Acta da sessão da C.M.A. de 8 de Fevereiro de 1855.
(7)-Of. nº 34 de 19 de Março de 1883, ao Governador Civil de Faro.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

GUERRAS LIBERAIS - A Campanha do Algarve, 1833-1834



Editado pela Caleidoscópio – Edição e Artes Gráficas, SA, em Março de 2007 e com introdução de António Ventura, é formado por 86 páginas com um formato de 17X24 cm.

Constitui dois depoimentos de militares estrangeiros ao serviço dos liberais sobre a guerra civil do Algarve (1833-1834).

O primeiro, intitulado Campanha de seis meses no Reino dos Algarves, em Portugal, corresponde ao diário do tenente-coronel Le Charlier, comandante do corpo de atiradores belgas ao serviço de Portugal. Depois faz-se a Narrativa da Expedição dos Algarves.
Como não podia deixar de ser o concelho de Alcoutim é referido, como passamos a transcrever: Pernoitou em Martim-Longo, outro covil dos guerrilheiros. Foi ali que por informações particulares viemos a saber que, aproveitando a nossa marcha no Alentejo, os guerrilheiros se haviam reunido de novo (…).

Mais à frente: O brigadeiro de Mello (…) destacando ao passar por Alcoutim, o coronel de Suarce à frente de 150 homens, com ordem de respaldar a cidade (…)

A 25, às quatro horas da tarde, a cavalaria, alguns atiradores de infantaria e uma manada considerável de bois dirigem-se para Alcoutim (…)
A 26, logo de manhã, os navios chegam a Alcoutim, onde o coronel de Suarce chega às onze horas, após uma das mais penosas marchas.
... … … … …

A 28 dormimos em Martinlongo, vila desprovida de recursos onde a tropa não recebeu distribuição alguma.
... ... ... … ...
No entanto existe uma forja em Martinlongo e o mal foi em parte remediado.

Naturalmente que estas referências têm de ser enquadradas na leitura do livro e depois na história local do referido período.
Se as fizemos foi com o sentido de espicaçar a sua leitura.

A última parte trata-se de Exposição Apresentada a sua Majestade a Rainha, pelo Barão de Suarce.

A Introdução possibilita-nos o enquadramento necessário para podermos melhor compreender o seu conteúdo e dá-nos notas biográficas adequadas dos autores.

Adquiri-o numa livraria de Vila Real de Santo António em 2007.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Guarda Fiscal em Alcoutim


[Antigo Quartel da Guarda Fiscal em Alcoutim, 1988. Foto JV]

As zonas raianas tiveram sempre propensão para duas actividades antagónicas: - o contrabando e a “guarda-fiscal”, ou seja, o serviço de fiscalização dos impostos cuja arrecadação está confiada às Alfândegas.

Alcoutim não podia fugir à regra e o concelho forneceu dos maiores contingentes para aquele corpo militarizado. (1)

A Guarda Fiscal foi criada pelo Decreto nº 4 de 17 de Setembro de 1885. Este corpo paramilitar devia defender o Estado no que respeita aos direitos e rendimentos que pelo comércio externo cabiam à Fazenda Nacional. Devia por isso a Guarda Fiscal descobrir e reprimir o contrabando, assim como as transgressões dos preceitos fiscais. (2)

A Guarda Fiscal veio substituir os Guardas da Alfândega então existentes.

A partir daqui os mancebos alcoutinenses começaram a ver nela uma actividade que podiam desempenhar, fugindo ao trabalho árduo e pouco rendoso da vida do campo, obtendo mais tarde a almejada reforma, então regalia de poucos, podendo olhar pelas suas courelas ou do futuro cônjuge que os proventos, ainda que pequenos, sempre auxiliavam o magro mas seguro vencimento de soldado.

Durante muitos anos os moços de Alcoutim, de uma maneira geral, após completarem a instrução primária, dificilmente se livravam da actividade agro-pastoril até ao cumprimento do serviço militar, devido a vários factores económico-sociais.

A inspecção militar era vista com preocupação e o apuramento causava alegria. Depois vinha o cumprimento do serviço que se procurava fazer a todo o custo com a “caderneta limpa”.

Aparecia a prova de admissão e lá estavam disciplinados e trabalhadores, não lhes era difícil obter o que pretendiam. Colocados por vezes em lugares distantes da sua região, acabavam por se aproximar alguns já como cabos ou sargentos e outros alcançavam o oficialato.

