domingo, 30 de outubro de 2011

Escola Feminina (Alcoutim) de meados dos anos 30 do século passado



É uma das fotografias mais antigas que até hoje apresentámos neste espaço e que deve datar de meados da segunda década do século passado.

Admira-nos das crianças não estarem todas fardadas de bata branca como era imposto pelo regime vigente. A não ser que a professora D. Arminda as tivesse mandado tirar, o que não nos admiraria.

Pensamos que a fotografia tenha sido tirada junto à antiga escola e isto devido à janela que aparece na fotografia.

A foto terá cerca de 75 anos pelo que a grande maioria já não está entre nós.

Temos conhecimento que ainda existem pelo menos três ou quatro exemplares desta fotografia que foi exposta numa feira de artesanato há uns anos.

Nessa altura conseguimos que a D. Maria do Carmo Borralho identificasse alguns dos figurantes.

Por intermédio do nosso colaborador Gaspar Santos foi possível obter mais algumas identificações através das suas irmãs que fazem parte da fotografia.

Estão presentes 34 meninas com a sua professora, D. Arminda do Rosário, além de um rapaz (28) pelo que nos parece e do pequenito (14) que segundo dizem nada parava com ele, que não tinha idade para andar na escola e se tivesse não podia andar na escola das meninas, mas sim na dos rapazes ministrada pelo professor Trindade e Lima, como mais tarde veio a acontecer.

Pois é, aquele “puto” é nem mais nem menos que o nosso apreciado colaborador José Temudo que na altura vivia em Alcoutim onde seu pai chefiava a Secção de Finanças.

As identificações feitas, naturalmente sob reserva, foram efectuadas por Dª. Cremilde Santos (1) e Dª. Violante Santos (6), irmãs de Gaspar Santos e felizmente ainda entre nós.

(2) – Maria Guilhermina de que ainda conheci a mãe que vivia para os lados da Igreja da Nª Sra. Da Conceição;
(3) – Maria Augusta;
(4) – Maria Isabel Gonçalves;
(5) – Conceição Cardeira;
(7) – Maria do Rosário Cardeira, irmã da anterior;
(8) – Márcia (?)
(9) - Não se lembram do nome. Era filha do carniceiro;
(10) – Maria José Canelas;
(11) – Chiquinha do Rosário;
(12) – Prima das Cardeiras de que não se lembram do nome.
(13) – Zulmira;
(15) – Helena Temudo, irmã do nosso colaborador e felizmente ainda entre nós;
(16) – Teresa Temudo, irmã da anterior e falecida muito jovem.
(17) – Ana Costa;
(18) – Ivone Robalo;
(19) – Maria Helena Canelas, irmã da nº 10.
(20) – Prof. Dª. Arminda.
(32) - Belmira Pereira.

Foram identificadas 17 ficando outras tantas para que isso aconteça.

Alguém pode dar uma ajuda?

N.I. Acaba de chegar a primeira ajuda e são sempre os mesmos a ajudar!
O nosso colaborador e Amigo Amilcar Felício sabe identificar a sua mãe, que bem conhecemos e que é o nº 32 (Belmira Pereira).

Veremos se aparece mais alguma colaboração.

sábado, 29 de outubro de 2011

As Misericórdias do Algarve



Há muito que procurávamos obter este trabalho importante em qualquer biblioteca e em especial no Algarve.

Foi o primeiro livro em que lemos alguma coisa sobre Alcoutim e isto aconteceu em 1968 logo que foi publicado.

Devemos isso ao falecido António Maria Corvo que foi Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim e Provedor da Santa Casa da Misericórdia da mesma vila que teve a amabilidade de no-lo facultar para uma leitura que fizemos e de que retirámos alguns apontamentos que viemos a utilizar no primeiro trabalho que publicámos sobre Alcoutim.

Só agora nos foi possível vir a adquiri-lo através de um alfarrabista, voltar a ler o que consta sobre a Misericórdia de Alcoutim e igualmente dar uma vista de olhos para as outras existentes na antiga província do Algarve.

Com um formato de 19,8X27,3, de papel encorpado tem392 pp e está bem ilustrado com fotografias a preto e branco representativas dos edifícios onde as mesmas funcionam, das suas igrejas, imagens, alfaias religiosas, documentos importantes, etc.

O trabalho divide-se em cinco partes, “Misericórdias Citadinas”, “Misericórdias de Vilas”, “Misericórdias de Aldeias”, “Misericórdias sem Património Artístico” e “Misericórdia Extinta “(Cacela).

A Misericórdia de Alcoutim ocupa as páginas 195 a 205 nas quais se incluem quatro fotografias bem escolhidas e representativas: A fachada da Igreja, o desaparecido altar de pintura marmórea, o lintel da porta lateral e a pedra sepulcral de Martim Vilão de 1513.

No texto procura-se fazer a história da Misericórdia focando os seus períodos áureos e os de abandono.

São autores Maria Helena Mendes Pinto e Victor Ribeiro Mendes Pinto sendo a Edição do Ministério da Saúde e Assistência – Direcção - Geral de Assistência, Lisboa,1968.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XV





Escreve

Daniel Teixeira




UMA RONDA SEM CASAMENTO

Dentro das minhas recordações das minhas estadias em Alcaria Alta e embora eu seja um defensor tão acérrimo quanto possível das tradições e da rememoração delas há algumas que ainda hoje me fazem sorrir pela máscara quase místico - iniciática que as envolvia comparando-as depois com a sua simplicidade vista agora e vista também logo na altura, ainda que jovem, neste caso.

A «Ronda» por exemplo é uma delas: durante alguns anos, talvez dois, e a partir da altura em que me encontrava já naquele limiar em que eu e os meus amigos íamos crescendo ainda que nos encontrássemos em patamares de um ou dois anos de diferença sendo eu mais novo fui assistindo com alguma frustração ao arranque nocturno destes meus amigos mais velhos para irem fazer uma coisa a que se chamava de «ronda».

Durante esses dois exemplares anos que referi e que não sei se foi exactamente esse o tempo passado nesta situação senti-me diminuído, segregado, ansioso por crescer, embora houvesse também um ou dois amigos na mesma situação que eu que acabavam por ficar a curtir as mágoas comigo. «Eles», os outros, iam para a ronda e não nos levavam e contavam-se então as coisas mais incríveis com alguma conotação apropriada à altura, beijinhos nas meninas, uns abraços mais apertados, enfim.

A efabulação dos maiores (dos que faziam já a ronda) traziam sempre detalhes cada vez mais picantes e silêncios cúmplices e a ânsia de crescer e ter assim direito a fazer a ronda, que era coisa para os mais velhos, para os quase casadoiros, foi crescendo e crescendo até que num ano, talvez tendo eu os meus 14 anos, fui informado a meio da tarde pelo grupo (para aí 10 ou 12 jovens no seu todo) que estava na altura de eu aprender umas coisas e que nessa noite ia com eles fazer a ronda.

Para além de ficar contente por obter assim sem esperar um direito a que ainda não me achava com...direito e quando pensava ter de penar mais uns anos sem conhecer o ritual da ronda fui também esclarecido sobre a necessidade de seguir os passos dos mais velhos que se resumiam praticamente a bater à porta quando elas estavam fechadas, a pedir licença para entrar e tirar o chapéu quando se entrava, a dar as boas noites primeiro ao dono da casa, a seguir à senhora e por fim às filhas e por vezes primas e vizinhas jovens e menos jovens que se juntavam para fazer serão tricotando na sua grande parte.


[Aspecto do monte de Alcaria Alta. Foto de JV]

As moças aprimoravam-se nos arranjos pessoais, isso eu reparei bem, comparando aquilo que ali via com o que via durante as jornadas diárias de trabalho delas, pastoreando os animais, lavando roupa em pedras perto dos poços, regando nas hortas, enfim...eram verdadeiros trajes de quase saída, por vezes com os cabelos bem soltos nos ombros a contrastar com o apertado dos lenços diários.

Ora a ronda no início era uma coisa bem complicada afinal: os moços na sua grande parte eram tímidos e para fazerem a entrada real na ronda da base acabavam por entabular sempre uma conversa por vezes prolongada sobre os trabalhos da lavoura, sobre a chuva e o tempo até quebrar o ambiente e fazer generalizar a conversa. As moças, também tímidas e intimidadas pela presença dos pais e familiares mais velhos praticamente não abriam a boca ou respondiam por monossílabos quando inocentemente questionadas até sobre as cores das meias que tricotavam. Mas havia uma convenção implícita nas «jogadas»...

O dono da casa tinha sempre de ir tratar dos animais e saía ao fim de meia hora, mais ou menos e a dona da casa começava a cabecear com sono logo depois, altura em que as moças não se mostrando mais tagarelas para não fazerem barulho começavam então a olhar para os moços tendo cada uma um deles já escolhido de antemão.

Na sua grande parte aquilo era mais um exercício de aprimoramento técnico na arte de namorar do que propriamente uma possibilidade de namoro ou de casamento para qualquer um dos lados: os filhos dos lavradores iriam infalivelmente casar com uma sua par por amor e conveniência de fortunas e os que não eram lavradores acabariam por partir para a cidade ou para a emigração e que eu me lembre ninguém naquele grupo de cerca de uma dezena constante de moços por lá casou, naquele grupo de jovens que visitávamos.

O Manelito Vilão que ainda fazia na altura parte do nosso grupo acabou por casar com uma alegadamente ricaça de Malfrade, salvo erro, mas era para aqueles lados que a gente o via partir tempos depois, aos fins de semana, cavalgando a galope uma mula bem arreada com sela e de esporas. Era uma mula de trabalho do dia a dia mas parecia mesmo outra, de crinas aparadas e recortes artísticos de tosquia junto à cauda. Eles tinham uma égua, um bonito animal, que eu ainda montei algumas vezes, mas estava já bastante velha para os longos percursos da exibição amorosa.

De esclarecer que se chamava ronda porque por vezes era mesmo uma ronda pelo monte : algumas vezes encontrávamos portas onde nos diziam que já estava tudo recolhido (isto lá pelos oito nove da noite) e tínhamos de calcorrear mais um pouco até encontrar o tipo de guarida desejado.

