sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Alcoutim Urbano e Rural - Dos finais da Idade Média ao Fim do Antigo Regime



Constituído por 86 páginas no formato de 16X23 cm este trabalho é da responsabilidade das Edições Colibri em parceria com a Câmara Municipal de Alcoutim (2006).

Além da ilustração variada a preto e branco e a cores, possui uma Planta de reconstituição da provável evolução de Alcoutim urbano do Séc. XIV ao Séc. XVIII.

Um trabalho com alto sentido técnico dá-nos uma excelente perspectiva da época que retrata.

A sua autora Alexandre Gradim, licenciada em História pela Faculdade de Letras do Porto, na variante de Arqueologia, coordena o Serviço de Arqueologia da Câmara Municipal de Alcoutim desde 1996.

Teve a amabilidade de incluir no trabalho alguns dos nossos desenhos para o qual solicitou o consentimento prévio, que nunca lhe podia ser negado.

Conforme refere na Bibliografia utilizou como fonte de consulta dois dos nossos trabalhos.

Em Palavras Prévias dedicou-nos duas ou três linhas motivadas pela amizade que há anos mantemos e em que discutimos entre outras coisas, o passado alcoutenejo.

O Prefácio é da Professora Doutora Maria Ângela Beirante que também fez a apresentação da obra.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em Alcoutim: Outro interessante "desporto" à disposição dos jovens

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 14 DE JULHO DE 1973)







Escreve


Luís Cunha


[O castelo velho de Alcoutim visto do Guadiana]

À ordem natural das coisas, não podem assacar-se os vícios da injustiça e avareza na distribuição de benesses. E assim é que o completo isolamento que colocou os povos do interior do concelho de Alcoutim para lá de tudo, quase no fim do mundo, lhes deu, em contrapartida, um viver virtuoso, difícil de achar em qualquer outra parte. E só assim se entende também, que essa área de brenhas desérticas e condições sobre certos aspectos tão pouco atractivas, haja sido dotada de tão extraordinária faceta da ocultação de tesouros e encantamentos. Oferecendo-o à avidez de jovens aventureiros para a prática do desporto de caça de tesouros com detector portátil, falámos antes dos muitos que os guerrilhas deixaram enterrados pelas serras de Vaqueiros, Odeleite, possivelmente Cachopo e Ameixial.

Vejamos, de seguida, o que Alcoutim propõe para esse outro jovem, o romântico e imaginativo cavaleiro sulino que Cervantes tão genialmente pôs a errar a trote: para este, a tradição conta-nos algo de fabuloso e lendário fascínio.

Logo ali acima, mil e quinhentos metros a montante, o cerro do Castelo Velho ou “dos Mouros”, debruça-se sobre o rio; o cume não vai além de cento e cinquenta metros, mas as vertentes norte, sul e nascente, de rocha viva de xisto, descaem tão abruptamente que mal se pode caminhar por elas.


[O castelo velho de Alcoutim segundo Duarte de Armas, séc.XVI]
Terminado em bico agudo, tem lá no alto os socos quase desaparecidos dum pequeníssimo castelo que se diz mourisco mas cujas reduzidas dimensões e estranha configuração o tornam muito enigmático; castelo, simples casamata ou torre quadrada de 30 a 40 metros de lado, mal se pode imaginar empoleirada no bico daquela agulha, onde dá a sensação de ir desmoronar-se ao menor sopro.

A seu respeito, reza a lenda que uma enorme serpente de fartas sobrancelhas (encantamento de princesa moura), vem à meia-noite de S. João, estirar-se em duas azinheiras do barranco, à beira do caminho, solicitando o bravo cavaleiro que, deixando-se por ela beijar e abraçar, quebrará o encanto. A linda princesa e o fabuloso tesouro de jóias e pedrarias variadas que os subterrâneos do castelo ciosamente escondem, serão o justo prémio desse arrojo. E é grande a expectativa, porque não consta que o desencantamento se tenha dado até hoje.

Em fins do século passado ou princípios deste, apareceram em Alcoutim três árabes ou turcos, procurando o cerro da Cabeça do Cão. Como ninguém soubesse elucidá-los, desapareceram da vila, mas dias depois eram observados em pesquisas junto à foz do Vascão. Daí se foram, ao que parece sem encontrar o que procuravam.

A lenda acrescenta a este facto verídico, que os mouros que por séculos estagiaram pelas arribas do rio, por aí deixaram muitos outros tesouros enterrados, na esperança do regresso.

É mais uma “sobremesa” que Alcoutim oferece – esta agora só para jovens varonis, como é de ver.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A agricultura em Vaqueiros

[As serranias da freguesia de Vaqueiros. Foto JV, 2010]

A colonização agrícola remonta às Sesmarias.

Nos meados do século XVII, o mato cobria grande parte desta zona. Em muitos locais, uma vegetação espontânea, constituída fundamentalmente por sobreiros, azinheiras e medronheiros.

Foi o habitat de veados, javalis, lobos e raposas, para só referir os de maior porte.

Veio o período das arroteias que proporcionou a cultura cerealífera, principalmente a do trigo entre as ribeiras da Foupana e de Odeleite, o centeio e a cevada.

Não esquecer que o bispo apresentava o cura que tinha 309 alqueires de trigo e 106 de cevada. (1)
Começa a plantação de alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras.

Nos cercados, ao abrigo do pastoreio, desenvolvem-se oliveiras a partir da enxertia em zambujeiros. (2) Por vezes arrancam alguns melhores que enxertam na mão e transplantam-nos para melhores locais que protegem do gado. (3)

[Oliveira maçanilha roxa proveniente de enxerto na mão de zambujeiro. Tem 12 anos. Foto JV]

Em 1868 (Gerard Pery) ao considerar a serra algarvia como inculta, aponta duas excepções - os concelhos de Monchique e Alcoutim e a importância do cultivo do trigo e centeio no último, entre a Ribeira da Foupana e o Rio Vascão. (4)

Nesta freguesia foram arroteados retalhos de charneca por cultivadores que pagavam à Câmara um alqueire de trigo, centeio e milho, por cada quinze produzidos.

Apesar do abandono da terra ainda se podem ver pequenas parcelas cultivadas de cereal nas encostas mas só onde a espessura do solo o permite. (5)

O montado então existente, segundo parece, granjeou alguma fortuna aos proprietários que nos primeiros anos deste século, forneciam lenha e carvão para o comboio acabado de chegar a Vila Real. (6)

A nível desta actividade é conveniente dizer:- (...) os seus habitantes (de Vaqueiros), pela maior parte, lavram terra de renda, que desde a ribeira da Foupana até Odeleite, pertencem a poucas herdades, uma das quais vinculada. (7) Sugere o mesmo autor que seria muito útil que o administrador do morgadio e os donos de algumas herdades maiores, se determinassem a reparti-las em aforamentos, no que lucrariam mais e os pobres habitantes teriam campo para desenvolver a indústria de que dão provas. Não esquecer que o autor é um liberal que esteve preso na Torre de S. Julião da Barra pelas suas convicções políticas.

Além de outras, na freguesia referem-se a Herdade da Revelada, propriedade que foi dos condes do mesmo título, a da Finca Rodilha (parte) que pertenceu entre outros a Sebastião da Guarda Cabreira e a da Malhada, talvez a maior do concelho, com 289 ha, sendo 60 de alfarrobal, 4 de eucaliptal, 2 de pinhal e 223 de culturas diversas e inculto. (8)

Presentemente a freguesia atravessa uma fogosa florestação, principalmente de pinheiros e azinheiras que se espera venha a dar frutos.

A pouca agricultura que hoje se faz no concelho de Alcoutim, tem lugar nesta freguesia, principalmente a horticultura.

NOTAS
(1)-Portugal Antigo e Moderno (...)., A. S. B. de Pinho Leal
(2)-O Algarve Oriental - As vilas, o mar e o campo, Carminda Cavaco, 1976.
(3)-Corografia do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841
(4)-O Algarve Oriental - As vilas, o mar e o campo, Carminda Cavaco, 1976.
(5)-Portugal Meridional – Gentes, tradições, fauna e flora, John e Madge Measures, 1995.
(6)-“Caminhos e Estradas são suprema aspiração da gente de Vaqueiros”, Luís Cunha, in Jornal do Algarve de 10 de Fevereiro de 1973.
(7)-Corografia do Reino do Algarve, João Baptista da Silva Lopes, 1841
(8)-Estruturas Agrárias em Portugal, J Silva Martins

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Muro pintado



Não caro visitante/leitor, não se trata de uma parede pintada com ocre amarelo, que foi muito utilizado nesta região e muito menos de tinta plástica, a que veio substituir os ocres.

A coloração apresentada tem a ver com uma infestação de pequenos líquenes, que constituem para poder viver a associação permanente de duas plantas, um fungo e uma alga.

Os líquenes, que podem viver centenas de anos, têm uma acção erosiva sobre a pedra.

O muro é feito de pedra solta e relativamente bem construído pois apresenta-se direito e com poucas saliências.

A foto foi tirada por mim em 2009 num monte da freguesia de Alcoutim.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O São João no Pereiro

Dos três santos populares era sem dúvida o mais festejado na freguesia e ainda hoje não passa despercebido às gentes da aldeia que dele se lembram e festejam em moldes naturalmente diferentes daqueles que ocorreram até meados do século passado.

A tradição atribui a S. João ser um santo casamenteiro (tal como S. António), sedutor e prazenteiro, protector dos amores lícitos e ilícitos!

É festejado no dia 24 de Junho, mais propriamente na noite de 23 para vinte e quatro.

É tempo do solstício de Verão. É a noite dos amores que estimula comportamentos sensuais e sedutores. O fogo, as ervas e a água têm nessa noite virtude. O fogo fertiliza, a água purifica e renova. (1) Era por isso que as moças se juntavam, fazendo levantar um mastro junto das suas casas que era revestido de mentrastros, loendros, murtas, juncos e outras plantas de preferência aromáticas.