Podemos dizer que será difícil encontrar uma família de Alcoutim que não tivesse tido elementos na Guarda Fiscal.

Era sede de uma Secção. Teve de si dependentes, entre outros, os seguintes postos:- Abrigo Segundo, Alcaçarinho, Barranco do Álamo, Barranco do Carrascal, Barranco das Pereiras, Canavial, Enxoval, Foz de Odeleite, Grandacinha, Guerreiros, Laranjeiras, Lourinhã, Pontal, Premedeiros e Vascão. (3)

Sabemos que os postos de Vascão, Premedeiros, Lourinhã, Barranco das Pereiras, Abrigo Segundo, Alcaçarinho e Grandacinha foram construídos pelo Ministério da Fazenda em 1890. (4)

Pertencia à Companhia de Faro e ao Batalhão nº 2, com comando em Évora.

Na Sessão da Câmara Municipal de 7 de Maio de 1888, “apresentou-se o 2º Sargento da G. F. Tomaz do Couto Corrêa fazendo verbalmente uma petição em nome do seu chefe, Victor Manuel Quintino Travassos Lopes, encarregado de mandar proceder à reparação do antigo quartel da fiscalização, para rebaixar um metro pouco mais ou menos à rua chamada da Porta Nova, que se acha junto ao mesmo, obrigando-se a deixá-la se não melhor, ao menos como está”. Foi deliberado aceder ao pedido feito.

Em várias ocasiões aparecem referências a autos levantados nos quais estão envolvidos elementos da Guarda Fiscal. Assim, pai e filho espancam um 1º cabo daquela corporação (5) e cinco meses depois é o Chefe da Secção Fiscal que espanca um cidadão pelo que lhe é levantado pelo Administrador do Concelho o competente auto remetido ao Delegado do Procurador Régio da Comarca de Tavira.

Em 1913 o Comandante da Secção da Guarda Fiscal é provocado na Praça da República pelo Administrador do Concelho que de cavalo marinho em punho tem atitudes agressivas por gestos e palavras na presença de muitas pessoas.

O Comandante participa o assunto ao seu superior hierárquico solicitando providências e nomeadamente a competente participação ao Governador Civil. (6)

Em 15 de Fevereiro de 1950 o 2º Comandante Geral da Guarda Fiscal visita a Secção de Alcoutim.

Nos princípios dos anos setenta, a grande maioria dos postos estavam activados, mas a pouco e pouco começaram a ser extintos e mesmo os edifícios postos em hasta pública.

As pensões pagas pela C.G.Aposentações. no concelho não nos enganávamos se disséssemos que 90 % pertenciam a elementos da Guarda Fiscal.

[Antiga guarita da Guarda Fiscal em Alcoutim, 1988]
Esta corrente de actividade decaiu com a chegada do turismo e com a emigração.

No dia 20 de Fevereiro de 1990, são apreendidos 1068 kg. de haxixe que se encontravam a bordo de um iate holandês, de nome Inexplorato,(7) constituindo até à altura a terceira maior apreensão de sempre no Algarve. Pensamos que foi a última efectuada pela G. F. de Alcoutim, já que devido principalmente à integração de Portugal na Comunidade Europeia, a Guarda Fiscal é extinta pelo decreto-lei nº 230/93, de 26 de Junho e criada a Brigada Fiscal, integrada na G.N.R.

Do preâmbulo do diploma, consta:- A Guarda Fiscal assegura, há mais de um século, a actividade de controlo e trânsito de pessoas e bens, contribuindo, com dignidade e prestigiante brio no desempenho da sua elevada função, para a solidificação de Estado de direito em Portugal, actuando empenhada e conscientemente na prevenção de actos ilícitos, na fiscalização e na repressão das infracções às leis do Estado.

Pequena Nota

Este artigo constitui uma cópia integral do que consta sobre o tema na 2ª Edição (em preparação) de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia).
As notas ficarão para uma hipotética publicação.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

As tuneiras



Tuneira é o nome mais vulgar no concelho de Alcoutim para designar uma planta arbustiva, carnosa, de ramos compridos, articulados e espinhosos.

Este tipo de opúncias ou cactáceas é também designado noutras regiões por figueira-da-índia, figueira-da-barbária, pita, nopal, etc.

