sábado, 30 de julho de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VIII





Escreve


Daniel Teixeira



A FILHA DO CHICO ARTUR

Alcaria Alta e toda a parte nordeste do Algarve, de uma forma geral, era e é, penso eu, por mais flores que se coloquem em ajeitamento do cabaz, um meio extremamente pobre…e era pobre até para os mais ricos (se é que este termo se pode utilizar).
No estudo – que já aqui referi em crónicas anteriores – comparando a zona raiana de Portugal com a zona vizinha de Espanha, para além da divisão da propriedade ser abissalmente diferente, para além dos pólos populacionais serem eles também abissalmente mais numerosos e maiores em Espanha havia também estatísticas sobre gado. Este era em maior quantidade por exploração em Espanha mas sobretudo no que interessa agora com maior e diferente variedade nas espécies.

O número do gado de pastoreio pode representar duas coisas: de um lado uma maior ou menor riqueza das culturas de solo espontâneas ou não ou inversamente a falta de concentração numérica por exploração e logo a inviabilidade ou dificuldade em ter gado de estábulo, ainda que com apoio do pastoreio mesmo sendo o solo rico.

Os nordestinos algarvios tinham, nesse estudo, um número desproporcionado de gado de pastoreio na sua relação com o gado de estábulo, sobretudo ovelhas e muito longe depois vinham as cabras.

Os rebanhos de ovelhas, ou mistos de ovelhas e cabras que eu conheci atingiam por vezes várias centenas de cabeças. Contudo eram rebanhos associados na sua maior parte: quer dizer havia por exemplo 300 cabeças de três ou quatro donos que dividiam entre si a responsabilidade de pagar ao pastor (que por vezes ele mesmo tinha as suas cabeças no conjunto). O gado porcino, de estábulo e pequeno pastoreio sobretudo de bolotas, era em número residual e pelo que sei era sobretudo de exploração familiar para engorda caseira.

[Rebanho de ovelhas com o seu pastor. Foto JV, 2009]

Ora, um dia, e vindo dos lados da serra de Tavira, e quando eu me deslocava para uma hortinha que tínhamos algures para os lados do Ribeirão, vi uma vez passar um rebanho de porcos para aí com mil cabeças, talvez. Todos sensivelmente do mesmo tamanho – e logo da mesma idade – iam para a Feira de São Marcos, conduzidos por um único pastor e dois cães. O homem ia nas calmas, os cães ao seu lado e ele a meio da cabeça e de olho na frente e nos guias do rebanho.

Olhava para trás, de quando em vez dava um assobio a marcar a sua presença e lá iam eles os porquinhos, em fila compassada, com semi-trote nas perninhas. Durante o tempo que levaram a passar por mim, sensivelmente meia hora, nem uma única vez o pastor ou os cães tiveram de intervir o que me fez ficar a reflectir sobre a diferença entre estes porcos e aqueles que eu e meus amigos filhos de lavradores levávamos a pastar até à Ribeira da Foupana.

Nós ficávamos literalmente de bofes de fora até chegar ao sítio do poiso nosso e porcino, tínhamos de saltar barrancos e cercados, voltar atrás buscar alguns atrasados, proteger as zonas de cultivo, enfim: pensei que bom era que os «nossos» porcos enfileirassem assim como aquele ordenado rebanho pelo menos 30 vezes maior que o nosso.

Pastávamos cerca de 30 indisciplinadas cabeças, marrões e parideiras, seus descendentes de semi – mama e candidatos aos postos dos pais ou não. Eram, na caminhada, uns baldas os nossos porcos. Se não se dissesse que os porcos (e os animais em geral) não pensam nem têm emoções, diria que eles se sentiam livres e gozavam a sua liberdade.

Levavam a maior parte dos dias nos pocilgos, ganindo desalmadamente com fome…a sua função era reproduzirem-se e recebiam como alimento o correspondente à sua utilidade imediata. Não havia nem vontade nem dinheiro que permitisse uma fuga humanitária que metesse um pouco mais de papa nas gamelas…era aquilo a que se chama de vida de cão aplicada a porcos.

