terça-feira, 31 de março de 2009

Humberto Delgado, Biografia do General Sem Medo



Livro volumoso com 1343 páginas que retratam ao pormenor a vida de um militar que rompeu com o Salazarismo a que tinha aderido, para se tornar o maior ou dos maiores opositores ao regime.

O exaustivo trabalho é ilustrado e muito bem documentado e de autoria de Frederico Delgado Rosa, seu neto.

Adquiri a 2ª Edição que teve lugar em Maio de 2008, já que a 1ª, de Abril desse ano, foi rapidamente esgotada.

Pagou com a morte como muitos mais a sua ousadia.

Com dezanove anos, no dia 30 de Maio de 1958, também eu estive no Largo do Seminário da minha cidade natal, repleto de gente a assistir ao comício e a apoiar o General Humberto Delgado. É um cenário que ainda mantenho na memória.

Apesar de todas as vigarices ocorridas pelo país fora, o General ganhou em Santarém, seu distrito de nascim

segunda-feira, 30 de março de 2009

D. Maria Freire de Andrade, 1ª Condessa de Alcoutim

(Publicado no Jornal Escrito Nº 73, de Julho de 2006, encarte de O Algarve nº 4867)

[A Casa dos Condes em 1969, Foto J.V.]

Era filha de João Freire de Andrade, Senhor de Alcoutim, nascido à volta de 1415 e de D. Leonor da Silva, mais nova do que o marido cerca de quinze anos.

D.Maria Freire devia ter nascido próximo de 1470.

É o segundo matrimónio dele, pois era viúvo de D. Isabel Coutinho (ou Meneses) com quem teria casado em 1 de Outubro de 1442, quando esta já era viúva. D. Isabel era filha única de D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Viana, o do “aleo” e de sua mulher, a condessa D. Beatriz Coutinho.

Do primeiro casamento de João Freire, não houve descendência.

Maria Freire era neta paterna de outro João Freire de Andrade, 2º Senhor de Bobadela e de D. Catarina de Sousa e materna de Pedro Gonçalves Malafaia, vedor da Fazenda de D. João I e de D. Isabel Gomes da Silva.

João Freire de Andrade já era falecido em 8 de Julho de 1474. O Senhorio de Alcoutim foi confirmado a sua filha em 22 de Setembro daquele ano.

D. Afonso V retirou a D. Maria Freire a dízima da alfândega de Alcoutim, dando-lhe em contrapartida dezasseis mil reais de tença.

A 13 de Julho de 1481 fez-lhe doação da dízima de todos os espelhos, aguilhós, pentes, cofres, arcas e de todas as outras coisas de que el-rei havia dízima na alfândega de Alcoutim. A Infanta D. Joana tinha a mesma mercê em relação à alfândega de Lisboa.

Há divergências quanto à data do seu casamento com D. Fernando de Meneses, filho do 1º marquês de Vila Real e que teria nascido em 1463.

A filha de Freire de Andrade era considerada formosíssima, tendo D. Fernando casado por amor, contra a vontade de seu pai mas com o aval do rei D. Manuel, seu primo.

Enquanto A. Braamcamp Freire aponta uma carta de D. Manuel I datada de 15 de Novembro de 1496, como a da criação do título de Conde de Alcoutim, pretendem outros que o mesmo tivesse sido criado em 13 de Junho de 1497, como nos indica pelo menos a Nobreza de Portugal e a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.


[Muralha do Castelo de Alcoutim, 1986, foto J.V.]

A História del Reyno de Portugal de Manuel de Faria y Sousa, de 1730, em títulos que deu D. Manuel, sem referir data, diz:- À los Primogénitos de los Marqueses de Villareal, El de Condes de Alcoutim.

Na Carta Régia de D. Manuel em que se faz nomeação do fronteiro-mor do Algarve e datada de 25 de Novembro de 1496, já se refere ao seu muito amado primo, D. Fernando de Meneses, como Conde de Alcouty o que joga com a data apresentada nos Brasões da Sala de Sintra.

Dona Maria Freire de Andrade foi Senhora e 1ª Condessa de Alcoutim e depois 2ª Marquesa de Vila Real. O Condado de Alcoutim era vasto em território, abrangendo muitas herdades espalhadas por todo o seu termo e os seus titulares possuíam variadíssimas e importantes mercês.

Em 16 de Abril de 1487 dá-se um conflito de fronteira entre Alcoutim e Sanlúcar. Cerca de duzentos homens atravessam o Guadiana numa caravela artilhada e pertença de D. Leonor, mãe de D. Maria Freire, comandada por Valentim Arrais e em nove ou dez barcos. Os sanluquenhos refugiam-se na igreja e dá-se o saque à povoação, regressando a Alcoutim e trazendo todos os barcos que se encontravam em condições.

A tudo isto assistiam D. Leonor e D. Maria, com outras alcoutenejas, das janelas da sua pousada, que presumo fossem da hoje designada “Casa dos Condes” que efectivamente ainda agora tem essa posição privilegiada.

Queixam-se os espanhóis a quem de direito, afirmando e segundo testemunhos que o facto deu-se por instigação de D. Leonor, além da caravela, era notória a presença dos seus criados, enquanto mãe e filha, ao serem consultadas sobre o assunto informam que os de Sanlúcar foram os começadores, não querendo entregar um ladrão com o furto, como lhes foi requerido e eram obrigados a fazê-lo.

Não se tratou de caso único, ao longo dos séculos foram, como é compreensível, habituais estes casos, ora de um lado, ora do outro, o que aconteceu por toda a zona fronteiriça em que havia proximidade de povoações.
Em 7 de Janeiro de 1516, D. Manuel fez-lhe doação, sendo já Marquesa, de doze arrobas de açúcar por ano.

Cataldo Sículo, humanista siciliano dirigiu à primeira condessa de Alcoutim, 2ª Marquesa de Vila Real, uma epístola em termos elogiosos excepcionais. Fez parte do pequeno número de portugueses com quem se correspondia e nos quais se incluiu o seu marido e o próprio rei D. Manuel.

Sobreviveu a seu marido que faleceu em Almeirim em 1523. Em 17 de Abril de 1526 foi-lhe passada carta de confirmação de uma tença que seus herdeiros venderam em 3 de Junho de 1532, sendo consequentemente já falecida nesta data.

Além de D. Pedro de Meneses que sucedeu a seu pai no título (2º Conde de Alcoutim - 3º Marquês de Vila Real), foram pais de, pelo menos, mais quatro filhos.
Ficamos pensativos quando ouvimos nacionais e estrangeiros no local próprio (entenda-se - Casa dos Condes, na vila de Alcoutim) solicitarem os porquês que de uma maneira geral e salvo uma raríssima excepção, não têm resposta!
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SOUSA, Manuel de Faria e, História del Reyno de Portugal , 1730
FREIRE, Anselmo Braamcamp, Brasões da sala de Sintra , 3 Volumes - apresentação e notas de Luís Bivar Guerra,IN-CM
RAMALHO, Américo da Costa, Estudos sobre o Século XVI , 1982
Nobreza de Portugal , Dir. de Afonso Martins Zúquete - 1961
Dicionário Ilustrado da História de Portugal , Publicações Alfa, 1985
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
RUBIO, Juan Luis Carriazo, "Violencia Y Relaciones Fronterizas : Alcoutim Y Sanlúcar de Guadiana a Fines Del Siglo XV "in - Actas v.l Porto - 1998, IV Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval.

domingo, 29 de março de 2009

Ao visitante do Brasil

Talvez por ter sido bem sucedido no primeiro, vou voltar a um pedido semelhante.

Tenho verificado que muito assiduamente o meu blogue ALCOUTIM LIVRE tem sido visitado por um suíço e por um brasileiro.

Nunca aconteceu no mesmo dia terem aparecido dois suíços ou dois brasileiros pelo que admitimos poder tratar-se da mesma pessoa.

Entretanto o suíço desapareceu mas o brasileiro continua, talvez com mais assiduidade. Como falamos a mesma língua admite-se com mais facilidade.

Se é verdade que as minhas conjecturas falharam com o finlandês em grande parte, não em tudo, pode ser que a minha percepção esteja mais próxima, mas também não a vou manifestar.

Não nos parece tratar de um alcoutenejo que esteja pelo Brasil.

Admitindo que o “brasileiro” que tem visitado o meu blogue seja o mesmo e se isto estiver certo, faço o mesmo pedido que fiz ao finlandês:- Dê-me uma palavrinha através do meu e-mail constante do blogue com a certeza que o sigilo será mantido, a não ser que se manifeste em sentido contrário.

Diga-me porque visita, porque lê o meu blogue e o que mais lhe interessa. Quem escreve gosta de saber estas coisas para a sua própria orientação.

Aqui fica o pedido.

Veremos se temos a mesma sorte que tivemos com o finlandês.

sábado, 28 de março de 2009

A molineta


Ao apresentar este antigo artefacto começo por pedir desculpa da péssima qualidade das ilustrações, mas a verdade é que além da minha pouco habilidade para fotógrafo, a máquina estava com um problema de entrada de luz pelo que há muito foi posta de parte.

As fotografias foram tiradas há quinze anos.

Nos dias de hoje não devem de existir no concelho muitos exemplares do tipo e ainda que tivesse conhecimento da sua existência, até agora só me foi possível observar a fotografada o que me foi facilitado pelo sr. Diamantino Afonso, natural de Afonso Vicente, que a herdou dos pais.

A segunda questão põe-se com a sua designação. Localmente os mais idosos, já que os novos nada sabem dessas coisas, chamam-lhe MOLINETA, daí a designação que lhe demos.

Como é fácil verificar trata-se de duas mós que têm por fim transformar o grão em farinha.

A primitiva trituração de cereais era feita através de duas pedras entre as quais se colocava o grão, esmagado pelo movimento de vaivém. Passou-se depois ao pilão e mais tarde é atribuída aos romanos a introdução das mós circulares, capazes de produzir mais farinha com menos esforço.

Este sistema espalhou-se por todo o país com pequenas variantes. A mó de baixo é fixa, a de cima põe-se em movimento por intermédio de uma espécie de manivela, pau da mó ou estaca. A mó andadeira tem um orifício central, o olho, por onde se deita o grão.


