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terça-feira, 25 de junho de 2013

As minhas memórias mais próximas (XLIX)




Escreve

Daniel Teixeira



JORNAL RAIZ ON LINE

COLUNA UM
  
COMEÇAR DE NOVO OU MUDAR DE VIDA

Fiquei um pouco surpreso quando li no Blogue Alcoutim Livre, dirigido pelo amigo José Varzeano, que este ia, pelo menos, suspender a actividade do Blogue, por todo um conjunto de razões que aponta. O meu conhecimento directo com o José Varzeano é praticamente nulo, e digo praticamente porque na verdade acaba por haver sempre um conhecimento directo através do conhecimento indirecto que a Internet faculta.

Entre as razões apontadas, para além das familiares que eu conheço tão bem, há sempre aquela razão que como se costuma dizer «faz transbordar o vaso». Embora não acredite muito que uma só razão seja a gota de água, ou que essa razão possa funcionar como tal (é preciso não esquecer que para o vaso transbordar é preciso que esteja cheio) pareceu-me entender que havia da parte deste amigo alguma frustração pela quebra estatística de leituras no Blogue.

Bem... gostaria de contar algumas partes da minha história que se enquadram dentro deste discurso: no meu primeiro tempo de Internet havia um site no Brasil, dirigido pelo Soares Feitosa, que era uma verdadeira enciclopédia de poesia e de poetas. Havia ainda um outro Blogue que se dedicava exclusivamente a divulgar poetisas que praticamente tinha tudo sobre a poesia feminina ou feita pelo sexo feminino, havia...havia...havia, todo um conjunto de sites, em plena pujança, que na altura, em páginas minhas que ainda vão mexendo, eu colocava como referências.

De tempos a tempos faço uma volta por esses sites (que durante estes anos todos juntaram milhões de visitas - 1.874.890 neste site, por exemplo) isto apesar de eu não lhes mexer (já nem sei os códigos de acesso e nem me tenho preocupado muito com isso) e verifico que daqueles links que eu forneci na altura, há talvez 10 anos, muito poucos estão «vivos».

Por outro lado, em pesquisas sobre coisas antigas, sou confrontado muitas vezes com sites informaticamente activos, mas sem actividade há cinco anos, quatro, etc. O post de despedida encima muitos deles, com explicações que normalmente se relacionam com o tempo de vida de cada site ou blogue, ou seja, entende-se que os sites e os blogues, pelo menos na forma expressa, têm um tempo de vida e que todas as coisas têm um fim.

Verdade, um dia também nós seremos confrontados com essa ideia. As coisas cansam, e mesmo quando não cansam os leitores cansam quem as faz. A sensação que se adquire ao ver que as coisas não correm bem (menos leitores, menos visitas, menos comentários, etc.) são de facto frustrantes para quem dá o corpo todo e a alma a um projecto que não vê correspondido. Mas não vê correspondido como (?): segundo as nossa expectativas, é claro. Das expectativas dos outros (aqueles que nos lêem, comentam ou colaboram) ninguém sabe ou sabe muito pouco.

Eles estão para lá do ecrã, podem muito bem dar-nos incentivos que funcionam do género do quase sempre inócuo «gosto» no Facebook, outros vão mais longe e colaboram mesmo de forma mais activa, mas também podemos perguntar-nos quando chegará (se chegar) a altura dessas pessoas mais próximas serem confrontadas com a tal ideia que referimos acima, ou seja, que todas as coisas têm um fim?

Não é propriamente um mundo complexo o mundo da internet nem o mundo da nossa actividade na internet: a efemeridade pode ser mais pronunciada ou menos pronunciada mas ela existe e faz parte do jogo. Como em tudo, aliás...o belo tempo em que não havia machado que cortasse a raiz ao nosso pensamento em muitos casos já foi, já foi mesmo e não volta aos sítios donde partiu.

Por isso somos forçados, pelas circunstâncias, a ser ainda mais efémeros que a efemeridade. No nosso caso contamos as semanas, semana a semana e esta foi mais uma.


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Crónicas e Ficções soltas - Alcoutim - Recordações - LI




Escreve

Daniel Teixeira




O ESTRANHA LEVEZA DO BUCÓLICO

 Para mim, e para a larga maioria das pessoas, penso eu, dissertar sobre a desertificação humana de espaços não implica que o estudante se debruce exclusivamente sobre aquilo que podem ser consideradas as razões para que a tal de desertificação humana (sócio - económica) tenha tido lugar.

Desertificação existe em qualquer lado, sendo que nuns locais pode ser mais dramática nos seus resultados do que noutros. Aqui em Faro (cidade do Algarve cercada por mares e rias, campinas e um pouco de serra baixa) é recorrente o debate sobre a desertificação que se verifica na tradicional e histórica Baixa Farense.
Tradicionalmente e psicologicamente acoplada ao pequeno comércio, são relativamente poucas as pessoas que não atribuem ao surgimento das grandes superfícies e consequente deperecimento dos pequenos negócios habituais o actual estado (lastimável) em que a mesma baixa farense se encontra. Contudo aqui será necessário saber o que nasceu primeiro, se o ovo populacional se a galinha comercial.

E na verdade isto é quase como a Bíblia: primeiro foi o verbo humano. E por mais que seja difícil sustentar esta tese o certo é que o comércio foi crescendo à medida que as pessoas se concentravam nos iniciais passeios públicos e que um factor terá influenciado o outro em reciprocidade. E depois foi também o ovo populacional que se foi indo embora obrigando o pequeno comércio a ir progressivamente e em reciprocidade fechando as portas.

Bem argumentaram os pequenos comerciantes em carência, contra a besta monopolista, trazendo argumentos daqueles de puxar ao coração, mas esses argumentos não sustiveram, provavelmente nem por um segundo, o movimento que se desenhava havia já bastante tempo e que a necessidade de adaptação obrigava a ter tido em conta.

Ora, e por falar de coisas do coração, embora o risco pessoal ao escrever isto seja pelo menos maior que zero, eu até por mim mesmo, conheço de larga data as razões, quase sempre repetidas em primeira resposta, sobre aquilo que são os resultados de uma deslocação à Serra e à terra dos seus antepassados: «é um descanso extraordinário, não se ouve barulho nenhum, fugimos a este ambiente da cidade, usufruímos daquela paz que não há em mais lado nenhum, enfim...adorei lá estar.»

Contudo, também a minha experiência pode ainda ser cientificamente cínica para reconhecer que uma parte substancial das pessoas (não quero dizer todas porque existe sempre a possibilidade da excepção à regra) não fica por lá mais de uma semana, ou mesmo duas.

E não fica porque a tal «paz» também cansa e ouvir crescer as ervas não chega para contentar os nossos tímpanos. Beber aquele excelente café de cafeteira, de borras coadas ou assentadas, é óptimo, mas não dispensa a bica de máquina. Levar uns nacos de queijo (que até pode ser de cabra ou ovelha) comprados na grande superfície citadina pode dar um ar de graça campestre, mas dá só o ar.

Aboletar-se à volta de um pão caseiro (citadino) descascando-lhe as côdeas e mesmo alinhavando uma açorda à serrenho é simpático, meter dois ou três ovos a escalfar na água é bonito, mas...há sempre uma quantidade grande de «mas», porque os nossos hábitos são provisoriamente «mestiços» com uma larga percentagem de negritude urbana.

Por isso não façamos, na minha opinião, alarde do nosso extremado gosto pelas nossas origens, sobretudo e por maioria de razão porque nos pirámos de lá - lembremo-nos sempre disso -  e isso, o piranço, terá sido seguramente por alguma razão ou por muitas.

Será preciso encontrar uma forma de convivência entre as duas realidades de que somos feitos, ou de que nos fomos fazendo e isso não depende unicamente, nem pode depender de nós mesmos nem da nossa esforçada boa vontade de coração ou simulação bem intencionada de que estamos ou estivemos, enquanto lá estivemos, no melhor dos mundos.

Estive em França, pouco tempo depois do Maio de 1968 e o «make love not war» lá no sítio levou muitos reformados antecipados a enveredarem pelos campos: as casas eram relativamente baratas e espaçosas, o terreno para plantio estava mesmo ali e nos primeiros tempos as pessoas que fui conhecendo fizeram verdadeiros milagres de inovação agrícola: depois cansou.

