domingo, 28 de fevereiro de 2010

A tia Alexandrina

Pequena nota
Mais uma interessante "memória" que o nosso colaborador e Amigo transmite aos visitantes/leitores.Confesso que desconhecia completamente tal figura.
JV






Escreve

Gaspar Santos




[Rua do "Cemitério". Foto JV, 2009]
Em garoto ouvia falar desta mulher, em surdina, mas só em adolescente compreendi do que falavam e fiz perguntas. Não a conheci pois ela tinha falecido poucos anos antes de eu ter nascido. A tia Alexandrina não vivera sozinha. Vivera com a tia Morte que era uma mulher mais velha. Moraram naquela rua estreita, paralela ao Guadiana que leva ao cemitério de Alcoutim. O que descrevo é o que ouvi falar. Não sei de ninguém da sua família que hoje more em Alcoutim. Constava que viera de Tavira.

A tia Morte dedicava-se aos trabalhos de casa, alimentação e vestuário. A tia Alexandrina do ganha-pão, recorrendo a trabalho braçal. Era uma mulher de grande estatura, muito trabalhadora e labutando ao lado dos homens com muita energia e sem desfalecimento. Era capaz de cavar, ceifar e fazer qualquer tarefa de campo como qualquer homem. Nas descargas dos barcos não se temia a “alancar” com um saco de farinha, de trigo ou de adubo com 80 ou 100 kg. E, à noite na taberna, ombreava com eles como no trabalho, bebendo uns copos. Conversava, ouvindo e dizendo a sua anedota, por vezes picante, ou dizia o seu palavrão sem se incomodar muito. Por vezes ficava um pouco toldada, ou mesmo bêbeda.

Quando já estava meio ébria os companheiros de trabalho, algumas vezes tentaram levar a conversa para o lado da sua amizade com a Tia Morte. Em vão. Ela não prosseguia a conversa e reagia mal. Esses companheiros em alturas em que a apanhavam mais bêbeda, conluiavam-se e tentaram algumas vezes ver o que ela ocultava debaixo das saias, mas…a sua fúria, os seus punhos, dentes e unhas nunca deixaram desvendar o seu segredo.

Dizia-se que ela vivia maritalmente com aquela companheira, um escândalo para esse tempo! Porém ela era mentalmente forte, e consta que sempre resistiu às conversas e insinuações de que seria alvo. Constava ainda de que ela transportava consigo uma malformação anatómica congénita. Mas isso foram conjecturas. O caso virou lenda. Nunca ninguém o confirmou.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

José Temudo e José Varzeano



A fotografia que hoje documenta a Câmara Escura foi tirada há 42 anos! Não são dois dias!

Teve lugar num restaurante de Lisboa e tratava-se de homenagear o então Director Geral da Fazenda Pública.

Reuniram-se num jantar muitas dezenas de Tesoureiros da Fazenda Pública, classe hoje extinta. Passou-se isto em Outubro ou Novembro de 1967 e eu era então dos mais novos em idade e tempo de serviço.

Enquanto os mais velhos se conheciam através dos concursos a que foram opositores, e nessa altura não eram concursos fantasmas, e igualmente pela proximidade dos concelhos onde exerciam a sua profissão, contactavam quando lhes era possível no sentido de trocarem impressões sobre problemas de serviço.

Do meu concurso poucos estavam ainda colocados e alguns tinham ido parar “às ilhas”.

O último chefe com quem tinha trabalhado estava presente e teve a amabilidade de me apresentar aos colegas do “seu tempo”.

Naturalmente que se foram juntando conforme o conhecimento e muitas vezes agregados àquele que tinha sido seu mestre e com quem mantinha relações de amizade.

Comigo teria acontecido o mesmo, mas acontece que o meu “mestre”era o decano da classe e como seu representante ocupou um lugar na mesa do homenageado.

Em tais circunstâncias, sentei-me onde calhou. Os que estavam próximo conheciam-se uns aos outros mas a mim ninguém me conhecia. Naturalmente tentaram enquadrar-me no ambiente e o colega da frente pergunta-me:- Onde é que o colega exerce? Respondi-lhe naturalmente que era em Alcoutim, resposta que o admirou e entusiasmou a tal ponto que o indaguei se era de lá.

-Não, mas passei lá os melhores anos da minha vida – foi a resposta de José Temudo, então já na 2ª classe e se a memória não me falha, exercendo no concelho de Idanha-a-Nova.

José Temudo identificado à direita com uma bola branca e eu à esquerda da mesma maneira, mantivemos durante o repasto um diálogo não sobre a profissão, mas sim sobre Alcoutim.

Este facto levou-me a nunca mais ter perdido de vista este colega, muito sóbrio, mas uma referência como técnico e como cidadão. Não me esqueci, como aqui já referi, de lhe oferecer o meu livro “Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia), 1985.

Compreenderão agora melhor os visitantes/leitores porque José Temudo tem colaborado no ALCOUTIM LIVRE e o tem feito de uma forma muito particular.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A ponte projectada sobre a Ribeira de Cadavais daria expansão a Alcoutim

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR DE 3 DE MAIO DE 1968)

Pequena nota

Publicamos hoje e de que tenhamos conhecimento, o segundo artigo escrito por Luís Cunha e publicado neste diário da capital do País e já desaparecido.
As directrizes do jornal, tal como ainda acontece, limitam a utilização do espaço, pelo que por vezes é difícil escrever o que se pretende.
Não é fácil dizer muito em poucas linhas mas Luís Cunha tinha grande poder de síntese na sua escrita.
São passados quase 42 anos e nem por isso deixa de ter interesse a sua leitura.
A ponte sobre a Ribeira de Cadavais é um facto, mas não é obra do “Estado Novo” mas sim do regime “democrático” tendo sido construída durante a presidência de Manuel Cavaco Afonso.

JV




Escreve

Luís Cunha


Esta encantadora vila à beira do rio Guadiana, alcandorada num pequeno morro alcantilado, está limitada, por todos os lados, por barreiras naturais que, rigidamente, lhe cortam a possibilidade de expansão.

Ao situá-la a meio do maior troço de recta entre Vila Real de santo António e Mértola, onde a navegação à vela era compelida a aguardar o virar da maré, os seus fundadores procuraram, simultaneamente, garantir à navegação o necessário apoio durante a imobilidade e subtraí-lo às surpresas das curvas. Ponto de apoio ou base de assalto, feitoria e, depois, armazém de mercadorias em trânsito, bastavam-lhe as limitadas proporções que o pequeno morro rochoso oferecia.

Tal condicionalismo determinou o denso aglomerado do casario em volta do velho castelo e um arranjo original e pitoresco de acomodação do interior da habitação, em patamar, com degraus a dar comunicação entre as divisões da casa, degraus às vezes lavrados na própria rocha.

Um serro de enorme declive barra por dois lados o alargamento da vila e, dos outros dois, o Guadiana e a ribeira de Cadavais completam o cerco. Essas condições, noutros tempos óptimas para o fim de segurança, constituem agora sério obstáculo à renovação e desenvolvimento que se pretende.

Afligem-na vários problemas que dificilmente conseguirá solucionar com od diminutos recursos locais, mas tem potencialidades inexploradas, possibilidades que são penhor e garante de melhor futuro.

[Ponte sobre a Ribeira de Cadavais, em Alcoutim. Foto JV, 2009]

Entre outras urgentes medidas tendentes à expansão, pretende-se abrir-lhe uma porta com a construção da ponte sobre a ribeira de Cadavais, cuja continuação para o norte por uma estrada projectada, e já em grande parte construída, lhe retiraria simultaneamente a incómoda situação actual de beco sem saída.

Um velho e interessantíssimo anteplano de urbanização homologado pelo ministro da Obras Públicas, instrumento cujo arejamento se torna indispensável, previa a construção dessa ponte, É uma necessidade que o população sente ao aspirar ao progresso, por não aceitar como possível, e muito menos provada, a inevitabilidade da decadência da terra.

Ciente dos reduzidos recursos próprios, mas justamente animada pela certeza do generoso apoio e carinhosa atenção que o Governo sempre dispensou aos seus problemas, a população aguarda confiante a solução deste seu anseio.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A migração no concelho de Alcoutim

Pequena nota

É com prazer e satisfação que apresento aos visitantes/leitores mais uma nova colaboração do ALCOUTIM LIVRE que como não podia deixar de ser enriquece o seu conteúdo.
Experiente nas lides jornalísticas apresenta um estudo sobre um assunto que todos nós conhecemos e que há muito vai sangrando o concelho de Alcoutim.
Daniel Teixeira não é alcoutenejo mas nunca esqueceu as suas origens, as suas raízes e foi precisamente essa circunstância que originou o nosso “encontro” virtual.
Mais um novo estilo, mais uma nova visão das coisas que apresentamos a todos os que procuram o Alcoutim Livre e já não tão poucos como tudo isso.
O nosso Agradecimento
.
JV








Escreve

Daniel Teixeira



Na região de Alcoutim, mais concretamente em Alcaria Alta, num Monte da Freguesia de Giões, todos os anos passava pelo menos um mês das largas férias que então a Escola Primária e depois a Escola Secundária proporcionavam, e isto enquanto não comecei a trabalhar.

A agricultura da qual viviam os meus avós, melhor ou pior, era então vista em certas regiões como sendo «a arte de empobrecer alegremente» o que de facto acontecia com eles, por razões também externas ao próprio facto agrícola mas de alguma forma com ele relacionados em termos estruturais.

As migrações eram quase uma opção de evidência comparativa e durante os primeiros anos da minha infância passaram por minha casa (a minha mãe tinha sido das primeiras a migrar) talvez duas ou três dezenas de pessoas, todas fazendo parte daquele conceito de família alargada que já não se usa. Mesmo quando havia necessidade de recorrer ao Hospital de Faro (agora Misericórdia) era a minha casa que essas pessoas iam bater o que acontecia quase naturalmente.


[Vista parcial de Alcaria Alta (Giões). Foto de JV, 2009]

Como vivíamos numa casa composta por várias casas agregadas, um quintal enorme rodeado de casas que se tornavam habitáveis, mantiveram-se por lá algum tempo primos, primas e mais os eventuais que cobriam o seu tempo enquanto não arranjavam trabalho e habitação que se lhes ajustasse. Ora estas migrações tinham sangrado o ambiente rural, extremamente pobre em termos de produtividade e com uma falta de entusiasmo e iniciativa desoladora.

Lembro-me que sempre achei estranho e que referi várias vezes, mesmo criança e posteriormente jovem, que não compreendia porque é que as pessoas todas no monte não aproveitavam a água que escorria dos telhados durante as abundantes chuvadas de Inverno através da colocação de algerozes e bidões (não havia naquele tempo, de plástico) ou outras vasilhas (em barro eram abundantes e com tamanhos e formatos muito diversos).


Tínhamos (eu e meus irmãos) de alguma forma de «pagar» a nossa estadia e aligeirar um pouco a tarefa dos ainda não muito velhotes pelo que colaborávamos nas tarefas de agricultura na medida das nossas possibilidades e saber e idade. A organização familiar, em termos económicos, respondia às necessidades e constrangimentos do tempo, segundo aquele velho princípio que se aponta à vida campesina: comida não falta, dinheiro é que não há. Lembro-me do meu avô se revoltar quando recebia o talão de pagamento do Imposto anual: 14$00 o que eu achava uma ninharia (meu pai ganhava na altura sensivelmente 400$00 por mês).