Eu não tinha par mas acabei por mostrar a minha utilidade nas mais ou menos demoradas introduções rituais. Na sua grande parte todos aqueles grupos de moças queriam era ir para a cidade, fosse ela qual fosse, queriam debandar dali e em certo sentido se não fosse a atracção pelo namorico sem consequências acho até que elas teriam já algum horror consciente em encarar a sério a possibilidade de casarem ali e por ali ficarem por mais simpáticos ou atractivos que fossem os pretendentes.

Ora eu «dominava» o tema cidade ali, era o especialista e fornecia o meu manancial informativo, respondia às perguntas por vezes quase estúpidas que me eram feitas, enfim...enchia assim o tempo e quebrava o gelo circunstancial embora por vezes a conversa viesse a ocupar espaços de tempo não desejados prolongando-se alguns minutos para além do cabecear ensonado da dona da casa e retardando a partida para tratar dos animais do dono da casa.

Era isso a ronda...a famosa ronda: a única coisa mais elaborada que vi ainda foi um apertão nos seios de uma moça numa providencial passagem para recolher brasa para o cigarro na lareira e mais um abraço apertado com «chega para lá» numa saída já cá à porta quando a dona da casa dormia a sono solto.

Já dentro da geração anterior em Alcaria Alta, por aquilo que era fácil saber, eram raros os casamentos do pessoal do monte entre si. Havia relações familiares por vezes chegadas entre os habitantes locais o que retirava logo uma fatia grande de possibilidades e uma quase imperceptível hierarquia regulada pela posse, mesmo que ela fosse pouca de uma forma geral.

Das minhas duas tias (uma outra faleceu com cerca de vinte anos) nenhuma delas se mostrou tentada a ficar por lá, tal como a minha mãe, o mesmo acontecendo com a multidão de primos e primas que uma família com seis matriarcas (avó e tias avós) produziu.

Houve ainda um tio que partiu cedo para trabalhar nas oficinas de material de guerra cuja parte na propriedade familiar eu nunca conheci nem soube o que foi feito com ela acreditando que tenha sido dividida entre as irmãs por algum acordo que desconheço. Este meu tio-avô só vim a conhecê-lo já na parte final da sua vida, chamava-se Eurico, nome pouco vulgar e pouco usado por aqueles lados. Reformado, viúvo e sem filhos depois acabou por vir bater a Faro, casando com uma senhora daqui, em casamento «arranjado» pela minha mãe e minhas tias. Excelente senhora, esta minha episódica tia que foi mulher de um tio que eu nem sabia existir e que só vim a conhecer já pelos meus 16/18 anos.

Conforme disse os casamentos de homens e mulheres de Alcaria Alta tinham lugar fora de Alcaria Alta e nos casos em que isso acontecia, quer dizer quando as pessoas acabavam por casar na zona, havia sempre a mira implícita de arranque conjunto ou para uma cidade ou para a emigração isto ao nível dos não lavradores.

[Aspecto do monte de Lutão de Cima. Foto JV]

Aqueles que tinham posse substancial a preservar conservavam-se no concelho, de uma forma geral, embora o poder de atracção dessas fortunas não fosse suficiente por vezes para manter o pessoal por lá: um filho de um lavrador acabou por ir para a GNR por exemplo o que foi muito comentado na altura por não ser considerada uma opção ao nível da sua fortuna. O percurso por via das habilitações escolares na altura só tinha chegado a um filho, o mais novo, que acabou por falecer no Ultramar como Furriel.

Eu ouvia falar dos antigos bailaricos no Monte e perguntava-me o que tinha acontecido a essa vida que me era apresentada como foliona e como potenciadora de criação de famílias inter - montes. Não conheci já nada disso (salvo um baile no armazém da Ti Inácia) mas foi-me apontada a então casa da Ti Chica como tendo servido para bailes antes de ser a sua morada e por aquilo que a minha mãe me contava havia bastantes bailes no tempo da sua juventude e infância.

Aconteceu sim, no meu tempo já, um rapto (para efeitos de casamento) que ficou na memória pelo já desfasado no tempo e por um curioso acontecimento. Um jovem do Monte uma noite foi raptar a namorada ao Lutão, naquele tempo já de motorizada. Embrenhado na condução e desejando chegar a Alcaria Alta o mais rápido possível não se terá dado conta que a jovem tinha tombado da motorizada num ressalto do terreno.
Ela ficou bem, ficou tudo bem, ele acabou por aperceber-se, quilómetros à frente, do sucedido mas foi durante muito tempo impossível olhar para ele ou para ela sem que ficássemos com uma forte vontade de rir...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Triângulo



Outro utensílio de ferro que caiu em desuso e que era utilizado quando se “fazia fogo de lenha”, para usar uma expressão local muito utilizada.

Até quem não sabia o que era um triângulo assim o designava, pois foi o nome que lhe transmitiram os mais velhos.

Qualquer objecto com a forma de triângulo (figura geométrica de três ângulos) pode receber esta designação, como acontece por exemplo aos ferrinhos, instrumento musical que também é conhecido por triângulo. Existe uma constelação boreal que pelas mesmas razões tem esse nome.

O “triângulo” de que estamos a falar é de ferro e equilátero, ou seja, tem os três lados iguais. Em cada vértice tem um “pé” normalmente de 8 a 10 cm de altura.

O triângulo fazia sempre companhia à trempe, pois ambos se utilizavam no fogo de lenha, ora nas chaminés ora na casa do fogo, o que era mais vulgar, saindo o fumo pelas frestas das telhas de canudo.

Servia para aquecimento de pequenos utensílios e também para assar peixe ou carne, pois a grelha assentava sobre ele apanhando o calor das brasas.

O exemplar da imagem é um modelo antigo e que foi muito utilizado como se deduz do desgasre apresentado.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Monte Novo do Pereirão, o "monte" do moinho


[Vista geral do pequeno aglomerado. Foto JV, 2011]

Situa-se na cumeada do Pereirão a que foi buscar o nome, como fez o Pereirão, possivelmente o mais antigo e relacionado com uma herdade que pertenceu aos Condes de Alcoutim, a Casa Nova (do Pereirão) que terá vindo a seguir e o mais recente, daí o topónimo Monte Novo que igualmente foi buscar o nome da cumeada, PEREIRÃO.

Situa-se próximo da estrada asfaltada que atravessa toda esta zona da freguesia de Martim Longo, tendo por perto os Zorrinhos de Cima, o Monte da Estrada e o Monte das Mestras.

Devia ter sido electrificado quando foram os montes vizinhos e nota-se uma parabólica no telhado de um dos edifícios. Existe um furo municipal que fornece água ao domicílio.

É bem visível a horta que fornece os indispensáveis vegetais na alimentação.



[Moinho do Pereirão, o único em condições de funcionar, no concelho. Foto JV, 2011]

O monte é constituído apenas por dois fogos, quatro habitantes, dois casais, um em cada fogo, e nele vive o moleiro do único moinho de vento que ainda funciona no concelho de Alcoutim, o designado moinho do Pereirão, ainda que o moleiro e proprietário não exerça a profissão a tempo inteiro, constando-me mesmo que só produz farinha para o seu consumo.

Tanto o monte como o moinho encontram-se bem cuidados como demonstram as fotografias apresentadas que são recentíssimas (Agosto de 2011).

Do moinho podemos usufruir uma excelente vista.

RECTIFICÇÃO
Acabámos de receber o seguinte e-mail que pretende rectificar erro cometido neste texto. Sempre que possível recorremos a elementos escritos sobre a matéria, o que raramente acontece e muitas vezes recorremos a informações orais sempre susceptíveis de inexactidões.
Agradecemos sempre estas informações no sentido de melhorar a exactidão do texto e solicitamos sempre informações coplementares para o seu acrescentamento que uma vez feito terá sempre a indicação da origem.

O que ALCOUTIM LIVRE precisa é de colaboração, nem sempre conseguida por variados motivos.

Convidamos assim a Gracinda Guerreiro que conhece certamente muito bem os Zorrinhos de Cima, o que não acontece connosco, a escrever um texto sobre o monte que publicaríamos aqui com muito gosto e sem qualquer problema.

Com os nossos agradecimentos.

JV

Boa noite!
Eu Gracinda Guerreiro filha do moleiro e proprietário do moinho do Pereirão o senhor Herminio Guerreiro que mora nos Zorrinhos de Cima e não no monte do Pereirão com foi publicado, os casais que moram lá nada têm a ver com o moinho.
Muito obrigado

Gracinda Guerreiro

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Coentro


(Retirado com a devida vénia de http://www.dicasdecozinha,com.br)

Admito que seja a planta aromática mais utilizada no concelho de Alcoutim, onde ninguém passa sem ter uma leirinha de coentros!

É provável que seja originária da bacia do Mediterrâneo e que possa estender-se pelo Cáucaso. É já conhecida por gregos e romanos que a utilizavam na culinária e em bebidas.

Começou a espalhar-se pela Europa e América acabando por difundir-se por todo o Mundo principalmente pela Ásia.

O coentro (Coriandrum sativum, Lin ) é planta anual de que existem várias espécies, cultiva-se em Portugal, nomeadamente no sul, onde é muito utilizada como condimento alimentar.

As folhas são verdes e recortadas e as flores pequenas e brancas, sendo a semente redonda e de cor bege.

As folhas que exalam um cheiro característico são utilizadas na culinária, principalmente em pratos de carne com destaque para o porco e o borrego, enquanto a semente é mais destinada à confecção de certos produtos farmacêuticos.

Ainda que sejam os alentejanos os maiores utilizadores desta planta, sendo uma das atracções da sua gastronomia, os algarvios, principalmente os da Serra e os ribatejanos também praticam o seu uso.

É anti-séptico e calmante. As suas sementes são um excelente digestivo quando mastigadas depois da refeição. Alivia vómitos e flatulência, estimulando o apetite.

É utilizada igualmente na culinária na região norte do Brasil, na Índia e no mundo árabe.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As minhas quatro moedas






Um conto de


José Temudo





O que pretendo contar-vos hoje, é uma “estória”... sonhada.

Mas entendamo-nos já sobre o que é uma “estória sonhada”. Ela não é filha da minha imaginação, não é mais um produto da minha capacidade inventiva, É uma “estória” real, que aconteceu, ainda que vivida dentro de um sonho, no reino imaterial dos sonhos, onde a magia é rainha absoluta e caprichosa, por vezes, generosa, mas, não raramente, perversa e cruel.