A diferença via-se em cerca de seis meses: o regadio antes viçoso estava, passado esse tempo, mais para lá do que para cá, os coelhos e galinhas antes cuidadosamente albergados em espaços largos passeavam por tudo quanto era sítio e achar um ovo posto por uma galinha e acertar no teste da flutuação com uma data de postura aceitável era assim quase como ganhar um prémio.

Por isso não tenhamos ilusões porque a nossa boa - vontade e o nosso idealismo bucólico não vai chegar: é preciso um feedback razoável do lado da parte mais fraca, que é aquela que é tão levemente sustentada por nós mesmos. Será preciso que as condições nos locais se aproximem também da nossa capacidade de encaixe. Tem de haver um movimento de aproximação nos dois sentidos e com uma larga participação das condições envolventes.

Neste momento, e por aquilo que vou sabendo, a vida em ambiente de aldeia pode tornar-se relativamente aceitável para um citadino adoptado. Tudo o que for abaixo disso em termos de ambiente e condições estruturais não vai conseguir captar voluntários de longo fôlego. Aos Montes e terriolas mais pequenas resta fazer o tal apelo ao coração que tão pouco resistente infelizmente é e manter uma salutar alternância entre o coração e a necessidade prática.


Os nossos avós (e nalguns casos os nossos país) foram por lá ficando porque era ali a vida deles. A nossa vida já não é lá e na maior parte dos casos nunca foi. Um pouco de realismo nunca fez mal a ninguém e lutar contra moinhos de vento pode trazer resultados inversos e levar-nos de vez a jogar a toalha ao chão neste complexo ringue social.

sábado, 8 de junho de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - L



  
Escreve

Daniel Teixeira




POVOAMENTO E ABANDONO

Esta minha crónica foi em grande parte despertada pelo excelente texto do meu parente António Afonso sobre o Monte dos Medronhais que pode ser lida aqui e que me levantou algumas questões em quase resposta ao seu texto. Para quem não leu ainda essa crónica de António Afonso devo dizer que o que me levanta curiosidade e questões é o facto de haver no Concelho de Alcoutim, e por esse Portugal rural fora seguramente, Montes (Povoações) unifamiliares.

Ora, na minha perspectiva, a unifamiliaridade de povoamento, ou o número de habitantes por local, tem a ver sobretudo com o volume dos recursos disponíveis a ser explorados através de uma dada localização geográfica. Penso que seja lógico pensar-se assim e a própria experiência adquirida nos restantes Montes, sejam eles do Concelho de Alcoutim ou outro, demonstra de alguma forma isso.

Quando eu falo de Alcaria Alta, por exemplo, pergunto-me quase sempre, directa ou indirectamente, porque existe uma aglomeração e uma relativamente forte concentração habitacional em espaços que em termos de construção são de difícil trato.

Já referi, por exemplo, que a casa da minha avó foi construída em cima de um rochedo que obrigou ao enchimento em pedra solta e provável entulho de uma grande parte do seu corpo para nivelamento do conjunto habitacional da casa, assim como tenho referido locais de difícil acesso diário, cuja justificação única que se poderia apontar seria o facto de a posse da propriedade a isso ter obrigado.

Mas também já referi que o meu avô tinha uma arramada a cerca de cem metros de casa que não era utilizada senão para armazenamento de palha, quando na verdade os animais e ele mesmo, ficariam muito melhor servidos nessa outra localização, não fora o contra de as bestas terem de comer durante a noite ou madrugada.

Isto para dar a entender que, na minha opinião, existia um factor que levava ao agrupamento habitacional que se não prendia (pelo menos exclusivamente) com a falta de alternativas vistas agora, na nossa perspectiva, mas que requeria uma relação de vizinhança tão aproximada quanto possível.

Ora, quando aparece, nas crónicas, neste caso no Alcoutim Livre, um Monte isolado e unifamiliar o  bichinho da minha curiosidade é despertado pela contradição entre o narrado e a cultura por mim construída. Sei por exemplo, que no litoral, as «hortas» são na sua grande parte separadas entre si pelas  delimitações dos terrenos e sua pertença, e logicamente pelo facto de constituírem unidades específicas, alegadamente auto-suficientes.

Quando isso não acontece, ou seja, quando existe o caso de partilhas, aqui nos arredores de Faro, por exemplo, que «desmembram» a propriedade inicial, mantém-se a separação apesar de haver partilha conjunta de um recurso, neste caso, a água ou a nora, mais especificamente.

Assim, o nosso colaborador e amigo Dr. João Manuel Brito Sousa, aqui da zona montanheira dos arredores de Faro, mais concretamente Braciais - Patacão, refere textualmente o seguinte: «Lembro-me muito bem dessa língua de terra, que a minha mãe tinha lá em baixo, aonde às vezes a rega calhava de noite, pois a água vinha de uma nora de cinco ou seis herdeiros, e muitas vezes eu ia com o Manel fazer a rega, de candeeiro de carro na mão, às quatro da matina.» aqui (link).

Isto para dizer que a tendência para construção de habitação nesta zona é a proximidade com o terreno de cultivo, apesar de...conforme vimos acima... Ora, em Alcaria Alta (o Monte que melhor conheço) este processo de agregação parecia desobedecer a todas as regras lógicas, segundo a nossa (ou a minha) lógica actual.

Nunca vi ninguém aproximar-se (em termos habitacionais) de um poço, nem de uma parte de propriedade que fosse mais relevante no globo da sua propriedade. Foram sim os poços que se aproximaram dos Montes (conforme também foi referido já pelo José Varzeano quando da construção em Alcaria Alta do poço comunitário dos Tomázes - à entrada do Monte para quem vem de Giões pela estrada).

E por outro lado foram os terrenos ou hortas mais longínquas da habitação que foram relegadas para culturas ou planos secundários. Já aqui falei da Horta do meu Tio Afonso, nas Eiras Velhas, próxima do Ribeirão, à qual era dedicada muito pouca atenção e que praticamente se limitava às operações de colheita de frutos (uvas sobretudo) e plantação de cevada ou centeio.

Esta crónica já vai longa e ficam muitas questões para esclarecer, e vão ficar, mas o que mais me intriga é realmente a unicelularidade deste referido Monte dos Medronhais.

Ficará para uma próxima oportunidade tentar esclarecer se se trata de um Monte à Alentejana, ou se se trata de um caso excepcional dentro daquilo que considero ser a ancestral  lógica serrenha, acabando por ter (por uma questão de uso ou prestígio) um topónimo de colectivo quando na verdade se trata de uma habitação isolada.


sábado, 11 de maio de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLIX





 Escreve

Daniel Teixeira




HISTÓRIAS POSSÍVEIS POUCO CONFIRMADAS

Como se sabe, Alcaria Alta não é uma povoação fronteiriça e mesmo agora com as melhores estruturas rodoviárias não é fácil ir de Alcaria Alta a Espanha, mas havia, curiosamente, muitas histórias que me eram contadas relacionadas com Espanha.  

Como já tenho dito o meu avô dedicou-se à actividade de contrabando em pequena e para mim inocente medida, mas no seu caso eu acho que ele sempre foi um andarilho, naquele sentido de procurar sempre coisas diferentes e para conseguir isso tinha de se deslocar a sítios diferentes.

Não se pode dizer que tenha corrido muito no sentido actual, até porque naquele tempo correr muito era andar para aí num raio de cinquenta ou setenta quilómetros: tinha uma série de profissões base, desde tosquiador a cardador, a pastor, a lavrador, a ceifeiro, a podador, a comerciante, a contrabandista, trabalhador braçal em estradas e caminhos de ferro, enfim, não devo esgotar aqui todas as artes que ele exerceu, mas dou uma ideia que qualquer uma delas, se excluirmos a semi – sedentária de tratar das suas terriolas, implicava deslocação.  

Normalmente as herdades do Alentejo no caso da ceifa, os montes em redor para tosquiar e cardar, a serra de Tavira para o comércio das panelas de barro, a zona de Castro Marim a Alcoutim para trabalhar na estrada, e já mais no litoral para trabalhar nos caminhos de ferro, na instalação das linhas e todo o conjunto de coisas que isso implicava, desde trabalhar de picareta a carregar carris.