Minha avó, vinda de uma família remediada casara com o meu avô igualmente vindo de uma família remediada, mas sendo ambos de famílias numerosas o que lhes coubera como herança eram dois remedeios médios / reduzidos. Por opção acabaram por vir viver para a terra da minha avó que era simultaneamente o monte onde a maior parte da propriedade estava situada e onde o meu avô comprou casa (mil escudos ou dez notas) estando o restante da propriedade comum na terra (local de naturalidade) do meu avô situado a cerca de duas a três horas de marcha a pé, ainda que montados, no meu tempo já em burros.

As deslocações ao seu Monte, Mesquita (Freguesia de Vaqueiros), muito episódicas, processavam-se apenas em período de recolha dos frutos de algumas árvores, estando o resto do solo (que não era muito) sem tratamento ou cultivo. A nossa deslocação era feita praticamente a voo de pássaro (vol d’oiseau), se não tivéssemos de ter em conta os desvios que era necessário fazer para seguir os terrenos menos acidentados através de um caminho talhado a passo de pessoas e de bestas.


[Já são poucos os que se podem encontrar no concelho de Alcoutim. Foto JV, 2010]
Quando referi acima que íamos (quando íamos) montados em burros é para esclarecer que quando mais jovem o meu avô (e a minha avó) tinham possuído uma égua, uma parelha de muares (mulas), duas vacas e um pequeno rebanho de ovelhas e algumas cabras. No meu tempo estavam reduzidos neste plano do gado a dois burros…

O facto de só terem tido filhas sobreviventes não deixa de ter aqui a sua importância: minha avó teve sete filhos três dos quais faleceram praticamente à nascença e morreu-lhes uma filha já com cerca de 20 anos.

Assim e como apanhado geral destas linhas temos que em termos de migração o pólo de atração, pelo menos final, parece ter sido Faro sendo que as causas da mesma se devem neste caso ao facto dos meus avós maternos não terem tido quem desse continuidade ao seu cultivo por não terem tido filhos do género masculino.

É claro que as filhas poderiam ter casado lá, na sua terra, substituindo assim essa necessidade, mas por aquilo que entendo as condições de futuro já eram fracas e a produção da propriedade detida insuficiente. Aliás essa migração já se desenhava havia anos através das expedições temporárias do meu avô e da minha avó e filhas: o meu avô trabalhou na construção dos caminhos-de-ferro (linha do Sul) e na construção da estrada que liga actualmente (ainda que renovada) Castro Marim a Alcoutim. A minha avó e as suas filhas, entre as quais ainda a minha mãe, faziam deslocações em tempo de ceifa ao Alentejo.

Acrescentou ainda o meu avô alguma actividade (na altura relativamente inocente) de contrabandista com Espanha – ovos, queijo e outros produtos alimentares – e uma outra de comerciante no sistema de trocas de utensílios de barro (feitos em Martinlongo) por outros produtos, muito nomeadamente figos secos vindos da Serra de Tavira.

[A louça de barro de Martim Longo, aqui representada por típicos alguidares. Foto JV, 2009]

Ora e tentando resumir o retrato parece-me evidente que o cultivo na serra algarvia não era de muita rentabilidade e que se tratava sobretudo de uma agricultura de sobrevivência a roçar já os limites mínimos: batatas, couves, tomate, feijão, etc. (entre os irrigáveis), trigo, centeio, cevada, tremoço (entre o sequeiro).

A falta de água era um handicap notável, e embora chovesse em abundância no Outono e no Inverno os lençóis freáticos não se abasteciam o suficiente e a água na sua grande parte, circulando em terrenos argilosos, era encaminhada para a Ribeira da Foupana, afluente na Ribeira de Odeleite e esta por sua vez afluente no Rio Guadiana.

[A Ribeira de Odeleite, nas proximidades do monte das Madeiras. Foto JV, 2010]

A Ribeira da Foupana por sua vez tinha um caudal largo e tumultuoso e surpreendente – quer dizer, não era de confiança a vista de um caudal tranquilo uma vez que ela descia toda a Serra desde o planalto de Martinlongo cerca de 15 a 20 kms de curso – o que a tornava inultrapassável no Inverno mas ficava quase totalmente seca no Verão com excepção de alguns pegos onde se ia pescar (à lapa, quer dizer metendo as mãos nos buracos onde os peixes – e cobras – se aninhavam).

Em quase toda esta região foram plantados eucaliptos e pinheiros mas não tenho notícia que isso tenha alterado a forma de vida das pessoas na região residentes: os meus tios e tias avós continuaram a viver da mesma forma – mal – com uma situação adocicada pelas reformas da Segurança Social (antes Casa do Povo) e com dinheiros dos regressos da emigração de alguns.

[A Ribeira da Foupana já na ponte da freguesia do Pereiro. Foto JV, 2010]

Havia duas famílias «ricas» em Alcaria Alta, quer dizer, com maior posse de terra: um descendente de uma dessas famílias ainda procurou lutar um pouco contra a maré, comprou um tractor e outras alfaias mecanizadas, tinha um pequeno camião para transporte de gado e durante uns anos ainda tentou lutar contra a maré (talvez porque tivesse mais a perder perante o colapso) mas mesmo com o influxo da emigração regressada que de alguma forma veio trazer um maior manuseio financeiro e algum consumo à região isto de pouco terá servido.

A Associação In – Loco, que tive oportunidade de consultar e entrevistar na pessoa da sua então Directora Executiva (agora Prof. Doutora Alice Newton), co – Fundadora da Associação conjuntamente com o Dr. Alberto Melo, (pela últimas informações que obtive Director do Gabinete do Programa Sócrates da Universidade do Algarve) isto no princípio dos anos 90 de Sec. XX, tinha como perspectiva ajudar à fixação no local das populações residentes mas tinha a meu ver projectos utópicos; na altura estava a tentar resolver o problema da tradicional matança do porco através da compra de um atrelado matadouro que se deslocaria, segundo ela, na altura própria pelas aldeias e montes fornecendo condições higiénicas e seguras suportadas por Veterinários para que a mesma não fosse considerada, como era já na altura de «abate ilegal».

Ora o tal de atrelado, sem contar com o pessoal que lhe ficaria adstrito e a manutenção do mesmo implicavam um custo que qualquer mente mesmo contabilisticamente mal formada rejeitaria, mas estávamos nos tempos dos Programas Financiados pela C.E. e todo o sonho era possível, mesmo os impossíveis.

Por aquilo que conhecia já na altura as matanças de porco eram residuais, a electrificação da região levara ao consumo de outros tipos de carne e a rentabilidade da criação do tradicional porco estava relacionada com a actividade agrícola (os tremoços plantados pelo meu avô tinham como grande destinatário o porco de engorda) e não eram, estas matanças, tal como me pareceu que se pensava, um costume imbatível a qualquer custo.

O mesmo fenómeno, ainda que noutro campo, tinha tido lugar com a não menos tradicional cozedura do pão, em fornos conjuntos, espalhados pelas populações: assim que apareceram as primeiras reformas da S. Social e se começou a vender pão de aldeia a aldeia as pessoas, umas por impossibilidade física devido ao avanço da idade, outras porque fizeram as contas como eu. Verifiquei que um pão de forno custava três vezes mais que um pão de padaria – feito com farinha subvencionada – não contando eu com a mão-de-obra que considerei voluntária. Logicamente depressa se entrou pelo lado prático da vida não se compadecendo esta com visões idílicas de um primitivismo rural que me parecia imperar nas visões citadinas mais «iluminadas».


Aliás foram feitas tentativas de criação de empresas cultivadores de chás medicinais de curta duração e todo um conjunto de iniciativas: este tipo de associações que eu conheci, por algum trabalho meritório que tenham feito sobretudo a nível da conservação e criação de atractivos monumentais, ou incentivos a arranjos paisagísticos, eram associações que eu mesmo nunca compreendi como podiam ser suportadas pelos fundos estruturais: 90% do seu pessoal era altamente qualificado (psicólogos, etnólogos, sociólogos, etc.) e, em rigor, não havia ninguém para trabalhar de uma forma acessível e interactiva com as populações.

Resultado disto, e utilizando as palavras de Jean Piaget «o bom professor não é aquele que ensina mas sim aquele que desperta a vontade de saber» estas operações destas associações passaram ao lado das populações até porque por natureza própria tinham de passar, na sua larga medida: as coisas não se implantam de fora para dentro, o orgulho da população rural não é pedra morta e o direito de dispor da sua propriedade a seu belo gosto (mesmo errado) não é fácil de vencer sobretudo por pessoas e soluções que não têm qualquer relação afectiva com a terra e o campo.

Como resumo intercalar, temos que a migração campo / cidade não é um impulso, que ela faz ensaios no tempo:

Temos o caso do meu avô e de dezenas, pelo menos, de colegas dele, que ela segue, como no caso da minha mãe, por ensaios (períodos da ceifa no Alentejo) e das pessoas que ficavam em nossa casa, e tem uma linha de familiaridade mais estreita ou mais larga, que mantém (caso das minhas férias anuais e da minha mãe e do meu pai no que se refere à região de naturalidade da minha mãe) ligações com a origem e que só progressivamente ela se concretiza, neste caso já na segunda geração, que é o meu caso.

Isto não é científico, como parece evidente, é uma percepção que se encontra ainda alicerçada no facto de que uma parte substancial dos emigrantes voltar às suas terras de origem, fazerem uma casa e viverem ali a sua pré-reforma ou reforma, ambição que também é comum aos migrantes; quase todos eles querem voltar às suas terras para passar a reforma (e morrerem lá, sic.). Os filhos em princípio não partilham dos mesmos ideais…

Estas ilações só têm interesse no sentido em que o diferencial atractivo campo/ cidade não é assim tão grande como isso o que por outras palavras também poderá dizer que os postos de trabalho ocupados no local de recepção migrante não são dos mais qualificados (e dos melhor remunerados), o que seguindo a mesma linha de raciocínio nos levaria à escolaridade e à qualificação profissional.

No que se refere, por outro lado, à minha ocupação no cuidado da terra, tema que não foi ainda desenvolvido, devo dizer que me limitei sempre a seguir os processos empregues no local, até porque dada a pouca idade e dadas as aberturas em termos imaginativos, foi certamente a melhor solução.

Reguei batateiras, couves, tomateiros, feijão verde, – na altura – algum dele era mesmo para secar – num sistema de recolha de água que me fez anos depois lembrar os ilhéus de Dobu: os poços, secos, tinham de ser descidos em escadas de pedra até ao fundo (normalmente não mais de três/quatro metros), as latas de zinco de recolha para trazer água de jeito tinham de ser deitadas na poça e esperar muitas vezes que a fonte debitasse mais água, algumas vezes escavava-se para tentar obter uma maior fundo livre para pouso do balde / lata e subia-se e descia-se as vezes que fosse necessário até obter um mínimo razoável de água por casola, doseando a mesma de forma a obter líquido para todas ou para a larga maioria.

