quinta-feira, 31 de março de 2011

A menina e o cavalinho de papelão



A Câmara Escura de hoje volta às figuras humanas apesar de terem sido poucas as publicadas mas presentemente temos algumas muito interessantes para apresentar.

A que apresentamos foi-nos cedida por uma leitora assídua do ALCOUTIM LIVRE e que se encontra a residir num país da Europa.

A foto foi tirada em meados do século passado num retratista numa Feira de São Marcos, um dos grandes acontecimentos populares do concelho, havendo já uma Romaria ao São Marcos em 1758, que acabou por se transformar em feira, acompanhando a evolução dos tempos.

A presença do retratista era das poucas ocasiões que proporcionava a tiragem de um retrato que se pudesse pôr em casa e que marcasse uma época.

Não estava ao alcance de todos, pelo contrário, tirar um retrato, o pouco dinheiro existente era utilizado para as transacções comerciais consideradas indispensáveis para o governo do ano e a Feira de S. Marcos era a altura ideal para o fazer. Comprava-se o porquito para engordar, utensílios indispensáveis de barro, já se vê, cadeiras de junça ou tabua, alguma semente e pouco mais.

A aproximação da feira causava ansiedade nas pessoas, entre os quais os jovens, que tinham oportunidade de dançar a noite toda, pois não havia falta de pares e os pais estavam preocupados com as compras e o trabalho de levar os animais ao seu destino, caminhando por esses campos fora.

O retratista tinha a sua “barraca” armada, feita de pano suportada em estacas de madeira ou de ferro.

O interior dispunha de vários cenários conforme o “freguês”, gosto, sexo e idade. Neste sentido tinha dois ou três cenários de pintura naif, algum cadeirão de verga e algo para as crianças e no caso presente servia para ambos os sexos.

Ao ver a fotografia, fez-nos recuar aos nossos tempos de menino pois tal cavalinho de papelão era uma das grandes ambições dos miúdos do nosso tempo. “Cavalgámos” alguns mas nunca tivemos nenhum!

O cavalinho castanho com alguns pontos brancos, procurando uma imitação aceitável, estava fixo sobre um estrado que possuía quatro rodas de ferro e não deixava de estar “aparelhado”.

O “artista” teve a preocupação de mandar a menina pegar nas rédeas do animal para que a sua pose ficasse mais composta.

A menina certamente que levou o melhor vestido e parece-nos que além do branco terá uma cor garrida, está penteada ao uso da época, cabelo puxado para trás terminando em duas tranças que se unem formando um arco, um crucifixo caindo sobre o peito e certamente suportado por fio de oiro, meia branca, calçado afivelado.

O seu corpinho é bem proporcionado e as feições correctas, admitindo que tivesse uns olhos bonitos. Expressando um leve sorriso, está bem compenetrada do seu papel.

Este cavalinho só servia para o retrato, mas os outros, enquanto um se sentava, os companheiros empurravam, mas nem dava para virar!

Aqui tendes caros visitante / leitores, uma menina alcouteneja dos meados do século passado.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Guadiana como via de acesso a Alcoutim

[Um aspecto do Guadiana em Alcoutim. Foto, JV, 2010]

Foram as boas condições de comunicação fluvial, uma das principais razões para a importância que outrora a vila desempenhou.

O majestoso Guadiana, - Ana ou Anas flúmen durante a dominação romana, (1) - conhecido pelos Árabes por Uádi (rio) Ana, (2) de onde proveio a denominação actual, depois de passar pela grafia Odiana, (3) era a principal via de comunicação. Todo o comércio era feito pelo rio.

Em fenício, Anas, significa ovelha ou ovelhas, enquanto outros querem que seja palavra grega que significa toupeira. Rio das ovelhas ou rio das toupeiras, não destoa das suas raízes já que tem parte do seu curso subterrâneo e uma vasta área das suas margens é excelente para a criação de gado lanígero. (7)

Por aqui passaram os povos invasores da península (Gregos, Fenícios, Cartagineses, Romanos e Árabes), a quem não era estranho o filão mineiro do Baixo-Alentejo.

No período compreendido entre os séculos XII e XIV, apesar da instabilidade fronteiriça, registava-se um intenso tráfego fluvial: madeira, mel, peixe, cereais, etc.. (4)

O foral de Mértola (1254) refere-se à utilização do rio para o transporte de diversas mercadorias. Documentação posterior continua a revelar a importância desse tráfego, sendo uma via de saída dos produtos do Alentejo, principalmente do trigo. (5)

No século XVI o carvão era vendido a espanhóis e a ingleses, transportado através do Guadiana.
Dizia-se que Vila Real de Sto. António engrandecia devido aos géneros da província do Alentejo que a ela chegavam através do rio.

De Mértola até à foz o rio é navegável, alargando-se muito a partir do Pomarão.
O Guadiana é considerado o mais navegável dos rios portugueses. (6)

De carácter estacional, estava sujeito a grandes cheias como os demais, dispõe de boa profundidade, atingindo vinte e quatro metros nas proximidades das Laranjeiras, em resultado da forte pressão das águas face à curva que têm de vencer. (7)

[O Guadiana visto da marginel. Foto JV, 2011]

Segundo Charles Bonnet (1850), as embarcações de guerra podem entrar no Guadiana na maré-alta e aí estacionarem na maré baixa. (8)

Ainda nos nossos dias, as condições de navegabilidade eram boas e nele entravam barcos de grande calado e de várias nacionalidades que iam até ao Pomarão, porto fluvial situado na confluência deste rio com a ribeira de Chança, carregar o minério cuprífero das Minas de São Domingos. Acontecia isto desde 1859, sendo a Inglaterra o primeiro cliente, seguindo-se-lhe a França, Holanda, Bélgica e Alemanha. Só em 1907 os barcos da CUF começaram a fazer esse trajecto. Em 1964 a mina deixou de funcionar e consequentemente acabou esse movimento do rio. (9)

Era sulcado por barcos de todas as condições. Veleiros de vários tamanhos dedicavam-se ao transporte de todo o género de mercadorias.
O trigo produzido nas achadas da redondeza e que abastecia Tavira, era “exportado” pelo rio.

Frequentemente viam-se barcos carregados de sal e materiais de construção.

Baptista Lopes, na Corografia do Algarve, 1841, diz que tem alguns barcos pequenos ou botes que se empregam na condução de frutos para Mértola, Castro Marim e Vila Real, trazendo pescaria.

Este transporte chegou aos nossos dias. Os barcos, aproveitando as marés, vinham rio acima carregados de pescaria. Nos locais propícios, desembarcavam “marujos” (gente de mar da zona de Castro Marim - Vila Real - Monte Gordo) que de canastra ao ombro se introduziam pela serra vendendo o pescado. Alguns por cá ficaram constituindo família.

Em 1453 o infante D. Fernando passou por aqui saindo de Castro Marim, onde passou oito dias com o tio, o Infante D. Henrique, o Navegador, seu pai adoptivo, a caminho de Mértola seguindo para Beja, onde o Rei, com a corte, se adiantou a recebê-lo. (10)

Em 1782 o conde de Vale de Reis, novo governador e capitão-general do Algarve, depois de chegar a Mértola, desce o Guadiana no escaler do governo, é recebido em Alcoutim onde é lida a carta régia de nomeação e instala-se na cidade de Tavira. (11)

Fontes Pereira de Melo, Presidente do Conselho de Ministros, se não passou por aqui, pelo menos a sua passagem esteve planeada em 1874 numa visita que projectou ao Algarve. A Câmara preparou-se para o receber.

Parece que D. Carlos, ainda príncipe, o utilizava nas visitas venatórias que fazia ao concelho.

Foi subindo o Guadiana que Américo Thomaz, na qualidade de Presidente da República, chegou a Alcoutim onde veio, em 1965, inaugurar o saneamento básico.

O correio vinha de Vila Real transportado por barco. O de Lisboa chegava aos domingos e quartas-feiras ao meio-dia e saía às terças e sábados, de madrugada. (12)
Ainda há poucos anos existia uma carreira de vapores que ligava Mértola a Vila Real de Sto. António com escala obrigatória nesta vila.

[Alcoutim. Cais acostável. Foto JV, 2009]

De Mértola saía o vapor às segundas e sextas e de Vila Real às terças e sábados, de Outubro a Junho. De Julho a Setembro efectuavam-se três carreiras por semana: segundas, quartas e sextas para Vila Real e terças, quintas e sábados para Mértola. (13)
O último vapor a ligar as duas vilas de então, foi o Gomes 2º, que fazia o trajecto em duas horas e meia. (14)

Em 23 de Março de 1883 o Gomes 2º não pode fazer a carreira habitual em consequência da cheia do Guadiana. (15)

Também Pinho Leal, autor do “Portugal Antigo e Moderno”, quando visitou o Algarve em 1879 fez a viagem no Gomes 2º.

Nos últimos tempos, a presença de iates ancorados no Guadiana é uma constante.


N.B.
Texto extraído da 2ª Edição, em preparação, de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia). As notas ficarão para uma hipotética publicação.

segunda-feira, 28 de março de 2011

40 MIL VISITAS !



Sei perfeitamente que alcançar num blogue este número de visitas após 2 anos, 9 meses e 6 dias de existência, é facto banalíssimo. Basta viajar por eles para confirmar isso.

A criação de um blogue pode ter os mais variados objectivos acabando por todos serem legítimos.

Desde os que servem para simples cavaqueira, ao dos fins mais altruístas, passando pelos bairristas, políticos, religiosos, desportivos, poéticos, gastronómicos, infantis, pornográficos, eu sei lá, de tudo existe. Têm a vantagem de só consumir quem quer.

Tenho encontrado blogues que pretendem representar a vida e o sentir de pequenas aldeias que conseguem, na minha perspectiva fazê-lo de uma maneira dinâmica e aceitável. Em contrapartida outros criam bonitos espaços, bem construídos, com grandes propósitos mas que, como eu costumo dizer, a laranja acaba por deitar pouco sumo, ficando ali pendurados para quem passa e é pena que assim aconteça.

Os propósitos que me levaram à criação do ALCOUTIM LIVRE têm-se mantido e certamente se manterão até à sua extinção que ainda não está prevista mas que irá naturalmente acontecer. Os objectivos têm igualmente sido alcançados atendendo aos e-mails recebidos e ao número sempre crescente de visitantes / leitores.

