domingo, 26 de julho de 2009

Rua da Misericórdia

Esta fotografia, de fins da década de sessenta do século passado, foi das primeiras que tirei em Alcoutim.

Na Idade Média, a rede viária era constituída por duas artérias, a rua (direita) das Portas de Mértola e a rua (direita) das Portas de Tavira que aproximando-se do rio, desembocavam na praça ou terreiro onde se situava o poder político, administrativo judicial e senhorial, além das relações comerciais, ligadas fundamentalmente ao rio.

Com o decorrer dos tempos, a rua direita das Portas de Tavira foi dividida em duas, a Rua D. Sancho II e a do Dr. João Dias, enquanto a das Portas de Mértola manteve este nome e deu seguimento à Rua da Misericórdia.

Enquanto a primeira foi perdendo o movimento que tinha por falta de seguimento condigno, a segunda com a operacionalidade da estrada 122-1 foi-se mantendo ou mesmo recrudescendo.

Quando em meados do século passado começaram a chegar à vila as camionetas de carreira que vieram substituir o transporte fluvial, era por esta rua que passavam para chegar à praça, já da República.

Entretanto as camionetas foram-se transformando no sentido de transportar mais pessoas e então já não podiam passar por tais artérias, pelo que foi aberto um novo acesso ainda existente por aquilo a que o povo chamava “Os Trases” e que era constituído por quintais pertencentes às habitações e que iam até junto aos restos da muralha da vila.

Apesar desta machadada a rua continuou com algum movimento, pois era lá que se situava a Misericórdia e onde pontificava o seu pequeno Hospital fundado pelo Dr. João Francisco Dias e ao qual o seu filho, o saudoso Dr. João Lopes Dias deu, digno seguimento. Acabou-se o “João Semana”!

Quem conhece hoje o local pode estabelecer as diferenças operadas em relação a esta fotografia

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Alcaria Alta, foi o mais importante"monte"da freguesia de Giões

A povoação de Alcaria Alta, e que por não ser sede de freguesia é designada por “monte”, situa-se no concelho de Alcoutim, de onde dista cerca de 25 km e na freguesia de Giões ficando a uma distância de aproximadamente 4 km a Sul da sede de freguesia.
A partir de Alcoutim alcançamo-la através das estradas nº 122-1 e nº 124 no sentido Alcoutim-Barranco do Velho e percorridos cerca de 23 km encontramos à esquerda uma placa que nos indica, Alcaria Alta, 2 km.

Em 1987 (1) aparece-nos referido que se acaba de aprovar, entre outros, o concurso de um caminho rural da estrada nacional 124 a Alcaria Alta.

Desde há muito que havia uma vereda por onde se passava com dificuldade e que chegámos a utilizar.

O caminho é asfaltado e os estevais dominam. Notava-se o traçado telefónico pois um posto público foi lá instalado em 1989. (2) O piso, então de terra batida, encontrava-se (1977) em muito mau estado. Algumas amendoeiras e um ou outro eucalipto.

Depois de uma curva pronunciada, aparece-nos uma placa toponímica indicando a povoação que se vê no cimo de um cerro. À esquerda, deixámos a escola primária há muito desactivada por falta de alunos, encontrando-se muito mal tratada com vidros partidos e outros estragos (1987).

Presentemente (2009), tal como a foto mostra, encontra-se pelo menos reparada no exterior, talvez resultante da remodelação efectuada em 2002. (3)

A criação de um posto de ensino escolar é solicitada em 1932 (4), pedido reforçado dois anos depois. (5)

Entrámos num monte de dimensão razoável, podendo classificar-se, a nível de número de construções, um dos grandes montes do concelho. Destaca-se do conjunto uma edificação ao gosto regional, dos anos vinte e propriedade de lavrador local.

Será altura de referir o topónimo muito vulgar em Espanha e em Portugal, principalmente a sul no Tejo, Alentejo e Algarve.

Alcaria deriva do árabe al-qariâ, aldeia, vila, pequena povoação (6). Temos conhecimento de doze povoações assim designadas e podemos-lhe juntar mais quatro no plural, contudo, à grande maioria juntou-se-lhe um qualificativo para a distinguir das outras, nomeadamente as mais próximas. A esta, devido à sua posição topográfica, juntaram-lhe Alta. Encontramos duas no país, a outra situa-se no concelho de Almodôvar, freguesia de Gomes Aires.

Os qualificativos têm origens diversas como Branda, Ruiva, Cova, Cume, Fria, Fernão Vaz, etc. (7)

Na freguesia de Cachopo, existe Alcarias Baixas.

Os arruamentos vieram a ser pavimentados conforme adjudicação que teve lugar em reunião da Câmara de 22 de Julho de 1992. (8) Mais tarde (1999) veio a verificar-se uma nova intervenção neste sentido. (9)

A par de recentes edificações e que por vezes nada têm a ver com a região, ainda se vêem velhas construções de xisto, resquícios de velhas e desactivadas pilheiras, tal como fornos de cozer pão.

Até se pode observar uma interessante chaminé ao gosto alentejano, ou não seja a freguesia de Giões aquela que assimilou mais características daquela região.

A possibilidade da recolha de água potável foi sempre uma preocupação destas povoações que tinham muitas dificuldades para receber um pequeno subsídio municipal ou estatal.

Assim, em 1933, é concedido pelo Estado, um subsídio para a abertura de um poço, (10) mas não se conseguem arranjar homens a menos de 130$00 por metro de profundidade, apesar da Câmara fornecer dinamite e fulminantes. Devido à muita necessidade do mesmo foi autorizado pagar mais 10$00 por metro, sendo encarregado de fiscalizar os trabalhos a efectuar o proprietário local, Manuel Tomás Lourenço. A abertura do poço veio a custar a quantia de 1.540$00

Mais tarde, na década de 60 os poços foram cobertos e apetrechados de uma bomba elevatória manual o que foi um melhoramento considerável.

Era um trabalho diário e árduo ir à água ao poço que ficava sempre em local baixo, ao passo que as habitações se situavam normalmente em posições altas e de uma maneira geral a distâncias consideráveis.

Depois do fornecimento de água por fontanários, em 2002 já tinha sido feita a ligação aos domicílios. (11)

Nas redondezas, algumas árvores vicejam, principalmente alfarrobeiras e amendoeiras.

Em 1851 (12) foi concedido terreno no rossio do monte para se construirem umas casas para habitação.

No século XIX, Silva Lopes identifica uma “estrada” que saindo de Tavira, pela ponte de Almargem, vinha atravessando a serra passando já nos domínios de Alcoutim por Balurquinhos, Zambujal, Alcaria Queimada, ribeira da Foupana, Alcaria Alta, Cacelinha e Giões. (13)

Da povoação avistam-se Cachopo, Martim Longo e alguns “montes” do concelho de Mértola.

A pastorícia e a cerealicultura foram as actividades principais e em 1997 ainda existia um rebanho de 1100 ovinos.

O Pároco da freguesia que respondeu ao inquérito formulado pelas Memórias Paroquiais (1758) e ao contrário do que todos os outros do concelho fizeram, não indica por montes a sua população, mas sim no seu conjunto. A sede de freguesia tinha 377 pessoas enquanto os montes possuíam 412.

Em 1839 Silva Lopes atribui-lhe 43 fogos, seguindo-se Farelos com 30 e Clarines com 20.

Nas proximidades de Alcaria Alta foram identificados vários locais arqueológicos, como no sítio, Vila do Lavajo e no Curralão, situado a cerca de 1km, numa zona rodeada pelos barrancos da Laginha e do Bem Parece.

A actividade mineira está representada pela mina da Couraça, a céu aberto e com vestígios de exploração antiga. (14)

Em 1976 tinha 81 habitantes e em 1991 tinha descido para 42, sendo ultrapassado por Farelos com 87 e Clarines com 65.

Presentemente (2009), são pouco mais que uma dezena! Não está longe a desertificação.

Terra pobre, a sua rudeza não deixa de ser bela. É face de um outro Algarve que não conhece o turismo e que ainda vive à espera do dia dos prodígios.
Porém, este isolamento, este silêncio que nos envolve, esta gente que nos escancara a porta com generosidade para nos oferecer aquilo que produz, como o mel, o presunto, as azeitonas, o pão caseiro ou o chá para a saúde, tudo isto são as raízes esquecidas da nossa essencialidade.
(...)
Ouve-se o assobio do camponês e o cântico dos pássaros. O gado descansa em currais de pedra solta.

São estas algumas das palavras que Luís Monteiro Pereira escreveu sobre “Um fim-de-semana em Alcaria Alta”. (15)

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Notas
(1)-“Abertura de mais quatro caminhos rurais”, in Boletim Municipal nº 1 de Outubro de 1987, pág. 5.
(2)Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2
(3)Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 10
(4)-Acta da Sessão da C.M.A. de 12 de Janeiro.
(5)- Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Janeiro.
(6)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizontes/Confluência, 2ª Edição, 1993.
(7)Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A. C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.
(8) Boletim Municipal nº 11, de Setembro de 1992, pág. 4.
(9)Alcoutim, Revista Municipal nº 6 de Janeiro de 1999, pág. 10.
(10)Acta da Sessão da C.M. Alcoutim de 27 de Julho.
(11)Alcoutim, Revista Municipal nº 9, de Dezembro de 2002, pág. 10
(12)Acta da Sessão da C.M.Alcoutim de 12 de Janeiro.
(13)Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco, Editora, Edição 1988 (fac-similada), pág.496.
(14)– “O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”Helena Catarino, in al-‘ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.
(15)In Jornal do Algarve de 25 de Abril de 1991.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Panela de barro

Pegámos num dicionário, o que estava mais próximo e procurámos “panela”. Esclarece:- s.f. Vaso ou pote de barro ou de metal para serviços culinários. Procurámos depois num mais recente em que a explicação é a mesma, passando o barro do primeiro plano, para o segundo.