Dito isto, passo então a contar-vos a minha “estória”, isto é, o meu sonho. Prestem, pois, a vossa atenção.

Como é meu costume, vou andando de cabeça baixa, olhos postos no chão, dois metros à frente dos meus passos. O caminho, de pé posto, é estreito e sinuoso, e vai por entre estevas, rosmaninho e alecrim. De súbito, paro. O meu olhar fixa-se no que me parece ser uma moeda. Aproximo-me e fico sem dúvidas. É mesmo uma linda moeda. Que jeito me dá!, pensei. Meti-a ao bolso e continuei a andar. Uns passos mais adiante, paro de novo: quase coladas uma à outra, mais duas moedas! E a minha fortuna não ficou por aqui, pois, à medida que ia caminhando, fui encontrando mais moedas, cada vez em maior número. Já de bolsos cheios, a abarrotar de moedas, no próprio sonho, fui assaltado por mais por mais do que justificada dúvida: “Não estarei eu a sonhar?” A dúvida, contudo, dissipa-se depressa. Apalpo as moedas, chocalho-as, ouço-as, sinto o seu peso nos bolsos. Afastada a dúvida, instalou-se a curiosidade: “se não é sonho, como explicar todas estas moedas como que semeadas ao longo do caminho?” A resposta a esta pergunta veio rápida, aceitável: “Alguém, antes de mim, terá passado por aqui, carregando às costas um saco de moedas: o saco ter-se-á rompido e foi largando moedas a conta gotas, sem que quem carregava o saco desse por isso. E continuei a andar. Mas, agora, sem apanhar mais moedas, pois os bolsos já estavam cheios. À medida que ia andando, ficava cada vez mais claro para mim que já não era o dinheiro, nem sequer a mera curiosidade que animavam os meus passos. Eu caminhava movido por uma vontade que não era a minha, por um poder que não me permitia que voltasse para trás, sequer que parasse, era uma força determinada que me queria levar a um qualquer lugar. E foi o que aconteceu, depois de ter andado não sei durante quanto tempo. Depois, deixei de sentir que estava a ser como que empurrado. Parei. Então, à minha frente, a três ou quatro metros de distância, os meus olhos viram, maravilhados, não uma, não duas, não apenas muitas, mas um monte deslumbrante de reluzentes moedas de prata, novinhas em folha! Eu era todo olhos! Fascinado, ou enfeitiçado ou hipnotizado ou sei lá como. Aproximei-me lentamente do monte de moedas. Maquinalmente, as minhas mãos deslizaram, em jeito de afago, sobre a superfície daquele prodígio. Depois, lentamente, mas com determinação, e sentindo nisso um prazer que, pouco a pouco, me foi percorrendo o corpo todo, enterrei-lhe as mãos até aos cotovelos. E, então, num repente, com frenesi, como se tivesse enlouquecido, fui atirando as moedas ao ar, com as duas mãos, às braçadas. Desafiando a lei da gravidade, as moedas não caíam, permaneciam no ar, revoluteando, cintilando, formando sobre mim como que um céu em miniatura. O que a aconteceu até este momento excedia tudo o que eu pudesse imaginar. Mas, o que eu via agora, a meus pés, excedia não só a minha imaginação, como a minha própria capacidade de sonhar. Quatro moedas de ouro, diferentes no tamanho, iguaizinhas na cor e no brilho, ali estavam, no chão, ao alcance das minhas mãos. Os meus olhos já não podiam abrir-se mais, o meu encantamento não podia ser maior! Quando me baixei para as apanhar, eu não me sentia rico nem por um só momento me passou pela mente o que eu podia comprar com tal fortuna. Sentia-me, isso sim, eufórico, imensamente feliz, só por poder olhá-las, tê-las na minha mão, saber que eram minhas! A emoção era tanta e tão intensa, que era demais para uma pessoa só. Eu tinha que a partilhar com alguém, pois corria o risco iminente..... de uma explosão de alegria! E foi o que fiz, correndo, saltando, galgando, quase voando, sobre montes e vales, até que cheguei junto a quem queria mostrar o meu pequeno mas tão querido tesouro.
- “Olhe”, disse eu, abrindo a mão. “Acaso, já alguma vez viu quatro moedas mais brilhantes, mais lindas do que estas minhas?”
- “Não”, respondeu esse alguém, “ de facto, nunca vi moedas de que gostasse tanto como das tuas! Mas falas-me de quatro moedas; na realidade só vejo três na tua mão.”
- “São quatro”, reafirmei, confiante; e aproximei, ainda mais, a minha mão ao meu interlocutor.
- “Veja bem”, disse-lhe,” são quatro.”
- “Custa-me contrariar-te”, respondeu,” mas continuo a ver somente três moedas na mão que me estendes. Não terás a moeda que não vejo, na tua outra mão ou mesmo num dos teus bolsos?”
Sem querer acreditar no que estava ouvindo, pois eu tinha a certeza que eram quatro as moedas que eu trouxera na minha mão cuidadosamente fechada, baixei os olhos, ainda brilhantes de alegria, sobre a mão aberta que as expunha. O coração caiu-me aos pés! Como era isto possível? Sem compreender o que se tinha passado, sem atinar com uma resposta, com a mente em perfeita paralisação, ainda assim olhei para a outra mão e virei do avesso os bolsos. Nada! A minha alegria que era tanta que ameaçara rebentar comigo, tal como um balão rebenta com excesso de ar, deu lugar à mais extrema tristeza; o meu entusiasmo, que me fizera correr, saltar, galgar montanhas, quase voar, que brilhava nos meus olhos como o fogo vivo de uma lareira, apagava-se e agora não era mais do que as cinzas frias do mais angustiante desânimo. E foi assim, com a alma destroçada, com o pensamento paralisado e com o coração oprimido pela mais cruel amargura que, sem saber o que fazia, foi assim, dizia, que fui subindo, penosamente, o íngreme caminho que me levou ao cimo de uma montanha, mesmo à linha de separação das vertentes. Aí chegado, esgotadas que estavam as minhas forças, deixei-me cair entre dois dos inúmeros pedregulhos que, vistos à distância, lembram os dentes de uma serra. E aí fiquei, imóvel, frio, sem um único pensamento, sem nada ver, sem nada ouvir, fechado sobre a minha própria dor – feito uma pedra entre as outras pedras.

O sonho acabou aqui. Acordei tolhido de frio, angustiado, o rosto banhado de lágrimas. A meu lado, a vossa avó Amélia, encolhida e gelada, chorava, de forma aflitiva. Tal como eu, estava a viver um terrível pesadelo. Acordei-a carinhosamente, aconchegando-a entre os meus braços. E assim ficámos, despertos, sem falar, recordando com dorida e infinita saudade aquela pequenina moeda, igualzinha às outras, mas que tilintava de forma diferente.


[Vila do Conde]

FIM

domingo, 23 de outubro de 2011

Os meus onze anos de Festas de Alcoutim

[Retirado com a devida vénia de http://alcariaalta.blogspot.com]

Depois de ter deixado passar todo o badalar dos ditos 60 ANOS das Festas de Alcoutim, pouco interessa que sejam 61, 62 ou 63 e que algum eco teve neste espaço, penso ser a altura de dizer alguma coisa sobre o assunto, sobretudo, durante o período de 1967/77.

Ainda que já tenha abordado especificamente muitos assuntos referentes a todo o concelho em livro, na imprensa regional e principalmente neste espaço, nunca abordei o tema das Festas de Alcoutim, a não ser numa leve referência a pp 117 e 118 do meu trabalho, Alcoutim – Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

Fi-lo através da informação oral transmitida, que como se sabe é muito falível. Se até a escrita por vezes o é, como já tenho verificado, pois por vezes falam-se em alhos e escrevem-se bugalhos!

Pouco depois da publicação daquele livro, recebi uma carta do alcoutenejo Eng. Gaspar Santos onde além de me agradecer o trabalho desenvolvido teve a amabilidade de apontar com minúcia algumas falhas por ele notadas, o que anotei e muito lhe agradeci. Foi dos únicos alcoutenejos que o fizeram. O maior volume de mensagens (escritas) recebidas é de não alcoutenenses.

É nesta altura que sou alertado pelo Amigo Gaspar Santos para o facto das Festas de Alcoutim terem sido criadas pelos jovens que constituíam o Grupo Desportivo de Alcoutim liderado por Fernando Lopes Dias.

Quando me foi possível consultar a pouca documentação do Grupo Desportivo e que veio a dar origem à publicação de um pequeno opúsculo, encontrei efectivamente dados claros que confirmam o que aquele amigo nos tinha informado.

Se chegar a sair uma nova edição daquele meu trabalho, a rectificação está há muito feita.

Não posso deixar de referir que houve gestões do G.D.A. em que não se lavrou uma única acta! Possivelmente passaram-se coisas boas ou más, mas a verdade é que não ficaram escritas para os vindouros.

Uma das razões que me levou a nunca ter escrito nada específico sobre as Festas de Alcoutim foi o facto de não vislumbrar nada escrito sobre as mesmas.

Existia, e é mais uma informação fornecida por Gaspar Santos, um alcoutenejo que tinha toda a colecção de cartazes das festas, o que constituía por si um acervo importante para se fazer a sua história. Faleceu e possivelmente perdeu-se toda essa documentação.

Terá havido mais alguém que o tivesse feito? É possível, mas não acredito.

Será que existem coleccionados todos os cartazes da Feira do Artesanato, os seus participantes e a indicação de despesas e receitas? Possivelmente não. Depois, só se faz a estória com aquilo que as pessoas dizem e com as falhas que tudo isso acarreta.

Mais uma vez tal vai acontecer, pois vou falar de memória sobre os onze anos das Festas de Alcoutim a que assisti. É por isso uma opinião pessoal dos factos que vivi e que certamente outros da mesma época contarão de uma maneira diferente.

Cheguei a Alcoutim no dia 13 de Junho de 1967.

Em Agosto comecei a ouvir falar nas festas. Toda a gente falava nas festas e ouvia-se dizer que “este ano não se fazem”. Todos andavam tristes mas as pessoas importantes da terra não avançavam.