Para o efeito os tempos de pousio aquífero eram espontaneamente calculados de acordo com as necessidades de rega das plantas e o volume de débito do poço e era também calculado o tipo e diversidade de plantas a semear por unidade (horta). Por isso encontravam-se batatas, couves, feijão, por exemplo, em várias unidades de cultivo, doseadas espontaneamente de acordo com o potencial de água disponível, quando a lógica mandaria que em cada horta se plantasse uma só espécie preferencialmente.

A falta de água levava a uma organização dos poços comunais também (três, ao todo) servindo apenas um para dar de beber às bestas. Já muitos anos depois foi conseguida uma bomba de roda num dos poços e só poucos anos atrás foi de facto conseguida a alimentação de água de forma eficiente para o monte, através da reperfuração de alguns dos poços já existentes, e isto numa altura em que os habitantes do monte na sua larga parte nem sequer tem condições físicas para se deslocar a esses mesmos poços (a pessoa mais nova naquele monte tinha na última vez que fiz as contas cerca de 70 anos).

Por mais de uma vez assisti a tentativas de obter maior fluxo de água aprofundando à sorte através de paus de dinamite. Um senhor, o famoso Ti Zé Pereira, que foi dado como quase morto num hospital de Lisboa e que regressou a casa alegadamente para morrer com a família recuperou extraordinariamente e tornou-se no maior inventor do monte de Alcaria Alta, mas tinha um problema de raciocínio: primeiro fazia o projecto de colheita e rega exterior e depois é que tentava encontrar a água, tão confiante que estava que o poço original (quase seco) tinha potencial certo.

Era assim interessante vê-lo ano após ano a bombardear o fundo do poço, que deitava todos os anos um bocadinho mais, é um facto, mas não atingia o volume por ele desejado.

As batatas plantadas não eram batatas semente, assim como o resto: não havia dinheiro nem se justificava tal, pelo que eram escolhidas as sementes entre aqueles legumes que maior volume ou aspecto apresentavam à colheita.

Era sem dúvida uma agricultura biológica, toda estrumada, com excepção das colheitas de cereais, em que um dos lavradores ricos comprava o guano (nitrato do Chile, na altura, que também é estrume ainda que tratado e concentrado) e depois revendia às sacas. O ciclo do azoto era assim quase naturalmente obtido por força das próprias condições e hábitos envolventes.

[Alcaria Alta. Casa de antigo lavrador. Foto JV, 2009]

A compostagem de resíduos orgânicos não se fazia porque em grande parte aquele pessoal utilizava os mesmos métodos de cultivo que os seus país e os seus avós devido a razões evidentes: os jovens não se interessavam pela agricultura (antes eram incentivados a escolher outras profissões e a partir) e a idade média do agricultor habitual não pressionava no sentido de haver modernização de métodos ou processos agrícolas. Por outro lado o volume de resíduos orgânicos era relativamente baixo: os talos das couves por exemplo eram picados para porcos e galinhas e havia a alternativa concentração de estevas apanhadas em monte que serviam em parte para o aquecimento das casas, para o forno (neste caso normalmente também loendro da ribeira) e para cozinha sendo o excedente (bastante) queimado em queimadas cujas cinzas depois se espalhavam pelos campos de sequeiro. O estrume era o mais utilizado (sendo mesmo abundante e ficando de ano para ano).

[Alcaria Alta. Velho poço do monte. Foto JV, 2009]

Não sei até que ponto a PAC (Política Agrícola Comum) terá contribuído para a desertificação e migrações mas não me parece por aquilo que sei, por experiência própria, que ela se tenha feito sentir de uma forma positiva directa junto das populações envolvidas. Todo o Concelho de Alcoutim (o mais envelhecido do País) sofreu uma razia monumental e nos últimos anos / décadas nada que tenha sido feito tem produzido o sentido inverso.

Em jeito de remate durante a feitura deste esboço tive acesso a estudos comparativos sobre a divisão da terra nas semelhantes zonas fronteiriças de Portugal e Espanha tendo verificado que tanto no que se refere à dimensão da propriedade, ao número de cabeças de gado e à dimensão dos núcleos semi-urbanos e urbanos as diferenças são quase abissais, pelo que a excessiva divisão da terra existente deste lado de cá da fronteira são pelo menos a causa predominante que de nossa lavra podemos apontar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O "monte" do Pomar, uma relíquia perdida!

[Localização. Foto JV, 2010]

Já tínhamos passado por lá há uns bons anos e ficámos bem impressionados pela sua estrutura edificada, espaços, volumetria equilibrada, singeleza, situação e terrenos próximos.

A notícia mais antiga, que possuímos desta pequena povoação, é a que nos dá as “Memórias Paroquiais (1758)” pois no inquérito formulado o pároco da freguesia de Vaqueiros refere a sua existência como tendo quatro vizinhos. Nesta altura, tinham apenas dois Malfrade, Madeiras, Jardos e Preguiça e com igual número Mesquita, Bentos, Ferrarias e Galachos.

Enquanto uns se mantiveram ao mesmo nível, Malfrade e Bentos foram os que mais se desenvolveram.

A consulta bibliográfica que seguidamente estava ao nosso alcance era a Corografia do Algarve (1841), de Silva Lopes, obra indispensável nesta área. Nada encontrámos sobre este pequeno monte.

Depois recorremos ao “Portugal Antigo e Moderno (1873/1890 - VI vol. 1882)” de Pinho Leal mas mais uma vez nada obtivemos.

Nos anuários comerciais dos princípios do século passado encontramos a sua indicação como povoação englobada na freguesia de Vaqueiros, o que igualmente acontece na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. (1936)

A quando da escolha para o fornecimento de energia fotovoltáica, estudaram-se umas tantas povoações da freguesia de Vaqueiros, sendo esta uma deles. Na altura (1982) tinha 18 habitantes em 7 fogos, havendo uma pessoa emigrada. Existiam no monte 15 candeeiros a petróleo. A escolha, atendendo a vários parâmetros, veio a recair no monte do Vale da Rosa, mas que a utilizou por pouco tempo.

[Habitações simples, portas e janelas com postigo. Foto JV, 2010]

A inauguração da luz eléctrica tem lugar cerca de dez anos depois, mais precisamente no dia 10 de Dezembro de 1992 e os arruamentos foram arranjados no ano seguinte. (1)

Em 1960, segundo o censo populacional, tinha 33 habitantes.

Entretanto os habitantes do monte começaram a incluir os “isolados” devido às definições da lei que para efeitos de recenseamento dizia: É considerado aglomerado populacional todo o conjunto de prédios contíguos ou vizinhos com cinco ou mais fogos e a que corresponde uma designação. Para os mesmos efeitos, fogo é o alojamento em prédios destinados a morada de uma só família.


Não satisfazendo estes requisitos, o número de pessoas recenseadas passou para o conjunto de isolados.

[Construções típicas, sem "maisons"apoiadas umas nas outras! Foto JV, 2010]

O Censo de 1991 introduz alterações definindo como Lugar o agregado populacional constituído por um conjunto de edifícios contíguos ou vizinhos a que corresponde uma designação e que tem pelo menos 10 alojamentos. Como se verifica, a situação passou a ser mais exigente pelo que se manteve a situação de “isolados”. (2)

Em 1998, segundo informação verbal, teria dois ou três moradores.

O monte situa-se numa pequena elevação, circundada por outras de muito maior altitude como bem se pode ver pela foto que encabeça a “postagem”. Os barrancos que por ali correm tornam com os seus sedimentos os terrenos mais produtivos, além da água os tornar mais frescos.

Água e terrenos aráveis foram fundamentais para a fixação do homem.

Não existem casas dispersas, estão todas encostadas umas às outras deixando espaço suficiente para se transitar. As construções são ao gosto regional, com telhados de telha de canudo a uma ou duas águas. Paredes de xisto e grauvaque, rebocadas e caiadas. Junto das fachadas principais, lá estão os piais (poiais) cobertos por lajes de xisto e que hoje já começam a desaparecer.

Apesar de só ser habitado esporadicamente, notam-se os terrenos circundantes limpos e arborizados. Às velhas oliveiras ainda existentes, fez-se a plantação muito recentemente de um olival já por métodos actuais, com terrenos bem preparados e as árvores dispostas em linha e a distâncias aconselháveis.

Pode não haver gente, mas existe vida.

Deixámos para o fim o topónimo que nos parece de fácil explicação e vulgar no país, espalhando-se de norte a sul. No dicionário que habitualmente consultamos (3), encontrámos doze simples, incluindo este da freguesia de Vaqueiros e mais umas tantas dezenas de compostos.

Pensamos que o topónimo nunca se terá ajustado tanto como aqui acontece. A fotografia junta mostra um pomar em terreno propício. Possivelmente por ali já terão passado com o decorrer dos séculos alguns pomares. Em muitos montes do concelho é difícil poder manter uma laranjeira, por exemplo, quanto mais um pomar! Aqui, está à vista!

[Um pomar, no Pomar. Foto JV, 2010]

NOTAS

(1)– Boletim Municipal nº 12, de Abril de 1993.
(2) – “Do povoamento rural ao desenvolvimento local, in Estudar e Intervir, nº 4, de 1994.
(3) – Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Jornal RAIZonline



Após contacto entre a Direcção deste jornal on line e o ALCOUTIM LIVRE, o jornal, por acordo mútuo, começou a publicar alguns dos artigos “postados” no blogue.

O facto muito me honra, até porque é a primeira vez que colaboro na imprensa on line.

E como o que está em causa é ALCOUTIM e o seu CONCELHO, esta nova porta que se abre origina uma muito maior visibilidade deste concelho serrano na globosfera.

O Director (interino) é Daniel Teixeira que não esquece as suas raízes alcoutenejas, freguesias de Giões e de Vaqueiros, sendo Chefe de Redacção, Arlete Piedade, por casualidade minha conterrânea.

RAIZONLINE possui um vasto leque de colaboradores que proporciona a abordagem de muitos e variadíssimos temas.

Caro visitante/leitor não deixe de dar uma olhadela a esta página e vai ver que voltará, tal a variedade de assuntos que apresenta.

RAIZONLINE já faz parte dos meus sites favoritos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

História de Portugal, V I I I volume [1832-1851]


O VIII Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, abrange o período DO MINDELO À REGENERAÇÃO, tem 418 páginas e foi publicado em 1986.

Este volume, tal como os anteriores, continua a fazer referências a Alcoutim. Significa isto que a Vila de Alcoutim desempenhava o seu papel no contexto nacional.

Ainda que as referências sejam apenas três, o período abordado foi muito sentido em Alcoutim e no seu concelho. Por um lado era servida pela “auto-estrada“ da época, o Rio Guadiana e por outra as suas serranias eram propícias ao esconderijo.

O Duque da Terceira em Lisboa

Pág. 40

Tudo se conjugava assim para o decisivo assalto a Lisboa, que Napier foi bloquear enquanto o exército de Terceira avançava no Baixo Alentejo. Já o marquês de Palmela tinha enviado forças de Vila Real de Santo António para se apoderarem de Alcoutim e Mértola

Alfândegas e portos secos

Pág. 299

Em 1835 a alfândega de Alcoutim era a de menos receita do País, cifrando-se em 31$790 e que era igual à despesa.

