sexta-feira, 30 de outubro de 2009

História de Portugal, Vol. III [1495-1580]



Para dar corpo ao Escaparate de hoje temos o III Vol. da História de Portugal, de Joaquiim Veríssimi Serrão, Editorial Verbo. De formato idêntico aos anteriores, é constituído por 475 páginas.

Este volume aborda O SÉCULO DE OURO.

Nele encontramos duas referências a Alcoutim, como vamos indicar:

Pág. 215

Reforma de foraisO notável esforço legislativo acabaria em 1519, com os forais de Alcoutim, Azinhoso, Celorico de Bastos e Lavre.

Pág. 312

Moinhos e azenhas
A existência de engenhos hidráulicos de 1495 a 1580 pode assentar-se com predominância: (…) ; no Algarve (Lagos, Faro, Loulé, Tavira, Alcoutim. Tratava-se somente de moinhos e azenhas, mas havia também casos de pisões, de moinhos de vento e de moendas para azeite e pão.


O volume foi publicado em 1978.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Futebol em Alcoutim em 1964



A Câmara Escura de hoje apresenta uma equipa de futebol. Foi tirada em 12 de Setembro de 1964 no Campo da Fonte Primeira, hoje incluído nos terrenos de apoio à praia fluvial.

Como se vê pela data, nessa altura realizava-se a Festa Anual da Vila e era tradicional haver sempre um encontro de futebol entre a equipa do 1º de Dezembro, hoje Grupo Desportivo de Alcoutim e uma de naturais do concelho que nunca deixavam de vir assistir à sua Festa.

Ainda conheci essa tradição, não sabendo se ainda se mantém.

Neste ano os naturais do concelho que estavam fora perderam por três a um com a equipa local.

Os “naturais” estão aqui representados e são os seguintes: De pé, da esquerda para a direita: Olímpio, Fernando Fernandes, Manuel Rafael, António Barão, Gaspar Santos e Virgílio Gonçalves. No primeiro plano e pela mesma ordem: José Teixeira, Álvaro Fernandes, António Teixeira, N N e Eleutério Veríssimo.

É uma fotografia histórica e que amavelmente nos foi cedida pelo colaborador deste blogue, Eng. Gaspar Santos que fez parte da equipa.

Não foi possível identificar um dos elementos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Igreja de Nª Sª da Conceição, Matriz de Martim Longo

[Igreja Matriz, 2007. Foto de JV]

Foi sede de priorado, tendo três igrejas curadas anexas, que foram Giões, Vaqueiros e Cachopo. (1)

É o templo do concelho sobre o qual, e em consequência do seu valor, mais se tem escrito, sendo o único considerado como Imóvel de Interesse Público (Decreto nº 47508, de 24 de Janeiro de 1967), o que é significativo.

É lamentável verificar que depois da publicação do diploma, sofreu acções que lhe limparam elementos de valor histórico e iconográfico.

Silva Lopes, (2) considera-a a mais antiga destes arredores e Correia de Azevedo (3) diz que não há como esta, outra em toda a área do concelho.

O douto Prof. Pinheiro e Rosa refere-a como antiquíssima, embora se encontre modernizada por partes. (4)

Desconhecendo-se a data da fundação, é construção de raiz gótica mas muito obliterada (5), conservando poucos elementos artísticos da primitiva construção. Exteriormente destacam-se as portas góticas, a principal de um só colunelo e a lateral mais simples (6) e os seus botaréus semicilíndricos, três em cada uma das paredes laterais, (7) de um tipo pouco comum na arte portuguesa.

Tem semelhanças com os da ermida de S. Brás, em Évora, dos finais do século XV, considerada protótipo de arte gótico-manuelina-mudéjar (8) e com as matrizes de Espírito Santo (Mértola) e Santa Cruz (Almodôvar). (9)

[IGreja Matriz, desenho de JV.]

As duas portas góticas e os contrafortes teriam (terão) talvez uma longa história para contar, segundo observa Victor Adragão. (10)

A fachada principal é muito estreita. Sobre a porta de pedraria e a que já nos referimos, uma janela de verga trabalhada, que ilumina e areja o templo. Este janelão teria sido feito em meados do século XVIII.

Sobre o bico da empena, uma interessante cruz de ferro forjado.

O portal situa-se a um nível bem abaixo ao da rua.
A torre sineira é saliente da fachada. A cúpula, sobre a qual é hábito nidificarem as cegonhas, apresenta dois fogaréus. É de seis olhais, dois em cada uma das faces anterior e posterior e um em cada uma das laterais.

Os dois sinos, antes de 1943, tinham as seguintes imagens e inscrições: (o maior) - imagem de Nª Sª da Conceição e uma cruz / Nossa Senhora da Conceição e Martim Longo / Manuel António da Silva filho Lxa Anno de 1865, (o menor) uma cruz, uma inscrição ilegível com a indicação da fábrica e esta INS Maria José Anno de 1787. Ambos estavam rachados e conta-se do menor uma curiosa lenda.

Tocou pela primeira vez no baptismo de uma criança que cresceu, se fez homem e viveu noventa anos. No dia em que estava dobrando pelo seu falecimento, rachou.

Em 1943, sendo pároco o Padre Júlio Alves de Oliveira, foram feitos novos sinos, dando-se em troca os dois velhos e mais 1.202$95, saldo de uma festa de 1942.

O maior, com 146 kg, apresenta uma cruz e uma custódia e chama-se de Nª Sª da Conceição. O menor, com 90 kg, é de São Marcelino. Foram fabricados na Fundição Nova Lusitânia, de H. S. Jerónimo - Ermesinde.

Ambos têm uma inscrição que diz:- Fundido e Sagrado em 1943. Foram padrinhos do sino grande, o Senhor Tenente - Coronel, João Cândido Figueiredo Valente e a Senhora D. Maria Isabel do Carmo Ricardo Ildefonso, do pequeno o Senhor Artur de Moura e a Senhora D. Isabel de Freitas.

[Igreja Matriz, 1990. Foto de JV]

Às dez e quinze do dia 5 de Setembro foi colocado na torre o sino grande pelos seguintes martim-longuenses:- Augusto Soares, Manuel António, António Luís, José Gomes, António Brás, Matias da Conceição e Manuel Brás. (11)


Em 1534 já aparece um campanário sobre a porta principal, só com um sino e que os moradores da aldeia mandaram fazer à sua custa. Trinta e um anos depois está aberto pelo meo e despegado (...) da parte da igreja, muito perigoso e situam-no da banda do norte pegado com a parede junto à porta principal. Tem nesta altura dois sinos, um de bom tamanho e outro pequeno, mas ambos bons.

É recomendado o seu arranjo por estar perigoso e para cair. (12)

Em 1518 a igreja tinha sido feita de novo pelos moradores da aldeia e seu limite e às suas custas. Já era de três naves, a única assim em todo o concelho. (13)

As naves são separadas por quatro arcos ogivais, de cada lado, assentes em colunas de pedra, muito baixas, com capitéis tronco-piramidais invertidos, muito sóbrios e simples, predominando os elementos geométricos. (14) São elementos dos primórdios da construção.

Os arcos são de tijolo e as colunas de pedraria.

As três naves dão ao templo um ar seguro e acolhedor. (15)

Em 1565 encontrava-se madeirada de castanho, forrada de canas e he toda a dita igreja bem ladrilhada. (16)
O pavimento em soalho já estava muito estragado em 1946. (17)

Há referência a um altar de alvenaria dedicado a São Luís, do lado do Evangelho e na banda da Epístola existe outro, de Nossa Senhora da Graça, com o Menino Jesus nos braços, isto em 1565.

Em 1712 tinha seis altares a saber: o mor, com o Santíssimo, dois colaterais, sendo um o de Nª Sª da Assunção e mais três laterais, São Luís e Almas, Santo António e São Brás, afinal os mesmos que tinha em 1946.

Os retábulos dos altares eram em estilo renascença, do século XVII ou anteriores. O de Nª Sª da Assunção tinha sido feito entre 1681 e 1684, sendo da mesma época os de São Luís e de Nª Sª do Rosário.

Em 1518 a igreja tem a capella (mor) deribada (...) a quall hade ser feyta aa custa do Bispo e Cabydo de Sylves e do comendador e em 1534 ainda assim se mantinha mas em 1565 já estava feita, de alvenaria, abobadada, com dois arcos de pedraria feitos em cruz com chave também de pedra. Altar também de alvenaria. Retábulo de cinco painéis e pintura a óleo.

Arco cruzeiro de pedra e nas paredes pinturas, entre elas representando Nª Senhora e S. João.
As paredes laterais da capela-mor foram azulejadas, painéis posteriormente colocados na fachada principal do desaparecido cemitério da freguesia. (18)

Há notícia de que o prior de Martim Longo, Nuno Rijo de Sousa, fundou um vínculo em capela na igreja, o qual por sua morte deixou a seu sobrinho, filho de sua irmã, Margarida Baptista de Sousa, de Portimão, o Dr. Diogo Mascarenhas de Figueiredo, cónego da Sé de Faro, arcediago de Lagos, e que foi vigário-geral do Bispado do Algarve em 1685 e também prior de Martim Longo por renúncia que nele fez o referido Nuno Rijo de Sousa.

Diogo de Mascarenhas era comissário do Santo Ofício em 1665 e morreu em Faro em 1696.

Mandou reconstruir à sua custa, segundo uma inscrição nela existente, a há muito profanada ermida de São Cristóvão, situada nos arredores de Faro. (19)

Era filho de Diogo Martins Mascarenhas, Senhor do Morgado de Quelfes, moço fidalgo, dizem que capitão - mor de Faro e da dita senhora. (20)

O templo, em meados do século XVI, tinha um bom púlpito de madeira de pinho.
A pia baptismal, ainda existente, é dos primórdios do templo e uma das suas peças mais valiosas, com o pial decorado de carrancas. Em 1518 diz-se que tem hum pyar de pedra muito boõ.


[Imagem de Nª Sª da Conceição]

Presentemente, na capela-mor encontra-se a imagem da padroeira, Nª Sª da Conceição. Na base, apresenta uma serpente mordendo uma maçã e os crescentes da Lua. Sobre a mão esquerda está o Menino de vulto perfeito. Nos dias festivos usa coroa de prata.

Imagem pintada, dourada e estofada, está em bom estado de conservação e é exemplar de muita qualidade, segundo os especialistas. Sofreu arranjos em 1607, 1661 e 1754.