A juventude naturalmente fervia, queria as festas para se poder distrair já que durante todo o ano era a única hipótese de o fazer.

[José Ribeiros Vaz]
Lembro de aparecerem dois jovens, ambos aspirantes de finanças, qualquer deles ainda sem cumprirem o serviço militar que tiveram a coragem de pegar no assunto. Um, alcoutenejo, José Afonso Pereira Ribeiros Vaz, vitimado pela guerra colonial em Moçambique, junto ao lago Niassa, o outro o tavirense Joaquim Messias dos Santos.

As festas desse ano devem-se sem dúvida nenhuma a eles, que naturalmente tiveram a colaboração de todos os outros jovens que iam ajudando naquilo que podiam.

Ainda que a minha presença fosse recente não deixei de oferecer os meus préstimos no que pudesse ajudar.

A decoração do recinto até aí era feita à base das célebres bandeirinhas de papel de seda coladas em fio de sisal com cola de farinha. Além disso, cobriam-se os paus que seguram as lâmpadas e as bandeiras com vegetação como se fazia nos mastros. Não podiam faltar as folhas de palmeira que engalanavam o palco e as entradas. A casuarina, que já estava adulta, recebia também lâmpadas e bandeiras.

Era fundamentalmente isto que acontecia.

Propus então que podíamos melhorar a decoração com caixas de cartão (que esgotámos no comércio local – o meu amigo João Guerreiro despejou algumas para as podermos utilizar) com inscrições feitas através da retirada do cartão de letras cujo espaço era ocupado com papel “celofane” de várias cores. Lembro-me perfeitamente que entre outras fizemos cinco caixas com o nome das cinco freguesias que constituem o concelho.

É claro que em Alcoutim não havia tal papel o que ainda acontecerá hoje.

O cartaz com que se abre este escrito e que Lunaplena publicou no seu blogue, Alcaria Alta, um monte do nordeste algarvio é desse ano e da minha autoria. Só me lembrei dele quando o vi publicado. Bem-haja por isso a neta do João Baltazar Guerreiro, que nessa altura estava muito distante de nascer.

A única coisa que existia das Festas era um velho estrado que de ano para ano ia causando maior dificuldade em montar. Eu dizia que qualquer dia os artistas caíam e podiam ficar molestados.

As cadeiras de madeira eram alugadas em algures e constituía uma despesa apreciável para a chamada “Comissão”.

[Quermesse que veio a servir nas Festa de Alcoutim]

A velha quermesse saída das mãos habilidosas do Dr. Cunha foi montada em frente da capela de Sto. António onde tinha lugar marcado. Parece que estou a vê-la. Foi montada mais uns anos, não sei quantos, mas foi coisa tão característica das nossas festas que ali desapareceu completamente.

Lembro-me que actuou a grande orquestra “Alma Alentejana” de Portel. Igualmente recordo que não me deitei e fui abrir a repartição à hora devida. Tomem nota, não me embebedei e não tenho a certeza se tomei alguma bebida alcoólica. Nesta altura as coisas eram muito diferentes.

Nesse ano o peditório pelos montes já não teve lugar, pois a desertificação já tinha começado. Entretanto, deixaram-se de enviar as circulares que pretendiam o envio de alguma coisa para auxílio das mesmas. Nesse ano, se a memória não me falha, rendeu dois mil e tal escudos.

Depois de um ano de experiência, verifiquei determinadas anomalias que era necessário corrigir. A partir de 68 / 69 nunca mais houve qualquer eleição para a comissão de festas que auto se nomeava à falta de outros e isto aconteceu até 1977. Depois disso e após a fundação dos Bombeiros Voluntários, passou a ser organizada por esta Associação, cujo Comandante, João Manuel Rita Baptista, desde muito jovem foi um dos organizadores da festa.

Nunca pertenci a nenhuma Comissão de Festas dado que o tipo de organização não se coadunava com a minha maneira de estar, contudo, estive sempre disponível para ajudar naquilo em que pudesse ser útil.

José Madeira Serafim não o disse no seu discurso quando da última Festa, mas a verdade é que ele foi durante alguns anos a chave da organização das Festas agarrado a um telefone para fazer os contactos.

Entretanto, deixou de ter sentido falar-se na criação de um hospital de maiores dimensões, o que existia ia servindo para as necessidades locais.

[Festas de Alcoutim. Foto de JV, 1973]

Os poucos lucros que as festas iam dando tinham de servir de suporte para novas festas, pois se no segundo dia chovesse ia tudo por água abaixo e como se cumpririam os compromissos assumidos?

O problema das mesas e cadeiras, então de madeira, foi resolvido um ano com a sua aquisição o que sanou um grande problema e diminuiu os encargos. A sua arrecadação era a sacristia da capela de Sto. António e antes das festas, Francisco Barão procedia à colocação de algumas travessas partidas e a outros consertos, isto realizado na própria capela.

Num ano, que não posso precisar, mas talvez 1970 ou 71, tornei o palco com um aspecto diferente, dei-lhe a configuração de um castelo de porta ogival e onde não faltavam as ameias o que causou alguma sensação. Era feito à base de cartão prensado.

Em 1973 por minha sugestão foi realizada uma prova de perícia de motorizadas na Fonte Primeira. Criei os obstáculos, fiz o esquema e o Regulamento. Tenho um exemplar do impresso que foi feito sobre a prova mas não o consegui encontrar.

Lembro-me que eram os próprios concorrentes que accionavam o cronómetro ao iniciar a prova e o paravam quando a terminavam.

O vencedor foi António Guerreiro, natural da Corte da Seda.

Não assisti à prova como estava planeado, tive que receber nessa hora uma visita inesperada de um amigo, hoje falecido, que teve a amabilidade de passar por Alcoutim para me visitar. Mais tarde foi Director de Finanças de um distrito onde trabalhei.

[Palco das Festas de Alcoutim. Foto JV, 1998]

A minha última pequena ajuda para as Festas teve por fim resolver o grave problema do palco já degradado e que todos os anos constituía grande dor de cabeça para se montar e que ficava com segurança duvidosa.

Na parte de fora do cais do lado sul foram levantados nove pilares em tijolo, oito exteriores e um central de maiores dimensões que ficavam sensivelmente à altura da vedação do mesmo.

Foram mandados fazer em Martim Longo, já que em Alcoutim não havia quem o fizesse, quatro robustos estrados de forma rectangular que iam assentar sobre os pilares reunindo-se ao centro no pilar de maiores dimensões. Os estrados tinham furos verticais nas extremidades por onde passavam ferros que iam encaixar em aberturas justas e adequadas nos ditos pilares.

O trabalho de pedreiro, a que eu naturalmente assisti para dar a orientação, foi feito pelo saudoso pedreiro alcoutenejo, António Carlos Vicente, vulgo António Emílio.

O palco nunca mais deu problemas.

Por parte de muitas pessoas a grande preocupação era o cabeça de cartaz no segundo dia das festas e que chegava a provocar assanhadas discussões. Poderei dizer que as principais figuras artísticas daquele tempo passaram por aquele palco. Lembro-me, por exemplo de Carlos Alberto Moniz que nessa altura a filha mais velha era de colo, Duo Ouro Negro, Pedro Barroso...

Para terminar este depoimento, direi que nunca vi os “homens de gravata” para usar a terminologia do Amílcar Felício, metidos nestes trabalhos, mas sim jovens. Houve gente que fez a festa “montes” de anos, eram quase sempre os mesmos e alguns já não viviam em Alcoutim!

Não vou indicar nomes porque iria esquecer-me de algum.

Poderei acrescentar que paguei sempre o meu bilhete e a minha mesa como me competia.

Não tenham dúvidas, durante estes onze anos as FESTAS DE ALCOUTIM foram feitas pelos jovens, os “Senhores da Terra” não tinham nada com isso! O resto é conversa.

sábado, 22 de outubro de 2011

Alcoutim necessita de maiores atenções

Pequena nota
Até agora na rubrica Ecos da Imprensa com 59 "posts" só tinham sido publicados textos da nossa autoria e espalhados por vários órgãos da comunicação social.
Ao darmos uma volta pelos nossos recortes fomos encontrar este de que não consta a data de publicação mas que está dentro da data que apresentamos e que publicamos em homenagem ao nosso saudoso amigo JB Guerreiro como gostava de ser designado.
Acompanhamos o texto com a mesma fotografia apesar das naturais deficiências que apresenta visto ter sido tirada do recorte do jornal.
Não temos a certeza se o escrito é de JBG mas acreditamos que sim, pelo menos foi publicado sob a sua responsabilidade.
Com mais de 40 anos de publicação há coisas que pouco mudaram.
Permitam-me os leitores que dedique a sua publicação à neta Lunaplena.

JV


(PUBLICADO NO JORNAL DIÁRIO “O SÉCULO” PELO CORRESPONDENTE EM ALCOUTIM J.B.GUERREIRO EM DATA IMPPRECISA – 1970/71)


[JB Guerreiro]
ALCOUTIM – Tem este concelho uma população de cerca de 9000 habitantes, e o único médico que existia e prestava serviço de clínica geral, acabou por se retirar para outra localidade, onde com mais facilidade possa educar seus filhos, dando-lhe assim mais conforto.

Quanto ao ensino, ou melhor, à sua falta, é esse um dos factores mais importantes para ajudar o declínio da população, pois todas as pessoas , com ou sem condições, procuram instruir os seus filhos, notando-se este facto também na classe de funcionários e militares, os quais, em grande parte, recusam-se a permanecer aqui, desde que possam conseguir colocação em lugares onde existam estabelecimentos de ensino.

Solucionar-se-ia o problema com a criação de um ciclo preparatório e de um posto de Telescola , retendo-se esse pessoal na localidade por mais alguns anos.

[Alcoutim e Sanlúcar visto de Espanha. Foto de JBG (?)]

Por seu lado, pouco resta do pequeno comércio que em tempos existia, e o motivo deve-se somente às entidades responsáveis pela conclusão de uma estrada, a que apenas faltam construir cerca de 3 quilómetros, para que, assim deixe de ser beco como já se lhe chama.

Salienta-se, ainda, o encerramento da fronteira, a qual esteve aberta até à Guerra Civil de Espanha.