Num concelho envelhecido e em desertificação acelerada, os visitantes têm de ser bem poucos e até porque em muitos locais o sinal não chega constituindo um contratempo como me acontece quando lá me desloco. Por outro lado, com mais de 65 anos serão bem poucos os que dominam a técnica.

O maior número de visitantes e pelas informações que me têm enviado é constituído por alcoutenejos que vivem foram do seu concelho e muitas vezes de descendentes não oriundos do mesmo mas que por qualquer motivo ficaram ligados à terra dos seus antepassados. É verdade que esse número à segunda ou terceira geração acaba por desaparecer pois a terra começa a não lhes dizer nada.

No monte que costumo visitar com alguma frequência, agora muitíssimo menos, há 25 anos e durante os meses de Verão, podiam encontrar-se muitos filhos da terra, acompanhados dos seus familiares que ali iam matar saudades de pessoas e coisas. Uns, morreram, outros estão incapazes de lá ir, os filhos, raramente aparecem e os netos, nem pensar nisso. É assim neste monte e em todos os do concelho, alguns completamente desabitados e outros correndo depressa para essa situação.

Dos e-mails recebidos são quase todos de fora do concelho, com a excepção de quatro ou cinco, talvez nem tanto.

Reavivando o acontecido, digo que as primeiras 10 mil visitas foram alcançadas a pós 1 ano, 6 meses e 17 dias de existência o que originou uma média diária de 17,95.

Para obter as seguintes, ou seja, alcançar as 20 mil, o tempo encurtou para 6 meses e 2 dias, alcançando-se a média de 54,94, o que considerámos excelente.

A 3ª série de dez mil, ou seja o total de 30 mil, foi alcançada em apenas 4 meses e 9 dias o que originou uma média de 77,51, o que é bastante significativo.

Acabamos de alcançar as 40.000 VISITAS! A média diária nestas últimas dez mil continuou a aumentar, cifrando-se agora em 79,36, o que foi obtido em 4 meses e 6 dias.

Ainda que se trate de um pequeno aumento diário (1,85) a verdade é que continua a aumentar.

Do Brasil e dos Estados Unidos da América temos sempre visitas diárias e do Brasil, muitos dias ultrapassam as duas dezenas, o que é significativo.

Já nos visitaram 71 países! Mais 12 do que na última avaliação. As postagens estão em 738.

Iremos continuar o nosso rumo pois os assuntos a abordar não estão esgotados.

VISITANTE / LEITOR, obrigado pelo seu valioso contributo. Se não tivesse visitantes, o ALCOUTIM LIVRE já não existia.

Juntamos um gráfico explicativo.

domingo, 27 de março de 2011

Mulheres que viravam o mundo do avesso!

Pequena nota
Todos os textos que o Amílcar Felício aqui tem apresentado são ricos em acontecimentos, realismo e autenticidade, demonstrando grande espírito de observação e capacidade para discernir.
Como factos tão simples podem significar conceitos de vida que se alicerçam em experiências ancestrais que eram transmitidas de geração em geração!
É preciso dizer que este nosso colaborador só viveu permanentemente na terra que o viu nascer até aos onze anos, a partir dos quais teve que abandonar para continuar os estudos.
Verdade que ia nas férias, mas em tal situação parece que devia ter um olhar mais leve sobre as coisas.
Os sentimentos são os mesmos, a maneira de os demonstrar é que é diferente mas isto... nem todos entendem.
É sempre difícil escolher o melhor texto quando são todos bons mas se fosse obrigado a fazê-lo, este conseguia ultrapassar o do António do Brejo.
Ainda que não tivéssemos nascido em Alcoutim reconhecemos o realismo que o texto encerra e a profundidade sagaz que as palavras transmitem.
Um abraço de parabéns, Amílcar. Grande texto
.
JV






Escreve


Amílcar Felício



Havia quem lhes chamasse de mulheres/homens, certamente por falta de melhor designação na altura. Hoje provavelmente diríamos que eram mulheres emancipadas, pois há muito que exerciam competências, que os homens julgavam suas por direito natural.

Vestiam de escuro, saias largas e compridas muito abaixo dos joelhos ou até mesmo aos tornozelos, sapatos próprios para o campo cardados a maior parte vezes, com avental e lenço atado atrás da cabeça que não havia vento que conseguisse arrancar. Pareciam-se quase todas umas com as outras, talvez pela maneira de vestir muito semelhante. Levantavam-se às 4, às 5 ou o mais tardar às 6 horas da manhã para fazerem a lida da casa, tratar das galinhas, dos porcos, dos burros, dos cães ou dos gatos e para fazer as migas ou o "café preto" – conceito alcoutenejo do café simples sem leite – para o pessoal da casa, que tinha que sair ainda de madrugada para o campo e assim fugir ao trabalho nas horas tórridas de calor, que começava a apertar a partir do meio dia.

[A avó do autor do texto]
Estou a lembrar-me da Tia Libânia, da Tia Custódia Peres, da minha avó – a Tia Catarina das Portas – como era baptizada pela população, mas bem poderia referir tantas e tantas outras mulheres que possuíam a mesma estaleca do que elas.

Desculpem-me lá esta pequena memória que vos vou contar com todo o respeito, mas são imagens que pelo seu ineditismo e que por lhe descortinarmos um enorme sentido prático, nunca mais se apagariam das nossas memórias de infância. Eram mulheres desinibidas. Sem qualquer tipo de preconceitos ou de tabus algumas delas para urinar puxavam as saias para a frente, afastavam as pernas e mesmo em pé cá vai disto, conseguindo deste modo e em qualquer local, a reserva que o acto merece. Ultrapassavam assim a falta generalizada de infraestruturas sanitárias existentes à época.

Mulheres que nunca usaram baton nem nunca arrancaram um pelo da sobrancelha, apercebíamo-nos por vezes até de um bigodinho por aqui ou por ali. Pintar as unhas então ou usar rímel seria ridículo, pois as suas mãos grossas e calejadas quase que não se distinguiam das mãos de um homem. Eram elas o Chefe de Família e quem mandava lá em casa! Aliás, mandavam em quase tudo. Geriam a lida da casa e muitas delas até organizavam a vida no campo, a vida dos filhos e por vezes até a dos maridos. As feministas ou os defensores da emancipação da mulher teriam para aquelas bandas muito pouco pasto para as suas ideias libertadoras, pois elas socialmente já se tinham emancipado há muito!

E eram vidas de uma dureza tremenda, caramba! Desde peneirar, amassar e cozer o pão todas as quinzenas, à confecção do almoço e do jantar diários, à manutenção dos animais, às matanças dos porcos e do tratamento das carnes e das salgadeiras que conservavam a carne durante o ano inteiro, ao tratamento dos enchidos e dos respectivos fumeiros, das azeitonas britadas ou de água que confeccionavam e conservavam como ninguém e como nunca mais voltei a comer mais nenhumas, à escarapela do milho ou à descasca da amêndoa, à preparação dos tremoços para remolhar durante semanas na ribeira, à secagem dos figos etc., etc., etc., todas estas actividades aquelas mulheres geriam ao pormenor e de cabeça, sem qualquer tipo de plano. Na realidade nem o poderiam fazer, visto que na generalidade eram analfabetas! O trabalho tinha sido a sua única escola desde a mais tenra idade. Eram assim aquelas mulheres da primeira metade do século passado.

[Rua Portas de Mértola.Burro preparado para ir buscar água ao poço]

Devo confessar-vos que sempre cultivei por aquela geração um respeito e um carinho e uma ternura muito especiais apesar da sua rudeza, característica que era fruto dos tempos adversos que tiveram que enfrentar e que sem lamentos nem reivindicarem o que quer que fosse para si, viravam o mundo do avesso com as suas delicadas mãos quase vazias. Foi talvez a última geração de grandes produtores do século XX. Hoje convenhamos, que apesar da crise e dos tempos difíceis que atravessamos, é mais bolos...

Se nos nossos dias brincamos quando encontramos uma mulher mais decidida e lhe chamamos jocosamente de Generala, naturalmente com um pouco de machismo à mistura fruto da sociedade em que por enquanto ainda continuamos a viver, aquelas mulheres bem poderiam ser consideradas verdadeiras Generalas no mais profundo sentido da palavra. Autênticas líderes, tinham uma voz de comando tão treinada, que não deixavam qualquer dúvida quando davam uma ordem. Existia em cada uma, uma verdadeira Padeira de Aljubarrota que arregimentava a sua tribo para a luta do dia-a-dia!

No caso da minha avó, note-se que até a própria casa tinha o seu nome: não era a casa do Ti Alfredo, era a casa da Tia Catarina das Portas e diga-se que essa notoriedade não lhe advinha pelo facto de andar na tagarelice por aqui ou por ali, não só por ser pessoa de poucas conversas mas sobretudo, porque não lhe sobrava tempo para esses devaneios. Mas a sua força e personalidade impunham-se à distância. Assim como poderíamos referir também o Esteiro da Tia Libânia e não do Ti Vidal ou do Ti Marreiros seu segundo marido. Elas é que davam a paternidade às coisas!

Esta minha avó Catarina arrogava-se o direito de decidir sobre tudo, até sobre o casamento dos filhos. O casamento da minha mãe não foi do seu agrado, pois o meu pai para lá de mais velho uns bons anitos e um bocado malandreco e boémio para os tempos, tinha a sua vida mais ligada ao comércio e assim, como a riqueza naqueles tempos se media em terra, nada feito. Consequentemente como líder incontestada do clã rapidamente se decidiu, sentenciando a minha jovem mãe na altura com 18 ou 19 anos e num meio tão pequeno como Alcoutim: se queres ficar cá em casa não há casamento e se queres casamento rua! E assim aconteceu. Feridas que os anos haveriam de reparar aos poucos até cicatrizarem felizmente, ficando apenas eu e a minha irmã nesse interlúdio, como as pessoas que faziam a ponte entre os dois lados da barricada.