Pág. 302

Pelos quadros acima referidos conclui-se que Freixo de Espada – à – Cinta (…) Moura, Terena e Alcoutim tinham já um movimento reduzido (…)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Lenda do Cerro da Mortalha

[Ruínas de habitação no Montinho da Revelada. Foto JV, 2010]

Quando falamos em Lendas é habitual ligarmos imediatamente o “facto” às lindas mouras, aos ímpios agarenos e onde de permeio aparece muitas vezes um “herói” cavaleiro cristão que resolve a situação. Por outro lado, “existem” muitas em que até hoje o cristão não conseguiu resolver a situação e a bela agarena acompanhada de grande fortuna constituída por barras de oiro continua no seu encanto sem que apareça ninguém a resolver-lhe a situação.

Desta vez a Lenda nada tem a ver com os seguidores de Maomé mas sim com os Cristãos.

Ouvi-a contar há mais de quarenta anos na vila de Alcoutim e na altura não a escrevi, o que estou a tentar fazer agora.

Como a ouvi a três pessoas originárias do monte do Zambujal, pensava eu que o Cerro da Mortalha se situaria nas suas proximidades, o que agora não me foi possível confirmar, pois indicam a elevação das proximidades do Montinho da Revelada, à esquerda quando se vai para Malfrade.

Em tempos não muito recuados, na versão dos contadores, um poderoso Conde, senhor de vastos terrenos das redondezas e conhecido como o Conde de Brunhos, entendeu que uma jovem e bela rapariga “se lhe havia de entregar”.

Apesar de todas as tentativas, a jovem resistiu sempre, pelo que o poderoso Senhor, que tinha jurisdição sobre tudo e todos, resolveu mandá-la matar pelos seus algozes.

Cumprindo a ordem recebida, a jovem e inocente virgem é levada para um cerro próximo da habitação Condal de onde o facínora assiste a tão execrando acto.

Consumado o crime, a vítima é ali mesmo enterrada, pelo que o cerro começou a ser conhecido pelo Cerro da Mortalha.

Aqueles terrenos que até aí eram produtivos, depois deste acontecimento nunca mais produziram uma boa seara. Só anos depois o povo relacionou o facto com o que tinha acontecido e começou a tomar nota. Quem se propusesse lavrar e semear o cerro era retribuído com uma má colheita e para agravar a situação, nesse ano alguma desgraça acontecia àquela família, nomeadamente a morte de alguém próximo.

É esta a lenda do Cerro da Mortalha que consegui recolher e que estará a esvair-se na memória daquele povo.

Como é próprio das lendas, grande parte das perguntas que as pessoas formulam não têm resposta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A mina das Cortes Pereiras

[Ruinas da Casa da Mina. Foto JV, 2010]

A última que laborou no concelho. O manifesto mais antigo que conhecemos desta mina de antimónio, sita no Monte de Cima, é datado de 1859.

Em vários poços do núcleo mineiro, extraía-se igualmente cobre.

Entretanto, o súbdito espanhol, Miguel Ângel de Lion, chegado à vila em 1860 e achando-se abandonada a mina, juntamente com Manuel António de Almeida, da vila, procedeu ao seu registo nos termos da lei (Registo de 05.12.1862).

Miguel Angel de Lion, figura muito polémica do último quartel do século passado e de que ainda muito recentemente ouvi falar a um pastor, apesar de ter sido assassinado há mais de um século, apresenta-se como engenheiro de minas e além deste, procedeu a outros registos.

O núcleo mineiro das Cortes Pereiras era constituído por vários poços (dez, segundo informação recente de um octogenário ali nascido), ligados entre si por meio de galerias subterrâneas, sendo a mina principal a do Malacate, de grande profundidade e recentemente tapada depois de uma tentativa de entulhamento sem êxito. A solução encontrada não nos parece a mais adequada pois eliminou-se um ponto turístico. Se oferecia perigo, havia outras maneiras de o minimizar com a colocação, por exemplo de uma rede protectora.

O Pdre. José Pedro Rodrigues Teixeira, por testamento de 8 de Dezembro de 1868, deixa a seu primo, João José Viegas Teixeira, duas acções que tem na mina das Cortes Pereiras.

Em 1876 é notificado o concessionário da mina para que apresente elementos sobre a sua laboração. (14)

Assassinado D. Miguel em 1878, é notificado o Pdre. António José Madeira de Freitas, como membro da Direcção da mina para informar qual a sua constituição. (15)

O Administrador do Concelho informa que a mina “ não se acha em lavra desde há muito”. (16) Contudo, em 1883 já se informa que “neste concelho se acha em exploração a mina de antimónio das Cortes Pereiras. (17)

Como já referimos, o Dicionário Corográfico, de Américo Costa - 1929, indica esta mina de que foi concessionária Maria Soledad e outros.

Por edital de 30 de Maio de 1893, do Administrador Interino do Concelho, Manuel António Torres, é convocada a Sociedade Descobridora da mina e James Henry Hoyle, comissário da mesma ou seus representantes, para a reunião da Junta de Avaliação provisória do imposto de minas que deverá efectuar-se no dia 29 de Junho no Governo Civil do Distrito.

[Tanque onde se decantava o minério. Foto JV, 2010]

Nos últimos anos da década de sessenta dos nossos dias, era lançada e cobrada contribuição predial em nome do cidadão inglês, James Henry. Devido à minha curiosidade, foi-me então explicado que após o encerramento da mina, aquele senhor regressou a Inglaterra, deixando a propriedade ao cuidado de um dos seus trabalhadores. Era esta família que vinha satisfazendo os impostos devidos. O inglês ficou de voltar mas isso nunca mais aconteceu, nem ele nem herdeiros! A propriedade foi passando de pais para filhos acabando por ser adquirida por usucapião.

Destas minas, de que os ingleses foram os únicos clientes, extraíram-se as seguintes quantidades de mineral: cento e vinte e nove toneladas em 1864, seis mil setecentas e cinquenta em 1883 e vinte mil e quinhentas em 1885, este último no valor de 1.819$170 réis.

Este minério saía pelo “cais do mineral” construído para o efeito e de que restavam vestígios. Situava-se próximo da actual Estalagem.

Deste concelho trabalharam muitos homens na Mina de S. Domingos que foi a mais rica do País e funcionou de 1859 a 1964.Em 1889 tinha 1052 trabalhadores, incluindo espanhóis e em 1914, 2 355, chegando a empregar mais de três mil pessoas.

Numa zona pobre como esta, era natural que alcoutenejos tivessem ali procurado o seu sustento e dos seus. Vinham a casa quando podiam, mudar de roupa, entregar alguns tostões à família e contar o que se passava pelo Mundo! Foi assim que nos informaram que um morador de um “monte” do norte da freguesia de Alcoutim, analfabeto como era natural, ouvia ler na Mina as notícias, tudo fixava e quando chegava ao “monte”, tornava-se o jornal ambulante.

O “patrão” da Mina de S. Domingos, o cidadão inglês, engenheiro de minas, James Mason, que foi distinguido com o título de Visconde de S. Domingos e também barão, conde e visconde de Pomarão, contribuiu com cem mil réis para a reconstrução da Igreja da Misericórdia, arruinada pela cheia de 1876.

Em várias circunstâncias a Câmara de Alcoutim recorreu à ajuda da Mason & Barry o que lhe foi sempre concedido.

[Paiol da pólvora. Foto JV, 2010]

Deste núcleo mineiro, segundo informação recebida do meu Amigo e colaborador, Eng. Gaspar Santos, foram enviadas amostras de minério solicitadas pelos alemães durante a segunda Guerra Mundial (1939-1945) mas que parece não lhes ter interessado.

Muito pouco resta lembrando esta actividade. Leves vestígios da Casa dos Mineiros, um tanque em ruína que servia para a decantação do minério e o paiol da pólvora, ainda em estado razoável de conservação, certamente devido ao tipo de construção. De reduzidas dimensões, cerca de 2X2 metros, possui larguíssimas paredes e abóbada de berço. A parte cimeira é constituída por duas águas argamassadas. Por cima da porta ainda se nota uma placa cuja inscrição desapareceu. Certamente que teria alguma indicação quanto ao conteúdo e perigo que representava.

[Abóbada do paiol. Foto JV, 2010]

Como se justificava, a localização era afastada da casa dos mineiros ou da mina, esta localizada no cimo de uma pequena elevação e o paiol, que o povo ainda designa por polvorinho, no sopé do mesmo.


Quando a mina foi explorada por D. Miguel, este mandou abrir um poço nas proximidades para abastecimento dos trabalhadores. O pequeno poço ainda existe encontrando-se abandonado e é conhecido pelo “Poço de D. Miguel”.


[Poço de D. Miguel. Foto JV, 2010]

Ainda se podem ver, espalhados pelo concelho, piques (picaretas) de mineiro que como se sabe são diferentes das outras, rodos e alcofas de esparto em que se transportava o mineral.
Há poucos anos um cidadão alemão permaneceu em Alcoutim bastantes meses preparando a licenciatura em minas ou geologia.

O êxito obtido com a instalação do posto retransmissor da RTP parece relacionar-se com a natureza do subsolo.

NOTAS
(1)- Arqueologia Romana do Algarve, Maria Luísa Estácio da Veiga Affonso Santos,1971.
(2) - Of. nº 160 de 14 de Abril de 1877, do Administrador do Concelho ao Regedor da Paróquia de Martim Longo.
3) - Foi Juiz de Fora e dos Órfãos, conforme carta dada em Lisboa a 28 de Maio de 1816 e também provedor da Santa Casa da Misericórdia, pelo menos de 1818 a 1819.
(4) - Exerceu todos os cargos políticos importantes no concelho e era natural de Vaqueiros.
(5) - Acta da Sessão da C.M.A. de 15 de Novembro de 1873.
(6) - Of. nº 112 de 18 de Novembro de 1874, do Administrador do Concelho.
(7) - Of. nº 68 de 18 de Julho de 1877, do Administrador do Concelho.
(8) - Vol. V, pág. 101.
(9) - Of. nº 56, de 8 de Maio de 1881 ao Delegado do Tesouro no Distrito de Faro.
(10) - Of. nº 64, de12 de Maio de 1881, do Administrador do Concelho.
(11) - Of. nº 14, de 1 de Fevereiro de 1883, do Administrador do Concelho.
(12) - Of. nº 80, de 25 de Abril de 1889, do Administrador do Concelho.
(13) - Dicionário da História de Portugal, Dir. de Joel Serrão, Vol. II, pág. 84.
(14) - Of. nº 124, de 4 de Dezembro de 1876, do Administrador do Concelho.
(15) - Of. nº 97, de 25 de Agosto de 1880, do Administrador do Concelho.
(16) - Of. nº 101, de 2 de Fevereiro de 1880, do Administrador do Concelho.
(17) - Of. nº 33, de 16 de Março de 1883, do Administrador do Concelho.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O lugar de Juiz de Fora em Alcoutim

Ao dedicado visitante/leitor
AM (Almada)




Para melhorar a aplicação da justiça, que era administrada por Juízes da terra, eleitos pelo concelho, o que dava por vezes origem a colisão entre normas jurídicas e interesses familiares locais, D. Afonso IV nomeou Juízes de Fora, contudo só no século XVIII as nomeações atingem algum relevo quantitativo.

