sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ainda o 25 de ABRIL

[Feira de S. Marcos, 2011. Aspecto central. Foto JV]

Encontrava-me no concelho de Alcoutim quando ocorreu o dia 25 de Abril deste ano.

Como é tradicional em todo o concelho, fomos até à aldeia do Pereiro onde ocorre a maior feira do concelho, a Feira de S. Marcos, e uma das maiores da Serra Algarvia.

Era uma simples visita para cumprir a tradição, visto não ter nada pensado para comprar e afinal acabei por “enfeirar”.

Durante dez anos que vivi em Alcoutim só me lembro de faltar a uma feira de S. Marcos, precisamente à do 25 de Abril de 1974, já que não era fácil separar-me do rádio, ainda que se ouvisse mal devido ao sinal captado ser bastante fraco.

Atendendo a que tinha lugar naquela aldeia, mais propriamente na Junta de Freguesia uma cerimónia das Comemorações do 25 de Abril, pelas 10 horas, não deixei de estar presente.

Na cerimónia usaram da palavra o Presidente da Câmara Municipal, o Presidente da Assembleia Municipal, um representante da bancada na Assembleia do PSD e outro do PS, já que não se encontra representada mais qualquer força política.

Era confrangedor por irrisório o número de assistentes. Além da presença de alguns dos políticos concelhios que para o efeito são remunerados, assistentes, não os contei mas não chegariam a uma dúzia! A feira a esta hora já tinha bastantes visitantes.

Um dos oradores questionou mesmo a razão de tal comemoração.

Possivelmente o 28 de Maio nunca foi comemorado em Alcoutim mas temos conhecimento que pelo menos em alguns anos foram enviados representantes concelhios a Lisboa para estarem presentes em tais comemorações, não faltando o estandarte municipal.

O povo após 36 anos alheia-se do acontecimento que pouco ou nada diz aos jovens, a não ser aos que enveredaram pela “profissão”de político. Eles só viveram em democracia não conhecendo a vivência “Salazarista”. Pelo que me toca, a minha vida está dividida ao meio entre o “Salazarismo” e a Democracia.

Mas este pequeno apontamento apareceu devido ao que uma vizinha me contou com alguma irritação.

-Não quer ver o que me aconteceu na Feira de S. Marcos? Tanto eu como o meu irmão fomos assistir à “Comemoração do 25 de Abril” e cada um trouxe o seu cravo vermelho que estava à disposição. Passa um moço por mim e diz-me: - Oh minha senhora, isso já não se usa! Sabe o que lhe respondi: - Olhe que em Lisboa já estão abertas as inscrições para a PIDE.

Não podia dar-lhe melhor resposta, minha amiga.

[Feira de S. Marcos no Pereiro, 2011, às 9 horas. Foto JV]

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os "contratos" da Páscoa





Escreve


Amílcar Felício





[Retirado com a devida vénia de http://cp-saoroquedofaial.blogspot.com]


Era a altura em que os adultos voltavam a ser crianças, brincando às escondidas durante quase um mês e em que os jovens aprendiam a ser adultos combinando e cumprindo à risca, tudo aquilo que tinha sido acordado. Era um acordo efectuado ou entre jovens e adultos ou simplesmente entre jovens, cerca de um mês antes da Páscoa e estavam em jogo seis ou doze amêndoas das grandes ou das pequenas que uma das partes deveria oferecer à outra, conforme as posses dos contraentes.

Tenho referido diversas tradições em que Alcoutim era fértil nos tempos daquilo a que costumo chamar de Alcoutim Romântico e que se estendeu até quase aos princípios da década de sessenta. Desde o Dia da Espiga, ao Dia das Comadres, ao passeio anual ao Pezinho da Nossa Senhora, ao Dia das Testadas, às Fogueiras e Mastros dos diversos Santos Populares etc., era um nunca mais acabar de ingénuas e salutares atividades e confraternização entre os alcoutenejos e que se prolongavam por quase o ano inteiro!

Por ser altura de Páscoa lembrei-me desta Tradição a que chamávamos “Fazer o Contrato” e que se processava do seguinte modo: um dos contraentes perguntava a um parceiro “queres fazer Contrato comigo?” e se houvesse acordo entre as partes celebrava-se o dito, combinando à partida o número de amêndoas em jogo que seriam pagas no Domingo de Páscoa. Ainda quando telefono nestes dias a alguém mais chegado, a primeira palavra que me ocorre e que lhes digo é sempre “Oferece” e todos nos rimos naturalmente.

Era celebrado com o dedo mindinho de cada um dos pares entrelaçados e em movimento ora direito a um ora direito ao outro e em que de viva voz se celebrava o contrato, cantarolando os dois ao mesmo tempo: Contrato/Contrato/Contrato faremos/no Sábado de Aleluia/Ofereceremos! Estava assim celebrado o contrato, tipo “aperto de mão” como no século XIX.

Ao longo do mês e sempre que um dos contraentes via o outro, gritava-lhe “ajoelha” a que ele obedecia sem pestanejar, pois tinha sido visto em primeiro lugar.

O grande dia naturalmente era o Sábado de Páscoa em que meio mundo se escondia da outra metade de esquina em esquina ou até em casa, arrastando-se por vezes este jogo do gato e do rato até quase ao fim do dia, à coca de apanhar o outro contraente desprevenido e assim disparar-lhe o célebre e certeiro “Oferece”! Quando isso acontecia estavam ganhas as amêndoas! Mas todos pagavam o montante acordado não havia caloteiros...

Era uma das muitas Tradições que deixaram de existir em Alcoutim certamente e em que possivelmente já nem se fala. Desconheço a sua origem!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Procissão em Honra de Nª Sª de Fátima?



Esta foto que nos foi cedida pelo nosso colaborador e amigo, Amílcar Felício é dos anos 50 do século passado e foi tirada na Rua da Misericórdia uma das artérias mais antigas e estruturantes da velha vila de Alcoutim e que servia a Porta de Mértola.

Admitimos que possa ser uma procissão realizada em honra de Nª Sª de Fátima quando uma imagem peregrina visitou esta Vila.

Ainda que a Imagem na foto não seja muito nítida, pelos contornos parece-nos ser efectivamente essa a representação. As três crianças que estão na frente parecem-nos representar os três pastorinhos.

Pelo aspecto deduz-se que a procissão foi bem concorrida pois nessa altura o concelho teria o dobro dos habitantes que tem hoje.

Se algum leitor verificar que as nossas conclusões não estão certas e consiga identificar a data, agradecíamos a informação para podermos fazer a rectificação.

É que eu nesta altura estava muito distante de imaginar que viria a conhecer Alcoutim.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ABRIL (Poema)



Pequena nota
Em tempo de ABRIL, um poema de Abril.
Que Abril?
Há sempre um Abril diferente.
Este é o Abril do “nosso” poeta que os leitores estão habituados a ler.
Que gostem.


JV





Poeta


José Temudo




ABRIL

Tudo quanto existe

tem breve ou longa história,

seja alegre, seja triste,

seja de fracassos, seja de glória.

E Abril, que história tem?

Como nasceu, donde vem?

Da roma antiga, camponesa,

ligada ao campo , à natureza ?

Virá de "aperire", d "aprilis",

tempo de abertura,

de crescimento,

de verdura,

de florescimento ?

Ou virá da Grécia, a da filosofia,

da retórica, da democracia,

do teatro, da poesia,

da religião, da mitologia ?

Virá de "aphril", espuma do mar,

de que nasceu Afrodite,

a deusa do amor,

a de beleza sem par ?

Quer ou não se acredite,

seja lá o que for,

Abril é o renascer da Natureza,

é o tempo da luz e da cor,

é o tempo da beleza,

é sempre o tempo do Amor !



J.T.

sábado, 23 de abril de 2011

Ovos mexidos com griséus



Se estão à espera que refira nesta página “caviar à maneira de Alcoutim” isso não irá acontecer pois não conheço o prato como próprio da região alcouteneja, pelo menos para o povo. Os que aqui tenho referido têm característica popular que será inalterável.

Griséus, como aqui chamam a uma espécie de ervilha curvada e noutras regiões são conhecidas por ervilhas tortas são principalmente utilizadas na alimentação, nesta região, mexidas com ovos.

Após se retirar o “fio” que circula cada vagem, partem-se em dois ou três bocados e põem-se a fritar em pouco azeite.

Batem-se os ovos suficientes para as envolver, a que se juntou um pouco de sal e quando os griséus estiverem quase fritos, juntam-se os ovos que com o auxílio de uma colher os vão envolvendo.

Os que a foto apresenta foram feitos especialmente para apresentar neste espaço e foi a segunda vez que comi tal prato que me agradou.

Todos os alcoutenejos o conhecem e que de uma maneira geral apreciam.

[Ovos, griséus, azeitonas e vinho de Alcoutim. Foto JV, 2011]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Chegou uma Estrela!



Chegou ao Hospital de Faro às 23 e 55 do passado dia 18 a Bruna Alexandra com os seus 2,250 kg.

É um contributo importante no sentido de acelerar a natalidade no concelho de Alcoutim que anda pelos índices mais baixos do País.

Esta alcouteneja proveniente de um casal do Baixo Guadiana, ele do concelho de Alcoutim e ela do vizinho Castro Marim, no dia em que fez o primeiro mês de vida mostra-se na foto extremamente risonha demonstrando que o Mundo lhe pertence e constituindo a grande Estrela Fulgente dos pais, avós e mais família, não esquecendo a sua bisavó paterna.

Conheci a sua avó paterna quando lhe perguntava quantos pais tinha, respondia-me invariavelmente:- Tenho dois, o meu pai (o avô materno) e o meu pai Carvalho (o verdadeiro), resposta a que achei sempre muita graça. Esta minha frequente pergunta veio a originar mais tarde a correcção, com a minha desilusão pelo facto.