Por sua vez, são as paisagens do Guadiana, junto a Alcoutim, umas das mais belas do Algarve e pena é que ainda sejam desconhecidas do grande número de turistas que visitam esta província, e que as obras em curso, não se concluam.

Também por falta de um funcionário, a Estação dos Correios fecha, enquanto a única funcionária se desloca à Repartição de Finanças e Tesouraria da Fazenda Pública, a requerer selos, vales do correio e fazer entregas de fundos. O serviço de distribuição faz-se com grande atraso, pois o único carteiro-distribuidor, embora zeloso e rápido nos serviços, não consegue tratar dos serviços com a prontidão que se fazia quando eram dois funcionários. Os Correios Telecomunicações obrigam o mesmo carteiro a fazer a condução de malas num percurso de cerca de 150 metros a pé, com as malas às costas, diariamente. Aqueles serviço, passando a empresa privada, retiraram uma caixa receptora de correspondência na zona de comércio e das repartições, alegando terem de pagar mais uma hora diária ao carteiro. Existia um posto de telefone público naquela zona, mas foi, igualmente retirado, tudo isto com grandes prejuízos para o público e para o desenvolvimento da vila.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Visita da imagem de Nª Sª de Fátima à Vila de Alcoutim



Como tínhamos prometido, voltamos hoje às fotografias que documentam a visita efectuada pela imagem de Nª Sª de Fátima à Vila de Alcoutim e que teve lugar em 23 de Fevereiro de 1947, por isso, já lá vão 64 anos.

A última que apresentámos corresponde à saída da imagem da Igreja de Nª Sª da Conceição junto à porta manuelina. Esta, como bem se nota, é a saída do andor entrando no escadório de acesso.

É de realçar o branco das paredes, o arco decorativo que no seu vértice possui uma cruz e engloba a inscrição BENVIDA SEJAIS SENHORA DE FÁTIMA A outra decoração festiva é a tradicional, bandeirinhas de papel de seda e paus enramalhados.

A apresentação destas fotografias só é possível pela colaboração do alcoutenejo, José Madeira Serafim, que no-las cedeu para o efeito.

Iremos futuramente apresentar mais fotografias.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Os Guerreio da Comarca de Ourique



O livro que hoje apresentamos constitui um valioso trabalho de genealogia que tem por base, como o título indica “Os Guerreiro da Comarca de Ourique".

A edição é de Setembro de 2011, por isso, recentíssima.

De capa com encadernação cartonada e no formato de 18X27 cm tem novecentas e vinte páginas de bom papel. Ilustrações a preto e branco e a cores no que diz respeito aos brasões.

É seu autor Luís Soveral Varella e tem a chancela de PATRIMÓNIO & HISTÓRIA.

A edição é limitada a 500 exemplares.

Trabalho de folgo e minucioso comporta além do índice geral um de Imagens e outro Onomástico que constituem preciosos auxiliares nessas áreas.

Trabalho essencialmente de consulta, a sua leitura prende-nos a atenção.

Este livro é de particular interesse para Alcoutim pois tem referências à vila, Martim Longo, Vaqueiros, Giões e aos montes de Madeiras (indicado como monte dos Madeiras), Castelhanos, Tremelgo, Penteadeiros (o mesmo que monte das Pereiras), Lutão, Laborato, Monte Argil, Santa Justa, Monte dos Gagos, Barrada, Ravelada e Marim, estes de que dei conta.

Há dezenas de alcoutenejos referidos no trabalho, alguns dos quais tínhamos conhecimento da sua existência e até de lugares desempenhados mas, eram factos isolados e que agora em determinadas situações vimos esclarecidos.

São igualmente indicados descendentes actuais destes Guerreiro no concelho de Alcoutim.

Cedemos com muito gosto três fotografias da Casa do Capitão-mor (Diogo Mestre Guerreiro) que foram publicadas na página 623.

O trabalho pode ser adquirido através da editora.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XIV




Escreve

Daniel Teixeira



OS ANIMAIS

Animais, em Alcaria Alta, por aquilo que fui entendendo, e talvez não fosse e não seria mesmo em termos lógicos diferente noutros sítios serrenhos, eram, os animais, medidos pelo seu grau de utilidade. O conceito de animal de estimação era dividido entre a ideia da utilidade do animal acrescentado pelos relatos das suas proezas ou manifestações da sua esperteza.

Por exemplo, a minha avó tinha cerca de uma dezena de gatos e por isso não havia ratos, nem lagartixas entradas pelas pedras e poiais, nem osgas esgueiradas pelas inúmeras frestas das casas, frestas estas que inventariaria começando logo em cima das nossas cabeças, na cobertura interior (hoje chama-se de forro), feita de canas atadas entre si, o chamado caniço.

Os gatos estavam na sua grande parte apenas presentes às horas das refeições roçando-se pelas nossas pernas e miavam e como eles miavam, era uma verdadeira des – sinfonia. Eram corridos mas voltavam logo: era praticamente impossível controlar todo aquele «rebanho». No inverno eram verdadeiros gatos borralheiros aquecendo-se perto das brasas e das cinzas. A maior parte das vezes íamos encontrá-los nas redondezas da casa, muitas vezes mesmo de barriga ao sol outras de mira paciente em algo que andasse por ali e lhes fornecesse algumas proteínas.

A minha avó gostava muito de uma gata, contudo, e contava dela uma proeza que deve conter alguma coisa de fábula evidente, mas vindo da minha avó, uma mulher rija e de poucos carinhos acaba por valer ainda mais: uma noite cansada de a ouvir miar (alguns tinham direito a dormir aos pés da cama) tinha-lhe jogado um sapato e gritado que «se tinha fome que fosse caçar». Deixou-se dormir e depois acordou com ruídos estranhos vindos do buraco na parede por onde os gatos entravam e saíam daquele quarto directamente para a rua. Levantou-se e foi dar com a gata arrastando uma lebre «tinha ido mesmo caçar, como ela lhe dissera!».

De acrescentar que por experiência própria sei que acontece por vezes encontrarem-se lebres que por uma razão ou outra não correm, deixando-se antes ficar escondidas atrás de ervas ou ramagens. Com os meus amigos «tínhamos» um cão pequenito que era especialista no farejo e que levantava a caça para os galgos que mais que uma vez abocanhou coelhos e lebres nestas situações e nem de outra forma poderia ser porque em corrida não dava para meia gaitada.

De quando em vez uma destas gatos apanhava a porta aberta ou o postigo e saltava para cima da mesa que normalmente apenas tinha miolos de pão e outras vezes um bocado de queijo ou de courato do presunto esquecido sobre o tampo. Não se comia propriamente na gaveta mas era de rápido regresso à gaveta aquilo que compunha um pequeno almoço (lá chamado de almoço) ou de um lanche (lá chamado de jantar).A refeição mais forte era a ceia, à hora do nosso jantar citadino. A comida para animais não era abundante porque não eram também abundantes os restos.

Ora um dia fui à pesca, à lapa, como lhe chamávamos, com o meu primo José Francisco. Tratava-se de meter as mãos nos buracos nas paredes à volta dos pegos e entre as pedras do fundo (as lapas) e apanhar à mão o que conseguíssemos. Normalmente apanhava-se bastante peixe nestas condições mas havia um senão que eram as cobras. Cobras de água não fazem qualquer mal mas eu sempre tive as minhas reticências e o tradicional nojo destes animais.

[Um pego da região. Foto JV, 2010]

Dias antes tinha também andado numa pescaria dessas com os meus amigos na ribeira e acabámos por apanhar uma gorda eiró que a mim pouco me parecia ter de eiró. Foi uma sensação de suspeita devido à grossura do bicho: as eirós que conhecia eram para o magrinho, esguias, escorregadias como tudo. Ora aquela estava isolada numa poça de água que acabámos por vazar à força de balde e era extraordinariamente grossa. Nunca pensei a 100% que fosse uma cobra mas também não fiquei convencido a 100% de que era um eiró pelo que me abstive no repasto optando sadiamente a meu ver por uma lata de conserva.
Eles bem me diziam que se fosse cobra não comiam, isso era evidente para eles, mas os conhecimentos deles e meus sobre a fauna aquática remavam para os dois sentidos: podia não ser cobra e podia ser cobra e eles não saberem exactamente. Fizeram a assada na maior e eu de latinha de conserva à frente. No mesmo dia foi nascendo em mim a convicção de que pesca à lapa não era definitivamente para mim...eu sempre pesquei é linha na minha cidade nos pontões e cais porque razão iria andar por ali a mexer em cobras ainda por cima para apanhar um peixe de que não gostava nada por causa da profusão de espinhas?

Na verdade e para quem não sabe o peixe de rio (muge) tem uma consistência espinal elevada por centímetro quadrado: é um frete comer aquele peixe. Ora a pescaria com o meu primo foi logo combinada por ele para um dia ou dois depois de eu ter visto eles comerem a eiró /cobra e não era uso baldarmo-nos a convites destes especialmente vindos do meu primo e sapateiro gratuito.

Para além disso a mulher dele, minha tia/prima, era uma jóia de pessoa sempre. Ainda vive e eu pouco lhe tenho falado ultimamente o que lamento sinceramente. Esteve doente em minha casa enquanto fazia tratamentos no Hospital de Faro a um problema hormonal mas não era de encostos e trabalhava em nossa casa tudo aquilo que havia a fazer. Quando a minha mãe se ausentava era a ela que recorríamos. Por várias razões o meu primo, que era natural do Zambujal, não tinha entrado bem na família alargada. Era respeitado sim mas relativamente pouco aceite.

Eu achava estranho essa falta de integração mas tenho a impressão que o sentido de humor dele não se ajustava muito à seriedade local acabando algumas vezes as fábulas dele por serem levadas a sério tal a convicção que metia nos relatos. Bem, isto para dizer que estava fora de causa uma recusa à pescaria. Pelo caminho pelo sim pelo não fui-lhe contando os eventos que tinha vivido dois dias antes, para já à beira do pego, lhe dizer que se a primeira coisa a entrar-me na mão fosse cobra parava logo ali a minha função. E foi isso que aconteceu...saiu cobra.