Compreende-se assim, mas nem só por isto que apareceu naturalmente primeiro o barro e só depois se começaram a utilizar metais de vários tipos.

O uso da panela de barro em Alcoutim está praticamente extinto como facilmente se compreende, devido a toda uma evolução de vida que se foi processando.

Nos princípios do século passado o uso da panela de barro estava generalizado a todo o concelho, nomeadamente nos meios mais rurais, os montes, o que se veio a estender até meados do século.

A confecção das refeições era feita através da combustão da lenha, representada principalmente pelas estevas e onde aparecia algum tronco (cepo) de oliveira, amendoeira, chaparreiro ou qualquer outro proveniente de limpeza ou secagem das árvores.

A lenha era por essas alturas muito escassa pois os campos andavam limpos, todo o terreno aproveitado para as sementeiras.

Por outro lado havia que cozer a amassadura semanal e os fornos precisavam igualmente de serem aquecidos.

As refeições faziam-se na “casa do fogo” tivesse ou não chaminé. O vulgar era acender-se o fogo a um canto da casa e o fumo saía por uma telha que se levantava.

As panelas de barro, bojudas, eram ligeiramente mais altas do que largas. Umas eram vidradas, outras não e havia-as de vários tamanhos.

Destinavam-se principalmente à feitura dos “jantares” de couve, feijão e grão, pratos muito substanciais e do agrado dos alcoutenejos, ainda que cada vez haja menos pessoas que os saibam confeccionar. Primeiro porque se deixaram de fazer nas panelas de barro, depois porque o tempo da cozedura encurtou bastante e os ingredientes deixaram de ser de produção local, nomeadamente as carnes e os enchidos.

Punha-se a panela ao fogo antes de se sair para os trabalhos do campo e quando se regressava, estava pronto a servir. Em lume brando, ia cozendo lentamente, apurando assim a sua feitura.

Confesso que nunca comi um “jantar” feito nestes moldes, limito-me a descrever o que me têm contado, mas é fácil concluir, devido às razões apontadas deviam ser muito bons.

Aqui fica o que pudemos compilar sobre a velha panela de barro que caiu naturalmente em desuso.

Quem ainda as tem? Poucos serão.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

As romãzeiras


[Entre muitas, três romãs colhidas em 2006 num monte da freguesia de Alcoutim. Pesaram 2980 g. Foto JV]
Estes arbustos, muitas vezes em forma de árvores mas sem nunca constituírem porte assinalável, tiveram e têm importância na vida alcouteneja, ainda que nas últimas décadas não nos pareça terem merecido a atenção dos alcoutenenses.

Da família das punicáceas (púnica gramatum, Lin.) é originária do Oriente e cultiva-se nas regiões quentes e temperadas.

O seu fruto, (comestível) a romã ou romeira, (não virá daí o hábito dos alcoutenejos chamarem romaneira à planta?) tem forma arredondada e casca avermelhada e nalgumas espécies acinzentada e encerra grande quantidade de bagos vermelhos e sumarentos.

Dá uma flor grande de um vermelho vivo. Quando está em plena floração, este vermelho vivo contrasta com o verde das folhas fasciculadas que ainda encerram a beleza de parecerem envernizadas.


Lembro-me perfeitamente que na minha região natal as romãs, os diospiros e os marmelos eram considerados frutos de classe inferior e que além de serem baratos em relação aos outros tinham pouca procura.

A “fruta” produzida em Alcoutim devido aos parâmetros conhecidos, como o solo, clima e meios de comunicação, por exemplo, era fundamentalmente constituída por figos, marmelos, romãs, uvas, algumas peras e laranjas, isto na margem do rio ou das ribeiras que devido à presença da água, possibilitava a sua cultura.

Na Cheia Grande de 1876 as notícias publicadas referem que “Desde Mértola até Castro Marim, ambas as margens do Guadiana estavam orladas e revestidas de formoso arvoredo, nomeadamente figueiras e romãzeiras espontâneas, silvestres que, pendendo sobre o rio, não só o embelezavam mas davam abrigo aos barcos, no Verão, e aos marinheiros, passageiros e pescadores. Tudo a cheia derrubou, deixando ambas as margens escalvadas e nuas”.

Praticamente todas as várzeas do rio, junto à água, tinham romãzeiras e marmeleiros que além dos frutos que davam, estabilizavam as terras o que era muito importante.

Ouvi falar aos alcoutenejos em duas qualidades de romãs, umas boas, as assarias e outras que não prestavam, as de grainha de pau.

Era vulgar ver pessoas comerem romãs acompanhadas com pão!

As alcoutenejas deslocavam-se ao S. Mateus em Mértola onde procuravam vender as suas romãs, o que faziam igualmente nos “Pagos” da Mina de S. Domingos.

Hoje, com as possibilidades de captação de água podem-se ter romãzeiras em qualquer parte e se a qualidade for boa e se tiver tratamento, obtêm-se exemplares de excelente qualidade.

Hoje a romã ombreia com qualquer outra “fruta” a nível de preço e de procura.

As romãzeiras devem ser acarinhadas pelos alcoutenejos e os seus frutos poderão ser uma referência nas sobremesas.

Não esquecer que se faz uma excelente ratáfia de romã.

Por outro lado a casca das raízes é um bom tenífugo o que significa dizer que expulsa a ténia.

A casca e coroa da romã são usadas em tratamentos de hemorroidal.

terça-feira, 21 de julho de 2009

José Manuel Pereira



Nasceu em Vila Real de Santo António a 17 de Junho de 1922 tendo falecido no Hospital Distrital de Faro no dia 29 de Março de 1998, vítima de doença que nos últimos anos o vinha afectando.

Iniciou a sua vida profissional na antiga Tipografia Socorro, como aprendiz de tipógrafo, por isso numa actividade ligada à escrita e à leitura.

Ao cumprir o serviço militar, foi mobilizado para os Açores, como furriel-miliciano.

Convivendo com oficiais americanos e empresários britânicos, estudou o inglês de que se tornou um profundo conhecedor, tendo fama de bom explicador para os alunos do ensino liceal.

Vocacionado para as línguas e com o sentido de melhor compreender as grandes obras da literatura europeia, levou-o a estudar, pelos seus próprios meios as línguas francesa, espanhola e alemã, além da inglesa entretanto assimilada.

Com o advento do Turismo, servindo desinteressadamente como cicerone para visitantes ilustres interessados no passado histórico da então vila pombalina, o que lhe deu grande traquejo e cimentou os seus conhecimentos.

Quando o jornalista profissional José Barão, em 1957 decidiu fundar o Jornal do Algarve, convida-o para nele colaborar.

Em 4 de Setembro de 1965, assume o cargo de editor que José Barão justifica “... pela sua devoção ao jornalismo, um somatório de predicados normais e intelectuais que o recomendam para o cargo em que foi investido”.

Com o falecimento de José Barão ocorrido em 1966, assume a direcção do Jornal.

Com o 25 de Abril passaram-se em todos os jornais diários e regionais algumas contradições que levaram ao enfraquecimento do seu dinamismo, acabando por se extinguirem muitos. José Manuel Pereira afasta-se voluntariamente devido ao rigor e independência como dirigia o jornal não cedendo a pressões nem a interesses politico -partidários.

Com novos proprietários em 1983, José Manuel Pereira volta à direcção do semanário regional para lhe dar credibilidade.

Em 1986 e quando o jornal já sentia estabilidade, José Manuel Pereira regressa, por vontade própria,a simples colaborador mantendo as suas apreciadas crónicas, “Brisas do Guadiana” que escreveu até à morte.

José Manuel Pereira era um autodidacta que possuía uma apreciável cultura. Gostava do debate das ideias e interessava-se pelos movimentos artísticos e culturais.

Era conhecido pelo seu carácter de homem sério e honrado. A fraternidade foi sempre uma palavra que nunca descurou pois aplicava-a a todo o instante.

Colaborou como dirigente de várias associações locais, como a Associação Humanitária dos Bombeiros de Vila Real de Santo António, do Glória Futebol Clube, Cine Clube e ao Grupo de Escuteiros de que era chefe.

Colaborou em vários jornais e revistas tendo sido correspondente de alguns diários.

Em 1991 aceitou que a Câmara Municipal lhe publicasse o seu único livro, “Rimas de Quando Jovem” no qual se revelou um apreciável poeta.

Foi um homem que procurou passar sempre sem ser notado.

É sempre possível dizer mais sobre um homem desta estirpe.

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“Faleceu um dos “históricos” do Jornal do Algarve”, F Reis, in Jornal do Algarve de 2 de Abril de 1998.
“José Manuel Pereira, o jornalista e o cidadão”, Post de 2 de Julho de 2009 http://algarvehistoriacultura.blogspot.com


Pequena nota.

Conheci pessoalmente José Manuel Pereira com quem falei muito poucas vezes mas as suficientes para reparar que estava ali um grande homem, tanto na sua estatura física como intelectual e moral.

Guardo no meu arquivo pessoal uma série de cartas que teve a amabilidade de me escrever e em que revela todo o interesse nos escritos que lhe ia enviando para publicação.

Ainda que já tivesse escrito para outros jornais, as suas palavras tiveram grande influência para que o continuasse a fazer e não esqueço que um dia, com a sua voz calma suave e compassada, ouvi-lhe dizer:- Os seus textos já começam a ultrapassar o âmbito do jornal, tem que começar a pensar num livro – um livro, é sempre um livro.

Ainda que na altura não me sentisse com tal aptidão, a verdade é que essas palavras não caíram em saco roto e no primeiro livro que apareceu em 1985 não podia deixar de referi-lo nos meus agradecimentos.

Tive muitíssimo gosto em oferecer-lhe um exemplar. Nas suas “Brisas do Guadiana de 6 de Fevereiro de 1986 comentou e analisou o trabalho em parâmetros que muito me sensibilizaram, o que igualmente veio a fazer com outras publicações.