Ainda hoje quando estou com ela lhe faço frequentemente a pergunta.

Por outro lado conheci o seu avô paterno quanto veio à vila fazer o seu exame da 4ª classe.

Tudo isto para dizer que não posso estar nada novo, ainda que seja um avô relativamente recente.

Daqui auguro as maiores Venturas para a Bruna felicitando vivamente os seus pais, avós e mais família pelo acontecimento.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VI





Escreve

Daniel Teixeira



ALCOUTIM A CRENÇA E A REALIDADE

Saber se Alcoutim como Concelho desaparece ou continua eis a questão.
O amigo José Varzeano na sua última introdução ao meu texto aqui publicado em número anterior (Pode ver este texto na sua versão anterior carregando aqui) tece algumas considerações sobre esse mesmo texto no seu Blogue Alcoutim Livre (Ver aqui).
Sobre essas considerações gostava de ter escrito mais e melhor mas como digo no final deste texto as coisas, todas as coisas, têm tantos desdobramentos que por vezes e por questões de economia da paciência dos leitores é melhor mantê-las em níveis de desenvolvimento que possam ser aceitáveis por essa mesma paciência dos leitores.



Pequena nota (do José Varzeano) misturada com alguns comentários meus
«Desta vez a «Pequena nota» vem no fim depois de ler atentamente as opiniões alicerçadas em estudo do Amigo Daniel Teixeira.

Ainda que ele possa ter toda a razão do Mundo continuo a pensar não por qualquer estudo que tenha feito ou consultado sobre o assunto, talvez por algum conhecimento que tenha sobre as mexidas administrativas ocorridas ao longo dos anos ou talvez por alguma sensibilidade e aqui não incluo nada de sentimentalismos.

Enquanto por cá andar, Alcoutim continua a ser o mesmo com os seus defeitos e virtudes.

Eu já não vou ver as alterações político-administrativas que um dia terão lugar.»

Será preciso ter em atenção aqui que Alcoutim será sempre Alcoutim seja ou não sede de Concelho. É evidente que existe alguma diferença (entre Freguesia e Concelho) mas teremos que relativizar também as coisas e sobretudo procurar saber se um dado título (ou nome) faz de uma terra uma coisa melhor ou pior do que aquilo que ela é.

Loulé, como Cidade, por exemplo, tem 20 anos e é sede de um dos maiores Concelhos do País e o facto de ser chamada de Vila em nada a terá afectado. Havia mesmo quem afirmasse entre os políticos locais que preferia «ter» uma Vila grande do que uma Cidade pequena.

Com uma população rondando a mesma de Faro (Capital do Distrito de Faro) é um caso bastante sue generis da alegada descentralização administrativa: tem nada menos de 11 Freguesias contra 6 de Faro e se bem me lembro uma parte substancial delas (destas Freguesias em Loulé) foi criada para contrabalançar os poderes no seio da Assembleia Municipal.

Como se sabe os Presidentes de Junta de Freguesia têm assento por inerência na Assembleia Municipal e direito igual a voto como os eleitos directamente para a mesma Assembleia Municipal.

Faro por sua vez tinha (e tem) uma Freguesia que abarcava - se estou em erro é de aproximação - quase 50% da população farense (a Freguesia da Sé) e houve bastante dificuldade em implantar nos últimos anos a Freguesia do Montenegro retirando território e população à Freguesia da Sé, ainda o Aeroporto e todas a estruturas interligadas nomeadamente os contribuintes das Rent a Car e mesmo os da zona Industrial do Montenegro.

Por sua vez a Freguesia da Sé tem um aspecto que se aproxima daquilo que tenho falado sobre a importância (e a perca dela) das ligações e afinidades administrativas obtidas por via fluvial e / ou marítima.

A ilha da Culatra, situada em plena Ria Formosa, prolonga-se para o lado esquerdo de Faro e a sua ponta esquerda fica sensivelmente em frente a Olhão. Nesse mesmo extremo situa-se a povoação da Culatra. Há a ilha e a povoação com esse mesmo nome chamando-se tanto a esta como às outras pontas de embarque / desembarque de «Ilhas» quando na verdade são apenas cais de embarque / desembarque de uma mesma ponta dunar.

Ora se a chamada «ilha do Farol», por exemplo, situada à entrada do porto de Faro não oferece dúvidas quanto à sua pertença geográfica e afinidade com a Cidade de Faro e a Freguesia da Sé dado que o cais e respectivas estruturas portuárias se situam no Bom João - de Baixo, o mesmo já não acontece com a povoação da Culatra que está em termos de afinidade e proximidade mais próxima de Olhão e do Cais de Olhão.

Uma outra ilha, a da Armona, toda ela incorporada no Concelho de Olhão divide-se no entanto por duas Freguesias (Quelfes e Fuzeta). O que pretendo dizer com esta parte é que se não houvesse a necessidade de haver divisão concelhia entre Faro e Olhão para colocação dos habitantes da Ilha da Culatra nas suas devidas afinidades de proximidade e afectivo/ familiar o «problema» estaria resolvido (talvez) através da distribuição das Freguesias.

Ora, qual é a ligação desta parte com Alcoutim e sua possível fusão com Castro Marim como digo eu ou com Vila Real de Sto António como defende o José Varzeano? É que a afinidade terrestre é duradoura enquanto que a fluvial ou marítima é sempre fluida.

Lendo-se um pouco a história da estrutura portuária em Portugal vê-se com bastante facilidade e sentido de coerência que ela se aproxima da linha da costa (e dos estuários favoráveis) ao longo dos anos (séculos mesmo) e isto seguindo em linha directa o aumento do calado dos navios que por sua vez seguia o incremento do comércio e das trocas inter - territoriais.

Neste aspecto concreto confirma-se uma situação de semelhança ainda que em sentido inverso e também em forma de espelho reflectindo: enquanto que a Mina de S. Domingos por exemplo reforçava a ligação Alcoutim / Vila Real de Sto António dada o seu poder de atracção no caso da Ilha da Culatra o desenvolvimento maior da povoação da Culatra (e deperecimento relativo do povoamento na ponta direita em frente a Faro / Freguesia da Sé) faz pender a balança administrativa da Ilha da Culatra para a Concelho de Olhão. Aliás, a Capela da Culatra tem missa ministrada por um pároco da paróquia de Olhão e neste ponto como em muitos outros é de boa e certeira política «seguir os padres».

A Vigararia de Tavira, que abrange os Concelhos que temos vindo a referir (Alcoutim, Castro Marim, Vila Real de Sto António) e Tavira ela mesma tem no seu conjunto 18 Paróquias, das quais 5 se encontram no Concelho de Alcoutim, 4 são de Castro Marim, 7 de Tavira sendo as restantes 2 de Vila Real Sto António (Concelho). Por ordem e se não tivéssemos em conta a dispersarão territorial e contássemos exclusivamente com a população, teríamos em numero de paróquias Tavira, Vila Real de Sto António, Castro Marim e Alcoutim. Se fosse dado o mesmo rácio aproximado a Tavira (que tem já Cachopo fora da zona urbana e semi - urbana) daria uma paróquia a Alcoutim, duas a Castro Marim, cinco a Vila Real de Sto António e sete a Tavira se não quiséssemos arriscar «tirar-lhe» Cachopo...

«Os políticos, desde a Reforma de Mouzinho da Silveira, têm-se limitado a um ou outro remendo aqui e ali. Poucos têm sido os concelhos criados, mesmo depois do 25 de Abril.

O que se vê constantemente é a elevação de aldeias a vilas e de vilas a cidades. Algumas eram boas vilas e transformaram-se em fracas cidades, mas o povo (algum) gosta disto e os políticos vão apoiando estas acções, ficando as importantes para trás.

E o assunto é de tal maneira que algumas cidades funcionam administrativamente como se fossem aldeias e isto não deixa de ser caricato. Não é preciso dar exemplos pois todos os conhecemos.»

Sobre este ponto o amigo Zé Varzeano faz uma observação que é importante: as reformas de Mouzinho da Silveira mantêm-se desde há sensivelmente 180 anos porque nunca se mexeu de facto na estrutura administrativa vinda da Monarquia.

Não que isto seja uma critica ou uma afirmação menos elogiosa para os monárquicos mas talvez seja a constatação simples de que as coisas, em termos administrativos, estavam relativamente bem feitas ou que as possibilidades de alteração do actual satus quo têm de partir de outras premissas.

O liberalismo, através da famosa Carta Constitucional, e neste aspecto, grosso modo, através de Mouzinho da Silveira e outros seguidores, mais não fez de substancial do que mudar o nome às coisas, de uma forma geral, distribuindo os poderes (isso sim) segundo uma óptica liberal : penso que seja exagerado dizer-se apenas que lá onde havia distribuição por Províncias e Comarcas passou a haver distribuição por Províncias, Comarcas e Concelhos mas também me parece bastante no plano geral das definições.

Apenas a meu ver a introdução dos Concelhos (não em termos territoriais porque já estavam desenhados em grosso de forma quase natural) mas em termos do exercício do poder acabou por trazer algum resultado visível muitos anos depois pois estes foram minando de baixo para cima o exercício do poder central ou delegado. O que não impede que os actuais Concelhos se agarrem aos Foros (régios) como Camões aos Lusíadas após o naufrágio.

Já num período posterior da reforma administrativa se tenta corrigir alguns exageros e se procede à extinção de um grande número de concelhos mais pequenos, sendo no seu lugar criada a freguesia como subdivisão administrativa do concelho, chefiada por um comissário de paróquia - representante do provedor do Concelho - assistido por uma junta de paróquia.