Além desta imagem encontra-se a de Cristo Crucificado sobre cruz de madeira, cujas extremidades apresentam decoração em talha. Estando em bom estado de conservação, tem alguma qualidade. (9)

Segundo Álvaro Pais (pseudónimo do prof. Pinheiro e Rosa) onde a igreja é verdadeiramente rica é na indumentária e na ourivesaria.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565 aparecem referidas várias vestes sagradas e roupas de altar.

[Interior da igreja. Foto JV.]

Na Exposição de Arte Sacra realizada em Faro, em 1940, foi apresentada uma casula do século XVII. O fundo é de seda rosácea brochada com fio de prata e sedas de várias cores. O sebasto central tem ramos, frutos e pinhas estilizadas. Os laterais, ramagens, flores e escudetes. A forma da casula é muito análoga com as orlas quase direitas. Abertura para a cabeça muito pequena.

Possuía também duas dalmáticas de veludo carmesim e outras duas também de interesse e de damasco branco. Mais uma casula de damasco verde, possivelmente do século XVI e outra de seda branco, bordada a matiz que também figurou na referida Exposição.

Assim a descreve o prof. Pinheiro e Rosa: ”Ao fundo, um florão com uma cercadura de ramagens e flores, fechadas numa moldura circular. O resto do fundo é composto de folhagem verde, fina, com vários tipos de flores estilizadas. Tudo isto é envolvido por uma larga orla em que um tronco sustenta alternadamente palmetos amarelados e tufos de folhas verdes, donde saem rosas singelas e seus botões.

Nos lados mais curtos, estes ornatos, em vez de sobrepostos, ladeiam-se mutuamente. As sanefas dos lados maiores são de três tipos: ornato em leque com enrolamentos; cornucópia com flores; e flor com folhagem (três de cada). As dos lados menores são também de três tipos: rapaz com ramagens, cornucópia com flores e flores com folhagem.

Rectangular, é pálio para seis varas.” (4)

Uma cruz processional que igualmente figurou na Exposição de Arte Sacra. Tem 0,87 X 0,35 m. Foi comprada em 1753 e custou 124$720, tendo sido reparada em 1800.

De prata branca lavrada, eis como o Prof. Pinheiro e Rosa a descreve:- Uma coluna canelada, à qual se segue o nó ovalado, em que há, entre ornatos, diferentes ovais com símbolos da Paixão - coluna e esponja, bolsa de Judas, escada e lança, cruz e flagelos. A esta parte, segue-se uma truncatura de pirâmide fantasiada, tendo por ornatos cruzes de braços iguais e mais símbolos - dados, coroa de espinhos e cravos, martelo e torquês, escudo com as cinco chagas. Por cima, um ático donde parte a haste maior da cruz. Os ornatos geométricos são autênticos do século XVII. As hastes terminam em esferas. O Cristo tem coroa de espinhos separada e o resplendor é maciço.

Como utensílios de altar, dois cálices, um do século XVII, de prata dourada, com a altura de 0,24 m e outro também de prata dourada mais relevada, muito elegante. Tem o pé e a base recortados e divididos em três secções. Parece ter sido comprado em 1799, em Lisboa.

Uma custódia-cálix de prata dourada, do tipo templete, com ornatos do século XVII. Segundo Pinheiro e Rosa, já existia em 1620.

Também de referir é um cofre para guarda do Santíssimo - uma arqueta de prata branca lisa com cabeças de anjos nos pés e na base da cruz. Já existia em 1808.

Nas visitações de 1518, 1534 e 1565, da Ordem de Santiago, são referidas bastantes peças de ourivesaria, cálices, custódias, turíbulos, cruzes, etc. e paramentos que foram desaparecendo algumas vezes por troca com novos como se poderá verificar nos textos, mas nem sempre terá sido assim.

Em 1565 o prior era obrigado a dizer missa ao povo todos os domingos e festas de guarda do ano e administrar os Santos Sacramentos aos fregueses.

[Torre sineira. Foto JV.]

Tinha como “mantimento” em cada ano, um moio de trigo, quatro mil reais em dinheiro e ainda o pé de altar da matriz e das anexas que eram, como já se disse por várias vezes, Giões, Vaqueiros e Cachopo.

Existiam três confrarias: a do Santíssimo Sacramento, com bom rendimento, bastante para os seus encargos, a do Rosário e a das Almas que pouco tinham para se manter.

Como era hábito, no adro da igreja, enterravam-se os defuntos, tal como acontecia no seu interior para os mais endinheirados.

No primeiro quartel do século XVI, o mordomo recebia por cada sepultura nova trezentos reais e por vez que se abria para os herdeiros, mais trinta. (13)

Tinha a igreja, por estas alturas, mais 17,5 alqueires de trigo proveniente de foros de quatro herdades e umas casas junto dela em que se guardavam diversos utensílios.

Serão estas casas possivelmente as mesmas que possui no Largo da Igreja, um prédio com três divisões e de 60 m2 de área coberta, que se encontra inscrito na respectiva matriz sob o nº 260.

Sabe-se que por testamento de 2 de Janeiro de 1881 uma devota deixa a Nª Sª da Conceição, orago da matriz, uma cerca denominada do “moinho” cujo rendimento será aplicado no culto da mesma Senhora.

A matriz predial regista ainda hoje uma cerca no sítio do “montinho” em nome da Junta de Paróquia. Pensamos que se tratará da mesma cerca já que o topónimo se pode confundir.

Segundo as Memórias Paroquiais (1758) (12) A Igreja deste lugar que he o único e maior edifício que nelle há não padeceo ruina nem dano algum no terramoto de 1755.
Em 1862 a Junta de Paróquia requer à Câmara que lhe aprove por meio de Postura a derrama de 200 mil réis a lançar sobre os fregueses, para se fazer “hum telhado novo na Igreja Paroquial”, o que a Câmara veio a acordar. (21)


Pequena nota

O presente “post” é tirado totalmente da 2ª Edição (em preparação) de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) pelo que as notas aguardarão uma hipotética edição

domingo, 25 de outubro de 2009

Barril para água



Ainda que já mutilada pelo grande uso a que foi sujeita, era em meados do século passado uma peça indispensável na altura das ceifas, quando o calor se fazia sentir e a sede apertava.

Este tipo de infusa tinha neste caso duas asas, uma já desaparecida e servia para levar do poço mais perto para junto do trabalho o precioso líquido a fim de compensar o que ia saindo através da transpiração.

Quando havia um moço pequeno era um serviço que lhe competia, o de ser aguadeiro do pessoal.

Há muito que a ceifa nas searas deixou de ser feita por este processo manual e de grande violência física para homens e mulheres, já que é feito mecanicamente.

Se ainda existem foices, o que é um facto, já poucos sabem trabalhar com elas e são usadas para pequenos trabalhos como ceifar erva para os animais domésticos.

Mais uma peça de museu que possivelmente não existirá no concelho de Alcoutim.

sábado, 24 de outubro de 2009

Igreja da Misericórdia

Classificamo-la de igreja para respeitar a origem pois presentemente não passa de uma simples capela.

Quando a conhecemos já lhe tinha sido amputada a sacristia, que com a casa de despacho e a residência do andador formaram o hospital.

Situa-se na Rua D. Fernando próximo da Praça da República.

[A Igreja da Misericórdia em 1967]

A fundação do templo parece ser anterior a 1513 visto no interior existir uma pedra sepulcral com a seguinte inscrição:- SEPULTURA DE MARTIM VILÃO E DE SUA MULHER (E) HERDEIROS - ERA DE 1513 - O PRIMEIRO SEPULTADO NESTA CASA. PADRE NOSSO - AVÉ MARIA. Contudo, na visitação de 29 de Dezembro de 1565, da Ordem de Santiago à Igreja de São Salvador, matriz da vila, diz-se:- Diante deste altar na mesma nave está huma capella d´ abobada (...) madeirada de duas ágoas (...), a qual capella foi a capella moor desta igreia e agora servem-se os irmãos da Misericórdia della por não terem casa feita nesta vila. (1)

Fica aqui patente uma contradição, parecendo que a “casa” já existia antes de 1513.

Na fachada lateral que dá para a Rua da Misericórdia, uma porta rectangular, agora englobada na Conservatória de Registos e Notariado, torna-se curiosa devido ao lintel de pedra que tem a seguinte inscrição: ESTA OBRA MANDOU FAZER AFONSO MADEIRA CORVO FAMILIAR DO SANTO OFÍCIO 1628, em letra usada nas inscrições portuguesas desde meados do século XV.

O templo é muito simples e pobre. Não se encontram nele quaisquer motivos de uma construção manuelina. Telhado de duas águas e de telha de canudo. Teve planta rectangular sendo o comprimento superior ao dobro da largura.

Fachada de empena de bico sem motivos de interesse. No topo, uma cruz simples de ferro forjado, certamente obra de artesão local. Nas extremidades e alegrando-a, trabalhos de argamassa de forma piramidal.

Não existe torre sineira mas possui pequeno sino sobre a fachada lateral esquerda. Tem a seguinte inscrição:- // SANTVS // SVPRE //VEN // ESPRITVS // I. T. F.

A porta principal é rectangular e de ombreiras carcomidas pelo decorrer dos séculos. Na verga e ao centro, pequena inscrição circular. Por cima, abre-se uma janela rectangular servindo o comprimento de ombreira. Areja e ilumina o templo.

Além da pedra sepulcral já referida, existem mais duas, a do sargento-mor da vila, José de Brito Magro que foi durante muitos anos provedor da Santa Casa e a de sua filha, D. Ana Jacinta Roza, falecida em 1808.

[A Igreja da Misericórdia num desenho de J.V., 1967]

O epitáfio da primeira é do seguinte teor: "Aqui jaz / o cap am mor J e de B ro / Magro da V a de Alc tim / Quase Perpetuo Pr vor / desta Caza dur te / sua vida e q mais / se exmerou em prom ver / as fellecid es della / faleceo no dia 12 / de Maio de 1824 / P e N o A e M a"

Em 1768 tinham sido decorados o púlpito e a tribuna e mais tarde os santos são encarnados de novo. A decoração é de tipo marmóreo.

Em 1789 sabe-se que existiam vários paramentos, um cálix, um missal, uma estante para o mesmo, turíbulo de prata, quatro castiçais de pau preto, um caixão de sacristia, móveis da sala de despacho e as imagens de Santo Christo, Nº Senhor, São João Evangelista e de “Magdalena”. Destas, só restavam três, a de Cristo, Nº Senhor e de São João (imagem de roca setecentista). Um crucifixo de trono e outro que também serve a tumba, são da mesma época e de madeira grosseiramente pintada.