Para isso juntavam-se com os moços indo ao campo colhê-las o que se fazia também em relação ao alecrim, sendo este destinado à fogueira.

O mastro (poste) tinha como peça principal a charola que se situava ao cimo, na sua extremidade, com estrutura geralmente de cana, decorada com papel de cores vivas, conforme a habilidade do autor. Fios partindo do topo eram enfeitados com bandeirinhas de papel de seda de várias cores.

Estas despesas eram suportadas por um peditório feito nas vizinhanças, até porque existiam outros mastros e cada um pretendia ser o mais bonito, proporcionando melhor festa.

A indispensável fogueira aqui era sempre de alecrim, enquanto noutras zonas, à falta deste, era utilizado o rosmaninho (localmente rasmono, em vez de rosmano).

Saltar à fogueira, acreditava-se que facilitava a fertilidade. As ervas queimadas defumavam as casas purificando e esconjurando de coisas más.

As rodas, dançando e cantando igualmente não faltavam.

As sortes advinhatórias respeitantes ao amor e ao casamento proliferavam.

Chamuscavam-se três alcachofras na fogueira e espetavam-se em terra. Se uma delas estivesse espigada, no outro dia, pela manhã, significava que os amores eram correspondidos.

A sorte das favas consistia em passar nove vezes três miolos de fava pela fogueira. Pelava-se uma totalmente, a outra ficava-se pelo meio e a terceira intacta. Punham-se debaixo do travesseiro. Quando se acordava procurava-se com a mão uma e a encontrada significava o grau de fortuna do futuro companheiro, sendo a intacta a que representava o mais abastado.

Outras raparigas tentavam saber o nome do futuro marido atirando para a fogueira uma pequena moeda. No outro dia quando aparecesse um pobre pedindo, davam-lha perguntando ao mesmo tempo como se chama. Era esse o nome daquele que iria casar consigo.

[Parte cimeira de mastro nos dias de hoje. Foto JV, 2009]
Antes do sol nascer ia-se buscar água a sete poços com que se levavam e bebiam pois era água com virtude.

Outros tinham mais fé em pôr alecrim de molho, apanhando a cacimba da noite e lavando-se pela manhã com essa água que consideravam purificante.

É do pouco que ainda se pratica pelas pessoas mais idosas.

E a água continua metida nestas sortes e adivinhações. Passava-se uma bacia com água nove vezes pela fogueira e derretia-se para dentro dela uma vela procurando-se depois interpretar a figura formada relacionada com a actividade do futuro namorado.

Com o mesmo ritual outras utilizavam a clara de um ovo.

Havia quem procurasse reflectir a sua imagem numa bacia com água.

Os moços não deixavam de ir ao banho, em conjunto, na manhã de S. João, ora na Ribeira do Vascão, ora na da Foupana.

Apesar de tudo continua-se a festejar o S. João na aldeia do Pereiro mas em moldes actualizados que pouco têm a ver, como é natural, com o passado.

NOTA
(1)–Tempos de Solstícios, Aurélio Lopes, Edição de O Mirante, 1998.


Pequena nota

Extraído do nosso trabalho, "A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) – Do passado ao presente", Edição da J.F. do Pereiro, 2007, p 199 a 202.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Galachos, Galaxos ou ainda Galaxes!



Este pequeno monte da freguesia de Vaqueiros e próximo da Ribeira de Odeleite sempre nos tem levantado dúvidas quanto à maneira de escrever e ainda mais quanto à explicação do seu topónimo, que ao conhecer-se ajudaria certamente a optar pela grafia.

Em 1758, nas Memórias Paroquiais, o pároco da freguesia que respondeu ao questionário escreveu Galachos, enquanto Silva Lopes na sua Corografia do Algarve (1841) grafou Galaxos.

A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 21 indica Galachos. O site da Câmara Municipal de Alcoutim opta por Galaxos, (1) enquanto o da Junta de Freguesia de Vaqueiros apresenta com “X” no mapa da freguesia e com “CH” no texto! (2)

No nosso trabalho editado em 1985, (3) escrevemos Galachos.

José Pedro Machado escreveu:- top.Alcoutim - Referência a pessoas do local genericamente conhecidas pelo apel. ou pela alc. de Galacho? De galo? Nunca li ou ouvi no concelho tal nome, a não ser em relação à pequena povoação ou à que lhe fica próximo e ainda mais pequena e daí a adopção do diminutivo. Se é derivado de galo, penso que deve ser escrito com ch.

No Novo Dicionário Corográfico (...) que habitualmente consultamos, só encontrámos este Galachos, também com “ch” pelo que será único no país.

No Google Earth encontrámos Galaxes para aquilo que designamos por Galachos e Galachos para o que conhecemos por Galachinhos.

Em recentíssimo folheto propagandístico da responsabilidade da Câmara Municipal (4)
no mapa do concelho também assim aparece designado.

Como se vê, existe bastante confusão sobre o assunto.

Há uma importante família originária de Espanha, segundo penso, que se espalhou por diferentes partes do Mundo, como Portugal, Brasil e Argentina, pelo menos. No Ribatejo estiveram em Constância, Santarém, onde ainda conheci uma senhora, e Vila Franca de Xira mas não me consta que tivessem passado por terras de Alcoutim.

Tanto os Galachos como os Galachinhos situam-se muito próximo da Ribeira de Odeleite, em cujas margens o homem podia tirar o seu sustento, já que são terrenos produtivos ao contrário das serranias próximas.

[Um aspecto da povoação. Foto JV, 2010]

O monte dos Galachos situa-se a cerca de 34 km da sede do concelho e a 12 de Vaqueiros, sede da freguesia. Os Galachinhos há uns anos desabitados distam 700 metros dos Galachos, cada um na sua margem da ribeira.

As Memórias Paroquiais, que só referem o maior, atribuem-lhe 4 vizinhos, o que estava equiparado à grande maioria dos montes da freguesia, enquanto Silva Lopes em 1839 lhe atribui cinco fogos.

Até 1985 o isolamento de todos os “montes” da freguesia de Vaqueiros era praticamente total. As deslocações eram feitas a pé ou em animais de carga e sela.

À vila ia-se só para as obrigações fiscais, saindo de madrugada e chegando alta noite! Estes povos não tinham direitos, só tinham obrigações.

A escola mais próxima, a da Várzea, que presumo ter sido construída entre meados da década de 60 e da seguinte, do século passado não podia receber as crianças dos Galachos, pois no Inverno a ribeira não dava passagem e por isso frequentavam a escola do Zambujal.

Só em 1985 as coisas começam a mudar e é feita a terraplanagem e obras de arte na estrada municipal 508, no lanço da ribeira de Odeleite (Galachos) à estrada municipal 505. O alcatroamento da estrada e dos pequenos ramais foi adjudicado em Dezembro de 1991, sendo a ponte posta a concurso no ano seguinte (5) e ficando concluída em Julho de 1993. (6). Atravessamo-la. É uma ponte moderna, bem concebida, larga, com três elegantes pilares.

No monte foi inaugurado no dia 19 de Setembro de 1985 um telefone público quando ainda não beneficiava de energia eléctrica. (7)

Em 1992 foi aberto um furo para distribuição de água à população através de fontanários (8) e três anos depois viu as ruas pavimentadas. (9)

[Parque de merendas. Foto JV, 2010]

Em 2005 junto da estrada foi construído um parque de merendas à sombra de algumas árvores para o efeito plantadas. (10)

Tanto no censo populacional de 1991 como no de 2001 não encontrámos referência ao seu número de habitantes, pelo que, sendo 10 ou inferior, foram contabilizados nos isolados, contudo, em Setembro de 1999 afirma-se que tem seis fogos e dez habitantes. (11)

Perto da povoação, num pequeno cerro localiza-se um povoado com vestígios de ocupação islâmica. Recolheram-se fragmentos de telhas, cerâmica comum, bordos de pequenas panelas e vária cerâmica vidrada e de cor melada. (12)

Como se verifica, as terras férteis junto à ribeira não passaram despercebidas àquele povo.

[Ponte dos Galachos sobre a Ribeira de Odeleite. Foto JV, 2010]

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Notas

(1)– http://www.cm-alcoutim.pt
(2)— http://www.jf-vaqueiros.pt
(3)– Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), p. 393
(4)– Alcoutim O Algarve Natural
(5)- Boletim Municipal nº 10, de Abril de 1992
(6)- Jornal do Algarve de 16 de Setembro de 1993.
(7)- Jornal do Algarve de 26 de Setembro de 1985.
(8)- Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992.
(9)- Alcoutim - Revista da C.M.A., nº 1 de Maio/Junho de 1995.
(10)– Alcoutim, Revista Municipal nº 12, de Dezembro de 2005, p 15.
(11)– http://www.in-loco.pt
(12)– “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, p. 145

sábado, 25 de dezembro de 2010

Doçaria de Natal




Filhós da massa dos coscorões e filhós de rosa são dois dos doces tradicionais que se confeccionam em Portugal principalmente na época natalícia.

Estão aqui representadas duas regiões, o Bairro Ribatejano e a Serra Algarvia, pelo menos foi nestas regiões que aprendi a fazê-los, primeiro os “fritos da massa dos coscorões” que as minhas raízes trouxeram do Alto-Alentejo, depois as filhós de rosa que conheci na Serra Algarvia, mais propriamente no concelho de Alcoutim.

Quanto aos primeiros, a massa é preparada com farinha e gemas de ovos a que se junta água, azeite (quente), aguardente, sumo de laranja e uma pitada de sal. Depois de bem amassada fica algum tempo a repousar.

Vai-se cortando a massa aos pedaços e estende-se muito bem com um rolo. A seguir trabalha a recortilha conforme o gosto e imaginação do executor.