[Alcoutim. Década de 50. Rua Escorregadiça (Rua Dr. João Dias)]

E como eu explorava tão bem aquelas contradições entre as duas partes! Contava-me a minha mãe de que ainda um pirralho talabita e tatebitate com 2 ou 3 anos apenas, quando se zangava comigo eu a ameaçava: «se a mãe me bater eu fujo p’rá da avó Atina e a mãe não vai lá»! Os miúdos apercebem-se e exploram tão cedo as contradições entre os adultos!

Eram pessoas rudes e duras moldadas por tempos difíceis e agrestes, mas aonde os afectos apesar de tudo continuavam a existir, ainda que exteriorizados por vezes nas formas mais simples deste mundo. Lembro-me de que com 5 ou 6 anos de idade vir da ribeira ao fim do dia pelo caminho do Pocinho e quando passava na estrada junto ao muro da sua casa, vê-la debruçada lá no alto fazendo um pequeno descanso para ver quem passava e chamar-me afectuosamente: “anda cá à avó, que a avó faz-te umas boletas assadas”! Sem chocolatinhos, sem beijinhos nem colinhos ou outras mariquices do género, era a sua maneira de expressar o seu carinho. Aliás poucos mimos mais haveria naqueles tempos para dar aos netos, talvez mais um figo de tuna ou um figuinho seco, uns tremocinhos que já tinham sido remolhados na ribeira ou uma costa ou uma popia da última cozedura da quinzena quanto muito. Mas o que contava de facto era o gesto e este dizia tudo...

Às vezes quando vou a Alcoutim ainda me sento ao fim das tardes, nas pequenas passadeiras já um pouco deslocadas que ainda por lá existem no Barranco do Poço das Figueiras junto ao Caminho da Amarela, tal como fazia quando era miúdo à espera de ver aquela gente passar. Mas eles já não passam por ali...
É quase como que uma recusa em aceitar de que aquele “nosso Alcoutim” já lá vai.

Técnicas Artesanais do Nordeste Algarvio


Este pequeno opúsculo de 23 páginas de 21x21 cm com boas imagens coloridas constitui um bom trabalho sobre as técnicas artesanais do nordeste algarvio.

Depois do Enquadramento Natural e Cultural aborda as práticas elementares e as técnicas das gentes do Nordeste Algarvio, referindo entre outras o fabrico de pão, queijo, enchidos, azeite e vinho, não esquecendo a doçaria, a conserva da azeitona e os chás.

A nível de vestuário apresenta-nos a tecelagem de lã e linho, as rendas (de bilros), os bordados e o calçado.

Aborda igualmente o tipo de construção em pedra e barro e os telhados de caniço.

Enumera as artes do ferro, a olaria, cestaria, albardaria, latoaria e outras.

A investigação e o texto são do Dr. Francisco Morato e a edição da Associação Alcance – Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Alcoutim, 1999.

Entre a bibliografia é referido o nosso trabalho como Monografia de Alcoutim, 1990, quando o título é Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), editado em 1985.

sábado, 26 de março de 2011

Efeméride - Misterioso assalto ao edifício da Câmara Municipal

Pequena nota

Eu só conheci este assunto oralmente através de uma das muitas conversas informais que tenho mantido há muitos anos com o autor desta pequena efeméride, colaborador e Amigo, Gaspar Santos.
Fez muito bem recordá-la aqui pois serão poucos os alcoutenejos que se lembrarão dela. Nestas coisas há sempre vítimas, pessoas que nada têm a ver com o assunto e que acabam por ser incomodadas.
Talvez não fosse difícil encontrar o ratoneiro, mas possivelmente não interessaria.
É regra que Alcoutim é um concelho de brandos costumes mas... lá de tempos a tempos aparece um crime que acaba por confirmar a regra.
Tenho conhecimento de quatro homicídios, nos quais se inclui o político de Miguel Angel de Leon. Existe, contudo, um de que não conheço nada semelhante, passado pouco antes da Implantação da República e de que não encontrei referências orais após ter feito diligências nesse sentido e na freguesia de Alcoutim.
Admito que o crime tivesse sido cometido mais para o interior do concelho, sendo assim e nessa época, mais difícil de chegar ao conhecimento, nesta zona do concelho.


JV






Escreve

Gaspar Santos





Em 28 de Março de 1949 o Jornal “O Século” de que eu era correspondente, publicava uma notícia no canto inferior direito da página 6 com o título: “Assaltaram o Edifício da Câmara Municipal”.

Esse belo edifício que vai agora beneficiar de obras de restauro e a efeméride de 62 anos são duas boas razões, que reunidas me levam a recordar o evento. E também para recomendar que nestas obras se acautele a segurança contra intrusões…

Lembro-me perfeitamente que o assalto às instalações da Câmara Municipal, onde hoje são os Paços do Concelho na Rua do Município, ocorreu na noite de 26 para 27 de Março. Havia marcas de pés enlameados e sujos de ervas no muro traseiro do edifício na que é hoje Rua 25 de Abril.

Aquilo que foi roubado quase não teve significado. Os ladrões, sem danificarem as portas, limitaram-se a arrombar as gavetas de funcionários donde levaram alguns trocos.

A Polícia Judiciária de Faro foi chamada e interrogou algumas pessoas de que as autoridades camarárias suspeitavam. Nada conseguiram apurar. Não se achou o ou os culpados. Consequências se as houve foram apenas para os suspeitos interrogados. Ouviu-se dias depois alguns comentários desses homens, revoltados com o tratamento que tiveram, pois a polícia não queria sair deste caso com as mãos a abanar.

Alcoutim não é fértil em crimes, mas quando se trata de crimes contra os bens alheios, aliás raríssimos, são feitos com bastante perfeição, ficando por esclarecer para toda a vida. Recordo aquele de que foi vítima o pagador da Mina de S. Domingos e que relembrámos neste blogue em “Um roubo perfeito no Guadiana”.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Carapaus "alimados"




Apresentamos hoje mais um prato que faz parte das tradições alimentares dos alcoutenejos.

Este não é por influência da gastronomia alentejana como outros que aqui já apresentámos mas sim pela do litoral algarvio onde é muito conhecido e aplicado.

Quando se fala em influências, não se diz a transposição integral do prato pois este tem de submeter-se ao gosto, sensibilidade e recursos onde está inserido.

Se existem diferenças entre a açorda alentejana e a da serra algarvia, haverá também entre os carapaus alimados do litoral e da serra?



Viajando na Internet à procura desta “receita” demos com muita coisa semelhante e diferente, contudo, não encontrámos nenhuma como a praticada em nossa casa. E consideramos a diferença significativa. É que os carapaus passam pelas mesmas fases de preparação, salga, cozimento, “alimação”, etc. com a diferença de serem cozidos com as tripas que naturalmente são extraídas em primeiro lugar na fase de “alimar”.

Os carapaus são assados com as tripas ou seja, sem serem amanhados. Porquê? Talvez por terem melhor sabor.

Será só o alimar que distingue os carapaus alimados dos cozidos?
Na nossa região de origem comem-se carapaus (amanhados) cozidos com batatas e cebolas como muitos outros peixes mas não se alimam.

O acompanhamento é feito com batatas cozidas de preferência com a pele, cebolas cortadas às rodelas, alho picado e tudo temperado com azeite.

Nas” pesquisas”, deparámo-nos com os mais variados acompanhamentos!

Alimar é um regionalismo que possivelmente deriva de “limar” de polir, raspar.

Diremos que esta receita foi praticada por quem nasceu, viveu e morreu em Alcoutim e que a aprendeu com os seus antepassados que pelo menos em quatro gerações têm aqui origem.

Não nos perguntem qual é a receita verdadeira, pois não sabemos responder.

Viemos encontrar na terra onde residimos e proveniente de pessoas originárias do barlavento algarvio, sardinhas alimadas, o que nunca vimos em Alcoutim.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O ferrado



Desconhecia totalmente este utensílio que vim a conhecer em Alcoutim, mas muitíssimo depois de lá ter chegado.

Penso ser hoje um objecto completamente caído em desuso, pelo menos como o que a foto apresenta, feito de barro e uma das peças que saíam das variadíssimas olarias que existiam até meados do século passado, já que o concelho de Alcoutim tinha na pastorícia uma das suas actividades principais. Já não existe quem os faça e se existisse, seria a preços relativamente incomportáveis.

Hoje e mesmo sem tomar em consideração a ordenha mecânica, quem ordenha não o faz para um ferrado de barro, mas sim para qualquer outro objecto, tipo balde e onde o plástico impera.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001, II Vol, p. 1727 a que recorri, apresenta-me o seguinte significado: - Vaso geralmente de lata, com bica e asas, para ordenhar vacas, ovelhas ou para transportar leite.

Tenho de ter em consideração que o dicionário apresenta duas entradas, a primeira como substantivo com 6 significados, sendo este o 5º. A segunda, como adjectivo, indicam-se 8 hipóteses.

Reparar que o ferrado tem uma configuração muito aproximada às velhas candeias de barro para utilização do azeite como iluminação.

Era fabricado nas olarias de Martim Longo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Oração das Almas no concelho de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO Nº 59 DE JANEIRO DE 2004 – Encarte de “O Algarve nº 4776, P. IV)


Em meados de Dezembro último, em dia de baixa temperatura na Serra Algarvia, ao cair da tarde, um automóvel pára à entrada do “monte”. Reparo que me reconhecem. Perguntam-me:- onde mora o António Mestre ?

Eu tinha que sair na altura e logo arranjo quem me substitua na indicação, mas antes que saia, ainda me perguntam se não sabia nada sobre a oração das almas, já que foram ao “livro” e nada encontraram. Só tive tempo de informar que se vier a sair a 2ª edição, já existe algo sobre tal assunto.


[António Mestre, cantador da Oração das Almas. Foto JV]

A procura de António Mestre, moço da minha idade, tinha a ver com esse canto de peditório, visto ser, tanto quanto creio, uma das únicas pessoas das redondezas que o sabe, como lho ensinaram, letra e música e que aprendeu, em muito jovem, nos Balurcos, para onde foi servir, como na altura acontecia e se dizia, na década de cinquenta do século passado.

A primeira referência que tive deste canto de base religiosa, aconteceu em 1967/68 quando num programa de televisão fiquei surpreso com a indicação da recolha ter sido feita em Cabaços, Alcoutim.