A carta de criação do Lugar de Juiz de Fora de Alcoutim é de 18 de Fevereiro de 1773 e tem pendentes nas duas pontas de cordão vermelho “dous Sellos Reaea de chumbo idêntico” (1)

Criaram-se Juízes de Fora e dos Órfãos na vila de Alcoutim, por alvará de 1733, é facto documentado. Para o justificar, a vila é então definida pela Coroa como “considerável pelos muitos lugares do seu termo que abrigavam mais de mil e quatrocentos fogos e ainda, pela sua posição na extremidade oriental do Reino do Algarve, sobre o Guadiana”.

A nomeação dos respectivos juízes, em lugar dos ordinários ali existentes, pertencia à Casa do Infante D. Pedro, marido da Princesa do Brasil, mais tarde Rainha D. Maria I.(2)

A Alcoutim teriam chegado, segundo Pinho Leal, (3) e sem fundamento, em 1758, por deliberação de D. José.

Sabemos que, em 1775 as funções de Juiz de Fora eram desempenhadas pelo Dr. José Duarte da Silva; em 1778 J. Sebastião José G. Almeida Figueiredo; em 1787 António Novais Branco, tendo todos exercido as funções, ao mesmo tempo, de Provedores da Santa Casa da Misericórdia.

Por carta de Juiz de Fora de Alcoutim a 29 de Maio de 1794 é nomeado Juiz de Fora de Alcoutim, o bacharel em Leis, Manuel José Gomes Loureiro. (4)

Em 1810 Alcoutim possuía Juiz de Fora para controlar a entrada de estrangeiros. (5)


Em 1818 era também Provedor da Misericórdia e Juiz de Fora o Dr. Mateus António Pereira da Silva. (6)

[Casa que a tradição indica como tendo sido residência do último Juiz de Fora de Alcoutim. Foto JV]

De 1820/23 o bacharel Joaquim António da Costa Sobrinho que participa que o prior de Alcoutim, Joaquim José Cavaco tem explicado sabiamente o sistema Constitucional, em todos os dias que à Estação da Missa lê os decretos do Soberano Congresso que analisa com toda a clareza, e faz ver as atitudes que resultaram de tais leis; que o mesmo tem feito o pároco de Cachopo, (então pertencente a Alcoutim) Frei Joaquim de Lagos, os Párocos de Giões, José Rodrigues Teixeira, o de Vaqueiros Frei António do Carmo de Azevedo e o do Pereiro, Francisco de Paula, os quais no feliz aniversário da instalação das Cortes, se juntaram os três e nas suas igrejas fizeram festas constitucionais e o Padre Frei Francisco Bento, coadjutor de Vaqueiros, pregou em todas as três festas em que mostrou o quanto está possuído do Sistema actual. (7)

Em 1824 José Teles de Góis, nomeação que veio a ser suspensa, em 1825 José Francisco Parreira de Vilhena; de 1826 a 1829, por carta de privilégio de D. Miguel I, José António Fonseca de Lima e o último de que temos notícia é do bacharel José Pinto Coelho de Ataíde e Castro (1831).

Das nomeações de D. Miguel só existe a que referimos, já que as outras desapareceram com a destruição das folhas visto que a numeração salta bastantes folhas. Tratava-se de uma tentativa de evitar o conhecimento dos nomeados com medo a retaliações. (8)

Diz a tradição que o último Juiz de Fora habitou uma casa na Rua da Misericórdia onde viveu a família Cunha.


NOTAS

(1)-Dissertações Chronologicas e criticas sobre a História e Jurisprudência, João Pedro Ribeiro, 1813, pág. 193)

(2)–História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, VI Vol.

(3)-Portugal Antigo e Moderno.

(4)-Gazeta de Lisboa de 18 de Agosto de 1831, pág. 793.Era Bacharel em Leis e Filosofia em 1792, Ouvidor em Moçambique com assento na Relação do Porto em 1798 e Desembargador em 9 de Setembro de 1805. Nasceu em Sezares (Braga) e morreu a 8 de Maio de 1855. Pertenceu à Junta Provisional do Governo do Estado da Índia (1821).

(5) – Mapa constante da pág. 222 do VII vol. da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão.


(6) - Natural de Tavira, em 1860 era um dos proprietários da grande Herdade da Malhada, freguesia de Vaqueiros.

(7) - Suplemento nº 30 do Diário do Governo de 3 de Junho de 1822.

(8) – Livro de Privilégios com o desaparecimento de algumas folhas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A minha primeira vez....

Pequena nota
Temos o prazer de apresentar mais um texto do nosso colaborador, Amílcar Felício que abrange vários episódios significativos da vida alcouteneja ou com ela relacionados.
A colaboração vai-se estendendo numa variante de assuntos e em que os autores marcam o seu estilo.
Os grandes beneficiados são os nossos visitantes/leitores.

JV








Escreve

Amílcar Felício



(Nota: este texto resulta de um conjunto de apontamentos alinhavados há já alguns anos, mas que nunca saíram da gaveta. Davam continuidade a uma série de crónicas que fui publicando no jornal do Baixo Guadiana e faziam a minha singela homenagem ao Sr. Fernando Dias, uma referência para a juventude do meu tempo. Tiravam também um pequeno retrato a preto e branco ao Portugal de então, visto pela “minha máquina fotográfica” naturalmente).

Contudo, Alcoutim depois da morte de minha mãe transformou-se numa ferida difícil de cicatrizar e assim, fui protelando e evitando tocar-lhe. Manhas que aprendemos a usar para nos defendermos quando avançamos na idade! Mas ficou-me sempre um amargo de boca por este silêncio...

O convite do Sr. Nunes – que tanto tem dado do seu tempo à nossa terra – para participar neste espaço de história, estórias e cultura alcoutenejas, não poderia deixar-me indiferente e assim, aqui vai ao “meu jeito” mais uma estória para recordar um homem, que foi como que um “irmão mais velho” para a minha geração.)

Eram as horas mais longas do dia.

Das duas às seis da tarde Alcoutim parecia um forno naquele mês de Julho talvez de 1963 ou 1964, já não me lembro ao certo, pronto a cozer-nos em lume brando e longe dos ar condicionados que se calhar nem sabíamos que existiam. Mas por estranho que pareça, ainda conservo bem vivo o cheiro delicioso da terra e dos pastos secos àquelas horas do dia.

Alcoutim tem um cheiro próprio àquelas horas da tarde e não há Verão quando lá esteja, que não seja arrastado para um passeio ao campo impróprio para cardíacos. É quase uma atracção fatal!!!

Saídos há uns anitos da adolescência, tínhamos o dia inteiro por nossa conta e os limites do que fazíamos, era tudo aquilo que a nossa imaginação conseguisse conceber. O mês de Agosto estava completamente preenchido com os peditórios e a preparação das Festas entre outras coisas. E com que responsabilidade e profissionalismo executávamos a tarefa, palmilhando desde as 7 horas da manhã por montes e vales todos os lugares do Concelho, a maior parte das vezes com sacos de trigo às costas, pois que se a abundância não era muita naqueles tempos, o vil metal era um bem ainda mais escasso.

[Festas da Vila, 1973. Foto JV]

Mas em prol das Festas, cujos lucros revertiam para a compra de uma Ambulância para
o Hospital imagine-se, toda a gente dava generosamente o que podia e muitas vezes até o que não tinha.

Refugiávamo-nos naquelas horas mortas e sufocantes, no fresco agradável das grossas e altas paredes do Celeiro aonde trabalhava o António Antunes, o Antonico Guarda-Rio como era conhecido, aproveitando a folgazita que certamente o Sr. Leopoldo não deixaria de fazer. Era ali o Quartel General da Malta, onde se reunia o núcleo duro do grupo de que faziam parte o Zé Serafim, o Arnaldo, o Antonico, eu próprio e algumas vezes o Rosairinho e aonde tudo era planeado ao pormenor.


[O velho Celeiro há muito desactivado. Foto JV, 2010]

Patuscadas, roubo de galinhas com as vítimas criteriosamente seleccionadas, jogatanas de futebol, bailaricos em Alcoutim ou nos Montes, passeios com as espanholitas, etc., etc., etc..

É verdade que já tinha deixado de olhar para o mundo de uma forma maniqueísta. Na realidade a minha ida para Lisboa em 1957 com 11 anos, tinha começado a abrir-me a pestana e já olhava para ele de maneira diferente. Já não o via tanto como um conjunto de Bons e Maus mas pressentia que existia mais qualquer coisa.... A sorte de ter encontrado um núcleo de professores de elevada estatura, contribuiu e de que maneira para me alargar os horizontes para lá do cerro da Mina, dos quais destaco o poeta Gedeeão (Prof. Rómulo de Carvalho), o Padre Alberto (o tal da Capela do Rato) (*), o professor Calado e tantos outros pedagogos que ainda recordo com carinho, mais interessados em preparar-nos primeiro para a vida e só depois ensinar-nos a físico-química, a moral ou a matemática.

Por outro lado, saído ainda menino do tranquilo aconchego alcoutenejo, embarcava numa autêntica aventura no popular e movimentado Bairro de Campo de Ourique. As idas para a brincadeira com a garotada da minha idade na Rua Tomás da Anunciação, a mando do meu tio Vieira, à espera que o ardina chegasse apregoando o Jornal República, com o dinheirinho à justa na mão para sorrateiramente comprar o Jornal e dar à soleta que se faz tarde rua acima direito à Rua Ferreira Borges, para depois virar à esquerda e a uns bons 50 metros inverter a marcha e vir pela Rua de Campo de Ourique abaixo, passando quase pelo mesmo sítio de onde tinha partido, até quase à Rua Maria Pia aonde morávamos para despistar eu nem sei bem o quê, davam-me que pensar! Não sabia bem do que fugia mas lá que fugia, fugia e fugia bem! E as noites de vigia de janela em janela enquanto o meu tio ouvia a tal rádio “que não falava verdade” (!). Como eu abria os olhos caramba, para dar conta do recado e não frustrar a confiança do meu tio! Dizia-se que eram carros pretos com umas antenas enormes e homens macabros lá dentro, que sabiam tudo o que se passava em cada andar e assim era necessário dar o alerta logo que eles chegassem, para desligar o Rádio que era proibido ouvir, senão estava o caldo entornado... Como eles vendiam bem a sua imagem de infalibilidade (!).

Possivelmente andavam disfarçados mas a verdade é que nunca vi nenhum. Mas nestas andanças, sentia a mesma adrenalina do que quando ia com o meu pai aos pássaros com os meus cinco ou seis anos e ele me mandava às 4 ou 5 horas da manhã pelo Barranco dos Ladrões abaixo, para colocar folhas de jornal nas poças que encontrasse e assim obrigar a desgraçada da passarada ávida para beber, a matar a sede no pego aonde ele estava escondido. E lá ia eu barranco abaixo, vendo em cada moita de loendreiros um ladrão, pois afinal não estava eu no barranco que era deles? Mas apesar da tremedeira não recuava, pois um homem é um homem e não vira assim a cara à luta, ensinavam-me os adultos...

[Ribeira de Cadavais ou de S. Marcos, formada pela junção do barranco dos Ladrões com o do Alcoutenejo. Foto JV, 2010]

Mas voltemos ao Celeiro e àquelas tardes escaldantes daquele mês de Julho, que passavam tão devagar...