É a altura de ter o óleo quente para se irem fritando e ao mesmo tempo polvilhando de açúcar e canela segundo o paladar.

O polme para as filhós de rosa (rosa vem do aspecto que apresentam) é feito com farinha, ovos inteiros, água e uma pitada de sal. É de confecção rápida através de uma pequena batedeira.

É necessário a existência de uma forma de ferro, pelo menos só as conheço desse material, mas que já não eram fáceis de adquirir há quarenta anos, altura em que adquiri a minha. Eram peças só cravadas e daí alguma dificuldade em as executar. Tem a forma de um cilindro sem bases e o seu interior é preenchido por dois rectângulos que se cruzam simetricamente e se ajustam às paredes. Do ponto de encontro dos rectângulos sai um pequeno varão que tem argola na ponta.

Esta peça depois de servir não se deve lavar e ser apenas enrolada num pequeno pano, conservando-se assim untada com o óleo onde serviu.

A forma depois de quente no óleo é molhada no polme, sem que este a cubra totalmente fazendo com que uma pequena camada se agarre às suas paredes. Depois é colocá-la no óleo quente e com pequenos movimentos provocar que a massa se solte da forma e se frite.

Tem que haver aqui a noção de equilíbrio, pois a forma não pode estar demasiado quente, nem fria, para que tudo possa resultar. Se a massa se começa a pegar à forma, é uma complicação e o trabalho torna-se difícil de executar mas quem tem experiência resolve sempre os problemas caso surjam.

Depois de fritas põe-se mel a “arfelar”, isto é, junta-se-lhe um pouco de água e leva-se ao lume. Quando começa a ferver vão-se passando as filhós rapidamente e colocando-as depois num alguidar.

Os alguidares vidrados têm quarenta anos e foram comprados por mim na Praça da República em Alcoutim a um vendedor do Redondo.

O arroz-doce não o sei fazer, mas vai ser feito e bem com uma receita de minha avó paterna, oriunda da região de Coimbra. Nunca comi melhor!

Existe mais de uma dezena de licores à escolha (ginja, alfarroba, tangerina, poejo, ameixa, limão, folha da figueira, romã, erva-luísa, hortelã, morango, funcho, etc.), igualmente da minha confecção para acompanhar os doces.

É assim, quanto a doçaria que um casal passa esta época, numa junção de usos e costumes, respeitando as suas origens, neste caso, Alcoutim e Santarém.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS



SÃO OS VOTOS PARA TODOS OS VISITANTES/LEITORES DO



FEITO POR PESSOAS QUE EFECTIVAMENTE GOSTAM DE ALCOUTIM E DO SEU CONCELHO E APENAS A TROCO DESSA CIRCUNSTÂNCIA.

JV

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Apesar do frio, hoje vou abanhar-me à Ribeira!






Escreve


Amílcar Felício




[Ribeira de Cadavais. Pego das Portas. Foto JV]

Nos nossos dias em Alcoutim, toda a gente tem água corrente em casa e boas casas de banho naturalmente. Mas nem sempre foi assim. Por contraditório que pareça com tanta água no rio e na ribeira, a verdade é que em nossas casas até à década de sessenta aquele líquido sempre foi um bem escasso. Na realidade eram os aguadeiros como o Ti Zé Brandão ou o Ti Xico Barão que pelas manhãzinhas iam resolvendo o problema de cada família. Ou então eram as próprias mulheres e moçoilas que pela tardinha em rancho e amena cavaqueira, lá iam cantando ou falando dos seus namoricos com o cântaro ou a enfusa de barro à cabeça ou ao quadril, buscar o precioso líquido ao Pocinho ou ao Poço das Figueiras.

Vasculho esses tempos no baú das minhas memórias e ainda me lembro de ver Alcoutim transformado na década de sessenta num autêntico buraco, por causa do saneamento básico. Lembro ainda a provocação que alguns faziam insistentemente ao amigo António do Brejo naquela época: “Oh amigo António, por que é que o amigo não vai também abrir umas valas para ganhar uns tostões” (?), perguntavam-lhe os “conselheiros”, ao que ele respondia sempre ao seu melhor estilo e no mesmo tom cínico e amigável dos provocadores: mas óh amigo (!) se eu não perdi ali nada, para que é que eu vou para ali a fazer figura de parvo de rabo p´ró ar a abrir buracos?

Os banhos tiveram sempre um papel importante na vida dos povos, com altos e baixos no Ocidente é certo, mas sem oscilações de maior no Oriente. Basta referir o conhecido banho turco herdado posteriormente pelo árabes. Assim, desde purificador da alma há 5000 anos no Egipto chegando a tomar-se 2 e 3 banhos por dia, a promotor de vida saudável e de educação da juventude há 3000 anos na antiga Grécia com a construção de banhos públicos, o banho atingiria o seu apogeu com os romanos e as suas famosas termas, que influenciados pela cultura grega, transformariam o banho num ritual público de convívio, de negócio e de luxúria, verdadeiros resorts dos nossos dias com massagens, sauna, restaurantes, jardins etc.

Contudo, os banhos públicos entrariam em franco declínio depois da queda do Império Romano e tornar-se-iam até fonte de pecado na idade média tendo sido proibidos pela Igreja, com o argumento “cientifico” de que a água para lá de amolecer a alma, dilatava os poros da pele por aonde entravam as doenças. Posteriormente com o iluminismo nos séculos XVII e XVIII deu-se um certo revigoramento do hábito do banho, considerando-se inclusive que a falta de higiene teria sido uma das razões da propagação de diversas pestes na idade média. Os banhos popularizar-se-iam posteriormente no Ocidente já quase nos meados do século XX, instituindo-se o hábito de se tomar banho aos sábados. Nos nossos dias contudo, ganhou foros de autêntico Senhor estando muito ligado à higiene diária, mas o que é facto é de que começa a ser posto em causa novamente.

Mas nos anos cinquenta e sessenta os alcoutenejos não íam para a Ribeira apenas para nadar. A gente ia abanhar-se na Ribeira. Eu sempre entendi este conceito alcoutenejo do abanhar-se não como uma fórmula do actual 2x1 (dois em um) tão publicitado por muitos produtos dos nossos dias, mas seguramente para aí de uns 4x1 (quatro em um), pois para além do exercício físico, da aprendizagem da natação e do convívio social, servia muitas vezes também para a higiene corporal. Transformávamos aquela Ribeira numa autêntica terma romana! Mas como os tempos não param, a velha Ribeira actualmente caíu em desuso e agora triste, suja e abandonada, foi destronada por um velho e enrugado Pego travestido de praia, a chamada Praia do Pego Fundo, embora para mim sempre que a vejo, continue a ser sempre a minha Rainha.

[Eucalipto da boca da Ribeira. Foto JV, 2010] Puxo a memória atrás e recordo o ritual das 5 horas da tarde por altura das marés vivas. Eram as mães, as tias, as primas, as irmãs que qual banho romano, ali se juntavam em magote por baixo das passadeiras, pois até aos 10 ou 12 anos era por ali a Escola de Natação da miudagem de Alcoutim. Naturalmente que as Senhoras e as Meninas também aproveitavam o momento para um pouco de exercício e uma lavagem mais a preceito, dentro das suas combinações que eram os fatos de banho femininos da época e que depois de molhadas e coladas aos corpos, mais pareciam belas estátuas ambulantes que muitas vezes despertavam os nossos olhares marotos e adolescentes.

Havia sempre um “professor” mais velho naturalmente, que no meu caso foi o meu compadre António da Teresa, ou um familiar mais responsável que com as mãos no nosso peito nos ía dando as aulas de natação e assim ensinando a flutuar: vá bate os pés com força... mexe os braços agora... agora bate os pés e os braços ao mesmo tempo... até que uma vez por outra nos largavam até sentirmos que podíamos flutuar sozinhos. Já numa fase mais adiantada do “curso” ajudavam-nos a manter-nos à tona apenas com a mão por baixo do queixo, o que dava uma autonomia quase completa ao aprendiz de nadador e a autoconfiança necessária. Chegávamos assim ao final do “curso”. Havia também quem utilizasse o método da corda e que se punha na margem da Ribeira sempre atento com a corda na mão, para o caso de acontecer alguma percalço e assim puxar rapidamente o aprendiz de nadador.

Depois já com alguma experiência, passava-se então para o Esteiro da Tia Libânia junto ao eucalipto até aos 14 ou 15 anos e só depois nos era atribuído o salvo conduto para os banhos no Guadiana, pois o Guadiana impunha respeito a todos, quer pela sua imensidão relativamente à Ribeira e à profundidade que nós nem sabíamos aonde acabava, quer possivelmente também pela frequência das mortes por afogamento que aconteciam na altura. Assim, só nos atrevíamos a enfrentá-lo cara a cara já depois de uma certa tarimba na Ribeira. Para se fazer uma ideia da respeitabilidade que nos merecia o Guadiana, basta referir que até aos meus 13 ou 14 anos, para mim Alcoutim acabava precisamente aonde começava a Praça. A partir dali era zona proibida tipo Vietname, aonde eu religiosamente nunca punha os pés.

[Ribeira de Cadavais. Antigo Pego Fundo. Foto JV, 1989]

Mas era na ribeira ou no rio que muitos alcoutenejos aproveitavam para dar para além de umas braçadas, uma lavagem mais a preceito. De resto era mais um tirar da ramela no dia-a-dia. Ainda me lembro em miúdo de ouvir a minha vizinha Gertrudes, esposa do Ti Zé Emídio comentando entre as mulheres: “ai mulheres, quando tomo banho os primeiros 15 dias sinto-me tão bem”! Em minha casa era a minha mãe a generala quem determinava a altura dos banhos. Dizia ela para o meu avô quando era chegado o momento: “vá lá Ti António Joaquim que está na altura de pensar em tomar banho”! “Mas tu endoideceste mulher (!), respondia ele sempre azedo, ainda do último eu não me enxuguei”! Certa manhã o meu amigo Zé “Patarroxa” filho do Lázaro e da Ana, soube que o professor Amaral tinha ido de urgência a Faro sem ter tido oportunidade de informar o pessoal a tempo, apanhando-nos assim desprevenidos. Esgalgado, corre aflito a minha casa gritando pela minha mãe: “Dª Belmiiiiira (!), Dª Belmiiiiira (!), diga ao seu Amílcar para não lavar a cara, que hoje não há escola”! Era assim naqueles tempos. Mas parece que os alcoutenejos não estavam errados de todo, sabem?