A minha colaboração no jornal esteve sempre ligada à sua presença.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Uma Festa em Giões, percursora das actuais?

[Igreja de Nª Sª da Assunção, 2009. Foto JV]
As feiras, mercados e festas foram sempre apanágio do povo português e no concelho de Alcoutim, apesar do seu isolamento, e talvez por esse facto, também tiveram e têm o seu lugar.

Nota-se nos últimos anos a tentativa de manutenção da Festa Anual na aldeia de Giões que se realiza em 15 de Agosto, em honra do orago, Nª Sª da Assunção.

Este pequeno apontamento destina-se a referir uma festa, como o título indica, e isolada no tempo.

O gionense, Manuel Francisco Passos, resolveu fazer um peditório no sentido do seu produto dar origem a uma festa em Honra de Nª Sª da Assunção, que como já se disse é orago da freguesia, o que efectivamente veio a ter lugar no dia 15 de Agosto de 1883.

Depois de pagas todas as despesas, o Sr. Passos declarou à Junta que ainda tinha em seu poder 9020 réis que queria empregar na festa à mesma Senhora, no presente ano (1884).

Respondendo à Junta de Paróquia que tinha dúvidas, a Câmara informa que não deve existir qualquer complicação, tendo andado bem o dito Passos, bastando à Junta no seu orçamento anual lançar a seguinte verba de receita:- Esmolas com a aplicação à Festa da Senhora da Assumpção, em poder de Manuel Francisco Passos - 9020 réis. (1)

Nestas alturas, o Povo era assim!

NOTA

(1)-Of. nº 52 de 15 de Março de 1884, ao Presidente da Junta de Paróquia de Giões.

domingo, 19 de julho de 2009

A ermida do Espírito Santo, templo desaparecido na vila de Alcoutim



É a quarta vez que vamos escrever sobre este pequeno e desaparecido templo da vila de Alcoutim.

A primeira foi uma levíssima referência no nosso trabalho, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) (1) que fiz acompanhar de um pequeno desenho das suas ruínas que ainda existiam. Além do nome da invocação, pouco ou nada digo, afirmando até que nas minhas leituras nos arquivos locais nada tinha encontrado sobre ele, o que até hoje se mantém.

Quando o emérito historiador algarvio, Doutor Hugo Cavaco,publicou “Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (Subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve)”, numa edição da CMVRSA – MCMLXXXVII, foram colocados à disposição de todos, dados de muito interesse que vão de 1518 a 1566, que nos ajudam a conhecer melhor aqueles templos e nos revelam outros aspectos da vida local, proporcionaram-me um artigo mais completo que publicámos num semanário da região. (2)

Depois, e numa terceira abordagem, fizemo-lo após termos encontrado pela primeira vez uma referência a ela num assento de óbito.

Ainda que tenhamos alguma coisa de novo a acrescentar pela leitura que fizemos das Memórias Paroquiais – 1758, procuraremos compilar os elementos que demos a público.

Quando chegámos à vila em finais da década de sessenta do século passado, reparámos no que restava das suas ruínas e era bem pouco. Parte da fachada principal com o local do campanário, sobre o qual fazia o seu ninho um casal de cegonhas. Reconhecia-se muito bem o pequeno adro, empedrado, com parte dos muros e ainda se podia avaliar a área do templo devido à existência de ruínas das paredes.

[O templo visto por Duarte de Armas, Sec. XVI]
Foi tudo o que na altura podemos observar.

A nossa curiosidade por estes assuntos, levou-nos a indagar a evocação da ermidinha, mas as pessoas só nos sabiam dizer que era a igreja do Rossio e mais nada.

Tempos depois, uma alcouteneja, D. Conceição Cunha, filha do médico Dr. José Cunha, disse-nos que se tratava da Capela do Espírito Santo.

O passo seguinte sobre a capela, a que pensamos talvez ser mais adequado chamar ermida, por se encontrar sozinha, foi a constatação de a ver representada num desenho que o Doutor José Leite de Vasconcellos ofereceu a Manuel António Torres, considerado seu informador epistolar (3) alcoutenejo de destaque na sua época. Só mais tarde vim a saber que essa cópia tinha sido tirada do hoje bem conhecido Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Séc.XVI)

Em 1565 diz-se que está junto a esta villa da banda d’alem da ribeira d`Alcoutineio.

É indicada como sendo huma soo casa pequena, paredes até o meo de pedra e barro e dahi para cima de taipa, telhada de duas ágoas, madeirada de castanho emcaniçada.

Tinha um altar de alvenaria e no lugar do retábulo estava a imagem de Nossa Senhora com os Apóstolos e a vinda do Espírito Santo.

A ermida reparava-se à custa de esmolas que se pediam ao povo.

Em 1565 é considerada pelo Prior Visitador do Mestrado da Ordem de Santiago, João Fernandes Barregão, com necessidade de reparação e recomenda-se ao prior da igreja matriz, António Picanço, que junto do povo solicite esmolas para o efeito, pois a ele compete apresentá-la bem reparada e ornada para o serviço de Deus.(4)

Era tradição oral e ouvi-o dizer a alguns alcoutenejos que quando do domínio dos espanhóis, o sino desta ermida tinha sido levado para a matriz de Sanlúcar e lá rachou e foi substituído, e que os alcoutenejos nunca esqueceram o seu som.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, respondendo à pergunta 13, o pároco de S. Salvador escreveu: - a Irmida do Espírito Sancto está no Rocio da villa perto da mesma villa para a banda do norte e todas estas Irmidas são sojeitas ao Ordinário deste Bispado e à Parochia.
Em 1843 procedeu-se à alienação de grande parte do rossio por proposta de um vereador, logo secundado por toda a Câmara. Foram feitos vinte e sete talhões mas nunca consegui encontrar a relação de quem os arrematou. Sumiu-se, como por encanto!
Teria feito a ermida parte de algum dos lotes? É muito possível que sim.

Em Novembro de 2007, deslocámo-nos ao Arquivo Distrital de Faro no sentido de encontrarmos alguns dados de interesse para um trabalho que andávamos realizando e que veio dar origem a A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente». Ao pesquisar os assentos de óbito da freguesia de Alcoutim, aparecem-me dois, seguidos e do mesmo dia, 20 de Agosto de 1855, o primeiro referente a D. Maria do Carmo Xavier Casqueiro de Sampaio, casada com Manuel Francisco Piçarra, natural da cidade de Elvas, residente na cidade de Tavira, o outro de Eduardo Augusto Xavier Casqueiro de Sampaio, solteiro, natural da vila de Moira (Moura) igualmente residente em Tavira e que presumo serem irmãos ou pelo menos parentes próximos. Não se indica a idade em qualquer deles e os assentos são lavrados pelo P. António José Madeira de Freitas (tio).

O que nos chamou a atenção foi o facto de ambos terem sido sepultados na Ermida do Espírito Santo, extramuros desta Vila de Alcoutim.Significará isto que nessa altura a ermida ainda se encontraria de pé e ao culto?
Não encontrámos nas proximidades daquela data mais ninguém com tal sepultura.

Pessoas que viviam em Tavira, que teriam vindo fazer a Alcoutim? Teriam aqui familiares ou seriam aqui proprietários? Talvez ambas as coisas.

A família Xavier por essa altura possuía vários elementos espalhados pelo concelho.

A situação sugere-nos a deslocação das vítimas de Tavira, onde a cólera-morbo já se faria sentir, para estas paragens de ares mais puros e com a epidemia mais distante.

A sepultura na ermida porquê, uma vez que o cemitério já estava em funcionamento a alguns anos?

Sugerimos duas hipóteses: ou a ermida pertencia à família, obtida após a implantação do liberalismo, fazendo parte de um dos vinte e sete talhões que já referimos (5) e assim a família teria o interesse e autorização para o efeito ou tratando de vitimação por tal doença haveria a necessidade da sepultura ter lugar em local distante para evitar contágios e daí a referência no assento a extramuros desta Vila.

Cerca de 20 anos depois, na Cheia Grande de 1876, não encontrámos qualquer referência à Ermida, mas sabemos que a maior prejudicada com a enchente do Guadiana foi D. Ana Xavier de Brito Teixeira (6) que poderá ser da mesma família.Igualmente por esta altura, D. Júlia Xavier de Brito era proprietária nesta zona. (7)

Afirmava o alcoutenense Prof. Trindade e Lima que constava ter sido destruída por um raio e profanada pela impiedade dos homens, mas não indicava quando. (8)




[Lar da 3ª Idade acabado de construir]
As suas ruínas foram removidas em 1985 para dar lugar à construção do Lar para Idosos.


Notas
(1)Edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.
(2)“A desaparecida Ermida do Espírito Santo, na Vila de Alcoutim”, in Jornal do Algarve de 2 de Fevereiro de 1989.
(3)Etnografia Portuguesa, Tentame de Sistematização pelo Dr.J. Leite de Vasconcellos, Vol. VI, organizado por M. Viegas Guerreiro, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
(4)Visitações da Ordem de Santiago no sotavento Algarvio..., Hugo Cavaco, 1987.
(5)“Coisas Alcoutenejas – Os Rossios”, José Varzeano, in Jornal do Algarve – magazine, 30 de Junho de 1994.
(6) Acta da Sessão da C.M.Alcoutim, realizada na Capela de Nª Sª da Conceição em 21 de Dezembro de 1876.
(7) Acta da Sessão ca C. M. de Alcoutim de 21 de Setembro de 1876.
(8)“Pequenos Apontamentos – Turismo”, in O Povo Algarvio, Tavira, 5 de Outubro de 1974.


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sábado, 18 de julho de 2009

Páginas da História de Santarém



O Escaparate de hoje pode à primeira vista pensar-se que nada tem a ver com Alcoutim, mas não é verdade, como tentaremos explicar.

O seu autor é o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, o emérito historiador que nos deu o seu importante aval para que o meu livro, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia) viesse a público. Sem ele, possivelmente ainda estaria na gaveta.

