quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guerreiros do Rio, o lugar do simbolismo da defesa fronteiriça


Entrada norte da povoação. Foto JV

Alcançamos esta povoação seguindo pela designada estrada marginal e que encontramos depois de termos passado pelo Montinho e pelas Laranjeiras.

Situa-se a 11 km de Alcoutim a cuja freguesia pertence.

A estrada marginal continua a correr paralelamente ao rio, ficando à nossa esquerda dos melhores terrenos agrícolas do concelho e que constituem as chamadas várzeas do rio, predominando a oliveira nos sítios mais afastados, a vinha os citrinos e já banhados pelas águas do rio, nas “baías” os marmeleiros e as romãzeiras que além dos frutos tinham a missão de segurar os terrenos através do seu forte raizame.

Em 1976 fomos encontrar, de recente fundação, o Centro Cultural POVO-MFA. O antigo edifício escolar, que estava devoluto, foi ocupado e preparado pelo povo com o auxílio das Forças Armadas. Além da criação de um posto clínico, cujo apetrechamento foi possível pelo abate ao efectivo de um vaso de guerra, pois parte do material existente foi para aqui enviado, era assistido por médicos duas vezes por semana. Velhos tempos!

Tinha salão de festas de razoável tamanho. José Segundo Martins foi um dos grandes entusiastas desta obra.

É evidente que tudo isto pertence ao passado e faz parte da história local, sendo representativo de uma época ainda não muito distante.

Em 1989 (1) anuncia-se que será instalado neste antigo edifício escolar, que a Região de Turismo do Algarve se prepara para comprar, o Museu do Rio. Nele irão ser recolhidas peças de artesanato local e objectos tradicionais relacionados com a faina piscatória.

Em 1991 (2) informa-se que os Bombeiros Voluntários de Alcoutim acabam de adquirir o imóvel com o apoio da Câmara Municipal e da Região de Turismo do Algarve. Diz-se então que irá reunir peças arqueológicas, apetrechos de pesca e outros objectos e documentos ligados à vida do rio, não esquecendo o comércio ilegal entre as duas margens do Guadiana. O Museu irá testemunhar toda a vida ribeirinha nos aspectos histórico, cultural e etnográfico.

Aspecto exterior do Museu. Foto JV

O Museu do Rio vem a ser inaugurado em Janeiro de 1995 e afirma-se agora que o edifício foi adquirido pela Câmara Municipal, subsidiado pela Região de Turismo do Algarve e a instalação financiada pela Delegação Regional da Secretaria de Estado da Cultura. (3)

A área de intervenção do museu vai da Foz de Odeleite até ao Pomarão e insere-se num percurso que procura retratar toda a vida do rio através dos tempos. (4)

Apesar de bem modesto, o museu não deixa de, através de textos, desenhos e fotografias, contar a história do comércio fluvial que desde tempos imemoriais se fazia até Mértola. (5)

O museu foi, entretanto, reestruturado, mas não voltámos a visitá-lo pelo que desconhecemos o seu conteúdo. Consta-nos, contudo, que possui desde 2008 uma exposição de pequenas réplicas dos barcos que circularam no baixo Guadiana em diversas actividades.

O povoado, tal como os seus vizinhos, desenvolve-se pela encosta do cerro e assenta sobre rocha xistosa. Lá no cimo, a escola primária que concentrava as crianças das redondezas, incluindo Corte das Donas,e que presentemente (1997) tem dificuldade na manutenção devido à falta de alunos. Há muito que encerrou.

Casa interessante e bem preservada dos anos 30 do séc. passado. Foto JV

Em 1917 já havia uma escola móvel a funcionar (6) que deu origem a um posto escolar e mais tarde à escola.

Esta zona da margem direita do Guadiana foi sempre procurada pelo homem e por aqui se fixaram entre outros povos os romanos que deixaram alguns vestígios.

A facilidade de comunicação, a pesca e a actividade agrícola eram factores de grande importância. Mais tarde, com a fixação das fronteiras, adquiriu outra importância a acrescentar às já existentes, ponto de vigilância e de defesa do território tendo o topónimo originado dessa circunstância. Em tempos distantes, os mancebos da região

estavam isentos do cumprimento do serviço militar mas eram obrigados a defender a fronteira em caso de guerra.(7)

A Guarda-Fiscal teve sempre aqui o seu posto com o comando de um 1º cabo e foi um dos últimos a ser extinto. Esse facto não evitou, naturalmente, a existência da actividade oposta, o contrabando, que por aqui teve a sua expressão.

Acesso à Casa de Pasto. Foto JV
 
João Martins, aqui morador, foi em 1845 um dos dois informadores por parte deste concelho na divisão com o de Castro Marim e pela Cheia Grande que causou o desabar de seis moradias, foram indemnizados Lourenço Madeira, 300$000, Manuel da Palma Gato, 250$000, e Maria Custódia, Vª de Ildefonso Gonçalves, 200$000.

A mesa da estação telegráfica do Pomarão foi recolhida aqui por Manuel da Palma Gato.

Em 1887, um requerimento dos moradores do monte solicita à Câmara a concessão de um subsídio de nove mil réis que se destina a aprofundar e reconstruir o poço público. (8)

Dois poços abasteciam o monte e nos princípios da década de 80 do século passado o precioso líquido passou a ser fornecido por intermédio de oito fontanários através de um furo artesiano. Presentemente já há saneamento básico.

Existiu desde há muito um forno comunitário que ainda era utilizado por parte da população na primeira metade da década de 70 do século passado.

A existência de uma Lutuosa, instituição muito característica da zona e a primeira fundada (1934) e em que se pagava uma quota mensal de 5$00, constitui uma simples lembrança de alguns.

Os Guerreiros do Rio têm dois pequenos estabelecimentos comerciais:- uma mercearia e uma casa de pasto muito procurada, principalmente, pelo prato de enguias que tem muitos apreciadores.

Vista parcial. Na parte cimeira o hotel. Foto JV

Uma plataforma de apoio ao cais possui um pequeno serviço de cafetaria com esplanada,o que se torna bem agradável. Entretanto, foram construídos pequenos apoios individuais para os pescadores do rio.

De notar a existência de uma unidade hoteleira situada em posição cimeira com excelente vista sobre o Guadiana.

Apresenta uma piscina rodeada por um terraço e espreguiçadeiras, usufruindo-se de bons panoramas.

Podem organizar-se actividades de canoagem ou de pesca e estão disponíveis bicicletas para alugar.

Tem estacionamento próprio.

O cais com o seu movimento. Foto JV

Segundo o Jornal do Algarve de 23 de Março de 1984, iniciaram-se passeios turísticos fluviais com partida de Vila Real de Sto. António e que têm como ponto mais a montante este povoado. Desconhecemos quando terminaram.