Ou seja, e para o que interessa aqui, a Freguesia aparece como alternativa à desconstrução de Concelhos e não me parece que tenha sido descoberta outra alternativa para esta agora necessidade e antes relativo erro se bem que esse erro de enquadrasse na desmontagem da estrutura de poder da monarquia absoluta.
«Eu sei que é necessário o cumprimento de vários parâmetros para a obtenção desses títulos honoríficos e certamente que Alcoutim e mais algumas sedes de concelho do pais, se fosse hoje, nunca seriam vilas, mas a verdade é que o são de pleno direito e que não vai ser fácil a algumas deixar de o ser devido a situações muito específicas que forçosamente têm de entrar em consideração, constituindo assim excepções à regra e como o povo bem diz, não há regra sem excepção.»

Neste ponto o José Varzeano toca num aspecto que já ventilei acima, a questão dos foros e do título honorífico: ora um Concelho com as respectivas estruturas é um organismo político administrativo e de acordo com a sua dimensão é tanto mais administrativo e menos político nesta linha do quanto menor for ou menor importância económica e social tiver.

Se toda a estrutura administrativa portuguesa tivesse como problema visível Alcoutim e a sua passagem ou não a Freguesia poderíamos ficar descansados porque havia margem de sobra para a manutenção da situação, mesmo que por respeito exclusivo à honra concedida (nos Forais novos de D. Manuel embora não seja referida qualquer polémica é pelo menos estranho que o Concelho de Alcoutim tenha visto atrasado de cerca de 20 anos a revalidação manuelina em relação com os outros foros do Algarve).

«Por outro lado, a aldeia de Martim Longo ainda não obteve a categoria de vila possivelmente por não possuir os parâmetros exigidos.

O que acontece é que as pequenas e pobres vilas sede de concelho espalhadas pelo país não querem perder essa condição mas em contrapartida os concelhos ricos e de áreas incomparavelmente inferiores não têm o mínimo de interesse em anexar esses concelhos onde não se cria riqueza, obrigando as novas autarquias a uma divisão dos seus rendimentos.»

É evidente que este problema se coloca mas também se coloca um outro em sentido inverso que é o do classificação das autarquias para efeitos de mandatos (com 15 mil votantes Vila Real de Sto António distribui 7 mandatos, com 6.000 votantes Castro Marim distribui 5 mandatos e com 3.000 votantes Alcoutim distribui igualmente 5 mandatos).

«Os políticos parece que começaram a mexer nas juntas de freguesia, órgãos de uma importância relativa e que não vai influir muito na vida dos cidadãos mas mesmo assim a divergência entre os grandes partidos e os pequenos já é notória.

Eu penso que quando os políticos forem obrigados e mexer na Administração, a modificação tem de ser muito acentuada e possivelmente com órgãos autárquicos de dimensões e funções diferentes das actuais, talvez próximo do que acontece em Espanha.

Continuo convicto que se o concelho de Alcoutim vier a ser extinto e isso não me choca, a anexação será a Vila Real de Santo António juntamente com Castro Marim. Não fazem os três actuais concelhos parte da mesma Comarca com sede em Vila Real?

Por outro lado, a tendência fiscal é para a concentração e a informática é uma poderosa arma que poderá resolver as mais diferentes tarefas à distância (e já resolve muitas). Quando saber informática na área da utilização significar o mesmo que significou no passado o saber ler e escrever tudo muda de figura.

Caro Daniel Teixeira é bom termos opiniões diferentes e este espaço ALCOUTIM LIVRE foi criado mesmo para isso e está aberto a quem as quiser debater, como nós fazemos.

Um abraço.

JV
Publicado por José Varzeano»
Deixo em branco algumas respostas que não são tentativas de polémica, diga-se desde logo, porque esta questão e estas questões requerem bastante mais tempo e estudo do que aquele que tenho disponível neste momento.

Quero no entanto agradecer ao José Varzeano a possibilidade que me traz de fazer algumas dissertações, algumas não muito fundamentadas com documentação de apoio e praticamente referidas de cabeça com acertos de confirmação nalguns pontos, mas como já devo ter referido a minha ligação a Alcoutim e mais concretamente ao «meu» Monte de Alcaria Alta tem estado sempre presente de várias formas.
Na verdade Alcaria Alta sentia-se, na minha opinião, mais próxima de Martinlongo não só pela mais curta distância que separava o Monte e a Aldeia mas também pelo facto de os meios de transporte colectivos utilizados estarem estacionados em Martinlongo e não me parece que essa situação se tenha alterado no plano dos sentimentos senão pelo facto de não haver em Alcaria Alta já gente.

Isto para dizer que realmente as questões são polémicas e com valores quase ancestrais entranhados e que mexer no tecido administrativo do país é trabalho que se torna complicado: o próprio Marcelo Caetano, que tinha incluído sumariamente o Algarve na Região Sul foi forçado a dar a «independência» ao Algarve...

Nota Final

Em várias “postagens” aqui apresentadas ficaram expressos pontos de vista diferentes sobre uma temática que oferece alguma dificuldade de abordagem.
Certamente que os nossos leitores fizeram as suas análises com concordâncias e discordâncias não forçosamente de um só “opinador” pois podem defender alguns aspectos que um defende e outros defendidos pelo outro.
Podiam ter aparecido aqui outros pontos de vista, mas tal não aconteceu.
Um amigo que conhece Alcoutim superficialmente opinou que o assunto teria de ser equacionado tecnicamente através de uma Universidade bem colocada na área e este sim, daria a solução mais adequada.
Sem rejeitar, antes pelo contrário, estudos nesse sentido, a decisão tem de ser “fatalmente” política. Nunca os políticos “abririam mão” de tal resolução, já que lhes pertence, em última instância, tal decisão.

Mais uma vez o meu abraço de agradecimento ao amigo e colaborador, Daniel Teixeira.


JV

terça-feira, 19 de abril de 2011

A confraria do Senhor Jesus, no Pereiro

As confrarias são associações originárias da Idade Média, laicas ou eclesiásticas e que têm como fundamento a assistência material e espiritual.

Confrarias e irmandades, que muitas vezes se confundem, desempenharam papel importante nos séculos XVII e XVIII mas sofreram grande quebra com o triunfo liberal e mais tarde com o republicanismo.

As igrejas paroquiais possuíam várias confrarias que muitas vezes dispunham de altares próprios.

Na igreja paroquial do Pereiro temos indicações da existência da Confraria das Almas (1777-1818), de Nª Sª do Rosário (1770-1777 e 1780), de S. Sebastião e de S. Pedro (1773), de N. S. da Consolação, de Sto. António e de S. Marcos (1774-1835), além da do Santo Nome de Jesus ou do Senhor Jesus, e de que possuímos mais referências, como seguidamente tentaremos justificar.

Por ordem do Príncipe regente, D. João, transmitida ao escrivão da Câmara, José Carlos de Freitas Azevedo (1) foi dito que os saldos do ano de 1799 ficassem cativos enquanto não houvesse novas ordens (2) tendo sido nomeado em 7 de Abril de 1801, fiel depositário dos mesmos, Pedro José dos Reis. (3)

A Confraria do Santo Nome de Jesus apresentou entre todas o saldo mais insignificante, 40 réis.

Através do livro de receitas e despesas temos conhecimento das contas que os mordomos da mesma prestaram desde 1802.

O mordomo era eleito no dia de S. João Baptista respondendo até igual dia do ano seguinte.

É interessante verificar que há mordomos dos mais importantes montes da freguesia. Serro da Vinha está representado por José da Palma (1802-1803), Domingos Lourenço (1804-1805) e José Martins Corvo (1817-1818), Vicentes com Manuel Rodrigues Mesquita (1803-1804), Manuel Vaz (1808-1809), Tesouro com Manuel Vicente (1806-1807), Barão da Costa (1808-1809), Alcarias Covas, é essa e designação abrangente das três Alcarias, com Baltazar da Palma Cavaco (1809-1810), Miguel Pereira Janeiro (1810-1811), José Pereira (1812-1813) e Miguel Pereira Lobo (1818-1819) que encerra com um saldo de 50 réis.

A aldeia foi representada por António Joaquim de Campos (1811-1812), José Teixeira (1813-1814) e José de Jesus (1814-1815, 1815-1816 e 1816-1817).

As receitas da Confraria eram constituídas pela recolha das esmolas da alcofa (dinheiro) e por dádivas de trigo, avultando nas despesas as missas e responsos, a missa cantada, a cera e a lavagem da roupa do altar.

A título de curiosidade dizemos que em 1802-1803 foram gastos 2000 réis com missas e responsos e 1360 com a missa cantada.
A Confraria foi abolida em 1819 “por não ter renda alguma” (4)

NOTAS

(1) Oriundo da cidade do Porto, veio a ser avô paterno do Padre António José Madeira de Freitas.
(2) Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, da Vila de Alcoutim, iniciado em 1785, pág. 15
(3) Idem, págs. 18 v. e 20.
(4) Livro de Receita e despesa da Confraria do Senhor Jesus da Paroquial Igreja do Pereiro (termo de abertura e encerramento de Faro, 30 de Dezembro de 1802).

N.B.
Extraído de A Freguesia do Periro (do concelho de Alcoutim),«do passado ao presente», José Varzeano, 2007.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cortes e Alcarias, topónimos abundantes no concelho de Alcoutim

Ao abordarmos em pequenas notas monográficas já publicadas nestes espaço, algumas dezenas de “montes”, sempre que nos é possível, referimos uma explicação para o topónimo.

Já referimos várias vezes os dois topónimos de uma maneira simples e sucinta. Hoje, iremos apresentar o que conseguimos reunir nas leituras e pesquisas que temos efectuado ao longo dos anos.

As “ (...) alcarias e cortes repetem-se ao longo dos caminhos e dizem-nos que o cultivo das terras e a criação de gado são a forma de ganhar a vida de que os habitantes podem lançar mão”. À medida que nos aproximamos do Guadiana a altitude diminui e as Cortes substituem as Alcarias”. (1)

O topónimo Corte, normalmente associado, aparece principalmente no Baixo-Alentejo e Alto-Algarve e tem merecido a atenção de vários especialistas.