A molineta é colocada numa alcofa feita de empreita, no chão (como representa a ilustração) e é de lá que se retira a farinha que depois é peneirada.

Enquanto o milho moído dava origem ao típico xarém algarvio (papas de milho), o trigo novo dava lugar ao frangolho (papas de trigo).

Este artefacto era designado na zona de Monchique por mozes ou mozinhas de mão, enquanto em Aljezur chamavam moinheta.

Com a evolução técnica, começou a cair em desuso no primeiro quartel do século passado.
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Etnografia Portuguesa, J. Leite de Vasconcellos, Vol.VI, org. por M. Viegas Guerreiro, 1983.
Moinhos, A.Jorge Dias, in Dicionário e História de Portugal, dir. Joel Serrão, Vol.IV.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Sanlúcar (Espanha), a irmã siamesa



Esta fotografia foi tirada há 38 anos! Não são dois dias.

Fui eu que disparei o caixote no raiar da manhã de 28 de Março de 1971 do Alcaçarinho, pelas 7 horas.

A tranquilidade era grande, tanto no rio, como no campo.
A marginal estava ainda muito distante.

A maioria dos sanluquenhos dormiria a sono solto.

As duas povoações estavam adormecidas no tempo!

Sanlúcar do Guadiana, irmã siamesa de Alcoutim como lhe chamava Luís Cunha, chegou no século XV a ser designada por Sanlúcar de Alcautín.

Ainda que tivesse havido guerras, Alcoutim e Sanlúcar são povos fraternos que se têm apoiado durante séculos.

Os laços familiares ainda são notórios.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A "fritada"

Duas fotografias que apresentamos de meados da década de setenta do século passado trouxeram-nos à mente um costume cheio de ritualismo que nessa época e no mês de Dezembro, era apanágio do concelho de Alcoutim e de outros circunvizinhos.

Tratava-se da matança (aqui mais vulgar matação) do porco, hoje acto proibido ou praticado em situações muito especiais, segundo creio.

Não vamos por agora referir todo este acto mas sim localizarmo-nos no que indica o título, A FRITADA.

Este dia de trabalho, de festa e de convívio, era selado pela fritada que consistia na refeição servida aos convidados que tinham ajudado na tarefa ou a um ou outro a quem se devia alguma consideração especial.



Fritava-se em manteiga, como por aqui designam a banha do porco, numa caçoila ou numa sertã, carne do animal que se tinha abatido logo pela manhã, e em que entrava toda a espécie de carne, nomeadamente aquela que nessa altura tinha mais dificuldade em se conservar, (referimo-nos à conservação através do sal, do fumo e da banha) ou seja a cachola (como designam o fígado) os pulmões, o coração e os rins. Temperava-se com louro e bastante alho, pouco antes de concluída a fritura.

Que me lembre, assisti a quatro matações e são de duas delas que apresento as fotografias de que sou o improvisado fotógrafo.



A primeira teve lugar no monte da Corte da Seda, infelizmente a anfitriã, há muito que nos deixou, mas o seu companheiro continua rijo. Ainda se pode ver na parede, a típica espeteira.

A segunda, realizou-ser na vila, três já não estão no nosso convívio, mas os anfitriões, apesar da avançada idade e dos seus achaques, por cá vão andando e desejo que por muito tempo.

São usos e costumes que se vão esboroando no decorrer dos tempos, como aconteceu a outros de que já ninguém se lembra!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Balurcos (...) (5ª e última Parte)

ASSOCIATIVISMO

LUTUOSA

Instituição Mutualista fundada em 1932 pela acção do cabo da Guarda Fiscal, Manuel Gomes Galrito e pelo comerciante e artífice, António Afonso, ambos do Cerro e que tivemos o prazer de conhecer.

Esta instituição destinava-se a pagar aos herdeiros dos sócios falecidos um subsídio para custear ou ajudar às despesas do funeral.

Num país em que ninguém possuía qualquer protecção nessas situações e em que meia dúzia podia fazer face a tais despesas, acontecia que na maior parte dos casos para se comprar o simples caixão de quatro tábuas era necessário os vizinhos quotizarem-se, começou a sentir-se a necessidade da criação de uma associação que minorasse esses problemas prementes.

A ideia, consta ter sido trazida da Mina de S. Domingos onde muitos alcoutenejos empregavam a sua força braçal e que vinham a casa de quinze em quinze dias, quando não de mês a mês.

Em 1976 estava pujante e ainda possuía duzentos e vinte sócios. Possuía uma carrinha de madeira própria para transportar os caixões e que mais tarde foi vendida à sua congénere das Cortes Pereiras.


[Cerro dos Balurcos, 2009]

Não havia quota mensal. Quando falecia um associado, todos os outros contribuíam com dois escudos. A Associação punha ao dispor dos herdeiros quatrocentos escudos ou um caixão desse valor de que tinha sempre exemplares numa casita e onde se guardava igualmente a carreta funerária.

A eleição realizava-se todos os anos no dia 1 de Janeiro, não por apresentação de listas ou por rotação, mas sim por sorteio entre os considerados mais aptos, sendo excluídos os analfabetos.

Tais associações, de que esta era a mais bem organizada e com mais associados, espalharam-se por toda a freguesia tendo algumas durado bem pouco tempo. Não as encontrámos na freguesia do Pereiro e pensamos que não existiram em qualquer outra do concelho.

Naturalmente com o rodar dos tempos e com os auxílios estatais prestados, acabaram por sucumbir.

Esta Associação constituiu um orgulho dos balurquenses.

CENTRO RECREATIVO DOS BALURCOS

Sedeado no Balurco de Cima.

Em 1990 a Câmara Municipal de Alcoutim subsidiou esta associação recreativa na compra de um televisor a cores. (17)

Tinha como actividades, torneios de cartas e bailes.
As instalações são próprias e constituídas por uma sala de televisão, um bar, um anexo e sanitários. (18)


ASSOCIAÇÃO DE SOLIDARIEDADE SOCIAL, CULTURA, DESPORTO E ARTE DOS BALURCOS

Esta associação é uma instituição particular de solidariedade Social com sede nos Balurcos, mais propriamente no Montinho dos Balurcos, tendo sido criada em 30 de Abril de 2000.

Tem por lema a solidariedade social, procurando respostas para a faixa etária da terceira idade, afinal aquela que mais prolifera nesta zona e em todo o concelho. Noutro campo, mas igualmente nas mesmas idades, procura dar visibilidade aos usos e costumes desaparecidos ou a desaparecer.


Neste sentido tem vindo a realizar anualmente a agora designada Festa da Maia e antigamente só As Maias. Estes festejos populares tiveram origem nos cultos naturalistas de outrora e em que a Igreja acabou por “adquirir” alguns dos seus elementos. A passagem do tempo estéril para o tempo fecundo e criador e era assim festejada. (19)

Na VII Festa, realizada em 2008, foram apresentados os símbolos da Associação. (20)

A valorização e Reabilitação do Edifício sede (antigas escolas primárias) foram contempladas com cerca de 53 mil euros, e depois com mais 23 mil, isto em 2003.

No ano seguinte e para a aquisição de equipamento para a sede/sala multifuncional foram obtidos cerca de 5 mil para em 2005 serem aplicados cerca de 18 mil.

No dia 28 de Março de 2006 o Director do Centro Distrital de Solidariedade e de Segurança Social visitou esta associação e anunciou a entrega de uma carrinha de transporte que possibilita o acompanhamento de dez utentes.
Foi informado que já existe terreno para a construção de um Lar para a 3ª Idade.
(21)

GRUPO CANTARES TRADICIONAIS DOS BALURCOS

Este grupo de recente fundação surgiu após a realização de um curso de canto da responsabilidade do município de Alcoutim,

É orientado pela professora de música, Ana Paula Baiôa.


[Actuando na Festa da Corte Tabelião de 2007]

Do seu reportório fazem parte, entre outras:- Velhinha, Laurinda, Marcela, e Romã

Que seja do meu conhecimento actuou nas Festas do Monte da Corte Tabelião (2007) e no 4º Encontro de Poesia Popular de Alcoutim, que teve lugar em 18 de Março de 2008.

Muitos mais aspectos existem para referir sobre os Balurcos, mas estes são de momento os que me foi possível compilar.

NOTAS
(1) – Livro de Manifesto e Arrolamento de gados.
(2) – Diário da República nº 285, I Série, de 12 de Dezembro de 1995.
(3) – Corografia (…) do Reino do Algarve, 1841
(4) – "Natalidade na Freguesia de Alcoutim em 1850", post de 23 de Agosto de 2009, http://alcoutimlivre.blogspot.com
(5) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) José Varzeano, 1985 pp 346 e 349.
(6) – O Archeólogo Portuguez, XXIV, ´p.198
(7) – “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in al -`-ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6 – 1997/98, p. 600.
(8) – http://radix.cultalg.pt
(9) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 17 de Outubro de 1852.
(10) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 24 de Abril de 1877.
(11) – Of. Nº 34 de 19 de Março de 1883 para o Governador Civil de Faro.
(12) – Foi o Sr. António Patrocínio dos Santos, da Vila de Alcoutim que desempenhou as funções de maqueiro.
(13) – A Pneumónica no Algarve (1918), Paulo Girão, Caleidoscópio, 2003.
(14) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente», José Varzeano, Edição da Junta de Freguesia, 2007, p. 129
(15) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 29 de Novembro de 1934.
(16) – Jornal da Serra, Junho de 1998.
(17) – Boletim da Câmara Municipal de Alcoutim, nº 7 de Abril de 1990.
(18) – http://. in-loco.pt
(19) - Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A. C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.
(20) – As Maias, Correia Peixoto, 1990.
(21) – Barlavento online, 12.02.2009

terça-feira, 24 de março de 2009

Balurcos (...) (4ª Parte)

ABASTECIMENTO DE ÁGUA

O abastecimento do precioso líquido era feito através de poços públicos que muitas vezes nos anos de estiagem secavam causando grandes preocupações nas populações
e até conflitos.