[Feira de S. Marcos no Pereiro, 2011. Foto de JV]

Sempre vi por lá, por aquela região toda, uma cultura mental não propriamente resultante de escassez no limite mas sobretudo de calculada contenção: os tempos tinham ensinado que os objectivos pretendidos eram cumpridos assim, daquela maneira, e logo…não se ia mais longe.

Os porcos de engorda, quase imobilizados em espaços pequenos, comiam e dormiam e engordavam por vezes não muito: o falhanço ou a glória do maior ou menor peso era atribuído à qualidade do porco, à sorte na escolha, ao calor do verão mas nunca à falha alimentar.

O primeiro empreendedor no ramo animal a sério, mas dentro dos limites calculáveis pelo ambiente geral que conheci no monte foi o Chico Artur – natural do Pereiro e casado com a Ti Inácia. Sobre o seu envolvimento na produção animal e sobretudo na porcina e na porcino - javalinesca e de aviário falarei noutra altura. Tinha uma visão empresarial menos conservadora que os locais de nascimento em geral mas no seu final parece-me ter sido ultrapassado pelo peso da realidade. Um sonhador (?) talvez...
Tinham dois filhos cujos nomes não vou referir, mas vou lembrar uma miúda de oito/ dez anos, amorosa mesmo, de tez um pouco sardenta e cabelo louro que a minha mulher adorava. Tinha uma face linda e uns olhos azuis toldados por alguma melancolia já. Eram boas companheiras…conversaram bastante durante alguns anos quando lá íamos e a escola estava sempre presente como tema.

Sentadas no poial que bordava a fronteira da casa (loja, habitação e armazém numa só enfiada) ou sentadas no lance de escadas que dava acesso à loja lá as deixava eu e lá ia buscar a mulher passado tempo. Esperta ria-se da ignorância da minha mulher em relação às coisas do campo e acabavam rindo as duas.

A miúda dava de comer aos porcos e galinhas e ajudava na lida da casa e da mercearia / taberna. Como toda a gente deveria dizer, de fora do monte e mesmo a gente do monte, entre quem tinha ideia ou consciência das perspectivas de vida por lá, nós dizíamos também que era uma pena uma miúda assim estar condenada já àquela vida. Pelo que se via em termos de estudos permitidos dificilmente ela passaria da escola primária e era a antecipada visão daquela miúda, atrás de um balcão da mercearia e taberna, de lenço escuro enrolando os caracóis e chapéu na cabeça que quase aterrorizava.

O tempo passou, como passa sempre.

O filho do Chico Artur teve alguns problemas de saúde e calhou a ficar internado numa unidade onde a minha mulher trabalhava na altura. Um dia ele recebeu uma visita: a irmã.

Esta imediatamente reconheceu a minha mulher e voltaram a conversar. Conversaram muito de novo. Não era fácil o caso do irmão, sabia eu já e sabia ela também. Tudo se iria arranjar, disseram entre si...mas não se arranjou. Há coisas que se compõem e coisas que não se compõem. Ela, a miudinha sardenta e loura conhecia uma outra face da medalha da vida.

«Está quase igual ao que era lá…trabalha na Suíça. Muito fina no trato, de brinquinhos pequeninos e cordãozinho de ouro discreto…está uma senhora, uma verdadeira senhora ainda menina. Está quase igual…fiquei tão contente!».
Eu também...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

No Pinhão



A Câmara Escura de hoje vai recuar setenta anos no tempo. Representa um grupo de Senhoras que então viviam em Alcoutim devido à profissão dos esposos.

Notam-se D. Cecília Lopes Dias, esposa do Dr. João Francisco Dias e D. Marina Ramos Themudo, esposa do Secretário de Finanças de então, José Themudo. Sei que uma das outras Senhoras era a esposa do oficial que comandava a Secção da Guarda-Fiscal.

Entre as crianças e junto de sua mãe, o saudoso Fernando Lopes Dias que veio a presidir à Comissão Administrativa da Câmara Municipal após o 25 de Abril e ao colo da sua, Marina Ramos Themudo que veio a ser professora universitária na Universidade de Coimbra e que nos facultou com a sua amizade a fotografia. Bem-haja por isso.