O exemplar de ECCE HOMO é considerado pelo Dr. Francisco Lameira de boa qualidade e em bom estado de conservação. (2)

O altar era separado do resto da igreja por um arco triunfal onde estavam pintadas as armas de D. João VI e a era de 1819.

A quando da cheia do Guadiana de 1876, ficou muito danificada, tendo sido fechada ao culto. As imagens foram recolhidas na igreja matriz.

Em 24 de Dezembro desse ano reúne-se a Irmandade na sacristia da Real Capela de Nossa Senhora da Conceição. Aberta a sessão, o provedor, Justo António Torres faz saber que, visto os parcos fundos da Santa Casa para os gastos que tem de fazer na mesma, em virtude dos distúrbios causados pela cheia nos dias 6, 7 e 8, achava muito justo que se dirigissem a todas as Santas Casas da Misericórdia do Reino, solicitando uma esmola a fim de minorar os males que a mesma sofreu; o qual foi aprovado e resolveu-se enviar circular a todas as Misericórdias.

Em 16 de Abril de 1877, a Irmandade volta a reunir no mesmo local e por convocação do mesmo provedor que lhes fez saber, achando-se em S. Domingos o visconde do mesmo título, (3) se deveria recorrer à sua filantropia pedindo-lhe, por meio de uma comissão, esmola para os fins da pronta reedificação da Santa Casa, o que por todos foi aprovado.

Algumas congéneres enviaram as suas esmolas, sendo a de Moncarapacho a única do Algarve que o fez.

Por acórdão de 4 de Abril de 1878, a Irmandade negou-se a contribuir para a quotização efectuada dois anos mais tarde a favor da Igreja Matriz, também danificada pela inundação, alegando ter ela mesma de contrair um empréstimo para reparar o indispensável na sua igreja que está ainda sem soalho e outros reparos urgentes a fazer para ser aberta ao culto.

A reabertura verificou-se em 18 de Janeiro de 1880, tendo isso ficado decidido em reunião da Irmandade realizada a 28 de Novembro do ano anterior. Ali ficou determinado como tudo se processaria e assim foi cumprido.

A missa foi acompanhada por música vocal e instrumental, havendo Te Deum. Colaboraram na festividade o Rev. Prior e Ajudador da vila, priores de Giões e Pereiro e Cura de Sanlúcar.

[A Igreja da Misericórdia. Foto J.V., 2009]

Em Março de 1885 é convocada a mesa para saber se havia fundos para pintar a capela da igreja. Parece que efectivamente a obra foi realizada, como se depreende da seguinte inscrição:- ESTA RECTIFICAÇÃO DE PINTURA MANDOU FAZER O PROVEDOR MANOEL A. TORRES E A MESA QUE SERVIU EM 1885. A inscrição concluía com E FEITA POR JOÃO S. LEIRIA.

Toda a parte interior do templo foi destruída em 1973/74 com as obras do Centro de Saúde que ocuparam espaço importante da igreja, transformando a sua planta que era rectangular em praticamente quadrada.

Todo o altar desapareceu, rolando o brasão de armas de D. Afonso VI num monte de entulho e que acabou por ser recolhido por uma senhora cujos familiares eram oriundos da vila.

As pedras sepulcrais foram removidas para outro local e as sepulturas profanadas tendo uns brincos vermelhos de D. Ana Jacinta rendido vinte escudos ao seu achador!

O chão estava repleto de sepulturas e assisti ao levantamento de uma delas que estava colocada mesmo junto à parede lateral e um pouco acima da porta. Além do mais, levantou-se a cabeça, os pés e as mãos, em barro daquilo que suponho ser uma imagem religiosa.

Antes do camartelo entrar em acção, o alcoutinense Luís Cunha pretende evitá-lo mas o seu alerta lançado num semanário (4) não resultou.

Em 7 de Julho de 1918 é benzida com toda a solenidade a imagem do Senhor dos Aflitos, tendo a missa desse mesmo dia sido dita por alma dos nossos soldados mortos heroicamente no campo da batalha (Guerra Mundial de 1914/18), pedindo ao mesmo tempo à Rainha Santa Isabel que implore ao Altíssimo o termo do terrível flagelo da conflagração europeia.

Enquanto a matriz esteve em ruína, foi este templo que a substituiu.

Já há muito que só serve de casa mortuária.



NOTAS

(1) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987.

(2)-A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX.

(3)-Trata-se do 1º Visconde de Mason de S. Domingos, o súbdito britânico, James Mason, concessionário da Mina de S. Domingos. Foi elevado a este título por Decreto de D. Luís de 7 de Dezembro de 1868.

(4)–“Irá perder-se a vetusta Igreja da Misericórdia de Alcoutim?” in Jornal do Algarve de 22 de Setembro de 1973.

N.I.-A maioria das referências feitas teve por base os livros de actas, despesas, inventários e outros da Santa Casa. Na altura não pensava publicar algo sobre o assunto; movia-nos só o gosto de conhecer e daí não termos feito as competentes referências nos nossos apontamentos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

NRP CUNENE



Foto que tirei em 1975 a este navio da República Portuguesa que pertenceu à classe Cacine.

Aumentou o efectivo dos navios da Armada em 6 de Junho de 1969.

Como navio-patrulha desempenhou missões de busca e salvamento, fiscalização da pesca em todas as zonas náuticas do Continente e outras.

Tinha a matrícula P. 1141 e foi abatido em 1985.

Esteve várias vezes atracado ao Cais de Alcoutim, principalmente na altura das Festas da Vila e possibilitava a sua visita a quem o desejasse fazer.

Esta fotografia por erro de composição faltou inserir na página 151 do nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), 1985.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O corte de carnes verdes na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO, Nº 61, DE MARÇO DE 2004, P.IV, ENCARTE DE "O ALGARVE" Nº 4785)

A vila de Alcoutim não possui qualquer talho fixo, ainda que tenha há muito mercado municipal, onde quase diariamente funciona a venda de peixe fresco e de espaço a espaço, frutas e hortaliças.

Há trinta anos matava-se em qualquer quintal, de vez em quando uma cabeça de gado, normalmente ovino, que se adquiria nos chamados talhos da vila.

Hoje a vila é abastecida por um talho móvel que aparece aos sábados de manhã e onde as pessoas formam fila.

Mas não é sobre o actual abastecimento de carnes verdes à população que queremos escrever, mas sim sobre o que se passava na vila na segunda metade do século XIX.

Em 1836 cada pessoa que matasse na vila, pagaria por cabeça, vinte réis, satisfazendo assim o imposto Real de Água.

Achando-se o açougue em estado absoluto de ruína e carecendo de ser reparado, mas não havendo fundos para o efeito, acordou a Câmara em estabelecer um imposto, aplicado exclusivamente para a conservação e reparos do mesmo açougue, mandando que se observe o seguinte: - “Todo o indivíduo que vender carne ao público sem ter antes manifestado e pago 40 réis por cabeça abatida, aplicados para reparação e conservação do açougue, terá de multa quinhentos réis.”

Esta postura compreende não só o gado lanígero e de cabelo, assim como o suíno e começará a vigorar no 1º de Novembro próximo futuro, em diante. (1)

Em 1844 a Câmara Municipal decide pôr à arrematação o Corte Exclusivo de Carnes Verdes no Açougue da Vila, com as seguintes condições:

1º-Começa em 1 de Junho e finda em 30 de Junho do ano seguinte;

2º-Deve de haver dois cortes por semana, ao Sábado e à 3ª feira, desde o Sábado de Aleluia até ao dia 4 de Outubro e um só corte no resto do ano, alterando-se o corte do dia de Entrudo para a 2ª feira-gorda.

3º-Dar corte de chibato aos sábados, carneiro às 3ªs e quando houver um só corte ser sempre de chibato e matar, além disso, cabra nos meses de Junho até Setembro, inclusive.

4º-Vender o chibato e carneiro a 35 réis nos meses de Fevereiro e seguintes até Julho, inclusive, e de igual montante nos meses de Outubro e Novembro, enquanto em Agosto e Setembro seria a 30 réis e a 40 em Dezembro e Janeiro. No que diz respeito à cabra, em Junho e Julho seria a 25 réis e nos outros dois meses, Agosto e Setembro, passaria para 20 réis.

5º-Finalmente, as cabeças a abater não deverão ter idade inferior a dois anos e deverão ser capados, o chibato sempre, o carneiro nos meses de Julho, Agosto e Setembro.

O corte de carnes verdes, sob estas cláusulas, foi posto a concurso sendo arrematado por Manuel Madeira, do Monte de Afonso Vicente. (2)


No preço referido não consta a quantidade a que diz respeito, não estando ainda em vigor o sistema decimal. Seria o arrátel que em Alcoutim equivalia a 448,75 g.

Eram estas as condições que a Edilidade procurava impor para defesa do povo (estávamos no liberalismo) tanto a nível de número de cortes, do preço, que oscilava conforme a época, como da maturidade da cabeça a abater.

Igualmente, o aspecto religioso é tomado em consideração.

As arrematações foram-se sucedendo dentro destes parâmetros, já que só em 1868 voltámos a extrair ficha do assunto, atendendo a que existem algumas mudanças consideráveis.

A principal começa logo por só se ter apresentado um interessado ao corte exclusivo de carne, na vila. Trata-se de Custódio Domingues, do Balurco de Cima com quem a Câmara convencionou as seguintes condições:

1º-Que ele, Custódio Domingues, fica obrigado a fornecer carne de chibato e de carneiro aos habitantes desta vila desde hoje (16.05.1868) até 1 de Novembro do corrente ano;

2º-Que a carne de carneiro que só podia matar até ao fim de Junho, será vendida a cento e vinte réis o quilograma (já tinha entrado em vigor o sistema decimal) e a de chibato a 140 rs., igualmente ao quilo;

3º-Que haverá dois cortes por semana, um nas 3ªs feiras e outro nos sábados;

4º-Finalmente que fica proibido a qualquer outra pessoa o matar e vender carne ao povo “dentro dos muros da villa”. (3)

As condições propostas e devido aos condicionalismos, proporcionam uma maior liberdade de movimentos.

Quinze anos depois, em 1883, aparece-nos um auto de Contracto de Fornecimento de Carnes Verdes feito com João Francisco Pimenta desta vila por tempo de um ano a começar no 1º de Maio e findando em 30 de Abril. Não encontrámos expressas mais clausulas no contracto.

Décadas depois, ainda conhecemos um familiar de João Francisco Pimenta em tarefas da mesma natureza, mas sem o espartilho imposto nas arrematações.
Atendendo a que o açougue, palavra de origem árabe (4) é o lugar destinado ao abate de rezes e onde pode ter lugar o corte e venda de carnes a retalho, ajusta-se que digamos aquilo que encontrámos nas nossas leituras, ainda que seja reduzido.