Era impossível aos 17 ou 18 anos estar parado à espera que o tempo passasse, para mergulhar mais tarde nas águas cálidas e límpidas do Guadiana, de aonde até matávamos a sede a um ou dois metros de profundidade. E o que é que o pessoal se havia de lembrar para passar o tempo? Nem mais nem menos do que fazer um Jornal de Parede com algumas caricaturas e umas criticazinhas ingénuas à vaidade de alguns ou algumas, vaidadezinhas inofensivas é certo, mas que farão sempre parte da natureza humana.

E que sucesso teve aquele primeiro “Jornal” Alcoutenejo!!! Já se juntava muita gente à espera da hora a que era afixado, na parede da antiga Sociedade, até ao dia em que fomos intimados pelo Cabo da GNR a apresentarmo-nos no Quartel. E lá fomos nós de rabinho encolhido entre as pernas, pois a autoridade naquele tempo metia medo. Lá vem o Sr. Cabo, o Sr Cabo Alberto se a memória não me falha, e bem nos esforçámos por explicar que aquilo não passava de uma brincadeira sem maldade para passarmos o tempo e que tudo acabaria ali, mas ele já de sentença afiada comunica-nos em tom grave, qualquer coisa do género: “por causa de uma queixa e da afixação de anúncios sem licença, estão multados em não sei quantos contos de réis ou se não pagarem, 2 ou 3 meses de ‘xelindró´. Ficámos aterrados e lá fomos cada um para sua casa convencer os velhotes para ver se abriam os cordões à bolsa, pois ninguém estava interessado em ir preso. Mas nada feito. Disseram todos qualquer coisa parecida com a canção muito em voga actualmente, “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga... e vocês têm que aprender”! ...


[Fernando Dias]
Em desespero de causa lá fomos como sempre, conferenciar com o Sr. Fernando Dias. Não sabíamos bem porquê – estas coisas naquelas idades sentem-se -- mas quando estávamos em apuros era com ele que íamos falar. Tomei conhecimento à distância, que assumiu as suas responsabilidades no 25 de Abril e constou-se-me que teria sido maltratado quando os cravos já murchavam. Senti partir-se-me o coração...

Ele era como um irmão mais velho que nos compreendia, aconselhava e estava quase sempre do nosso lado. Lá lhe contámos a história e a perspectiva quase certa de irmos de cana nos próximos meses.

Pergunta-nos ele do alto dos seus quase dois metros, se é que não os tivesse mesmo, na sua voz inconfundível, metalizada, segura e bem timbrada: “Olha lá Amilcar, se vocês forem presos quem é que faz os peditórios e organiza as Festas para o mês que vem”? Isso agora é que nós não sabemos, Sr. Fernando, respondo-lhe eu. “Então vão ter com o Presidente, contem-lhe a história toda e digam-lhe que se vão deixar prender, porque os vossos pais não querem pagar as coimas”!

E lá vamos nós ter com o Sr. Presidente.

O Presidente da Câmara da altura era o Sr. Sargento Corvo, o homem que nos dizia: “vá lá rapazes que no fim das Festas o Presidente oferece uma caixinha de gambias (sic!) para beberem uma cervejas”. As gambas naquele tempo tinham em Espanha um valor equivalente ao tremoço em Portugal, pois lembro-me de irmos a Sanlúcar beber umas cervejas e trazerem-nos como tapas um prato de gambas à borla. Penso que vinham das Canárias ao preço da uva mijona. Mas verdade seja dita que foi o único Presidente que tinha a gentileza de apreciar e agradecer, o nosso esforço de quase 2 meses de trabalho intenso no pino do Verão!

E lá lhe contámos a nossa história e a perspectiva negra de vermos o sol aos quadradinhos nos próximos meses... Diz-nos ele de imediato, com a confiança na voz que só o poder dá: “mas vocês estão todos malucos ou quê? Vão-se lá embora que eu trato disso !!!”

Francamente não sei o que se passou depois, mas ainda hoje estou à espera que me venham buscar para cumprir a pena...

A minha primeira vez tinha sido um êxito e o Sr. Fernando Dias, tinha-me dado uma lição de Mestre para a vida! Mas ao mesmo tempo ficava-me um sabor amargo, por descobrir que a verdade e a razão dos homens afinal, era apenas uma questão de poder!

Não era bem esta ideia que eu fazia dos adultos...


(*) Que Padre tão Corajoso Meu Deus! Foi ele que no antigo Liceu Pedro Nunes, me deu a conhecer e a muitos outros nos princípios da década de sessenta, a música do Zeca Afonso, levando religiosamente o seu velho gravador para todas as aulas. Era um Padre que arrastava multidões. Falava dos ricos, falava dos pobres, falava da vida! Falava dos nossos problemas! E o que é que preocupa sobremaneira um garoto aos 13 ou 14 anos?

Naturalmente o que é novidade para ele ou então desconhecido... sexo! Pois em todas as suas aulas reservava um período de tempo para uma pequena aula de sexologia, há 50 anos atrás imagine-se!

Retenho a ideia que martelava continuadamente sobre as diferenças comportamentais entre rapazes e raparigas, tentando sempre educar e moderar os impulsos da rapaziada: as raparigas são muito sensíveis, procuram carinho, vocês só têm sexo na cabeça, isso não está bem, moderem-se, tentem compreender as suas emoções, os seus sentimentos, os seus interesses!

Nem os Champalimaulds, nem os Espiritos Santos e outros que tais resistiam em seguir-lhe a batina naquele tempo, o que é revelador de que até a alta finança já se distanciava dos estereótipos da educação do regime.

Apareceu assassinado a tiro em 1987 perto de Setúbal (Águas de Moura) quando vinha do Algarve, por razões que nunca foram publicamente esclarecidas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Escadinhas da "Conceição"


Nem sempre a Câmara Escura apresenta fotografias antigas, como hoje acontece pois esta foi tirada há dias.

Não é por isso a antiguidade que motivou a publicação e muito menos a sua qualidade.

Uma das primeiras fotografias que publicámos nesta rubrica foi precisamente destas escadinhas sendo o motivo da sua publicação a circunstância de se encontrar completamente infestada de ervas daninhas que evitavam ou dificultavam a sua utilização. Hoje como se pode ver estão bem limpas e transitáveis.

O motivo da publicação está no restauro feito das seculares escadinhas, possivelmente proporcionando mais segurança mas completamente desfasado do original como se pode ver.

Este “restauro”, se a memória não me falha já tem uns bons anos mas ainda ninguém se lembrou da sua correcção que dava mais dignidade ao local.

Nas suas proximidades situava-se a Porta de Tavira e a muralha que cercava a Vila seguiria pelo local onde se encontra o poste de electricidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A canastra



Já referimos este objecto de uma maneira sucinta quando escrevemos neste espaço sobre a cestaria.

A sua confecção era praticada por grande número de alcoutenenses pois fazia parte da formação de um homem. Havia sempre na família quem as soubesse fazer para uso da casa.

Faziam-nas de cana e de tamanhos diferentes, conforme as suas necessidades, dependendo da utilização que lhe iriam dar. Tinham sempre duas asas.

Eram várias as utilizações, sendo algumas muito próprias.

Nelas se transportava a palha que se colocava nas manjedouras para alimento dos animais, nomeadamente as bestas.

Além da utilização para transporte, era usada para armazenamento. Era nelas que grande parte das famílias recolhia o figo seco, depois de devidamente tratado, tendo passado pelo forno e pelo escaldar. Aqui ficavam para o consumo anual da família que os utilizava muitas vezes como alimento quando saíam para os trabalhos de campo.

Noutra canastra eram armazenados os figos rejeitados e que se destinavam à alimentação dos animais.

Outra utilização muito praticada tratava-se da preparação da azeitona, que se salgava, destinada ao fabrico do azeite e que tinha lugar nas queijeiras que aqui já referimos.

Em canastras pequenas (como alternativa aos cestos e aos cortiços) preparavam as azeitonas mais gradas, principalmente as maçanilhas roxas que constituíam as chamadas “azeitonas de sal”, muito típicas desta região.

Enquanto a roupa “fina” era colocada na arca de castanho, a de trabalho guardava-se em canastras.

As mulheres utilizavam-nas para levar a roupa suja aos pegos dos barrancos próximo para procederem à lavagem, utilizando-a igualmente no regresso.

Foram estas, segundo a recolha feita, as principais utilizações da canastra.

Tudo isto faz parte de um passado recente pois estas actividades estão hoje praticamente abandonadas.

Hoje, poucos saberão fazer uma canastra!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A residência do Capitão-Mor


Os visitantes/leitores deste blogue, muitos deles assíduos e de que naturalmente desconheço o número, (só sei que as visitas já ultrapassaram as 11 mil) já terão lido algumas referências que aqui tenho feito e de diversos tipos, à chamada “Casa do Capitão-Mor”.

Também alguns dos colaboradores, nomeadamente Gaspar Santos e José Temudo o têm feito.

Encontro-me hoje (2010.02.07) num período de visita ao concelho. Nos pequenos espaços que tenho livres, ou por outra que procuro que sejam livres, desloquei-me à Vila para efectuar uma sessão de fotografias, sem qualquer intuito técnico e mesmo algumas com nível muito baixo, como naturalmente reconhecemos.

As fotos destinam-se além de uma satisfação pessoal, a ter hipóteses de documentar os “escritos” que eu e os colaboradores vamos publicando no ALCOUTIM LIVRE.

Neste dia que dedicámos à vila e sem o procurar, acabámos por “disparar” a máquina para aquilo que além de não nos admirar, poderá ser admiração para muita gente mal informada.

A fotografia que apresentamos do telhado da “Casa do Capitão-Mor” é por demais elucidativa e que nos leva a prever que dentro em breve abaterá!

Este edifício e para quem conhece, tem grande significado para a história local, ainda que tenha sofrido pelo menos nos último 50 anos reparações não ajustadas às suas raízes.

A primeira que lhe conhecemos, já propriedade municipal, foi quando devido a incúria ruiu a cimalha, o que levou à transferência provisória das instalações da Repartição de Finanças e tesouraria de Fazenda Pública, para o edifício dos Paços do Concelho. Tanto a cimalha do beiral do telhado como a da moldura das janelas de sacada foram no restauro, obliteradas.

A quando da restauração das instalações das mesmas repartições, depois do 25 de Abril, houve novamente desajustamentos e creio que por inteiro desconhecimento pois pensava-se que se estava a realizar o melhor possível!

Com a extinção da Guarda Fiscal as instalações ocupadas por esta força militarizada e pertencentes ao Ministério das Finanças foram adaptadas para a instalação da Repartição de Finanças e Tesouraria da Fazenda Pública.

O prédio conhecido por Casa do Capitão-Mor ficou só ocupado pelo Posto da GNR., ficando o restante devoluto.


Depois de alguns anos perguntei politicamente a quem de direito qual o destino daquele espaço histórico de Alcoutim, tendo-me sido afirmado que iria ser adaptado aos serviços técnicos camarários.

Não tenho aqui elementos concretos mas isto tenho a certeza que se passou há mais de 10 anos! O que vi foi no rés-do-chão meterem-se embarcações desportivas conhecidas por canoas! A degradação é notória.

Existe efectivamente o abandono do edifício com a agravante do telhado estar a cair. Até as pináculas de madeira que embelezavam os vértices superiores das grades de ferro forjado, há muito desapareceram.