Hoje,os Guerreiros do Rio são um lugar muito procurado pelos turistas nacionais e estrangeiros, tendo alguns adquirido velhas casas que restauraram a seu gosto e que frequentam em períodos de férias e de fins-de-semana.

As várzeas que ladeiam a estrada tornam-se maiores quando se caminha para o sul e denunciam boa produtividade:- vinhas, oliveiras, figueiras e citrinos, além de produtos hortícolas. Sem dúvida que estamos na presença de uma das zonas mais férteis do concelho.

No outro lado do rio, um fogo “César” desabitado na altura.

Existe um clube de caça e pesca.

Em 1758, segundo as Memórias Paroquiais, Guerreiros possuía 17 vizinhos e em 1839 a Corografia do Algarve de Silva Lopes atribui-lhe 22 fogos.

De notar que os “montes do rio” em 1758 faziam parte da freguesia de Alcoutim mas pertenciam ao termo de Castro Marim.

Em 1991 tinha cinquenta moradores e cinquenta e nove edifícios. Desconhecemos a actual situação.
 
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NOTAS

(1) – Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989.

(2) – Boletim Municipal nº 8 de Abril de 1991.

(3) – Jornal do Algarve de 26 de Janeiro de 1995.

(4) – Alcoutim, Revista da C.M.A., nº 1, de Maio / Junho de 1995.

(5) – Guia (Expresso) de Portugal, 2-Algarve, de 1 de Julho de 1995, pág. 15.

(6) – “Um século de Ensino Escolar no concelho de Alcoutim (1840 – 1940)”, José Varzeano, Jornal do Algarve de 4 a 18 de Abril de 1991.

(7) – Memórias Paroquiais, 1758, Freguesia do Pereiro, quesito 22.

(8) – Acta da Sessão da C.M.A. de 18 de Julho de 1887.

 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O rabilongo



Imagem cedida gentilmente por (*)
(*) http://olhandemredor.blogspot.pt/

Rabilongo significa naturalmente que tem cauda comprida (longa) e aplica-se a várias espécies, entre as quais os córvidas, como é o caso da pega azul, que por esse facto é conhecida na zona de Alcoutim como rabilongo, designação que foi buscar ao Alentejo, enquanto no outro Algarve são conhecidos por charnecos.

É ave de tamanho médio e comum em Portugal, sendo o sul do Tejo a sua zona de preferência. Tem forte e longo bico e cauda comprida como já dissemos, cabeça preta, asas azuis tal como a cauda, garganta branca, sendo o corpo cinzento amarelado.

Alimenta-se de insectos, sementes e frutos.

Reproduz-se apenas na península Ibérica construindo o ninho, preferencialmente, em árvores de bom porte.

Vista em pequenos bandos. É bastante tímida e saltita com frequência de ramo para ramo. Tem um voo deslizante e ondulado. O seu azul celeste chama a atenção.

Prefere as zonas mais secas e de temperaturas mais elevadas, como acontece em Alcoutim.

Esta ave deu origem a vários topónimos aplicados a locais rústicos no concelho.

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Aves de Portugal e Europa, Bertel Bruun, Hakan Delin e Lars Svensson, 1995

Atlas das Aves nidificantes em Portugal (1999-2005), Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, 2008

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lembrando Guerreiro Gascon

 
 
Ouvi falar de Guerreiro Gascon em 1967, quando tive conhecimento que ia ser colocado no concelho de Alcoutim. E porquê? É que o meu chefe era seu conterrâneo e colega de profissão e sabia que tinha passado profissionalmente por Alcoutim.

Curiosa a referência do seu conterrâneo que o indica como muito interessado pela escrita e por assuntos de carácter histórico, escrevendo para a imprensa regional.

Quando isto aconteceu já Guerreiro Gascon tinha falecido há mais de 15 anos.

Naturalmente, que a conversa me passou, mas quando comecei a pesquisar, a figura saltou e veio-me à memória a conversa que tinha tido anos atrás.

Desconheço o tempo que Guerreiro Gascon exerceu a sua profissão em Alcoutim, mas em 1928 já se encontrava a trabalhar no concelho de Odemira.

Com grande tendência para as letras, continuou na senda dos seus antepassados a interessar-se pelo passado monchiquense, coleccionando documentação e pesquisando onde lhe foi possível.

Em 1940 tinha pronto Subsídios para a monografia de Monchique que só veio a ser publicado postumamente, em 1955, pela acção da viúva.

Acabando por exercer a sua profissão em Monchique para onde teria pedido a transferência, foi colaborador da imprensa regional, entre outros em O Monchiquense, Notícias do Sul e Vida Algarvia.

Teve grande actividade cívica, dirigiu a Filarmónica Monchiquense, foi secretário da Santa Casa da Misericórdia e exerceu funções na Câmara Municipal.

Efectuou o estudo prévio para a constituição do brasão de armas de Alcoutim, facto que a Câmara Municipal lhe agradeceu por ofício.

Possivelmente na sequência deste estudo, publicou três artigos sobre Alcoutim, em 1928: “O brasão de Armas da Vila de Alcoutim”, O Monchiquense (Monchique) ano III, nº 56 p. 4; “Alcoutim, estação de repouso, clima ameno e suave”, Notícias do Sul (Vila Real de Santo António), ano I, nº 5 pp 3,5 e “O Brasão de Armas da Vila de Alcoutim que teve o seu primeiro foral em 9 de Janeiro de 1304”, Notícias do Sul (Vila Real de Santo António), ano I, nº 28 p.2.

Desloquei-me propositadamente a Faro no sentido de consultar esses textos mas foi-me informado que esses nºs dos jornais não existiam em arquivo, o que de certo modo nos admirou.

Além disso, na Monografia de Monchique faz várias referências a Alcoutim.

Só encontrei em Alcoutim uma pessoa que se lembrava dele, pelo menos do nome, o seu afilhado Miguel Cadenas Caimoto, já falecido.

José António Guerreiro Gascon nasceu em Monchique em 1883 e faleceu na sua terra natal em 4 de Maio de 1950.

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Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), José Varzeano, 1985

Levantamento Arqueológico-Bibliográfico do Algarve, (Secretaria de Estado da Cultura – Delegação Regional do Sul) Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes, Faro 1988

Wikipédia, a enciclopédia livre

domingo, 28 de outubro de 2012

Natal nos anos de guerra!




Escreve

M Dias



Por volta dos meus dez anos, surge a Guerra no Ultramar – ex-Províncias Ultramarinas!

A Emissora Nacional dedicava um espaço aos militares para lá deslocados para falarem às suas famílias!

A determinada hora do dia, quase sempre ao fim da tarde, ligavam-se os rádios e juntavam-se os pais, irmãos, namoradas, para escutarem a voz dos seus saudosos filhos. Falava Ferreira da Costa, que situava o ouvinte no local de onde se encontrava o seu familiar e passava o microfone a cada um, provavelmente em fila indiana, nervosos e emocionados.

Só DEUS SABE!