Sabemos que em 1860 o açougue da vila situava-se na Rua da Misericórdia, junto ao local onde Manuel José da Trindade e Lima estava edificando um prédio para habitação. (5) Convindo-lhe esse espaço para incorporar na casa, apresenta à Câmara Municipal um requerimento solicitando permissão para a sua inclusão na construção que estava realizando, obrigando-se a construir outro açougue com as dimensões do actual, no sítio que a Câmara julgar por conveniente.(6)

[Casa mandada contruir por Manuel José da Trindade e Lima, na Rua da Misericórdia e ainda existente. Foto JV, 1972]

A Câmara aceita a proposta e deu um prazo de três meses para a sua construção.

O Presidente da Câmara, José Joaquim Madeira, informa a mesma que não tendo o cidadão Manuel José da Trindade e Lima, cuidado ainda de aprontar a casa que destina para açougue, era conveniente lembrar-lhe a necessidade de fazer a referida obra dentro do prazo de três meses que se lhe havia marcado no princípio de Março, pelo que foi aprovado fazer-se a competente intimação, em termos legais para se for necessário poder ter lugar ulteriores procedimentos. (7)

Não encontrámos mais qualquer referência a esta construção. Dezoito anos depois temos a informação dada à Câmara, pelo Administrador do Concelho, que havia feito mudar de um local imundo, onde se achava, a casa do açougue, passando este serviço para outra dentro do castelo, no qual se dão as precisas condições higiénicas. A Câmara reunida, louvou esta medida e autorizou a remoção das estrumeiras. (8)

Neste mesmo ano, em data que não podemos precisar, é dito que as casas do castelo pertencentes ao Ministério da Guerra e que já foram aquartelamento estão de tal forma deterioradas que não reúnem nenhuma das condições indispensáveis para serem hoje ocupada pela força militar.

Dez anos depois (9) o Administrador do Concelho informa que foi arrendado o castelo desta vila com exclusão das casas onde se acham depositados os utensílios pertencentes às obras públicas.

Em 1892, o terreno e figueiras do castelo, bem como todas as casas que se achem dentro deste, à excepção da anteriormente referida, estavam arrendadas a António Maria Xavier.(11)

Estas últimas informações fazem pensar que nesta altura já o açougue não funcionava no castelo.

Aqui ficam alguns factos passados no decorrer dos tempos que nos podem levar à reflexão.


NOTAS

(1)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 20 de Outubro de 1841

(2)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Maio de 1844

(3)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 16 de Maio de 1868

(4)- Do ár. As-sõq, “mercado, feira”- Vocabulário Português de Origem Árabe - José Pedro Machado - Editorial Notícias - 1991

(5)- Trata-se do prédio onde está hoje instalado o Bar "Vila Velha".

(6)- Acta da Sessão Câmara Municipal do Alcoutim de 3 de Agosto de 1860

(7)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 10 de Abril de 1870

(8)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 5 de Setembro de 1878

(9)- Ofício nº 140, de 2 de Julho de 1888, do Administrador do Concelho ao Director de Obras Públicas de Faro.

(10)- Ofício nº 169 de 29 de Outubro de 1892, do Administrador do Concelho ao Chefe da Comissão de Engenharia de Tavira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História de Portugal - II Vol. (1415-1495)



No Escaparate de hoje iremos abordar o II Vol. da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo. De formato idêntico ao I Vol. é composto por 373 páginas.

Este volume trata da FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO. É dos tomos publicados até agora, o que possui maior número de referência a Alcoutim.

Assim:

Pádg. 246
Vida municipal
Foram mais tardias as obras municipais no Algarve, onde, em 1475, o panorama era desolador quanto a fortificações militares: os castelos de Alcoutim, Castro Marim e Cacela tinham os muros derrubados, o mesmo sucedendo com a maior parte dos muros de Tavira (…)
Pág. 251
Coutos de homiziados
A política régia de protecção aos homiziados manteve-se no reinado de D. Afonso V levando por variáveis razões à instauração de coutos em Colmenar das Donas (1450), Alcoutim (1458), Vilar de Mouros, Caminha (1462), Odemira (1465) (…)
Pág. 256
Judeus
Nos finais do século XIV havia várias comunas judaicas, sendo as mais importantes Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto, Guarda, Évora e Faro.
(…)
A partir da segunda metade do século XV, devido à aglomeração dos judeus em várias terras, surgiram novas comunas em todo o Reino. Assim, ao Norte do País (…) Na parte que respeita ao sul do Tejo, surgem bairros judaicos em Avis, Crato, Fronteira, Évora-Monte, Estremoz, Palmela, Juromenha, Alvito, Beja, Moura, Alcoutim, Silves, Portimão e Alvor- Tal facto permite defender que a presença social dos hebreus já era marcante no Reino antes da forçada imigração de Castela, o que comprova a importância desse estrato da população no período que se abre com a dinastia de Avis.


Pág. 272
Moinhos e azenhas
Nos últimos anos do século XV, tem-se notícia da existência de moinhos em Leiria, Fundão, Tavira, Ota, Pernes, Trancoso, Lamego, Alcoutim, Loulé, Lagos, (…) Havia vários engenhos de água na região de (…)

Págs 283 e 284
Alfândegas e portos secos
O surto do comércio externo ao longo do século XV traduziu-se no movimento alfandegário e dos portos secos (…) No que respeita sobretudo ao comércio terrestre com o reino vizinho, tornou-se considerável o número de pontos de ligação, quer em regime de alfândega (Caminha, Chaves, Alfândega da Fé, Alcoutim e Castro Marim), quer de portos (…)
Diogo Pereira, «nosso criado», obteve a recebedoria da Alfândega de Alcoutim (carta de 9 de Maio de 1475)


Pág. 321
Humanismo e tipografia
Pelo ano de 1485 veio para o Reino o humanista italiano Cataldo Parício Sículo, crê-se que atraído por D. Fernando Coutinho, futuro bispo de Lamego, ainda que a tradição mantenha que foi o Príncipe Perfeito que o chamou para a educação do bastardo D. Jorge, que vivia junto de D. Joana no Convento de Jesus de Aveiro. O humanista passou depois ao serviço da corte estabelecendo relações com os nossos letrados e cortesãos (…) o que levaram Costa Ramalho a considerá-lo o introdutor do Humanismo em Portugal. (…) Mas a existência de nomes como D. Pedro de Meneses, conde de Alcoutim (…) basta para compreender o ambiente cultural, de raiz italiana que se viveu no Reino na última fase do século XV.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Portas de Tavira


[Rua D. Sancho II, antiga Rua Portas de Tavira. Foto JV, 1986]

A Edilidade não manteve o velho nome de Rua das Portas de Tavira e crismou-a com D. Sancho II, o rei que conquistou (?) a vila para sempre aos mouros. Sem dúvida que o nome do monarca tinha um lugar a ocupar, mas havia outros locais (ruas, praças e largos) onde não ficaria mal.

Parece-nos não andar distante da verdade localizando-a ao cimo dessa rua, junto às escadinhas de Nª Sª da Conceição.

Em 1 de Maio de 1873, João Francisco “Pimenta” e António Barão pedem terreno municipal junto às “Portas de Tavira” para construírem um prédio, mas não foi concedido porque não estava decidido por onde a estrada nacional havia de sair da vila. (1) Um ano depois, João Francisco Pimenta pede à Câmara terreno para fazer umas casas, agora fora das “Portas de Tavira”, já demolidas e no sítio que lhe for demarcado. (2) Por isso, em 1874 as portas já não existiam.

A parte cimeira da Rua D. Sancho II constituiu a “nova” vila, sendo as habitações de construção mais recente em relação ao núcleo histórico situado dentro das muralhas.

Esta “porta”, além de servir o caminho da forca, devia ser o término duma estrada que partia das proximidades de Tavira e atingia a “serra”, percorrendo as principais povoações deste concelho.

Novamente encontrámos a razão da designação de “Portas de Tavira”. Dela ainda possuímos um interessante documento, uma pedra gravada, encimada por brasão de armas real e com a seguinte inscrição ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI, assunto que já aqui abordámos e para não nos repetirmos.

A lápide está colocada na muralha da igreja matriz, mesmo junto ao cais velho.

Se em 1661 a “porta” existia, porque não aparece no desenho de Duarte de Armas (Século XVI)?

Tal como nas duas já referidas, as "Portas de Tavira" tinham a sua guarda própria.

NOTAS
( 1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Maio de 1873.
( 2) -Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Março de 1874.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Três alcoutenejos de verdade


A Câmara Escura de hoje apresenta três alcoutenejos de verdade, pois nasceram os três na pequena vila de Alcoutim, à beira do Guadiana.

Quem sabe quem são? Não será fácil.

A fotografia deve ter sido tirada à volta de 1937, mais ano, menos ano.

O mais velho, já não é propriamente um menino, mas sim um rapaz. Parece que está a fazer continência, com estilo militar e chamava-se Fernando. O menino, que está como condutor do bólido e teve sempre tendência para a condução, dava pelo nome de João e que, apesar da falta de qualidade da fotografia, como era próprio da época, se olharem bem para ele, conhecerão.

A menina, a mais nova, de sapatinho e peúgo branco, tal como o casaco e que parece ir à boleia, dá pelo nome de Marina.

A fotografia é tirada no quintal da casa do Dr. Dias e trata-se dos saudosos amigos, Fernando José Lopes Dias, fundador do Grupo Desportivo de Alcoutim e 1º Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim, após o 25 de Abril e o Dr. João Lopes Dias, ilustre clínico que tanto trabalhou em prol da população alcouteneja que contava só com a sua vontade de servir e competência médica.

A menina é a Professora Marina Ramos Themudo, doutorada em Filosofia e que exerceu a sua actividade na Universidade de Coimbra, felizmente ainda entre nós.

Foi ela que teve a amabilidade de nos ceder a fotografia. Bem-haja por isso.

Deste “bólido” já me tinha falado o nosso amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos que agora o irá recordar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tacões, "monte" da Freguesia do Pereiro, concelho de Alcoutim (apontamentos monográficos)

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº76 DE JUNHO DE 2006, P. 16)


[Tacões, vista parcial, 1992. Foto J.V.]

No decorrer dos meus escritos sobre Alcoutim que se têm vindo a estender ao longo de mais de três décadas, já abordámos de carácter concreto, alguns montes do concelho de Alcoutim, principalmente da sua freguesia, ainda que já tivéssemos feito incursões nas de Vaqueiros e Giões.