Era, como se compreende, uma grande preocupação da Câmara gerir os conflitos a fim de todos poderem usufruir desse líquido indispensável à vida.

Por volta dos meados do século passado muitos dos poços foram apetrechados de bombas manuais elevatórios que ajudaram a resolver muitas situações.

Os moradores da Balurco de Baixo abasteciam-se normalmente no Poço Novo que já estava apetrechado de bomba elevatória.

A Casa Branca recorria ao Poço Velho, enquanto o Montinho do Cerro, o Cerro, o Deserto e o Cercado se deslocavam ao Poço do Chocalho cujo nome deve de ter uma estória para contar.


[O Poço Velho, recentemente recuperado pela Junta de Freguesia]

Em Agosto de 1949, segundo o Diário de Lisboa de 3 de Setembro desse ano não havia água nos poços públicos, vendo-se a população obrigada a ter de pedir aos proprietários
que ainda tinham poços com alguma.

Após o 25 de Abril e logo que foi possível foram abertos furos artesianos para fornecimento de água por fontanários. O Balurco de Baixo recebeu 6, Casa Branca, 2, Deserto 3, Cercado 3, Cerro 5, Montinho do Cerro 3, Balurco de Cima 7 e Guerreirinhos 1.

No dia 11 de Agosto de 2003 foi inaugurado o fornecimento de água e o tratamento de esgotos com a presença do Secretário de Estado da Administração Local. A empreitada montou a cerca de um milhão de euros.

A ESCOLA

Quando se efectuou o pedido da criação de uma Cadeira de Instrução Primária, em 1858 para a aldeia do Pereiro, contava-se com as crianças do Balurco de Cima. (14)

Que seja do meu conhecimento só em 1934 é pedida a criação de um posto de ensino para os Balurcos. O pedido é formulado em sessão de Câmara pelo vereador (secretário) José Teixeira que solicita logo autorização para o fornecimento do material necessário, o encargo da casa e iluminação. (15)

Sabemos que de 1939/42 leccionou no posto escolar a Regente Catarina Branco Mestre que ainda conhecemos em exercício na escola da sua naturalidade, Giões.


[Montinho do Cerro onde foi construído o edifício escolar de duas salas]
Em 1954/56 exerciam funções, duas docentes, a Professora Marcolina Sebastião Madeira e a Regente Margarida Travassos de Brito.

Não me foi ainda possível obter a data da construção do edifício escolar, de duas salas, mas sei que é anterior a 1967.
Além das crianças dos Balurcos recebia as da Palmeira e do Torneiro.

Em 1988 a escola era frequentada por treze alunos e dez anos depois tinha descido para 7, segundo a professora Bárbara Rodrigues (16)

No ano lectivo de 1990/91 dá-se a integração plena dos alunos desta escola na EBI de Alcoutim.

(continua)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Balurcos (...) (3ªParte)

FACTOS E ACONTECIMENTOS DE CARIZ HISTÓRICO

ACHADOS ARQUEOLÓGICOS

No Barranco do Esteiro próximo do Balurco de Baixo foi recolhido por José Leite de Vasconcellos um instrumento de ferro, uma espécie de martelo que servia para cortar e martelar, ascia ou asciola que mede de comprimento 0,165 m e encontra-se no Museu Nacional de Arqueologia. (6)

Na Cerca das Oliveiras, próximo do Cerro dos Balurcos, foram identificadas cistas da Idade do Bronze. (7)

No Cercado foram encontrados fragmentos de cerâmica comum e vidrada, à superfície do terreno. Estes vestígios datam do período islâmico. (8)

ADMINISTRAÇÃO E POLÍTICOS

Desde sempre que naturais e moradores nos Balurcos desempenharam lugares políticos no poder autárquico, nomeadamente na Junta de Paróquia (hoje de Freguesia). Recolhemos alguns dados neste sentido.
Assim, em 1850, Bento Afonso, do Montinho do Cerro, pertencia à Junta de Paróquia, o que igualmente aconteceu em 1858/59.

Em 1852/53 exerciam essas funções José Romeira Sénior do Balurco de Cima e Manuel Gomes do Cerro. Este era em 1858 o maior contribuinte do concelho.

Em 1852 faziam parte da relação dos quarenta maiores contribuintes do concelho que votavam a eleição dos lugares políticos seis balurquenses, o que é um número apreciável em relação ao concelho. Eram eles, por ordem descendente de rendimentos, Manuel Gomes, do Cerro, Manuel Gaspar, dos Guerreirinhos, José Dias Romeira, do Balurco de Cima, Bento Afonso, do Montinho do Cerro, Domingos Gomes, do Cerro e José Cachopa, igualmente do Cerro. (9)

Em 1854/55 José Dias Romeira exercia as funções de Juiz Eleito.

A nível da Presidência da Câmara temos conhecimento do Comendador Manuel da Palma, do Cerro.

Foi Presidente da Assembleia Municipal de Alcoutim durante vários mandatos, José Afonso Pereira, há muito radicado na Casa Branca.

Tanto o Presidente da Junta como a Secretária da mesma, em exercício, são naturais e residentes nos Balurcos.

Por considerarmos o espaço mais adequado, incluiremos aqui os balurquenses que serviram a Santa Casa da Misericórdia, como seus tesoureiros. Em 1743/48, Vicente Mestre e em 1756/57, Francisco Pereira.

CEMITÉRIO DA FREGUESIA DE ALCOUTIM




[Cemitério da vila de Alcoutim, des. de José Varzeano]



Há mais de vinte anos publiquei num semanário regional (11) um escrito a que dei o título de O cemitério da Vila de Alcoutim, - da origem aos nossos dias e por isso não me vou repetir no âmbito geral, ainda que naturalmente tenha de fazer algumas referências de cariz abrangente para ajudar ao enquadramento e outras mais específicas em relação aos Balurcos.

Como é sabido as pessoas enterravam-se dentro dos templos ou no seu adro e isso efectuava-se conforme a condição social e o poder económico.

Tal prática provocava falta de condições sanitárias que se iam reflectir na saúde das pessoas pelo que o liberalismo tentou pôr cobro a tal situação mas que não foi fácil de realizar pela mentalidade das pessoas devido ao aspecto religioso e porque efectivamente o poder autárquico, pelo menos o de Alcoutim, não tinha condições económicas para o fazer.

Como a situação se ia agravando e o poder central apertava, a Câmara presidida por Paulo José Lopes reúne na Capela de Nª Sª da Conceição, em 22 de Dezembro de 1843 encontrando-se o Administrador do Concelho, António Joaquim Pinto, o Prior, P. António José Madeira de Freitas (tio) e o ajudador, a Junta de Paróquia presidida por Joaquim Madeira e um grupo de cidadãos representativo da freguesia, um por cada monte, excepto a Vila que tinha dois, as Cortes Pereiras, outros dois e os Balurcos tinham três que eram José Romeira, Manuel Gomes e Domingos Vaz Reis, sendo todos já nossos conhecidos, excepto o último.

É mais um facto justificativo da importância dos Balurcos, pelo menos a nível de freguesia.

Depois da apresentação da situação acabou por ser aprovado lançar uma derrama em função dos rendimentos de cada um e mandar fazer o cemitério, junto da capela de S. Sebastião, local onde ainda se encontra, apesar de ter crescido substancialmente nos últimos anos. Só o não foi mais porque hoje raramente os corpos vão para a terra, usando-se o que localmente se designa por catacumba.


CHEIA DO GUADIANA DE 1876



[Cheia de 1997,Foto oferecida pelo Dr.L.Mene-ses]



Ainda que os Balurcos estivessem absolutamente livres das enchentes do rio, a verdade é que elas igualmente os causticavam com os prejuízos que causavam, visto muitos balurquenses serem proprietários de várzeas no rio que lhes proporcionavam alguns mimos hortícolas e onde existia a maior quantidade de oliveiras, figueiras, romãzeiras e marmeleiros, isto para indicar só os mais característicos da região. A vinha existente também aí se situava.

Apresentaram-se junto da Câmara Municipal, Maria Vicente, Vª, José Romeira Sénior e José Romeira Júnior, Tomás Gonçalves, Romão Madeira, José Pereira, Manuel Revez, Francisco da Costa, José Cavaco Grandaça, Manuel Pereira e Maria Gonçalves, Vª. Os nomes indicados estão por ordem decrescente dos prejuízos apresentados. (10)

INTEMPÉRIE MORTÍFERA

Pelas vinte e uma horas do dia 17 de Março de 1883, pairou sobre a freguesia de Alcoutim uma fortíssima trovoada, resultando ter caído um raio no Monte dos Gurreirinhos e na casa de Manuel Gaspar, onde se encontravam várias pessoas, matou um homem, feriu outro, assombrou um terceiro e matou uma vaca que estava numa arramada próxima. (11)

GRANDE GUERRA DE 1914/18

Uma informação transmitida há muitos anos por quem também esteve nesta guerra (12), diz-nos que Basílio Pedro, do Monte dos Guerreirinhos foi preso pelos alemães, tal como um Gaspar, dos Balurcos. Estiveram seis meses na Alemanha em poder dos alemães.
Aqui deixo esta pequena nota que poderá ajudar a quem pretender desenvolver o assunto.

A REVOLTA DOS BALURCOS

Em Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia) 1985, p. 349 refiro aquilo que me foi possível recolher oralmente com os erros e imprecisões naturais desta circunstância mas sempre com um fundo verdadeiro.

Não há muitos anos foi-me possível obter alguns dados precisos englobados num trabalho de investigação histórica e publicado em 2003.

Efectivamente ocorreram motins populares durante o mês de Setembro de 1918 por todo o Algarve, incluindo este nos Balurcos.

Acontece que lavradores recusaram-se a entregar o trigo no celeiro municipal pelo preço tabelado e isto para cumprimento da lei vigente, visto os produtores serem considerados apenas detentores de cereais panificáveis.

Para que tal viesse a acontecer foi necessário a intervenção das forças militares o que deu origem a confrontos, tendo morrido um popular e outro ficado ferido, obrigando ao pedido de reforços. (13)

Os pormenores que ficaram na tradição oral estão relatados na obra que referimos.