Deste lado os pais e familiares, de rádio encostado ao ouvido ou muito perto dele, ouvindo-se apenas o zumbido de uma mosca permaneciam imóveis e mudos, comos olhos rasos de lágrimas! Meus queridos pais, irmãos e restantes familiares, fala o vosso filho, soldado nº tal, batalhão nº tal da Companhia nº tal. Desejo a todos um Natal muito feliz e umas boas festas, eu estou bem e em breve vos irei abraçar.

E assim seguiam um a um com discurso mais ou menos semelhante, rápido, muito rápido, ou porque outros separavam na fila, ou porque não aguentavam a emoção. E alguns ainda, fazendo-se fortes, desdramatizando, para proteger a família.

Nessa altura, devido à inconsciência própria da idade estes momentos nada me diziam.

Mais tarde, aos 18 anos fui dizer adeus com um lenço branco a acenar, e muitas lágrimas, ao meu irmão que partia no Niassa com destino a Moçambique!


Paquete Niassa (*)
No Cais da Rocha do Conde de Óbidos, no meio de tantos pais, filhos bebés, esposas, namoradas, todos em silêncio num vale de lágrimas, vieram-me à ideia as saudações de Natal que havia oito anos antes eu ouvia o Sr. Ferreira da Costa anunciar! Aí sim, dei por mim a pensar: de todos estes que partem quantos voltarão? VOLTEI À ROCHA DO CONDE DE ÓBIDOS APENAS EM JUNHO DE 1971, desta vez também com lágrimas, mas de felicidade.
(*) anialber-cart2643bart2900.blogspot.com

sábado, 27 de outubro de 2012

D. Diogo de Noronha, tio do 2º Conde de Alcoutim


Com a devida vénia de
(*)
4º filho de D. Pedro de Meneses, 1º Marquês de Vila Real e da Marquesa D. Brites, segunda filha do Marquês de Bragança D. Fernando e da Duquesa D. Joana de Castro.

Esteve com os seus irmãos mais velhos, D. Fernando de Meneses, que o armou Cavaleiro em 1450 e D. Henrique de Meneses na tomada de Targa e Camisi.

Por ordem de El-Rei foi mandado para a Praça de Ceuta, devido a um conflito que teve com um fidalgo.

Governava a Praça Fernão Soares que lha quis entregar, o que ele prudentemente não aceitou, pois sabia as razões por que foi para lá enviado, mas que veio a governar mais tarde.

Estando em Portugal, foi um dos nobres designados para acompanhar em 1498 D. Manuel quando foi buscar a Rainha D. Isabel a Valência.

Foi Comendador-mor da Ordem de Cristo, Alcaide-mor de Óbidos e Senhor dos direitos de Selir.

Casou a primeira vez com D. Joana de Meneses, filha de D. Rodrigo de Meneses, Comendador de Grândola, Mordomo-mor da rainha D. Leonor e de D. Leonor de Mascarenhas. Desta união não resultaram descendentes.

Casou a segunda vez com D. Filipa de Ataíde, filha de Nuno Vaz de Castelo-Branco, Almirante de Portugal, Senhor do Bombarral, Alcaide-mor de Moura, Monteiro-mor de El-Rei D. Afonso V e da qual teve duas filhas.

Em 25 de Outubro de 1502, era hóspede de 2º Conde da Feira, no seu castelo, juntamente com os seus irmãos D. Fernando de Meneses, 2º Marquês de Vila Real e D. Henrique de Meneses.
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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa. Ed. QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História. Vol. V, 2007.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol XVIII, p. 886.

Brasões da Sala de Sintra , Anselmo Braamcamp Freire, Vol III, Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Molim e monilha


Molim
Vamos apresentar neste espaço mais duas peças-utensílios que caminham para a extinção e que se manterão, possivelmente, a nível de artesanato.

Têm uma função idêntica com a diferença de uma ser mais requintada na sua confecção e a outra mais simples.

Dão-lhe, pelo menos no concelho de Alcoutim, nomes diferentes para as distinguirem.

O molim, termo que não conseguimos encontrar nos vários dicionários que consultámos, é utilizado em passeios ou cerimónias de fundo distractivo ou cerimonial, enquanto a monilha, com aplicação idêntica, é utilizada nos trabalhos de campo.

Também não conseguimos encontrar tal termo, presumindo que seja importado do país vizinho, como acontece com outros igualmente usados por estas paragens mas que têm origem no outro lado do Guadiana e isto devido ao intercâmbio de trabalho que existiu nos séculos XIX até meados do seguinte, mais propriamente até à Guerra Civil.



Monilha
Os portugueses iam trabalhar para as “fincas” onde eram muito apreciados nos trabalhos cerealíferos pelo conhecimento que tinham deles. Depois dessas temporadas, regressavam a Portugal com alguns “duros” no bolso.

Em contrapartida, espanhóis vinham para Portugal trabalhar noutras áreas.

É natural que algumas palavras ainda sejam usadas e trazidas daquele país, o que possivelmente existirá no país vizinho e relativo a termos portugueses.

Estas peças são utilizadas em gado equídeo, principalmente em mulas e machos.

São feitas por albardeiros, hoje uma profissão em extinção, mas que em tempos foi muito rendosa, pois não havia falta de trabalho como hoje acontece.

Ambas eram confeccionadas com palha de centeio que comprimidamente enchia o molde feito em serapilheira que depois era reforçado em carneira.

Quando se tratava de um molim ou seja a monilha fina, havia, naturalmente, um embelezamento através de espelhos, em geral três, sendo um maior e os outros dois iguais, o aparecimento de borlas feitas de fio de lã de cores variadas e garridas e de enfeites confeccionados com o mesmo material e conforme o gosto do freguês e a habilidade do artista. Ainda que a base fosse sempre a mesma, naturalmente que a mão do artista dava-lhe um toque especial. No alto, era indispensável o embelezamento feito com cerdas seleccionadas da crina ou do rabo.

As barrigueiras e as tiradeiras faziam a ligação ao animal.

Uma carrinha puxada por uma mula aparelhada com vistoso molim equivalia hoje à apresentação de um Mercedes topo de gama.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pequena análise sobre a rubrica "Montes do Concelho - Vaqueiros"


Recanto típico do Monte das Ferrarias. Foto JV

As pequenas notas monográficas que temos publicado, praticamente, sobre todos os “montes” do concelho têm merecido, de uma maneira geral, aceitação e procura por parte dos nossos visitantes / leitores.

Dentro daquilo que valem as estatísticas e neste caso com um significado muito especial, pois só são contabilizadas as procuras específicas, verificámos que a maior tem ido para Ferrarias, monte subsidiário da Mina da Cova dos Mouros (2010.06.14), com vantagem considerável sobre Cabaços, o último monte por este lado da freguesia (2010.08.05).
 
A terceira posição é ocupada por Zambujal, um monte onde a oliveira foi rainha (2010.01.15).