Trata-se de uma colecção de muitas dezenas de artigos, que o autor durante os anos fez publicar na imprensa regional, nomeadamente no Correio do Ribatejo de Santarém e na Vida Ribatejana de Vila Franca de Xira.

Este 1º Volume de 580 páginas, de 0,16X0,23 m, abrange duas temáticas, “Estudos Históricos” e “Santarenos Ilustre e Adoptivos”.

Já conhecia um número razoável destes artigos mas outros para mim foram uma autêntica novidade e estão a constituir a minha última leitura diária.

A edição é da Academia Portuguesa da História (Lisboa, MMVIII) com o patrocínio da Câmara Municipal de Santarém e o apoio da Fundação Eng. António de Almeida.

O prefácio é da Professora Doutora Manuela Mendonça que substituiu o autor na Presidência da Academia Portuguesa da História.

O exemplar foi-me oferecido pela Câmara Municipal de Santarém.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Alcoutim faltou!

Pequena nota

Este artigo foi escrito há 14 anos, não foi hoje!
Na procura de determinada documentação, fui encontrar este original que acaba por ter uma “estória”.

Tal como o enviei para publicação num jornal semanário do Algarve, aqui o publico tantos anos depois, mas que consideramos de interesse fazê-lo.

Para minha admiração, o artigo não foi publicado no número seguinte do jornal, o que, pelo menos quanto à minha colaboração não era habitual, mas pior, não o foi no número seguinte!

Pedindo, obviamente, uma explicação foi-me dito que não tinha chegado!

Hoje as coisas já não são bem assim, visto os mesmos serem enviados por “e-mail” e se não forem devolvidos é que chegaram ao seu destino. Com as cartas, as coisas podiam passar-se de uma maneira diferente.

Poderei acrescentar que nunca mais enviei nenhum escrito para esse jornal que nada perdeu comigo e eu muito menos com o jornal, pois deixei de fazer despesa com o envio dos mesmos. Se alguém perdeu, foi Alcoutim e alguns dos meus assíduos leitores que sei que os tinha.


JV


[Alcoutim de hoje. Foto JV]

Quando fui alertado pelo “anúncio” de que o próximo SERÕES NA PROVÍNCIA iria ser dedicado a Castro Marim, tomei nota para o seguir na íntegra, já que é zona que conheço relativamente bem.

Pensei para comigo: – Era um programa destes que Alcoutim devia procurar que se realizasse.

É importante uma “terra” dispor de alargado tempo de antena para dar a conhecer à plateia que é PORTUGAL, de Norte a Sul, as suas potencialidades, os seus problemas, as dificuldades e anseios.

Desconheço totalmente como os programas são agendados, mas certamente que não andarei distante da verdade ao dizer que tem de haver um interesse mútuo entre as partes.

Os intervenientes eram para os algarvios pessoas conhecidas e provenientes de vários quadrantes políticos e profissionais.

Como não podia deixar de ser, lá estava o dinâmico presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, defendendo a sua dama como pôde, dependendo Vila Real da sua vila pela água que lhe fornece e pela autorização da passagem de “fronteira”, ao que risonhamente respondeu o seu congénere dizendo que em Vila Real se considerava Castro Marim como a sua quarta freguesia.

As referências visuais e auditivas sobre Alcoutim e o seu concelho apareceram em quantidade apreciável.

Estavam presentes, além do presidente anfitrião, os de Vila Real de Santo António e de Tavira. O de Alcoutim (a cadeira como as câmaras mostraram, encontrava-se vaga), segundo o moderador, não estava presente por motivo de doença.

Daqui auguro ao Senhor Presidente rápidas melhoras, mas com os dados que disponho não compreendo porque não se fez representar pelo vereador a tempo inteiro, que o substitui, por sinal um alcoutenejo conhecedor da sua terra e interessado pelos seus problemas. E se este também não fosse possível comparecer, a Câmara ainda dispunha de mais três vereadores eleitos democraticamente e que podiam dar voz ao concelho, isto apesar de todo o interesse manifestado pelos presentes que se referiram a Alcoutim.

Todos nós sabemos que os meios de comunicação social, principalmente os audiovisuais, têm grande impacto e perder uma oportunidade destas, traduz-se em prejuízo para o concelho.

Eu, que muito modestamente procuro divulgar o nome de Alcoutim e do seu concelho há mais de um quarto de século, através da escrita e nomeadamente nas páginas deste semanário, que tem estado sempre ao nosso dispor, confesso que me senti frustrado ao assistir ao último SERÕES NA PROVÍNCIA.

E tinha de escrever isto.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

5000 VISITAS!



Quem foi dos nossos visitantes/leitores que deu pelo facto de hoje termos alcançado as 5000 visitas?

Certamente que nenhum, aliás como bem se compreende e até porque como já tivemos dois contadores diferentes, temos de fazer as contas o que não dá muito jeito.

A mudança do contador, como então tentei explicar, teve a ver com o bloqueamento do blogue.

Alcançámos os cinco milhares após um ano e vinte e seis dias de existência o que para nós e ponderadas todas as circunstâncias é motivador.

Não criámos um blogue para colocarmos meia dúzia de artigos para não dizermos menos e o abandonarmos totalmente, ficando “pendurado”. Houve um projecto que até agora temos conseguido cumprir, quando isso não for possível, daremos conhecimento aos nossos visitantes/leitores e retiraremos todo o seu conteúdo.

Podemos informar que estamos longe de esgotar os assuntos a abordar.

Não podemos deixar de agradecer aos visitantes que o fizeram de outros países, certamente pelas mais variadas razões.

O primeiro contador não fazia a acumulação como o actual faz, pelo que o número de visitantes “estrangeiros” do primeiro está incluído no cômputo geral.

Como se compreende, o Brasil e a Espanha são os maiores utilizadores dado que a língua e a proximidade são factores importantes.

Continua por outro lado a aumentar o número de blogues que referem este pelas razões que entenderam.

A média diária do número de visitantes tem aumentado consideravelmente.

Mais uma vez agradeço a todos que têm tido a amabilidade de nos escrever através do nosso e-mail.

Contem com o ALCOUTIM LIVRE. Continuem a divulgá-lo.

Bem hajam.

Alforges

Para ilustrar a nossa página de etnografia fomos hoje buscar algo de diferente do que até agora tínhamos apresentado.

Não se trata de peça exclusiva de Alcoutim ou da região, mas sim de um utensílio que muito se usou do Norte ao Sul do País.

Pensamos, contudo, que as suas linhas, padrões e mesmo a confecção serão diferentes de outras zonas do País. Os dois exemplares que apresentamos são velhos na “idade” (mais de 50 anos) mas novos, porque nunca foram utilizados.

Não passam despercebidos o azul forte muito característico do Sul do País e as barras castanhas e brancas igualmente do gosto deste povo e que era muito usado nas chamadas “mantas de trabalho”

Estavam guardados para se utilizarem quando os que em uso se estragassem. Os mais usados destinavam-se a transporte de vários tipos entre as propriedades rústicas e as residências nos montes.

Quando se ia à vila e às feiras e havia sempre necessidade de transportar alguma coisa, iam-se buscar os mais novos e bonitos, tal qual como se fazia com a roupa que se vestia.

O alforge, como se chamam as peças apresentadas, é uma espécie de saco comprido, fechado nas extremidades e aberto no meio, por onde se dobra, formando duas bolsas e em cujos cantos se colocam vistosas borlas de lã.

Começado a usar pelo homem que o colocava ao ombro, passou a utilizar-se sobre o dorso das montadas pelo que as suas medidas se ajustaram aos novos utilizadores.

Naturalmente tinha que se distribuir a carga para se manter o equilíbrio.

A palavra é de origem árabe, de al-khurj “o saco”. É mais uma entre muitas que os árabes nos deixaram.

Infelizmente, caminhando o burro para a extinção e que foi dos maiores auxiliares do homem, os alforges deste tipo também desapareceram, mantêm-se, contudo, de outro género para as pessoas e para os veículos de duas rodas, nomeadamente as motos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

D. Diogo Nunes Figueira

Nestas FIGURAS DO BAIXO GUADIANA, voltamos hoje ao concelho de Mértola, referindo assim a sua sexta Figura.

D. Diogo Figueira tomou o grau de bacharel na Universidade de Coimbra, sendo depois admitido no Colégio Real de S. Paulo, onde entrou em 1571.

Foi nomeado Bispo de Macau, confirmado pelo Papa Gregório XIII a 23 de Janeiro de 1576, nomeação que consta da História Eclesiástica de Portugal, pelo P. Miguel de Oliveira, sendo o primeiro bispo daquela diocese.

Parece que nunca veio a exercer tais funções, que não aceitou, tal como as do mesmo lugar no Congo, oferecido por D. Sebastião, no Japão e em Angra por oferta de D. Henrique e de Filipe I, respectivamente.

Em 1578 foi eleito deputado da Inquisição de Évora, sendo Cónego e tesoureiro-mor da Sé da mesma cidade.

Foi secretário de D. Teodósio de Bragança (1578/1602), arcebispo de Évora, tendo governado por duas vezes o arcebispado.

Renunciou igualmente aos seus lugares de cónego e tesoureiro-mor de Évora a favor de dois sobrinhos.


Acabou por recolher-se a um convento que fundou em 1612 para religiosos de S. Francisco, numa Quinta sua, na terra natal e de que ainda restam ruínas, onde veio a falecer a 28 de Junho de 1613.

Foi apreciado poeta latino e muito erudito nesta língua, conhecendo igualmente a bom nível as línguas grega e hebraica.

Deixou dois livros em latim.

***



O Convento situa-se a sul de Mértola, junto da confluência da Ribeira de Oeiras com o Rio Guadiana.