Efectivamente, existe actualmente um forte movimento nos Estados Unidos contra o banho diário, dizendo-se que até fará mal à saúde e defendendo os seus activistas de que só tomam banho quando lhes apetece. Vocês querem lá ver que os alcoutenejos dos anos cinquenta e sessenta é que tinham razão?

VOTOS DE BOAS FESTAS PARA TODOS OS ALCOUTENEJOS E LEITORES DO ALCOUTIM LIVRE E UM BOM BANHO DE CHAMPANHE PARA 2011 PARA AQUECERMOS A ALMA!!! VALHA-NOS AO MENOS ISSO!!!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Blusa espartilhada



Blusa espartilhada ou será casaco, os meus conhecimentos na área são diminutos, pelo que não me permitem efectuar uma identificação clara.

Claro é que a peça de vestuário feminina foi usada por uma alcouteneja nascida em 1842 e se a tivesse começado a usar com quarenta anos concluiríamos que teria cerca de 130 de existência.

O preto e o castanho são as cores utilizadas e dão-nos a ideia de ser uma peça de uso cerimonial.

Chamam-nos a atenção as várias rendas usadas tal como o farto uso dos colchetes que proporcionavam o ajustamento.

São peças como esta que podem ajudar os interessados na matéria a reproduzir com verdade os trajes nos agrupamentos folclóricos, o que nem sempre acontece, pelo contrário.

Isto para só falar no vestuário, pois a nível de danças talvez as coisas sejam mais complicadas.

Um agrupamento folclórico não é o mesmo que um rancho carnavalesco, onde tudo é permitido e não são as palmas que fazem um grupo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Menina o "Pássaro Arreliador Sabichão" e o que mais adiante se contará...



Esta interessante história para crianças foi escrita pela alcouteneja Marina Ramos Themudo, ilustrada e montada por Clélia do Carmo Cruz Bastos, ambas Professoras na situação de aposentadas.

Com uma escrita de alto sentido didáctico é ilustrada por sete magníficos quadros desenhados com arte e sensibilidade.

Possui, e se isto já não fosse pouco, a circunstância de ter sido escrita especialmente para a minha neta, que é convidada para ser co-autora, pois ficou-lhe reservado o trabalho de pintura, que por enquanto ainda não é possível executar pela falta de firmeza na mão devido à sua tenra idade.

Na estória com base em diálogos entre a Menina e o “Pássaro Arreliador Sabichão” não deixam de entrar os avós, procurando-se transmitir algo real dos três figurantes, de tal maneira que a Menina, quando a avó lhe leu a estória e chegou ao quadro que representa o avô com a neta ao colo num cenário familiar, disse logo:- Olha, pareço eu ao colo do meu avô!



As vinte e quatro páginas que compõem o livro, estão ligadas em fole, sendo só a última fixa.

A estória tem por base O MUNDO MÁGICO DOS AFECTOS numa tentativa de ajudar a Menina a tornar-se uma grande e admirável pessoa.

Apesar dos seus quatro anos, a Maria conhece bem o título da estória e até grande parte do seu conteúdo, além de saber o nome da autora, como à mesma já o demonstrou em conversa telefónica.

Em nome da minha neta, no da avó e no meu só consigo dizer, BEM-HAJA, minha Querida Amiga.

JV

domingo, 19 de dezembro de 2010

Por ser o dia que é - Um contarelo de Natal

Dedicatória

Aos meus netos Clara, Ana, Nuno e João

Dedico este contarelo


Natal de 2001








Escreve

José Temudo






A noite caíra célere sobre a cidade-terrivelmente fria, escura, profunda, densamente pontilhada de brilhantes estrelas.

O comércio fechara e as pessoas recolheram pressurosas a casa. Nas ruas, não ficou vivalma.

Seguindo uma tradição multissecular, as famílias iam celebrar, uma vez mais, no aconchego dos lares, em paz e com alegria, o nascimento de Jesus.

Debaixo da ponte que une as duas partes da velha cidade, num dos arcos assente na margem direita do rio, um mendigo, sentado no chão, com os braços em volta das pernas flectidas, aquecia-se ao calor de uma fogueira. A luz ténue e vacilante das chamas não permitia ver se o homem era novo ou velho, magro ou gordo, alto ou baixo. Permitia ver, isso sim, que estava andrajosamente vestido; que a calvície o despojara de boa parte do cabelo; e que a barba, negra e volumosa, lhe encobria o rosto de que só se salvavam os olhos brilhantes e o nariz batatudo. O homem, quieto e de olhos fitos nas chamas da fogueira, recordava o que lhe tinha acontecido umas horas antes.

Nas traseiras de um edifício de apartamentos, ele procurava, num contentor de lixo, colocado junto da cozinha de um restaurante, restos de comida para matar a fome. Uma mulher que estava à porta da cozinha, interpelou-o, em tom firme, com alguma aspereza:

- “Que está você a procurar aí? Feche já o contentor. “Depois, olhando-o de alto a baixo, disse-lhe:

“Espere aí. Eu venho já.” E entrou na cozinha.

Enquanto esperava, o mendigo ouviu a seguinte conversa:

- “Está lá fora um pobre vasculhando no contentor. Vou dar-lhe uns restos do almoço.”

-“Não, Maria, não lhe vais dar nada. Não quero ver mendigos à volta do restaurante. Se há coisas de que os clientes não gostam de ver enquanto comem é a cara de famintos de olhos postos nas garfadas de comida que levam à boca. Já te esqueceste disso? Corre com ele”.



-“Eu não esqueci, Zé. Mas é por ser o dia que é. Parte-se-me o coração ver o desgraçado a vasculhar no lixo, em busca sabe-se lá do quê, podendo eu dar-lhe uns restos limpos de comida que sobraram do almoço.”

O homem ficou calado por um breve momento, como que a pensar. Depois disse:

-“Bem. Dá-lhe lá os restos. Um dia não são dias. Mas, deixa-lhe ficar bem claro que não quero voltar a vê-lo por aqui a rondar o restaurante”,

Passados alguns minutos, a mulher voltou com um saco na mão.

-“Pegue”, disse ela entregando-lhe o saco. “Dá-lhe para comer agora e para logo à noite, à ...” – Ela ia dizer “à ceia”, mas o pudor travou-lhe a língua. E quando ele se preparava para lhe agradecer, a mulher despediu-o, já com um toque de brandura na voz:

-“Pronto, pronto; agora vá-se embora... por favor.”

Foi o que ele fez, sem hesitar. Tão depressa quanto lhe permitiam as enfraquecidas pernas entorpecidas pelo frio intenso que o penetrava, sem dó nem piedade, desceu a rua até ao rio e abrigou-se num dos arcos da ponte, exactamente aquele onde se encontrava agora. Com dificuldade, porque os dedos estavam engaranhados, desfez um nó que a mulher dera nas asas do saco. Dentro, desafiando a sua fome nunca antes saciada, estavam três pequenos tabuleiros cheios de comida boa, limpa, cheirosa. Havia, ainda, meia garrafa de vinho, dois bijous e, embrulhado num guardanapo de papel, uma rabanada. Em tudo aquilo, na esmola em si mesma e no modo como lhe tinha sido dada, havia um toque de respeito a que não estava habituado. Com os olhos rasos de lágrimas, pensando na mulher do restaurante, murmurou:

-“Que as mãos nunca lhe doam!”

Mas a fome não se compadece com emoções, nem o mendigo tem horas ou maneiras para comer. Servindo-se das mãos, atirou-se à comida com sofreguidão e só parou quando o estômago ficou cheio, a estoirar. Nos tabuleiros, ainda ficara comida bastante para mais tarde, quando a fome voltasse. E ela voltaria, disso tinha ele a certeza.

Era isto que ele recordava, absorto, com os olhos fitos nas chamas da fogueira, quando a sua atenção foi desviada para um ponto, para além da zona iluminada pelo lume, onde lhe pareceu ouvir o esmagamento de ervas secas, como se alguém se estivesse arrastando, muito vagarosamente, na sua direcção. E era exactamente isso que estava a acontecer. Primeiro, ao nível do chão, surgiram dois pequeninos farolins, brilhando intensamente. Depois, centímetro após centímetro, como se estivesse a nascer da noite, foi emergindo na claridade, um pequeno cão. O rabo caído entre as patas, a barriga a roçar o chão, as orelhas, atentas, bem espetadas no ar, os olhos fitos no homem e a lentidão com que se deslocava para junto da fogueira, eram sinais bem visíveis do medo que o animal sentia. E parou completamente, quando o mendigo, com voz colérica, lhe gritou, com o braço estendido, na direcção do escuro:

-“Embora daqui! Já!”