Preguiças, um monte importante da freguesia de Vaqueiros (2010.01.06), ocupa a posição seguinte, sendo, segundo cremos, o monte mais populoso da freguesia.

Não deixa de ser curioso a posição ocupada seguidamente por Mesquita, monte despovoado da freguesia de Vaqueiros (2010.06.03) que apesar de estar desertificado há várias décadas e talvez por isso, é bastante procurado pelos nossos visitantes / leitores.

A rubrica possui actualmente 32 mensagens e as cinco mais procuradas foram todas “postadas” em 2010.

Por curiosidade, dizemos que o menos procurado, apenas 4 vezes, foi Madeiras, pequeno monte na margem da ribeira de Odeleite (2009.01.26)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"À la minuta"


 
O Escaparate de hoje tem a colaboração de uma assídua visitante / leitora praticamente desde o início deste espaço, já se passaram quatro anos.

Outras fotografias aqui publicadas tiveram a mesma origem, facto que tem enriquecido esta rubrica.

A única coisa que sabemos é que se trata de um grupo de alcoutenejos que admitimos ser originário dos montes do rio.

Chamou-nos a atenção o fundo da foto que representa grande “palácio”, painel da propriedade do “artista” que explorava o negócio e que foi muito usado até meados do século passado nas feiras que tinham lugar por todo o país. De cada um dos lados do painel, apesar da pouca qualidade da fotografia e da sua antiguidade, nota-se um tom mais escuro que presumimos ser do material com que se fazia o estúdio provisório que se montava e desmontava com facilidade.

Os figurantes, apresentando quase todos alguma juventude, em número de onze, são todos do sexo masculino e não será por este número que o indivíduo da esquerda segura com as mãos uma bola, hipoteticamente de futebol.

Reparámos também na existência de dois cajados, objecto de auxílio muito utilizado na época pelos alcoutenejos e que entre outras utilidades servia de meio de defesa.

Nos finais dos anos 60 ainda se viam bastantes, alguns vindos de Espanha, principalmente nas feiras e mercados da região.

Admitimos que a foto do grupo de amigos tivesse sido tirada na feira de S. Marcos, a mais movimentada de todo o concelho e praticamente a única existente nos nossos dias, pelo menos com alguma dimensão.

É mais uma fotografia” à la minuta”.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - XXXVIII




Escreve

Daniel Teixeira

 
O CONCEITO DE VIZINHANÇA

Algumas vezes tenho dito para mim mesmo ou a outros que a vida na cidade precisava de uma injecção de montanheirismo para que se tornasse um pouco ou muito mais humana nos relacionamentos. Não é que as pessoas sejam profundamente más nas cidades, naquele sentido diabólico e isto visto no sentido geral, mas existe um elevado grau de indiferença entre as pessoas, muitas vezes escudada na ideia de que «se não quer meter na vida dos outros» ou mesmo mais egoisticamente que se têm já problemas suficientes que são nossos para estar a carregar também os problemas dos outros, e mais coisas assim deste género.

Certo que a vida, na cidade ou no campo, é complicada e complicou-se com aquilo a que se chama de evolução mas o campo tem essa grande vantagem de as pessoas se aproximarem mais, tal como nas antigas relações de vizinhança que havia nas cidades e que eu sempre atribui aos ainda latentes efeitos da transição campo / cidade: ou seja e na minha perspectiva, as relações de vizinhança tal como as conhecemos nas cidades são tanto mais próximas quanto mais próxima for a chegada do campo.

Daí que hoje se recorde com alguma saudade os velhos tempos em que nas noites de calor as pessoas se sentavam às suas portas e se juntavam em círculos, umas vezes indo para um grupo mais abaixo na rua outras vezes vindo para um grupo mais acima ou para o seu, quer dizer, para a frente da sua porta, numa permuta que permitia um conhecimento sempre em dia dos eventos, umas vezes simpáticos, outras vezes não, mas normalmente de pouca duração no seu remoer.

Todos eles, os bons e os maus acontecimentos eram tratados à flor da pele, a titulo informativo, com alguns resquícios de aprovação ou desaprovação, mas tudo ligeiro que eu me lembre. As cadeiras, leves e práticas, para esse efeito eram facilmente transportáveis e havia sempre assunto para conversar e os miúdos, assim como eu era na altura, brincavam ali na rua, pouco distantes na sua grande parte, ou dando voltas a quarteirões em corridas mas por pouco tempo sempre.
 
Poiais de Alcaria Alta. Foto JV
No campo as coisas não eram bem assim, até porque talvez não precisassem de ser: as pessoas tinham, em Alcaria Alta, por exemplo, laços de família, em primeiro, segundo ou terceiro grau em grandes percentagens sobre o contingente geral e praticamente não havia informação para cruzar até porque o meio era pequeno e tudo se sabia em poucos minutos. Esta pequena diferença, que junta duas formas de estar, uma a informação imediata outra a informação mediata, era já uma característica do campo e da cidade e pré-anunciava já aquilo que se vive hoje em grandes parcelas das cidades.

Embora pudesse ser um resquício da mentalidade campesina, o tal juntar de cadeiras que aqui serve só de exemplo, era já ao mesmo tempo o meio possível, um meio intermédio, uma adaptação...por outras palavras, a prática existia mas o espírito afastava-se cada vez mais. Hoje sabemos o que se passa nas cidades, eu mesmo morei num edifício com oito inquilinos onde levei talvez cinco anos para os conhecer todos. Podemos dizer que a culpa era da situação e não exclusivamente minha: não posso tomar conhecimento com quem não se dá a conhecer e vice-versa.

Portanto e resumindo, por aquilo que sei as pessoas nos campos também se afastam entre si muito mais do que se uniam antes. Talvez a «partidarite» tenha irrompido também em terreno relativamente virgem e tenha também contribuído mas a própria relação mesclada «campo - cidade» não conserva os fortes alicerces mais tradicionais. Assim, e mais havia para dizer (muito mais) este problema acaba para mim por ser um problema global com o qual temos que tentar viver.

Ainda recentemente participei em iniciativas destinadas a contribuir para o renascimento e reavivar pelo menos basilar do espírito de vizinhança nos bairros urbanos e embora se possa dizer que não foi um «fiasco» esteve muito longe nos serus resultados daquele mínimo de adesão que seria expectável. Será triste ter de dizer isto mas mais do que procurar soluções utópicas que só nos desgastam emocionalmente, o melhor mesmo é tentar aligeirar os efeitos deste problema que contrariamente àquilo que cultivei durante anos, não é uma questão que se possa dividir entre montanheiros e citadinos. Trata-se de um problema humano, mundial, pelo que vou lendo noutros quadrantes geográficos.