Sem que se possa tomar como exemplo este caso único é preciso acrescentar que o meu avô não era caso único. Normalmente deslocavam-se grupos para um lado e outro, para uma profissão ou outra no sentido de conseguirem complementar aquele pouco que a terra lhes dava, embora eu sempre tivesse a sensação que nunca faltava comida, coisa que parece ser comum ou normal em zonas rurais de todo o mundo, se excluirmos aquelas que sofrem efeitos constantes de secas.  

Poderia não haver bifes mas havia pão, queijo, chouriça, morcelas, cozidos de couve, grão, nacos de presunto e toucinho, ovos, ervas aromáticas, ervilhas, favas, batatas, enfim...ainda sinto o cheiro dos cozidos de couve portuguesa a abobrarem à rés das brasas na panela o dia inteiro.


Talvez a zona nordeste algarvia estivesse, em termos da globalidade que atrás referi, numa zona limiar entre as zonas de seca e as zonas com chuvas regulares, e por vezes excessivamente abundantes, mas este tipo de alternância sazonal fomentava a migração de proximidade, o aproveitamento de algumas obras públicas que necessitavam de mão de obra não qualificada, o trabalho nas minas, enfim, se formos contar hoje por aquilo que sabemos raro é o filho da terra que por lá se ficou a seguir aos anos 60 o que singularmente quer dizer que as alternativas migratórias de proximidade existentes deixaram de produzir o efeito esperado.

Na região litoral do Algarve o mesmo se passou, e passa, quando a indústria começou a ser mais escassa e o turismo, como fonte alternativa de alimento não estava - e ainda não está nem nunca estará - implantado ao ponto de ser uma valência real de emprego duradouro e fixação populacional. 

Lembro-me que ser empregado na hotelaria nos anos 60/70 era ter de percorrer todo o Algarve litoral, da ponta de Sagres a Vila Real de Sto António, por vezes por períodos escassos de três meses no Verão e regressar a penates para «passar o inverno» nalguns trabalhos ocasionais que fossem surgindo. Neste plano o fenómeno da migração não é exclusivamente serrano, ainda que se possam encontrar diferenças nas graduações.

Havia no entanto, nesta relativa pacatez serrana do período sedentário histórias que se contavam e para além das mouras encantadas, que requeriam um pouco de imaginação, havia histórias sobre as deslocações feitas, o trato dos patrões e contramestres e toda a envolvência que funcionava como um jornal ou enciclopédia oral servindo de informação e cautela nas deslocações futuras.

Mas, quase fora destes contextos, e ombreando em termos de desfasamento com o real do dia a dia num sector específico da memória colectiva havia as histórias sobre a guerra civil de Espanha. Para além da leitura conjunta do jornal à porta do avô da Odília Guerreiro chegavam entremeadas algumas notícias sobre fuzilamentos na raia envolvendo portugueses. Sei de cor duas, uma com um final mais ou menos feliz e uma outra que terá custado a vida ao incauto e inocente pastor da nossa nacionalidade.

Eram os chamados fuzilamentos por engano: as tropas ou as patrulhas franquistas chegavam a determinada povoação onde lhes teria constado por meio de informadores que havia por ali gente republicana e por aquilo que me diziam a escolha era feita de forma aleatória.  

O que salvaria os portugueses seria o facto de não serem espanhóis, mas esse factor pelos vistos não contava em toda a sua medida e para além do mais os documentos na altura não eram de porte obrigatório e em muitos casos nem sequer os havia.

Provar que se era português e sujeitar-se à sanção por ter atravessado a fronteira sem autorização era difícil, pelo que se tomava (tomavam eles) o método de inquirir o informador se fulano era ou não era, o que é um método bastante falível, tanto mais que em caso de ser afirmado o desconhecimento da parte do informador isso valia como factor de certeza alternativa. Ou seja, fulano não sabe se beltrano é português ou espanhol logo beltrano é espanhol.

Dos dois casos que ouvi falar um baqueou mesmo nas costas de um muro e o outro foi salvo no último minuto pela providencial chegada de um outro informador mais informado: o homem era português, estava daquele lado porque envolvido no pastoreio nem se apercebera que estava do lado de lá e como precisava de comprar algumas coisas no lugarejo estava ali e ia-se já embora.

Claro que as pessoas estavam do lado de lá, nem outra coisa seria pensável (ou seria dificilmente pensável) por razões de conflitos fronteiriços, mas nunca ninguém fará essas contas, como é claro. Para além daqueles portugueses que foram combater dos dois lados (porque os houve nas hostes franquistas e nas hostes republicanas) terão morrido neste sumário sistema de abate bastantes pacíficos camponeses.

A guerra civil de Espanha foi de alguma forma intensamente vivida pelas populações raianas, isso sabe-se e ainda há dias foi publicado neste jornal um artigo sobre oTenente Seixas a sobre a sua intervenção em Barrancos e à recolha que fiz quando escrevi aqui um artigo sobre o contrabando na raia  posso agora acrescentar mais isto: «Eurico Mestre, 70 anos - Corte Gafo de Baixo - «Por vezes vinham para aqui espanholas fugidas da guerra, cansadinhas, cheias de piolhos, comiam saramagos amargos. Uma rapariga espanhola contou-me que eram dezoite e as outras ficaram na fronteira, não conseguiram passar, com tanta fome lá ficaram caídas, ela teve mais força!». - «Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um contributo para o seu estudo», pág. 52

Esta guerra foi intensamente vivida, de facto, agora saber porque foi criada e sobreviveu esta transmissão memorial sobre os fuzilamentos «por engano» num Monte cuja relação geográfica é distante com os locais dos eventos é matéria complexa, que na minha opinião só pode dever a sua perenidade à grande força da reprovação social.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLVIII



Escreve

Daniel Teixeira



















AS ESCOLAS EM ALCARIA ALTA

Este nosso jornal tem a sorte de ter entre os seus colaboradores uma Professora Primária, Lina Vedes, já aposentada, que tem contado uma parte, pelo menos, daquilo que foram os dramas e as primeiras experiências dos professores formados aqui no Magistério de Faro, anos 50 e poucos.

Nessa altura eu estava longe de saber que um dia viria a frequentar uma Escola mas quando anos depois chegou a minha vez, as coisas não me pareceram ser muito semelhantes àquelas que a Lina Vedes relata e isto porque já tinham passado alguns anos, as coisas vão evoluindo (nem sempre bem) e no meu tempo o professor primário embora se imaginasse que não vivia na abundância tinha já um estatuto económico e financeiro mais elaborado, para ser simpático, ao mesmo tempo que as escolas que frequentei tinham também já algumas condições diferentes para bastante melhor do que aquelas que foram as Escolas no campo e as primeiras escolas dos primeiros professores.

Mas em Alcaria Alta, já com os meus 10 anos, pelo menos, acabei por encontrar coisas bem semelhantes àquilo que a Lina Vedes descreve embora com intervenientes diferentes. Na altura funcionava por essa serra o sistema das «Regentes Escolares» e salvo erro só em Alcoutim havia professores com a formação própria. A minha mãe, por exemplo, com mais uns quantos anos que eu como é claro foi fazer o exame da 4ª classe a Alcoutim e ainda no meu tempo nem todas as Escolas de Faro tinham essa faculdade, de fornecer o Diploma do final do Ensino Básico (4ª Classe).

Em minha casa ainda ficaram alguns moços e  moças filhos(as) de amigas da minha mãe ou do meu pai, que viviam na cidade e vinham fazer o exame da 4ª ao Bom João, onde havia uma Escola, na altura na Rua Ataíde de Oliveira. O ficar lá em casa era apenas por uma noite, e isto para evitar um acordar muito cedo nas suas casas e a deslocação até ao local do Exame, que era visto também com alguma solenidade e preocupação pelos intervenientes (pais e filhos).