(continua)

domingo, 22 de março de 2009

Balurcos (...) (2ª Parte)

ACTIVIDADE
Numa perspectiva de actividade podemos dizer que os balurquenses se dedicaram fundamentalmente à criação de gado e à agricultura, nomeadamente a cerealicultura, mas nunca repudiaram outros meios de produção como a farinação com a instalação de moinhos de vento (o que acabou por ficar ligado ao topónimo), o artesanato representado por sapateiros, cesteiros e alfaiates, ferreiros e ferradores, entre outros. Foi sempre local de comerciantes / negociantes que se dedicavam aos produtos locais, como a amêndoa, a alfarroba, a azeitona e o trigo.

Com estabelecimentos comerciais mistos anotámos, em meados do século passado, José Gonçalves Santos (Balurco de Cima), Domingos Mateus da Silva, Joaquim Neto da Conceição (Balurco de Cima), João L. Anica, José Dionísio (Balurco de Baixo) e António Afonso (Cerro).

Ferradores, José Joaquim (Montinho do Cerro) e Manuel Rodrigues.

[Moinho da Casa Branca, 1989]

A nível de criação de gado temos conhecimento que na segunda metade do século XVIII faziam o seu manifesto de gado na Câmara de Alcoutim, principalmente reses (gado bovino), Manuel Gomes, António Mestre, José Martins, Francisco Fernandes, Gaspar Gonçalves, Manuel Teixeira e Domingos Afonso. (1)

Relacionado com esta actividade pastoril está o facto de Custódio Domingues do Balurco de Cima ter arrematado o corte de carnes na vila de Alcoutim, em 1868, ficando obrigado a fornecer semanalmente, a preços fixos, conforme a época, chibato e carneiro.

Aproveitando a força do vento e o cultivo dos cereais, os homens de então construíram na sua área vários moinhos, tendo sido o último a deixar de laboral o da Casa Branca, cerca de 1960. Por outro lado, um natural do Deserto disse-me que o moinho perto do seu monte era o único que possuía búzios.

O Plano Director Municipal de Alcoutim (2) refere um moinho de vento situado no Balurco de Cima.

Com a cessação destes, funcionou durante muitos anos no Balurco de Baixo uma moagem.

Também no sítio do Poço Velho laborou um lagar de azeite, de varas, pertencente à Sociedade de Azeites do Guadiana, Lda. Isto em meados do século passado.

Foi importante um conjunto de teares, tipo Jacquard, instalado no Balurco de Baixo e que veio substituir com grande vantagem o simples tear manual utilizado pelas aldeãs nos mais recônditos lugares do país. Apesar disso, também não durou muito.

A primeira escola de condução automóvel existente no concelho situou-se no Balurco de Cima.

O Rádio Clube de Alcoutim transmite do Cerro.

Hoje os Balurcos já estão providos de bares, restaurantes e casas de pasto.Com a abertura de estradas proliferou o comércio ambulante pelo que tudo já chega aos montes, desde o pão ao peixe, passando pela carne, mercearias, roupa e calçado.

POVOAMENTO/POPULAÇÃO

A primeira informação quantificada quanto ao número de pessoas existente nos Balurcos é-nos dada no questionário de 1758, conhecido por Memórias Paroquiais.
Na freguesia de Alcoutim à vila são atribuídos 126 vizinhos o que dava 373 pessoas e a seguir os Balurcos (é assim que é designado) com 107, o que na proporção daria 316 pessoas.

Só em 1839 voltamos a dispor de elementos relacionados com a população através do mapa fornecido por João Baptista da Silva Lopes (3) que indica para a vila apenas 76 fogos, enquanto para o conjunto de Balurco(s) de Cima, 31, Cerro (que devia ser Balurco(s) do Meio) 17 e Balurco(s) de Baixo 29, o que perfaz 77, superior à vila.

[Balurco de Cima, 2009]
Outro dado que possuímos e por nós recolhido no Arquivo Distrital de Faro (4) indica-nos que em 1850 na freguesia de Alcoutim nasceram 77 crianças, 11 na vila e onze nos Balurcos e isto é mais um dado que explica a importância dos Balurcos no contexto concelhio.

No Censo de 1991 os Balurcos ocupavam o terceiro lugar a nível populacional do concelho com 214 habitantes sendo 150 em Balurco de Baixo e 64 em Balurco de Cima. O primeiro era ocupado por Martim Longo com 535 e o segundo por Alcoutim com 405. Significa isto que o monte tinha mais população do que qualquer uma das restantes sedes de freguesia, ou seja Giões, Pereiro e Vaqueiros.

O monte mais populoso e importante começou por ser o Balurco de Cima, mas após a construção da E.N. 122 ligando Mértola a Vila Real de Santo António que passou a servir o Balurco de Baixo, este começou a desenvolver-se por isso, como era bem notório, em 1991, com uma população em mais do dobro superior àquele. Já em 1976 era o monte mais habitado, com 112 moradores, enquanto o Balurco de Cima tinha 92. (5)

Hoje, com o IC 27 é o Balurco de Cima que lhe fica mais próximo mas os transportes colectivos continuam a utilizar a EN 122.

(continua)

sábado, 21 de março de 2009

Balurcos, um conjunto de núcleos populacionais que foi sempre importante no contexto concelhio

Pequena Nota:
Como os nossos visitantes/leitores já repararam, temos vindo a publicar em tema próprio alguns apontamentos sobre montes do concelho, sendo isto uma continuação do que vínhamos fazendo na imprensa regional.

O que vamos abordar hoje, Balurcos, é dos mais importantes do concelho de Alcoutim e consequentemente tem mais para dizer, ainda que fique muito por referir nalguns assuntos, por falta de recolha e investigação, o que pensamos fazer numa próxima oportunidade.

Além disso torna-se muito extenso para publicação de uma só vez, visto tratar-se de onze folhas A/4 a que se acrescentará o espaço motivado pela inserção de ilustrações.

Nestes termos informamos os nossos visitantes/leitores que este título vai ser dividido em várias partes, o que será assinalado em numeração árabe.


INTRODUÇÃO

No âmbito dos nossos estudos que temos vindo a realizar sobre as pequenas povoações do concelho de Alcoutim, chegou a vez de o fazermos em relação a este conjunto de pequenas povoações que sempre tiveram uma vida interligada.

No concelho de Alcoutim predomina o povoamento de tipo concentrado, sendo a freguesia de Vaqueiros aquela que apresenta uma maior disseminação de fogos concentrados em pequenos núcleos habitacionais muitas vezes com uma família dominadora. Várias razões a isso motivaram mas que por agora não serão abordadas.

As pequenas povoações, aqui designadas por “montes” pelo menos desde meados do século XVIII, quando muito, dividem-se em duas, o monte de cima e o monte de baixo.

Temos contudo duas excepções a nível concelhio, onde o povoamento está mais separado, como acontece nas Cortes Pereiras e aqui nos Balurcos. Em ambos os casos, são estas as designações que se impõem. Quem quiser ir por exemplo ao Monte Longo diz que vai às Cortes Pereiras e quem desejar ir ao Deserto, diz que vai aos Balurcos. Os pequenos montes que se agregam funcionam como se fossem bairros nas povoações de maiores dimensões.

E a prova do que estamos afirmando faz-se por exemplo com a cobertura do saneamento básico (água e esgoto) que foi feita simultaneamente em qualquer um dos aglomerados populacionais o que devido à dispersão onerou bastante o encargo.

TOPONÍMIA

Pela nossa parte entendemos que o conjunto daquelas povoações deve ser designado por Balurcos e não Balurco como se ouve muitas vezes dizer. Tenho feito essa pergunta a muitos balurquenses, uns apresentam o singular, outros o plural e há aqueles que dizem que não sabem mas gostavam de saber.

Se me é permitido ter opinião, entendo que o conjunto deve ser designado por Balurcos enquanto o monte de Cima deveria ser Balurco de Cima e o de baixo, Balurco de Baixo.

Além destes temos a Casa Branca, o Deserto, o Cercado, o Cerro com o seu Montinho e o pequenino monte dos Guerreirinhos, muitas vezes designado por Guerreiros dos Balurcos para o distinguir dos Guerreiros do Rio. De uma maneira geral a estes topónimos associa-se Balurcos como designação dominadora.

Poderá dizer-se que os Balurcos se situam a cerca de oito quilómetros de Alcoutim, sendo o primeiro aglomerado que se encontra, o Balurco de Baixo, passando-lhe junto a EN 122. Tomando a EM 1057 vamos encontrando aqui e ali os outros montes, uns mais próximos da estrada, outros um pouco mais afastados. O último e neste sentido é o Balurco de Cima que ficará a cerca de dez quilómetros da sede do concelho.

No nosso trabalho publicado em 1985, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, Subsídios para uma monografia, nada dissemos quanto ao topónimo Balurcos pois a procura que efectuámos nas obras da especialidade e que estavam ao nosso alcance, nada nos informou.

A primeira explicação para o topónimo foi-nos dada por José Victor Adragão em ALGARVE, Novos Guias de Portugal, Editorial Presença, 1985 a páginas 183, escreveu: Já perto do Guadiana, uma região quase desértica recebeu mesmo o nome de Balurco, o que, parece, quer dizer “areia grossa” (…).

Não nos parece ser uma zona tão desértica, existem no concelho zonas muito mais áridas como acontece principalmente nas freguesias de Pereiro, Giões e mesmo Martim Longo.

Igualmente “areia grossa”parece-nos não se ajustar à zona.

A 2ª edição do Dicionário do Falar Algarvio, (1) traz-nos o significado de balurco, assim explicado: pau redondo e comprido que se introduz no olho da mó para a desmontar. A explicação ajusta-se bem a esta zona de cerros consideráveis e onde, aproveitando o vento se construíram vários moinhos de que restam o da Casa Branca e o do Deserto que funcionaram ainda nos nossos dias. Pensamos que é plausível esta explicação.

Balurcos ou Balurco é único no país.

Iremos abordar agora os outros topónimos.