Tendo por nome científico (Opuntia ficus-indica (L.) Mill), é provavelmente originária da América Central, mais propriamente da região semidesértica do México, de onde os espanhóis a trouxeram para a Europa e os mouros para África.

Planta sub-espontânea, desenvolve-se bem em solos pedregosos e secos, resistindo bem à falta de humidade pois vai acumulando-a nos seus troncos verde-escuro, no período das chuvas e que quando velhos se tornam acinzentados e lenhosos.

As folhas estão transformadas em espinhos.

Esta planta no concelho de Alcoutim tinha várias utilidades. Colocada nas extremas, dividia e protegia com eficiência as propriedades.

Os figos de tuna, como chamam aqui aos seus frutos, são muito doces, frescos e comestíveis.

Colhem-se pela manhã, com uma tenaz, aproveitando as maresias pois nessa altura os espinhos dos frutos que são muito finos, têm menos possibilidade de se cravarem nas nossas mãos, de onde dificilmente se tiram. Depois, varrem-se bem varridos para que todos os espinhos saiam.

São considerados um bom alimento para os porcos que além dos engordarem bem, também lhe proporciona uma carne mais saborosa.

As tuneiras localizavam-se de uma maneira geral junto dos montes onde normalmente a terra era pouca. Por outro lado, os pocilgos estavam por perto sendo mais fácil o trabalho de transporte.

As tuneiras devido à transformação do modo de vida começaram a ser atacadas pelo homem que já delas não necessita como anteriormente.

Em lugar das tuneiras estão hoje algumas casas.

A sua flor, de cor alaranjada, é muito bonita, apresentando um quadro agradável à vista.

Os alcoutenejos utilizam o suco das suas palmas que faz misturado com mel ou açúcar, um xarope para a tosse e para a asma.

Os seus derivados são utilizados em farmácia e cosmética. Das sementes do seu fruto extrai-se um óleo valioso, comprado pela indústria cosmética por cerca de mil euros o litro, segundo informação que recolhemos.

O fruto é utilizado para o combate à diarreia, o seu uso excessivo pode causar obstipação.
________________________________

terça-feira, 7 de abril de 2009

A Capela de Santa Marta (a velha)


[As ruinas em 1990]

Referimo-nos a esta capela, primeiro e dentro dos poucos conhecimentos que tínhamos, no nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia), 1985, pp 231, 232 e 351 e posteriormente, já com outros conhecimentos no artigo intitulado “A Capela de Santa Marta (a velha) e o “monte” do mesmo nome, na freguesia de Alcoutim, publicado no Jornal do Algarve de 26 de Abril de 1990.

Iremos primeiro ao nome da invocação. Santa Marta, irmã de Maria e de Lázaro. Uma antiga tradição diz que ela foi morrer na Provença (França). Curiosamente, perto da povoação de Santa Marta existiu uma herdade denominada das Provenças, onde em 1859 foi registada uma mina de cobre (1), zona rústica ainda hoje assim conhecida. Haverá alguma relação entre uma coisa e outra? Pensamos que sim.

O culto de Santa Marta foi especialmente estimado nos séculos XIII-XIV. (2)

No final do ano de 1565, a Ordem de Santiago, a quem D. Dinis declarou dar as igrejas que mandasse fazer em Alcoutim, veio a ser cabeça de Comenda e dependia do Mestrado de Cacela, na “visitação”, espécie de inspecção, que efectuou entre outros templos foi à Hermida de Santa Marta, situada numa pequena elevação, perto do monte do mesmo nome, freguesia de Alcoutim, a qual he muito antiga e repaira se a conta de pessoas devotas.
É então descrita nos seguintes termos: A capella he de duas agoas madeirada dàguieiros, emcaniçada; as paredes são de pedra e barro; tem hum altar dàlvenaria cubertos com humas toalhas da terra e nelle a imagem de Santa Marta de vulto já muito velha; o arco da capella está armado sobre aguieiros de madeira; he pequeno e não como deve ser; as paredes do corpo da igreja são de pedra e barro desguarnecidas por dentro e por fora; he madeirada de castanho, emcaniçada por cima; o portal da porta principal he d` alvenaria redondo fechado com suas portas. (3)

Esta descrição do pequeno templo, feita há mais de quatrocentos e quarenta anos, ainda hoje se ajusta em grande parte ao que ainda resta das suas ruínas. A porta é que deixou de ser em arco redondo para passar a rectangular. Notavam-se igualmente pequenas transformações, nomeadamente quanto ao espaço.