Nós é que temos que nos adaptar à chamada evolução e saber bem que o crescimento tem custos misteriosos e incalculados.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Águas do meu contar

Numa edição de Campos das Letras e publicado em Outubro de 2002, o autor, Carlos Brito, um alcoutenejo que só não nasceu em Alcoutim, apresenta-nos uma colectânea de contos de sabor local dividida em cinco partes: Guadiana das Marés, Moço Rafael, À Tona de Água, A Pista do Guadiana e o Declínio do Templo.

São vinte e três as abordagens realizadas e que têm por base toda um vivência local e onde o grande rio do sul, o Guadiana, é parte fulcral com todas as surpresas em que é pródigo.

O trabalho que conta com 155 páginas de 13,5X 21 cm é dedicado aos amigos de infância João Dias, António Valério, Gaspar Santos e outros que viveram com o autor o que é histórico nestas estórias.

Foi uma oferta do autor valorizada com dedicatória que muito agradecemos.


domingo, 21 de outubro de 2012

O sapo, animal malquisto

Retirado com a devida vénia de (*)
Apesar de já se verificar uma melhoria acentuada, este anfíbio continua ainda a ser perseguido pelo homem que lhe atribui as mais inverosímeis façanhas como a de mamar nas tetas das ovelhas bebendo-lhe o leite.
Não há muitos anos, no concelho de Alcoutim, tentei convencer um homem, na altura, com cerca de trinta anos, que isso não era verdade, o que não consegui, pois acabou por dizer-me que já tinha visto isso várias vezes! Não se trata de nenhum analfabeto e até é considerado um bom profissional na sua área.

Se o sapo se distribui por toda a Europa, excepto a Irlanda e algumas ilhas mediterrânicas e por regiões asiáticas que chegam ao Japão, é vulgar em todo o país, aparecendo em grande número no concelho de Alcoutim onde o tenho visto.

O topónimo Sapo ou Sapos sós ou compostos são vulgares no país e derivam, naturalmente, deste anfíbio de que se conhecem imensas espécies.

Quando existiam fontanários nos montes e que alguns possuíam um pequeno reservatório na base que continha água, era vê-los à carreira dirigirem-se para lá quando a noite já ia longa nos meses de verão.

Por outro lado e também nessa altura, saíam das suas tocas, que durante o dia a pedra tornava fresca e com o seu passo lento e ritmado deslocavam-se para os lugares frescos, nomeadamente hortas devido à rega.

Era nesse ambiente fresco que procediam à sua alimentação constituída, principalmente, por invertebrados (moscas, centopeias. escaravelhos, borboletas, lesmas, minhocas).

Outro caso que conheço sobre a perseguição do sapo é o de um apicultor que dizia que os sapos lhe dizimavam o enxame. Na verdade, o sapo não sabe distinguir os insectos prejudiciais dos outros, o apicultor é que deve colocar os cortiços ou colmeias em posição que evite isso.


A captura das presas é feita pelo lançamento da língua pegajosa que é presa na boca pela extremidade anterior.

O seu aspecto na realidade não é muito atractivo, apresentando uma pele rugosa de cor variada conforme o ambiente onde vive, tem olhos com pupila horizontal e íris de cor de cobre ou avermelhada. A cabeça é grande e arredondada. Contra o que é habitual, as fêmeas são maiores do que os machos atingindo por vezes o dobro.

O acasalamento dá-se na Primavera e as fêmeas são atraídas pelo coaxar dos machos.

Retirado com a devida vénia de (**)
Os ovos não têm casca e são envolvidos por muco para a sua protecção e fixam-se com facilidade em pedras e plantas aquáticas. O tempo para o aparecimento dos girinos é variável, consoante o ambiente e pode ir de 5 a 18 dias.

Atingem a maturidade a partir do terceiro ano de vida e vivem entre 7 a 10 anos, embora possam viver 30 se estiverem livres de ameaças.

À noite, passeando por uma estrada, podem ver-se muitos sapos na sua tarefa de sobrevivência nas valetas, onde normalmente há mais fresquidão.

Várias vezes fui confrontado na minha horta com sapos que dificilmente se distinguiam do ambiente fresco que os rodeava, não se mexendo.

À saída de um monte, já decorreram uns anos, quando ia de automóvel, vi um sapo (certamente do sexo feminino) no meio da estrada de um tamanho descomunal. Nunca tinha visto uma coisa daquelas! Parei o carro para não o matar. Fui obrigado a dar umas buzinadelas para que desse um salto e me deixasse passar.
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3613/Sapo



sábado, 20 de outubro de 2012

Quadros da vida rural alcouteneja [5]



Escreve

M Dias


O LEITE DO PADRE

Foi por volta dos anos 59/60 que na nossa escola começou a ser distribuído um tal leite em pó (não recordo a marca), mas no monte era designado leite do padre ou leite da escola. Isto porque tanto quanto sei, era enviado para a igreja e daí distribuído pelas escolas.



Era-nos fornecido também um queijo de cor alaranjada e se bem me recordo em fatias grossas de forma triangular.

Aconteceram no início histórias cómicas com algumas mães a resistirem a não dar aquele leite e o queijo às suas crianças por desconfiarem de tais produtos! Leite em pó, e queijo alaranjado? Coisa completamente desconhecida por aquelas bandas! Queijo era branco, redondinho e de ovelha! Leite, em pó era coisa mesmo muito estranha. Bem, mas com o passar do tempo, alguma sensibilização e informação levada a cabo pela professora, lá foram aceitando a oferta e permitirem que os filhos os consumissem. Até porque, salvo uma ou outra excepção a criançada gostava e era mesmo muito agradável O queijo era (penso eu) holandês.



Passados mais de 50 anos, temos conhecimento que as escolas do ensino básico estão a assegurar o pequeno-almoço, e nalguns casos até o almoço a todas as crianças! Afinal, o nosso País continua pobre! Ou ainda mais pobre? Ou mais rico?
Actualmente os nascimentos de crianças são controlados, ao contrário dos anos 50! Agora há subsídios e vários incentivos! Material escolar oferecido, abono de família até aos 26 anos de idade se continuarem a estudar (uma miséria, entenda-se!) Mas, os pais, nesse tempo eram agricultores de subsistência, ou trabalhavam à jorna para patrões que pagavam quase nada. Estou cada vez mais baralhada! Alguém me explica, se possível com um desenho, como foi isto possível?

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lusofonias - 20 de Outubro de 2012


Pequena nota

É com todo o gosto que o A.L. publica a realização deste evento na cidade de OLIVENÇA.

JV

 
No próximo sábado, 20 de outubro, no Espacio para la Creación Joven, celebrar-se-ão as “Lusofonias 2012”, espaço cultural dedicado ao âmbito da língua e cultura portuguesas. O ato é organizado pela associação cultural oliventina “Além Guadiana”, em colaboração com a associação “Do Imaginário”, de Évora, e tem o apoio do Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças - Euroace e da Câmara Municipal de Olivença.