Nunca mais me lembrei de tal só que, em 1981 ao adquirir o excelente trabalho intitulado Cancioneiro Popular Português, de Michel Giacometti com colaboração de Fernando Lopes-Graça, deparei, a pág. 95 com a oração das almas que há alguns anos tinha ouvido no programa televisivo "Povo Que Canta", igualmente de autoria de Michel Giacometti.

[O monte dos Cabaços. Foto JV]

Só por volta de 1988/89 encontrei, esporadicamente, quem soubesse cantar tal oração, precisamente o Sr. António Mestre, residente no monte de Afonso Vicente, que me informou, como já disse, que a tinha aprendido em jovem, nos Balurcos e de que nunca se esqueceu.

Tempos depois tive oportunidade de confrontar a letra constante da recolha efectuada pelo brilhante etnógrafo com a cantada por António Mestre, verificando algumas falhas. O andar dos tempos teria ido deixando alguns versos pelo caminho pelo que nem todos chegaram ao ouvido e memória do ainda cantador.

Admitimos que o canto de peditório fosse costume de todo o concelho e áreas circunvizinhas, prática que foi desaparecendo com o decorrer dos anos e que se manteve conhecida, pelo menos até à entrada da década de sessenta do século passado no interior serrano alcoutenejo, onde o total isolamento a isso era propício.

Se António Mestre a aprendeu, certamente aconteceu o mesmo a outros balurquenses e se não sabiam toda a letra, tinham a música no ouvido.
A Associação de Solidariedade Social, Desporto e Arte, com sede na Escola Primária desactivada no Balurco de Cima, pretendia recordar tão antigo costume.

Esta Oração das Almas, cantava-se no dia de Finados (2 de Novembro) como canto de peditório, participando assim do culto dos mortos, tal como a Encomendação das Almas, que difere da primeira por não incluir qualquer forma de peditório no cerimonial. Enquanto a Encomendação é considerada um costume estritamente português, a Oração parece ter origem na Abadia de Cluny e se espalhou entre vários povos cristãos, sofrendo a influência de quem os adoptou.

A Oração das Almas constitui uma lamuriante melodia a que os cantadores impõem requebros de voz característicos e visa a salvação das almas do Purgatório.

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Cancioneiro Popular Português - Michel Giacometti em colaboração com Fernando Lopes-Graça, Circulo dos Leitores, 1981

terça-feira, 22 de março de 2011

Alcarias, povoação com alguma importância na freguesia de Vaqueiros

[Alcarias, entrada, 1998. Foto de JV]

Numa vertente da Serra do Caldeirão num lugar enquadrado pela beleza natural situa-se esta pequena povoação de origens recônditas com o seu casario rural construído com xistos e grauvaque e telhados de telha de canudo, representado em habitações, fornos de cozer pão, palheiros e arramadas agora em contraste com construções ou reconstruções onde o tijolo, novos materiais de construção e concepções de espaço são evidentes.

Dinheiro proveniente de emigrantes que mourejaram em diferentes partes da Europa trouxe novos tipos de construção e modos de vida com que não tinham sido criados.

O “monte” situa-se a 12 km da aldeia de Vaqueiros, sede da freguesia e a 42 de Alcoutim, sede do concelho. A cidade de Tavira fica-lhe a 31 e Vila Real de Santo António a 40, por isso, mais próximas do que a sede do concelho a que pertence.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 é referida como tendo 9 vizinhos, ainda que pertencendo à freguesia de Vaqueiros fazia parte do Termo de Tavira, situação que se manteve até à publicação do 1º Código Administrativo em 1836.

Em 1839, Silva Lopes não refere o seu número de fogos, possivelmente por o desconhecer, ainda que refira outros aparentemente menos importantes.

O topónimo de origem árabe, al-qariâ, significa pequena povoação, aldeia e já era muito usada no século XIII.(1) É muito vulgar no Sul do país.

Próximo desta existe outro pequeno núcleo habitacional designado por Alcaria. Alcarias, plural, parece dar a entender que foram várias alcarias, que se aproximaram pelo decorrer dos tempos, formando um único núcleo.

No Censo Populacional de 1991 eram-lhe atribuídos 53 habitantes, número só suplantado por outros dois “montes”, Zambujal e Preguiças. Em 1996 teria 38 habitantes em 12 fogos. (2) No recenseamento seguinte (2001) já tinha descido para 35e naturalmente hoje devem ser muito menos.

A electrificação da povoação foi inaugurada no dia 19 de Dezembro de 1984 (3) o que certamente constituiu uma boa prenda de Natal.

[Uma vista à distância. Foto JV, 2010]

Nesse mesmo ano, igualmente, se inaugurou um telefone público e para a sua instalação foi necessário um traçado de 10 km por montes e vales com o levantamento de 225 postes e uma despesa aproximada de três mil contos. (4)

Em 1993 é adjudicada a E.M. 506 - Bentos - Fernandilho / Ramais para Taipas e Alcarias (5) continuando assim a combater o isolamento de séculos.

O edifício escolar, que recebia as crianças das redondezas, há muito que encerrou por falta de alunos e presumo que tivesse sido construído na década de sessenta do século passado, precisamente quando se verificava já o êxodo das populações à procura de melhores condições de vida.

O edifício veio a ser adaptado para servir de Capela, a que o site da Junta de Freguesia chama Capela de Nª Sª de Fátima. (6)

Nos primeiros anos da década de 90 do século passado foi instalada uma padaria que em 2000 possuía 15 trabalhadores, destinando-se a produção (pão, carcaças) à venda no litoral algarvio chegando mesmo ao país vizinho.

É natural que não se venda na vila de Alcoutim e praticamente em todo o concelho, pois além do número de consumidores não ser atractivo, fica mais longe do litoral onde a venda está facilitada.

Existiam dois pequenos estabelecimentos comerciais (café e mercearias) desconhecendo eu a situação actual. Quando o “monte” do Vale da Rosa era habitado, era aqui que se vinham abastecer.

Com características artesanais, produzia-se queijo e mel.

Em 1992 é aberto um furo para fornecimento de água por fontanários. (7)

A água é levada ao domicílio em 2006, tendo-se construído uma pequena estação elevatória e instalado uma bomba submersível no furo. (8) A estação elevatória original foi construída em 1986.

[Parque de merendas]
Um painel de caixas para correio foi colocado em 1996. (9)

Os arruamentos são melhorados em 2009. (10)

Foi construído um parque de merendas equipado com acessos para deficientes. (11)

A badalada Unidade Móvel de Saúde de Alcoutim que com a sua acção tem evitado um decréscimo mais pronunciado de população, principalmente quanto às mortes por pneumonias, foi aqui inaugurada no dia 11 de Agosto de 1994.

O Plano Director Municipal indica como de interesse três fornos, fornalha e pormenores construtivos.

NOTAS
(1) – Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, p.47
(2) – http://www.in-loco.pt
(3) – Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(4) -“ Inauguração de um telefone público no Nordeste Algarvio”, Geleate Canau, Jornal do Algarve de 20 de Abril de 1984.
(5) - Boletim Municipal nº 12 de Abril de 1993.
(6) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 8, de Setembro/2001, p 12
(7) – Boletim Municipal, nº 10, de Abril de 1992.
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 13 de Dezembro de 2006, p. 14, 16 e 17
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, p.12
(10) – Alcoutim, Revista Municipal nº 15 de Julho de 2009, p. 15
(11) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 12 de Dezembro de 2005, p. 15

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os dias que vinham com a Primavera

Pequena nota

Não quis o «nosso» poeta deixar passar despercebida a estação criadora acabada de entrar, pois presenteia-nos com este poema pleno de bucolismo e amor.
JV







Poeta


José Temudo







Depois da longa, fria e triste espera,
como eram lindos os desejados dias
que vinham com a Primavera!
As manhãs frescas, mas luminosas,
o céu alto, limpo, azul,
como o céu sob que nasci, ao sul;
as tardes crescendo, amenas, aquecendo,
as noites serenas, apetecendo;
a vinda das buliçosas andorinhas,
riscando o céu, videirinhas;
o chilreio da passarada,
fazendo os ninhos, atarefada,
nos ramos de novo cobertos de folhas;
as águas rebentando nas fontes,
em múltiplas e efémeras bolhas!
Delicadas flores colorindo verdes montes!
Com esses dias formosos,
com essas tardes amenas,
com essas noites, mornas, serenas,
vinha EROS, de membros vigorosos,
jovem, alegre, descarado, sedutor,
sedento de beijos, de carícias e de amor!
Como eram doces os dias de Primavera,
depois da longa, fria e triste espera!


J.T.

[Retirado com a devida vénia de gimulek.blogspot.com]

domingo, 20 de março de 2011

«Mistério» esclarecido



Caros Visitantes / Leitores:

Quando publicámos recentemente a Câmara Escura que esta foto originou, lançámos um repto para que se alguém conseguisse identificar o quadro, pedimos o obséquio de nos informar através do nosso e-mail cuja indicação consta do blogue.

Recebemos no dia 16, um e-mail do nosso Amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos dizendo-nos que o “mistério” estava esclarecido pois recebeu comunicação telefónica de uma alcouteneja, D. Maria Bárbara Antunes Martins, a informar com bastante precisão o que a foto representava.

Efectivamente o espaço de tempo que referimos estava bem calculado e a sugestão do transporte de relíquias também bateu certa.

Naturalmente que desejamos partilhar a “descoberta do segredo” com a Amiga que nos facultou a fotografia, que como dissemos é de João Baltazar Guerreiro (fal.) e os visitantes / leitores do ALCOUTIM LIVRE.

Trata-se da visita a Alcoutim das “Relíquias de D. Nuno Alvares Pereira” cuja cerimónia solene teve lugar no dia 14 de Junho de 1961 ou 1962, sendo esta a única dúvida.

Aqui deixamos o nosso agradecimento à alcouteneja que prestou tal esclarecimento.

N.B.
Podemos hoje confirmar que foi no ano de 1961 e teria sido das últimas visitas a efectuar.
JV

sexta-feira, 18 de março de 2011

Mais de 600 escritos



Deu-me na cabeça actualizar a contabilidade da escrita. Número para aqui número para ali, até hoje são cerca de 628 escritos que dei a público sobre Alcoutim e o seu concelho durante 38 anos, visto o primeiro artigo que publiquei em nome individual teve lugar no nº 833 do Jornal do Algarve de 10 de Março de 1973.