Com a extinção das Ordens Religiosas por Decreto de 30 de Maio de 1834, o espaço é votado ao abandono e em princípios dos anos 80 do século passado o convento em completa ruína é adquirido por particulares que o adaptam para sua residência, ficando a igreja reservada para actividades culturais, como concertos e exposições, entre outras.

Um “Museu da Água” ao ar livre em que a água é extraída da velha nora por processo mecânico sendo a alimentação feita por energia solar.

Peças de arte contemporânea, um jardim botânico, uma reserva ornitológica e uma galeria de arte são outras das atracções.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Padrão Epigráfico de 1661



Foto tirada em 1968 por J.V.

Este importante documento epigráfico encontra-se na muralha, junto ao cais velho desde 1877, ou seja, após a CHEIA GRANDE e mandado colocar pela Câmara.

O seu local de origem era a PORTA DE TAVIRA onde foi colocado em 1661.

A inscrição diz:- ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI e possivelmente deveria ter sido deslocada devido à PORTA se encontrar em ruína.

Porque razão se teria feito tal gravação? Teria sido só para marcar a realeza de D. Afonso VI? Não o sabemos. Teria sido para assinalar a conclusão de obras de beneficiação na fortaleza que tiveram lugar nesse ano e para as quais foram concedidos 3 000 cruzados na primeira fase e orientadas pelo Eng. Pêro de Sancta Colomba? Ou teria sido para assinalar o ajuste do casamento de D. Catarina, irmã de D. Afonso VI com o rei de Inglaterra, Carlos II, que igualmente teve lugar naquele ano? Pelo menos foram feitas estrondosas salvas de artilharia, festejando-se o acontecimento com outras demonstrações de alegria.

Em 1880 é solicitado o envio para Lisboa do “documento” mas a Edilidade nega-se a fazê-lo pois pretende conservar neste povo a memória daqueles que nos fizeram glória no passado.

domingo, 12 de julho de 2009

D. Luís de Noronha e Meneses, 6º e último Conde de Alcoutim

Na nota biográfica que organizámos dos Condes de Alcoutim no nosso trabalho, Alcoutim, capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985, foi a do 6º e último que se apresentou mais desenvolvida, possivelmente por esta última circunstância.
Iremos hoje publicar uma nova nota aumentada no que nos foi possível compilar.

***

D. Luís de Noronha e Meneses nasceu em 1589 sendo filho de 4º Conde, D. Manuel de Meneses e de sua mulher D. Maria da Silva, Dama da Rainha D. Catarina.

Casou com D. Juliana de Meneses, filha de D. Luís de Meneses, 2º Conde de Tarouca que foi 19º Capitão e Governador de Tânger, onde faleceu em 1614 e de D. Luísa Henriques, sua primeira mulher.

Herdou o título de seu irmão, D. Miguel Luís de Meneses que casou duas vezes, sendo a última com sua sobrinha, filha daquele que veio a herdar o seu título visto não ter deixado geração, a não ser uma filha natural havida em Ceuta e filha de uma mulher nobre castelhana, D. Maria Xuar.

Herdou o título com 48 anos de idade.

Foi o 9º Capitão general de Ceuta, 7º Alcaide-mor de Leiria, Comendador de Vila Franca, na Ordem de Cristo e Senhor de Valença, Caminha, Valadares, Chão de Couce e outras.

Além de Conde de Alcoutim ostentou os títulos de 9º Conde e 7º Marquês de Vila Real e 7º Conde de Valença

Além disto era membro do Conselho de Estado de D. Filipe III.


[Coroação de D. João IV]

Quando os conspiradores iniciam o levantamento em 1 de Dezembro de 1640, encontrava-se o Marquês na sua cidade de Leiria e só tem conhecimento do acontecido no dia 8 por informação de seu filho, o 2º Duque de Caminha. Logo fez aclamar em Leiria D. João IV como Rei e jurou-o sem problemas nas Cortes que tiveram lugar em Janeiro seguinte, em Lisboa.

D. João IV depois disto acabou por reconduzi-lo no cargo de Conselheiro de Estado, o que igualmente aconteceu ao arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha e ao inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A estes juntou alguns membros saídos da nova situação política.

Além da recondução no lugar de conselheiro, o rei não o chamou para mais nada de relevo, antes pelo contrário, nomeou-o coronel do Terço da Nobreza, o que o Marquês sentiu como agravo.

Além disso um dos conjurados, D. Carlos de Noronha, Comendador de Marvão e muito bem aceite por D. João IV é nomeado em 7 de Janeiro de 1641 Presidente da Mesa da Consciência e Ordens.

D. Carlos de Noronha tinha casado com D. Antónia de Meneses que nasceu em Ceuta e pretendeu ser filha legítima de D. Miguel Luís de Meneses, 5º Conde de Alcoutim, decorrendo demanda judicial pela sucessão da Casa de Vila Real, o que naturalmente criava mal-estar.

Era sabido que as duas grandes Casas Senhoriais, a de Bragança e a de Vila Real nunca tiveram grandes laços de ligação, bem pelo contrário.

As mercês concedidas pelo Rei a uma nobreza menos ilustre mas que se tinha empenhado na Revolução, causou desagrado e descontentamento à que se considerava de maiores pergaminhos, como aconteceu com D. Luís de Noronha e Meneses, Marquês de Vila Real e Conde de Alcoutim e seu filho, 2º Duque de Caminha.


[D. João IV]
Começa a congeminar-se uma conspiração e em que são principais figuras os três conselheiros que o Rei manteve do tempo da Duquesa de Mântua, o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos e Noronha, D. Luís de Noronha e Meneses e o bispo inquisidor-geral, D. Francisco de Castro.

A conspiração veio a ser descoberta por intermédio de D. Afonso de Portugal, 5º Conde de Vimioso

A 28 de Julho foi dada ordem de prisão aos conspiradores nos quais se encontrava o 6º Conde de Alcoutim que foi interpelado por Tomé de Sousa, enquanto seu filho, 2º Duque de Caminha foi preso por Pedro de Mendonça (outros dizem Jorge de Melo) e António de Saldanha. O cabecilha, D. Sebastião de Matos e Noronha foi preso por D. Rodrigo de Meneses, Desembargador do Paço.

Provado o delito de lesa-majestade foi degolado no Rossio de Lisboa no dia 29 de Agosto de 1641

Os seus bens foram confiscados e incorporados na Casa do Infantado, criada por alvará de D. João IV, de 11 de Agosto de 1654, a favor dos filhos segundos dos nossos monarcas.
________________________________________________

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1982, II Vol. Pág.335
Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coord. de Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães.
História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol. II, pág.293.
Nobreza de Portugal, dir. de Afonso Martins Zúquete.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
D. João IV, Leonor Freire Costa e Mafalda Soares da Cunha, Reis de Portugal, Temas e Debates, 2008.
D. João IV e a Campanha da Restauração, Mário Domingues, Edições Romano Torres, 1970
Wikipédia, a enciclopédia livre.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Arrancado pela raiz...

Pequena nota

Temos hoje o grato prazer de apresentar um pequeno texto mas que encerra grande profundidade de um nosso Amigo e Colega de profissão, José Temudo de seu nome.

Conheci-o há 42 anos num jantar de homenagem ao nosso Director-Geral, em Lisboa.
Era eu o mais jovem ou dos mais jovens convivas e ainda que ele o fosse também, já se encontrava na 2ª classe.

Calhou ficarmos bem perto um do outro e quando me perguntou em que concelho exercia e lhe disse que era em Alcoutim, ficou tão entusiasmado que lhe perguntei se era de lá. Disse-me que não mas que tinha passado lá os melhores anos da sua vida!

Anos depois, quando publiquei o “Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia)”, tive o cuidado de lhe oferecer um exemplar que muito apreciou e o que fiz a todos os colegas no activo que passaram por Alcoutim e não foram poucos.

Tomo a liberdade de transcrever um parágrafo daquela carta, datada de Póvoa do Varzim a 8 de Abril de 1987.



É notório o encanto que Alcoutim lhe desperta, tal como a sensibilidade de poeta que eu lhe desconhecia.

O texto que se segue é bem revelador do seu sentir por Alcoutim, aqui não existem palavras balofas, não se diz isto para parecer bem, não se escreve isto há procura do que quer que seja, diz-se isto porque se sente.

O quadro descrito, devia ter tido lugar em finais da década de trinta do século passado, talvez em 1937/38.

José Temudo foi sempre para mim, pela sua capacidade técnica e verticalidade, um colega de referência.



ARRANCADO PELA RAIZ...
Escreve
José Temudo:



“Naquele dia, chorei pelos meus amigos, companheiros de tantas brincadeiras e aventuras, que não tornei a ver.

Chorei pela Loba, que cresceu comigo, fiel e corajosa amiga, que lutou até ao Limite das suas forças para continuar connosco.

Chorei, ainda por algo indefinido que, só anos mais tarde, eu viria a saber o que era. Para além dos amigos e da Loba, eu estava igualmente, a afastar-me da parte mais despreocupada, mais alegre, mais interessante e mais feliz da minha infância.

Tinha oito anos quando saí de Alcoutim, afinal, do meu Paraíso. Arrancado pela raiz, como rosmaninho.”


Extraído de “ACONTECEU EM ALCOUTIM”, de JT
[Rua Pedro Nunes em Alcoutim e onde residiu a Família Themudo]

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Licores caseiros "Hortinha das Lajes"


Iremos hoje versar um tema muito diferente daqueles que habitualmente abordamos, mas estas mudanças servem também para arejar o ALCOUTIM LIVRE, torná-lo mais diversificado.

A lembrança veio porque há dias ocupei uma tarde inteira confeccionando o meu LICOR DE GINJA, pois a mesma já tinha um ano de infusão e havia que disponibilizar o vasilhame para recolher o novo produto que este ano, por estas bandas, é abundante e de boa qualidade.

Desde criança que me lembro em casa de minha avó materna se fazerem licores, tarefa em que era perita a minha tia mais velha, ainda que as irmãs também o soubessem fazer, já que naquela época devia fazer parte dos conhecimentos femininos.