O cão parou, é certo, mas não arredou pata. Era sempre o medo que tinha de ser maltratado. Mas maiores ainda, eram o frio e a fome que o atormentavam e que mal podia suportar. Por isso, gania, humilde e submisso, como a querer dizer: “bate-me, mas não me escorraces, que morro de frio!” O mendigo não se compadeceu com a situação do desgraçado animal, que era, bem vistas as coisas, em tudo semelhante à sua. De má catadura, pegou num tição grosso, pesado e a arder vivamente e preparava-se, já de braço no ar, para o arremeter contra o indefeso animal, quando irrompeu pela mente, como um eco reboando pelas quebradas duma montanha, a voz da mulher do restaurante, tentando demover a intransigência do marido: “... é por ser o dia que é. Parte-se-me o coração ver o desgraçado...” A lembrança destas palavras teve o condão de impedir que o gesto maldoso fosse levado até ao fim. Nos olhos do mendigo, iluminados pelo lume, as chamas da ira apagaram-se rapidamente e o tição foi lançado para a fogueira. O cão percebeu a mudança: sossegou e, de orelhas pendidas, deixou de ganir. A partir deste momento, a situação era outra, bem diferente. Mendigo e cão continuaram a olhar um para o outro. O cão, aguardando um gesto amistoso do mendigo que lhe permitisse aproximar-se dele. O mendigo, observando o cão, tentando perceber a sua presença ali. Via bem que era um animal de estimação, de raça apurada. Pequeno, de pernas curtas e com pés de cómoda. O pelo era comprido, a cor alternando o branco com manchas castanhas, de várias tonalidades. A cauda, larga e comprida, fazia lembrar um espanador. O focinho era curto, os olhos grandes, redondos. Era um animal muito bonito, a despeito de alguma sujidade que se lhe notava no pelo comprido e ondulado. O mendigo observava e ia falando com os seus botões: “é evidente que, ao contrário de mim, que andei sempre aos trambolhões, que da vida só recebi miséria e maus tratos, este bicho já conheceu melhores dias. Com toda a probabilidade, nasceu num canil de luxo e, ainda por desmamar, foi vendido a alguém necessitado de companhia, talvez um reformado que vivia sozinho. Foi criado sem que nada lhe faltasse, nem comida, nem conforto, nem carinho.” Depois, falando mesmo para o cão, perguntou:

-“Que te terá acontecido para estares agora aqui? Deixa-me adivinhar: apanhaste a porta da casa aberta e resolveste dar uma volta para ver como era o mundo. Satisfeita a curiosidade, quiseste voltar a casa mas não atinaste com o caminho. Foi isso?

Esta explicação não lhe agradou, pois os cães não costumam perder-se: por isso, avançou com esta outra:

-“Ou então, morreu a pessoa com quem vivias; vieram os herdeiros, levaram a mobília e tudo o que encontraram com valor e a ti, que já não fazias falta a ninguém, puseram-te na rua.”

Esta segunda hipótese agradou-lhe mais que a primeira.

-“Foi isso”, disse, “levaram o que prestava e a ti, pumba, pontapé no cu e rua, que é casa de cães.”

Entretanto, a piedade fora abrindo caminho e apoderara-se já do coração do mendigo que agora resolveu partilhar com o cão a comida que ainda tinha. Tirou do saco um dos dois tabuleiros que restavam. Acicatado pelo cheiro da comida que lhe chegou às ventas, o cão, num ápice, postou-se junto do mendigo. Com o rabo a dar-a-dar, as orelhas espetadas, não tirava os olhos, redondos e bugalhudos, a rebrilhar de gula, do tabuleiro.

-“Isto é para ti, come!” disse-lhe o mendigo, despejando no chão uma boa parte da comida. Como seria de esperar, o cão não se fez rogado. Engoliu tudo, num repente. E voltou a ficar de olhos fitos no tabuleiro, como que a pedir a segunda dose.

E o mendigo, agora com relutância, fez-lhe a vontade.

-“Bem,” foi-lhe dizendo, enquanto deitava no chão um pouco mais de comida:

-“Para o tamanho que tens, parece-me que comes de mais.”

Depois, metendo o tabuleiro no saco, disse:
-“Agora, não comes mais. O que resta, fica para amanhã.”

Levantou-se e aventurou-se no escuro. O cão seguiu-o. Voltaram uns minutos depois. O mendigo sobraçava um pequeno molho de ramos secos com que avivou o lume. E voltaram aos lugares que antes ocupavam à volta da fogueira. O silêncio só era quebrado pelo crepitar do fogo consumindo os ramos secos.

As fogueiras sempre tiveram o condão de desatar a língua aos homens. E o mendigo não fugia à regra. Também ele sentiu a necessidade de falar. Há já quanto tempo as pessoas não falavam com ele? Ralhos e palavras duras de expulsão, ouvia muitas vezes, mas conversa, uma verdadeira conversa de agora dizes tu, agora digo eu, já nem se lembrava de ter tido alguma vez. É certo que o cão não falava, mas ouvia e alguma coisa havia de entender. Disso, não tinha dúvidas. E uma vez que acreditava nisso, falou assim:

-“Sendo certo que vais ficar comigo, gostaria de saber o teu nome, como eras chamado pela pessoas com quem vivias antes. Se eu puder sabê-lo, continuarei a utilizá-lo e tu serás, presume, mais feliz”.

O cão ao ouvi-lo falar mais brandamente agitou a cauda. E o mendigo continuou:

-“Não precisas de dizer que não sabes falar. Eu sei isso muito bem. Mas sei, também, que há muitas maneiras de matar pulgas. Oh se sei!” E riu-se, a bom rir, da graçola. Depois, retomou o fio à meada:

-“Vai ser assim: eu vou dizer nomes, nomes que as pessoas costumam dar aos cães de estimação, assim como tu. Tenho a certeza de que se tiver a sorte de dizer o teu, tu não deixarás de me dar sinal de que acertei. Entendido?”

O cão, de olhos fitos nele e de orelhas espetadas no ar, parecia estar a postos.

-“Então, vamos a isto”, disse o mendigo, que logo deu início à sondagem: dizia um nome e ficava, por um breve momento, observando o animal; depois, outro nome e nova observação. E assim foi dizendo todos os nomes que lhe vieram à cabeça: “Bolinhas”, “Lulu”, “Fly”, “Farçola”, “Fifi”, “Fredy”, “Jordy”, e outros mais. Mas o cão manteve-se impassível, nunca dando sinal de reconhecimento de qualquer deles. E o mendigo desistiu, conformado com o insucesso do seu expediente.

-“Bem”, disse para o cão, “perdeste o nome, mas eu vou dar-te um outro; verás que não perdes com a troca”.

Durante uns bons momentos, ficou calado, pensativo, buscando um nome adequado. Não tendo encontrado nenhum que lhe agradasse, tentou consolar o cão:

-“Olha”, disse; “bem vistas as coisas eu também não tenho nome. Tal como tu, também já tive um. Mas há já tanto tempo que ninguém o usa, que eu não viraria a cabeça se alguém me chamasse por ele.”

Parou de falar enquanto deitava mais uns ramos secos na fogueira. Reavivado o lume, retomou a conversa:

-“Sabes como as pessoas me chamam? Queres mesmo saber? Pois eu digo-te. Chamam-me “Eh, tu aí”. É assim que as pessoas me chamam, os polícias e os outros. À força de assim ser chamado, habituei-me e agora, quando ouço “eh tu aí”, já sei que estão a falar comigo. Como vês, o nome não faz falta”.

O mendigo dizia isto, como se assim quisesse consolar o cão. Mas, bem no seu íntimo, sabia que não era assim, que o nome faz parte da nossa identidade, por vezes, da nossa própria personalidade.

E era por isso que continuava a olhar para o cão, como se buscasse inspiração para o baptizar. E foi o que aconteceu. Ao olhar para a cauda do animal, longa, larga, franjada, a ideia surgiu-lhe, iluminando-lhe o olhar, como um relâmpago no céu.

-“Já sei”, disse, a rir-se de contente, “vou chamar-te “Franjinhas”.

O cão ao ouvir “Franjinhas”, reagiu de imediato. Terá sentido que voltava aos bons tempos de conforto, da fartura e do carinho? Em menos tempo do que o diabo leva a esfregar um olho, o feliz animal estava com as patas dianteiras no peito do mendigo, procurando e conseguindo lamber-lhe o rosto, num frenesim que quase parecia loucura. O mendigo, surpreendido ao princípio, depressa compreendeu que, ao baptizá-lo, mais não tinha feito do que acertar em cheio, no verdadeiro nome do cão. Comovido, ele também, deixava-se lamber, enquanto, carinhosamente, passava as mãos pelo pêlo espesso e ondulado do animal. A pouco e pouco, foi-se esmorecendo esta exuberante manifestação de mútua alegria. Mas o cão já não voltou para o lugar que antes ocupava do outro lado da fogueira. Confiadamente, enroscou-se entre as pernas estendidas do mendigo que não se cansava de dizer e de repetir:

-“Franjinhas, heim? Quem havia de dizer!

Olhando, agora, para o Franjinhas, sentia que a solidão, a tristeza, a angústia e o medo que sempre o tinham acompanhado ao longo da sua desditosa vida, cediam o lugar na sua amargurada alma a uma réstia de paz, de alegria e de esperança. O Franjinhas seria o companheiro e o amigo leal e dedicado que o acompanharia fosse para onde fosse, que nunca o abandonaria acontecesse o que acontecesse. E assim pensando, adormeceu tranquilamente, em paz com o mundo e consigo mesmo.



Vindas do alto da cidade, quebrando o silêncio absoluto daquela noite desumanamente fria, soaram esbatidas e arrastadas, as doze badaladas da meia noite.

Dos quatro cantos da cidade, pequenos grupos de pessoas apressadas confluíam para a Capela do Asilo, a fim de participarem na tradicional Missa do Galo. Da boca do piedoso sacerdote, velhinho de muitos anos, esperavam ouvir a história enternecedora do Menino Deus, nascido nas palhinhas de um desprezível estábulo, que veio ao mundo para ensinar aos homens o único caminho que conduz e abre as portas do Céu – o Amor.

O contarelo acaba aqui. Espero que vos tenha agradado.

Para o ano, quem sabe? Talvez haja, ainda, um outro contarelo.