Pois bem e entrando em Alcaria Alta, antes da chamada Escola Nova (agora fechada) estar construída as aulas eram dadas numa divisão emprestada para o efeito por um dos Lavradores lá do Monte. Num dos anos em que lá estava ou a minha Escola começou mais tarde ou a deles começou mais cedo e tive então oportunidade de ver os alunos da Serra em aulas. Para mim e embora a vida me tenha preparado para muita coisa, só o fez mais tarde, e achei muito estranho que as cadeiras fossem também emprestadas pelo Lavrador e que os alunos escrevessem e tivessem o livro em cima do seu colo.

Edifício escolar há muito desactivado. Foto JV
 Alguns dos miúdos e miúdas traziam as cadeiras de casa, aqueles que eram do Monte, mas havia pessoal de vários Montes das redondezas, uns que traziam a sua cadeira logo no primeiro dia com os pais e lá a deixavam ficar e outros que precisavam mesmo de uma cadeira emprestada.

A Professora (Regente) comia e dormia em casa dos Lavradores e segundo me pareceu só ia ao seu Monte ao fim de Semana, que na altura era só o Domingo, embora fizesse para acabar as aulas mais cedo no Sábado a fim de se poder meter a caminho, a pé. Boleias em carro de mula naquela altura, e dependendo dos Montes, eram por vezes mais complicadas do que ir a pé: a volta que se tinha que dar para seguir caminho mais largo que desse para carro de mula podia duplicar ou triplicar o percurso.

Havia um sistema que poderia ser mal visto, por pessoas de fora, e que em pequena parte tinha a sua razão abstracta de ser, que eram as ofertas à professora: ovos, azeite, mel, coisas deste género. Não faltava a má língua também por causa disso e por causa da Escola ser numa casa particular, mas pelo que me apercebi havia sempre um ar de gozo na conversa, do género: «Pois, deste mais uma dúzia de ovos à professora, já tens a moça passada (de classe)» ou «fulano e beltrano não chumbam nenhum ano pois os pais são os donos da escola», o que era seguramente embaraçante.

Ao que me parece havia de facto quem não passasse mas também por aquilo que fui reflectindo depois, era também uma forma da própria regente não sofrer avaliação negativa mandando para exame quem iria provavelmente chumbar oficialmente. Por outro lado o ensino não me parecia ter grande qualidade, nem era possível, naquelas condições: tenho uma prima velhota que foi colega da minha mãe e que escrevia lá para a nossa casa a dar notícias mas só a minha mãe conseguia lê-la e calculo que os moços da minha idade teriam também esse problema se não se aperfeiçoassem depois porque escrever em cima dos joelhos não fomenta uma boa caligrafia.

O que mudou? Quase nada neste aspecto, se descontarmos os desnivelamentos entre o antes e o agora: uma parte substancial da formação que é hoje dada se não for complementada no dia a dia acaba por perecer tal como aquela que era dada literalmente «em cima dos joelhos».

sábado, 6 de abril de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim, Recordações - XLVII



  
Escreve

Daniel Teixeira




ALCARIA ALTA E OS CIGANOS

Devo começar por confessar que faço parte de um sector dentro da minha geração onde ser cigano tem o significado usual que tem atravessado muitos anos da nossa história. Não vou, pois, neste texto, «armar-me» em defensor acérrimo dessa etnia até porque eles disso não sentirão seguramente falta e também não vou dizer que me coloco ao lado daqueles que a não toleram de todo.

Vou contar uma história sem tirar nem por. Comecei cedo a criar esta convicção quase neutra que tenho hoje sobre a etnia cigana. Sou um «produto» desta sociedade em que vivemos e nada lhe acrescento neste plano nem nada lhe retiro.

A sua errância tem servido para alimentar inúmeros sonhos de liberdade e fuga às regras sociais mais custosas sobretudo quando somos jovens, a sua capacidade de viverem numa sociedade que os hostiliza e não os hostiliza conforme as circunstâncias e as conveniências pontuais tem merecido algumas referências também pontuais e o seu relacionamento com o conceito de autoridade, tanto internamente na sua comunidade como externamente na sua relação com os «outros» já foi inclusivamente objecto de teses académicas.

Trata-se de uma questão discutida e não discutida ao mesmo tempo, uma questão neutra, se quisermos, tal como eu apresento aqui neste meu texto. Por curioso que possa parecer a imagem que existe sobre os ciganos, em Portugal e um pouco por todo o mundo é quase a mesma que existe em relação à negritude nos países que preferem ignorar que possa existir um problema simplesmente não falando nele.

Pois, e começando propriamente, a minha mãe, essa para mim extraordinária contadora de histórias, contou-me talvez centenas delas e eu infelizmente só de quando em vez arranjo princípio, meio e fim para as contar. A primeira que aqui conto e que entra dentro deste contexto, foi logo quando o meu irmão mais novo nasceu.

Todos nascemos no antigo Hospital da Misericórdia de Faro, gerido por freiras, por razões que se prendem não tanto com a falta de ideia do uso da parteira, mais utilizada na altura, mas porque as gravidezes da minha mãe todas elas foram de risco, exceptuando a última, em que se tratou já do assunto numa perspectiva preventiva.

Os cuidados pré-natais eram praticamente inexistentes e todos até ao mais novo nascemos com peso excessivo. Este, o mais novo, já «beneficiou» de uma parte desses cuidados e acabou por nascer com um peso a aproximar-se daquele que agora é considerado normal para um parto normal.

E a primeira parte desta história nasceu logo quando ele nasceu. Encontrando-se a minha mãe na enfermaria já com o meu irmão nascido, deu entrada uma cigana que teve o seu rebento ao qual a minha mãe por vizinhança de camas assistiu. Nascido o bebé trataram de o lavar, naquele tempo numa arcaica pia quase semelhante em dimensão àquelas que temos hoje nas nossas casas de banho.

Pois o miúdo naquela natural aflição de ter nascido para o mundo e começar logo por ser manipulado daquela forma naquela operação agarrou-se à torneira com a força que tinha e não a largava, daí que uma Freira (religiosa e que em princípio não deveria ter opinião) com humor um pouco infeliz saiu-se com esta: «Olha lá o ciganito, mal nasceu já quer roubar a torneira!» Pois é, da ancestral fama não se livrou, o pobre do miúdo que nem sequer sabia ainda que era cigano nem o que era ser cigano.

E a história continua, com outros personagens, alguns anos antes. Contou-me a minha mãe que havia amiúde ciganos que passavam com as suas trouxas pelos montes e seus arredores, acampando aqui e ali, normalmente ao pé de cursos de água ou de poços e entre os Montes que frequentavam na sua errância havia Alcaria Alta.

Ora numa dessas passagens por Alcaria Alta terá desaparecido um porco de um pocilgo e tendo os ciganos pernoitado por lá e já tendo partido de madrugada logo lhes foi atribuída a autoria do roubo.

Embora a fonte desta informação seja credível (caramba, foi a minha mãe que me contou!) eu ainda hoje me pergunto como é possível roubar-se um porco, de noite que seja, sendo a sua gritaria (do porco) tão forte e estridente que é até capaz de acordar um morto.

Mesmo que o tivessem morto, o ruído (o guinchar) do porco teria sido grande, pelo que aqui só posso acreditar ter acontecido aquilo que normalmente é atribuído também aos ciganos e sobretudo às ciganas, que é o conhecimento mágico de alguma poção capaz de meter o animal a dormir a horas certas e durante o tempo necessário para que a troupe alcançasse as redondezas.

Ora o montanheiro não nada em dinheiro e por natureza precisa do porco, é o seu alimento de Inverno e para além do mais era seu, era do primo Custódio («Custóide» em Alcarialtês) num sítio onde todos são primos. Tinha-lhe custado a criar para além do custo em bacorinho e havia mais um rol de argumentos usados nestas ocasiões e noutras semelhantes.

Depressa a solidária revolta juntou alguns voluntários para irem em caça dos ciganos e do porco. Movimentaram-se depressa estes, e só o facto de o montanheiro ser também naturalmente um bom pisteiro permitiu que eles fossem alcançados já perto de Martim Longo, por onde tinham seguido via Ribeirão e proximidades de Santa Justa, Foupana acima depois.