Com esta nova edição das “Lusofonias”, que vai ter um especial significado e simbolismo, a associação Além Guadiana continua a aprofundar na aproximação cultural entre Olivença e Portugal, e os outros países lusófonos, bem como na valorização da herança linguística, histórica e etnográfica portuguesa desta singular localidade.

Para além das actividades descritas no programa, depois da inauguração Além Guadiana vai ler um comunicado público relativo à possibilidade de os oliventinos e oliventinas adquirirem a nacionalidade portuguesa.

Para informação adicional

Eduardo Naharro-Macías Machado: 0034-667764470
Joaquín Fuentes Becerra: 0034-626566469

http://alemguadiana.blogs.sapo.pt/153012.html#cutid1

A albarda, a sela rústica para o trabalho


Sela grosseira, enchumaçada de palha, usada sobretudo em animais de carga. (1)

Sela grosseira cheia de palha, usada principalmente no lombo dos animais de carga. (2)

São duas das definições que obtivemos em dicionários e como tal são muito semelhantes.

É palavra de origem árabe, de al-barba`a ou al-barda`ã (3), mais uma que este povo nos legou.

Podemos acrescentar para uma melhor definição que esta peça é feita de uma espécie de serapilheira cujo molde é cheio atacadamente de palha de centeio. Para evitar a sua deterioração rápida é forrada na parte dianteira e na traseira com carneira o que lhe dá maior resistência. Por vezes e quando o freguês o pretende, esse reforço abrange toda a periferia.

Destina-se a ser usada nos equídeos de carga e sela como o burro e gado muar. No gado cavalar usa-se a sela, o que por vezes acontece com mulas ou machos destinados preferencialmente ao transporte de pessoas.

O princípio base da albarda é o que está definido, mas depende muito da habilidade do albardeiro e de quanto o freguês pretende gastar e isto tem a ver com o uso que lhe pretende dar, exclusivamente para o trabalho ou então para se deslocar a um local mais cerimonioso.

Apresentamos uma albarda de cerimónia toda embelezada com borlas de cores berrantes e cheia de pontos de lã ao gosto do artista e outra já muito usada e de trabalho, ainda que nesta não faltem as pequenas borlas de enfeite junto à carneira dianteira.

Naturalmente tinha que se saber qual o animal a que se destinava para que o modelo pudesse estar em consonância com o seu porte.

A albarda, além de funcionar como sela grosseira, protegia o animal perante as cargas que tinha de suportar, incluindo o usa das cangalhas.

De uma maneira geral leva um dia a fazer-se uma albarda. É cosida com fio de sisal forte e depois aplica-se a carneira e mais raramente o cabedal que é muito mais caro.

A arte de albardeiro caminha para a extinção pelo menos no concelho de Alcoutim.
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NOTAS

(1) – Dicionário Verbo, Língua Portuguesa conforme o Novo Acordo Ortográfico, 2ª Edição, 2008

(2) – Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa / Verbo, 2001.

(3) – Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1991 (?)
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Laranjeiras, pequena e airosa povoação à beira do Guadiana


Entrada norte da povoação. Foto JV, 2012.

Esta pequena e airosa povoação na margem direita do Guadiana, anexa muitas vezes em informação e por ser mais pequena, a que a antecede no sentido norte / sul, isto é, o Montinho (das Laranjeiras). Verdade seja que a distância que as separa, uns 300 metros, é bem curta.

A estrada municipal é ladeada de ambos os lados por algumas casas, notando-se o embelezamento das mesmas através de flores, principalmente gerânios.

Junto ao rio, as várzeas constituem bons terrenos para produção agrícola, nem sempre efectuada.

A actividade piscatória que deu de comer a muitas famílias tem declinado com o decorrer dos tempos e até porque as condições hidrológicas modificaram-se. A arte de pescar à colher, que aqui existia, está completamente extinta.

O forno comunitário suportado pela comunidade e a “Lutuosa” ainda existiam em meados do século passado, onde as conhecemos em actividade.

A Lutuosa pagava todas as despesas do funeral dos associados falecidos, excepto o serviço religioso. Secretário e tesoureiro eram eleitos até 15 de Janeiro. Defunto e acompanhantes tomavam o caminho do cemitério pela via fluvial, já que não havia estrada directa a Alcoutim como hoje existe. Estaríamos há meia dúzia de dias em Alcoutim junto ao cais velho onde chegam três lanchas, uma com o caixão e duas com acompanhantes, facto de que não estávamos à espera e que nos deixou admirado.

O topónimo “vegetal” é de fácil explicação e não admira a sua existência em tal zona.

Um aspecto da estrada marginal. Foto JV, 2012.

Em 1865 junto ao poço público que servia os montes de Laranjeiras, Casa Velha e Montinho, Manuel Pereira Roxo, proprietário de uma fazenda que lhe fica junto, resolve avaladá-la de pedra solta, o que estreitou o caminho que conduz ao poço, de tal maneira que é quase impossível passarem bestas com cargas. Resolve o povo reclamar junto da Câmara alegando que desde tempos imemoriais existe este poço com o seu competente tanque de onde o povo tira água para o seu serviço e dá água aos gados.

A Câmara, com o seu presidente, Paulo José Lopes e os vereadores, Dionísio Guerreiro (de Giões) e José Joaquim Madeira (da vila) foi ao local avaliar a situação e a pedido do povo.

Acabou por certificar que o poço em questão é antiquíssimo e foi feito em terreno livre e desembaraçado de paredes em redor, que é um poço público e não há muitos anos foi reparado à custa dos habitantes. Considerou que deve ser deixado um espaço de 3,12 m entre a parede e o poço. (1)

Com a energia eléctrica e após o 25 de Abril foi possível instalar quatro fontanários para distribuição de água.

Existiam cinco furos privados destinados à rega, mas consta-nos que em determinada altura salgaram, desconhecendo a actual situação.

Em 1883 havia um rossio no monte onde Paulo Pereira pede terreno para fazer uma casa (2) e em que actualmente existe um “campo de futebol”.

Neste monte e em casa de Manuel Cavaco, deu-se no dia 10 de Setembro de 1877 um acidente que resultou na morte de um homem.

Entre outras pessoas, encontrava-se um guarda da Alfândega de Faro e um marítimo de Mértola conhecido pelo Caxata, que desejando conhecer bem o revolver do guarda o esteve descarregando, mas inadvertidamente deixou uma bala na câmara e ao fazer rodar o tambor fê-lo com tanta infelicidade que a bala atravessou-lhe o peito, morrendo de imediato. O guarda foi preso e remetido ao Tribunal de Tavira com o competente auto. (3)

No dia 6 de Fevereiro de 1890 e como terra ribeirinha que é, foi encontrado na margem do rio o cadáver de um indivíduo do sexo masculino, já em estado de putrefacção. (4)

Em 1987 a Câmara consegue ver colocada uma antena no cerro da Grandaça (a que estava no Cerro da Castanha) que possibilitou ver então os dois canais de televisão, nos montes do rio. A R.T.P. durante a emissão do dia 30 de Abril pede que se informe das condições em que está a ser recebida a emissão. (5)

Tal como todos os outros montes do rio, Laranjeiras viu os seus arruamentos pavimentados em 1993.