Natal de 2001.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Carlos Brito regressa ao forte de Peniche

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 9 DE JUNHO DE 1994)


Em 10 de Fevereiro de 1960, Carlos Brito deu entrada no Forte de Peniche com “algemas” da polícia política. Agora, trinta e tal anos depois, fá-lo para apresentar os poemas que ali compôs e reuniu em livro que intitulou Anotação dos Dias – Poemas da Prisão, em Edições Avante.

Foi assim que no passado dia 26, pelas 21,30 h no Salão Nobre daquele Forte e com a presença do Presidente da Câmara local, o Prof. Rogério Cação, fez a apresentação do livro, analisando-o sobre vários aspectos e dizendo alguns dos poemas.

O autor justificou a publicação só agora do trabalho com o sentido de ser uma pequena acha para manter viva a memória da ditadura derrubada e dos seus crimes que persistentes campanhas pretendem fazer esquecer, desejando que tais dias não voltem ao nosso país.

Os poemas escritos durante a “clausura” têm muitos deles, por base, pequenos “nadas” passados no “largo” que se avista da prisão política e que os penichenses designam por “Campo da Torre”. O poeta, rebuscando a sua sensibilidade, transmite muito do sentido político.

Carlos Brito, um alcoutenejo que só não nasceu em Alcoutim, também teve a sua vida ligada a Vila Real de Santo António e em jovem chegou a colaborar no Notícias do Algarve, o que veio a criar, por motivos políticos, problemas ao Director do semanário.



Um dos poemas, a que deu o nome, Alcoutim, representa a sua visão extremamente realista e afectiva da sua vila, rematando com:- Ficamos-te nós / Para voltar um dia. É uma faceta desconhecida de Carlos Brito, agora e em boa hora dada a público.

O lançamento terminou com a habitual “sessão de autógrafos” a que se seguiu um Porto de Honra.

As nossas felicitações com o desejo que não fique por aqui.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

D. Jorge de Noronha

[Escudo da cidade de Ceuta]

Foi o 4º filho de D. Afonso de Noronha e de sua mulher, D. Maria de Eça e consequentemente neto dos 1ºs Condes de Alcoutim.

Como era tradição na família, serviu como capitão em Ceuta. Regressando ao Reino, voltou àquela cidade no tempo de D. Manuel de Meneses, 4º Conde de Alcoutim (1º Duque de Vila Real) e seu primo.

Acompanhou D. Sebasião a África e só não se achou na Batalha de Alcácer-Quibir por ter ficado doente em Arzila.

Casou com D. Isabel de Mendoça filha herdeira do Capitão donatário da Vila da Praia (Açores), Antão Martins Homem e de D. Joana de Mendoça.

Não tendo havido geração, D. Filipe I de Portugal, por morte do Capitão donatário, deu a Capitania ao seu valido, D. Cristóvão de Moura, 1º Marquês de Castelo Rodrigo, concedendo contudo a D. Isabel e a sua irmã, um tença anual.


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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, 2007, Vo. V. p. 123.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Fábrica da Igreja do Pereiro

Entidade a quem pertencem os bens ou direitos temporais destinados à conservação, reparação, ornamentação e despesas de culto de um local de culto ou templo, é a definição que nos dá o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001.

O Livro de Contas da Fábrica da Parochial Igreja do lugar de Pereiro, nº 2, com termo de abertura e encerramento de 13 de Junho de 1767, fornece-nos alguns dados de interesse que iremos referir.

Competia ao fabriqueiro cobrar os rendimentos da igreja e efectuar o pagamento das despesas dando de tudo conta no fim do seu mandato que se iniciava por eleição, no dia de S. João Baptista (24 de Junho) e terminando em igual dia do ano seguinte.

[Ruínas da residência paroquial. Foto JV, 1989]

Eram anualmente organizadas as contas com a indicação das receitas e despesas, passando naturalmente o saldo apurado para a posse e responsabilidade do novo fabriqueiro.

Fabriqueiro equivale ao que hoje se designa por tesoureiro, e além dos recebimentos e pagamentos era o guardião dos fundos.

As contas eram Superiormente julgadas, sendo o facto lançado por averbamento no local próprio.

A proveniência destes responsáveis não se confinava à aldeia, acabando por se distribuir praticamente por todos os montes de freguesia.

A Igreja possuía uma cerca no monte dos Vicentes que em 1766/1767 e anos posteriores trazia arrendado o Cap. (de Ordenanças) Manuel Dias Vilão, pagando anualmente dois alqueires de trigo.

Do foro do Lutão pagava Manuel Martins, do mesmo monte, 360 réis anuais e do de Marim, mais volumoso (960 réis) era devedor Diogo Mestre.

[Cruz de ferro da Igreja. Foto JV, 2006] Uma receita importante da Fábrica da Igreja era o pagamento daquilo que se designava por jazigos, ou seja o pagamento da sepultura que ocorria na igreja ou no seu adro, conforme a dignidade e poder económico do defunto.

Outro foro de dois alqueires de trigo era pago por Gaspar Lourenço, dos Tacões e recebia-se igualmente a ração das terras da Silveira.

Aparecem também recebidas importâncias provenientes de juros o que pensamos tratar-se de empréstimos feitos. Pagava-os o Cap. Manuel Dias Vilão, dos Vicentes e Baltazar Soeiro Mestre de Afonso dos Vicentes que presumo tratar-se do actual monte de Afonso Vicente.

A nível de despesas, além daquelas a que o culto obriga como a cera, o azeite, o inerente à manutenção do templo e casas do Pároco e Sacristão. Cal, ladrilhos, canas e o trabalho de mestres e serventes. Em 1768-1769 as obras efectuadas na igreja foram consideráveis e nelas trabalhou o mestre pedreiro, Joaquim dos Santos.

Ao Gregório Barriga, ferreiro na aldeia, pagaram-se os pregos que fez para as obras da igreja.

A missa anual da festa do Espírito Santo constituía uma despesa certa e relativamente avultada.

Em 1774-1775 fazem-se obras consideráveis no retábulo de S. Marcos.

Em 1888 sabe-se que o Arcebispo e Bispo do Algarve tinha contemplado a Fábrica da Igreja com o subsídio de vinte e dois mil e quatrocentos réis, do Cofre da Bula da SS Cruzada e para ser empregue em paramentos e alfaias para o culto religioso. (1)

Nota

(1) – Acta da Sessão de 2 de Janeiro de 1888 da Junta de Paróquia do Pereiro.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O topónimo Martim Longo

[Rua Antero Cabral, antiga Rua Direita. Foto JV]

Os nomes das terras constituem quase sempre um manancial de sugestões desde as técnicas baseadas na filologia ou na história até às lendárias muitas vezes bem arquitectadas pelo povo na sua pródiga imaginação.

Desde o seu nome anteriormente ter sido Vila Nova de Serqueira e transformado, vejam lá, na altura das lutas entre liberais e absolutistas e até entrando a figura de Remechido e isto fazendo tábua rasa dos mais elementares conhecimentos históricos já atestados no tempo de D. João I, algo tem sido dito.

Polémica que sempre encontrei e que se irá manter pela vida fora é a da grafia. Martim Longo ou Martinlongo e isto para não referir uma terceira, Martilongo.

Eu sempre escrevi separado, precisamente pela explicação do topónimo. Hoje e oficialmente é como se deve escrever, segundo informação que me chegou, mas algumas entidades responsáveis continuam a escrever numa só palavra. Quem não se lembra num programa televisivo quando foi colocado o assunto a um responsável político, este ter afirmado peremptoriamente que era separado e que até devia levar um tracinho (sic). Contudo, a prática não era essa.

O primeiro elemento do nome composto parece não oferecer dúvidas. MARTIM é forma proclítica de Martinho. Estamos na presença de um antropónimo que deu origem ao topónimo.

Existem no país muitos mais exemplos, como acontece em Martim Brás (Ferreira do Zêzere), Martim Gil (Leiria), Martim Filho (Arronches), Martim Joanes (Cadaval), Martim Moleiro (Penamacor), Martim Tirado (Torre de Moncorvo), Martim Vaqueiro (Alvaiázer e Ansião), Martim Afonso (Sobral de Monte Agraço), etc.

Isoladamente, o topónimo MARTIM aparece na nossa toponímia pelo menos seis vezes e muitas mais em casos de elisão, como acontece em Martinhanes (Mértola), Martingança (Alcobaça) e Martingato (Santa Marta de Penaguião).

Verifica-se assim que o antropónimo transformado em topónimo se espalha por todo o país.

O segundo elemento do topónimo é que oferece alguma dificuldade. Segundo a tradição oral, este Martim, figura não conhecida, é visto de diversos ângulos: proprietário? Benemérito? Longo na vida ou de estatura?
Quem sabe?

José Pedro Machado (1) diz que o topónimo tem origem no nome de antigos proprietários locais, sendo já atestado em 1376.

Existe além deste outro Martim Longo no concelho de Montemor-o-Velho.

NOTA
(1)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, 1993.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Do lado de cá e do lado de lá


Eu estando do lado de cá gosto procuro pôr-me do lado de lá, o que nem sempre consigo fazer.

Vem isto a propósito do dinamismo conhecido e até apreciado por alguns do ALCOUTIM LIVRE ter nos últimos tempos esmorecido um pouco, o que nada tem a ver com o marasmo de outros, certamente mal conhecidos, que se apresentam bem delineados tecnicamente e de propósitos elevados, que publicam duas ou três coisas e aí ficam pendurados para que alguém tropece neles e os veja.

A laranja deitou pouco sumo!

Os meus visitantes/leitores e bastantes fazem-no diariamente, como nos têm confessado e outros igualmente o fazem mas não o confessam, merecem uma pequena explicação para o facto que apontei.

Depois de três semanas de ausência em locais onde a minha banda larga não pode actuar por falta de sinal e de outras deslocações inadiáveis, juntou-se um pequeno problema de ordem informática e que já se encontra debelado.