Era já tarde, talvez pelas cinco da tarde e os ciganos sentindo-se seguros já prepararam as trouxas para estacionar. E lá foi um dos mais novos a Martim Longo chamar a Guarda tendo o resto do pessoal ficado de vigia. A patrulha quando chegou era já noite e para desgosto de todos e sobretudo do primo Custóide assistiram a toda a operação de desmembramento do animal, à sua colocação nas brasas e pior ainda sentiram chegar aos estômagos há muito vazios o cheirinho a carne assada.

Quando a guarda chegou pôs logo aquela malta toda em sentido. Naquele tempo a guarda não gozava de um grande prestígio em relações públicas e passou-se logo aos factos. Apesar das tradicionais negações depressa se chegou a um forçado acordo: os ciganos pagavam o porco por um preço que foi considerado justo e para o primo Custódio e os outros que o acompanhavam estava tudo certo.

Mas a Guarda tinha ainda em carteira a sanção acessória: aquela tribo nunca mais ia a Alcaria Alta e ficava com o encargo de dizer às outras tribos que não podiam pernoitar nas imediações do Monte. E assim aconteceu, assegurou-me a minha mãe: quando apareciam ciganos por lá nem era preciso ir lá dizer-lhes o que quer que fosse; chegava ao entardecer arrumavam as trouxas e iam-se embora.

No meu tempo não cheguei a ver ciganos lá pelo Monte, mas - dizia-me a minha mãe - se eles viessem havias de ver que agora, que são passados mais de trinta anos, os ciganos não pernoitam nos arredores de Alcaria Alta.

Sinceramente acho que a minha mãe aqui na parte final me enfiou um barrete, mas como criticá-la se a história está tão bem contada!?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim, Recordações - XLVI




 Escreve

Daniel Teixeira


A LÓGICA DAS COISAS

Tenho tido alguma dificuldade em fazer novas «memórias» dos tempos de Alcaria Alta não porque haja muito pouca mais coisa para contar, mas porque esta minha  ânsia da escrever memória se centra muito na base daquilo que é o Concelho de Alcoutim e naquilo que eu entendo ser a base natural do Concelho de Alcoutim.

Para meu desgosto ultimamente tenho lido mais sobre Alcoutim na sua perspectiva institucional (que é para mim o topo e não a base), nomeadamente os Orçamentos Camarários e outros documentos da mesma ordem, do que fiz durante provavelmente toda a minha vida e sem dar por perdido o tempo utilizado devo confessar que me sinto muito pouco vocacionado para esse tipo de «literatura».

As valorizações que são dadas, por vezes com fortes consonâncias «bairristas», que também têm o seu aspecto salutar pois que em muitas coisas sem competição não há desenvolvimento, chocam com a perspectiva que se tem sobre a economia e a crise que se vive e sobre aquilo que se considera fazer falta no país: sempre considerei a actividade da Câmara Municipal de Alcoutim como uma actividade de gerência da escassez, e escrevi bastante, noutros órgãos de comunicação por onde passei, sobre o louvável trabalho que foi sendo levado a cabo na assistência aos idosos, muitas vezes isolados em montes também isolados.

Quando os fiz, os elogios, tinha em atenção que ninguém merece viver abandonado e que depois de uma vida de trabalho duro era mais injusto do que tudo deixar as pessoas ao abandono, sobretudo porque na sua grande parte, também, via alguns aqui pelas cidades, que salvo raras excepções estavam mais «virtualmente» mortos do que aqueles que eu encontrava nas suas próprias casas nos Montes, curvados ao peso dos anos, fazendo aquele pouco que as energias lhes permitiam, mas vivendo no seu meio e vivendo a sua vida e não uma outra implantada pela força de circunstâncias que nunca pensaram vir a ter de viver.

Lembro-me, com alguma emoção (e pena, tenho de confessar) de um velhote que era do Alentejo e andava a meses em casa dos filhos: um deles vivia aqui em Faro, perto de mim, uma excelente pessoa, diga-se, com a sua vida profissional ocupada com horários alternados e puxados, restando-lhe pouco tempo, senão aquele que teria em sua casa, para dar um pouco de alegria e gosto de viver ao pai.

E eu via o velhote quase sempre no mesmo sítio, sentado, de cajadinho, sozinho, num dos bancos de uma avenida movimentada, sem olhar sequer o trânsito que passava. O senhor tinha sido pastor, um semi-solitário pastor na imensidão alentejana e o local escolhido por ele também não era dos mais indicados para fazer conversa com quem quer que fosse, mas para ele ficava próximo de casa e por ali se mantinha trinta longos dias horas a fio.

A manutenção das pessoas no local onde viveram sempre foi o que mais me pareceu normal e justo, salvo em condições que isso não permitissem. Por isso sempre achei bem essa gerência feita pelas entidades públicas, e nomeadamente pela função social da CMA. Também fui, utopicamente, guardando em carteira a possibilidade de um dia as coisas darem uma volta e voltarem a ser senão as mesmas, mas pelo menos a terem uma vida que não fosse decrépita.

Ao fim de tantos anos de conhecer isto, esta situação, o que verifico é aquilo que está patente aos olhos de todos: o agrupamento dos idosos em Lares (que são contudo um excelente fogo de vista eleitoral) leva a uma situação que não sendo carne nem sendo peixe acaba pela própria evolução das coisas por assemelhar-se progressivamente àquilo que é uma vivência em Lar, independentemente do sítio onde ele esteja colocado: em ambiente urbano ou rural.

O resultado é o mesmo: horas de levantar, horas de almoçar, horas para ver televisão, perca progressiva de laços com uma realidade que se viveu de facto e se passa a viver apenas na memória e na imaginação enquanto elas isso forem comportando.

Vivo ainda no passado e não sei se me devo afastar dele nestes planos: a minha Tia Bia adoecia e logo as mulheres da família e vizinhas se revezavam para tratar dela. A minha prima Felismina percorria todas as noites de lampião na mão da Portelinha até à Praça o longo e pedregoso caminho chovesse ou estivesse frio para a ir aconchegar e isto acontecia com todos, fossem homens ou mulheres. Este tempo, é passado, mas é uma lição que nunca esqueci nem esquecerei, e é este o «meu» Monte de Alcaria Alta.

Pelo Concelho, nem uma iniciativa de jeito foi tomada para fazer rejuvenescer esta vida e uma vida mesmo que não seja precisamente esta. Apesar de se verem, amiúde, alguns núcleos que vão mantendo alguma vida visível, estamos muito longe de encontrar um equilíbrio que fundamente em pequena medida que seja um salto em frente.

Uma parte dos núcleos que se mantêm devem uma parte substancial da sua vida àquilo que os outros núcleos neles agruparam, ou seja, deve-se a fusões e aquela função de motor dos poderes centrais (locais, neste caso) tem enveredado por encostos aos dinheiros públicos, sejam eles resultado de receitas próprias sejam eles resultado de Fundos de Equilíbrio inter-regiões.

A Pousada de Alcoutim foi um empreendimento megalómano, como o seu próprio impulsionador  tem sido ao longo dos anos, e qualquer estudo mesmo à flor apontava isso e Alcoutim encaixou-o e agora aguenta os restos à custa do erário público como terá também seguramente patrocinado parte do fogo de vista: não segui o processo nem me interessa muito, sei que é um «flop» estrondoso, de dimensão borlex-ceeiana, como era a onda na altura.

Pousada de Alcoutim. Foto JV, 2009

Por isso e para não falar muito mais, repito aquilo que tenho dito por diversas formas desde sempre: perdido o interesse atractivo de Alcoutim (Vila) desde há pelo menos 50 anos, seria altura de as pessoas se lembrarem um pouco da história e se lembrarem que as «cidadelas» tiveram a sua importância (e têm-na em termos históricos) mas que de base de sustentação passaram desde há séculos a ser bases sustentadas. E sem sustento não há castelo que aguente...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLV



  
Escreve

Daniel Teixeira




AS DIFERENÇAS DA VIDA

Conforme tem sido notório aquilo que me tem interessado neste conjunto de crónicas e de uma forma geral noutros locais e formas onde intervenho, seja sobre a forma de crónica ou simples conversa, mesmo escrita que seja, o que me interessa, repito, é a história contada e feita pelas gentes.