[Corte da Seda. Rua típica. Foto JV]

Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz-se que entre os topónimos mais dignos de nota contam-se as várias Cortes, designando prédios, certamente em substituição dos casais de acourelamento efectuado com o repovoamento nacional.

Pinho Leal (2) expressa-se assim: (...) se em algumas povoações significa curral de gado, na maior parte delas significa cohorte (corpo militar dos romanos) e depois, à imitação deles - sobretudo desde o tempo de Sertório, também os lusitanos se organizaram por cohortes. Também se dava o nome de cohorte ao sítio em que ela fazia o seu assentamento ou acampamento.

Alberto Sampaio (3) escreve: Cohors, Cortis, Curtis - o recinto fechado em volta do qual estavam as construções agrícolas incluindo os estábulos, aos quais agora a linguagem popular chama Cortes, de que cortelho é também diminutivo no mesmo sentido. De Curtis, significando o conjunto das edificações com um pátio, derivou literalmente Corte.

[Corte Tabelião. Vista parcial, 2009. Foto JV]

Corte, de Cohors - Ortis - Cortis, Curtis, em latim clássico significava o recinto das construções rústicas, passou entre nós, nos tempos antigos (...) a ter várias significações como subunidade de cultivadores - courela murada ou cercada de sebes, mas predominantemente o lugar onde se criam ou recolhem animais domésticos (...) . Vêm depois, num ou noutro destes sentidos, para várias povoações que com este nome, no singular ou no plural, se encontram espalhados pelo nosso País – é o que afirma Amadeu Ferraz de Carvalho. (4)

Noutra ocasião, o mesmo autor diz que corte significa – casal, vila, exploração agrícola. (5)

Viterbo (Fr. Joaquim de Santa Rosa de) no conhecido Elucidário, diz:- Para com os bons latinos cors ou cohors era, propriamente, um pátio rústico e descoberto, cercado e guarnecido de currais, manjedouras ou cobertos, em que os animais e criações de campo se recolhem, guardam, multiplicam e cevam. Na baixa latinidade, cortis e curtis se tomaram por um casal, vila, quinta, abegoaria, prédio rústico, horta, quintal e também alcaria com tudo o preciso e necessário para a lavoura.

Também significaram o arrabalde de uma grande povoação: o pavilhão, tenda ou barraca de príncipe ou general do exército.

José Pedro Machado (6)... indica “lugar em que se criam animais domésticos e certa extensão de terreno lavrado”.

[Cortes Pereiras, Monte de Baixo. Foto JV]

Depois de todas estas explicações sobre o topónimo Corte, que está representado seis vezes a nível do concelho, passemos ao outro topónimo igualmente frequente na região.
Alcaria, para o qual existe consenso, é um topónimo de origem árabe, muito frequente no sul do País. Tem por origem Al-Qariâ que significa “pequena povoação, a aldeia” (7).

[Alcaria Queimada, 2010. Foto JV]

A palavra Alcaria foi usada pelos escritores muçulmanos para designar uma pequena povoação não protegida por muralhas. (8)



NOTAS

(1) - Algarve - Novos Guias de Portugal, J.V. Adragão, Edições Presença.
(2) - Portugal Antigo e Moderno, A.S. Barbosa de Pinho Leal, 1874.
(3) - As Vilas do Norte de Portugal, Alberto Sampaio, 1979., p 82
(4) - A Terra de Besteiros e o actual concelho de Tondela, Amadeu Ferraz de Carvalho, 1981.
(5) – “ Subsídios para a Toponímia no Concelho de Tondela”, Amadeu Ferraz de Carvalho, jornal Notícias de Viseu de 3 de Dezembro de 1922.
(6) - Dicionário Onomástico-Etimológico, José Pedro Machado, Edições Horizonte/Confluência - 1993.
(7) - Vocabulário Português de Origem Árabe , José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1972.
(8) – “Toponímia Algarvia – Alcarias e Malhadas” Arnaldo Casimiro Anica, Jornal do Algarve de 14 de Janeiro de 1993.

domingo, 17 de abril de 2011

Centenário do alcoutenejo, José Gaspar Patrocínio





Escreve


Gaspar Santos





Tive a honra de receber um amável convite do meu primo Zé Gaspar para participar na festa dos seus 101 anos que se perfazem hoje dia 17 de Abril. Este primo irmão de meu Pai reside no Lar de Alcoutim há mais de 20 anos. De inicio, acompanhado de sua mulher que entretanto faleceu. A festa do seu centenário esteve aprazada para se realizar no ano que passou, não se tendo realizado devido a acontecimentos imprevistos.

Motivos de força maior para me reter em Lisboa impedem, com muita pena minha, de comparecer a esta sua festa. É um dos primos mais novos do meu Pai. Talvez por isso, sempre gostei muito dele, pois havia uma maior proximidade etária e uma estima recíproca. Não esqueço as atenções que dele sempre recebi. Sobretudo quando eu estava na tropa, várias vezes me convidou para almoçar na sua casa na Rua Gonçalves Crespo. Era mesmo juntinho ao Hospital Miguel Bombarda, onde nessa data se encontrava internado o Romão, tocador de acordeão da freguesia do Pereiro, que mantinha uma espécie de namoro platónico com uma empregada da casa de meu primo.

Nasceu em Alcoutim em 1910, ano da implantação da República, filho de Gaspar Francisco Peres e de Maria da Felicidade. Muito novo, com 14 anos, começou a trabalhar nos escritórios do irmão Manuel Gaspar Patrocínio um industrial de conservas de sucesso em Portimão. Desse irmão costumava comentar: “foi ele que me acabou de criar”. Depois, já como guarda-livros serviu o Grémio da Lavoura de Moura e Barrancos. Casou mais tarde e, empregou-se em Lisboa numa Empresa Rodoviária de Transportes, que muito carvão e cal transportou e retornou com enxofre, quase no fim da laboração da Mina de São Domingos.

É uma pessoa que mantém uma boa disposição, grande lucidez e espírito crítico, qualidades que sempre possuiu. Era muito activo e tinha muito boa capacidade de memória que faziam dele um bom contador de episódios por si vividos. Recordo uma inteligente observação que me fez quando o visitei em Fevereiro: - “ Não sei, mas preocupa-me a economia do País, em especial do Algarve, por estar tudo dependente do turismo. Então e a agricultura não é a base de tudo? Se há uma guerra, cataclismo, ou dificuldades financeiras no estrangeiro, de repente o turismo pode sofrer grande quebra, e o que vai ser de nós?”.

E esta outra observação a seu respeito: “ aqui estou com esta idade, mas não me sinto mal. Não tomo medicamentos, nem para a tensão arterial nem para dormir. Não me dói nada. Canso-me um pouco se ando demais e tenho falta de forças nas pernas. Podia ir mais vezes à Vila tomar um café e ler o jornal, como fazia dantes, mas não me apetece ir.”

Também não quero deixar de referir um desabafo seu das saudades que tinha duma açorda com bastante azeite. Não perdeu o seu gosto tradicional e apurado pelos pratos da sua infância!

Quero deixar esta nota. Regozijar-me e felicitá-lo por ter atingido tão linda idade e com tanta saúde e desejar que não faltem as oportunidades de nos abraçarmos muitas mais vezes e com a boa disposição e saúde de sempre. Não poderei comparecer, mas na hora estarei com ele em espírito e beberei uma taça de champanhe em sua intenção.




Pequena nota

É com imenso prazer que o ALCOUTIM LIVRE se associa aos 101 anos do alcoutenejo, Sr. José Gaspar do Patrocínio, festejado hoje no Lar de Alcoutim.
Que seja do meu conhecimento já são três os “centenários” que lá têm lugar, o que é significativo.
Segundo o que refere no texto o nosso colaborador Gaspar Santos, seu familiar, o primo encontra-se de boa saúde, não toma medicamentos nem mesmo para a tensão arterial!
Esperamos e desejamos-lhe mais uns bons anos de vida.
Não esquecemos que de idade já bem avançada não deixava de assistir às Assembleias Municipais para poder estar a par da vida política do seu concelho natal, um dos poucos que o fazia.
As nossas felicitações pelo acontecimento.


JV

quinta-feira, 14 de abril de 2011

As Ruas e as Praças da Vila de Alcoutim e a sua toponímia

[Praça da República, 1969]

O traçado medieval da vila organizava-se com base em dois espaços, o largo ou praça onde se situava o poder administrativo e adstritos (Paços do Concelho, Pelourinho, Cadeia, Casa do Capitão-Mor, Repartições Públicas, acompanhado naturalmente do comércio de maior impacto) e onde desembocavam as duas vias principais, a direita da Porta de Tavira e a direita da Porta de Mértola e a “ribeira”, o outro espaço junto ao Guadiana onde se efectuavam as trocas comerciais de mão a mão, onde se recebia o que se necessitava e expedia o que se produzia. Aí se encontrava o poder fiscal aduaneiro, a residência do grande Senhor (o Conde) e mesmo dois templos religiosos. É esta a estrutura geral da vila medieval cuja rede se teceu através de pequenas ruelas ligando os pontos já referidos.


[Rua da Misericórdia, 1988. Foto JV]
Nos meados do século XIX encontrámos referência às ruas Direita, onde D. Ana Xavier tem um lagar de azeite cujas águas sujas corriam pela rua e era preciso evitar, fazendo-as passar pelos Trases, a Rua do Quebra-Costas e a Rua da Corredoura, onde Vitoriano da Palma das Cortes Pereiras pede um bocadinho de terreno para fazer um quintal junto às casas que possui. (1)

O Largo do Pinhão, que ainda hoje pode ser identificado pelos moradores mais antigos, já era referido assim naquela altura.

Em 1867 (2) encontrámos referidas as seguintes ruas: Portas de Mértola, Portas de Tavira, Misericórdia, Direita, (?) Lagares e Sto. António.