Para que isso aconteça são considerados vários factores que vão desde a proximidade, o que por vezes nos proporciona um melhor conhecimento, do interesse que a povoação nos suscita, pela sua pequenez ou grandeza, por algum facto que consideramos importante que lá tivesse ocorrido, pela residência ou naturalidade de algum familiar ou amigo, etc. etc.

Conheci o “monte” de Tacões em 1974, quando não era fácil ao automóvel lá chegar e quando minha mulher tinha lá o seu posto de trabalho. Apesar de na altura a desertificação já se fazer sentir, ainda possuía umas dezenas de habitantes o que originava o número suficiente de crianças para a existência de uma escola.

[Professora e alunos na escola em 1974. Foto J.V.]
Muito recentemente consegui saber que no “monte” onde meu filho fez a primeira classe (como então se dizia), nasceu em 1804 um dos seus tetravós, de nome Manuel João Dias!

Para além destas duas curiosidades, a que se junta o seu intrigante nome, o monte foi sempre dos principais da sua freguesia.

Nas nossas leituras e pesquisas fomos coleccionando dados que hoje nos possibilitam apresentar um puzzle ainda que com muitas falhas.

Quem estiver na vila e pretender encontrar esta pequena povoação, tomará a estrada nacional 122-1, encontrará o Cruzamento ou Quatro Estradas e seguirá pela nº 124.

Cerca de dez quilómetros percorridos e agora em terrenos mais ou menos planos, encontrará à direita uma placa que nos indica um desvio que nos levará a este monte pertencente à freguesia do Pereiro de que dista cerca de quatro quilómetros.

Este troço de estrada, numa extensão de cerca de mil e quinhentos metros, foi executado por administração directa da Câmara Municipal e consistia na pavimentação do troço com uma camada betuminosa, montando o seu custo a cerca de seis mil contos. (1)

O monte, que ainda hoje apresenta uma área considerável, é de tipo concentrado e em 1839, segundo Silva Lopes, era na freguesia o que possuía maior número de fogos, vinte e nove. (2)


[Antiga escola hoje transformada em Capela]
Numa zona de terrenos muito pobres, toda a actividade das suas gentes se baseava numa agricultura de subsistência, representada pela cerealicultura, nomeadamente o trigo, base da alimentação. A isto se acrescentava a pastorícia, principalmente de gado miúdo que possibilitava a obtenção de uns escudos para fazer face às despesas mais prementes.

A lã e o linho originaram uma tecelagem artesanal, de grande qualidade que ainda existia em finais da década de sessenta do século passado. Havia pelo menos um tear de onde saíam interessantes colchas de carapulo.

Temos conhecimento que em 1771, Afonso Vilão, dos Tacoenz, isto para indicar a ortografia de então, procedia na Câmara ao manifesto dos seus gados e em 1767/68, tinha exercido o lugar de fabriqueiro (tesoureiro) da Igreja do Pereiro. Por essas alturas, Gaspar Lourenço, deste monte, pagava de foro à mesma Igreja, dois alqueires de trigo.

Outros habitantes de Tacões exerceram as funções de fabriqueiro como aconteceu a Francisco Dias (3) (1785/86), Tomé Vilão (1787/88) e Marcos Rodrigues (1797/98) (4)

Em 1840 os moradores deste monte pedem à Câmara para serem considerados coimeiros para o gado miúdo, até 15 de Agosto, os restolhos situados entre o sítio da Eira d`Anna Dias (5) e a Fonte do Serro Gordo, o que foi deferido. (6)

O monte tinha um rossio em 1850 e Manuel Cavaco pediu terreno dele para fazer um curral, o que lhe foi concedido. (7)

É curioso o facto passado em 1880, em que José Bárbara (ou Barbosa) possui um boi que investe com todas as pessoas que se lhe aproximam, como sucedeu há pouco com duas mulheres que ficaram muito maltratadas. Neste sentido, o Regedor da freguesia é mandado intimar o possuidor do animal para que num prazo curto o faça retirar do concelho. (8)

Em 1883 havia no monte doze crianças do sexo masculino em idade escolar (9) e possivelmente outras tantas ou mais do sexo feminino que para o efeito, na altura, não eram contabilizadas.

Na sessão da Câmara de 2 de Dezembro de 1939 foi deliberado pedir a imediata criação de um posto de ensino escolar, o que veio a acontecer.

Segundo informação verbal que me forneceu o pároco da freguesia, nessa altura, o povo acabou por construir um edifício que serviu de escola até à sua extinção que deve ter ocorrido na década de oitenta do século passado. Em 1996 foi adaptado a capela e casa mortuária. (10)

Foi dos poucos montes da freguesia que possuiu um estabelecimento comercial misto que segundo o Anuário Comercial de 1947 pertencia a António Marques Romeira e que eu conheci ainda funcionando por volta de 1975 e propriedade de Eusébio Romeira Marques, certamente familiar do anterior proprietário.

Após o 25 de Abril recebeu o fornecimento de energia eléctrica que motivou a criação de sete fontanários para distribuição do precioso líquido e nove particulares, na altura, aproveitaram para mandar abrir outros tantos furos artesianos.

Os arruamentos foram cimentados em 1994 por proposta aprovada em reunião de Junta da Freguesia e as caixas de recepção do correio instaladas em 1997.

O Censo populacional de 1991 ainda lhe atribui sessenta e dois habitantes, devendo ter hoje pouco mais de uma dezena.

Ficou para o fim aquilo com que muitas vezes iniciamos trabalhos deste tipo – o topónimo.

Tendo merecido sempre a nossa atenção, acaba por não ser inédito visto haver outro lugar com o mesmo nome na freguesia de S. João dos Caldeireiros, do vizinho concelho de Mértola.



Localmente nada encontrámos, nem as tão tradicionais lendas que mais ou menos bem arquitectadas tentam explicar os nomes.

O estudioso José Pedro Machado, algarvio recentemente falecido, interroga se não alude a pessoas de família local com o apelido Tacão. (11) É nome de família que não existe na freguesia e que nunca encontrámos em documentação do século passado e do anterior. O singular também existe. Quererá significar uma alcunha proveniente do substantivo masculino tacão e que deu origem a um antropónimo? Ou terá a ver com o adjectivo tacanho?

Não encontrámos mais nada escrito sobre o assunto.

Aqui fica o que consegui reunir sobre este típico monte da freguesia do Pereiro, concelho de Alcoutim.

NOTAS
(1) – Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992.
(2) – Corografia do Reino do Algarve, Lisboa, 1841
(3) – Nasceu nas Furnazinhas, freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim, sendo 6º avô de meu filho.
(4) -Livro de Contas da Fabrica da Parochial Igreja do lugar de Pereiro, nº 2, com termo de abertura e encerramento de 19 de Junho de 1767
(5) – A título de curiosidade dizemos que uma Ana Dias, nascida na primeira metade do séc. XVIII em Tacões, era 5ª avó de meu filho.
(6) – Alcoutim visto através das Posturas Municipais (1834-1858), José Varzeano, Peniche, 1989, pág. 6
(7) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de 26 de Agosto daquele ano.
(8) – Of. Nº 108 de 4 de Setembro de 1880 do Administrador do Concelho ao Regedor da Freguesia.
(9) – Livro do Recenseamento Escolar da Freguesia de Pereiro - Sexo Masculino, termo de abertura de 26 de Janeiro de 1882.
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 3 de Junho de 1996, pág. 9.
(11) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, III Vol., Horizonte/Confluência, 1993.

sábado, 17 de outubro de 2009

A espeteira



Esta peça normalmente utilizada na cozinha e constituída por ripas de madeira cruzadas com alguma distância entre si e onde eram colocados pregos (salientes), camarões ou escápulas que se destinavam a pendurar louça.

Enquanto o Dicionário da Língua Portuguesa, de Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto (4ª Edição, 1984), define como "Louceiro em que se pendura louça, carne, etc.", Eduardo Brazão Gonçalves no seu Dicionário do Falar Algarvio (2ª Edição aumentada) 1996, indica como "estrutura de madeira com ganchos metálicos para pendurar louça".

Eram constituídas normalmente por quatro ripas pois as peças para pendurar não seriam muitas, aliás, como representa a fotografia que encima o texto.

Na região das nossas origens, esta peça foi muito utilizada mas com mais ripas e que na parte inferior possuía uma prateleira antecedida pela colocação de duas ripas mais estreitas possibilitando a colocação das tampas de tachos e panelas. Aqui não se chamava espeteira, mas grade a que normalmente se juntava “de esmalte” visto serem deste tipo as peças de louça que mais lá se colocavam. Era o luxo da dona de casa apresentar uma grade bem fornecida de louça que muitas vezes não era usada, mas que estava ali para se mostrar.

No concelho de Alcoutim as panelas eram de barro e os tachos de arame por isso com exposições diferentes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marim, pequeno monte da freguesia de Giões


Para alcançarmos esta pequena povoação, saindo da vila de Alcoutim, tomamos a estrada nº 122-1 e às Quatro Estradas seguimos pelo nº 124. Passamos pela aldeia de Pereiro e sete quilómetros percorridos encontramos à nossa esquerda um entroncamento sinalizado, que por estrada construída em 1987 (1) (nº 1046) estreita e asfaltada, ladeada de terrenos de arvoredo exíguo, nos levará à pequena povoação.

À esquerda, um aramado que se destina ao encerramento de gado. O traçado telefónico vai acompanhando o caminho. Curva à esquerda seguindo-se a contra curva. Uma charca. Algumas curvas e uma perdiz que atravessa a estrada faz lembrar a zona cinegética que já foi. Pouco depois divisa-se o “monte” e aparece a placa toponímica.

À direita o poço público e o lavadouro. Painel de caixas do correio. Ruas cimentadas que permitem dar a volta à povoação de automóvel. Serviço de recolha de lixo e distribuição de água por fontanários, hoje penso que já é feita ao domicílio.

O telefone público foi instalado em 1989. (1)


Percorrendo a pequena povoação, que se situa em sítio alto, com muito poucos moradores, mesmo assim ainda podemos ver com agrado pelo menos duas casas ao gosto antigo devidamente caiadas e nas molduras de portas e janelas utilizam o azul vivo, conforme costume dos vizinhos alentejanos. Os típicos poiais junto das fachadas principais, lá estão cobertos por largas lajes e caiados como manda a tradição. Tinham várias utilizações, incluindo de banco para se apanhar o fresco nas cálidas noites de Verão.