Sentei-me numa pedra enquanto assistia a uma afanosa pescaria porque o pego era farto. No dia a seguir e conforme combinado fui um pouco a contragosto para comer o peixe que ele tinha apanhado e fui então no local informado que peixe não havia, que um gato tinha conseguido chegar ao cesto elevado por corda atada a um barrote do tecto e tinha comido tudo. Nem foi preciso olhar bem para o olhar encolhido da minha tia para perceber tudo.

O homem dispunha sempre... e no fundo tinha toda a razão...mas podia sempre ter-me mandado recado sobre o «afoito gato» poupando-me a deslocação.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Talher - Garfos

Iremos referir hoje neste espaço de etnografia o utensílio de mesa que acaba por ser uma espécie de pequenino forcado, de uma maneira geral, com quatro dentes e um cabo que se usa para segurar no prato o que se corta e para levar à boca alimentos sólidos.

Apresentamos oito exemplares da nossa pequena colecção. Os três primeiros, que nos ofereceram em Alcoutim, são os mais antigos que conhecemos e que ainda vimos em uso nalgumas casas, pois havia elementos do agregado familiar que os não trocavam a qualquer outro, pois consideravam-no muito mais eficiente na sua acção.

Eram de ferro e não havia dois iguais, visto tratar-se de um trabalho totalmente artesanal.

Pensamos que os ferreiros espalhados pelo concelho os fariam, já que também eram eles que faziam os próprios pregos e tudo o que fosse necessário para a vida de então.

Os dois seguintes são de alumínio. Enquanto o primeiro é de uso comum, o segundo tem a missão de transportar peças ou quantidades maiores nomeadamente para travessas, pratos ou pelanganas.

Tanto no primeiro caso como neste, os cabos são da mesma substância, notando-se nos de alumínio uma tentativa de embelezamento dos mesmos.

Eram muito mais leves, mais higiénicos, menos trabalhosos na sua limpeza, mas menos eficientes no trabalho e partindo-se com facilidade.

Os três últimos já são da conhecida cutelaria de Guimarães, sendo os dentes em ferro, já de fabrico em série. Os cabos de madeira ou corno, notando-se assim uma evolução muito acentuada. Reparar que as três peças têm formatos diferentes. Têm uma maior elegância e eram acompanhados das respectivas facas de decoração semelhante e onde já era gravado a origem do fabrico.

Do talher que hoje usamos com naturalidade, colher, faca e garfo, este foi o último a aparecer, dado que na Idade Média o garfo era substituído pelos dedos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Estórias do Surf - "LEFT CITY"





Escreve


José Miguel Nunes


[O autor surfando em 1989]

Estaríamos nos finais dos anos oitenta, pois eu já fazia surf há pelo menos quatro ou cinco anos. O surf nesse dia era na Marques Neves, uma onda muito boa quando as condições de vento e“swell” se conjugam na perfeição.

O surf estava muito bom, com direitas compridas a atravessar toda a baia de pedra, vento “off-shore” fraquinho, o que fazia com que as ondas se apresentassem “glass”. Já não me lembro quem estava na água, seríamos aí uma dezena, entre eles estava o meu amigo Leopoldo, “shaper” local que me fez muitas e boas pranchas.

Numa altura em que os dois fizemos uma onda um a seguir ao outro, acabámos por nos encontrar no “inside” bem lá ao fundo até onde as ondas nos levavam, quando ele me desafia a ir apanhar umas na esquerda lá mais em baixo, a que chamamos de “Left City”, onde não estava ninguém. Fiquei um bocado indeciso, pois nunca tinha surfado lá, e naquele dia as ondas rondavam o metro e meio de altura, com a maré vazia, não me estava a sentir muito confortável, mas ele insistiu e lá fomos nós…

Left City é uma onda tubular, para a esquerda, faz lembrar os Supertubos, mas a rebentar em cima de um fundo de pedra raso. Mal chegámos ao pico, o Leo apanhou logo uma onda, e fez o respectivo tubo, volta para o pico e eu ainda não me tinha estreado. Elas passavam por mim, e eu nada, os “drops” estavam atrasados, com a água cristalina, via-se o fundo todo bem pertinho… de pedra.

Novo “set” entra e o Leo arranca novamente, outro tubo. Volta para o pico, e eu continuava em branco, a coisa não estava a correr bem. Diz-me ele: “atão” Zé, tão altas ondas…”, fiquei um pouco embaraçado, estavam altas ondas, só nós dois, e eu nada… Entra novo “set”, começámos a remar, e o Leo não parava de dizer: vai nessa, vai nessa, alta onda… não tinha outro remédio, tinha de ir… logo se via no que dava… arranquei bem posicionado, “drop” atrasado, bottom, e mete lá para dentro, tubo até ao fim, alta onda, vim a remar para o pico aos gritos: alta onda, alta onda…

Ganhei confiança, a partir daí não houve “set” em que não arrancasse numa, eu e ele claro. Foi um dia de surf inesquecível com muitos tubos, talvez um dos melhores dias de surf que tive.

Surfei mais algumas vezes, não muitas, em Left City, mas nunca mais lá apanhei ondas assim, esta surfada inesquecível devo a ao meu amigo Leopoldo… thanks Leo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Alcaria, pequeno e antigo lugar da freguesia de Vaqueiros

[Aspecto do interior do "monte". Foto JV, 2011]

É um dos pequenos montes que faz parte desta freguesia, revelando o seu topónimo antiguidade, do período árabe. Apesar disso, não aparece especificado nas Memórias Paroquiais (1758). Admito que na altura tivesse outro nome ou que fosse englobado nas Alcarias e por ficar mais afastado passasse a ser designado por Alcaria.

O documento encontra-se repassado de tinta pelo que a leitura se torna difícil. Além de aparecer um monte designado de Corte, aparece outro que não consigo fazer a sua leitura.

O acesso à pequena povoação é feito hoje por estradas asfaltadas. O Barranco fica-lhe a 800 metros e as Casas a 1200. As Alcarias distam 1700 metros e o Cerro 2, 5 km ainda que por caminho de terra batida seja muito perto.

[Casas junto à estrada. Foto JV, 2011]

A sede de freguesia, Vaqueiros, está a 12 km e a do concelho, Alcoutim, a 42 e isto sem passar pela aldeia de Vaqueiros. Curiosamente a cidade de Vila Real de Santo António fica-lhe a 38 km, por isso, mais próximo.

[Antigo poço e lavadouro público. Foto JV, 2011]

O topónimo provém do árabe al qariâ, “ que significa pequena povoação, aldeia. (1)

A energia eléctrica chegou no dia 4 de Dezembro de 1985 (2) ao mesmo tempo dos seus vizinhos do Barranco, Casas e Cerro.

Os arruamentos foram pavimentados, tal como no Barranco, Cerro, Preguiça e Cabaços em 1993 (3).

[Caixas do correio, placard e caixotes de recolha de lixo. Foto JV, 2011]

O pequeno painel de caixas do correio foi colocado em 1996. (4)

Possui placard informativo e recolha de lixo.

Em 2002 já a água tinha sido levada ao domicílio. (5)

Existe um edifício relativamente recente à beira da estrada e um pouco mais abaixo, um poço com bomba elevatória com lavadouro anexo.

Os restantes fogos, que não chegam aos dedos de uma mão, ficam no outro lado da estrada numa pequena elevação com boa vista.

Conta actualmente, Agosto de 2011, com 4 habitantes.
___________________

NOTAS
(1) - Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, 1991
(2) – Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985.
(3) - Boletim Municipal nº 12 de Abril/1993
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, p 12
(5) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p 7

sábado, 15 de outubro de 2011

Poejo


É outra das plantas herbáceas aromáticas que o alcoutenejo usa como condimento na alimentação e igualmente como mezinha caseira para determinadas situações.

É conhecida em todo o Mediterrâneo e Ásia Ocidental com usos muito variados principalmente pelas suas propriedades medicinais.

Da família das labiadas (Mentha pulegium – Lineu) cresce espontaneamente nos lugares húmidos e inundados do sul de Portugal ou junto de pequenos cursos fluviais onde pode ser encontrada entre outros tipos de plantas.

De folhas verdes lanceoladas, levemente serrilhadas, caules erectos, quadrangulares com muitas ramificações dispostas opostamente. Flor roxa.

O poejo é muito utilizado na culinária alentejana, na confecção de variadíssimos pratos, tirando partido do agradável gosto que esta planta proporciona.

O alcoutenejo utiliza-o sobretudo na confecção de açordas (macerado) substituindo muitas vezes os coentros ainda que apareça também noutros pratos e saladas.

A nível medicinal foi sempre e é muito utilizado contra as constipações e como expectorante. Ultimamente conheci alcoutenejos que o utilizavam em chá para controlar o colesterol.

Noutras zonas é tomado como calmante, contra as insónias, bronquite, asma, dores reumáticas, acidez do estômago, enjoo e contra a formação de gases intestinais.

O termo pulegium deriva da palavra latina pulex (pulga) e deve-se ao antigo costume de queimar poejo no interior das casas para repelir estes insectos.

Alivia a dor quando aplicado sobre a picada de insectos.

No Sul do país utilizam-no para a preparação, depois de seco, de um apreciável licor com cor esverdeada.

O apresentado na foto foi feito no concelho de Alcoutim com poejos lá criados e a aguardente é ribatejana.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

APROFIP - Associação de Produtores de Figo da Índia de Portugal

Pequena nota
Recebemos desta Associação o seguinte texto que publicamos com muito gosto e vontade de divulgar uma associação” sui generis”. Pela nossa parte nunca conhecemos outra do tipo no concelho e dar a conheça-la, como já temos feito, aos visitantes / leitores do Alcoutim Livre, constitui um dever.

O ALCOUTIM LIVRE está desde a primeira hora aberto a todos os pedidos que tenham por fim melhorar o concelho e a todos aqueles que desejem expressar a sua opinião por mais diferente que seja da nossa, desde que estejam plenamente identificados e não sejam ofensivos ou caluniadores de quem quer que seja.

JV



Caro Sr. José Varzeano,
Com os melhores cumprimentos.

Venho solicitar que, se possível, seja publicada no blog Alcoutim Livre, a divulgação de Pré-Registo para sócios fundadores da APROFIP – Associação de Produtores de Figo-da-India de Portugal.