Os sobrinhos conheciam o hábito e obtinham da tia a especial concessão de molharem os lábios com uma colherinha de chá!

Nunca me esqueci do gosto do licor de tangerina, lembrando-me também que se faziam o de leite e o de café.

Em casa de meus pais, era hábito a minha mãe fazer licor de ginja, principalmente depois de termos no quintal duas ou três ginjeiras.

Foi assim e devido à minha curiosidade que aprendi a fazer o licor de ginja, sistema que fui testando e alterando segundo as minhas concepções, mas nunca esquecendo a base que minha mãe me ensinou e as recomendações que fazia.

A tia já tinha falecido o que anos depois aconteceu como é natural a minha mãe. Antes do último desenlace e porque continuava no meu imaginário o gosto do licor de tangerina que a tia fazia, pedi auxílio a minha mãe e fiz o dito licor que me saiu muito bem e que era parecido com o que a tia fazia.

Estes dois licores começaram a ser um hábito anual.


A partir do aumento da minha disponibilidade e do começo da produção “hortícola”iniciei a tarefa dos licores dos mais variados matizes e hoje possuo, todos de origem dos meus produtos e que passarei a referir por serem apreciados: - poejo, alfarroba, hortelã, amêndoa amarga (esta não é feita de caroços de nêspera!) ameixa, tangerina, limão, laranja, a nível individual ou no seu conjunto a que chamamos licor de citrinos, erva-luísa (lúcia-lima) e como última experiência positiva, o de funcho! E uma ratáfia de romã, de feitura diferente de todos os outros.


As visitas optam por uns, em desfavor de outros!


Existe naturalmente todo um material (tachos, panelas, frascos, garrafas, colheres de vários tamanhos, funis, coadores, etc.) que é exclusivo desta tarefa que vamos realizando ao longo do ano.

É fácil. Basta ter gosto. Experimente.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O caniço


Em escrito publicado num mensário regional, tivemos oportunidade de nos referirmos à cana e à sua importância na vida alcouteneja.

É a uma das suas utilizações e que então referimos superficialmente que hoje vai merecer a nossa atenção.

Quando há quarenta e dois anos cheguei a Alcoutim e vi as casas forradas com canas, fiquei bastante admirado nunca pensando que pudesse ter tal aplicação.

Situações como esta encontrámos em vários campos. Por falta de contacto com elas é natural uma primeira rejeição.

Para que tal acontecesse nesta região e não em outras que já conhecíamos, teria de haver uma explicação que tentámos obter na observação atenta e numa fase posterior em alguma literatura.

Por um lado os canaviais são abundantes nas margens do rio e das ribeiras, enquanto a escassez de madeira era notória.


Nas zonas de pinhal, as telhas das casas modestas eram suportadas por ripas de madeira pregadas em traves da mesma substância, os chamados telhados de telha vã, enquanto as melhores tinham forro feito de tábuas de pouca espessura e devidamente aparelhadas, tendo nas extremidades de junção um canelamento que lhe dava enfeite.

Por aqui, arranjar as traves (a que chamam vulgarmente paus), não era fácil, poucos tinham dinheiro para as mandar vir de fora e quando isso acontecia, vinham rio-acima, onde ficavam em qualquer porto e depois era necessário ir buscá-las em burros. A maioria das pessoas procuravam adquiri-las localmente entre as árvores que possuíam e é por isso que se viam muitos paus tortos utilizados nestas aplicações, por falta de outros mais perfeitos.

A cana tem época própria para ser colhida, é na altura do repouso da planta quando está devidamente vidrada. Se assim não for, depressa se desfaz, apodrecendo.

As canas, junto às paredes, são ajustadas a uma cana guia, em posição vertical e por corda de sisal através de um nó especial e fixas aos paus por pregos e com o auxílio de varas de loendro devidamente rachadas.

Nos últimos tempos o caniço começou a ser forrado com papel das sacas de cimento e sobre o qual punham uma leve camada de massa.

É importante dizer que este tipo de forro acaba por ser o mais adequado ao clima da região, considerada das zonas mais quentes do país. Com estes telhados as casas tornam-se mais frescas e se as suas paredes forem feitas de pedra e barro com larguras que rondam os 60 cm e se forem caiadas, possuímos a casa ideal destas paragens, o que vai naturalmente rareando.


Um caniço é feito por duas pessoas, o mestre e o ajudante, função que já desempenhei uma vez, e era como fazer uma cadeira ou um cesto, arte conhecida da grande maioria dos homens da região.

As paredes começaram a ser feitas, naturalmente, de tijolos e blocos de cimento para depois substituírem também os caniços por placas de cimento.

Os caniços que restam vão a pouco e pouco desaparecendo na voragem do progresso e qualquer dia ninguém sabe fazer um caniço!

Em Junho último demos uma volta e visitámos 22 povoações. Em algumas, nem vivalma! Mas a verdade é que todas estão cheias de “maisons”e os “montes” completamente descaracterizados. Foi possível, contudo, verificar algumas recuperações feitas com equilíbrio.

As fotos que se apresentam são de um caniço que tem22 anos e estará para durar. Não é contudo um caniço de encher o olho como alguns que tenho visto e que constituem peças lindíssimas.

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Guerra da Sucessão - D. Pedro e D. Miguel


São vários os livros que retratam o período das guerras entre liberais e absolutistas, escritos por oficiais franceses e ingleses que estiveram ao serviço de ambas as partes e principalmente no que respeita às suas intervenções.

Neste caso trata-se do almirante inglês, Charles Napier que esteve ao serviço de D. Pedro, tendo vencido a importante batalha naval do Cabo de S. Vicente que foi decisiva para a vitória final dos liberais.

No Tomo II, Capítulo VII, encontramos referências ao concelho de Alcoutim nomeadamente a acção do barão de Sá (futuro Marquês de Sá da Bandeira) que se fez sentir em Martim Longo. São igualmente referidas acções no Guadiana, em Mértola e Castro Marim, e isto para só referir as zonas mais próximas.

Com introdução de António Ventura, é uma edição Caleidoscópio – Edição e Artes Gráficas, SA, de Março de 2005.

É constituído por 328 páginas no formato 17X24.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Capela de São Bento e o "monte" de Alcaria Queimada

Pequena nota

O "post" de hoje do TEMA, Ecos da Imprensa, é dedicado ao nosso visitante/leitor, A.C.P. que teve a amabilidade de me enviar por "e-mail" algumas considerações sobre o ALCOUTIM LIVRE e ao mesmo tempo que gostaria que eu escrevesse alguma coisa sobre o “monte” de Alcaria Queimada.

Naturalmente respondi às suas considerações, informando que já tinha escrito algo sobre esse monte, artigo que iria incluir brevemente em Ecos da Imprensa, o que hoje vai acontecer, esperando que ele lhe dê algumas “novidades".

O artigo quando foi publicado no Magazine do Jornal do Algarve só foi ilustrado com o desenho de nossa autoria que igualmente se publica. Além disso, juntamos hoje algumas fotografias.

Posso informar o leitor que já tendo passado uns bons anos, possuo mais elementos que tenciono juntar aos já dados a público, quando me for possível e oportuno.

Mais uma vez agradeço as suas palavras e o interesse manifestado.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 26 DE JULHO DE 1990 – MAGAZINE)



[A Capela de São Bento de Alcaria Queimada. Desenho de JV, 1990]

Desta vez, além de sairmos da vila de Alcoutim e aproveitando o Abril primaveril, fomos “descobrir” a única capela que não conhecíamos no concelho.

Rodando pela estrada nacional nº 124, encontrámos a placa indicativa de Alcaria Cova e seguimos a indicação, o que equivale a dizer que utilizámos a estrada municipal nº 508.
A manhã estava agradável, a nosso lado um reformado e uma jovem da área do jornalismo. Ainda que naturais do concelho, nada conheciam daquelas bandas.

A paisagem é a habitual do concelho: cerros atrás de cerros, estevais espessos, de onde em onde uma courela limpa, normalmente com amendoeiras.

Atravessámos a Ribeira da Foupana por ponte de quatro pilares, deixando assim a freguesia do Pereiro para entrarmos na de Vaqueiros.

A estrada agora é de macadame sem qualquer sinalização, pelo menos a nível toponímico. Vale-nos na circunstância o mapa do concelho que nos acompanha.

Cortámos à direita e pouco depois aparece-nos ao longe, uma pequena povoação onde se destaca um pequenino templo. Íamos chegar a Alcaria Queimada, o “monte” que procurávamos. Desde que deixámos a estrada nacional, não nos cruzámos com nenhum veículo automóvel e vimos dois ou três pastores. Foi tudo.

A pequena povoação tem presentemente catorze fogos habitados com cerca de quarenta habitantes. Em idade escolar, são sete, dois na primária, três na telescola e dois na secundária.

Em 1955 possuía duzentos e cinco moradores, segundo nos informaram.

Desenvolve-se pela encosta de uma pequena elevação, partindo do ponto de desenvolvimento que terá sido a pequena capelinha situada à entrada, junto a amplo largo, onde se encontram também o lavadouro público e o fontanário.

É airosa a povoação, onde o branco da cal impera (o que não é vulgar nesta região), e lhe dá uma nota agradável.

Os campos circunvizinhos ainda se encontram limpos de mato, estão semeados ou de pousio e alguns arborizados com amendoeiras.


[Vista Geral do Monte de Alcaria Queimada, Foto JV, 1992]

Alcaria é topónimo vulgaríssimo no Baixo-Alentejo e Alto Algarve e de origem Árabe – Al caria, que significa A aldeia. Na maior parte dos casos, está associado, para destrinça de outras. Queimada porquê? Teria sido alguma vez vítima de incêndio, natural ou propositado? É possível.

Este povo, além da agricultura e pastorícia, suas actividades fundamentais, teve outra, a de mineiro.