Em suporte de papel foram publicados 110, número já existente dois anos atrás e não é muito provável que volte a fazê-lo nesse tipo.

Foram utilizadas as seguintes publicações: Jornal do Algarve, incluindo o Magazine, Jornal do Baixo Guadiana, Jornal Escrito como suplemento de vários jornais, Distrito de Faro, Diário do Sul e na Revista Stílus. Que seja do meu conhecimento só dois mantêm a sua publicação.

O formato digital e inteiramente no ALCOUTIM LIVRE , ainda que alguns tenham sido igualmente publicados no Jornal RAIZONLINE, já me possibilitou a publicação de 518 escritos sobre Alcoutim entre as 729 mensagens. Uns mais curtos, outros mais extensos, encontramos de tudo.

Além das postagens originadas pelos colaboradores onde normalmente escrevo uma pequena nota que por vezes se alonga, desconto os Ecos da Imprensa contabilizados em suporte de papel e parte dos TEMAS : Da barriguinha da mamã, Figuras do Baixo Guadiana, Viagens sem regresso e Escaparate, ainda que sejam todas naturalmente da minha autoria.

Posso também informar os visitantes / leitores que até hoje o ALCOUTIM LIVRE é constituído por 3 234 páginas A/5 formando 12 volumes.

Continuo a possuir assuntos e a ter matéria para os abordar esperando que a saúde não me falte para o poder fazer.

Ainda que seja esta a região sobre a qual tenho escrito mais, também o tenho feito sobre outras, nomeadamente a da nossa origem, sobre a qual já publiquei 370 artigos todos em suporte de papel já que o jornal é aberto e sempre esteve interessado na sua publicação.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Telhados de Alcoutim



A Câmara Escura de hoje tem por título” Telhados de Alcoutim” e a foto foi tirada por mim do Castelo e em Setembro de 1986.

Trata-se de um pequeno trecho da parte alta da Vila que tem como elemento central a Capela ou Igreja de Nª Sª da Conceição.

Os telhados são na sua grande maioria representados por uma só água e dos visíveis são todos de telha de canudo ou árabe, excepto o da antiga escola ao fundo e um de construção mais recente, na Rua de D. Sancho II junto às escadinhas da “Conceição”, local por onde teria passado a muralha da vila.

Todas estas telhas assentavam em canas que formavam uma espécie de forro a que se chamava ou chama “caniço”.

Só conheci na Vila um único telhado da chamada telha “Marselha”, tratava-se do edifício onde funcionaram os serviços da Guarda-Fiscal e hoje ocupam os de Finanças.

O primeiro telhado com a chamada telha Lusa, telhas rectangulares e que uniam rigidamente por encaixe teve lugar em 1970 e provocou complicação a sua aplicação aos então pedreiros pois nunca tinham trabalhado com tal telha. Devido à falta de esquadria das áreas a cobrir, acrescido com a inexperiência dos operários, originou um mau telhado como ainda hoje se pode verificar.

Em alternativa aos telhados com telha de canudo, construíram-se terraços ao gosto do litoral de que ainda existem alguns exemplares.

As telhas de canudo hoje abandonadas têm sido compradas ao desbarato para a construção no litoral do Algarve, onde são muito apreciadas pelos estrangeiros.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Poço das Figueiras, durante séculos fornecedor à Vila do precioso líquido

[O Poço das Figueiras em 1973. Foto de JV]

Ao falar de poços e demais com um sentido histórico, temos que colocar em primeiro lugar o das Figueiras.

Até há uns anos, era o mais conhecido, procurado e querido da população. A sua existência perde-se no recuar dos anos.

Situado na margem direita da Ribeira de Cadavais, beneficiará certamente da infiltração das águas desta e é propriedade municipal.

Sendo durante séculos o principal fornecedor do precioso líquido à população, foi em 1965 relegado para plano secundário, pois os técnicos optaram pela abertura de um novo que no seu entender teria maior caudal.

Não foi preciso muito tempo para se verificar o erro e em breve teve que se recorrer novamente a ele para colmatar as falhas frequentes do Poço do Pego do Corvo.

Em 1844, a Câmara deliberou que se mandasse fazer um bocado de calçada junto do poço das Figueiras para que os habitantes pudessem a ele chegar comodamente. (1)

Em 1874, em reunião municipal é deliberado aprofundá-lo e um ano depois o médico local chama a atenção do município no sentido de evitar a falta de água potável aos habitantes da vila, já que apenas o poço das Figueiras a tem, todos os demais estão secos e por conseguinte, era necessário providenciar para se abrir outro, lembrando ele, para o efeito, o sítio da Fonte da Serra, onde sempre tem havido água abundante.

O Administrador do concelho chamou a atenção à Edilidade que junto do mesmo poço, quando chove, se forma um lago cujas águas desaguam por infiltração para o poço, tornando as deste insalubres, o que era conveniente evitar. (2)

A Câmara em 1888 dirigiu-se ao Director da Mina de S. Domingos requisitando uma bomba para esgotar um dos poços públicos da vila, o qual, prestando-se com a melhor vontade, não só acedeu ao pedido como fez acompanhar a bomba de dois empregados para a montar e prestar qualquer serviço necessário para obter esse fim, tudo isto sem qualquer dispêndio. (3)

Em 1926 o médico municipal declarou imprópria para consumo a pouca água existente nos três poços públicos que abasteciam a vila. A Comissão Administrativa deliberou convidar o povo para o seu esgotamento e proceder à limpeza interna, o que se veio a verificar. (4)

Anos depois (1935), ao ser limpo o poço, principal abastecedor da vila como é do conhecimento geral, abateu em parte, oferecendo perigo de uma derrocada total, não podendo, por isso, a população efectuar o seu abastecimento normal. Propunha então, o Presidente da Comissão que imediatamente se procedesse ao seu arranjo nas seguintes condições: - desmanchar o resto do empedrado que ameaçava ruir, empedrá-lo de novo na sua totalidade, com o auxílio de cal e cimento. Aprofundá-lo depois pelo menos mais um metro. Levantar a calçada que o rodeava e fazê-la novamente em cimento para que de futuro não houvesse infiltrações. Fazer de novo o poial à sua volta. (5)

O problema da salubridade é novamente levantado em 1939. O Delegado de Saúde intima a Câmara na pessoa do seu presidente a proceder à limpeza imediata e urgente do poço, visto o seu estado oferecer perigo para a saúde pública, o que veio a ser feito. (6)

Em tempos, à tardinha, era uma romaria a caminho do poço. Cântaros à cabeça ou nos quadris eram transportados por mulheres e moças, enquanto os homens e moços os colocavam aos ombros. Havia mesmo quem se dedicasse ao comércio da água utilizando animais de raça asinina para o transporte em cântaros colocados em cangalhas. A venda fazia-se às cargas.

Quantos derriços tiveram por palco este trajecto?


Notas
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Setembro de 1844.
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Setembro de 1879.
(3) - Acta da Sessão da C.M.A. de 11 de Junho de 1888.
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 21 de Outubro de 1926.
(5) - Acta da Sessão da C.M.A. de 22 de Agosto de 1935.
(6)- Acta da Sessão da C.M.A. de 8 de Junho de 1939

terça-feira, 15 de março de 2011

A guerrilha do Remexido


Numa edição de Publicações Europa – América e englobado na colecção Estudos e Documentos e tendo como Editor Francisco Lyon de Castro, este trabalho de 217 páginas de 14X21 cm é da autoria de António do Canto Machado e de António Monteiro Cardoso.

Excelente trabalho dividido em seis capítulos que começa com A luta civil no Algarve (1826-1834) terminando com Objectivos da luta.

O trabalho engloba um importante Apêndice Documental terminando com uma vasta Bibliografia, onde nas Fontes Manuscritas se coloca Guarnição de Alcoutim, 1838, caixa 2, nº 66, isto no Arquivo Histórico Militar.

São variadíssimas as referências a Alcoutim e ao seu concelho, nomeadamente a Martim Longo e a Vaqueiros.

Adquiri-o numa livraria de Peniche em 1983 e foi-me útil quando elaborei Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) dado a público em
1985.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações - IV

Pequena nota
Aqui estamos mais uma vez para escrever nota introdutória a RECORDAÇÕES – IV do nosso colaborador Daniel Teixeira.
Mais tarde ou mais cedo os políticos terão de se debruçar sobre a divisão administrativa do país e ajustá-la à nova realidade.
A existência dos concelhos em tempos recuados tinha muitas vezes a ver com a importância político-económica dos Senhores da Terra e não com a importância da mesma.
Os liberais, em 1836 (Decreto de 6 de Novembro) extinguiram 458 concelhos, ficando apenas 373 e é essa a estrutura administrativa que se mantém com os naturais ajustamentos mas distante da realidade actual.
Que seja do nosso conhecimento o concelho de Alcoutim desde que foi criado só foi extinto uma vez e por um pequeníssimo período de um ou dois meses (estamos escrevendo de memória) tendo sido anexado ao de Vila Real de Santo António para onde chegou a ser levada a documentação da Câmara. Nesta altura houve uma tentativa para criar um novo concelho com sede em Martim Longo e que além de todo o concelho de Alcoutim incluiria as freguesias de Cachopo e do Ameixial interessadas em tal, mas que não resultou.
Extinto também por pouco tempo o concelho de Castro Marim, a freguesia de Odeleite foi englobada no de Alcoutim, acabando por voltar à sua posição inicial.
Recentes notícias falam numa redução de freguesias do concelho de Lisboa com um acordo dos dois maiores Partidos Políticos, mas a nível de concelhos a matéria continua a ser tabu, ou por outra, todos dizem que é necessário fazê-lo, mas a verdade é que ninguém toma a iniciativa. Os políticos têm medo das reacções das populações.

Permita-me o Daniel Teixeira não estarmos de acordo com a previsão da anexação do concelho de Alcoutim ao de Castro Marim e isto sem menosprezo para aquela velha Vila e sem qualquer ponta de bairrismo.
Todos sabemos que Castro Marim está a dois passos de Vila Real de Santo António e muitos consideram-na como se fosse mais uma das suas freguesias!
A vila é praticamente um dormitório da nova cidade dependendo muito desta. Parece que os vizinhos espanhóis também a têm ultimamente procurado nessa perspectiva de dormitório. Reparar que, segundo pensamos, é a única sede de concelho do país que não tem uma corporação de bombeiros! A de Vila Real presta-lhe o serviço de que necessita.