Interessante também um pocilgo desactivado, mas muito típico da região, onde a pedra faz quase tudo e o portelo tem muita singularidade.

Igualmente em desuso ainda se podem ver grandes construções de pedra e barro destinadas a palheiros e arramadas, já que Marim foi monte de lavradores

Ao sair do “monte”, do lado direito, existe um caminho que nos leva à pequena lagoa de Marim e onde nasce o Alcoutenejo (3) que juntando-se próximo da Corte Tabelião ao dos Ladrões dão lugar à Ribeira de Cadavais ou de S. Marcos.

Em princípios do século XIX, vivia neste monte João da Palma Vilão, natural de Giões, mas que casou com Maria Mestra, daqui natural. Homem de representação concelhia foi licenciador para a eleição da Câmara Municipal em 1834.


Em 1855 o maior proprietário da freguesia de Giões e segundo no concelho era Manuel da Palma, que poderá ser filho do anteriormente referido, pagando de décima 17.294 réis.

Ocupava a terceira posição, a nível de freguesia, João Mestre Teixeira, também desta localidade.

De 1939 a 1941 presidiu à Câmara Municipal, Francisco da Palma Vilão também daqui natural. (4)

Como se vê pelo que antes referimos, o monte era de gente abastada e com importância política como acontecia então a todos os endinheirados.

O topónimo, que de uma maneira geral aparece associado (o que aqui não acontece), é mais frequente no sul do país e parece de origem árabe, de marin, nome de pessoa, tal como Marinho que terá a mesma origem. Saber quem foram os Marin que deram origem aos topónimos é que não será fácil. (4)

Em 1976 sabemos que tinha 30 habitantes, tendo dezoito em 1991.Presentemente e segundo informação recolhida localmente, andará por metade.

NOTAS
(1) – Boletim Municipal nº 1, de Outubro de 1987, pág. 5
(2) – Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2.
(3) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), Ed. da J.F.do Pereiro, 2007, pág.36.
(4) – Idem, ibidem, pág.223
(5) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, II Vol. – 1993, p. 949.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os bailes em Alcoutim nos anos 40 e 50






Escreve
Gaspar Santos











[Mestre João Ricardo aos 80 anos]


Em Alcoutim tínhamos baile quase todos os fins de semana. Era uma festa com clarinete ou saxofone tocado por Mestre João Ricardo acompanhado em bateria pelo Lázaro Martins ou pelo Manuel “Arrana”. Quando o tempo o permitia bailávamos ao ar livre na esplanada do Cais. A Professora Teresa Rita Lopes nossa amiga e muito amiga de Alcoutim, que também aqui muito se divertiu, fala em lembrança emocionada destes bailes na crónica que escreveu para o Jornal do Baixo Guadiana, em Setembro 2009, nestes termos:





“ E os bailes no cais! / animados pelo clarinete do João Ricardo, o barbeiro, / ou tão só pelo canto das nossas gargantas”.

Como bom alcoutenejo não gostava de faltar aos bailes quer na vila quer nos montes. Os locais foram os mais variados Álamo, Laranjeiras, Guerreiros do Rio, Corte da Seda, Cruzamento de Alcoutim, Cortes Pereiras, Pereiro.

O primeiro baile a que assisti sem a tutela da família foi no Álamo, o último dos montes do rio, no Carnaval de l948. A casa ainda lá está: é a única neste monte do lado nascente da estrada e pertencia ao Senhor Madeira. Abrilhantou esse baile o “tocador” António Manuel acordeonista.

Curiosamente o meu último baile antes de deixar Alcoutim foi também no Carnaval mas de 1954 num antigo armazém na Rua do Município. Hoje está ali um bar. Continuei a frequentar esses bailes sempre que visitava ou fazia férias em Alcoutim.

Os bailes eram, também, abrilhantados por tocadores de acordeão do concelho, o António Manuel de Farelos, o Romão de Soudes, o Ildefonso de Balurcos, ou por músicos de fora nomeadamente o Felício, o José da Felicidade, o Bexiga, o José Ferreiro e outros. Não fosse o acordeão o instrumento por excelência da música e do folclore Algarvio. Outras vezes também com instrumentos de cordas (bandolim, banjo, guitarra e viola) de que eram executantes jovens como o Felício, o Fernando Martins, o Leopoldo, Primo do Antunes e o Manuel Serafim.

Ainda se recorreu a grafonolas e radiotelefonias, aliás sem grande êxito, dada a falta de volume de som que então estes aparelhos produziam.

Com muitos forasteiros e bem acompanhados musicalmente eram os bailes que se realizavam pelas Festas de Alcoutim.

Antes de 1948 na feira anual de Alcoutim, chegaram a realizar-se três bailes na vila com públicos distintos.


A partir de 1948 apesar destes bailes se terem mantido passou a realizar-se também um no Cais que era abrilhantado por um vocalista e uma orquestra com cerca de 7 ou 8 músicos. Poucos anos depois apenas se dançava neste baile.

Na feira de S. Marcos, no Pereiro, também havia baile no salão do comerciante Rosa com um ou dois acordeonistas acompanhados por um baterista.

[Mastro dos nossos dias. Foto JV, 2009]





Chegados os festejos dos santos populares, havia três ou mais bailes na vila em torno de mastros “vestidos” com alecrim, rosmaninho e murta, encimados por arcos de cana guarnecida com papel de seda às cores. Eram muitas vezes bailes de roda cantados e acompanhados por gaita-de-beiços ou instrumentos de cordas. Recordo esses mastros em frente da Casa dos Condes, na Rua da “Aparada”, junto à casa do Sr. Mário Vicente e no Largo na Rua D. Sancho II.

[Foi no quintal desta casa ou nas suas proximidades que se realizou o baile de 1940. Foto JV, 2009]
Também os meus pais fizeram um baile em torno de mastro, no início dos anos 40, no nosso quintal. Acompanhado por instrumentos de cordas dedilhados por jovens da vila. Foram muitos os convidados e dançou-se e petiscou-se muito pela noite dentro. Foi muito badalado.

Nós os rapazes saíamos de casa com 5 escudos pagávamos vinte e cinco tostões de entrada e ainda ficavam com dinheiro para uma bebida. As moças eram umas felizardas. Não pagavam para participar nos bailes. O único encargo que tinham era fazer algum arroz doce para se comer durante a festa, mas isso era tradição só nas Maias, bailes que ocorriam no dia 1º de Maio.

O Estado Novo que era muito tristão e tinha grandes preocupações com a segurança tornava teoricamente quase impossível a realização de um baile por exigir uma licença camarária e pagamento de assistência da GNR. Quando o baile era grande e explorado comercialmente era obrigatória a licença e a assistência da GNR.

Quando se tratava de pequeno baile organizado por jovens locais, bastava um compromisso com o cabo da GNR, que tinha a boa vontade de nos dispensar da licença com prévio conhecimento do Presidente da Câmara. O cabo da GNR confiava simplesmente nos jovens, ou mandava passar por lá a patrulha. Normalmente não havia qualquer rixa, devido aos nossos brandos costumes e à grande preocupação e atenção da comissão organizadora.

A gestão destes encargos exigia grande ginástica para os conter.

Tanto na Vila como nos montes, no verão ao ar livre ou em recinto coberto, nos bailes os rapazes trajavam informalmente umas calças e camisa lavadas. Mas se o baile era no Inverno em sala tanto os rapazes como as raparigas usavam um trajo mais cuidado.

As jovens, eventualmente acompanhadas das mães ocupavam cadeiras ou sentavam-se em banco corrido junto à parede. Quando a música começava, era engraçado de ver cada rapaz com o casaco (convenientemente abotoado ou a abotoar durante o trajecto), a dirigir-se à jovem com quem desejava dançar com as falas da praxe “ A menina dança?”

Nesses tempos predominava a música de origem espanhola ou da América Latina incluindo o Brasil e também a italiana. E por isso dançavam-se marchas, passo dobles, valsas e tangos. E como não podia deixar de acontecer no Algarve o corridinho que por cá é rei. Muito em voga a Cantiga da Rua, La raspa, La vaca lectera, etc.

Em geral músicas que os filmes em voga divulgavam.

A CASA DE VILA REAL E A CONSPIRAÇÃO DE 1641 CONTRA D. JOÃO IV


Da autoria de Mafalda de Noronha Wagner e numa edição Edições Colibri, de 2007, compõe-se de 513 páginas no formato de 16X23 cm.

A autora apresenta no trabalho uma análise feita com base na documentação inédita consultada e apresentada, outra face de um conflito político, diferente da versão oficial, a única, segundo penso, conhecida. Pela minha parte, ao procurar leitura sobre este assunto, a versão era sempre a mesma com pequenas diferenças a nível de conteúdo mas sempre com a mesma base.

Os novos elementos trazidos a público constituem um importante contributo para o conhecimento da intrincada história política da época.

Tem, como não podia deixar de ser, bastantes referências aos Condes de Alcoutim e igualmente a João Freire de Andrade e sua filha, D. Maria Freire, que veio a ser a 1ª Condessa de Alcoutim.

Por ele vim a saber que o título de Conde de Alcoutim foi oferecido a D. Carlos de Noronha que o rejeitou.

A leitura do livro está longe de chegar ao fim ainda que já tivesse percorrido os pontos que mais nos interessam.

Recomendo vivamente este trabalho aos meus visitantes/leitores interessados nestes assuntos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Portas do Rio

Das portas existentes na muralha da vila as quais todas as noites se fechavam e se abriam de manhã, segundo o Pároco que respondeu aos quesitos que constituíram as Memórias Paroquiais, foram aquelas que me motivaram mais dúvidas quanto à sua localização e a de que tinha menos informação.

Isso está demonstrado no que sobre elas escrevi no meu livro Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia).
A planta da Praça de Alcoutim (legendada) executada por José Sande de Vasconcelos em 1788 e possivelmente por me ter chegado às mãos por fotocópias, não me proporcionaram uma leitura clara sobre alguns dos aspectos.

Designadas umas vezes por Portas do Rio, outras por Portas do Guadiana e ainda por Portas do Mar ou de Sanlúcar, eram notoriamente viradas para o rio, servindo o seu velho cais.

Deviam igualmente ser as mais importantes pois as outras serviam caminhos em direcção a Tavira e a Mértola. Nesta altura, o grande meio de comunicação era o Guadiana que fornecia a auto-estrada da época.

Uma das principais fontes do passado das terras é constituída por aquilo a que se veio a chamar Memórias Paroquiais, datadas de 1758.