A meu pedido e já por mais de uma vez, teve a amabilidade de publicar artigos e informações relacionadas com assuntos de interesse para o concelho de Alcoutim e cujos objectivos se norteiam sempre por contribuir com humildade para o desenvolvimento económico da região e suas comunidades.

É com esse espírito, que ouso pedir-lhe de novo a divulgação desta campanha para a angariação de aderentes à APROFIP a qual pretende, num futuro próximo, apresentar um dossier às entidades competentes, fazendo-as acreditar, com sustentada fundamentação que, a plantação ordenada da Figueira-da-Índia e explorada industrialmente, tem potencialidades para constituir um factor de desenvolvimento no concelho de Alcoutim e noutras partes do território Nacional.

A razão deste meu pedido de divulgação tem como principal objectivo, sensibilizar as populações do concelho de Alcoutim e outros concelhos da região, onde o Figo-da-India encontra aptidões excepcionais para o seu desenvolvimento.

O pré-registo para sócio fundador desta Associação termina logo que atinja a inscrição nº 300 (neste momento e decorridas apenas 3 semanas, já contamos com largas dezenas de inscritos) e todos os sócios fundadores beneficiarão do pagamento de uma jóia de menor valor, em relação aos inscritos posteriormente os quais não irão ter o estatuto de sócios fundadores da APROFIP.

Importa referir que nesta fase de pré-registo não haverá lugar a qualquer pagamento, este registo servirá apenas para a atribuição de nº de associado e poderão sempre desistir se, quando for apresentado o programa de acção da APROFIP, não se reverem nos objectivos propostos. Pessoalmente tenho a certeza que isso não irá acontecer, porque os benefícios para os associados serão esmagadoramente superiores a qualquer jóia.

Qualquer informação que julguem necessárias e a ficha de inscrição devem ser solicitadas pelo e-mail:

nunes_mario@sapo.pt

Com as melhores saudações APROFIP

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os netos dos 1ºs Condes de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 75 DE MAIO DE 2005)

À Antónia Maria
pelo interesse manifestado


A criação do condado de Alcoutim teve origem numa carta de D. Manuel I datada de 15 de Novembro de 1496, segundo Anselmo Braamcamp Freire, Vol. III de Brasões da Sala de Sintra.
A outorga do título nobiliário teve por base o casamento de D. Fernando de Meneses, filho do 1º Marquês de Vila Real, com D. Maria Freire de Andrade, filha de João Freire de Andrade, Senhor de Alcoutim.

Depois da curiosidade de “conhecer” os pais, passámos aos filhos (1) e agora aos netos.

Nas procuras que efectuámos obtivemos alguns dados com os quais organizámos este pequeno escrito, ficando aquém do que desejávamos.

Dos filhos que o casal gerou, D. Leonor de Noronha não casou e do casamento de D. Nuno Álvares de Noronha, sepultado em Ceuta de que foi governador, com D. Maria de Noronha (Vila Nova), não houve geração.

Do filho primogénito, D. Pedro de Meneses, nascido em Ceuta ou em Santarém, segundo outros e que foi o 2º Conde e proveniente do casamento com D. Brites (ou Beatriz) de Lara, nasceram quatro filhos, sendo dois varões. Ambos vieram a ser Condes de Alcoutim, D. Miguel de Meneses, o 3º, que sucedeu a seu pai e D. Manuel, seu irmão que lhe sucedeu por falta de filhos provenientes da sua união com D. Filipa de Lencastre.

D. Juliana de Lara veio a casar com D. João de Lencastre, 1º Duque de Aveiro. Este D. João de Lencastre esteve preso por se ter oposto ao casamento do Infante D. Fernando, filho de D. Manuel I, com D. Guiomar Coutinho, pois afirmava que há muito a desposara clandestinamente.


O casamento com D. Juliana, realizado em 1547, foi proposto por D. Manuel I e dele nasceu o 2º Duque, D. Jorge de Lencastre que morreu com D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir.
A outra filha de D. Pedro de Meneses, foi D. Bárbara de Lara que casou por volta de 1555 com D. António de Ataíde, 2º Conde da Castanheira que foi Senhor de Castanheira, Povos e Cheleiros e alcaide - mor de Colares. D. Bárbara, é segundo casamento do Conde, tendo o Conde de Alcoutim, D. Miguel de Meneses vendido a D. António de Ataíde certos bens que constituíram o dote de sua irmã.

De D. João de Noronha, que não casou, proveio D. Antão de Noronha que veio a ser grande guerreiro e navegador, governador de Ormuz e 9º Vice-Rei da Índia (1564-1568). No seu governo, a cidade de Damão sofreu grande ataque que foi repelido com heroicidade e no seu tempo foi tomada Mangalor, tendo-se procedido à sua reconstrução.

Regressando ao reino em 1569, morre na costa de Moçambique.

Tinha casado com D. Inês de Castro (Feira) e de que não houve filhos.

O outro filho de D. João de Noronha, foi André de Noronha que foi prelado. Estudou em Coimbra e doutorou-se em Cânones. Reitor da Universidade de Coimbra, era deão da capela do príncipe D. João, filho de D. João III. É nomeado por Paulo IV, bispo de Portalegre em 1560, funções que exerce até 1581, ano em que Filipe II de Espanha o apresenta em Placência onde vem a morrer em 1586 mas trasladado por disposição testamentária para a Igreja de Sto. António, na cidade de Portalegre onde tinha fundado o convento de S. Francisco.

Do casamento de D. Afonso de Noronha, 5º Vice-Rei da Índia, com D. Maria de Eça, nasceram cinco filhos, a saber:

D. Fernando de Noronha que casou duas vezes, a primeira com Maria de Vilhena e a segunda com Antónia de Mendonça Coutinho, não havendo filhos de qualquer dos consórcios.

Depois de ter servido em África com seu pai, acompanhou-o à Índia. Em 1551 recebeu o comando da esquadra do Estreito, com a qual derrotou o almirante turco Ali Schebuly.
Voltou a África como governador de Ceuta, por apresentação de seu primo, o Marquês de Vila Real. Por vezes é designado por D. Fernando de Meneses.

O segundo filho foi D. Miguel de Noronha que casou com D. Joana de Vilhena.

Esteve com D. Sebastião, de cujo Conselho de Estado fazia parte, na batalha de Alcácer Quibir, comandando um terço, constituído por camponeses que foi destroçado pela artilharia do inimigo, acabando por ficar prisioneiro. Com mais quatro fidalgos é nomeado para ir a Lisboa reunir a elevada quantia do resgate colectivo de oitenta portugueses de linhagem, cativos naquela batalha.

[Casa em Alcoutim que a tradição aponta como tendo sido Condal. Foto JV]

Depois do resgate foi capitão-governador de Ceuta e aposentador-mor de Filipe I.

O terceiro filho foi D. João de Eça que seguiu a vida religiosa, tendo sido cónego em Ceuta. Sempre Ceuta na vida dos Condes de Alcoutim!

D. Jorge de Noronha, que casou com D. Isabel de Mendonça, penso que foi um dos fidalgos que aceitou o suborno de Filipe II de Espanha, tal com seu primo, D. Manuel de Meneses, 5º Marquês de Vila Real e 4º Conde de Alcoutim. Também não tiveram geração.

O último filho do 5º Vice-Rei da Índia foi D. Catarina de Eça que deve ter nascido por volta de 1550, tendo falecido jovem, em Évora, mas já casada com D. Rodrigo de Melo que foi Conde de Tentugal e 2º Marquês de Ferreira. Deste casamento nasceu D. Francisco de Melo que morreu de tenra idade.

O último neto dos primeiros condes de Alcoutim foi Gaspar Velho, filho de D. Maria de Meneses, filha que só agora “encontrámos” e de Álvaro Velho, vindo a casar com Maria Rodrigues de Bermonda.

Eis o que nos foi possível reunir sobre os doze netos de D. Fernando de Meneses e de D. Maria Freire de Andrade, primeiros condes de Alcoutim.

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(1) Foram publicados no Jornal Escrito da AJEA (Associação de Jornalistas e Escritores do Algarve), nºs 64,65 e 66, de Junho, Julho e Agosto de 2004, os seguintes artigos, pela ordem indicada:
Figuras Alcoutenejas – João Freire de Andrade (Senhor de Alcoutim); Figuras Alcoutenejas – D. Maria Freire de Andrade, 1ª Condessa de Alcoutim e Os Filhos NORONHA da 1ª Condessa de Alcoutim.



BIBLIOGRAFIA

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, 2ª Edição, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1982
História de Portugal, dirigida por José Hermano Saraiva, 2º Vol. Publicações Alfa, 1983
LELLO UNIVERSAL - Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro , Lello & Irmão , Porto, 1975
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
Nobreza de Portugal e do Brasil, Edições Zairol Lda, Lisboa, 2000

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Álvaro de Alcoutim - Álvaro Gomes de Gouveia - Sargento-mor de Alcoutim






Escreve


Gonçalo Roiz Vilão





Perdidos na bruma da história ficam nomes e personalidades que ao lermos e pesquisarmos num livro que tantos já esqueceram, ressuscitam do baú do tempo e tomam novas formas. Ao rebuscá-los no tempo em que foram verdadeiramente singulares , fazem-nos hoje, perceber a pequenez das nossas vidas, quando nos julgamos heróis de uma época que consideramos ser a verdadeira, esquecendo-nos que este é o nosso tempo e eles foram de um outro igualmente importante e que de alguma forma construíram o nosso.