As cerca de seis centenas e meia de “postagens” efectuadas já não me são possíveis de memorizar, pelo que para não repetir os assuntos, obriga-me a procurar o miolo do blogue, o que por vezes me leva mais tempo do que a escrever o “artigo”.

Para me facilitar essa busca, desdobrei, como podem verificar, o tema Geral, o que de certa maneira ajudará igualmente o visitante nas suas procuras.

Além de alguns exames médicos de rotina, comecei a pôr em ordem centenas de jornais, a fim de efectuar os recortes dos assuntos que me interessam e isso consome muitas e muitas horas.

As fichas amontoadas, molho aqui, molho acolá, precisam novamente de ser indexadas para quando precisar delas saiba onde estão os assuntos.

Aos livros, acontece a mesma coisa e começo a perder muito tempo para os encontrar.

Se alguns dos temas deixaram de ter entradas pelo seu esgotamento ou por falta de conhecimentos meus, ainda tenho muito para escrever, se a saúde não me faltar.

Se eu estivesse desse lado, gostaria de saber isto e por isso o escrevi.

Obrigado visitante/leitor.


JV

sábado, 11 de dezembro de 2010

O cemitério da freguesia de Giões



Os cemitérios fazem sempre parte da história das populações que servem, pelas figuras que lá repousam, pelos dramas que muitas vidas encerram e até, em alguns casos, pela sua monumentalidade, principalmente nas grandes cidades.

É muito pouco o que temos para dizer.

Situa-se próximo da actual igreja matriz e na sua frente, a da Capela de São Domingos, recentemente restaurada.

Ainda que tivesse sido aumentado em 1988 por acção conjunta da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia (1) continua pequeno, à dimensão da área e população que serve.

Tinha portão estreito de ferro inserido em trabalho de argamassa muito semelhante ao que encontramos no cemitério de Pereiro. No cimo, também uma simples cruz de ferro.

Na sessão camarária de 19 de Março de 1865 a Edilidade avalia o pedido formulado pela Junta de Paróquia no sentido de ser autorizado uma postura que permita a derrama de oitenta mil réis que a mesma Junta julga indispensável para acorrer às despesas com o cemitério, o que foi autorizado.

O aspecto actual é proveniente de recentes trabalhos que procuraram dar-lhe um aspecto mais consentâneo com os nossos dias.

A foto deixa ver o indispensável cipreste, símbolo da morte, da tristeza e da dor.


NOTA

(1)-Boletim da C.M.A. nº 3 de Setembro de 1988.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pereirão, pequeno monte na cumeada do mesmo nome



Este pequeno monte faz parte da freguesia de Martim Longo de que dista 14,5 km, por isso, a mais de 40 km da sede do concelho.

O seu acesso, tendo em consideração a sede de freguesia, faz-se através da EN 124 e tomando o primeiro entroncamento à direita, estrada construída uns anos depois do 25 de Abril de 1974, já que até aí as povoações desta parte da freguesia viviam completamente isoladas.

Passamos junto ao Monte do Silgado, depois deixamos à direita Diogo Dias, uns quilómetros andados, temos o Tremelgo, depois atravessamos o Pessegueiro, o maior monte do concelho, passamos depois próximo dos Zorrinhos de Baixo para do outro lado da estrada se situar os Zorrinhos de Cima, de seguida e do lado direito da estrada fica o desvio para a Casa Nova (do Pereirão) e logo a seguir, no mesmo plano, o monte que procuramos, o Pereirão, o último monte do concelho por este lado, já que a dois passos temos a freguesia do Ameixial, do concelho de Loulé, sendo Lourencinho o monte mais próximo.

O monte do Lourencinho (1758) então com dois vizinhos e mais onze montes da freguesia do Ameixial, sendo o mais populoso dessa época o da Corte de João Marques, pertenciam ao termo de Alcoutim, o que aconteceu até à reforma administrativa de 1836de Passos Manuel.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco de Martim Longo, ainda que não indique o número de vizinhos, refere, separadamente, o Monte da Casa Nova e o Monte do Pereirão.

Em 1771 e anos seguintes, vinham manifestar os seus gados à Câmara de Alcoutim gentes da Corte João Marques, nomeadamente, o Capitão de Ordenanças, André Roiz Contreiras, de Revezes, Vale da Moita, Pereirinha e outros. A nível do Pereirão o registo era feito por João Guerreiro que tinha reses, ovelhas, carneiros e cabras.

Em 1850, quando se faz a divisão com a colocação de marcos, entre o concelho de Alcoutim e o de Loulé, por este lado, para comodidade dos habitantes dos “montes” de Lourencinho, Casa Nova e Pereirão, demarcou-se para ficar livre e comum para pastagem de gados, dos ditos montes, o terreno que vai da altura do Malhão, isto pela parte do concelho de Loulé e pela parte do concelho de Alcoutim, pela partilha da Herdade do Pereirão ao nascente, direito ao Barranco do Freixo, até dar ao Vascão. (1)

A Herdade do Pereirão dominava a parte rústica. É mais um exemplo de “montes” com o mesmo nome de herdades. Parece-nos que as herdades nestas condições teriam dado origem aos actuais “montes” pela fixação de proprietários, rendeiros ou trabalhadores.

De muitas dessas herdades só resta o nome, pois foram divididas através dos séculos, por vendas e partilhas.

O Pereirão tinha em 1940 vinte e oito habitantes e vinte anos depois já tinham descido para vinte e dois, números superiores ao que tinha, em igual período, a Casa Nova, (2) situação que hoje deve estar invertida. Nos dois últimos censos (1991e 2001) a sua população foi incluída no número dos “isolados” visto não ultrapassar a dezena.

Somos de opinião que o Pereirão deve ser mais antigo do que a Casa Nova, que necessita da sua referência para se poder identificar.

[Moinho do Pereirão, único que funcionava no concelho de Alcoutim. Foto JV]

Pereirão, que na nossa toponímia a nível de aglomerado populacional só se encontra aqui representado, segundo o Novo Dicionário Corográfico de Portugal de A.C. Amaral Frazão, deu origem ou foi buscar o nome, o que é mais natural, à Cumeada em que está instalado e que se desenvolve por cerca de 45 km de comprimento, planalto que na sua maior largura não chega a 4 km.

Pereirão é aumentativo de pereiro, representado no concelho na aldeia do Pereiro e em Cortes Pereiras.

O pereiro bravo, vulgar na região, foi o móvel destes topónimos de origem vegetal.

O antropónimo é muito vulgar no concelho. Existem Pereiras em todas as freguesias.

No dia 8 de Agosto de 1879 fez-se uma montaria aos lobos que causavam grandes estragos nos gados. Para o efeito a bandeira mestra foi colocada na Portela do Pereirão e foram convidados a comparecer os habitantes de S. Miguel do Pinheiro, São Pedro de Sólis e de Santa Cruz. (3)

Em 2002 são pavimentados os arruamentos (4) e no ano seguinte feito um caminho para o Monte das Mestras, da mesma freguesia. (5)

NOTAS

(1)– Acta da Sessão da C.M.A. de 14 de Fevereiro de 1850
(2)– Os montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos.
(3)– Of. Nº 134 de 24 de Julho de 1879 do Administrador do Concelho.
(4)– Alcoutim, Revista Municipal, nº9 de Dezembro de 2002, p. 11.
(5)– Alcoutim, Revista Municipal, nº 10, de Dezembro de 2003, p. 7.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Copos de vidro



Antes dos copos de vidro as pessoas bebiam por púcaros ou púcaras de barro e posteriormente por tigelas que aqui já apresentámos.

Os copos de vidro apareceram muito depois e os exemplos que a foto apresenta foram usados fundamentalmente no primeiro quartel do século passado como copos de vinho.

Caracterizavam-se por pés pesados e grossos, tal como as suas paredes, aliás, como se pode verificar na fotografia.

Estão em completa oposição ao que se vê hoje, na sua grande maioria são peças de vidro muito delgado e leves.

Esta alteração, pensamos que terá a ver com a evolução técnica que se foi operando com o decorrer doas anos.

Os exemplares apresentados, que só os mais idosos recordarão, serviram mesmo no concelho de Alcoutim, mas eram modelos que se espalhavam por todo o país.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Largueza (Romance)



No passado dia 3 do corrente, desloquei-me, propositadamente, ao meu concelho natal para assistir, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, à apresentação do livro LARGUEZA,de autoria do meu conterrâneo e Amigo, António Luiz Pacheco, que teve a amabilidade de me convidar para o efeito, o que muito lhe agradeci.

LARGUEZA é uma edição de Chiado Editora, constituído por dois volumes que totalizam 1334 páginas, de formato 15X21 cm.

Trata-se de um romance de aventuras no século XIX em que se torna difícil distinguir a realidade da ficção, segundo afirmou o apresentador do trabalho.

António Luiz Pacheco, além de ser um homem de emoções, cultivando a caça, a pesca e actividades submarinas, tem viajado por esse Mundo fora, Europa, África, Ásia e América ,pelo que as aventuras se vão repartindo por estes locais, realçando-se os contrastes que entre eles existem, geográficos, climáticos, económicos e etnográficos, entre outros.

Foi construindo as personagens com roupagens que viu e sentiu neste e naquele, conforme afirmou na cerimónia do lançamento.

O autor considera-se um “barrão”, tal como eu, já que a sua génese está inteiramente ligada à região ribatejana do Bairro, terras de trigo e olival. A freguesia meio-citadina de S. Nicolau e a da Várzea rural, têm muito a ver com as suas origens e laços familiares, ainda hoje existentes.

António Luiz Pacheco, ao referir-se ao Bairro de Santarém, aproveitou o nosso trabalho, A Freguesia da Várzea (do concelho de Santarém) - Achegas para uma monografia, Junta da Freguesia da Várzea, Santarém, 2005, para dele tirar elementos, o que refere na bibliografia consultada, além de igualmente o fazer na sensibilizante dedicatória que exarou no nosso exemplar.