[Balurco de Baixo visto da Casa Branca]

Deserto terá a ver com o adjectivo deserto? A razão para o seu aparecimento é que ninguém a conhece, mas de certeza que ela existiu. Há pelo menos mais três lugares no país com o mesmo nome, nos concelhos de Coruche, Ansião e Estremoz.

Cercado como topónimo tem por base o substantivo masculino cercado. Em toda esta zona chama-se cercado a um terreno de algumas aptidões agrícolas cercado por muros que naturalmente eram feitos de pedra solta, dificultando o acesso ao terreno que normalmente estava arborizado devido às benfeitorias feitas pelo homem. O gado, principalmente o caprino, que devido ao seu dente era o principal inimigo.

No Dicionário que normalmente utilizamos (2) só é indicado este como nome de povoação, ainda que haja outros topónimos semelhantes no sul do país.

Cerro é por demais evidente um topónimo que está relacionado com a configuração do terreno. Como nome de povoação estão identificados nove, sendo dois no concelho de Alcoutim mas se tomarmos em consideração o topónimo composto, existem mais umas dezenas.

Parece-nos que teria algum sentido se fosse designado por Balurco do Meio como por vezes acontece com três povoações próximas.

Montinho é muito simples e vulgar no país e sem qualificativo existem quarenta e seis povoações, aumentando o número consideravelmente quando é composto. Montinho é diminutivo de monte que aqui é usado como pequena povoação, logo o montinho deverá ser menor, o que por vezes não acontece.

Casa Branca é topónimo muito vulgar no país e mesmo no Brasil para onde o teríamos levado, a denominação terá vindo de uma primeira construção pintada ou melhor dizendo, caiada de branco que teria dado origem ao aglomerado.


[Casa Branca, 1989]
Encontrámos referência a dez e nas quais não se encontra esta. A sua grande maioria situa-se no sul do país.

Guerreirinhos ou Guerreiros dos Balurcos, parece-nos estar relacionado com a família fundadora do pequeno monte já que Guerreiro é nome de família muito vulgar no país, especialmente no sul e que certamente nas suas origens tem a ver com a actividade bélica.

Além de Guerreiros do Rio, existem mais duas povoações com o nome de Guerreiros, uma no concelho de Almodôvar e outra no de Loures.

(continua)

quinta-feira, 19 de março de 2009

36 anos a escrever sobre Alcoutim!

Atingi a reforma de escrever sobre Alcoutim, mas não vou apresentar o requerimento para que tal aconteça. Aqui não há o limite dos 70, valha-nos isso!

Fez no passado dia 10 trinta e seis anos que escrevi em nome individual o primeiro artigo sobre Alcoutim e que teve por título Lembrando o Dr. João Francisco Dias no 18º Aniversário do seu Falecimentoe que foi publicado no nº 833, de 10 de Março de 1973, do Jornal do Algarve.



Foi assinado com o meu pseudónimo, José Varzeano, que na altura e mesmo muito tempo depois, ninguém conhecia.

Penso que na altura era o trabalho mais completo, a nível de informação sobre o consagrado clínico, visto um dos seus filhos, sem saber quem era o José Varzeano, assim me o informou, tendo-o remetido para quem, de Lisboa, tinha solicitado os dados.

Quando me disse que gostaria de conhecer o José Varzeano, não tive coragem de encobrir, dizendo-lhe que estava falando com ele. Isto aconteceu na Vila de S. Brás de Alportel.

Ainda que com algumas interrupções motivadas por várias razões e em que se incluía a minha falta de tempo devido à absorção total da profissão, foram-se publicando vários artigos nomeadamente de índole histórica, mas não só.

Poderei informar os meus leitores que na imprensa regional foram já publicados 110 e poderiam ter sido muitíssimos mais se houvesse interesse nisso e espaço, o que é sempre alegado, mesmo que as razões possam ser de outra índole.

Neste blogue com nove meses de existência já lá vão mais de 140 o que perfaz duas centenas e meia.

Nunca escrevi coisas de encomenda e muito menos para qualquer recompensa, fosse a que título fosse. Sempre existiu gente com quem não gosto de misturar-me.

A profissão que abracei possibilitou-me uma vida simples e honesta, fazendo face às minhas necessidades e dos meus. Orgulho-me de ter alcançado o topo da minha carreira obtido através de concursos públicos a nível nacional e não em fantochadas.

Apesar dos meus trinta e seis anos de escrita dando a conhecer Alcoutim, não vou ficar por aqui, escreverei enquanto as minhas faculdades o permitirem e creiam que ainda tenho muito para dizer e escrever.

Recuso-me a ser medalhado de oiro ou de lata visto serem condecorações com destinos óbvios e nenhuma delas se encaixa em mim.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A festa da Maia ou das Maias


Muitas festas populares tiveram origem nos cultos naturalistas de outrora.

A igreja cristã que combateu o politeísmo cabou por “adquirir” alguns dos seus elementos.
O Verão, estação procriadora e fecunda, “triunfa” sobre o Inverno, parado e estéril. Parece ser fálica a origem primitiva desta festa, com manifestações mais ou menos orgiásticas (1) de que restam alguns resquícios.

A origem parece ser romana.

António Cabral diz que”as festas de Maio, sobretudo do 1º de Maio, que já vêm do tempo dos gregos e dos romanos que homenageavam Maia, deusa do crescimento, perderam esplendor (…)” (2). As sobrevivências do paganismo são atenuadas pela influência da religião cristã manifestada por exemplo nas cruzes florais.

Realizava-se no 1º de Maio e, ainda que o estivesse por todo o País, parece que foi no Algarve que mais se implementou. (3)

Há notícias que a festa chegava a provocar conflitos e desordens populares pelo que, em meados do século XIX, esteve proibida.


[O Monte do Poço, Cortes Pereiras, 1993]

A Festa da Maia foi popular no concelho de Alcoutim e encontrámos notícia dela, além da vila, em alguns “montes” da freguesia, como nas Cortes Pereiras, Sta. Marta e Afonso Vicente.

Este festejo popular que tinha lugar em várias terras do nosso País, na região da Provença, na Galiza e nalgumas zonas da Inglaterra e noutras partes, não era uniforme, havendo variantes.

Ainda que por motivos óbvios haja uma base comum, estas manifestações apresentavam acções por vezes muito diferenciadas como no Ribatejo (4), na Beira (5), no distrito de Setúbal (6) ou em Portalegre, por exemplo.

Em Alcoutim decorria mais ou menos deste modo: - No dia 1 de Maio, antes do nascer do sol, e isto para “não deixar entrar o Maio”, o que significava para as moças a possibilidade de casar nesse ano, iam ao campo apanhar flores silvestres e verduras.

Numa casa espaçosa de rés-do-chão, improvisavam um trono onde era colocada uma boneca feita de palha, vestida de branco e ornamentada com jóias (ouro) e fitas. As flores e as ramagens davam-lhe refulgência notória.

Parece que noutros locais, ou em tempos mais recuados, utilizavam em vez de boneca, uma rapariga de 10, 12 anos.

Na casa da Maia cantava-se e dançava-se todo o dia ao som da “flaita” ou “gaitinha de beços” e por vezes fazia-se uma função, passando-se um dia divertido.

No dia 3, que chamavam da Bela (Vera) Cruz, substituíam a boneca por uma cruz o que dava origem a novos folguedos com que rematava a festa.

Em terras maiores, apareciam várias Maias o que provocava por vezes, como dissemos, conflitos. Todos se esforçavam para que a sua fosse a mais galante e luxuosa, originando uma festa mais concorrida.


[O Monte de Santa Marta, 1987]

Na década de vinte do século passado a rivalidade entre a Maia de Sta. Marta e a de Afonso Vicente foi grande e dava origem à vinda desejada de muitos moços do “termo” de Mértola. (7)

A última Maia de que há notícia em Afonso Vicente teve lugar em 1940 em casa do “Ti André”.
Caída completamente em desuso, alguns (já poucos) a recordarão com saudade, lembrando-lhes a juventude passada.

Em 1983 a cidade de Beja recorda a Festa da Maia, segundo notícia inserta no jornal diário, Correio da Manhã.

Alexandre Herculano, no romance histórico o Monge de Cister, refere-se a estes festejos e ao facto da Câmara de Lisboa os ter proibido.

Num aspecto mais técnico, Rocha Peixoto em “A Terra Portuguesa” e recentemente Aurélio Lopes em “A sagração da Primavera, Edições Cosmos, desenvolvem o tema.


[O Monte de Afonso Vicente, 1987]

O sempre consultado Pinho Leal, no Portugal Antigo e Moderno (…), Vol. 5, pág. 37, Lisboa, 1875, diz que viu as festas das maias em Tavira, Castro Marim, Vila Real de Sto. António e outras povoações do Algarve e escreveu:

Faziam do modo seguinte:

Escolhia-se uma rapariga de dez a doze anos, das mais bonitas do sítio. Enfeitava-se com um vestido branco, jóias, fitas e flores, e se colocava em um trono florido, construído em uma sala ao rez da rua. Era a maia.
Em frente da casa onde estava, havia um mastro, coberto de murtas e flores, em roda do qual se dançava todo o dia, ao som de qualquer instrumento (às vezes até mesmo de uma filarmónica) e era um dia de divertimento e alegria.
Esta festa tinha lugar no dia 1º de Maio de cada ano.
Não era só em uma parte que tinha lugar a festa. Todas as ruas queriam ter a sua maia, e andavam à compita, qual delas seria mais bonita e mais luxuosamente vestida, e em qual das festas haveria maior e melhor concorrência e sumptuosidade, o que às vezes dava causa a conflitos e desordens.


Salvo um ou dois pormenores, o que descreve Pinho Leal corresponde à recolha oral que fizemos em finais dos anos sessenta do século passado.