Álvaro de Alcoutim foi herói, e foi-o na sua época. Ressuscito-o hoje através da palavra, por ser mais uma das muitas personagens que viveu e desempenhou funções no nosso concelho de Alcoutim. Não foi general, tão pouco príncipe, mas foi um bravo sargento na luta contra os castelhanos e na defesa da portugalidade. Álvaro Gomes de Gouveia descrito e conhecido também como Álvaro de Alcoutim poderá ter tido descendência até aos dias de hoje nos diferentes Gomes que existem pelo concelho, já que existem registos de filhos de um Álvaro Gomes nesta época e bem podem ser deste que teve a mercê de fidalgo cavaleiro em 1687.
Vejamos como é descrito em 1841 por Silva Lopes:


“ Natural de Portimão, filho de Manoel Ribeiro de Gouveia, fez relevantes serviços desde soldado até ao posto de sargento-mór e tenente do mestre de campo general no reino do Algarve. Embarcando no anno de 1654 em huma setia, que foi no alcance de hum bergantim de Mouros, e encontrando-se ao sahir da barra de Portimão com mais dous, que vinhão em seguimento de hum navio inglez, se comportou com valentia, causando aos inimigos bastante damno, com que se retirou. Acompanhou o terço do Algarve que passou ao AlêmTejo e se achou na campanha de OJivença em 16ó7, no sitio de Badajoz, e varias acções em que se distinguiu com muito valor , principalmente no rompimento das linhas de Elvas, sendo dos primeiros que avançou com toda a resolução. Reeolhendose com o terço ao Algarve esteve de guarnição 5 mezes em, Castro Marim, donde voltou ao Alêm-Tejo em 1662, ficando encarregado do governo de Veiros com a sua companhia; e depois se achou em vários encontros, uos quaes se portou com bravura, assim como no sitio que soffreo em Évora. Teve parte na batalha do Ameixial, na recuperação de Évora, tomada de Valença de Alcântara, e batalha de Montes Claros, nas quaes obrou acções de valor. Tornou ao Algarve e ocoupou o posto de sargento mor do castello de Alcoutim em que fez relevantes serviços sendo encarregado de varias obras de defesa, ainda com barcos que fez armar para guarda costa, hindo commandando a galeota que foi para a defesa delia, por cujos serviços, e era attenção aos de seu pai no cargo de ouvidor de Portimão nos annos de 1643 até 1665 teve a mercê do foro de fidalgo cavalleiro por alvará de 7 de Julho de 1687 (L. 2. das Mercês de D. Pedro II. f. 228).” (1)

(1) - Silva Lopes, João Baptista (1841); Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve; Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa, Lisboa.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

1ª Comunhão?



Mais uma fotografia “histórica” que apresentamos na nossa Câmara Escura de hoje por amabilidade do nosso colaborador e amigo Amílcar Felício.

Não nos traz qualquer indicação mas não temos dúvidas que foi tirada na escadaria que dá acesso à Igreja Matriz de Alcoutim (O Salvador).

Admitimos que possa datar de 1955/60.

Sem dúvida que se trata de uma cerimónia de carácter religioso, possivelmente uma 1ª Comunhão.

Serão 26 pessoas as fotografadas.

As monitoras (catequistas) em número de 5, estão todas identificadas com relativa segurança.

Os rapazes, em menor número, dos 4 identificámos dois.

Quanto às meninas ter-se-ão reconhecido 8 com alguma dúvida.

As catequistas devem ser D. Clarisse Cunha (fal.), Maria dos Anjos Veríssimo (fal.) Maria de Lurdes Brito (fal.), Ivone Baptista e Maria Elvira.

Das meninas estarão: Ivete Rodrigues (fal.), Zulmira (fal.), Lisete, Maria da Encarnação, (vulgo Maria Angelina), Maria Bárbara (Baby), Maria Antónia, Maria da Ressurreição (Sação), Maria Matilde e Liete.

Dos rapazes identificaram-se José Serafim e Arnaldo Rodrigues (fal.).

Quem ajuda noutras identificações?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Floridas na Pedra


Complementa o título do livro – A Hidrografia do Vascão e a Serra do Caldeirão ou Mu – O Homem e o Meio.

Este interessante trabalho com 135 páginas no formato de 15X21 com variadíssimas fotos a cores, tal como a capa e contracapa.

O autor, alentejano pelo nascimento, foi advogado em Tavira e tive o prazer de o conhecer esporadicamente em Alcoutim, teve o cuidado de percorrer de perto sempre que lhe foi possível o trajecto da ribeira e dos seus principais afluentes desde a nascente até à foz, sendo auxiliado nessa tarefa pelas gentes próximas que lhe foram indicando os caminhos e a possibilidade de fazer os trajectos, divide o seu trabalho nos seguintes aspectos: “A Serra e a Hidrografia do Vascão”, “Moinhos e Moleiros”, “A População e os Núcleos Populacionais”, “Identidade Cultural nas Terras do Vascão”, “Actividades Económicas na Bacia do Vascão”, terminando com um” Inquérito à População”.

A abordagem desenvolve variadíssima temática.

É uma Edição da Associação IN LOCO – Outubro 1996.

domingo, 9 de outubro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XIII






Escreve

Daniel Teixeira




O MEDO

Uma parte grande das minhas crónicas sobre os meus períodos anuais de estadia na minha infância e juventude - e depois como adulto já de forma esporádica - no Monte de Alcaria Alta têm sido na sua grande parte (ou quase todas mesmo) resultado do facto de ter conhecido o Blogue Alcoutim Livre dirigido pelo amigo que dá pelo pseudónimo de José Varzeano.

O José Varzeano por aquilo que entendo não sendo natural do Concelho de Alcoutim (é de Santarém) para Alcoutim foi trabalhar (seguramente na função pública), por lá casou e pela minha ideia casou em dois sentidos: com uma alcouteneja e com Alcoutim.

Não tenho grandes recordações assim mais antigas de Alcoutim (do meu tempo de jovem) e era mesmo uma terra que algumas vezes evitávamos por razões «técnicas» que posso explicar mais à frente. Por outro lado Alcoutim (Vila) por ser a sede do Concelho era a sede burocrática, a terra da papelada, dos impostos. A Guarda Fiscal facilitava a seu gosto a passagem para San Lucas (como dizíamos) sem passaporte, numa passagem de barco a remos. Nunca lá fui, eu, a San Lucas.

As razões «técnicas» que referi atrás que nos levavam a fugir de Alcoutim eram de ordem «buro – gástrico – emocional». Alcoutim ficava à direita do cruzamento dos Balurcos que era por onde a camioneta seguia vinda de Vila Real de Santo António e chegada aí fazia o caminho em direcção a Alcoutim que fica lá abaixo à beira do Rio Guadiana voltando ao mesmo lugar no seu regresso para seguir então em direcção a Martinlongo.

Nós apeávamo-nos mais à frente dos Balurcos na paragem de Alcaria Alta prosseguidos que eram os restantes 30 Kms sensivelmente que iam de Balurcos a Alcaria Alta - Paragem, esta já perto do cruzamento que levava a Giões.

Pois bem, evitar ir a Alcoutim era uma operação que tinha uma relação forte com o facto de se fazer um intervalo no verdadeiro suplício que era percorrer aquelas estradas de autocarro naquele tempo. Chamavam-se camionetas e havia seguramente uma aposta dos concessionários dos percursos no sentido de mandarem para esses lados os chaços mais antigos e em piores condições que tivessem. O cheiro a gasóleo era praticamente insuportável ao qual se juntava algum cheiro a um vomitado quase inevitável mesmo que a chamada ao gregório fosse feita através das janelas.

[Transporte da época]

Não tenho vergonha de confessar que o desejo de ir à Serra era esbatido pelo medo da indisposição continuada ao fazer o percurso. Dois, três dias antes da partida já se faziam contas à vida e algumas «vacinas» eram efectuadas: estar cinco, dez minutos no terminal da Rodoviária, que era a céu aberto, perto da antiga alfandega, na altura, em Faro, era uma delas. Inspirava-se o máximo que se aguentava o monóxido de carbono e ao lado havia uma sorveteria que servia de consolo intervalar.

Bem se arranjavam mezinhas e todos os anos havia uma nova: a teoria do estômago/copo de água derramando embora fosse impraticável por impossibilidade de manter o «corpo - copo» direito durante o trajecto todo era no entanto bastante coerente e nestas coisas do enjoo, funcionava muito a «fé» na mezinha: uma colher de mel estabilizava, comer só coisas sólidas dificultava a expulsão forçada, enfim...bem se tomavam comprimidos, alguns ditos recém inventados, também, mas era infalível que ao despontar das primeiras curvas o pessoal começava a «olhar» pela janela com a cabeça bem de fora: homens, mulheres, crianças, poucos aguentavam a pedalada.
Ora o repouso nos Balurcos conseguia resolver não o que já se tinha consumido de energia estomacal e vertido mas dava uma folga e ainda nos safava de um verdadeiro emaranhado de estrada em curvas descendentes e depois ascendentes que nos levava e nos trazia de Alcoutim. Naquele tempo se houvesse um prémio para a pior estrada a percorrer eu dava-o ao percurso entre Balurcos e Alcoutim e fazia-o com todo o conhecimento de causa porque conhecia todas as outras, igualmente más, horríveis mesmo.

Durante todos os anos que fiz aquele percurso até sensivelmente aos 14 anos, nas suas diversas variantes possíveis: comboio até Vila Real de Santo António e camioneta depois; directamente de Faro a Martinlongo, comboio e depois barco no Guadiana e depois camioneta, boleia de carro familiar, nunca consegui ultrapassar esse problema. E de repente aconteceu: parou.

[Estrada para Alcaria Alta. Foto JV]

Penso que o facto das estradas terem visto as curvas «cortadas», as baias laterais alargadas e nos afastarem da visão das ribanceiras logo ali ao lado da janela terá contribuído para além da mudança de idade. Os autocarros velhos destinados àqueles percursos também deixaram de ser tão velhos e fanados, enfim...

Uma vez fiz esse percurso com uma tia minha, agora já falecida, teria eu para aí dez anos ou menos. A camioneta chegava à paragem de Alcaria Alta já pelas 22 horas, noite cerrada, grilos e ruídos mais que estranhos. A minha Tia tinha trazido quase uma casa inteira metida em cestos e talegas e optou pela caminhada por lances: levava-me com algumas coisas até um curral, depois a outro e outro, deixava-me lá ficar depois de me tranquilizar e voltava atrás buscar mais coisas as vezes que fossem necessárias.
O ruído da noite quando se tem medo é...assustador. Pelas minhas contas feitas agora em recordação devo ter sido tocado por centenas de bichos esquisitos, rastejado nos pés por cobras, lagartos, ouriços, lacraus.

Fui muito elogiado quando chegámos ao Monte...não tinha chorado nem uma vez. Agora acho que na altura com o medo que tive nem acção tive para isso...
A bênção Ti Bia!