A parte edificada, monumental, de arquivo secular, tem o seu interesse para buscar pontos de referência mas para mim o seu interesse remete-se a isso mesmo, à mera referência, ao apoio ou comparação através do escrito daquilo que é dito e sabendo-se que quem conta um conto acrescente um ponto, serve também para ajustar esses desvios quase naturais.

Cada pessoa tem (ou pode ter) a sua forma de ouvir e depois de contar e uma das minhas preocupações tem sido sempre analisar a divergência entre a «realidade» escrita e a realidade contada, tendo também presente que a realidade escrita contém já em si ou pode conter uma parte de imaginado ou de irrealidade.

Neste diferencial, entre aquilo que terá eventualmente acontecido e aquilo que é contado anos depois e por pessoas diferentes e que normalmente não é considerado científico, existe uma riqueza no imaginado ou na fidelidade que corresponde em grande parte ao desejado, ou seja, corresponde a uma posição ética sobre a realidade.

Eu explico melhor: a aceitação de uma história tal como ela aconteceu (ou terá acontecido) é sinónimo de aprovação dessa realidade, a desaprovação pelo menos parcial leva ao imaginado, à ficção.

Será sempre difícil, senão impossível, aquilatar da existência ou não desse diferencial memorial, do seu volume, das suas características, dos desvios mais prováveis, enfim, é «trabalhar» mesmo numa corda bamba, mas é um trabalho interessantíssimo que nos diz muito sobre a psicologia colectiva.

Aqui há semanas publicámos neste jornal um texto, com quadras, intitulado «Trêz Quadras Dedicadas ao Crime dos Gorjões de Santa Bárbara de Nexe» resultando de um folheto que tem o seu interesse analisar sumariamente aqui. O «ficheiro» que ficou e que deu origem às quadras, embora faça referência á reprovação geral pelo crime cometido sobre uma jovem recém casada pelo seu marido, encontra numa amiga da «desventurada» morta (assassinada) o seu maior desenvolvimento.

Seria de esperar que fossem os pais da rapariga os principais actores deste capítulo, mas existiu a necessidade da parte do guionista, de colocar uma mulher, a sua melhor amiga, neste papel. Porque não o pai? Como elemento protector deveria caber-lhe a ele ser o arauto dos clamores de vingança e inclusivamente de a praticar. Não lhe coube, contudo, esse papel porque cabia a Deus proceder a esse castigo.

Ora estas nuances (sem crimes à mistura, felizmente) encontram-se um pouco por toda a história verbalizada e mostram os diferentes graus de envolvimento ético nas sociedades.

Uma parte das histórias que tenho contado têm uma valência razoável de humor, que é uma forma interessante, a meu ver, de contar de forma favorável aquilo que algumas vezes pode ser reprovável nos nossos tempos. Contudo, ainda que atenuada pelo humor, a história está lá, todinha.

E vai continuar com mais alguma que me lembre no próximo «capítulo».

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLIV



  
Escreve

Daniel Teixeira




OS CONTRABANDISTAS NO MONTE

Já aqui tenho referido que o meu avô fez contrabando durante a sua idade adulta, talvez até aos 40/50 anos sensivelmente e eu quando comecei a conhecê-lo já ele tinha deixado essa actividade. Para o efeito de ter largado essa actividade em muito terá contribuído o facto de quase ter morrido após uma queda de uns rochedos quando fazia uma travessia, queda essa que resultou num ligeiro afundamento da parte posterior do crânio, situação essa que foi tratada em casa, à base de pensos e pachos de água fria com rodelas de batata.
Na foto mais pequena tentei fazer notar esse traço de junção no crânio, partindo logo sobre o centro das sobrancelhas. Tenho uma outra foto do meu avô tipo passe, mais nítida, mas o simpático fotógrafo fez o «favor» de a retocar nesse ponto. De qualquer forma o que interessaria mais referir aqui seria que a metodologia de tratamento na altura era do género «ou safa-se ou morre» porque não havia mesmo outra alternativa. Safou-se...

O meu avô e a minha avó numa das suas visitas a Faro, anos 60, talvez, quando morávamos numa casa tipo quinta (dentro da cidade de Faro). O luto da minha avó nunca foi tirado após o falecimento da sua filha e minha tia nos anos 50/60.

Ora e voltando ao contrabando, numa das minhas crónicas eu referi que ainda faltava contabilizar a o impacto que esta actividade (ilegal) teve no fortalecimento das relações entre as populações raianas, portuguesas e espanholas, neste caso. Ora estudos sobre este factor e outros com ele relacionados já foram feitos por antropólogos e por departamentos de antropologia de Universidades Portuguesas e Espanholas, só que a matéria parece ser pelo menos um pouco controversa e o andamento destes estudos tem sido relativamente lento.

Cito: (...) O contrabando era, assim, «forma de viver, de sobreviver sempre no fio da navalha, sempre nos limites sem nunca saber quando do outro lado estaria a Guarda à sua espera. Eram quilómetros e quilómetros percorridos sempre a pé, dentro de água, no meio do escuro, à procura do sustento», salienta na introdução à obra (de Luís Filipe Maçarico - 2005) João Miguel Martins, vereador da Câmara Municipal de Mértola.
Luís Filipe Maçarico entrevistou ao longo de vários meses antigos contrabandistas e guardas-fiscais reformados que actuaram na raia de Mértola. Um trabalho que se estendeu até Espanha, ouvindo alguns raianos de Paymogo, El Almendro e El Granado. (...)

E um testemunho igualmente citado: (...) José Afonso, 90 anos
Bens (Mértola)

«Era pelos cerros velhos, ia por além. Vão lá os carros. Então, ê andei trinta e seis anos nessa rebera!...trinta e seis anos andei ê no contrabando. Isso é uma rebera malinha! Eram mais de mil tiros! Carabineros e Guarda-Fiscal, uns e outros.

(…) Na minha presença mataram…você ouviu falar no Raposo? Mataram-no ali ao Moinho das Juntas!... (…) O guarda fez o tiro para ali e não matou mais porque não calharam. (…) Levávamos tudo. Café. Assabão…trazíamos açúcar. Era tudo. Os espanhóis não tinham nada!...Isso era despachado aqui de Santana».

«Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um contributo para o seu estudo», de Luís Filipe Maçarico, pág. 34.

Comentário meu: é lógico que para andar trinta e seis anos no contrabando os resultados (lucros) não davam evidentemente para enriquecer.

Cito: (...) As trocas comerciais directas ou indirectas, entre as comunidades raianas, existiram, desde a formação moderna dos Estados. H. Bernardo (docente de História na Escola Secundária de Miranda do Douro), fala-nos de trocas, entre comunidades castelhanas e mirandesas, legisladas e, por conseguinte, autorizadas, nos séculos XV e XVI.

«D. João I, no início do século XV, autorizara os castelhanos a poder vender os seus produtos a retalho na alfândega da Vila de Miranda, enquanto durasse a feira. (...) Logo a seguir, os castelhanos e mercadores estrangeiros ficaram autorizados por D. Afonso V, ainda no século XV, a vender nesta vila os seus artigos, particularmente os panos (...)

O rei D. Manuel I, em 1508, permite aos Mirandeses, a pedido destes, que comprem em Espanha ou «troquem por outras mercadorias, o ferro que necessitem para as suas lavouras» (...)

O rei acrescenta os privilégios e autoriza, depois, que os mercadores espanhóis possam levar para o seu país, depois das vendas efectuadas, até mil reis em dinheiro ou mercadorias»

Foi com a instituição do regime ditatorial, em 1920, que o controlo da prática de contrabando assumiu proporções mais austeras de criminalidade.
Portugal entra num período de exaltação nacionalista que fecha a economia do país, com medidas extremas de proteccionismo económico. (...)
Cito: (...) Relação com os Guardas Fiscais

Apesar de existirem várias estórias que relatam a morte de contrabandistas, em circunstâncias de flagrante delito, todos os relatos recolhidos, na primeira pessoa, apontam para terceiros como fontes dessa informação. Ninguém da família dos nossos informantes esteve envolvido nessas condições.

Na verdade, a generalidade dos entrevistados indica, recorrentemente, se não uma boa relação com os Guardas Fiscais, pelo menos uma compreensão das condições de
ambas as facções. São frequentes as referências à complacência dos Guardas que, na sua maioria, eram indivíduos de origem local, conhecedores das necessidades destas povoações.