NOTAS

(1)-As Maias, Correia Peixoto, 1990.
(2)–Jogos populares portugueses de jovens e adultos, 1998.
(3)-Portugal, Dicionário Histórico, Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues,(Direcção de), Edição de Romano Torres - 1904.
(4)-http://www.eb1.espinheiro-alcanena.pt(5) – http://viverparamos2006.blogspot.com
(6)-http://www.cparoquial-covapiedade.pt
(7)-A revelação desta festa popular foi-nos feita pela Senhora, minha sogra, Isabel Costa, natural de Afonso Vicente.

terça-feira, 17 de março de 2009

A Capela de São Sebastião na aldeia de Martim Longo


[A Capela em 1972]

Esta pequena capela com uma área coberta de 28,5 m2 e um adro de 200 (1) é considerada como um dos pólos de desenvolvimento da aldeia, sendo o da igreja matriz o mais importante. (2)

Situa-se na extremidade da aldeia, junto da estrada que segue para Vaqueiros.

A festa de S. Sebastião ocasionava procissão que atravessava todo o povoado. (3)

O culto de S. Sebastião (que anda associado à cólera), é dos mais marcantes nesta região. Sebastião, martirizado em Roma, foi crivado de setas pelos próprios soldados que comandava, ao ser denunciado como cristão ao Imperador Diocleciano.

Afirma-se que é templo muito antigo. Em 1565 estava em reparação. Tinham feito uma parede nova do lado sul estava sem telhado, mas já tinham madeira para lho colocarem, acabando assim o trabalho.

Cabia ao povo a obrigação de realizar essas tarefas.


[A Capela em 1992]

O altar era de alvenaria, tinha na parede pintada a imagem do orago, já muito velha e despintada. (4)
Em 1688 a ermida encontrava-se novamente em obras, pelo que a imagem do padroeiro foi colocada num dos altares da Igreja Matriz. (5)

A Junta de Paróquia envia ao Administrador do Concelho orçamento de “peritos” para as obras a efectuar nas ermidas do Espírito Santo, Santa Justa e São Sebastião, da sua paróquia e votadas no seu orçamento de 1878/79, em 90$000 réis. (6)

A capela é de planta rectangular. Cada uma das paredes laterais é suportada por dois botaréus semicilíndricos, semelhantes aos existentes na Igreja Matriz. Exteriormente, é a única nota de interesse.

Sobre o bico da fachada existe uma cruz de ferro sem qualquer interesse artístico. Não tem sineira. A porta é rectangular e de duas folhas. De cada lado há dois compridos bancos de alvenaria.


[A Capela nos dias de hoje]

Interiormente, o retábulo foi colocado em 1682/83, gratuitamente, por a confraria ser pobre. (7)
A imagem de São Sebastião foi adquirida em 1792, possivelmente por interferência do bispo, D. Francisco Gomes. Em complemento, apresenta um tronco de árvore e um capacete junto aos pés sobre a peanha. Apresenta ainda uma coroa de metal na cabeça e os olhos são de vidro. Em bom estado de conservação é, segundo o abalizado parecer do Prof. Doutor Francisco Lameira, um exemplar de muita qualidade.

Conhecemos a capelinha em 1968 e encontrava-se em semi-ruína. Hoje, está cuidada apresentando um jardim contíguo.

NOTAS
(1)-Matriz Predial - Freguesia de Martim Longo, Artº 1528.
(2)-À Descoberta de Portugal - Selecções do Reader’s Digest, 1982.
(3)-Algarve – Roteiro, José Victor Adragão,Editorial Presença.
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco,Edição da Câmara Municipal de Vila Real de Sto. António, 1985.
(5)-A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim, do séc.XVI ao séc.XIX, Francisco Lameira e P. Manuel Oliveira, Faro, 1985.
(6)-Ofício nº 204 de 27 de Agosto de 1878 do Prior Presidente da Junta de Paróquia de Martim Longo.
(7)-Idem, ibidem, nota (5).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cantarinho do azeite


Ainda não há muitos anos este utensílio era indispensável e existia em quase todas as casas de Alcoutim.

De uma maneira geral todas as pessoas tinham oliveiras, em maior ou menor número, conforme os terrenos que possuíam.

Atingiam o maior porte nas margens do Guadiana, sendo ainda hoje algumas, milenárias.

Quem não as tinha, apanhava-as a quem as dava a meias, ao terço ou ao quinto, conforme a época em que tiveram lugar e hoje grande parte fica por apanhar, pois ninguém as quer nem dadas.

Isto acontece porque felizmente já se precisa menos e quem o desejaria fazer, já não tem idade nem saúde para isso.

O azeite fazia-se em casa por processos inteiramente primitivos, como já escrevemos um dia e para aqui pensamos, quando for oportuno, transcrever em Ecos da Imprensa.

Já foi no século passado que apareceram no concelho os primeiros lagares. Hoje nenhum labora.

Significa isto que toda a gente tinha o seu azeite que arrecadava em potes e que um dia aqui referiremos.

Quando era necessário, dele se tirava o azeite com um púcaro para encher o cantarinho como o que ilustra este pequeno apontamento.

Poderá dizer-se que é uma miniatura dos cântaros de água que já apresentámos, mas neste caso, só com uma asa.

A tampa servia de medida e por ela se orientava a quantidade de azeite a utilizar quando se cozinhava.

Hoje penso que poucos cantarinhos existirão a funcionar para o fim com que foram criados.

Por curiosidade direi que o exemplar apresentado comprei-o a um vendedor ambulante que mo vendeu por metade do preço, pois já andava ali há muito tempo e ninguém o queria.

Ainda não serviu.

sábado, 14 de março de 2009

António Gonçalves Guerreiro Chaves


Muito pouco conheço sobre esta figura mertolense apesar das tentativas feitas no sentido de conhecer mais. Os poucos elementos existentes vão sendo transcritos sistematicamente.

Oficial do exército, natural de Mértola onde nasceu a 4 de Maio de 1820.

Atingiu o posto de major de infantaria.

Escreveu: Relação completa da Campanha da Rússia em 1812; revista e aumentada com a descrição da batalha das Pirâmides, carácter e elevação de Napoleão I ao poder, Lisboa, 1879.

Tem 391 pp e foi impresso na Tipografia do Jornal O Progresso.

Aqui deixamos o que nos foi possível recolher.


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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol.6, pág.637

http://catalogolx.com

sexta-feira, 13 de março de 2009

"Prisões" de gado


Os arqueólogos têm identificado em várias construções castrejas, embutidas nas paredes, argolas de pedra onde se amarrava o que quer que fosse, admitindo-se neste caso os animais.

Alguns exemplares deste tipo encontram-se depositados em museus.

Essas “prisões” foram-se adequando e ajustando às novas realidades e tecnologias, no decorrer dos tempos.

Depois da utilização da pedra, umas vezes perfurada, outras originando uma espécie de espigão, de estrutura sólida, que teria de ser o mais forte possível, para que se pudesse amarrar bem a corda (arreata), sem possibilidade de se safar, passou-se depois à trabalhada argola de ferro segura por cravejamento efectuado em pedra resistente.



Muitas pessoas colocavam”prisões” nas paredes das suas casas para aí amarrarem as bestas quando era necessário.

Nos locais de maior assiduidade era uso a sua existência, como acontecia junto dos estabelecimentos comerciais mistos, que proliferavam por aldeias, vilas e por vezes cidades, junto das fontes, nas forjas onde trabalhavam os ferreiros que normalmente também eram ferradores.


Apresentamos aqui alguns tipos de prisões existentes no concelho de Alcoutim.

Penso que ainda existirão várias “prisões” deste género, certamente sem estarem inventariadas e fotografadas. É que este trabalho tem dois inconvenientes: é preciso ter sensibilidade para o mandar executar e, … não dá votos!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Rua D. Sancho II na Vila de Alcoutim



Esta fotografia que representa parte da Rua de D. Sancho II foi tirada em Junho de 1973, pelo que já tem uns anitos.

Rua medieval, dos primórdios da vila, chamou-se em tempos recuados Rua das Portas de Tavira, já que era nela que se situavam as portas da muralha que serviam um caminho em direcção àquela cidade e daí o nome.

As Portas ficavam junto às escadas que nos levam por velha viela à Capela de Nª Sª da Conceição que era resguardada pela muralha que ladeava o referido acesso.

Dali para cima era considerada a parte nova da vila de construções notoriamente mais modernas.

Estando as Portas em ruínas em 1877, acabaram por ser apeadas e a placa epigráfica que nelas existia, colocada na muralha da igreja matriz, onde ainda hoje se encontra.

Nesta rua a Represália, instituição estatal, possuía os seguintes bens que foram aforados:- Uma casa pela qual em 1833 pagava foro Isabel Martins, viúva de Vicente Luís Marques, e uma morada cujo foro era pago em 1833 por Bartolomeu Vaz que o veio a remir em 1872. Nessa altura a rua tinha a designação de Rua Portas de Tavira(1).

Esta casa é a que confronta com as escadinhas, do lado exterior da muralha.

Os foros da Represália venciam-se a 20 de Outubro de cada ano.

Esta rua foi pavimentada de novo durante a presidência de Luís Cunha.
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NOTA – (1) Livro Mod 1-A de Registo de rendas dos prédios e juros de capitais pertencentes à Fazenda Nacional, no concelho de Alcoutim - Termo de abertura datado de 13.03.1867

quarta-feira, 11 de março de 2009

Caldeiros e caldeirões



Apresentamos hoje mais um utensílio que foi indispensável na vida dos alcoutenenses até meados do século passado e que com o decorrer dos anos foi desaparecendo quando as populações começaram a abandonar o campo e a procurar melhores condições de vida nas cinturas industriais de Lisboa e de Setúbal e depois no litoral algarvio quando o turismo se começou a desenvolver.

Só ficou a gente mais idosa. Os homens na força da vida e os jovens foram abalando uns atrás dos outros, alguns completamente à aventura contando sempre com o auxílio daqueles que por lá já andavam que os iam ajudando no que podiam.

O burro foi sempre o grande e indispensável auxiliar do homem destas paragens de solos muito pobres e por vezes inóspitos. Servia para levar as pessoas à vila, à aldeia, aos campos, às feiras e mercados das redondezas, onde fosse preciso. Por outro lado eram os transportadores de tudo o que necessitavam e levavam para casa o que se conseguia produzir, nomeadamente os cereais, azeitonas, amêndoas, alfarrobas e outros frutos que se iam colhendo. Também puxavam arados e charruas que lavravam as terras.