Ao responder ao quesito 25, o pároco escreveu (grafia actualizada): - (...) Tem quatro portas esta vila por onde se sai e entra, uma para a parte do nascente, ou de Sanlúcar do Guadiana, a que chamam porta do Rio em cuja entrada está uma porta interior junto da Casa da Guarda, e logo três ou quatro varas no mesmo andar outra porta exterior, estas são duas portas das quatro que digo. Sobre estas portas está um quase revelim na mesma muralha (...).
O Pároco considera a existência de quatro portas mas só dá nome a três pelo que estas duas de que fala e devido à sua proximidade e estrutura passariam a ser consideradas como uma única, tomando um dos nomes já referidos.

Esta diferença em relação às outras duas é mais um factor que determina a sua importância.

A vila como praça da guerra era guarnecida com destacamento, habitualmente vindo da praça de Castro Marim, constituído por companhias inteiras, mas nessa altura, meados do século XVIII, eram apenas quinze soldados comandados por um sargento. Tinham a seu cargo a guarda e defesa das Portas.


A Casa da Guarda, que o pároco refere, ainda existia em 1875, como se deduz da seguinte passagem:- Ao alferes engenheiro colocado em Tavira que pediu alguns esclarecimentos sobre a “casa da guarda”, sita às Port as do Rio, é respondido pela Câmara Municipal, entre outras coisas, o seguinte: “Que é uma e a mesma a casa da guarda que umas vezes é descrita como situada às Portas do Rio e outras na Rua de Sto. António.” (do ofício nº 18 de 23 de Abril de 1875).
A partir do conhecimento deste ofício, para mim desapareceram as dúvidas. As Portas do Rio situavam-se próximo das escadas para a Igreja Matriz, frente à actual Agência da C.C.A.M., servindo assim o cais.

sábado, 10 de outubro de 2009

Sanlúcar, irmã siamesa



A Câmara Escura de hoje não é sobre a vila ou concelho de Alcoutim, mas como o título indica diz respeito à sua irmã siamesa, como lhe chamava o nosso saudoso Amigo, Luís Cunha.

Tirada com o meu “caixote” em 1972, ainda não existia o bairro de construções de 1º andar que se veio a construir na parte mais próxima do castelo e que não veio a desfigurar a característica da povoação.

Nestas coisas, Sanlúcar levou sempre a dianteira em relação a Alcoutim, onde as aberrações são mais do que muitas, como qualquer pessoa com um mínimo de sentido estético se apercebe.

O castelo, que bem se divisa no cimo do cerro a uma altura de 137 metros e designado por castelo de São Marcos, é obra do Conde Jerónimo Ró, Mestre de Campo General, responsável pela defesa desta zona na altura das Guerras da Restauração, tendo aproveitado para o efeito os alicerces de uma antiga fortaleza que ali existiu.

A igreja, que igualmente se distingue, tem por invocação Nª Sª de la Rábida e Duarte de Armas já a representa no Livro das Fortalezas, primeira década do século XVI.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Alguns aspectos sobre o linho no concelho de Alcoutim

É conhecido como planta têxtil desde tempos longínquos e na década de cinquenta dos nossos dias ainda era semeado em muitos pontos do concelho de Alcoutim, alimentando os teares manuais existentes por todo o lado.

Em 1890 havia bastantes alcoutenejos que se prontificaram a experimentar o cultivo das variedades de linho a que se refere a Portaria do Ministério das Obras Públicas de 12 de Março daquele ano. Dessa lista constavam: - António José Madeira de Freitas, José Pedro Roiz Teixeira, Eduardo José Lopes, Joaquim José Lopes, Manuel da Palma Vilão, António Joaquim da Palma, António Cavaco, António Estevens, José Gomes Delgado Júnior, António Nobre, António Afonso Teixeira, Manuel Miguel e José Gomes.

[Tosando,(recriação). Foto JV, 2009]
Estão aqui representados os maiores lavradores do concelho encabeçados pelo pároco de Alcoutim.

Postura municipal do século passado proibia alagar linho nos pegos da Ribeira de Cadavais, o que veio a ser alargado a outros.

O Administrador do Concelho informa em 1874 que não tem grassado moléstia alguma em qualquer das espécies de gado, tendo contudo morrido três reses no monte da Palmeira e quatro nas Cortes Pereiras, aquelas há mais de um mês e estas há quinze dias e isto por terem bebido nos pegos onde se alaga linho e adoçam tremoços, por descuido dos rapazes que as guardavam.(1)

Semeava-se no princípio da Primavera e arrancava-se em fins de Julho, deixando-se em seguida secar.

[Fiando (recriação). Foto de JV, 2009]
Os teares eram de fabrico local e na grande maioria dos casos feitos de pinho, aparecendo também alguns de castanho e outros de eucalipto, isto segundo informações prestadas pelas poucas tecedeiras que existiam em 1977 a “entrevistas” feitas pelos alunos da 4ª classe das escolas dos Balurcos, Martim Longo e Palmeira. Ainda laboravam nesta altura teares em Casa Branca, Balurco de Cima, Palmeira, Tacões e Laborato, conforme se extrai dessas “entrevistas”.(2)

As tecedeiras trabalhavam o fio em tipos diversos de panos: - linho delgado, linho de fiado, redondo, estopas, toucas e toalhas.

Com o fuso se fiava, com a mãosoira batia-se e o sedeiro, cepo de madeira com dentes, separava o linho da estopa, são algumas das peças indispensáveis para a preparação da tecelagem.

Em 1877 a Administração do concelho possuía amostras de lã branca e preta e de linho com destino à Exposição de Paris. (3)

Penteadeiros, freguesia de Martim Longo onde trabalha ou trabalhou a última tecedeira do concelho e Premedeiros, zona rústica da freguesia de Alcoutim, são dois topónimos que poderão ter origem nesta actividade.

NOTAS

(1) - Ofício Nº94, de 21 de Setembro de 1874
(2) – Professoras Maria Odete do Rosário Campos (Martim Longo), Domingas Rosa Neto Gonçalves (Balurcos) e Maria Isabel Costa do Rosário Nunes (Palmeira)
(3) - Ofício nº 164 de 24 de Outubro de 1877

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Potes para azeite


O azeite, óleo extraído da azeitona, é a gordura vegetal produzida principalmente na região do Mediterrâneo.

A oliveira espalha-se por todo o país não se dando na faixa marítima e nos lugares de maior altura.

O azeite produzido no concelho de Alcoutim era armazenado em potes de folha-de-flandres feitos artesanalmente pelos vários latoeiros então existentes no concelho.

Eram todos da mesma configuração, a parte inferior tinha o feitio de um cilindro, com a altura cerca do dobro do diâmetro, seguindo-se um tronco de cone de base igual à do cilindro, sendo a outra de metade do diâmetro desta. A parte restante e que diz respeito à tampa, é um cone muito achatado. A tampa funciona através de uma dobradiça, havendo para o necessário ajustamento um considerável rebordo.

Todos os potes têm no seu interior, logo à entrada, uma espécie de pequeno gancho para se colocar um púcaro, normalmente de esmalte que servia para retirar azeite. Quando isso acontecia, levava-se sempre um prato para aproveitar o azeite que ia escorrendo do púcaro.

Todos os potes eram pintados para evitar que a ferrugem os atacasse provocando roturas e perdendo-se o azeite.

Os potes mais pequenos eram de três alqueires de azeite. Alqueire, do árabe al-kail era uma antiga medida de capacidade para secos e líquidos e que variava de zona para zona e o alqueire de sólidos tinha uma capacidade diferente dos de líquidos.

A partir de 3, havia potes para seis, oito, dez e até vinte alqueires.

Apesar da maioria da azeitona ficar nas oliveiras, pensamos que aqueles que ainda utilizam o azeite da sua colheita o armazenam nestes potes.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A aldeia de Giões, descrição através dos tempos


Depois daqui termos feito as descrições da aldeia de Martim Longo e da Vila de Alcoutim, iremos hoje fazer a da aldeia de Giões que ainda constitui o terceiro centro populacional do concelho e que tem menos observadores como iremos ver.

A mais antiga que conhecemos é a que nos dá o pároco local ao responder ao ponto 4 do questionário e que veio a constituir as Memórias Paroquiais de 1758.

Pronunciou-se assim:- O lugar está situado em um outeyro entre montes a que lá chamam serros, que a cercão de sorte, , que quem vem para elle o não vê senão quando, está perto e só da parte do Norte, hé que se vê em distancia de três légoas campos do termo de Mértola e do dito lugar senão descobre povoação alguma, senão a do monte de Casselinha da dita freguesia que dista do dito lugar a terceyra parte de meya legoa.
A que vem a seguir é de meados do Séc. XIX e de Silva Lopes (1): aldeia grande, muito mal arruada, com boas casas, assentada em hum outeiro entre serros: tem a dous tiros de balla huma fonte abundante, de que bebe o povo, e junto hum chafariz para os gados, e ainda vai regar huma horta, está entre penhascos, e antes do terramoto não bastava para uso da povoação, que sim tem alguns poços, mas todos se seccão no verão.
Pinho Leal, pouco depois, limitou-se a transcrever as palavras de Silva Lopes.


[Torre d Igreja Matriz. Foto jV, 2009]
Pereira de Sousa (2) escreveu: - aldeia grande que assenta sobre os terrenos de Culm, num outeiro entre serros (nome muito empregado na região para designar montanhas elevadas).
Do recente Guia de Portugal, (3) transcrevemos:- Das outras aldeias que salpicam este enclave, a de Giões é aquela que mais atrairá a atenção do viandante (...) Giões justifica bem um desvio da estrada principal e mesmo uma caminhada ao longo da ribeira.
No Portugal Meridional (1995) (4) indicam:- Está situada numa pequena estrada secundária que liga Mértola à estrada principal Silves-Alcoutim, a E.N. 124. De Giões partem algumas estradas que levam aos campos em redor.

Notas
(1) - Corografia do Reino do Algarve, 1841, pág. 398.
(2) - O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal (...) Lisboa – 1919, pág. 21
(3) – Algarve, José Victor Adragão, Editorial-Presença, pág. 184.
(4) - John e Madge Measures, pág. 77.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Miradouros de Alcoutim

Pequena nota: Este pequeno artigo de opinião foi escrito há 36 anos. Era então um jovem.Hoje as coisas estão algo diferentes. Na altura não havia um tostão na Câmara, hoje existem muito e muitos milhares de euros. Lá fiz a minha crítica que como é óbvio, não deu qualquer resultado.Gostei de reler aquilo que escrevi pelo que o dou a conhecer aos visitantes/leitores do ALCOUTIM LIVRE.