Manuel Guerreiro, Guarda Fiscal no período ditatorial, testemunha essa complacência dos Guardas Fiscais:

Muitas vezes, tínhamos de fazer vista grossa... deixava passar porque sabia que a vida custava a todos... eram tempos difíceis, para todos. Eles não roubavam nada a ninguém, iam ganhar a vida deles! Mas, muitas vezes, as apreensões tinham de ser feitas, pois a PIDE estava atenta.

Os contrabandistas, por sua vez, compreendiam que os Guardas tinham que cumprir o seu trabalho e que, para serem remunerados, tinham que apresentar serviço. Era a sua forma de sustento e, por conseguinte, é rara a expressão de ressentimentos.

A relação com os Guardas Fiscais podia assumir um carácter cooperação mútua. Vários entrevistados falam de acordos prévios, entre ambas as partes, que determinavam ora a apreensão propositada de parte das mercadorias, através de passagens encenadas com a colaboração dos contrabandistas, ora a cooperação dos Guardas que fingiam ignorar a ocorrência de contrabando.

Maria Delgado, esposa de um Guarda Fiscal já falecido, explica-nos esta estratégia:

O meu marido nasceu aqui, em Constantim, mas quando foi para a Guarda Fiscal mandaram-no fazer serviço perto do Porto. Depois de uns anos mandaram-no para aqui.
Era o trabalho dele, não é? Tinha três filhos para sustentar! Mas ele dizia-me que sabia demais, porque eram todos amigos... Ele sabia quem andava a fazer contrabando, eram da mesma idade dele, tinham brincado juntos! (risos)

Ora deixá-los passar...era o que ele dizia! Mas nós também tínhamos uma casa para sustentar, os miúdos eram pequenos e eu pouco ganhava a fazer pão. Eles combinavam...juntavam-se a beber cervejas e combinavam os dias em que iam prender a carga. Uns dias para uns, outros dias para outros, não é?! (...)

Embora nos textos (extractos) acima não seja feita referência directa a mortes por acção da Guarda Fiscal (ou dos Carabineiros) há um testemunho directo em Santana de Cambas, recolhido por Luís Filipe Maçarico:

Ana Dias Felícia (Ana Viana), 80 anos
Minas de S. Domingos

«A vida era muito dura, pois. Era o tempo da guerra de Espanha. O mê marido estava na tropa, era já sargento da tropa, mas depois quis ir para Moçambique e não o deixaram ir e ele desertou e foi para Espanha. Começou a andar no contrabando, começou a ganhar dinheiro. Levavam tabaco, geralmente o que levavam mais era tabaco, café. Traziam fazenda, roupas, bombazinas, pois, encomendavam.

Eu ganhava poucochinho, as regentes ganhavam pouco. Não tinham ainda Caixa, não tinham nada. E ele, como tinha algum dinheirinho, e eu casei com ele, pronto. E ele continuou assim na vida dele. E agora quando foi à Espanha, que o mataram, já havia muito tempo que ele não ia à Espanha, e estava pensando em desistir daquela vida.

(…) Os guardas atiraram o tiro mas não foi a ele, foi ao outro que eles queriam apanhar. Eles atiraram o tiro ao ar. Foi guardas portugueses, ali no alto de Santana. (…) O mê marido ia fazer 40 anos. Era Bento Pires Martins. Eu tinha 35 anos nessa altura. Ah! Pois fiquei na mesma como estava quando era solteira, ele não me deixou nada. (…)

Eu sou Ana Dias Felícia. Mas aqui sou conhecida por Ana Viana, porque o meu pai assinava António Viana…Eu faço agora 90 anos em Fevereiro. Fui a primeira regente do país. Fui professora no concelho de Moura, Odemira e Lisboa, na Damaia».
(In «Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – Um contributo para o seu estudo», pág. 48 - autor Luís Filipe Maçarico).

Quanto aos materiais que eram contrabandeados:

(...) Assim, por importação, foram apreendidos:

alparcatas, figos secos, pimentão, louça de barro ordinário, garfos em ferro, nozes, peixe fresco, enxadas de ferro, camisolas de algodão, bengalas de madeira, minério (cassiterite), forquilhas de ferro, vidros, véus de seda, navalhas de barba, cravagem de centeio, máquinas de cortar cabelo, folha de Flandres, alumínio em obra, pez, meias de seda, estampas religiosas, corda de pita, peixe em conserva, caixas de madeira, camisas de malha de seda, boinas de lã e garrafões de vidro.

Por exportação, foram apreendidos: açúcar, arroz, café torrado em grão, vinho fino engarrafado, centeio em grão, sucata de cobre, linhaça em grão, suínos, tabaco em fio, cintos de vidro sintético e tecidos de algodão.

Como a ideia era avaliar do reforço ou da existência de laços fronteiriços : «Segundo a professora e Antropóloga Paula Godinho, a identidade fronteiriça apoia-se em relações ilegais, de risco e em memórias (fulcrais) da fome.» (...)

Este tema tem muito mais que se lhe diga mas acho que por hoje chega.

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Fontes de Consulta:

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações, XLIII




Escreve

Daniel Teixeira

OS VENDEDORES NO MONTE

Como se deve saber e até pela elementar lógica se chega lá, quanto maior é o povoado maior é o número dos seus comerciantes. A razão também é de lógica elementar, porque havendo mais pessoas maior é o volume das transacções e isso implica como é claro que exista quem as intermedeie.

No Monte de Alcaria Alta que na minha altura talvez fosse dos maiores das redondezas, havia a emblemática taberna/mercearia/armazém da Ti Inácia que antes fora dos pais (ainda conheci a mãe dela e não me recordo se conheci o pai, Pereira, se não estou enganado).

Havia o Ti Zé Luís, com botões e linhas de cozer, que vivia para as bandas entre - o - Além (quer dizer sem ser bem Além e já tendo deixado de ser Rossio), o Chico Artur que negociava gado por fora da terra e um outro (Senhor Manuel Vicente) na zona da praça que pelo que me apercebi só negociava com gado.

A nível das necessidades básicas e sem serem propriamente comerciantes havia um tosquiador barbeiro e um barbeiro (ocasional, este) acontecendo que o primeiro vendia também tabaco. Era o Ti Marcos já aqui falado por causa das coxas de rã e pela sua preocupação estética nos ornamentos tosquiados nas bestas.

O barbeiro ocasional (Pereira também, salvo erro) era um moço mais novo e uma vez apanhou-nos uma lebre com o cajado depois de os cães que levávamos a terem cansado. Nem nos deu cavaco, meteu a lebre na sacola e continuou a sua vida.

Ainda fizemos uma embaixada para ir falar com ele a sua casa mas a nossa diplomacia falhou estrondosamente por timidez: dos três que fomos nenhum teve coragem de falar no assunto e os nossos argumentos tinham sido minuciosamente estudados: pelo menos uma parte da lebre pertencia-nos se falhasse a exigência da totalidade dela. Falhou tudo e acabámos por debandar de casa dele usando o argumento da raposa e das uvas adaptado: «Deixa, por esses montes há mais lebres...».

Bem, o comércio não devia ser famoso, em qualquer dos casos aqui falados mas numa terra onde ainda circulava muito pouco dinheiro, tudo o que viesse era bom. No resto ia-se a Giões onde se encontrava o resto daquilo que poderia fazer falta. A bica do tal senhor que só ligava a máquina (de um bico) depois de se pedir a bica para poupar gás (agora há por lá cafés modernos) e antes disso havia as Festas com feira, onde era tradicional beber-se um copinho de salsaparrilha.

A festa de Giões, salvo erro só fui a uma, era organizada pela Igreja (pelo Padre) e tinha uma parte que fazia leilão de bolos ofertas das senhoras da aldeia e não só. O meu tio Zé Teixeira era o leiloeiro e tentava arrancar o máximo dos lances, como era seu dever, colocando qualidades nos bolos que por vezes eram prejudicados pela falta de beleza: tocava ao sentimento, na falta que o dinheiro fazia à Igreja, referia a simpatia da ofertante e por vezes fazia mesmo venda «agressiva», ameaçando retirar o produto do leilão se o lance não subisse, enfim...