Da mina de Alcaria Queimada, foram concessionários, Antoine e Leroy. (1)

Esta mina de cobre foi registada em 2 de Outubro de 1859 e mais tarde (15.01.1873) também o foi por D. João Carvalho Diaz, cidadão espanhol.

Servida hoje por fontanários espalhados pela aldeia, passou bastantes problemas com o fornecimento do precioso líquido.

Na sessão da Câmara de 9 de Setembro de 1876, foi lido um requerimento dos habitantes do monte de Alcaria Queimada no qual fazendo ver a necessidade absoluta que têm de água para beber e tendo de abrir um poço novo, pedem que a Câmara concorra para a dita obra com vinte mil réis.

Depois de discutida largamente esta pretensão, a Câmara acordou em conceder um subsídio de seis mil réis, verba que calculam ser a despesa da mão do mestre e da cal, devendo tudo o resto correr por conta dos habitantes. (2)

Em 6 de Agosto de 1931 a Câmara resolve conceder quinhentos escudos de subsídio para o arranjo do poço.

Alguns alcarienses desempenharam funções de relevância a nível local. Assim, em 1850/51, Lourenço Cavaco fez parte da Junta de Paróquia de Vaqueiros; o mesmo e José Teixeira, eram em 1855 os maiores contribuintes da freguesia. Em 1858, o referido José Teixeira fazia parte do quadro dos vogais do conselho municipal e era Juiz eleito substituto. (3)

Em 1771 o Capitão Manuel Henriques, deste “monte” fez o seu manifesto de gado na Câmara de Alcoutim, nalgumas dezenas de cabeças com predomínio do gado caprino. Tudo indica que na altura desempenhasse as funções de Presidente da Câmara., visto ser ele que rubrica todas as folhas ainda existentes do livro.

Chegou a altura de falarmos na pequena capela que tem por orago, São Bento.

De planta rectangular, tem 5m X 8. Solo de mosaico e tecto de três panos. Quatro bancos compridos. Há missa ao 4º sábado de cada mês.

Fachada de empena de bico com armação de argamassa para suporte do pequeno sino. Sobre a porta rectangular, um pequeno óculo circular. A porta é debruada a azulejos brancos que sobre a verga se elevam em forma de cruz.

No bico da fachada, cruz de ferro forjado com algum interesse artístico. Anexa ao corpo da capela a sacristia e “confraria”, onde se lobriga um andor.

O adro é amplo e todo murado, destacando-se frente à porta um cruzeiro. A base de argamassa é cúbica, encimada por pirâmide quadrangular em cujo vértice se situa uma cruz trilobada de mármore.

O cruzeiro indica que o terreno onde está colocado é sagrado e pertence à capela. Funciona como um marco de propriedade.

O retábulo da ermida é datado de 1756/7 e foi adquirido por 10$000 réis. (4)


[A imagem do Senhor São Bento. Foto JV.]
Quanto à imagem de São Bento, Bispo, e de madeira pintada, datada de 1749/50, sendo considerada um exemplar de boa qualidade e em razoável estado de conservação.

Apresenta um báculo (símbolo do poder pastoral conferido aos bispos na sua sagração) na mão direita e um cálice na esquerda.

Além da imagem do padroeiro, o altar conta com um Cristo crucificado sobre cruz de madeira, em razoável estado de conservação sendo datado do século XIX. (5)

Sabe-se que o telhado da capelinha foi reparado em 1935 e encontramos várias inscrições que atestam arranjos mais ou menos recentes, o último dos quais em 1988, que incluiu a feitura nas proximidades, de um palco de alvenaria onde actua um conjunto musical no dia da festa.

Encontrando-se já electrificada, esse facto criou alguns problemas de ordem económica e o palco constituiu um investimento para fazer face às despesas.

Em 1799, das doze confrarias então existentes no concelho, a de São Bento de Alcaria Queimada era a segunda maior em saldo apresentado, só superada pela de Nª Sª da Conceição, na vila.

Estes saldos ficaram cativos até novas ordens, segundo ordem do Príncipe Regente, D. João, transmitida ao escrivão da Câmara, José Carlos de Freitas Azevedo.

Para o efeito, foi nomeado fiel depositário, Pedro José dos Reis. (6)

Também sabemos que em sessão municipal de 9 de Junho de 1866, foi apresentado um requerimento da Junta de Paróquia de Vaqueiros pedindo à Câmara que lhe autorizasse, por via de postura, o lançamento de uma derrama de 60 mil réis para com esta quantia mandar fazer o tecto e retocar a imagem do Senhor São Bento que “se achão num verdadeiro estado de ruína”. A Câmara, depois de ouvir o vereador da freguesia, deferiu o pedido.

A Capela de S. Bento de Alcaria Queimada e a de Santo António na vila, são as únicas do concelho de Alcoutim que não aparecem referidas nas visitações efectuada pela Ordem Militar de Santiago, de 1518 a 1565 (7), penso que por ainda não existirem.

A Romaria ao S. Bento é secular, reunindo o povo das redondezas e mesmo de terras distantes, a dezenas de quilómetros.

Esta festa profano-religiosa tem sofrido naturalmente as transformações do tempo, procurando adaptar-se e mantendo o fundamental.

Começa no dia 9 de Agosto e termina no dia seguinte.

Antigamente, e ouvimo-lo aos romeiros de então, partiam de manhã bem cedo para chegarem de noite (isto em relação à freguesia de Alcoutim) pois o caminho era difícil e percorrido de burro, quando não a pé.


[O altar da Capela de S. Bento. Foto de JV.]
Quem sofresse de dores de cabeça, metia-a três vezes num buraco do altar e com isso ficava livre desse flagelo, por uma temporada! O número de vezes acaba por ser variável, dependendo da fé de cada um.

As promessas eram pagas com pão cozido, de formato da parte do corpo que tinha sido curada pelo santo milagreiro.

Coutou-nos há vinte e três anos uma octogenária da freguesia de Alcoutim que tinha ido ao São Bento pagar uma promessa, oferecendo um bácoro pois a porca, que esteve doente, não tinha morrido.

Entretanto, as figuras de cera começaram a substituir as de pão mas ainda há quem atribua mais rigor às primeiras.

O pagador de promessas ao entrar na capela, dirige-se ao altar onde faz as suas orações de agradecimento pela graça concedida e entrega a figura de cera que consequentemente entra na posse do Santo, o que é o mesmo que dizer, na “confraria ou irmandade”.

A “irmandade ou confraria”, qualquer dos nomes, não é identificado pelos actuais responsáveis, é dirigida presentemente por três pessoas e uma tem a seu cargo “ficar à mesa das promessas”.

Dentro da própria capela se coloca pequena mesa apetrechada de figuras de cera que são vendidas ao mesmo preço, cuja taxa é de 140$00, fixada pelos responsáveis.

O abastecimento da mesa, quando necessário, faz-se naturalmente através do altar o que significa que a mesma peça pode ser vendida as vezes que forem necessárias.

Não há eleições para responsáveis, segundo nos informa um dos actuais – tem passado de pais para filhos – já o meu avô desempenhava este lugar, diz-nos o nosso interlocutor.

Antigamente os romeiros iam chegando pela noite fora, descansando das suas caminhadas pelo adro e terreiro, já que o tempo dá para isso.

Em 1980/81 veio uma crente de Espanha aqui pagar uma promessa. A sua progenitora era dos lados da serra de Serpa e foi ela que lhe referiu as qualidades “milagreiras” do São Bento de Alcaria Queimada.

O segundo dia é destinado ao folguedo, cantando-se e dançando-se. Em tempos que já lá vão, dançava-se ao toque da gaitinha de beiços, hoje actua um conjunto musical. É assim que a “irmandade” vai arranjando fundos para a sua manutenção, queixando-se do custo da energia eléctrica, cuja taxa mínima é elevada para os seus recursos.
A capelinha está impecavelmente caiada tal como o adro e tudo o que lhe diga respeito e a limpeza ali, não é palavra vã.

Estas capelinhas, espalhadas por todo o País e por vezes em locais quase inóspitos, têm quase sempre uma lenda para explicar a sua existência e a de São Bento não falhou.

Não chegou aos nossos dias com todos os seus elementos de ligação, que se foram diluindo no decorrer dos tempos, mas chegou.

A primitiva capela (o São Bento Velho), situava-se junto da ribeira da Foupana que passa a cerca de quinhentos metros de Alcaria Queimada, local onde, segundo os nossos narradores, ainda se notam vestígios como pedras “quadrejadas” e telhas.

Por sofrer as inundações da ribeira ou por qualquer outro motivo, o santo não gostava de lá estar e um pastor de Alcaria Cova encontrou-o na ribeira quando pastava os seus gados. Admirado, ao regressar ao monte, contou o sucedido mas para sua mágoa ninguém acreditou em tal.

Tempos depois, o encontro repetiu-se mas desta vez o pastor, para não lhe chamarem mentiroso, meteu-o numa saca e pôs-se a caminho do monte. Quando lá chegou, qual não foi o seu espanto pois a saca nada continha!

Não ficou por aqui a “estória” pois no próximo encontro cortou-lhe dois dedos que fechou bem na mão a fim de provar o que dizia.

Não me souberam explicar como veio para Alcaria Queimada, mas chamaram-me a atenção para o facto (vá ver) do Senhor São Bento ter dois dedos “cortos”.

Aqui tendes o que nos foi possível juntar sobre seta singela e interessante capelinha do nordeste algarvio, freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

NOTAS
(1)Dicionário Corográfico de Portugal, Américo Costa, Ed. 1968.
(2)Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim, de 2 de Janeiro de 1876 a27 de Abril de 1882.
(3)Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim, de 2 de Janeiro de 1850 a 4 de Fevereiro de 1858.
(4)A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim no século XVI ao século XIX Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(5)Idem, ibidem.
(6)Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1785, págs. 15, 18 e 20 v.
(7)Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, CMVRSA, 1987

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A fábrica de foices de Alcoutim

Qual o segredo da sua tecnologia??