[Concedendo autógrafos. Foto JV]

Tal como nas palavras que proferiu não quis deixar de assinalar a nossa presença e da
circunstância dos nossos avós maternos terem sido grandes amigos.

Como é óbvio ainda não tivemos tempo para ler tão dilatado romance, a não ser a parte introdutória, mas a nossa curiosidade está aguçada.

Aqui deixamos ao nosso Amigo António Luiz Pacheco mais um abraço de felicitações com o desejo que não fique por aqui.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gaspacho à Serra Algarvia



Gaspacho tem origem no castelhano gazpacho e designa uma sopa fria com base em vegetais, confeccionada no Sul da Península Ibérica, nomeadamente na Estremadura e Andaluzia no País vizinho, no Alentejo e Algarve em Portugal, ainda que o seja também no México e outros países da América Central por influência espanhola.

Por ser frio, é muito refrescante e serve-se naturalmente em dias cálidos.

A sua confecção não é uniforme mesmo dentro do mesmo País.

Em Espanha, de uma maneira geral, os seus componentes são triturados, enquanto em Portugal isso não acontece, havendo mesmo diferenças do Alentejo para o Algarve (Serra) e daqui para o Litoral, nomeadamente no corte do pão e dos vegetais que é feito de maneiras diversas.

O gaspacho da serra algarvia faz-se da seguinte maneira: pisam-se dentes de alho juntamente com sal, o que acontece normalmente no recipiente onde se vai fazer. Depois juntam-se alguns pedaços de tomate bem maduro que igualmente são macerados com o “pisador”, que aqui já apresentámos alguns modelos de puro artesanato local. É habitual esfarelar-se um pouco de pão duro. A pasta constituída tem por fim dar alguma consistência ao caldo. Deita-se água fria. Presentemente usam-se cubos de gelo para que fique mais fresco ou então água fria proveniente do frigorífico. Tempera-se com azeite e vinagre, rectificando-se o sal.

Tinham-se cortado, previamente, tomate maduro em pequenos pedaços, assim como pepino, pimento e cebola que se juntam ao caldo. É então a altura de acrescentar os indispensáveis orégãos, sem os quais e segundo a concepção local, não pode haver gaspacho.

O pão convenientemente duro já está cortado aos quartos e é deitado no recipiente completando a preparação.

O acompanhamento pode ser feito com peixe assado ou frito (em geral era a sardinha ou o muge), azeitonas e presunto.

Referimos o gaspacho completo, mas nem sempre isso é possível, faltando por vezes o pimento ou o pepino, mais difíceis de obter.

As quantidades também são variáveis, dependendo do gosto de quem o vai comer.

Continua a ser um prato muito do agrado dos alcoutenejos e conheço pessoas que no Verão, à noite, comem sempre um gaspacho, dizendo que só assim ficam bem.

Na época, não dispenso dois ou três gaspachos, que me sabem muito bem e me refrescam.

Para que o gaspacho não dê sede, tem de pôr-se pouco alho.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Rasto de lebre



A Câmara Escura de hoje é representada por uma fotografia tirada por mim em Novembro último, num dia muito nublado, por isso não propício a tal arte, que aliás não possuo.

Com maior ou menor qualidade, as fotografias são indispensáveis para o acompanhamento dos textos que ajudam a uma melhor compreensão ou então invertem-se as posições e são os textos que ajudam a justificar o disparo do “flash”.

O que nela está em causa não são as débeis amendoeiras em período de repouso vegetativo, que mais parecem secas, nem mesmo a erva seca que o Estio provocou.

A foto foi tirada para “apanhar” o traço rectilíneo, relativamente estreito, que se situa entre as duas amendoeiras e provocado pelo afastamento da erva.

O meu companheiro chamou-me a atenção para o facto, perguntando se eu sabia explicar aquilo.

Disse-lhe que não e ele esclareceu-me que por ali tinha passado lebre ou coelho deixando aquele rasto.

Isto será o “bê à bá” dos caçadores, mas para mim foi uma autêntica novidade e daí ter trazido aqui o assunto, pois possivelmente alguns leitores do ALCOUTIM LIVRE estarão nas mesmas condições em que eu estava.

Por outro lado disse ao meu camarada que pensa que eu sei tudo que afinal ele sabia esta e muitas outras coisas que eu não sei.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Identificação de menir e anta perto de Afonso Vicente (Alcoutim)?

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE (MAGAZINE) DE24 DE SETEMBRO DE 1992)

De há uns anos a esta parte “ocupamos” as nossas férias no Algarve serrano, concelho de Alcoutim. Por vontade própria e fácil de conseguir, alheamo-nos de noticiários radiofónicos ou televisivos e não lemos jornais.

São dias “maravilhosos” em que nos sentimos distantes do mundo que nos envolve.

Vivemos só ávida local conversando com os poucos habitantes ainda existentes (caminha-se a passos largos para o despovoamento) e percorrendo cerros e barrancos onde já se penetra com dificuldade devido ao mato, principalmente a esteva e que as nossas pernas testemunham com muitos arranhões.

Estes dias de diálogo simples mas muito enriquecedor, traz-nos quase sempre algumas novidades que procuramos registar.

Se umas vezes instigamos o diálogo para o campo que nos interessa, ainda que primeiramente e como é natural nos tentemos enquadrar e seguir a conversa que se trava, outras, são os nossos interlocutores que com a nossa presença tentam informar-nos de algo que conhecem e calculam ser do nosso interesse.

Afinal, o interesse é mútuo, nós, procurando as indicações concretas locais, eles, saber algo de mais positivo (no sentido técnico se assim se pode dizer) que lhe possamos informar.

[O menir como se encontrava quando foi identificado em 12 de Agosto de 1992. Foto JV]

Foi assim que este ano alguém nos perguntou se conhecíamos a “pedra grande” do Lavajo, situada naquela zona rústica e atribuída aos mouros, como aqui sempre acontece quando denuncia antiguidade.

Ao nosso “não”, seguiu-se o diálogo natural.

Dos presentes, todos conheciam tal pedra, procuravam descrevê-la o melhor possível, vasculhavam na memória factos passados onde não faltavam escavações na tentativa de obter achado valioso na concepção local representado por panela com barras ou moedas de oiro.

O volume, configuração e aparelhamento, aliado a outras circunstâncias, começou a espicaçar a nossa curiosidade.

Entretanto apareceu mais um natural da localidade, chegado para férias, que também conheceu a dita pedra à cerca de trinta anos, mas que só agora começava a vê-la com outros olhos.

Combinou-se a visita e lé fomos.

O automóvel, que entrou por caminhos agrícolas, depois de passar com dificuldade o barrando do Lavajo, ou da Nora, deixa-nos perto do local.

Estamos na zona rústica conhecida por Lavajo, situada entre Afonso Vicente e Cortes Pereiras, freguesia de Alcoutim.

O topónimo, de origem espanhola, segundo pensamos, é um provincianismo do sul do País, encontrando-se representado, a nível de povoação, no concelho de Loulé, freguesia de Salir e em Castro Marim.

Denuncia a existência de água, pelo que é zona hortejada com existência de oliveiras por aproveitamento de zambujeiros, isto nos lugares mais baixos.

O cicerone, nascido e criado na zona, depois de subirmos uma pequena elevação que segundo ele deu sempre boas searas, leva-nos a um arrife de estevas no meio do qual, completamente cercada, se encontra a procurada “pedra grande”, assim conhecida pelas populações locais.

A palavra menir, que significa pedra comprida, veio-nos rapidamente à memória e após uma observação mais atenta pareceu-nos tratar-se desse monumento megalítico.
Máquinas fotográficas em acção, fita métrica a actuar colhendo assim dados identificativos.

O nosso companheiro, investigador com nome mundial no campo geológico, recolhe um pequeno fragmento que à vista desarmada identifica como grauvaque.

Aquilo que ambos considerámos ser um menir, está em situação prostrada, tem 312 cm de comprimento (que corresponde à altura, quando erecto), secção elíptica que no seu máximo apresenta com eixos 72 e 46 cm.

Quanto ao talhe, é relativamente bem afeiçoado.

À sua volta, terra mexida e duas pedras que nos dão a ideia de poderem ter auxiliado a sua erecção.

Perto, a cerca de duas dezenas de metros e em posição menos elevada, encontram-se três pedras (grauvaque) ao alto, bastante enterradas, comprimento máxima descoberto, cerca de cento e trinta centímetros, em forma de círculo que nos sugerem os esteios de uma anta, outro monumento megalítico funerário que por vezes anda associado ao primeiro. Rodeadas de estevas, é curioso verificar que o espaço interior está limpo de mato é constituído por terra.

[O menir já erecto em 1994. Foto JV]

Não encontrámos vestígios do chapéu.

Mais nenhumas pedras encontrámos no local, como sempre nos disseram e aquelas, não “nasceram” ali.

No dia seguinte transmitimos o “achado” a uma arqueóloga em trabalhos de escavação nas castelos de Alcoutim e que levámos ao local sendo a primeira opinião semelhante à nossa.

Nos trabalhos da especialidade que consultámos posteriormente, a Pré-História de Portugal, de M. Farinha dos santos e a História de Portugal, Publicações Alfa (O megalitismo e os primeiros metalurgistas – de Carlos Tavares da Silva) nomeadamente, nada encontrámos sobre este assunto.

Também Leite de Vasconcelos que por aqui passou e refere achados arqueológicos, nada disse.

A tratar-se efectivamente de monumentos megalíticos como pensamos, seria conveniente efectuar-se a escavação adequada. Não estará o chapéu soterrado?

Aquele conjunto a acrescentar ao já existente no concelho pode constituir um pólo de interesse turístico se a edilidade para isso estiver motivada.