É dos poucos “montes” do concelho que possui um pequeno restaurante que nos oferece alguns pratos regionais de peixe do rio e de caça, situando-se na encosta do cerro.
 
O pequeno "restaurante". Foto JV, 2012.

O velho cais vai ser substituído por um novo, cuja obra foi adjudicada por cerca de 1000 000 euros

O arranjo paisagístico comporta a criação de zonas de sombra e da instalação de um quiosque com sanitários, esplanada e parque de merendas de uma forma semelhante ao que existe nos Guerreiros do Rio.

Os trabalhos já iniciados devem estar concluídos em finais deste ano.

Apesar das transformações operadas que tem desvirtuado o seu casario, ainda se podem admirar algumas construções ao gosto antigo.

Em 1839 são-lhe atribuídos 20 fogos. (6)

No censo de 1991 apresentava 57 moradores e trinta e nove fogos.

Possui água ao domicílio e rede de esgotos desde 14 de Maio de 2010, sendo antigo o fornecimento de energia eléctrica.

Aspecto do antigo cais. Foto JV, 2012.

Em 1758, tal como os seus vizinhos do Montinho, Guerreiros do Rio e Álamo, pertencia à freguesia de Alcoutim mas ao termo de Castro Marim.
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NOTAS

(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 24 de Março de 1865.

(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 18 de Agosto de 1883.

(3) - Of. nº 151 de 12 de Setembro de 1877 ao Governador Civil dirigido pelo Administrador do Concelho.

(4) - Of. nº 22 de 7 de Fevereiro de 1890 ao Governador Civil, dirigido pelo Administrador do Concelho.

(5) - Informação prestada pelo Presidente da Câmara numa visita proporcionada ao concelho.

(6) – Corografia do Reino do Algarve, (anexo), João Baptista da Silva Lopes, Algarve em Foco, 1988 (edição fac-similada da de 1841).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

D. Francisco de Noronha, 2º Conde de Linhares (Antigo) e primo do 2º Conde de Alcoutim


Filho do 1º Conde de Linhares devia ter nascido por volta de 1507.
Sucedeu-lhe na casa e no título por renúncia de seu irmão mais velho, D. Inácio de Noronha.
 
Comendador de S. Martinho, do Bispado de Coimbra da Ordem de Cristo, Embaixador de D. João III a França no ano de 1540.
 
Foi mordomo – mor da Rainha D. Catarina.
 
Casou com D. Violante de Andrade, dama da Imperatriz D. Isabel. O casamento devia ter-se realizado em 1535, pois D. João III confirmou o contrato que teve lugar cinco anos antes e nessa altura D. Violante tinha apenas oito anos. O contrato recebeu o beneplácito de D. António de Noronha, Conde de Linhares e de D. Pedro de Meneses, Marquês de Vila Real.
 
D. Violante, que se julga ser cristã-nova, era filha de D. Fernão Álvares de Andrade, fidalgo da Casa Real, Conselheiro e Tesoureiro-.Mor do Rei, Cavaleiro da Ordem de Cristo, fundador do Mosteiro da Anunciada, da Ordem de S. Domingos e de D. Isabel de Paiva, filha de Nuno Fernandes Moreira, escrivão da Câmara de Lisboa e teria recebido avultados dotes.
 
Teve uma vida exemplar e faleceu a 13 de Junho de 1574, encontrando-se sepultado em Xabregas numa caixa de mármore no vão do altar-mor. Quarenta e seis anos após a sua morte, o seu corpo foi encontrado “inteiro, incorrupto e flexível pelo que foi posto nessa caixa em 1619, como refere o epitáfio.
 
Parece ter sido amigo de Camões.
 
Do casamento resultaram 13 filhos, entre os quais D. Fernando de Noronha que lhe sucedeu no título.
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História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi / Público, Academia Portuguesa da História, (fac similada),  Vol V, 2007

Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Edição Publicações Alfa, Vol. I p. 388, 1982

Wikipédia, a enciclopédia livre

Portugal – Dicionário Histórico (transcrito por Manuel Amaral) Vol. IV, p.213, Edição de João Romano Torres

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O burro, precioso auxiliar para a sobrevivência do povo alcoutenejo



Burra de Afonso Vicente
Como as coisas mudam quase sem darmos por isso!

Na década de 60 do século passado e mesmo na primeira parte da seguinte, no concelho de Alcoutim e em muitos outros do país, o burro ainda fazia parte de toda uma organização familiar rural como peça indispensável para a obtenção da sobrevivência do núcleo familiar constituído de uma maneira geral por prole dilatada. Ao núcleo original juntavam-se quase sempre os avós de um lado ou de outro quando já não podiam trabalhar. A existência de um idoso tinha grande importância no equilíbrio familiar, onde a sua presença impunha respeito e o seu conhecimento da vida era transmitido aos netos em estórias, parábolas, regras de conduta ou conhecimentos empíricos.

Estávamos no final do ciclo, pois a debandada dos montes dos jovens e homens em idade de trabalho já se tinha iniciado para as cinturas industriais de Lisboa e Setúbal a que se seguiu o litoral algarvio com o desenvolvimento do turismo, que ia recrutando os braços de que careciam.

Ao recuarmos no tempo (o concelho de Alcoutim foi aumentando de população até meados da década de 50 do século passado) ainda é mais notória a ajuda dos animais de carga e sela, com destaque para o burro, pois tratava-se do parente pobre dos equídeos, com vantagens para a sua fácil adaptação a terrenos ásperos, ao seu preço e manutenção mais acessíveis.


Burro das Ferrarias
A agricultura de subsistência praticada no concelho de Alcoutim onde as máquinas não podiam chegar por inúmeros motivos como económicos, vias de comunicação e acidentado terreno, entre outros.

Poucas eram as pessoas que não se dedicavam à agricultura de subsistência e isto em terrenos pobres como são os do concelho de Alcoutim constituídos à base de xisto.

O burro tinha várias funções. Como animal de sela transportava as pessoas aos sítios mais inóspitos devido à sua rijeza de unha. Levava as pessoas onde necessitavam de fazer os trabalhos ou a qualquer outro sítio onde precisavam de se deslocar, ao monte vizinho, à aldeia ou à vila. A existência dos rossios, espaços comunitários, possibilitava o seu “estacionamento” e onde existia quase sempre algo para o animal comer.

A “estalagem” na vila ou em Martim Longo destinava-se a gente mais endinheirada.

Os poços comunitários dos montes ficavam quase sempre um pouco afastados, pois enquanto os edifícios se situavam numa posição cimeira, estes ficavam nos vales onde beneficiavam das toalhas freáticas, facilitando assim a existência do precioso líquido, indispensável à manutenção do ser vivo.