Esceve:
Gaspar Santos





A casa dos meus Pais era muito perto desta fábrica. Bastava descer até ao largo da Igreja Matriz, virar à esquerda no sentido da Ribeira de Cadavais e sempre por essa rua chegava-se lá. A parte fabril era no fim da rua do lado esquerdo. Do lado direito da rua encontrávamos uma casa, onde o Sr. Francisco do Rosário acondicionava as foices.

Havia, ainda, uma pequena varanda/terraço onde quase todos os dias se regalavam com um petisco. Era a Sacrístia. Este lado direito da rua terminava num quintal de semeadura, onde o Sr. António do Rosário tinha uma criação de coelhos.

Era um local ruidoso. Um motor continuamente a trabalhar, pontuado pelo bater de martelos em bigornas, umas vezes dessincronizados, outras vezes sincopados em som alternado. Um cheiro agradável do petróleo queimado nesse motor e, sobretudo, o cheiro a alcatrão da hulha provindo da destilação do carvão de pedra ao arder.

Este local sempre despertou em mim, desde muito cedo, uma grande atracção. Uma das primeiras vezes que me aproximei para espreitar o que estavam a fazer, teria então 6 ou 7 anos, fui recebido com esta expressão: Anda cá meu malandro que te corto a p.....
Proferida pelo Sr. Manuel Francisco enquanto empunhava um facalhão que ele estaria a amolar. Este homem, trabalhador da forja, senhor de umas barbas pretas, não cortadas havia mais de um mês, e a mostrar devido a AVC o vermelho da pálpebra de um olho, tinha um aspecto temível. Era uma jóia de homem. Mas eu não sabia. Corri até minha casa à velocidade máxima que as minhas fracas pernas permitiam!!!















A marca de foices que aqui fabricavam era J. Rosário & Castellejos que chegou a ter uma enorme produção, mesmo só trabalhando metade do ano. Vendiam para todo o Algarve, Baixo e Alto Alentejo numa época em que todos os cereais eram ceifados à mão. Quando se deu o aparecimento das ceifeiras mecânicas esta fábrica fechou. São as consequências inevitáveis das revoluções industriais.

Esta marca de foices resultou da fusão, segundo creio, da firma Rosário com outra firma mais pequena da família espanhola Teixeira com instalações nas traseiras da Rua D. Sancho II. Foi assim que o herdeiro da segunda, Luis Fernandes Teixeira (vulgo Luis Ferreiro) passou a empregado da firma Rosário.

Nas aldeias de Pereiro, Giões e Martinlongo também se fabricavam foices. No entanto as da marca Castellejos tinham uma qualidade e um preço competitivos resultantes da particularidade de toda a foice (corpo e corte) ser uma só peça, ao contrário das outras que eram fabricadas com duas peças: uma folha arqueada a que se caldeava a parte cortante.

Não sei se era um segredo esta sua fabricação, mas o certo é que os outros concorrentes não conseguiam utilizar um só aço.

Onde estava o segredo? Era muito importante a foice ser uma só peça em vez de duas peças, dada a redução de tempo e consequentemente do trabalho de fabrico. Pretendiam os seus donos não ser um segredo desta fábrica. Não ocultavam como se fazia. O certo é que os concorrentes tentavam usar o mesmo aço único e as foices ao serem temperadas partiam-se. A firma inglesa fornecedora das barrinhas de aço, a dada altura, mandou um investigador ver como faziam por lhes interessar vender esse material a mais fábricas. O Zé Pedro sempre me disse, mesmo após o fecho da fabricação, que não havia qualquer segredo e, a mim que não era concorrente, ele não precisava de o ocultar. Mas o que é certo é que depois de verem todo o fabrico e em especial a fase da tempera que era onde poderia residir o segredo (??) experimentavam fazer igual e as foices depois de temperadas partiam-se como o vidro quando cai no chão.

[Rua S. Salvador, em Alcoutim onde funcionou a oficina. Foto JV, 2009]
A fábrica funcionava num barracão de alvenaria com telhado suportado pelo tradicional caniço, ao lado de uma outra casa que servia de armazém do carvão e do aço. Num primeiro compartimento havia uma forja provida de 2 foles de pele que forneciam o ar para activar o carvão na forja ou frágua. No telheiro maior estavam situados os outros postos de trabalho: duas pedras de amolar ou rebolos de arenito vermelho de Silves em que dois operários deitados de barriga para baixo amolavam as foices; o motor a petróleo que accionava essas pedras de amolar por meio de correias de transmissão; uma outra forja também com os seus dois foles; uma bancada para os trabalhos mais delicados de serralharia, e um posto de trabalho tipo cavalete com uma pequena bigorna de secção rectangular onde eram picadas as foices.

Eram muitos os passos por que passava o aço até ser uma foice.

Começava pelo corte da barrinha de aço. Esta tinha de comprimento vários metros, 2,5 cm de largura e 4 mm de espessura. A barrinha era cortada em vários pedaços obliquamente, para uma ponta ser inserida no cabo e a outra para ser a extremidade da foice.

Em seguida, na primeira forja dois homens (mestre Madeira vulgo Chapa de Aço irmão do barbeiro João Ricardo e outro homem) batendo alternadamente com os respectivos martelos no troço de barrinha aquecida ao rubro, moldavam-na de acordo com uma foice modelo (foice de homem, de mulher, foicinha e podão).

Depois a foice era desgastada/amolada num dos rebolos até à espessura adequada, após o que aguardava o passo seguinte, num tanque com água de cal para entretanto não enferrujar. Vi executarem este trabalho Manuel Francisco, José Pires, Joaquim do Rosário, Henrique, etc.

Um dos sócios da firma, António Madeira do Rosário picava a foice com um escopro especial e um martelo. Isto consistia na formação de um serrilhado que aumentava o poder do corte e o conservava com o uso. Trabalhava sentado num cavalete de tronco de árvore que tinha na frente uma pequena bigorna. A foice era colocada em cima da bigorna e fixada por correias de couro esticadas com os pés. Ele determinava se a foice era esquerda ou direita conforme o lado em que a picava, pois na ceifa as ranhuras do picado ficam sempre para baixo.

Na segunda forja a foice era levada ao rubro, gravada a marca, e depois era mergulhada num grande bidão com água e óleo para lhe dar a têmpera. (Vi nesta tarefa Luís Ferreiro e após a sua morte o José Francisco Rita vulgo Zé Pedro).
Após a colocação do cabo de madeira que era fabricada ao torno em Giões, as foices eram levadas para a casa do outro lado da rua para serem embaladas. Era ocupação do gerente/comercializador, Francisco Madeira do Rosário. Consistia no acondicionamento das foices em caixas de cartão, depois de a lâmina ser embrulhada em fita de papel.

Executavam por encomenda outros trabalhos, nomeadamente peças simples de ferro forjado como camas, ferros náuticos (âncoras), até peças mais delicadas para substituição de outras avariadas em espingardas de caça, instrumentos para cortar carne e, inclusive, as peças de corte de ferro das suas guilhotinas e tesouras que exigiam temperas especiais. Faziam a manutenção do antigo relógio (já substituído) que dava horas com badaladas no sino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, relógio aliás que tinha sido concebido por um ferreiro do concelho.

Os anos 50 e 60 do Século passado foram para o concelho de Alcoutim, como para muitos outros concelhos do interior o fim do artesanato, o fim da agricultura cerealifera, a grande debandada da emigração, o começo da desertificação.

A fábrica de foices de Alcoutim era uma indústria, fabricava em série e em linha de montagem mas também fechou por essa época.

A mudança tecnológica para a ceifa mecânica, obrigou-a a fechar e, tal como o artesanato do concelho, não soube adaptar-se aos novos tempos e mudar o seu programa de fabrico, nem se manteve como oficina de serralharia e de ferros.

Penso que isso se deveu a que os seus proprietários já não tinham idade, nem paciência, nem saber organizativo para conceber alterações de fabrico, e, por outro lado, tinham outras actividades industriais e comerciais, não tendo por isso necessidade de continuar com outro fabrico reformulado. Entretanto ter-se-ia perdido todo aquele espólio?

Não sei se há alguma referência nos núcleos museológicos do concelho a esta actividade fabril ou mesmo à de tipo artesanal de que havia várias. Se não há referência, espero que ainda se lhe venha a dar o destaque devido.

[O Zé Pedro é o que está de pé. à direita.]
Finalmente uma referência ao amigo já falecido Zé Pedro que aqui trabalhou. Era neto da “Última Boleira” como lhe chama José Varzeano no texto do seu blogue dia 15 de Junho de 2009. Com poucos anos ficou órfão de Pai e Mãe e foi educado em casa do Senhor António do Rosário, começando desde muito novo a trabalhar na forja. Por morte do Luís Ferreiro assumiu com competência a responsabilidade da sua substituição. Foi durante muitos anos dirigente e praticante de futebol no Grupo Desportivo de Alcoutim.

[O Henry é o de fato branco]
No início dos anos 50 do século passado, um casal dinamarquês que pintava a óleo paisagens campestres hospedou-se na Pensão Madeira (edifício onde é hoje a Farmácia Caimoto), com os seus três filhos também pintores, Henry e duas irmãs muito bonitas, esbeltas e com um ar muito saudável. Estas jovens tal como o irmão gostavam de se divertir. Iam a todos os bailes e eram muito requestadas pelos alcoutenejos, alguns muito bem postos e engravatados. Mas...foi o Zé Pedro, por vezes todo enfarruscado do trabalho, quem teve o mérito e a felicidade de conquistar o coração de uma delas.
Pensamos que aqui estará a razão e o remetente da mensagem que a “Última Boleira” recebeu da Dinamarca e mostrou ao José Varzeano. O casamento, porém, não veio a verificar-se.