Interessante é a designação da zona rústica do “jogo da bola” que como é óbvio nada tem com o actual futebol, mas sim com os jogos de então, que além deste incluía entre outros a pela e a conca. Em 1876 (3) informa-se que “o delinquente acha-se junto à horta do jogo da bola”. Em 1877, (4) num ofício dirigido ao Governador Civil, informa-se que a numeração de todas as casas de habitação e das susceptíveis de serem habitadas foi concluída (...) no prazo designado (...) e procedeu-se à cobrança dos números mas a maior parte só se prontificou a pagar o número correspondente à casa que habitavam, recusando-se a pagar os mais, porque dizem que foi assim feito no concelho de Castro Marim.

[Rua Dr. João Dias, antiga Rua Direita das Portas de Tavira. Foto cedida por A.F.]
No “Livro de Inventário dos Bens da Paróquia de Alcoutim - 1878”,encontrámos a Rua da Corredoura em substituição da Rua Portas de Mértola, além das de Nª Sª da Conceição, da Igreja, os Largos do Castelo e também da Igreja.
Em 1880 (5) as ruas e vielas da vila achavam-se imundas, principalmente a rua da Conceição e as vielas do Esteiro.

Na Sessão da Câmara de 23 de Novembro de 1882 o presidente, Manuel António Torres disse que na vila não existiam já os dísticos de nomes das ruas e mesmo alguns que existiam em que os nomes, com que antigamente se denominavam, deviam ser substituídos, como são os das ruas de Portas de Mértola e de Tavira, por não existirem já tais Portas.

Lembrou que a Câmara se encarregasse da revisão dos nomes das ruas pondo novos àquelas que entendesse conveniente. A Edilidade acabou por encarregá-lo de tal missão apresentando a sua proposta oportunamente.

[Rua 25 de Abril (antiga Rua Oliveira salazar). Foto JV, 1973]
Um mês depois (6) apresenta o seguinte quadro que veio a ser aprovado: A Rua de Sto. António passa para Rua Conselheiro José de Beires, (7) Rua Direita para Rua D. Luiz I, Rua Portas de Tavira para Rua D. Maria Pia, Rua das Portas de Mértola para Rua da Corredoura, Rua da Igreja para Rua D. Fernando e Rua dos Lagares para Rua do Guadiana.

A rua que corre da Praça Pública para a Praça de Sto. António passará a designar-se por 7 de Dezembro e a Travessa que corre para esta, Travessa Nova.

A Praça Pública denominar-se-á Praça D. Afonso IV.

Mantêm as designações as ruas da Conceição, Misericórdia e Olaria Velha e as Travessas da Igreja, Conceição e da Cadeia, Largos do Castelo e da Igreja e a Praça de Sto. António.

[Rua D. Sancho II, 2010. Foto JV]
Aparece também a designação rústica de Fonte Primeira hoje desaparecida com a praia fluvial.

Apesar das alterações oficiais sofridas é frequente o aparecimento em documentação diversa de nomes antigos e tradicionais, como acontece com a Rua do Quebra-Costas onde Joaquim José Delicioso está fazendo um prédio. (Sessão de 23.06.1883).

Em 1886 um Edital de 11 de Março faz público que a Câmara deliberou chamar à Rua do Quebra Costas, Rua Nova, à do Esteiro, Rua das Alegrias (?) e à da Olaria Velha, Rua do Sol.

Em 1894 continuam a aparecer as designações de Rua Direita e Rua do Poço dos Lagares.

Com a implantação da República procedeu-se à actualização toponímica (8). Assim, a Praça D. Afonso IV passou a denominar-se Praça da República o que ainda se mantém, a Rua D. Luiz I tomou o nome de Miguel Bombarda, a de D. Maria Pia, Marquês de Pombal e a Rua Conselheiro José de Beires, Rua Teófilo Braga.

[Rua de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2010]
Em 1928 a Rua de Sto. António passa a chamar-se de João de Deus por proposta de Guerreiro Gascon.

Além dos nomes já referidos, a matriz predial urbana (1934?) referia as ruas do Cemitério, do Poço Novo, Boa Vista, das Flores, do Quartel e do Esteiro.

A actualização toponímica volta a ser feita em 1950, aparecendo então e novamente Rua Portas de Mértola, substituindo assim a Rua da Corredoura, de D. Sancho II, das Portas do Rio, Oliveira Salazar, Av. Duarte Pacheco, do Município, D. Fernando, Pedro Nunes, Nuno Álvares Pereira, Marechal Carmona e Travessa Portas do Rio. Foi, naturalmente, a actualização feita pelos homens do Estado Novo que foram recuperar alguns nomes históricos e introduziram os dos seus ídolos, como Salazar, Carmona e não se esquecendo do algarvio Duarte Pacheco.

[Rua Nuno Álvares Pereira (antiga Rua do Quebra-Costas). Foto JV, 2010]
Após o falecimento do Dr. João Francisco Dias é dado o seu nome à que tinha de Miguel Bombarda e em 1984 é homenageado o Prof. Trindade e Lima figurando o seu nome numa das ruas da vila.

A placa toponímica que ostentava o nome de Oliveira Salazar foi substituída por 25 de Abril, logo após aquela Revolução.


NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 23 de Março de 1849.
(2) - Livro das Rendas dos Prédios e Juros Pertencentes à Fazenda Nacional, termo de abertura de 13 de Março de 1867.
[Rua Trindade e Lima. Foto JV]
(3) - Of. nº75 de 10 de Novembro de 1876.
(4) - Of. nº 148, de 12 de Setembro de 1877
(5) - Of. nº123 de 18 de Setembro de 1880.
(6) - Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Dezembro de 1882.
(7) - Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Faro, de 1869-1870 e de 1871 a 1877.
(8) - "Coisas Alcoutenejas - A Implantação da República" ,José Varzeano, Magazine do Jornal do Algarve de 27 de Julho de 1995.

Pequena nota
Este texto foi extraído da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (subsídios para uma monografia), em preparação, não se encontrando actualizado com as últimas designações que comportam principalmente a parte nova da vila.
JV

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pêro Dias, pequeno "monte" nas proximidades de Martim Longo

[O monte do Pêro Dias visto da estrada de terra batida. Foto JV]

Penso que seja um dos “montes” mais próximos da aldeia de Martim Longo, sede de freguesia a que pertence e de que dista 3,7 km, situando-se a 33 da vila de Alcoutim, sede de concelho.

Esta pequena povoação foi das últimas a possuir um acesso condigno, o que só veio a conseguir em 2002 (1) e que constituiu o CM nº 1038 asfaltado e que tem uma pequena obra de arte sobre o barranco Grande.

Além deste acesso há outro de terra batida que parte da EN 124 à esquerda após a Barrada e no sentido norte/sul.

Tem outro caminho que não conheço e se dirige à ribeira da Foupana que lhe fica próximo.

Foi construída uma passagem submersível sobre a ribeira e que serve o caminho para Pão Duro da freguesia de Vaqueiros. (2)

[Estrada de Pero Dias. "Ponte" sobre o barranco Grande. Foto JV]

Os característicos cerros que correm como ondas e definem o Nordeste algarvio podem observar-se dos locais mais altos e chamam a atenção.

Numa das últimas vezes que por ali passei (1997) à saída e em direcção a Martim Longo, num sítio baixo, por onde passa um barranco, vi um pequeno hortejo trabalhado por um casal que já passou a meia-idade.

Ainda era possível ver uma ou duas searas.

Como pequena referência histórica posso dizer que em Maio de 1844 pairou sobre esta região uma horrível trovoada que devastou as searas. (3)

Como era norma nestas pequenas povoações um ou outro lavrador era o centro de gravitação de toda a população. Hipoteticamente teriam sido os ascendentes longínquos destes lavradores que teriam dado origem à pequena povoação, mas isto só no campo das suposições, viso desconhecer documentação que o justifique.

Com funções comunitárias existiam dois fornos de cozer pão. Ainda que ambos se mantenham já não têm essa função que foi extremamente importante na primeira metade do século passado. O “forno de cima”, sem telheiro, ainda que de pé, está necessitado de obras de conservação afim de não desaparecer. O “de baixo”, com telheiro, foi recuperado e está em condições de funcionamento.

[O recuperado "forno de baixo". Foto cedida por A.A.]

Sendo muitas as famílias a utilizá-los, havia necessidade de se fazer uma marcação prévia e que todos respeitavam. Quem pretendia cozer no dia seguinte colocava à porta do forno um feixe de lenha.

Encontrei nos anos setenta do século passado um sistema idêntico nos Guerreiros do Rio, com a diferença de a marca ser constituída por um ramo de esteva sobre o qual se colocava uma pedra.

Como o poço velho já era insuficiente para abastecer a necessidade da população e tendo em consideração a existência de muitos animais indispensáveis a toda uma vida agrícola, animais de carga, sela e de tracção, houve falta de se abrir um novo, o que terá acontecido, segundo informação recebida, na década de vinte do século passado. Tenho conhecimento através de documentação consultada que na década de 30 com a Comissão Administrativa da Câmara a ser presidida pelo professor Trindade e Lima que foram abertos muitos poços em todo o concelho com pequenos subsídios municipais e principalmente com a disponibilidade das populações.

Naturalmente que começou a ser conhecido pelo poço Novo que produzia e produz, segundo o nosso informador, água em abundância e de excelente qualidade, acreditando o povo nas suas qualidades terapêuticas.

Está apetrechado de bomba elevatória.

Conforme informação, trata-se de uma pequena obra de engenharia hidráulica, baseada no princípio dos vasos comunicantes e feita por artesãos locais.

[Vista aérea de Pêro Dias. Foto cedida por A.A.]