Ora nesse dia estava ele no palanque com o microfone e estava no quem dá vinte, quem dá vinte e um, etc. etc. quando a meio do vinte e um interrompe com o «Corram, corram!! Corram à cerca da igreja que o restolho está a arder!»

Era quase fatal que isso acontecesse por ali porque os fogueteiros parece que tinham sebo nas mãos e aquilo era foguetada a torto e a direito. Mas o que eu achei piada (já ia tendo sentido de humor) é que acabado o serviço dos ocasionais bombeiros, para aí quinze minutos se tanto, lá estava ainda o meu tio com o bolo nas mãos e assim que as coisas acalmaram passou ao lance seguinte: «Quem dá vinte e cinco...vinte e seis, etc.». Ele sozinho e sem se mexer dali já tinha metido mais quatro lances na jogada...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

CRÓNICAS E FICÇÕES SOLTAS – ALCOUTIM – RECORDAÇÕES, XLII


Escreve

Daniel Teixeira




Alcaria Alta

TEARES E RETALHOS

A Ti Maria Antónia da Ladeira era chamada da «ladeira» porque vivia numa casa na ponta de um pequeno cerro que conjuntamente com os outros faziam o aglomerado de cerros maior onde estava «plantado» o Monte de Alcaria Alta.

Em teoria um conjunto de montes chama-se de serra, mas seria abusivo chamar serra ao monte onde estava situado o Monte de Alcaria Alta até porque a altitude não era significativa, embora isso tivesse lugar, a pouca altitude, só em termos gerais.
A altitude era enorme para quem tinha de subir e descer aqueles montes e mesmo andar dentro do Monte aos altos e baixos era bastante cansativo. Na altura de miúdo e jovem não reparava muito nisso, mas já depois de uns quantos anos ininterruptos de cidade fomos lá com um casal amigo, almoçámos na Portelinha (atrás da venda do Zé Artur) e subimos ao Castelo (casa da minha avó - já falecida na altura) para dormir a folga e dormimos todos quatro horas de enfiada, sem dar por isso.

Não fizemos no total mais de quinhentos metros e quando acordámos foi despedirmo-nos das pessoas, pegar no carro e arrancar. Acabámos por fazer uma outra paragem, ainda com cansaço, com um desvio para Cacela Velha, onde na altura se comia marisco (ostras incluídas) por bons preços, aliás na altura era quase de borla, comparativamente.
Fiz o reparo sobre a ladeira e a Ti Maria Antónia - da Ladeira - porque não havia, na altura, mais Maria Antónia nenhuma no Monte e estes acrescentos sobre as localizações das suas moradas tinham precisamente por objectivo fazer desde logo distinguir as pessoas.

Talvez a senhora Antonica Vilão fosse Maria também mas não havia razão para que esta «Ladeira» como alcunha complementar tivesse lugar porque a outra, a ser Maria, também, era a senhora Antonica e assim a conheci desde sempre. Um irmão dela era Antonico (mas não era Vilão) e um filho também se chamou Antonico (Vilão).
Já falei nestas crónicas sobre isto: Ti Mari Joaquina do Rossio, Ti Mari Joaquina da Praça, enfim, para evitar estar a utilizar os apelidos (Guerreiro, Pereira, etc.) havia esta forma simplificada de nomear as pessoas.

Claro que estas denominações serviam para conversas entre terceiros mas não serviam para ter com a própria pessoa. A Ti Maria Antónia da Ladeira, em presença era a Ti Maria Antónia, unicamente, nem se justificava que se acrescentasse «da Ladeira», por exemplo estando-se em presença da própria pessoa.

Agora me lembro que os homens tinham a honra de serem chamados por nome e apelido e nem me lembro de haver necessidade de acrescentar o que quer que fosse talvez porque - só pode ser - não havia coincidências de nomes e apelidos. O meu avô era o Ti Dionísio e havia no Além o Zé Dionísio que não era «Ti» porque na altura ainda era bastante novo (aqui bastante novo quer dizer 40/50 anos).

Pois bem e regressando à senhora, ela tinha um tear e isto de ter um tear implica que se seja tecelão, mais pelo facto dele ter de servir para alguma coisa pois ao que parece era uma máquina bastante cara, complicado de usar e muitos deles resultavam de heranças de mãe para filha.

Acho que no fundo todas as mulheres sabiam tecer mas havia as que tinham tear e as que não tinham. O maior trabalho era realmente armar os fios e as linhas e o resto, que não era pouco, era dar ao pedal e aquela coisa pesava mesmo e devia ser bastante custoso levar um dia inteiro de trabalho naquilo.

Manta de Lã
A passagem daquilo a que eu chamo «navette» (vai - vem) que é uma peça em madeira que vai e vem com o fio que cruza e percorre sucessivamente em largura a peça a tecer e assim vai até ao final da tecelagem do pano em comprimento era impulsionada da esquerda para a direita do pano por um misterioso carolo que resultava também do movimento da pedalada.
Ou seja, a pedalada não só fazia alternar cruzando em x sucessivos os fios para o tecido nos bastidores (lã, retalho ou o que fosse) mas também accionava uma engenhoca que dava a pancada no vai - vem e o levava até ao final (ponta direita).
Ora o meu problema aqui, e de notar que faço questão de não ir consultar nenhum canhenho ou a Net sobre esta coisa, é o de saber como vinha depois o vai - vem da direita para a esquerda do pano e explico porquê:
Eu apesar de não ser muito aconselhado a um homem (mesmo miúdo) estar a apreciar o trabalho das mulheres, gostava de ver a senhora a tecer e não ela em especial mas ela estava muito tempo no tear ao contrário das suas colegas que conhecia que o faziam esporadicamente. Aliás era à Ti Maria Antónia da Ladeira que se mandava fazer as nossas mantas, fossem elas de lã ou de retalho.

De esclarecer que o retalho, talvez julgado um tecido pobre, agora recuperado em termos de prestígio pelo advento do turismo, era obtido durante o ano através do recorte de bocados de tecido que sobravam dos afazeres da minha mãe que era costureira também e teve como aprendizes as minhas primas quase todas.

Eu mesmo aprendi a fazer uma série de coisas que me desenrascaram e desenrascam bastante, tal como cozer botões, zippers, fazer bainhas, etc. Tudo à mão, no meu caso, nunca consegui acertar com o pedalar da máquina de costura...

As mantas ficavam giras porque à partida os novelos dos retalhos eram desde logo divididos por tonalidades e embora houvesse uma forte tendência para o abstraccionismo no conjunto talvez estivesse aí também uma parte da sua beleza.
Pois bem e voltando à navette (vai - vem) eu lembro-me que a Ti Maria Antónia da Ladeira aproveitava a minha presença por ali para me pedir para lhe passar o tal vai -vem da direita para a esquerda. Nunca procurei saber mais sobre isto mas acho que quando eu não estava presente ela tinha de se levantar do banco e ir ela mesma fazer esse trabalho.

Ora, se assim fosse, ela não só tinha o esforço de dar a pedalada (os bastidores eram enormes e logo deviam ser pesados) como ainda tinha de fazer quilómetros por dia para ir jogar o fio (na navette) da direita para esquerda.

Todas as histórias têm um final feliz e esta também vai ter (mesmo que eu esteja enganado quanto á parte da navette) : o marido dela, trabalhador nas suas propriedades no campo, era como todo o pessoal do Monte...pouco gastador ou gastando o estritamente indispensável e vendendo as suas alfarrobas, amêndoas, azeitonas, etc.
Alguém um dia, um parente salvo erro, que trabalhava num Banco disse-lhe que era melhor ele guardar o dinheiro no Banco, que ter o dinheiro em casa não era grande coisa, apesar dos tempos serem ainda bem diferentes, etc.

Ao que parece ele foi buscar o dinheiro que tinha em vários locais (buracos nas paredes como era uso) e o tal bancário ia caindo para o lado.

Os números aventados foram de diversa ordem, isto lá para os anos 60's, mas ficou assente por alguém que viu o talão do depósito que eram setecentos e cinquenta contos mais ou menos.