Quem tivesse dois palmos de terra tinha que ter um burro, ou mais, conforme a extensão dos terrenos. Ainda hoje podemos ver por todos os montes do concelho arramadas e palheiros a eles destinados mas que estão devolutos.

Vem esta pequena introdução para falar dos caldeiros e caldeirões como refere o título e se vê na fotografia apresentada.

Acompanhava quase sempre o animal este objecto preso de uma corda de sisal, grossa e comprida.

Mais um utensílio proveniente da mão do latoeiro e igualmente de folha zincada como referimos em relação a um tipo de potes para água. De base circular, a parte lateral era levemente inclinada, quando não direita e possuíam um pequeno rebordo. A largura era sempre muito superior à altura. A asa de ferro engatava em orifício seguro por bom cravejamento. As asas tinham todas o mesmo tipo, formando na parte superior uma argola que se destinava a atar a corda.

O caldeiro destinava-se a tirar água dos pequenos poços que se espalhavam por todas as baixas para o homem e o animal matarem a sede. Além desta utilização muito importante, eram usados para regar os pequenos hortejos só possíveis junto destes poços. Ao cair da tarde lá iam as moças, pois era um serviço que muitas vezes lhe estava destinado, a caminho da horta para proceder a tal tarefa.

O caldeiro era lançado à água e quando junto dela, com um movimento brusco da corda, virava-se e enchia. Depois, era recolhê-lo às braçadas.

Regam as alfaces, as cebolas, as” tomateiras”os pimenteiros, as couves os coentros e pouco mais pois era tudo em pequenas quantidades.

Os burros estão quase extintos no concelho e os caldeiros ou caldeirões, chamados assim, conforme o tamanho, rebolam por aqui e por ali com utilizações para que não foram feitos, como por exemplo, levar o comer às galinhas.

É mais uma peça para museu.

terça-feira, 10 de março de 2009

Versos do fim da Vida


Constitui a reunião de vinte e seis versos de António Sebastião da Palma que só aos 66 anos começou a escrever poesia, não conhecendo eu outro caso semelhante.

Esta edição artesanal comportou cerca de vinte exemplares que o autor fazia questão de oferecer aos familiares mais próximos e a um ou outro amigo.

Coube-me por sua incumbência a organização do mesmo que fiz da melhor vontade, incluindo o prefácio que me “obrigou” a fazer.

Tinha tudo preparado para seguir para Alcoutim levando-lhe o precioso “tesouro”. Um ou dois dias antes, o telefone tocou e do outro lado identifica-se um dos seus netos informando-me que o avô tinha falecido.

Fiquei petrificado. Porque não lhe mandei os livros pelo correio? Ainda hoje me arrepio quando penso nisso.

Tenho o destino de prefaciar trabalhos que os autores acabam por não os ver materialmente realizados.

Em 12 de Janeiro passou o 1º centenário do nascimento de António Sebastião da Palma, que nasceu na freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim, tendo falecido em 1997 no Balurco de Baixo, freguesia e concelho de Alcoutim.

Os versos que se apresentam e onde não houve qualquer selecção, pois pensamos que não se justificava, constituem “quadras” onde a técnica da métrica e muitas vezes a da rima não é respeitada. O autor, contudo, nas palavras que escreve, procura e muitas vezes consegue transmitir uma ideia com princípio, meio e fim, focando e pondo em questão muitos aspectos fundamentais da vida de qualquer cidadão.
A vida rural, como não podia deixar de ser, está representada na sua poesia. Não tivesse o autor sido agricultor toda a vida! É mais bonito agradecer em verso do que em prosa.

O amor foi sempre tema que nunca escapou a qualquer poeta e em Sebastião da Palma assim acontece.

Às pequenas coisas da vida o poeta deitou o seu olhar e tirou as suas conclusões, estejamos ou não de acordo.

A vila de Alcoutim, apesar de não ser onde nasceu, mereceu a sua verve, tal como o Guadiana, como rio criador.

António Sebastião da Palma deixou para os familiares e amigos alguns “versos” que merecem uma análise profunda procurando encontrar as raízes, os motivos que deram origem a tal sentimento.



Foram estas as palavras que retirámos do prefácio e que tivemos o gosto de escrever em relação à obra.
É uma pequenina homenagem que lhe prestamos na passagem do 1º centenário do seu nascimento.

Sebastião da Palma está incluído na 2ª edição, em preparação, de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia).

segunda-feira, 9 de março de 2009

João Freire de Andrade, Senhor de Alcoutim

(Publicado no Jornal Escrito nº 64, de Junho de 2004, p IV e encarte de O ALGARVE nº 4799)

Fidalgo da Casa de D. Afonso V, seu aposentador – mor, (1) conforme huma carta del Rey, feita em 25 de Setembro de 1451 e outra datada em Évora a 18 de Novembro do mesmo anno. (2)
Filho secundogénito do Senhor de Bobadela e Travanca, do mesmo nome e de D. Catarina de Sousa, neto paterno de Gomes Freire de Andrade, o 1º Senhor de Bobadela e de D. Leonor Pereira, que foi dama da rainha D. Filipa e materno de Martim Afonso de Sousa, 2º Senhor de Mortágua e de D. Maria de Briteiros. Era bisneto de Álvaro Pereira “marchal” de Portugal e Senhor da Terra da Feira. (3)

João Freire de Andrade devia ter nascido no primeiro quartel do século XV (cerca de 1415).

[Armas dos Andrade]
Consta que alguns anos antes das cartas outorgadas e referidas, tinha já exercido o “dito ofício” de aposentador - mor, mas o ter sido culpado de uma morte no Algarve, o fez ausentar para Castela e Ceuta, donde se recolheu ao Reino, beneficiando do perdão geral após a batalha de Alfarrobeira. (4)

A vida deste fidalgo parece ter sido um pouco agitada.

Em Castela (1434), num torneio, quebra três lanças com um dos “contenedores” (5) que ficou rapidamente vencido. Pediu então a Sueiro de Quiñones para lhe dar mais que fazer antes de deixar a teia pois fizera tão pouco para contemplação da sua dama, que por ela ali tinha ido.

Casa com D. Isabel Coutinho (cerca de 1442), viúva de D. Fernando de Cascais, que era filha de D. Pedro de Meneses, 2º Conde de Viana e de sua segunda mulher, a Condessa D. Beatriz Coutinho, mas de que não houve geração. D. Isabel já era falecida em 1450.

Nesta altura, D. João de Andrade era considerado pelo rei como pessoa que muito foi e é em nosso desserviço. (6) mas pouco depois, mais precisamente em 20 de Abril de 1444, foi expedida uma carta de perdão a seu favor, com a condição de ir servir sete anos para Ceuta, o que fez com muito valor pelo que o rei o nomeou, como vimos, aposentador - mor.

Obtém depois, em 7 de Novembro de 1458, por carta outorgada em Ceuta, que a vila de Alcoutim fosse um couto para quinze homiziados. Os autores dos crimes, não os podiam ter praticado num raio de 50 km da vila (6) carta que veio a ser confirmada a seu genro em 12 de Julho de 1497, passando de quinze para trinta e a distância para sete léguas. (7)

Em 1465 D. Afonso V tinha-lhe feito mercê do senhorio de Alcoutim, vila de que também foi alcaide - mor.

João Freire de Andrade casou em segundas núpcias com D. Leonor da Silva, filha de Pedro Gonçalves Malafaia, rico – homem, do Conselho e Vedor da Fazenda (8) de D. Duarte e embaixador a Castela e de sua mulher, D. Isabel Gomes da Silva.

Pedro Malafaia esteve igualmente em Ceuta. Também o pai de João Freire de Andrade, do mesmo nome, tomou parte como capitão na tomada da cidade.

Deste casamento nasceu D. Maria Freire de Andrade, sua herdeira que veio a ser a 1ª Condessa de Alcoutim e depois 2ª Marquesa de Vila Real.

Foi senhor de grande número de herdades e outros bens no concelho, tendo algumas delas, segundo penso, dado origem a pequenas povoações (montes) que lhe herdaram o nome e outras mantêm-se na toponímia rústica. São exemplos no primeiro caso, Palmeira e Zorrinhos e no segundo, Diogo Lopes ou Bacelar.

Estes bens vieram a constituir o Condado de Alcoutim e mais tarde, com outros, a Casa do Infantado, extinta em 1834 e os seus bens alienados à burguesia local em meados do século XIX.

João Freire de Andrade já era falecido em 8 de Julho de 1474, segundo Braamcamp Freire.

A ligação do Senhor de Alcoutim (e que ainda não o era) aos Meneses, não produziu descendência, o que veio a acontecer mais tarde com a de sua filha, a D. Fernando de Menezes, dando origem aos Condes de Alcoutim.

NOTAS
(1)-Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - Aposentador - antigo oficial a quem competia tratar, pelo menos com um dia de antecedência, de tudo o que se relacionasse com a aposentadoria do rei e ainda guardar os privilégios e foros dos senhores das pousadas (Viterbo)
(2)-Geografia Histórica, Luís Caetano de Lima - Lisboa, 1736.
(3)-Portugal Antigo e Moderno, A.S.B. Pinho Leal - Vol. 11, pág. 955
(4)-"Elementos para o Estudo dos Coutos de Homiziados instituídos pela Coroa" - Portugalie Histórica - Vol. II, 1974.
(5)-Significa defensor, protector.
(6)-Brasões da sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire - Coimbra, 1927
(7)-Castro Marim Quinhentista - O Foral Novo (de 1504) e o Tombo da Comenda (de 1509) , Hugo Cavaco, Edição C.M. de Castro Marim,2000
(8)-Funcionário da mais alta categoria a quem cumpria a administração da Fazenda Pública, in Dicionário de História de Portugal, Dir. de Joel Serrão, Livraria Figueirinhas,Porto.

domingo, 8 de março de 2009

Manuel Cabanas


Manuel dos Santos Cabanas, de seu nome completo, nasceu em Vila Nova de Cacela, concelho de Vila Real de Santo António, em 11 de Fevereiro de 1902.