De planta rectangular, tem cerca de 12m X 6 m e uma das paredes laterais é suportada por três gigantes. Construída de xisto e grauvaque da região com auxílio de barro. O local da porta apresentava uma abertura com cerca de dois metros.

Como obra posterior, as ruínas apresentam a indicação de dois pequenos compartimentos, um destinado à sacristia e outro possivelmente à Confraria que a dirigisse.

Por cima do altar, de que nada resta, situava-se um nicho. Podia ainda ver-se também na frontaria parte da beira-telha e por cima da porta notava-se igualmente uma fresta que arejava e iluminava o templo.

O visitador recomenda aos devotos que arranjem a capela, guarneçam a ermida e façam outra imagem nova porque a que ora têm, não é como deve ser.
Certamente que não é esta a imagem que chegou aos nossos dias pois Francisco Lameira (4) refere-a em razoável estado de conservação, considerando-a como exemplar de boa qualidade, imagem pintada, dourada e estofada, datando-a do século XVIII.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, na resposta ao quesito 14 refere-se: Em alguns dias do ano vão algumas pessoas, desta freguesia, como de fora (…) a Santa Marta, sendo que no dia da sua festa sempre concorre mais gente; fora do dia da sua festa, não tem dias determinados, nem há sempre as tais romarias. (5)


A devoção por esta Santa era e é grande, sendo, como acabamos de dizer, local de romaria.

Constavam de missa solene e procissão. Nas imediações a juventude cantava e dançava modas de roda.

Na ermidinha tinham lugar frequentemente casamentos e baptismos. Tenho conhecimento de alguns, que os próprios me referiram.

Os festejos no seu dia (29 de Julho) tinham repercussão nas redondezas, sendo muito concorridos. O último teve lugar em 1939, segundo nos informou a Sr. Catarina Maria Guerreiro, do Monte de Baixo que nos adiantou no seu saber que a Santa do seu lugar avistava os sete irmãos que eram S. Martinho (Cortes Pereiras), Nª Sª das Neves (Mesquita), Nª Sª do Amparo (?), São Barão (Alcaria Ruiva) Senhora de Aracelis (Vale de Açor), Senhora de Aguada de Lupos (?) (Serpa) e Virgem de La Penha (Alcaria Puebla-Espanha).

A estória de se avistarem sete irmãos repete-se por imensos sítios desconhecendo eu a sua origem que possivelmente estará relacionada com alguma lenda.

A aceleração da ruína da capela foi contínua e em meados dos anos setenta do século passado houve mesmo uma tentativa de roubo a que o povo pôs cobro, levando a imagem e os castiçais para a escola primária que se encontrava ainda em funcionamento.

Com o fecho desta, passou para o salão do Centro Cultural Recreativo e Desportivo local, fundado em 1981.


[A nova capela no dia da inauguração, 4.8.1991]

Gerou-se depois um movimento no sentido de dar lugar compatível a Santa Marta, pensando-se proceder ao restauro do velho templo, o que acabou por ser posto de parte e construído um novo, agora à entrada do Monte de Cima.

Para o efeito, a Câmara Municipal cedeu à Diocese do Algarve 480 m2 de terreno (6) e em 1986 já se encontrava de pé.

De planta pentagonal e com um pequeno alpendre, foi inaugurada no dia 4 de Agosto de 1991.

Assim, Santa Marta ficou com nova residência.



NOTAS

(1) – Registo de 2 de Outubro de 1859.
(2) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Adenda), entrada Alcoutim.
(3) –“Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve) Hugo Cavaco, Vila Real de Santo António, MCMLXXXVII, pp 346 e 347.
(4) – A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc.XVI ao séc. XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(5) – Vol. 2, nº 12, ANTT.
(6) – Jornal do Algarve de 13 de Junho de 1985.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A azinhaga do Terreiro



Esta foto é relativamente recente, Setembro de 1989.(Foto JV)

Nela, só há uma coisa que destoa, o poste da electricidade.

O restante respira tipismo. O chão ao correr da rocha, as paredes todas de xisto e grauvaque, um arruinado boqueirão, ao fundo uma velha porta, é visível a telha de canudo, o resto de cal numa frontaria e até não falta um bando de perus aproveitando a sombra da parede.