Eu sei que naturalmente o dinheiro não é elástico e não chega para tudo e existem outras prioridades, mas para nós deixar desaparecer este edifício emblemático da Vila, ou desvirtuá-lo, é um “crime” de lesa-património.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Primo Antunes, uma Figura de Alcoutim

Pequena nota
Gostei da lembrança do nosso colaborador Gaspar Santos de recordar Primo Antunes como figura alcouteneja ainda que não tivesse nascido em Alcoutim.

Conheci-o relativamente bem, mas não como o nosso Amigo e Colaborador pelo que não seria capaz de o retratar com esta profundidade.

A actividade de “solicitador” referida no texto deu origem ao nosso contacto e sempre em sentido positivo pela eficiência e honestidade que sempre demonstrou.
Estas pequenas notas biográficas sobre figuras que marcaram o passado alcoutenense têm, segundo a nossa opinião, plena justificação.

Venham mais.

JV







Escreve
Gaspar Santos



Primo Antunes era Guarda-Rios. Era seu amigo e privei de muito perto com ele mas nunca percebi muito bem quais eram as suas tarefas oficiais. Ele fazia muito do seu escritório no Celeiro (quando os humores do Senhor Leopoldo lho consentiam). Ali privámos bastante pois era onde eu trabalhava. Ali escrevia à máquina o seu expediente e os trabalhos de uma espécie de “solicitador” que ele exercia nas suas horas vagas, que eram quase todas. Ajudava a esclarecer muitos assuntos que muita população analfabeta do concelho necessitava. Fazia relações de bens para as habilitações de herdeiros. E todo o tipo de requerimentos de que as pessoas precisavam. Tinha para isso um grosso arquivo de “modelos”. Vim encontrar em Lisboa, nas escadas de acesso ou na própria sala de espera dos Cartórios Notariais, umas figuras semelhantes que elucidavam quem não sabia e serviam de testemunhas em todos os actos notariais.

[Rua D. Sancho II, na Vila de Alcoutim e onde sempre viveu Primo Antunes]

Também cobrava as avenças para o Dr. João Francisco Dias. Avença era uma contribuição para uma espécie de “Serviço Local de Saúde” que o Dr. Dias tinha criado no início dos anos 30 quando veio para Alcoutim. Assim os doentes acediam aos seus serviços gratuitamente. Pagavam quando não estavam doentes, salvo erro vinte escudos por ano por cada família. Uma avença que o Dr. Dias respeitou, penso que, até ao fim da sua vida, o que equivalia a trabalhar gratuitamente para quase toda a população do concelho.

[A casa de azul foi a 1ª que a família Antunes habtou]
Foi na mão do Primo Antunes que cerca do ano de 1948 vi pela primeira vez uma esferográfica. Ele só a utilizava em usos muitos restritos, dado que as entidades públicas não o autorizavam nos documentos oficiais, receosas de que esta tinta desaparecesse com o decorrer do tempo.

Este homem era natural do Azinhal concelho de Castro Marim. Tinha formação musical teórica, o que era muito raro encontrar em Alcoutim, mesmo em pessoas que tocavam instrumentos. Ainda tentou dar-me alguma formação musical para execução em bandolim. Fez-me algum jeito como cultura geral tê-lo ouvido falar de claves, de notas breves, semi-breves, colcheias e semi-colcheias. Mas como executante nunca consegui distinguir um sol dum mi.

Era jovem quando veio para Alcoutim e deu o seu contributo ao Clube Recreativo, primeiro como rijo futebolista e, mais tarde, segundo diz o Amílcar Felício deu colaboração na pequena biblioteca.

Tive oportunidade de ver dois dos seus símbolos de autoridade como guarda-rios, que poucos em Alcoutim terão visto. O crachá que ele devia usar sempre no chapéu e não usava. A espingarda (semelhante a um canhangulo) com umas balas muito toscas de chumbo, que ele poderia usar quando em trabalho de campo. Em vez de trazer o crachá no chapéu, ele o trazia sempre no bolso, seguro a um elástico preto. E se acontecia aparecer um chefe, ele rapidamente o tirava do bolso e o colocava no chapéu para se apresentar. Era um funcionário público, guarda ao serviço da Direcção Hidráulica do Guadiana. E teria a incumbência de fiscalizar a pesca ilegal e as respectivas licenças para águas interiores (Ribeiras) e a limpeza do mato e outros obstáculos nos barrancos tais como a construção de muros. Penso que, mesmo à distância, sem muito se dedicar a visitas ao terreno, ele cumpria.

[Casa que habitava Primo Antunes quando se reformou]
Em vencimento e dignidade era equivalente a cantoneiro da Junta Autónoma das Estradas. Os cantoneiros tinham porém um certo grau de ciúmes pois os seus esforços e utilidade visível eram muito distintos.

Sendo um trabalho que pouco o ocupava, dividia esse tempo fazendo escritório nos mais variados sítios: celeiro, repartições públicas e até… nas tabernas. Por fim veio a ter um escritório no largo da “Aparada”. O tipo de trabalhos que por vezes executava, de um simples requerimento para pessoa amiga a quem nada cobrava. Morava na parte alta da Vila na Rua D. Sancho II, tendo mantido sempre um relacionamento pouco amistoso com a proprietária do prédio, pelo que depositava as rendas à ordem do Juiz da Comarca. Era uma prática que eu nesse tempo desconhecia.

Quando se reformou foi viver para o Azinhal no concelho de Castro Marim onde veio a falecer. Fica assim a lembrança desta figura de que gostávamos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A importância da árvore na herança alcouteneja

Já tenho referido em vários textos este assunto mas nunca o fiz numa análise individual.

Quando cheguei a Alcoutim e me apercebi que existiam árvores, nomeadamente oliveiras, de duas ou mais pessoas, fiquei embasbacado. Depois e perante a minha admiração foi-me dito que existiam árvores em terrenos de outras pessoas, o que reforçou a minha admiração já que não conhecia nada semelhante.

Naturalmente que isto não aparece por aparecer, tem forçosamente que ter uma explicação.

Numa explicação simples e procurando um exemplo elucidativo, admitindo que ficaram por herança duas propriedades rústicas de terreno e áreas semelhantes, dava-se a circunstância que uma delas possuía três oliveiras. Supondo dois herdeiros, aquele que ficaria com o terreno que não tinha oliveiras nem qualquer outra árvore, caber-lhe ficar com uma e o outro com duas pois era a sua terra que as alimentava e além disso ficava mais devassada.



Poder-se-á perguntar porque não haveria tornas a quem ficasse mais beneficiado? Existem, segundo o nosso ver, duas razões para o facto: 1ª - as árvores eram escassas nesta região e o seu fruto indispensável para a subsistência directa no caso da oliveira e indirecta por exemplo quando se tratava de azinheiras cujo fruto se tornava importante para a alimentação dos animais domésticos, nomeadamente do porco. A carne de porco e o azeite, a que se juntava o “pão” (trigo) eram o sustentáculo deste povo; 2ª – o papel moeda era escasso e ainda no primeiro quartel do século passado, a troca frequente, trocando-se trigo por louça de barro, ovos por sardinhas ou petróleo, por exemplo. O pouco dinheiro existente tinha destinos obrigatórios como acontecia com as décimas (contribuição predial).

Que seja do meu conhecimento, as árvores utilizadas nas situações que apresentámos, eram a oliveira, azinheira e o sobreiro. Não tenho conhecimento de mais nenhuma.

Estas situações passavam de pais para filhos, desconhecendo muitas vezes os proprietários as suas origens.

Tenho conhecimento de oliveiras pertencerem a três e mais pessoas!



Conheci um caso em que um apreciável número de azinheiras que se situavam nos arredores da Ribeira de Cadavais, para os lados da Corte Tabelião, davam origem a cinco quinhões, quase todos já divididos.

Havia um acordo entre as cinco partes iniciais, que tinha origem em tempos que ninguém conhecia e em que havia um único dia para a sua apanha, o dia de Todos-os-Santos. Cada quinhão fazia-se representar por um determinado número de pessoas e se alguém faltasse nesse dia da apanha, perdia o direito ao fruto.

Os homens velhos faziam os montões dos cinco quinhões, se todos estivessem representados e depois, cada quinhão era dividido nas partes que o constituíam, devido às heranças que o decorrer dos anos tinham originado.

Diz-nos a nossa informadora que se juntavam vinte ou trinta pessoas e que ela fez muitas vezes este trabalho. Algumas das pessoas não se conheciam como família, vindo algumas de montes relativamente distantes.

Ainda hoje a nossa informadora, já octogenária, desconhece de quem era a terra onde se encontravam as azinheiras.

Faltará dizer que, ainda que pareça impossível, estavam inscritas na matriz predial rústica algumas árvores nestas circunstâncias.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O vinho "caseiro"

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 31 DE MARÇO DE 1994-MAGAZINE)

O concelho de Alcoutim é um dos mais pobres do país.

É aqui, em plena serra algarvia que se encontrava o mais baixo rendimento agrícola nacional: apenas quinhentos escudos por hectare, isto em relação a 1970, quando a amêndoa ainda se vendia menos mal (1), se semeava algum trigo e havia mais braços de trabalho.

Habituado à paisagem vinhateira, quando ali chegámos, sentimos a sua falta. “Vai daí”, perguntei se pelo concelho não havia vinhas, se não se fabricava vinho.

As informações e explicações dadas sobre o assunto deixaram-nos embasbacados, já que nada tinham a ver com aquilo que conhecíamos. Ficava tudo para trás do nosso horizonte!

O que então encontrámos, e já lá vão quase trinta anos, mantém-se hoje com algumas pequenas diferenças.

As pequenas vinhas existentes situavam-se nas várzeas do Guadiana, principalmente nas zonas de Premedeiros, Lourinhã, Vale de Condes e Vinagre. Eram “feitas” por mergulhia ou “atanchando” (2) varas. A reprodução fazia-se assim “directamente” e não por enxertia do bravo.

Distante das margens do rio, junto dos barrancos, onde os terrenos são mais profundos e frescos, existiam os parrões .

A vara enraizando com mais facilidade, trepava pelos loendreiros com o auxílio das gavinhas, deixando livre o terreno que se aproveitava para qualquer mimo hortícola, já que, muitas vezes, existia perto pequeno poço do qual se extraía, quando necessário, caldeiras de água para pequenas regas.

A cava e a pode constituíam o tratamento dispensado.

Quando me disseram que não se fazia a “cura”, não queria acreditar. Adquiri um pulverizador para o fazer e ofereci os meus préstimos que de uma maneira geral foram rejeitados – acreditavam que aquele líquido é que iria fazer mal às parreiras!

Hoje, a maioria já não pensa assim, pelo que a cura se faz. Há pouco me contou um amigo que quando jovem abandonou o seu “monte” indo procurar uma vida melhor, fixou-se no concelho de Palmela, grande produtor de vinho. Quando dizia que na sua terra as parreiras não eram tratadas, quem o ouvia tinha dificuldade em compreender, concluindo sempre que assim, não davam uvas.

Segundo me constou, já há quem se dedique à cultura de uva de mesa, utilizando técnicas modernas.