Sabemos que ultimamente gente que trabalha na vila de Alcoutim prefere comprar casa em Vila Real do que naquela vila, deslocando-se diariamente ao seu posto de trabalho. É normal, cada qual procura os seus interesses.

A situação geográfica de Alcoutim, a meio caminho entre Mértola e Vila Real de Santo António, coloca-a quanto a esse aspecto, numa posição com algum interesse, apesar de se encontrar numa linha extrema do concelho o que deixa povoações de si “dependentes” a distâncias consideráveis.

Pensamos que a posição geográfica de Alcoutim é a mais “turística” das redondezas e todos os dias recebe, talvez não da melhor maneira, vários visitantes nacionais e estrangeiros.

Há mais de 40 anos que ouvimos dizer que Alcoutim está destinado a ser um couto cinegético, mas custa-nos a acreditar nisso.

O 2º ponto a abordar é o da 1ª Guerra Mundial.

Graças ao Daniel Teixeira ficámosi a” conhecer” mais alguns alcoutenejos participantes. O que sabemos é quase tudo por via oral e ainda que tivéssemos pensado reunir elementos sobre o assunto, tal não nos foi possível e agora já é tarde.
Ao homenagearem-se recentemente os alcoutenenses mortos nesse flagelo, pensamos que teria sido uma boa altura para fazer um trabalho o mais completo possível sobre o assunto e referente ao concelho de Alcoutim. Esperamos que alguém o venha a fazer.

Para terminar não podemos deixar de agradecer as considerações que o Amigo Daniel Teixeira teve a amabilidade de fazer sobre o nosso trabalho.

Um abraço do,


JV








Escreve

Daniel Teixeira


GENTE DE ALCARIA ALTA NA 1ª GURRA MUNDIAL




Introdução minha

Em primeiro lugar gostaria de referir que este texto tem por introdução a introdução do amigo José Varzeano, titular do Blogue Alcoutim Livre e pessoa pela qual nunca deixarei de demonstrar a minha admiração e reconhecimento.
Admiração em dois sentidos referidos por agora:

1- Pelo facto de ser a pessoa que é e de ter os interesses e os trabalhos que tem tanto publicados no Blogue como em edições físicas - uma visita ao Blogue Alcoutim Livre será bem esclarecedora e sobretudo também muito útil nestes dois planos do conhecimento do escrito em «virtual» como do escrito em «não - virtual»

2- Pelo facto de eu ter partido para esta «luta» com um convencimento quase inabalável na altura de que o trabalho do amigo José Varzeano era um trabalho inglório no sentido dos resultados para o Concelho de Alcoutim embora pudesse ser gratificante em termos de ocupação nobre do tempo disponível e até com alguma «pena», não a pena piedade, esclareço, mas a pena por aquilo que considerava ser uma perca de tempo porque o Concelho de Alcoutim não tinha (e não tem a meu ver ainda) condições para se manter de pé como Concelho e que seria / será englobado mais tarde ou mais cedo no Concelho mais vizinho, a sul, o de Castro Marim.

Aconteça o que acontecer as memórias de Alcoutim que o José Varzeano vai compilando farão sempre viver o Concelho de Alcoutim mesmo que ele seja (ou fosse, um dia) objecto de um englobamento, pelo que em qualquer dos casos o trabalho do José Varzeano nunca será o de um tempo perdido nem um trabalho desperdiçado. Daí também a minha admiração.

Como eu sempre tenho dito o José Varzeano através do seu Blogue e dos seus textos tem o condão de me espevitar recordações, algumas delas quase propositadamente esquecidas conforme já referi em textos anteriores. De facto recuso-me - disse e digo - a reconhecer naquele Concelho e naquele Monte de Alcaria Alta tal como ele está o mesmo que eu conheci nos meus tempos de infância e juventude e isto não tem nada a ver com políticas recentes nem com outras coisas às quais normalmente se atribui a culpa.

A desruralização do país versus industrialização / serviços era inevitável e lutar contra
isso ou de forma a equilibrar tanto quanto possível os pratos da balança através de compensações diluidoras do desenvolvimento dos processos tem sido reconhecido como sendo impossível.

Mesmo os programas e as instituições de desenvolvimento local têm facilidade em reconhecer que não podem vencer problemas estruturais com meios locais: o êxodo das populações, o envelhecimento acelerado da pirâmide etária dos que vão ficando sem que haja renovação, a impossibilidade de criação de estruturas de desenvolvimento económico localizadas suficientemente credíveis em termos de futuro que fomentem reforços populacionais, tudo isso não pode acontecer e enfim...sobre isto há literatura bastante que satisfaça os mais exigentes em matéria probatória.

Não precisava mesmo era de ser assim no Concelho de Alcoutim e noutros em situação quase semelhante: possuidor de uma agricultura praticamente de sobrevivência, vitima também em parte do sistema de divisão de propriedade por herança espartilhando por muitos filhos aquilo que nuns casos quase e noutros nem dera já mesmo para os criar, o que Orlando Ribeiro e outros geógrafos e sociólogos apontavam desde praticamente os inícios do Sec. XX era, pois, mesmo inevitável. Medidas para alterar estas situações não há nem havia.

Alterando um pouco o tema e sem querer aborrecer os leitores gostaria de dizer que eu, enquanto Director (Interino) do Jornal Raizonline fui despertado indirectamente para o José Varzeano...pelos nossos amigos brasileiros e directamente pelo facto de ele centrar o seu trabalho no Concelho / Região de que guardo boas memórias.

Esclarecendo esta parte; quando refiro os nossos amigos brasileiros é preciso fazer notar um pouco da forma como nasceu o Raizonline: fomos recebendo trabalhos de colaboradores nas mais diversas vertentes e temos desde sempre feito a gerência dos processos em termos de distribuição temática: por outras palavras aplicadas a este caso não fomentámos o aparecimento de qualquer modalidade da escrita em especial e verificámos que recebíamos do Brasil muitos trabalhos de crónicas memória/biográficas.

Achámos, e continuamos a achar, esquisito que de Portugal nada ou muito pouco aparecesse com estas características temáticas. Explicações para isso provavelmente há mas eu não as tenho. São diversos os brasileiros que escrevem sobre o seu passado, tenho ele sido urbano ou rural ou mesclado: portugueses poucos ou nenhuns mesmo...porquê?!

Ora quando o José Varzeano me apareceu numa das minhas visitas/viagem pela Net pensei juntar o agradável ao agradável e sugeri-lhe a «sociedade» que mantemos até hoje entre os nossos dois meios de divulgação: O Alcoutim Livre e o Raizonline (na altura só Jornal). O resto do tema segue depois...e vamos à introdução do José Varzeano ao meu texto Recordações III aqui publicado e no seu Blogue.

Quarta-feira, 2 de Março de 2011 em Alcoutim Livre



Alcoutim - Recordações III

Pequena nota

Temos hoje o prazer de apresentar Alcoutim – Recordações III do nosso colaborador Daniel Teixeira, Director do Jornal Raizonline, cujo portal apresenta o nosso blogue Alcoutim Livre e que de quinze em quinze dias publica numa das suas páginas um dos nossos textos, que já têm, como se pode verificar, um grupo certo de visitantes.

Estas Recordações de Daniel Teixeira têm um sabor especial, pois no presente só esporadicamente contacta com a região de onde provêm algumas das suas raízes.

Apesar das circunstâncias da vida terem originado tal mudança, nunca lhe tiraram o interesse pela terra de sua mãe e dos avós maternos, foi esse interesse que o trouxe até nós, proporcionando esta troca de experiências muitas vezes levadas à escrita e ao seu repartir por esse Mundo fora.

Não nos queremos alongar em considerações mas temos de escrever isto para possibilitar uma melhor análise e avaliação dos nossos leitores.

Comentando o texto só temos a agradecer o suprimento da nossa falta legendando as fotos no artigo que publicámos sobre o monte de sua mãe, Alcaria Alta. Amigo Daniel Teixeira, quando fizemos as fotografias que apresentamos, estivemos cerca de 45 minutos na povoação e não conseguimos ver ninguém! Já lá vão os tempos em que aquilo fervilhava de gente!

Quando tirámos a fotografia à casa do nosso saudoso amigo, João Baltazar Guerreiro, não conhecíamos essa circunstância, que só viemos a saber por intermédio da neta. Tirámos a fotografia porque nos pareceu uma reconstrução equilibrada e não como outras que por lá existem.

Gostamos de ligar a tradição oral ao que lemos em livros e papéis mas isso nem sempre é possível.

Quanto ao sargento Gabriel Neto, não o conhecemos mas podemos informá-lo que pertenceu à extinta Guarda – Fiscal. Era natural do Monte do Vascão, freguesia de Alcoutim e foi prisioneiro na Guerra Mundial 1914/18. A família julgou-o morto.

Para lhe exercitar a memória e ilustrar o seu texto, permita-nos que nele introduzamos duas fotografias. Uma retrata o acesso ao monte, a outra, que considero interessante além de ser demonstrativa da decadência, põe a nu o tipo de construção que se utilizava e a existência das «pilheiras» que evitavam os móveis difíceis de adquirir.

Obrigado pelo testemunho.

JV



Pois bem, este manancial de recordações que as informações que trocamos por esta via escrita (seja no Blogue Alcoutim Livre seja aqui) tem uma importância e uma validade interessante a cuja convergência temporal e temática é difícil fugir...ainda neste número temos colocado um conto da Arlete Piedade baseado em factos reais em que duas pessoas amigas se encontram por via de correspondência trocada entre familiares tendo vivido durante vários anos praticamente lado a lado em Angola...ora a José Varzeano era amigo do João Baltazar em Alcoutim fotografou-lhe a casa no Monte de Alcaria Alta e 4 anos depois é que veio a saber que essa era a casa natal do seu falecido amigo por informações de uma familiar do João Baltazar.