Quando as pessoas enchem as vasilhas perde-se alguma água, a mesma cai numa espécie de bacia situada num plano mais elevado, segue um percurso em forma de “U” e desliza num canal que antigamente era de telhas sobrepostas situado sobre um muro, desaguando num tanque onde os animais bebiam. Não havia desperdícios!

Em 1998 a água começou a ser distribuída por fontanários (4) e em 2003 foi levada aos domicílios.(5)

A electrificação só chegou em 1984. (5) A pavimentação dos arruamentos foi adjudicada em sessão da Câmara de 22 de Julho de 1992 e o telefone chegou em 1995. (7)

Em 2005 e possivelmente por causa da abertura de valas para colocação de tubagem devido ao transporte de água ao domicílio o pavimento das ruas é reposto. (8)

Quanto ao topónimo, é por demais evidente que tem origem no antropónimo, a complexidade está em saber quem foi o Pêro Dias. Certamente pessoa importante em haveres e regalias que lhe pudessem estar associadas.

Em relação a Diogo Dias encontrei uma pessoa com alguma importância no concelho no século XVI, quanto a Pêro isso não aconteceu.

[Outro aspecto aéreo da povoação. Foto cedida por A.A.]

Enquanto o povo diz que Diogo e Pêro eram irmãos e quando herdaram os avultados bens cada um ficou no seu “monte”, o que não tem o mínimo de fundamento visto por essas alturas só herdar o primogénito, outros pretendem que Diogo e Pêro Dias eram dois irmãos navegadores que viram os seus feitos na descoberta de novos mundos ser premiados pelo rei português com a oferta de terras distantes e inóspitas paragens que hoje pertencem ao concelho algarvio de Alcoutim. (9)

Pêro é forma antiga de Pedro que se manteve como topónimo, pelo menos em vinte e nove povoações, em situação composta como aqui acontece.

Apesar de ser indicado por Pêro Dias, em 1758 o padre da freguesia, que preencheu o questionário daquilo que ficou conhecido por Memórias Paroquiais, escreveu PEDRO Dias e não Pêro Dias.

Em Julho de 2010 naturais e residentes reuniram-se no 1º Almoço-Convívio que decorreu com muita animação e que juntou cerca de 150 pessoas.

Para terminar apresento um gráfico populacional onde se verifica uma queda abrupta de população a partir de 1960.




NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, p. 5
(2) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 5 de Novembro de 1997
(3) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 3 de Novembro de 1844.
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 6 de Janeiro de 1999, p. 11
(5) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dezembro de 2003, p 6
(6) – “Alcoutim em luta contra o isolamento”, Jornal do Algarve de 20 de Janeiro de 1984.
(7) - Alcoutim, Revista Municipal nº 1 de Maio – Junho de 1995
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 12 de Dezembro de 2005, p.11
(9) – “ Histórias e Simpatias no Nordeste Algarvio - De Pêro Dias ao Pão Duro”, Elisabete Rodrigues, Diário de Notícias de 11 de Maio de 1996.


Pequena nota

Esta é a primeira nota monográfica que organizo com a colaboração de um natural da povoação que a isso se prestou e daí haver um maior desenvolvimento. Trata-se do Sr. António Augusto da Palma Afonso a quem agradeço as informações prestadas.

Tenho tido, contudo, um Amigo que conhece bem a sua freguesia e a quem de vez em quando recorro para tirar uma ou outra dúvida ou solicitar algum esclarecimento, o que presta sempre de boa vontade.

JV

terça-feira, 12 de abril de 2011

Passeio ao campo


A Câmara Escura de hoje volta à figura humana e é de meados do século passado. Trata-se de um passeio ao campo onde devia ter decorrido uma almoçarada, como provam os utensílios que as senhoras têm na mão, a propósito de qualquer acontecimento que desejavam comemorar, anos de alguém ou algum dia santificado.

Naturalmente que uns já partiram mas outros ainda se vão movimentando bem.

Dos dezassete reconhecemos nove e em posição central expelindo alegria, lá está a D. Mariana, para os amigos Marianita.

Talvez a pessoa mais idosa seja a D. Ana da Costa, vulgo Ti Ana da Costa, natural do Monte de Afonso Vicente, é a segunda do lado esquerdo e de óculos escuros.

A apresentação desta fotografia tem a finalidade de os alcoutenejos “menos jovens” poderem recordar, foi-nos cedida pelo nosso apreciado colaborador, Amílcar Felício, o que muito agradecemos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Os Montes do Nordeste Algarvio


Com um formato de 16X23,5, é composto por 218 páginas ilustradas por várias fotografias a preto e branco e por interessantíssimos desenhos que retratam aspectos da vida real das gentes do Nordeste Algarvio.

Além disso, apresenta gráficos e mapas demonstrativos de assuntos que se abordam.

O estudo, de autoria de Cristiana Bastos, tem chancela de Edições Cosmos, Lisboa, 1993 e está incluído em «Portugal e o Mundo Português», colecção dirigida por Vitorino Magalhães Godinho.

O trabalho centraliza-se muito na Freguesia de Martim Longo, concelho de Alcoutim, tendo servido como principal fonte de pesquisa o Arquivo Histórico Paroquial.

A Serra Algarvia é abordada nos seus vários aspectos com as influências do Algarve (Litoral) e do Alentejo que lhe fica a norte.

É um trabalho indispensável para quem deseje conhecer esta zona do país, nomeadamente o concelho de Alcoutim.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Feijão careto com atum


Só soube o que era feijão careto quando cheguei a Alcoutim!

Depois de o conhecer por feijão-frade e feijão de duas caras, na Beira-Alta vim a conhecer-lhe outro nome, feijão miúdo e por intermédio de um minhoto tomei conhecimento que na sua terra lhe chamavam feijão galego. É uma das características da nossa língua, vários nomes para uma única coisa! São os regionalismos.

Não digo que este prato seja típico da serra algarvia ou do concelho de Alcoutim, mas a verdade é que é muito utilizado.

Foi-me servido pela primeira vez em Novembro de 1967 no “monte” de Afonso Vicente quando o ramal de acesso, a electricidade e a água ao domicílio eram uma miragem. Tinha de se comer o que se conseguia levar e não havia como conservá-los.

A diferença para mim tinha a ver com o nome do feijão e com o acompanhamento, atum de conserva, pois estava habituado em vez de atum, acompanhar com carapaus fritos.

Salsa e cebola bem picadas, as indispensáveis rodelas de ovo cozido e o tempero de azeite e vinagre já eu conhecia e penso serem utilizados em todo o país.

É prato que aprecio mas espaçado no tempo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Almofada



Nesta rubrica algo procurada pelos visitantes / leitores que por vezes nos contactam para obter algum esclarecimento, nem sempre possível de dar, apresentamos hoje uma almofada gémea das duas que apresentámos na postagem de 24 de Julho de 2010.

Não nos vamos repetir nas considerações que então fizemos das duas anteriores a não ser que devem de ter sido feitas por volta de 1925 e no monte de Afonso Vicente.

Esta é da mesma configuração de uma das outras, os produtos utilizados os mesmos, a ilustração é que naturalmente é diferente.

Temos nela representado um cesto com asa de meter no braço, foi bordada com linha verde e com ponto pé de flor, se nos recordamos de o ver ensinar a nossa mãe a meninas de seis/sete anos que mostrassem interesse em aprender, mas muito distante do local em que esta foi confeccionada.

As ramagens são da mesma cor do cesto (a cor das linhas devia ser muito limitada) e avultam três flores (ou serão laranjas?) cor de laranja.

Tal como nas outras, é magnífica a ingenuidade do trabalho.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crónicas e ficções - Alcoutim - Recordações V





Escreve

Daniel Teixeira



Alcoutim a crença e a realidade
Saber se Alcoutim como Concelho desaparece ou continua eis a questão.




O amigo José Varzeano na sua última introdução ao meu texto aqui publicado em número anterior (ver aqui no Raizonline e aqui no Alcoutim Livre) não me pareceu muito crente na possibilidade de Alcoutim vir a ser uma «mera» Freguesia (como referi - do Concelho de Castro Marim) o que aliás se compreende e se aceita. Para mim, embora tenha tido oportunidade de ler alguns estudos - não sobre este aspecto em concreto, note-se - mas porque por razões relacionadas com a comunicação social regional que frequentava na altura tive de me «bater» com longos textos e estudos na então CCR para além de outros obtidos por altura de eleições junto do STAPE, tenho no entanto uma outra perspectiva.

Não tive muito tempo para procurar textos de apoio sobre esta temática, até porque me convinha recomeçar esses estudos de novo e não aproveitar senão em termos comparativos aqueles que obtive há cerca de 10 anos, mas lembro-me bem que um dos fenómenos que eu analisei, nessa altura, foi o que chamei de «factor refluxo».

Este factor (que deve ter um outro termo técnico mais apropriado) referia-se à saturação dos centros urbanos mais atractivos e por um regresso populacional para uma periferia que na altura situei num raio de 15 Kms do centro embora esse «refluxo» não tivesse como actores os mesmos que dessa periferia migraram.
O fenómeno é quase lógico e visível a olho nu - quer dizer sem estudo. O próprio José Varzeano refere que Castro Marim (Concelho) está a servir de dormitório de Vila Real de Sto António (Concelho), o que se coaduna com aquilo que refiro acima, sendo esse um dos primeiros passos para uma fixação mais efectiva. Os números que obtive na altura abrangiam um universo estatístico de cerca de 20 anos e eram sobretudo notáveis no Barlavento Algarvio e nos centros turísticos em geral (Barlavento e Sotavento).

O Concelho de Vila Real de Sto António tem uma concentração populacional grande na relação com o seu espaço físico e o Concelho de Castro Marim tem um espaço territorial relativamente elevado (tal como o Concelho de Alcoutim) na sua relação com a população.