Esta azinhaga, como o título indica, leva-nos ao local mais importante do monte, o terreiro.

Sobre os “terreiros”, falaremos um dia.

Visitantes/leitores, de tudo isto só resta o pau de arame, como por aqui o povo costuma chamar aos postes, ora de madeira ora de cimento e … esta fotografia para mostrar aos vindouros, o resto, tudo se modificou.

domingo, 5 de abril de 2009

A queijeira


Nunca vi até hoje, a não ser no concelho de Alcoutim e limítrofes peças utilitárias deste tipo e quando a vi pela primeira vez, perguntei o que era aquilo, como se chamava e para que servia.

O meu interlocutor, com um sorriso de admiração possivelmente pela pergunta formulada, pensando que aquele artefacto fosse conhecido e utilizado em todo o país, respondeu-me com toda a naturalidade que era uma queijeira e que servia para fazer vinho e azeite.

Fiquei confuso e vou tentar explicar porquê.
Chamando-se queijeira, serviria no meu raciocínio para fazer queijo, no Ribatejo e nas Beiras, que eu soubesse, o vinho e o azeite faziam-se em lagares de tipos diferentes.

- Mas se não se fazem queijos, já se teriam feito em tempos recuados.
- Não senhor, aqui isso nunca aconteceu que eu me lembre!

Pus a questão a outras pessoas e a resposta foi sempre a mesma e a minha confusão continuava.

Em dois artigos que publiquei no Magazine do Jornal do Algarve, englobados em Coisas Alcoutenejas e sob o título “O vinho caseiro” (31 de Março de 1994) e “A oliveira na economia concelhia (30 de Abril de 1994) procurei explicar as razões que mais tarde encontrei para justificar esta designação e sua utilização, o que agora não vou repetir.

Procurando um tabuão largo e grosso, moldavam-no no sentido de ter uma parte mais estreita a terminar numa espécie de bico.

Procediam depois à remoção da parte central que procuravam endireitar deixando um rebordo de dois ou três dedos de largura e uma profundidade de três/quatro dedos. O escavar da madeira afunilava originando um rego de cerca de dois dedos de largura. Esta peça resistente e maciça leva três pés, dois equidistantes do “bico” e próximos dele e um terceiro, na parte mais afastada, ao centro e que tem a característica de ser mais alto do que os outros dois.

Eram troncos previamente escolhidos pelo formato e qualidade da madeira, normalmente chaparro ou zambujeiro que depois de adelgaçados numa das extremidades eram embutidos na parte inferior da queijeira propriamente dita.

Tal como outras peças que já referimos neste tema, confeccionavam-se localmente e era impossível encontrar duas iguais, como se compreende.

Não eram muito vulgares e iam passando de geração em geração já que se tratava de peças muito resistentes, como a função que desempenhavam requeria.

Para o fabrico do vinho, os cachos eram colocados dentro de um talego de pano poroso e que o homem ia espremendo até sair o máximo de mosto possível. O que ficava, o engaço, a grainha e o folhelho, era removido.

Devido à inclinação do artefacto, o líquido ia correndo, saindo pelo bico para um alguidar, então de barro.

A mesma queijeira servia para o fabrico do azeite pelo mesmo processo, com a diferença que a azeitona depois de salgada era esmagada com um maço de madeira e depois de metida no talego era bem escaldada para possibilitar a saída do óleo que corria juntamente com a água para um alguidar de barro que na parte lateral, junto ao fundo tinha um pequeno orifício que se tapava com um pauzinho de esteva afiado. Como se sabe, o azeite é mais leve do que a água e por isso vem ao de cimo. Como a água fica no fundo, vai-se afrouxando o pauzinho de esteva e ela (água-ruça) vai saindo. Por outro lado, através de uma vieira vai-se recolhendo à superfície o azeite.

Nem todas as casas tinham uma queijeira, que não era fácil de arranjar. Valia na circunstância a cedência feita por quem as tinha, depois do seu governo.

Primeiro foi o desaparecimento em meados do século passado da feitura do azeite, devido à existência de alguns lagares e ao comércio da azeitona que a abertura de estradas possibilitou, depois foi o vinho, começando as queijeiras a serem substituídas por prensa.

Hoje as queijeiras existentes, quando não queimadas, constituem peças de museu.
Consegui salvar uma de ser queimada e que é capaz de ter mais de cem anos!

O Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1996, não a refere.