Pois eu não sabia, e disse no meu texto que só conhecia o Sargento Gabriel pelas razões que apontei e que não sabia de quê ele era Sargento - era da Guarda Fiscal: o José Varzeano vem - me dizer o nome completo do Sargento Gabriel e a sua «arma» e acrescenta um outro ponto que me desperta para uma outra situação pelo menos esquisita num Monte com cerca de meia centena de homens na altura (penso eu).

O referido sargento Gabriel terá sido dado como falecido na 1ª Guerra Mundial tendo estado prisioneiro dos alemães (na altura). Ora embora ele não fosse exactamente de Alcaria Alta, era do Monte do Vascão, foi lá ter, casando. Conforme eu disse talvez não houvessem 50 homens em Alcaria Alta e com este sargento Gabriel são três ou 4 os naturais do Monte de Alcaria Alta que estiveram no contingente português na 1ª Guerra Mundial: O pai do João Baltazar, um tio avô meu - casado com uma irmã da minha avó - que não garanto ter lá estado e já explico porquê e o Ti Mocho esse residente mesmo em Alcaria Alta.

O meu tio avô foi o marido da minha Tia Assunção (irmã da minha avó) , uma velhota resistente até perto dos 90 anos que era já viúva de um senhor que eu não conheci por já ter falecido mas que aparecia lá na casa dela numa foto em que estava fardado. Seria normal também se ele tivesse sido Guarda Republicano ou outra coisa mas pela minha memória aquela farda era do exército. No entanto não estou certo...podia perguntar, é um facto, mas estou quase certo disto talvez por alguma ou algumas palavras que a minha mente tenha arquivado sem eu agora saber quando nem onde.
Normalmente não se falava muito nos familiares falecidos, não sei pelo facto de nós sermos ainda crianças, se porque era mesmo assim. Uma outra tia avó minha era já viúva também mas nunca, que eu me lembre, me foi referido o seu falecido marido. Bem...avançando...

O pai do João Baltazar vim a saber dele como tendo estado na 1ª Guerra Mundial muito recentemente, através da sua neta: informei-a que por aquilo que minha mãe me dizia o tio dela chamava-se Vanderdil porque era uma aglutinação de um nome holandês (neste caso flamengo da Flandres Francesa - Van der Dill) e ela mostrou-se muito admirada porque realmente a avó dela dizia-lhe que ele tinha aquele nome porque o pai tinha tido um amigo na guerra com aquele nome ou parecido e que a isso se devia a originalidade do nome próprio. De esclarecer que a Flandres Francesa a norte foi o ponto de concentração e distribuição das tropas portuguesas pela França em guerra.

Ainda conheci o Vanderdil, com doença cardíaca que o levou ao falecimento, pelo facto de sermos vizinhos mas também porque levava muito tempo sentado numa laje enorme, meio inclinada, que permitia que ficássemos meio sentados meio deitados e isto acontecia (a sua permanência mais constante naquele lugar) porque segundo a minha mãe ele ali tinha menor dificuldade em respirar. Para a frente o espaço era aberto, com uma paisagem quase plana mas bem arborizada e verde e realmente sabia bem estar ali a olhar e ler, no meu caso.

Essa laje, situada à direita da azinhaga do Lagar e à frente de um palheiro pertença da Dona Maria e familiares era também um poiso tranquilo para o pessoal conversar e chegavam a juntar-se ali várias pessoas cavaqueando. Como a conversa por vezes metia lendas de mouras encantadas ou histórias com algum sabor a aventura havia sempre um ou mais jovens na escuta (talvez uma dezena no Monte todo - os jovens).

O Ti Mocho (o terceiro confirmado veterano da 1ª Guerra) chamava-se mesmo Mocho de nome: os netos dele é que não gostavam nada de ser chamados de «mochinhos» e isso dava origem a algumas disputas entre nós. Um deles vim a saber que viveu bastante tempo perto de mim, que tinha um café/snack bar (ainda lá fui algumas vezes sem ligar a pessoa ao nome) e teve um fim trágico aqui há anos.

O Ti Mocho em si era um homem normal em quase tudo excepto no facto de ter a certeza já nos anos 70/80 e 55/45 anos depois da guerra sensivelmente, que ainda conseguia ir ter ao local exacto onde tinha estado numa trincheira durante o período que achava ter sido o mais difícil da sua estadia na guerra, e em cuja proximidade tinha encontrado uma isolada couve plantada que comera crua.

Pois bem, uma destas recordações pode não corresponder à realidade - caso do meu tio avô ter estado ou não na 1ª Guerra Mundial - mas não deixa de ser pelo menos estranho que proporcionalmente Alcaria Alta (que conforme disse não deveria ter mais de 50 homens no total entre diversas faixas etárias) tivesse contribuído de uma forma aparentemente desproporcionada para o chamado «esforço» de guerra embora se deva ter em conta também que nesta Guerra entraram 200 mil homens de nacionalidade portuguesa. Durante a guerra colonial, que envolveu um total de 1.400.000 homens mobilizados apenas tenho conhecimento de um mobilizado em Alcaria Alta, o Juanito Vilão, que lá faleceu.

sábado, 12 de março de 2011

Carta aberta a um visitante / leitor

Pequena nota
Como já neste espaço temos feito referência, recebemos vários “e-mails” o que continua a acontecer, transmitindo até agora apoios que muito nos têm ajudado a continuar este trabalho. Com sentido negativo ainda não chegou nenhum.
Sem nunca identificarmos os remetentes temos publicado alguns excertos mais significativos dos mesmos.
Recebemos há dias um, talvez diferente de todos os outros pelos assuntos que aborda.
Depois de termos reflectido sobre os pontos abordados e lido algo nas entrelinhas, pensamos que a resposta “merece” ser dada neste espaço, o que vai acontecer pela primeira vez.
É evidente que o nome do remetente, nem aqui nem em parte alguma será revelado como naturalmente se justifica.
Iremos reproduzir a parte que nos interessa e na qual o autor (a) não é identificável, e seguidamente as considerações que julgamos oportunas.


Devo dizer-lhe que acompanho regularmente o seu blogue "Alcoutim Livre", de onde retiro grandes ensinamentos sobre o património cultural de Alcoutim. Devo, igualmente, dizer-lhe que é o maior historiador de Alcoutim. Pois, já lá vão mais de quatro décadas a auscultar a terra "alcouteneja", resgatando e registando a sua história, a cultura, as suas memórias e as suas gentes. Todo este trabalho, acredite, tem um enorme valor, sem qualquer outro interesse que não o amor à camisola. Por tudo isto lhe devemos prestar as devidas honras e estar gratos. Não tenho dúvidas que mais cedo ou mais tarde será superiormente reconhecido pelo seu trabalho e homenageado como merece, como um “filho” prodígio que serve de exemplo e enche de orgulho a uma terra. Acredite que existem muitos alcoutenejos com este sentimento de reconhecimento. O seu nome jamais se desligará da história de Alcoutim.



É verdade que o nosso trabalho não tem qualquer outro interesse a não ser servir um concelho, dando-o a conhecer em muitos aspectos, sem bajulações de qualquer tipo, procurando ser o mais verdadeiro que nos é possível, sem procurar transformar o mau em bom. É evidente que as conclusões são nossas e procuramos defender pontos de vista. Naturalmente há gente que não concorda com eles apresentando argumentações diferentes. Qual é o problema? Nenhum.

Temos alguma noção do que representa o trabalho desenvolvido que obviamente se vai refinando pelas opiniões que desde há 40 anos vêm chegando ao nosso conhecimento e muitas delas oriundas de pessoas que não conhecemos nem viremos a conhecer, tanto de pessoas ligadas a Alcoutim como de quem nunca lá esteve. E temo-las desde o cidadão comum ao professor universitário.

Quando se constroem coisas com verdade e se destinam ao bem comum aguentam bem as ventanias que de vez em quando sopram, pelo contrário, quando são feitas com mentiras e movidas por interesses pessoais acabam por cair como um baralho de cartas.

Sempre foi assim e será.

Acreditamos que seja verdadeiro o sentimento de reconhecimento que alguns alcoutenenses nos têm manifestado, possivelmente serão mais dos que até agora o têm feito e que por motivos muito diversos se sentem constrangidos.

Também não temos dúvida que o nosso nome ficará ligado a Alcoutim, nem que seja para ser contestado, mas essas coisas pouco nos interessam e não é isso que procuramos.

Nunca quisemos nem queremos ser tratado como alcoutenejo pois não nascemos lá e temos muito orgulho em ser varzeense. Isto, como é evidente não representa o mínimo de desconsideração por Alcoutim. Nunca achámos correcto mudar-se a terra onde nascemos, seja ela qual for.

Não somos um “filho” prodígio que serve de exemplo e enche de orgulho uma terra e tal nunca nos passou pela cabeça. Apenas temos realizado um trabalho de que gostamos, com as nossas reduzidas possibilidades, com seriedade e o melhor que nos tem sido possível, apenas isso.

Nunca pretendemos nem pretendo homenagens, como aliás temos provado. O que exigimos é que nos tratem com o respeito que merecemos e que os donos não aticem cães rafeiros para nos tentarem morder nas calças.

O nosso percurso de vida que se encaminha para o seu términos não nos envergonha como Homem, filho, pai, avô, familiar, marido, cidadão solidário e profissional que exerceu, durante 36 anos, com amor, afinco e entrega a actividade na qual atingiu o topo hierárquico obtido através de concursos públicos e a nível nacional.

Caro Senhor (a): Agradecemos-lhe as suas palavras “perdoando-lhe” os exageros manifestados talvez por um excesso de consideração.

Esperamos que não as esqueça e que delas se vá lembrando ao longo dos muitos anos que tem ainda para viver.
Muito obrigado.
Cumprimentos.

JV

sexta-feira, 11 de março de 2011

O cemitério da Freguesia de Martim Longo



De A escultura de madeira no concelho de Alcoutim do século XVI ao século XIX, (1) transcrevemos: Nos princípios do séc. XIX assistimos à construção dos cemitérios, normalmente em espaços fronteiros à igreja, deixando então os corpos de ser enterrados no interior dos vários locais de culto. Somente encontrámos referências documentais relativas à construção do de Martim Longo, realizada em 1828, e que foi destruído em 1985.