Como se sabe - e espero não levantar polémicas desnecessárias naquilo que considero ser uma questão que é sempre polémica e que mete muito amor à camisola - a Vila Pombalina viveu desde a sua fundação pelo Marquês de Pombal por razões fiscais relacionadas com a pesca (as cabanas dos pescadores de Monte Gordo foram simplesmente mandadas queimar pelo Marquês), em seguida as conservas e posteriormente com o minério da Mina de S. Domingos também: uma actividade está acabada (a mina) e as outras atravessam as ruas da amargura.

Para o primeiro plano (o da mina de S. Domingos) a ligação com Alcoutim era lógica e feita com base na via fluvial (Rio Guadiana). Ora essas ligações obtidas em termos administrativos em função dos portos (cais de embarque) perde relevância nos tempos modernos, não só pelo seu deperecimento natural em termos de importância como também pela criação de vias terrestres alternativas.

Ainda fiz várias vezes a viagem de barco entre Vila Real de Sto António e Alcoutim sobretudo devido aos males da(s) alternativa(s) pela estrada da serra (Faro - Cachopo -Martinlongo) e mesmo pela estrada de Vila Real - Alcoutim /4 estradas/Balurcos - Martinlongo. Pensar-se hoje em termos de tráfego mercantil por via fluvial é reconhecido como quase absurdo embora estejam em estudo projectos de navegabilidade do Rio Guadiana ao que acredito tudo visto numa perspectiva mais turística que outra (amizade Portugal - Espanha etc. ).

Ora tudo isto para dizer que em termos práticos não existem a meu ver razões para que Alcoutim se ligue ao Concelho de Vila Real de Sto António com o qual não tem afinidade territorial (e as outras afinidades estão em deperecimento e nunca foram antes senão comodidades administrativas). Por outro lado parece-me também um facto que Alcoutim e Castro Marim em conjunto atingem um volume territorial enorme sem desenvolvimento populacional que justifique tal espaço havendo a meu ver também algum absurdo na distribuição geográfica do Concelho de Vila Real de Sto António.

Mas esta questão ou estas questões nada têm a ver com as especificidades locais e parece-me claro que o Concelho de Alcoutim é uma excelente mescla Algarve / Alentejo e por isso mesmo paradigmático embora não só por isso.



Pequena nota

Desta vez a “Pequena nota”vem no fim depois de ler atentamente as opiniões alicerçadas em estudo do Amigo Daniel Teixeira.

Ainda que ele possa ter toda a razão do Mundo continuo a pensar não por qualquer estudo que tenha feito ou consultado sobre o assunto, talvez por algum conhecimento que tenha sobre as mexidas administrativas ocorridas ao longo dos anos ou talvez por alguma sensibilidade e aqui não incluo nada de sentimentalismos.

Enquanto por cá andar, Alcoutim continua a ser o mesmo com os seus defeitos e virtudes.

Eu já não vou ver as alterações político-administrativas que um dia terão lugar.

Os políticos, desde a Reforma de Mouzinho da Silveira, têm-se limitado a um ou outro remendo aqui e ali. Poucos têm sido os concelhos criados, mesmo depois do 25 de Abril.

O que se vê constantemente é a elevação de aldeias a vilas e de vilas a cidades. Algumas eram boas vilas e transformaram-se em fracas cidades, mas o povo (algum) gosta disto e os políticos vão apoiando estas acções, ficando as importantes para trás.

E o assunto é de tal maneira que algumas cidades funcionam administrativamente como se fossem aldeias e isto não deixa de ser caricato. Não é preciso dar exemplos pois todos os conhecemos.

Eu sei que é necessário o cumprimento de vários parâmetros para a obtenção desses títulos honoríficos e certamente que Alcoutim e mais algumas sedes de concelho do pais, se fosse hoje, nunca seriam vilas, mas a verdade é que o são de pleno direito e que não vai ser fácil a algumas deixar de o ser devido a situações muito específicas que forçosamente têm de entrar em consideração, constituindo assim excepções à regra e como o povo bem diz, não há regra sem excepção.

Por outro lado, a aldeia de Martim Longo ainda não obteve a categoria de vila possivelmente por não possuir os parâmetros exigidos.

O que acontece é que as pequenas e pobres vilas sede de concelho espalhadas pelo país não querem perder essa condição mas em contrapartida os concelhos ricos e de áreas incomparavelmente inferiores não têm o mínimo de interesse em anexar esses concelhos onde não se cria riqueza, obrigando as novas autarquias a uma divisão dos seus rendimentos.

Os políticos parece que começaram a mexer nas juntas de freguesia, órgãos de uma importância relativa e que não vai influir muito n a vida dos cidadãos mas mesmo assim a divergência entre os grandes partidos e os pequenos já é notória.

Eu penso que quando os políticos forem obrigados e mexer na Administração, a modificação tem de ser muito acentuada e possivelmente com órgãos autárquicos de dimensões e funções diferentes das actuais, talvez próximo do que acontece em Espanha.

Continuo convicto que se o concelho de Alcoutim vier a ser extinto e isso não me choca,
a anexação será a Vila Real de Santo António juntamente com Castro Marim. Não fazem os três actuais concelhos parte da mesma Comarca com sede em Vila Real?

Por outro lado, a tendência fiscal é para a concentração e a informática é uma poderosa arma que poderá resolver as mais diferentes tarefas à distância (e já resolve muitas). Quando saber informática na área da utilização significar o mesmo que significou no passado o saber ler e escrever tudo muda de figura.

Caro Daniel Teixeira é bom termos opiniões diferentes e este espaço ALCOUTIM LIVRE foi criado mesmo para isso e está aberto a quem as quiser debater, como nós fazemos.

Um abraço.


JV

terça-feira, 5 de abril de 2011

O cemitério da Freguesia do Pereiro

[Cemitério da Freguesia do Pereiro. Foto JV, 2006]

Quando se erguiam igrejas, começavam a enterrar-se no interior dos templos os cristãos de mais alta condição local, social e monetária, ficando o povo no adro que rodeava o templo.

Advindo daí perigos para a saúde pública, começa a fazer-se uma campanha contra os enterros nas igrejas até que em 1835 é publicado o decreto proibindo os enterramentos em tais locais o que veio a originar a revolta popular da Maria da Fonte, manobrada por políticos que exploravam a falta de conhecimento do povo e o pouco senso de alguns párocos.

Esta situação dos enterramentos veio a pouco e pouco a ser resolvida mas entrou bem pelo século XIX.

O Regulamento de Saúde Pública de 3 de Setembro de 1868 deu-lhe a última machadada.

É bem cedo que a municipalidade alcouteneja se preocupa com a criação de cemitérios públicos, pois em sessão de 26 de Julho de 1836 é deliberado oficiar às Juntas de Paróquia do concelho para que de 16 de Agosto em diante começassem a obra dos cemitérios, visto ser o tempo mais próprio.

Além do choque psicológico que os menos preparados sentiam, reagindo negativamente perante a mudança, os cofres das Juntas não possuíam fundos suficientes para tal.

Em 1840 a Câmara volta a insistir mas os resultados positivos não aparecem.

Como aconteceu na maior parte dos casos, também aqui o cemitério não se afastou muito do lugar sagrado. Junto à igreja, tiveram que cumprir as obrigações legais, vedaram o local por muros altos, capela, casa mortuária e largo portão de acesso.

[Portão do cemitério da freguesia do pereiro. Foto JV, 2006]

O portão de ferro, virado para o adro da igreja, foi colocado a enquadrar trabalho de argamassa e alvenaria.

Uma interessante cruz de ferro forjado, tal como a da igreja, certamente de feitura local (em 1844 havia pelo menos um mestre ferreiro na aldeia) ostenta a era de 1863 que deve ser a do ano da sua fundação.

Em 1864 (1) foi apresentado na Sessão da Câmara um requerimento da Junta de Paróquia do Pereiro expondo a conveniência de ultimar a obra do cemitério e de fazer alguns reparos no telhado da sua igreja (...) que a Câmara autorize por Postura uma derrama de cinquenta mil réis para as despesas que há a fazer, o que veio a ser autorizado.

A Junta de Freguesia sente-se na necessidade de lançar uma “finta” para fazer face ao pagamento do coveiro (2) que dois anos depois apresenta um requerimento à Junta pedindo aumento de ordenado. Não dispondo esta de recursos para o efeito, convoca dois cidadãos de cada monte e aldeia para serem ouvidos acerca do ordenado que o coveiro pede. Ponderado o assunto foi aprovado por todos que se lançasse a cada fogo da freguesia a “finta” de cinquenta centavos a pagar durante o mês de Janeiro de cada ano. (3)

Em 1937 fazem-se as seguintes actualizações de preços:- os jazigos passam para cinco escudos (trabalho do coveiro), as sepulturas de adulto para vinte e a de menores para dez. Estas verbas eram divididas em partes iguais pela Junta e pelo coveiro.

Fixavam-se ao coveiro as seguintes obrigações:-
1º - Tratar do asseio do cemitério,
2º - Proibir a entrada de qualquer animal;
3º - Cumprir as ordens da Junta;
4º - Avisar a Junta de qualquer abuso que encontrasse;
5º - As sepulturas terem um metro e meio de profundidade e oitenta centímetros de largura;
6º - As ossadas vão para a carneira;
7º - No caso de ausência ou doença do coveiro as sepulturas que tiverem de se abrir são por conta do coveiro. (4)

Três quartos de século após a sua construção, (5) houve necessidade de o ampliar. O Presidente da Câmara, Prof. Trindade e Lima, submeteu à apreciação da vereação o projecto de ampliação do Eng. António Guerreiro de Brito, que foi aprovado por unanimidade, sendo solicitada a comparticipação do Estado.

Em 1967 o coveiro vencia cento e vinte escudos por mês e a compra do terreno de uma sepultura, custava mil escudos. (6)

Em 1969 construiu-se um bloco de nove catacumbas que custou oito mil, seiscentos e oitenta e cinco escudos. (7)

Actualmente o cemitério possui cerca de oitenta sepulturas e noventa catacumbas. Não faltam desde sempre os ciprestes que simbolizam a imortalidade.