Já me foi dado ver, apesar do longo afastamento, pequenas vinhas “aramadas” em Santa Marta, Diogo Dias e Fonte Zambujo do Meio.

Além das doenças próprias, o alcoutenejo considera as vespas as grandes destruidoras das uvas e para o evitar, quando os cachos eram poucos, muitas vezes optava por embolsá-los, isso é, colocá-los dentro de uma parte de meia velha que de certa maneira os protegia. Até agora e em qualquer outra parte do País, nunca vi tal!



Além das “assarias”, entre outras castas tenho ouvido referir “tintilho” (sugere-me influência espanhola), “olho-de-perdiz” e “olho de lebre”.

Depois deste pequeno apontamento, em que guardámos o fabrico do vinho para um pouco mais adiante, por motivos que então se compreenderão, e em que rebuscámos a nossa memória, iremos explanar o que compilámos com algum sentido histórico, um dos apanágios pretendidos nos meus escritos.

No século XVI existem referências a variadíssimas vinhas.

Sabe-se que Lourenço Martins Orraco traz uma vinha no Pontal de que paga cada ano dez reais, António Dias, outra no mesmo local, pagando dezasseis reais, Nicolau Estevens Queimado paga, de foro pela vinha de Premedeiros, quarenta reais, outra vinha na Várzea do Moinho, explorada por André Pires e João Afonso Vilão trata de outra na Cova de Santa Maria.

Mais outras podíamos indicar na Lourinhã e nos Carreiros, Era tudo propriedade da Capela de Nª Sª da Conceição.

O vigário de São Salvador de Alcoutim tinha de mantimento, entre outros, vinte e sete almudes de vinho. (3)

Frei João de S. José (4), e também com referência ao mesmo século, faz-nos descrições e fornece-nos informações importantes sobre as vinhas e o vinho do “Reino do Algarve”.

Não vamos aqui transcrever o que o erudito frade escreveu sobre o assunto mas transmitir as ideias e uma ou outra leve transcrição para assim podermos ser mais concretos.

Diz o frade que a vinha neste “Reino” difere da de Portugal por se não cavar nem empar. Como castas importantes refere as mouriscas, de que se faz vinho e as chamadas assarias, destinadas a passas.

As uvas que se destinavam a vinho, eram postas a secar, ao sol, durante doze a treze dias. Parece que este uso teve origem nos romanos.

Quanto ao fabrico do vinho, vamos transcrever o que para o efeito considerarmos mais importante: “É pois o caso que todos os Algaravios, para fazer o seu azeite e vinho, já têm em suas casas um ou dous lagares de pau, feitos de duas ou três tábuas grossas, pesadas, muito juntas sobre ua s travessas com suas bordaduras ou torno, as quais assim juntas fazem cinco, seis palmos em largo e oito, nove em comprido, à maneira de tabuleiro, e a isto chamam eles lagar. Tem ua bica no meio duma das cabeceiras e asentam-no sobre dous banquinhos pêra isto feitos, quando se querem servir dele; e, acabado o seu ofício, encostam-no a ua parede té que o tornam a haver mister”.



“É tão fácil e maneiro este engenho que o carregam sobre qualquer besta e o levam de um cabo pêra o outro com pouco trabalho e serve de lagar de azeite e também de vinho, como o alimparem primeiro”.

“A maneira de fazer o vinho é a mesma que do azeite, de maneira que não há mais ciência nisto que meter as uvas na saca, como fica dito da azeitona e, no próprio lagar bem lavado, pisá-las muito bem e dar-lhe o arrocho té três vezes e sai o vinho limo…” (5)

O que acabámos de transcrever e que foi publicado em 1577, tem muita aplicação ainda nos dias de hoje. O alcoutinense continua a fazer o seu vinho num lagar de pau, só com a diferença do tampo constituir uma peça única e em lugar dos bancos para suporte, usam-se três pés implantados, A estes lagares de pau, chama o homem da serra queijeiras. Quando tal me disseram, pareceu-me justificar o nome como engenho onde se faziam queijos, o que, contra a nossa expectativa, não nos foi confirmado. Se alguma vez teria sido, diziam os meus informadores, ninguém se lembra dos queijos serem feitos ali; aquilo só se destinava ao azeite (o que já não acontece) e ao vinho, que ainda continua.

Após desenhar as queijeiras que acompanham para documentar este escrito e já com um segundo sentido, perguntei a um amigo, natural do distrito de Portalegre, se conhecia aqueles engenhos o que facilmente confirmou, ainda que presentemente sejam raros. Ali, no Alto-Alentejo, aqueles objectos destinavam-se ao fabrico de queijo, aliás, como o nome indica.

Parece-nos que o “lagar de pau” do litoral, e por haver muito menos produção de uva na serra, seria substituído, devido a análogos existente, pela queijeira que nessa altura serviria para fazer queijos.

Perdeu o uso, ficou o nome. No Alentejo permaneceram as duas coisas.

Conheci quem juntava ao mosto, alfarroba, o que dava ao vinho um paladar agradável e uma cor característica. O hábito de juntar frutos ao vinho virá pelo menos do tempo dos árabes.

Silva Lopes, que realizou grande trabalho monográfico sobre o Algarve, considera que as várzeas de Alcoutim são férteis e abundantes em vinhas, além de outras culturas. Afirma ainda que o primeiro trabalho que se lhe faz, é a cava junto à cepa, antes de lhe cair a parra, seguindo-se a poda, em Janeiro, voltando a cavar-se em Abril ou Maio, mas não se empam. A vindima é feita em princípios de Setembro.

As vinhas ficaram bastante estragadas e muitas deixaram de ser vindimadas em 1833 e podadas em 1834 devido à guerra civil. (6)

Em 1867 chega ao nosso país a doença da filoxera, oriunda dos Estados Unidos. Devastou as nossas vinhas principalmente na região do vinho do Porto. (7)

A filoxera era um insecto muito pequeno, do grupo dos afídios.

Em 1874 o presidente da Câmara recebe um mapa para preencher com o fim de se conhecer o estado das vinhas no concelho e da sua produção. Por ser muito técnico o seu preenchimento, não se atreve a fazê-lo, enviando contudo nota designando os sítios e milheiros de cepas em cada localidade e a sua produção em almudes. Que pena não termos conhecimento desses números e dos locais. Acrescenta ainda que a uva, sendo muito boa para comer, não o é para mosto e por isso se vende para consumo do concelho e para os portos de Vila Real e Pomarão. (8)

Em 1880 e em resposta ao Agrónomo do Distrito de Faro, o Administrador do Concelho, Manuel José da Trindade e Lima, informa que nas vinhas próximas da vila (nomeadamente uma das melhores que possui) apareceram primeiramente muitas cepas afectadas da moléstia conhecida pelo nome de “cinzeiro” (9) e mais tarde, muito antes dos calores, secaram-se todas as “espigas”, morrendo totalmente algumas cepas e ficando muitas outras sem parras. As cepas mais afectadas são as de uva branca.

Continua a informar que no dia seguinte tenciona mandar arrancar algumas cepas e observá-las minuciosamente, para ver se encontra nas raízes ao “galhos ou verrugas” que me são indicados. (10)

Efectivamente, oito dias depois, o Administrador informa que tendo examinado minuciosamente as raízes de algumas cepas, não foi possível descobrir a filoxera nem outro qualquer insecto. Posso contudo dizer com convicção que me dá a experiência de muitos anos, e continua o Administrador, que o mal aparecido este ano em muitas vinhas deste concelho e a forma horrível como foram atacadas e os estragos que nela produziu, nunca eu nem muita gente aqui viu, conclui o administrador. (11)

No final do ano comunica-se que o concelho produziu 5 250 litros de vinho, isto porque a inundação de 1876 arrancou e fez desaparecer completamente todas as vinhas que existiam na margem do Guadiana, seu local de maior implantação. (12)

Dois anos depois é constituída a Comissão Concelhia Antifiloxera, composta por sete elementos e chefiada pelo presidente da Câmara, Manuel António Torres. (13)

Em 1883 volta a informar-se que é pouca a importância vitícola do concelho, sendo a sua produção consumida em “verde”. A Comissão de Vigilância ainda não tem pesquisador habilitado para a inspecção da filoxera, nem ainda se resolveu preparar indivíduo algum para esse serviço. (14)



Na Sessão da Câmara de 5 de Julho de 1884 é deliberado convidar um indivíduo para se deslocar a Santarém a fim de estudar ou habilitar-se a conhecer a moléstia das vinhas conhecida por filoxera.

Em 1889 continua a informar-se que não se tem descoberto, por enquanto, neste concelho, o mal da filoxera, o que tem predominado com muita intensidade é o oídio que bem tem prejudicado as vinhas. Pedia o Administrador do Concelho que lhe fosse indicada a melhor5 forma de o atacar. (15)

Não tem havido plantação de vinhas e a uva produzida nos poucos bocados que há, é consumida em verde. Segundo os cálculos, importa o concelho 45 728 litros por ano. Igualmente se informa que não se fabrica aguardente no concelho. (16)

Sabe-se contudo que António Joaquim Pinto fabricava essa bebida na vila, em 1843, onde existiam oito casas públicas que a vendiam. (17)

Acabámos de referir o que conseguimos obter em trabalhos publicados e por pesquisa própria, oral e escrita, sobre a vinho caseiro, como os alcoutenejos e todos os homens da serra algarvia chamam ao pouco vinho que fabricam. Não me consta que alguma vez tivessem avaliado o seu teor alcoólico.

Na primeira metade deste século, um conhecido comerciante da praça de Mértola deslocava-se frequentemente na época de caça à parte norte da freguesia de Alcoutim. Parece que o principal motivo não era a caça mas sim o “caseiro” que muito apreciava, produzido pelo Ti Virgolino, de Afonso Vicente.

Pensamos que se houvesse um estudo adequado, os terrenos xistentos da serra algarvia podiam produzir um vinho generoso de qualidade apreciável.

NOTAS

(1) “As Serranias de Alcoutim, a mais deprimida zona portuguesa”, Roby Amorim, em O Século, de 22 de Julho de 1975.
(2) Vide Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1988.
(3) Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.
(4) “Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Sá da Costa, Editora, Cadernos, Revista de História Económica e Social – 3, Manuel Viegas Guerreiro e Joaquim Romero Magalhães, 1983.
(5) Idem. Ibidem.
(6) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841.
(7) História de Portugal, Vol. IX, Joaquim Veríssimo Serrão, pág. 264.
(8) Ofício nº 108 do Administrador do Concelho de Alcoutim, de 13 de Novembro de 1874.
(9) Doença provocada por certos fungos, oídios.
(10) Ofício nº 57 de 16 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(11) Ofício nº 63, de 24 de Julho de 1880, dirigido ao Agrónomo do Distrito de Faro.
(12) Ofício nº 161, de 3 de Dezembro de 1880, dirigido ao Governador Civil de Faro.
(13) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 9 de Novembro de 1882.
(14) Ofício nº 18 de 20 de Janeiro de 1883 ao Presidente da omissão Central de Antifiloxera do Sul, dirigido pelo Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(15) Ofício nº 19 de 28 de Janeiro de 1889 ao Agrónomo da 9ª Região – Lobular.
(16) Ofício nº 160 de 29 de Agosto de 1889 do Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim.
(17) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 22 de Dezembro de 1843.