Esta indicação não joga com a que obtivemos pela leitura da acta da Sessão da Câmara Municipal, datada de 6 de Agosto de 1840., onde se lê: a edilidade decidiu que se passassem as ordens mais determinantes às Juntas de Paróquia para fazerem os cemitérios no prazo de três meses, excepto o de Martim Longo que deverá aprontar-se dentro de um mês. (2)

[Igreja Matriz vendo-se ao fundo o antigo cemitério. Desenho de JV, 1983]

Como se vê, existe uma diferença de doze anos entre as duas datas.

O primitivo cemitério da freguesia situava-se em frente da igreja matriz, no local onde se encontra hoje o Centro de Dia.

[Monumento funerário desprezado do P. José Pedro Rodrigues Teixeira, que foi pároco de Martim Longo]
Em 1872 (3) a Junta de Paróquia apresentou à Câmara um requerimento em que manifesta a necessidade de construir um novo cemitério e pedindo para o efeito autorização para lançar uma finta ou derrama pelos fregueses na quantia de duzentos mil réis, visto a receita ordinária ser muito diminuta, com o que a Câmara acordou.

O actual cemitério situa-se um pouco afastado da aldeia, como convém, servido pela estrada da “Alagoa” e que nos leva também ao «monte» do Laborato.

Iniciou a sua função em 26 de Fevereiro de 1961, segundo informação recebida.

Lembramo-nos perfeitamente da existência do anterior que junto ao portão possuía um pequeno painel de azulejos. Foi destruído em 1985 para a construção do Entro de Dia.


NOTAS
(1) Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, pág. 12.
(2) “O Cemitério da Vila de Alcoutim – da origem aos nossos dias”, em Jornal do Algarve de 10 e 17 de Março de 1988.
(3) Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 2 de Janeiro.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Pá de forno



Mais um objecto caído completamente em desuso mas que ainda em meados do século passado existia em abundância por todos os montes do concelho.

Apesar do êxodo das pessoas já se fazer sentir para o estrangeiro, nomeadamente para a França e Alemanha, no País para o litoral algarvio, cintura industrial de Lisboa e Setúbal, os montes ainda tinham gente, principalmente aquela de idade que já não lhe permitia uma mudança de vida para a qual não estava preparada.

Os que ficaram continuaram a fazer o que tinham feito toda a vida, enquanto os filhos, após a 4ª classe quando isso foi possível, desandaram à procura de uma vida melhor nos mais variados ramos de actividade e com o apoio total dos pais.

A maioria dos montes estava completamente isolado, sem acessos, a não ser alguma vereda por onde passavam os burros e outras bestas, energia eléctrica nem pensar e até a água potável em muitos casos não era fácil obter, pois os poços nos anos menos pluviosos secavam, situando-se naturalmente nos locais mais baixos pelo que ficavam normalmente a alguma distância dos montes, na maior parte das vezes situados em posições elevadas o que originava um transporte difícil para as pessoas e mesmo para os animais.

Apesar do número irrisório de sementes que o trigo proporcionava, não havia outro remédio a não semeá-lo pois o pão era fundamental e indispensável para a manutenção da família.

[Enfornando. Foto JV, Abril de 2005]

As amassaduras eram semanais e as pás indispensáveis para a colocação da massa no lugar aconselhável do lar do forno. Em sentido contrário, era ela que ia buscar, habilmente manejada, o pão já cozido.

Como se vê pelo exemplar apresentado tinha uma base de madeira de forma trapezoidal a que se adicionava um pau mais ou menos direito e com o comprimento adequado à sua função.

O trigo deixou de semear-se, pois os braços dos homens já não tinham força para trabalhar a terra, o mesmo acontecia às mulheres para amassar o pão.

Depois, com o 25 de Abril tudo se transformou.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Revelada e o "montinho", freguesia de Vaqueiros

[Montinho da Revelada. Vista geral. Foto JV]

Vamos abordar hoje um pequenino monte situado a 3 km da sede de freguesia e a 32 da do concelho. Sendo tão pequeno, pois nunca teria tido mais do que quatro fogos habitados, teria muito pouco para dizer, o que não é verdade e dizemos isto em relação a outros montes da mesma dimensão.

O topónimo pode-nos levar a várias conjecturas já que a sua escrita está distante de ser consensual.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco que respondeu ao questionário indica a existência de um monte com um só morador, que designa por Rivellada.

Vários montes deste tipo existiram por todo o concelho que constituíam a residência do “senhor”proprietário dos terrenos que abrangiam vasta área. Nalguns casos as herdades foram desmanteladas por heranças e vendas, originando a que a esse fogo primitivo se juntassem outros, resultando assim, em montes de dimensões maiores.

Aqui isso não aconteceu.

Rivellada tomou várias fórmulas como Revalada, (1) Ravelada, ou Revelada (2) ou Rebolada, como se ouve muitas vezes dizer.

Deste monte primitivo há muito abandonado, ainda existem vestígios e situa-se entre o Montinho e Malfrade.

Muito depois e nos mesmos moldes veio a construir-se uma nova habitação isolada que passou a designar-se por “Montinho”. Ou por se situar relativamente próximo do primitivo monte da Revalada ou por estar relacionado com ele a título de possessão, passou a designar-se por Montinho da Revelada com as variantes já indicadas.

A nível de leitura, aparece-nos a existência de um morgadio, vínculo indivisível e inalienável que se transmitia numa família de primogénito em primogénito, mas em linha recta varonil.

O morgadio foi instituído por António de Brito Correia de Mascarenhas e Aboim, sargento-mor, fidalgo da Casa Real.

Uma filha deste, D. Maria Perpétua Correia de Mascarenhas e Aboim, veio a casar na Sé de Faro em 10.04.1778 com António Luís de Macedo Rebelo (1745-1808) que teria vindo a ser o 1º Conde da Ravelada (3) o que a Nobreza de Portugal e do Brasil não confirma.(4)

Foi tenente - coronel, capitão - mor, juiz vereador, almotacé - mor, cavaleiro fidalgo da Casa Real e grande homem de negócios, sendo igualmente administrador dos bens do seu opulento sogro.

Os morgadios vieram a sofrer grande machadada dada pelo liberalismo, principalmente pelo decreto de 4 de Abril de 1835 e acabaram por ser abolidos pelo decreto de 19 de Maio de 1863.

Com título ou sem título, a verdade é que vamos encontrar vários elementos desta família ligados a Alcoutim.

Dos seus filhos foi primogénito o doutor António Luís de Macedo e Brito que seguiu a vida eclesiástica. O secundogénito, Joaquim Filipe de Aragão de Macedo e Brito (1798-1867) herdou de seu pai todos os títulos e foi cônsul da Prússia e da Inglaterra no reino do Algarve. Foi preso pelos liberais em Portimão e levado para Lisboa. Uma filha, D. Mariana Rita Correia de Mascarenhas de Macedo e Brito, que casou com António Joaquim Ramalho Ortigão de Faro e vieram a ser ascendentes do escritor Ramalho Ortigão.

[O Senhor da Revelada]
António Joaquim Ramalho Ortigão foi capitão de mato e desde meados de 1816 Familiar do Santo Ofício em Évora. (5). Não admira, pelo que temos dito que de 1850 a 1858 tivesse sido eleito procurador à Junta Geral do Distrito pelo concelho de Alcoutim.

D. Joaquina Rosa Ferreira Aboim, que nasceu em 1803, certamente da família que temos vindo a referir, em 1860 ainda era uma das senhorias da Herdade da Malhada.

Também Luís Fernando de Macedo e Brito, igualmente dos Macedo e Brito, exerceu por volta de 1850 as funções de subdirector da Alfândega de Alcoutim, tendo sido transferido para Setúbal. (6)

Oralmente foram transmitidas várias estórias referentes a esta família, hoje, certamente, muito esbatidas no tempo.

Montinho é diminutivo de monte, que aqui na serra, como já se tem dito por variadíssimas vezes, significa pequena povoação.

Revelada, feminino de revelado e derivado de revel (rebelde)? ou terá a ver com Revelo, por Rebelo, antropónimo ? É que o “Conde da Ravelada” ou Revelada era precisamente Rebelo de seu nome! A Revelada constituiria as coisas próprias dos Rebelos? Talvez.


Dos seus quatro fogos, em 1998 só dois eram habitados e hoje será só um com três pessoas.

[Ruinas no Montinho da Revelada. Foto JV]

Situa-se praticamente no cruzamento da estrada nº 506 (Vaqueiros-Bentos), uma excelente estrada onde passa um veículo de meia em meia hora e a nº 505 (Monchique-Soudes). O troço numa extensão de 8 km compreendido entre o Montinho e Monchique, o seu custo estava estimado em cerca de 30 mil contos. (7) Em 1989 estavam a decorrer os concursos para as obras de pavimentação. (8)

Recebeu telefone em 1995 (9) e um ano depois foi electrificado (10) já que entretanto se tinha criado uma queijaria que registava a produção de 1500 queijos por dia, empregando sete pessoas e que até então recebia energia de um gerador. (11). Segundo informação recebida a exploração actualmente está semiparada.

Em 1996 são instaladas duas caixas de recepção de correio o que significa que existiam dois fogos habitados. (12)

Em 2001 foram colocados fontanários (13) para pouco depois ser levada a água ao domicílio.

Em 2003 manda-se construir um abrigo rodoviário (14) e em 2006 é beneficiada a estrada para Monchique até ao limite do concelho. (15)

A maior parte das construções da pequena povoação estão em ruínas.


Notas
(1) – Regulamento do Plano Director Municipal de Alcoutim.
(2) – Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol 24, p. 458
(3) – Anais do Município de Faro,(?) Pinheiro e Rosa.
(4) – Edições Zairol.
(5) - Dicionário da História de Portugal , Direcção de Joel Serrão.
(6) – Viemos a conhecer na nossa freguesia natal, muito antes de conhecer Alcoutim, três elementos desta família, tia e dois sobrinhos.
(7) – Boletim Municipal nº 2, de Fevereiro de 1988.
(8) – Boletim Municipal nº 4 de Abril de 1989.
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº1, de Maio-Junho de 1995.
(10) - Jornal do Algarve de 16 de Maio de 1996.
(11) - Diário de Notícias de 7 de Maio de 1996.
(12) – Alcoutim, Revista Municipal nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12.
(13) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p. 14
(14) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dezembro de 2003, p. 10.
(15) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 13 de Dezembro de 2006, p. 15.