No conjunto das sepulturas sobressai a da família de João Gomes Alves e que acompanhámos à sua última morada em 1976


NOTAS
(1) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 2 de Outubro de 1864
(2) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 2 de Janeiro de 1919
(3) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Junho de 1938
(4) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 29 de Março de 1937.
(5) - Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Junho de 1938
(6) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia de Pereiro de 8 de Junho de 1967
(7) - Acta da Sessão da Junta de Freguesia do Pereiro de 28 de Agosto de 1969

N.B.
Extraído de A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, ps. 123 a 126.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Coisas Alcoutenejas - A casa da roda

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 30 DE DEZEMBRO DE 1993 – MAGAZINE)

No nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio… fizemos uma leve referência a este assunto.

Voltar a abordá-lo agora, significa que possuímos mais elementos. Além dos de ordem geral obtivemos os de carácter local e são esses efectivamente os que mais nos interessam.

Expostos para os mais literatos, enjeitados para o povo, eram as designações dadas àqueles que os progenitores abandonavam, neles se incluindo gentes de todas as camadas sociais, fazendo-o contudo por razões diferentes.

Vem de longe o hábito de abandonar os recém-nascidos.

Depois de várias fases começou a generalizar-se o abandono às portas das igrejas.

Os conventos possuíam rodas, espécie de cilindro giratório, aberto num lado e colocado verticalmente, a fim de receberem ali os objectos sem haver contacto directo com o exterior.

[Roda de Expostos. Des. de JV, 1993]
Sendo propício ao anonimato que se desejava, este engenho começou, a partir do século XVI, a ser utilizado para o abandono das crianças, o que se generalizou e veio a ser reconhecido em 1783, por D. Maria I. É ela que determina que “em todas as cidades e vilas do Reino” houvesse Casa da Roda, em lugar discreto para que aqueles que exponham crianças o pudessem fazer sem risco de serem reconhecidos.

Nenhum inquérito era feito para saber o nome dos pais, como se deduz do parágrafo anterior, mas a todo o momento estes podiam reclamar os filhos. Havia sempre um registo daquilo que acompanhava o enjeitado.

Esta medida oficial da criação de Casas da Roda teve o intuito de evitar o número crescente de infanticídios, o que veio a conseguir-se, subindo, como consequência o número de expostos.

Até aos sete anos os expostos eram entregues às amas, regressando nesta altura aos hospícios, onde permaneciam até aos doze, altura em que eram colocados a quem lhes pagasse melhor salário. Até atingiram os vinte e um anos continuavam sobre a protecção do juiz dos órfãos.

O Marquês de Pombal dedicou muito interesse a este assunto, procurando caminho profissional aos expostos, criando com Pina Manique a Casa Pia de Lisboa. (1)

Veremos agora o que podemos referir a nível local.

É de 1837 a primeira notícia que encontrámos e que diz assim: as amas dos expostos devem ter, além dos mil e duzentos réis por mês, no princípio do ano, enxoval completo para o exposto. (2)

Por estas alturas as despesas com os enjeitados pertenciam às Câmaras e nelas se incluíam, entre outras, as da Casa da Roda, rodeira e ama de leite.

Em 1841, reunida a Câmara é de opinião de que “carecendo o telhado da Casa da Roda desta vila de ser revolvido pelas muitas goteiras que já tem, tal despesa seja feita por conta da rodeira, visto que nenhum aluguel paga, devendo assim concorrer com esses pequenos reparos, ficando a cargo da Câmara os maiores”. (3)

[Antiga e desaparecida farmácia, propriedade municipal e onde funcionou a Casa da Roda. Des. de JV, 1993]

Na sessão da Câmara de 11 de Fevereiro de 1842, o Presidente disse que era necessário nomear nova ama de leite e que ele, levado pela necessidade, o havia feito interinamente a favor de Ana Baptista, desta vila, que julgava ser muito capaz não só por ter muito bom leite, mas também por ser actualmente rodeira.

A Câmara transformou a nomeação em definitiva.

Meses depois conclui-se que havia falta de amas de leite visto o ordenado não ser convidativo. Só obrigadas se conseguiam.

Era injusto que só as mulheres da freguesia de Alcoutim fossem obrigadas a criar enjeitados e daqui em diante haviam de ser repartidos por todas as freguesias, segundo o número de fogos de cada uma, à razão de duzentos por exposto, competindo o primeiro que vier, à freguesia do Pereiro.

A título de curiosidade indicamos as rodeiras e amas de leite que identificámos:

1842 – Ana Baptista (rodeira e ama de leite)
1843 – Margarida Rita.
1845 – Inácia Maria, era mulher de Sebastião José de Freitas.
1845 – Pulquéria Maria Cavaca, de Santa Marta.
1849 – Sebastiana Orta, mulher de Francisco Maria Xavier d `Andrade, desta vila.
1853 – Idem.
1856 – Maria Eugénia, mulher de Joaquim Rodrigues, da vila.
1861 – Ana Ventura (deixou de o ser por padecer de moléstia)
1862 – Maria Joaquina.
1864 – Maria Joaquina

Em 1852 o Governador Civil recomenda à Câmara que lhe remeta relatório da administração dos expostos do concelho, acompanhado de mapas explicativos e dos esclarecimentos que se julguem necessários sobre o assunto e isto relativo ao ano de 1851.

O Presidente é de opinião que se insista no sentido de aumentar o ordenado das amas de criação (4). No caso de não ser autorizado, que em contrapartida se permita pagar à rodeira apenas 500 réis mensais, sendo o restante dividido pelas amas de criação. O pedido é feito nestes termos porque se considera o emprego de rodeira absolutamente desnecessário. (5)

Em 12 de Janeiro de 1858 uma pobre mulher da vila de Alcoutim deu à luz uma menina. Para ocultar a sua fragilidade, havia-a mandado expor em Sanlúcar, Reino de Hespanha, donde três dias depois havia sido recambiada e sendo apurado que era sua filha, o Administrador o Administrador lha havia mandado entregar.

Tendo três filhos de tenra idade provenientes do matrimónio e sem ter meios para os sustentar, via-se agora com mais a filha ilegítima pelo que pedia à Câmara que considerasse a filha como exposta e ela como ama de criação, o que veio a suceder, minorando os problemas desta pobre viúva.

Em 1 de Outubro de 1864, as rodas dos expostos em todos os concelhos em que haviam sido suprimidas, como era o caso de Alcoutim, são restabelecidas, havendo assim necessidade de nomear rodeira e ama de leite, o que veio a recair respectivamente em Ana Baptista (que já o era antes da supressão e Maria Joaquina, mulher de José Canelas. (6)

A situação não deveria ter durado muito tempo já que em 19 de Setembro de 1867 a edilidade debate-se com a circunstância de aparecerem expostos e não existir roda nem ama de leite.

Na circunstância a Câmara entrega o exposto a uma mulher que dele cuidasse enquanto não era remetido para Castro Marim. A Câmara resolveu que durante esses dias as mulheres que tivessem esse encargo venceriam 60 réis por dia.

Só treze anos passados obtivemos algumas referências sobre o assunto. Na noite de 12 de Janeiro de 1880 foi exposto um rapaz à porta de Manuel Madeira, desta vila. Depois de baptizado, foi conduzido ao hospício de Vila Real de Santo António no dia seguinte.
Às quatro horas da manhã de 23 de Outubro de 1883 é a vez de ser exposto à porta de José Vasco da Silva, desta vila, uma criança do sexo feminino.

O Presidente da Câmara, Manuel António Torres, em 1886, considera que dos diferentes ramos de serviço municipal, nenhum é mais espinhoso do que o dos expostos. (7)

Na sessão camarária de 12 de Abril de 1917 delibera-se pagar os salários às amas dos expostos, menores de dez anos.

De 1888 a 1898 encontrámos autos de arrematação da renda duma casa na rua do Castelo, chamada da Roda.

Ainda há poucos anos os mais velhos alcoutenejos sabiam localizar a Casa da Roda, ali mesmo ao lado da farmácia e mostravam, para justificar a sua afirmação tradicional, uma cavidade onde diziam que colocavam as crianças.

Já neste século, ainda havia quem se dedicasse ao transporte para Sanlúcar de alcoutinenses e não só, enjeitados. Dizem mesmo que no extinto mercado local se fazia negócio de tal tipo, aparecendo muitos negociantes da serra algarvia que, a coberto de outros, praticavam tal negócio. (8)

Segundo Casimiro Anica, um infatigável investigador algarvio, o Governo Ditatorial saído da Revolução de Maio de 1926, acabou de vez com as rodas. (9)

Terminaremos dizendo que a aldeia de Martim Longo também teve Casa da Roda e sabemos que em 1839 era rodeira, Joaquina Gertrudes, mulher de Baltazar Carrilho e ama de leite, Maria Joaquina Alho, mulher de Manuel Guita. Em 1842 já não existia.
Aqui fica mais esta pequena achega sobre o passado alcoutenejo.

NOTAS

(1)-Dicionário de História de Portugal, 6 vols. (dir. Joel Serrão), Livraria Figueirinhas, Porto, s/d.
(2)-Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Abril der 1837.
(3)-Acta da Sessão da C.M.A. de 21 de Janeiro de 1841.
(4)-Ama de leite aparece substituído por ama de criação.
(5)-Acta da Sessão da C.M.A. de 25 de Março de 1852.
(6)-Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Outubro de 1864.
(7)-Of. Nº 31, de 22.02.1896 (copiador) do Presidente da C.M.A. ao Presidente da Junta Geral do Distrito de Faro.
(8)-Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio…, José Varzeano, 1985, pág. 237.
(9)-“Expostos: A Roda”, in Jornal do Algarve de 16 de Março de 1989.