Burra com cangalhas
Era ao burro que competia transportar a água desse local às residências, o que acontecia quase sempre a subir. Para o efeito eram apetrechados de cangalhas de ferro ou de madeira, para transportar os cântaros de barro ou de folha zincada.

Esta tarefa não era fácil e a água merecia uma atenção muito especial, não se podendo desperdiçar uma gota, tanto pelo trabalho que dava em obtê-la, como na sua escassez se se praticassem consumos exagerados, o que podia levar à sua falta, o que por vezes acontecia proporcionando grandes complicações e isto quando os anos vinham extremamente secos.

Quem possuía várzeas (localmente varjas) junto ao rio (Guadiana) ou às ribeiras (Vascão, mais escassas, Foupana, Odeleite e Cadavais ou junto a um barranco, inúmeros no concelho, procurava fazer lá um hortejo onde podia cultivar alguns mimos hortícolas indispensáveis à sua manutenção.

As várzeas do Guadiana eram ubérrimas, pelo que existiam proprietários que residiam a bastantes quilómetros de distância, mas que isso não os impossibilitava de as trabalhar.

Eram novamente os burros que transportavam os produtos lá criados, como marmelos, romãs, uvas (em zandilhas), figos, abóboras, batatas, couves, alhos, tomates, feijão e tudo o que lá colhiam. Sendo as distâncias longas, no Verão, aproveitavam para permanecer lá vários dias aplicados nessas tarefas, já que a dormida estava facilitada.

Também era este útil animal que transportava ensacada a azeitona que o proprietário colhia ora junto ao rio ora pelos cerros e barrancos onde existiam as oliveiras todas provenientes do enxerto em zambujeiros, acontecendo o mesmo em relação às amêndoas.

Outra das missões que lhe competia era o transporte do estrume para enriquecimento das terras e que era feito em gorpelhas. Quando se precisava de areia para qualquer construção era obtida junto dos barrancos e transportada por estes animais em gorpelhas e muitas vezes nisto havia a colaboração de familiares e vizinhos com vários animais para fazer face, rapidamente, às necessidades.

Mas não fica por aqui a preciosa acção do burro na vida alcouteneja de outros tempos. O lavrar da terra para as sementeiras era tarefa que lhe estava destinada e normalmente utilizada em parelha, mas também em carramate, puxando primeiro o arado de madeira e depois a charrua.

Ainda mais, o seu trabalho continuava pois após a ceifa tinha de acarretar para a eira os molhos do cereal para se proceder à debulha que tinha de se efectuar pisando circularmente a espiga de trigo que o homem completava com o auxílio do vento, já que as eiras se situavam, por isso mesmo em sítios elevados.

Também tinha de transportar a palha para o palheiro que era metida através do boqueirão e os sacos de trigo para o celeiro.

Quando era necessário farinha para cozer a amassadura semanal, lá tinha que ir o burro até ao moinho mais próximo, de vento ou de água, levar o saco de trigo para transformar em farinha.

Os agricultores tinham o número de burros conforme as suas necessidades e posses e muitas vezes possuíam gado muar. Este gado era bem mais poderoso e tinha origem no cruzamento de um burro com uma égua ou de um cavalo com uma burra e adquiriam características dos seus progenitores. Até nisto o burro era necessário.

Jumento, jerico e asno são outros nomes que lhe dão, mas no concelho de Alcoutim só lhe ouvi chamar burro.

Burra da Preguiça
A sua origem parece estar ligada ao Egipto e é desde tempos imemoriais utilizado nas tarefas agrícolas e para transporte. Dizem os entendidos que teria surgido na Europa no quinto milénio antes de Cristo tendo-se expandido por todo o continente.
Apesar da sua origem ter lugar em regiões semidesérticas, adapta-se bem a outras condições climatéricas e a vários tipos de terreno. É um animal que gosta de companhia mesmo de outras espécies. Sofre quando está sozinho.

Palha, feno e ração constitui a base da sua alimentação, com reforço natural em épocas de maior trabalho. Água limpa e abundante.

As refeição devem ser ministradas duas a três vezes por dia.

A arramada é o seu lugar de recolha e abrigo.

Requer cuidados com o tratamento dos cascos sendo necessários nestes terrenos a colocação de ferraduras e daí o grande número de trabalhadores nesta arte.

Além das feiras locais, principalmente na de S. Marcos, na aldeia do Pereiro, os alcoutenejos desde tempos recuados procuravam as afamadas feiras de gado do Baixo-Alentejo com destaque para a de Almodôvar, Castro Verde, Garvão e Aljustrel para efectuarem as suas transacções. A Câmara de Alcoutim chegava a adiar as suas sessões quando coincidiam com estes eventos.

É preciso atender que a circulação destes animais estava sujeita a uma licença de imposto de trânsito, paga adiantadamente e que tinha lugar durante o mês de Janeiro. Os animais de carga e sela de raça asinina, como era o caso, pagavam por ano 15$00 e se optassem pelo pagamento semestral era de 10$00 cada.

Quem tivesse terrenos agrícolas podia requerer a isenção em papel comum e no caso de ser aceite tinham de adquirir um cartão-impresso que custava 2$50 (Título de isenção de imposto de trânsito) que servia para vários anos desde que fosse regularizado anualmente na Repartição de Finanças. Se a memória não nos falha, isto foi abolido durante o Governo de Marcelo Caetano.

Primeiro a desertificação do concelho depois a mecanização da agricultura e o desenvolvimento das vias de comunicação e dos transportes retiraram utilidade aos asininos, encontrando-se em vias de extinção em muitas zonas do país, sendo Alcoutim uma delas.

Burra das Madeiras
Se existem montes em que já não há vivalma, há muitos em que ainda há gente mas os burros desapareceram.

Se a maior parte dos idosos já sente dificuldade em tratar de si, muito menos seria capaz de tratar de burros que já não lhes servem para nada.

Há, já nos esqueciamos, os idosos contrariamente ao que muitos possam pensar, estão capazes de fazer um pezinho de dança e requisitam um “tocador” de corridinhos e outras músicas mexidas!

Em 1979 segundo estatísticas oficiais, no concelho de Alcoutim ainda existiam 1139 burros, ocupando no Algarve a 4ª posição, pois Loulé tinha 1540, Tavira 1520 e Silves 1428. (1)

Actualmente não sabemos mas calculamos que o seu número não ultrapasse 200.

Naturalmente que os burros têm de acabar primeiro do que as pessoas.

Como é que os alcoutenejos de antanho conseguiriam sobreviver sem o auxílio precioso do burro?
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NOTA

(1) – “Um ex-libris” da região: Burro algarvio caminha para a extinção?”, José Lança, Jornal do Algarve de 13 de Fevereiro de 1986.