Cedo iniciou a sua actividade política no Barreiro onde se radicou apenas com vinte anos e foi dirigente sindical ferroviário.

Participa no levantamento armado e por isso é preso em 8 de Fevereiro de 1927 quando o almirante Câmara Leme tentava sublevar a Escola de Torpedos da Armada.

Ligado aos meios socialistas da época participa em todas as acções de vulto da oposição democrática.

Faz parte do movimento grevista em 1934, do MUNAF (1943), do MUD (1945), das campanhas presidenciais de Norton de Matos (1948/49) e de Quintão Meireles (1951). Em 1958 participa activamente na campanha do General Humberto Delgado e sempre que a liberdade lhe permite nas campanhas eleitorais legislativas pela Oposição Democrática.

Sofreu por várias vezes a prisão sendo aposentado compulsivamente da CP em 1963 por razões políticas.

Foi funcionário da Ordem dos Advogados e professor do Ensino Técnico, acabando naturalmente por ser demitido em 1968 porque “era contrário aos altos interesses do Estado”.

Em 1973 ajuda a fundar o Partido Socialista. Depois do 25 de Abril, já septuagenário, tornou-se deputado do Partido Socialista na Assembleia da República.

Autodidacta, adquiriu através do seu estudo razoável formação intelectual, ajudada ainda devido ao convívio com grandes vultos do pensamento e das letras.

Artista plástico na área da xilografia que iniciou em 1937, a sua obra ficou fortemente marcada, como não podia deixar de ser, pelas suas concepções ideológicas. Nela abundam personalidades marcantes do pensamento e da ruralidade.

Foi sócio efectivo da Sociedade Nacional de Belas Artes.

Desde jovem foi articulista na imprensa divulgando os seus ideais republicanos e socialistas.

Em 1974 doou o fundamental da sua obra artística e a sua colecção de arte ao Museu Municipal de Vila Real de Santo António, de que foi Conservador nos últimos anos de vida.

Em 1993 o Presidente da República, Dr. Mário Soares, descerrou um busto de bronze em Vila Nova de Cacela que perpetua a sua memória.

As obras que doou ao município encontram-se hoje no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António.

Comendador da Ordem da Liberdade (1985) e da Ordem do Infante D. Henrique (1993)

Faleceu em Faro a 25 de Maio de 1995.

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http://pt.wikipedia.org/wiki
Manuel Cabanas, Vida e Obra, Luís Romão
Traços Biográficos de Manuel Cabanas, Carlos Bicas

sábado, 7 de março de 2009

A pelengana


Na casa do alcoutenejo comum, o pequeno proprietário agricultor que em ocasiões especiais tinha de abandonar o seu monte à procura de trabalho onde pudesse adquirir uns tostões para fazer face à vida, deslocava-se em emigrações periódicas para o Alentejo, nomeadamente para a zona de Serpa-Moura, outros para as Fincas do país vizinho de onde traziam uns duros e bastantes para as Minas de S. Domingos, ainda que o trabalho fosse muito duro, podiam ganhar mais uns patacos, os utensílios de cozinha eram muito poucos e rudimentares.

Panelas e tigelas de barro, caçoilas, alguidares de vários tamanhos, sertãs de ferro, um ou outro prato grande (hoje designado por prato de arroz) e pouco mais.

O meu visitante/leitor sabe que eu não nasci nem fui criado por estas paragens pelo que só apanhei alguns resquícios destas vivências, pois naturalmente algumas transformações se operaram.

Uma das peças que encontrei em actividade foi a pelengana, termo que desconhecia completamente e para o qual pedi uma explicação que me foi dada com a admiração de eu não o conhecer.

Tendo eu tido sempre interesse por estas coisas, a minha observação continuou a fazer-se tanto para esta peça como para todas as outras que não conhecia e que não se usavam na zona onde nasci e fui criado ou que então tinham outros nomes e funções um pouco diferentes.

É natural que tivesse procurado dicionários que me pudessem fornecer mais elementos e verifiquei que a utilização do termo é muito variada o que acontece igualmente à ortografia. Pode dizer-se e escrever:- palangana, pelangana, plangana (1) e mesmo pelengana, que eu por aqui sempre ouvi e utilizo no título e como é referido no Dicionário do Falar Algarvio, 2ª Edição aumentada, de Eduardo Brazão Gonçalves, Algarve em Foco – Editora, 1996, p. 147.

A palavra palangana, que normalmente encabeça a entrada nos dicionários, é segundo os mesmos de origem Castelhana, tendo por base o Latim palanga.

São muitos os significados que pode ter: tabuleiro onde são levados os assados à mesa; grande tigela, alguidar, bacia (no Brasil) e no Minho, infusa ou cântara.

As pelenganas em Alcoutim eram peças de base redonda, muitas decoradas dos mais variados motivos e com bordos ligeiramente inclinados como a representada na fotografia, que tem seguramente mais de sessenta anos. Para se lhe chamar pelenganas, tinham de ser vidradas.

Não serviam diariamente mas sim em dias de nomeada. Era nelas que se vazavam, e isto para utilizar o verbo que me foi referido, os jantares de grão, feijão, fava ou couve, feitos ao fogo lento de lenha e numa panela de barro.

Apesar de todas as transformações operadas na vida dos alcoutenejos, as pelenganas continuam em uso, muitas bem velhinhas, mas outras novas pois os comerciantes ambulantes continuam a trazê-las pois sabem que se vendem com facilidade.

NOTA
(1) – http:// www.kinhost.com.br

sexta-feira, 6 de março de 2009

Nau dos Corvos


“Nau dos Corvos” foi o título que o autor deu ao conjunto de 61 poemas que numa edição de autor foi apresentado no dia 31 de Janeiro último, cerimónia para a qual teve a amabilidade, como é já seu hábito, de me convidar, mas que não me foi possível estar presente, como desejava, visto encontrar-me no concelho de Alcoutim, a uma distância relativamente considerável de Peniche.

O sentimentalismo do autor levou-o a ir buscar para título este emblemático rochedo que constitui um dos ex-libris da cidade onde não nasceu mas que considera como sua e onde se fixou desde tenra idade.

Sem nunca escamotear as suas origens ribatejanas, de que muito se honra, e a qualidade de almeirinense, tem vivido a maior parte do seu tempo na cidade de Peniche que ama como poucos, sendo considerado uma das suas maiores figuras pelo menos dos últimos cinquenta anos.

Além da sua obra poética que já conta seis títulos e onde sobressai o encantamento que possui pela terra onde se fez homem e que glorifica com ternura e emoção, cultiva igualmente a prosa com trabalhos de ficção.

Mas a faceta pela qual os penichenses nunca o esquecerão, está no valioso trabalho que tem realizado sobre a história de Peniche, dando a público em 1962, Peniche na História e na Lenda, que já vai na 4ª Edição e se encontra presentemente esgotado.

Além deste trabalho publicou entre outros, Fortificações da Região de Peniche, para nós, o seu melhor trabalho e ainda uma valiosíssima História da Renda de Bilros de Peniche, 2003.

O Dr. Mariano Calado que nasceu em Almeirim em 1928 é Licenciado em Psicologia Social e obteve na Universidade de Lisboa, em 1999, o grau de Mestre em História Regional e Local.

Teve a gentileza de nos oferecer este livro com simpática dedicatória, o que muito lhe agradecemos

quinta-feira, 5 de março de 2009

Recordar um amigo




Escreve
José Miguel Nunes




A minha filha, como qualquer miúdo da sua idade, adora que lhe leiam uma história, e como as que temos cá em casa já lhe foram lidas vezes sem conta, aqui há uns tempos tive de lhe renovar o “stock”, e foram histórias da “Moranguinho”, do “Noddy”, dos “Irmãos Koala”, eu sei lá…

Pensarão, mas o que é que isto tem a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.

Mas voltando às histórias da minha filha, no meio delas há uma em especial que ela adora que lhe leia, chama-se “O Capitão Nelo”, e é da colecção dos “Irmãos Koala”. O Nelo é um pequeno vombate que mora no interior da Austrália, que certo dia se depara com uma descoberta deveras interessante: uma pequena lancha em muito mau estado. Com a ajuda dos irmãos Koala, Franco e Beto, arranja a lancha, e realiza o seu sonho de ser um verdadeiro Capitão de Mar, com um chapéu à capitão e tudo.

Voltamos novamente ao mesmo, mas o que tem isto a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.

Cada vez que lhe leio aquela história, lembro-me de Alcoutim. Cada vez que lhe leio aquela história, lembro-me do Sr. Leonel, que morava na rua onde se situava a casa dos meus avós, era logo a primeira do lado direito, no sentido de quem sobe, mesmo junto às escadinhas que aí existiam e recentemente assassinadas.

O Sr. Leonel, homem alto, grande e de voz grossa, estava sempre pronto para uma brincadeira, alguns da minha idade ainda o recordarão com toda a certeza. Metia-se muito comigo, aliás como fazia com todos os outros miúdos, mas talvez por ser próximo da família, ou por eu ser “um pouco irrequieto”, raramente passava por mim sem me provocar de alguma maneira.

O Sr Leonel nunca me tratou pelo meu nome, sempre me chamou de “Capitão”, ou melhor, de “Captão”, sempre me lembro de assim ser. Não faço a mínima ideia porquê, a verdade é que também eu, como o pequeno Nelo da história dos Irmãos Koala tinha um chapéu de Capitão de Mar, é possível que tenha sido essa a razão.

A história do “Capitão Nelo” é uma história que eu gosto de lhe ler, e que ela gosta de ouvir. Até acho que gosta mais desta do que das outras, ou então sou eu que gosto mais desta do que das outras. Não sei, é possível que lha leia de um modo diferente do que lhe leio as outras, é que esta recorda-me Alcoutim, é capaz de ser isso.
Mas o que é que isto tem a ver com Alcoutim? Provavelmente nada, depende de quem escreve, depende de quem lê.


Recordar Leonel Mariani Lorador, falecido em 1994 e um verdadeiro amante de Alcoutim, é a simples homenagem que lhe posso prestar.