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 4 DE AGOSTO DE 1973)

Abranger largos horizonte, subindo ao cume de um cerro, ao alto de uma torre, ao píncaro de um penedo ou a qualquer outro ponto proeminente, dá-nos uma sensação de conforto e ao mesmo tempo da nossa pequenez perante a imensidão que se alcança.

Desde sempre o homem procurou estes locais, ainda que as razões dessa procura tenham variantes, no decorrer dos tempos.

Inúmeros miradouros, desde o Minho ao Algarve, espalham-se pelo País, alguns até de renome europeu. Uns, desde sempre aproveitados, outros por várias razões ainda por descobrir. Alguns, constituem mesmo, pontos vitais de turismo, com passagem obrigatória.

[Miradouro dos Bancos da Capela. Des. de JV]
Como se compreende a existência de inúmeras vivendas, normalmente de estrangeiros, situadas nos contrafortes da serra algarvia, em pontos proeminentes? Além do sossego das zonas, onde a poluição ainda não chegou, é nossa modesta opinião que a possibilidade de desfrutar uma boa paisagem, teve a sua quota-parte para tal escolha. É evidente que existem outros factores de monta, mas não teria sido desprezado.

Existem variadíssimos aspectos paisagísticos: miradouros que têm como fundo principal uma grande cidade ou pequena vila, a imensidade de uma planície, sulcada pelo rio que a irriga e onde se admira a produtividade do solo; outros retêm por cenário a imensidão do oceano, onde se vislumbra aqui e ali uma embarcação na faina pesqueira ou em passeio turístico; e outros têm por base vales verdejantes, serranias descalvadas ou repletas de arvoredo.

A pequena e velhinha vila de Alcoutim, que não chega a ter três centenas de habitantes e onde as características algarvias são entrecortadas pelas alentejanas, para não falar na influência espanhola, não esquecendo que na maioria das famílias daqui oriundas, pulula sangue do país vizinho, cambem foi bafejada pela natureza com miradouros de interesse, que quaisquer olhos recebem com prazer.

Tem amendoeiras, cuja flor é a avidez de muitos turistas nacionais e estrangeiros. Dispõe mesmo de “quadros” que talvez façam inveja a muitos outros, neste aspecto, já que as amendoeiras, ainda que de menor porte do que no litoral, dispõem-se em terrenos acidentados e não em planícies.

Além do “nevão algarvio” que na visita no mês de Fevereiro, mostra o Guadiana ziguezagueante, ora de margens escarpadas, ora semiplanas, onde o alcoutenejo produz os mimos hortícolas. Em redor, espalham-se os montículos e os vales a que dão origem. Para lá do profundo rio, as terras da vizinha Espanha e, de onde em onde, os agregados populacionais.

A paisagem por vezes é agreste, predominando o mato. A brancura da flor da esteva e nos barrancos o cor-de-rosa da dos loendreiros, não significam menos beleza. Há anos, uma família de pintores dinamarqueses, ali se instalou durante alguns meses, reproduzindo na tela as paisagens e motivos locais.

Vários são os miradouros naturais: cerros da Mina, da Forca, do Alcaçarinho e da Castanha, para só falar nos que nos ocorrem de momento. Dos indicados, é este último que nos feriu mais a sensibilidade e o de mais fácil aproveitamento. Nele se instalou, em 1969, um posto retransmissor da R. T. P. que serve exclusivamente a vila e de que beneficia Sanlúcar do Guadiana.

Para lá se instalar, havia que construir uma pequena casa e via de acesso. A população, convidada a contribuir, foi generosa e os que o não fizeram monetariamente, ofereceram o seu trabalho braçal. Soube-se aproveitar as facilidades da R. T. P. e o precioso auxílio de um dilecto filho desta terra. Hoje funciona a telescola com bastante benefício para a população.

[Miradouro do Cerro da Castanha. Des. de JV]
É do cume deste cerro que se avista surpreendente panorama sobre a vila de Sanlúcar, distantes terras de Espanha, o Guadiana, cerros e vales circunvizinhos.

Não seria possível adquirir uns metros quadrados de terreno para lá instalar uma plataforma de cimento e xisto da região, salpicando-a de simples bancos e de adequados canteiros onde se colocassem variedades de cactos, plantas que além de serem muito decorativas suportam com facilidade a falta de água, que ali se faz sentir?
Desde que imperasse o bom gosto, conseguia-se, com pouco dispêndio, um retiro agradável. Com o alcatroamento do pequeno troço de acesso e a colocação de uma placa indicativa no entroncamento, os alcoutinenses podiam dizer que também tinham o seu miradouro, utilizando-o e oferecendo-o aos visitantes que por vezes aparecem e que abalam sem que os seus olhos “bebam” um panorama interessantíssimo, que reteriam na lembrança.

Não era muito para o que Alcoutim, a vila desprezada, necessita, mas era alguma coisa.

Aqui fica um alvitre, uma sugestão, uma impertinência ou … uma bazófia, se assim o quiserem considerar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Lutão, dois "montes" de topónimo confuso, freguesia de Martim Longo

Iniciemos pelo topónimo que se mostra muito confuso, começando logo pela grafia já que há quem o escreva com um U e quem o faça com um O. Escrevemos com um U porque foi assim que oficiosamente o vimos escrito. No Novo Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão - Porto - 1981, o topónimo está escrito com O. Em 1771, em livros da Câmara, escrevia-se com U.

Lutão de lutar ou de luto? Ou Lotão de loto, o mesmo que lódão, substantivo que tem a ver com a flora? Os antigos davam o nome de loto a diversas plantas e a uma delas, comestível, é dada como vulgar no Algarve.

Nas consultas que temos vindo a realizar ao logo dos anos, nunca encontrámos uma explicação para este topónimo.

Esta zona foi ocupada por romanos e árabes como provam alguns achados. Uma mina nas proximidades com vestígios de extracção que remota ao período romano.

Na “Cerca das Oliveiras” com vestígios muçulmanos passava um caminho com calçada medieval ou anterior. Num troço próximo do “monte” havia lajes de grandes dimensões, sendo muitas recolhidas pelo povo para utilizarem como soleiras nas portas das suas casas.

Esta zona estava sob o domínio do Castelo das Relíquias, situado a cerca de 5 km, próximo da ribeira do Vascão. (1)

Quem estiver na sede de freguesia, a aldeia de Martim Longo e o pretender encontrar, toma a estrada nº 124 e, poucos quilómetros andados, situa-se a indicação para voltar à esquerda encontrando estrada (Nº 1041) asfaltada que o levará ao monte de Baixo, onde se localiza, logo à entrada, a antiga escola, encerrada desde 1989 por falta de alunos. (2)

O Monte de Cima situa-se à esquerda, tomando um desvio antes de chegar ao Lutão de Baixo.


[Monte de Cima. Foto JV, 2009]

É curioso verificar que os dois núcleos populacionais possuem placas identificativas ainda que o seu estado já se encontre degradado.

Em 1839 contava vinte e um fogos. Estava ao nível dos Castelhanos com vinte e nove e do Laborato com vinte e oito. (3)

A nível populacional o número de moradores foi aumentando até 1960 e que era de 138 em 1911, cifrando-se em 1991 em 93, sendo apesar disso o quarto mais populoso da freguesia, nessa altura.

Em 1771 e 1774, Manuel Guerreiro, deste monte, fazia o seu manifesto de gados na Câmara, sendo no último registo de 38 reses, 100 ovelhas, 20 cabras, 21 borregos e 7 chibos. (4)


[Monte de Baixo. Foto JV, 2009]

A Junta de Paróquia fez saber à Câmara Municipal em 1846 (5) que a requerimento dos Povos havia formado dois coitos para pastarem somente reses e bestas, um nos restolhos próximos à aldeia e o outro junto do monte do Lutão. Pediam à Câmara a sua confirmação para que possa produzir os efeitos legais.

A Fábrica da Igreja do Pereiro possuía aqui terrenos de que pagava foro, em meados do séc, XVIII, (360 réis), Manuel Martins deste monte. (6)

As ruas foram alcatroadas em 1989. (7)

Existe um Clube de Caçadores.

O Lutão é terra de artesãos, encontrando-se cinco manifestados na Câmara Municipal. Fazem-se flores da folha seca de milho, chapéus de palha e várias miniaturas em madeira. (8)

Em 1992, a Barragem a efectuar no Barranco da Fonte encontrava-se numa fase de análise do respectivo estudo geológico e geotécnico.(9) As obras já estavam em andamento em 1993, calculando-se a sua capacidade em mais de 90.000 m3 o que permitiria abastecer de água as populações de Martim Longo, Lutão e Giões. (10)

Em 1996 foi inaugurado um pontão que era aspiração da população residente.(11)


[Interessantíssima casa de habitação no Monte de Cima. Foto JV, 2009]O

Lutão tem pelo menos uma oficina. Possui habitações modernas, algumas vivendas restando contudo outras ao gosto da região


Nota complementar

Um leitor do AL (A. Martins) ao ler este escrito teve a amabilidade de se nos dirigir nos seguintes termos:
(…)
 De facto, há um vocábulo latino, lutum, cujo significado é barro, lama, e de onde discorre o nosso luto, acção de se cobrir com terra (ou lama) como demonstração de desgosto pela morte de alguém. Daí a lutão, não é difícil, dada a natural evolução do vocábulo para o português a partir de uma das formas tomadas na declinação da palavra. Pode, portanto, estar-se ante a origem do actual topónimo, se (o que não sei se acontece) a região em que a povoação assenta tem características argilosas ou, pelo menos, nela existem ( ou existiram?) lameiros em quantidade que justificaria a designação do local. De qualquer modo, aqui fica uma achega, pois não sou linguista, apenas tendo algum interesse nestes (e outros) assuntos.

Acrescentamos nós que na zona de Martim Longo há terrenos argilosos que deram origem à olaria.

JV 

NOTAS
(1)- “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6 – 1997/98
(2) – Boletim Municipal, nº 4 de Abril de 1989, pág. 4.
(3) – Corografia do Algarve, Silva Lopes, 1841.
(4) - Manifeztoz e Arolam toz da Camera doz Gadoz , 1771
(5) - Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Junho de 1846.
(6) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), J.F. Pereiro, 2007, p.116
(7) – Boletim Municipal nº 5, Setembro de 1989, pág. 4.
(8) – Portugal Meridional, John e Magde Measures, 1995.
(9) - Boletim Municipal nº 10 de Abril/92, pág.3.
(10) - Boletim Municipal nº 12 de Abril/93.
(11) - Alcoutim - Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996.