Apesar das condições técnicas da altura serem ainda muito rudimentares, pode notar-se nitidamente o Guadiana e a sua margem.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A alfarrobeira, talvez a mais interessante árvore "algarvia"



A alfarrobeira (ceratonia siliqua L) é uma árvore originária da região mediterrânica que pode atingir 20 metros de altura.

Folhas persistentes e paripinuladas com folíolos ovalados de entre seis e dez e cujo fruto, a alfarroba, (do árabe Al.harruba) é uma vagem, primeiro verde e depois acastanhada e que pode atingir 25 cm de comprimento.

Pensa-se que foi trazida pelos gregos da Ásia Menor e teria sido introduzida em Portugal pelos árabes, assim como o teriam feito em Espanha e no norte de África.

A alfarrobeira que gosta de áreas secas e soalheiras dá-se no sul do país, nomeadamente no Algarve e zonas confinantes do sul do Baixo-Alentejo.

A parte mais valiosa do fruto é a semente que se utiliza na indústria farmacêutica, alimentar e cosmética.
A polpa tem sido essencialmente utilizada na alimentação animal e a sua farinha é usada como antidiarreico.
Ultimamente utiliza-se como substituta do cacau no fabrico de chocolate. São conhecidos actualmente os saborosos licores a que dão origem.
A sua destilação origina aguardente.
A floração dá-se entre Fevereiro e Abril e a apanha entre Agosto e Setembro.

Naturalmente que esta árvore também existe no concelho de Alcoutim, penso que em maior número nas freguesias de Alcoutim e de Vaqueiros, mas em todo o concelho se encontram e algumas com portes consideráveis, principalmente nas proximidades do Guadiana.

São árvores que se destacam pelo seu volume, configuração da copa e pela oferta de excelentes e sadias sombras.

Ainda que normalmente altas, varejam-se facilmente com uma cana pois o fruto é relativamente volumoso e quando maduro cai ao mais leve toque. Apanham-se bem pela mesma razão.

O seu desenvolvimento é lento mas seguro e é considerável a sua longevidade.

Como tem raiz aprumada, de espigão, como diz o povo, não é fácil de transplantar como acontece por exemplo à oliveira, mesmo já bem adulta.

Nascendo espontaneamente aqui no concelho, o homem enxerta-a de borbulha, mas segundo tenho sido informado, requer alguma perícia e conhecimento pois não pegam com facilidade.

Em meados do século passado alguns agricultores começaram a fazer viveiros, enchendo sacos de plástico com estrume bem curtido e onde introduziam uma semente inchada devido a ter sido posta de molho. Esta acção era feita para acelerar a germinação.

Não são árvores que requeiram grande poda.

Em 1962 a Herdade da Malhada situada na freguesia de Vaqueiros é considerada a maior do concelho, dos seus 289 hectares, 60 constituindo a maior parte, era de alfarrobal.
Na recente florestação do concelho, árvores próprias da região como a alfarrobeira e a azinheira foram preteridas em relação ao pinheiro por este ter um desenvolvimento muito mais rápido mas certamente com os inconvenientes próprios causados pela menor adaptação à região.

Nos últimos anos o fruto valorizou imenso pelo que é dos poucos frutos que ainda se apanha,
mas mesmo assim muitos ficam nas árvores e quando caem são aproveitados pelos animais selvagens ou pelo gado.

Além da região mediterrânica as alfarrobeiras dão-se no Egipto, no Sudoeste dos Estados Unidos, no Hawai, na Austrália e ainda na África do Sul.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Arrizada, pequena povoação de topónimo curioso



Outro pequeno “monte” que faz parte da freguesia de Martim Longo e que se situa a 40 km da sede do concelho a que pertence.

Fica próximo da estrada nº 124 e no sentido Norte/Sul do seu lado esquerdo e a que se chega através de um pequeno troço de estrada asfaltada de 800 metros, que recebeu reparação em 2006. (1)

O topónimo apresenta-se muito confuso. Começa pela escrita. Enquanto uns o escrevem com um Z, nomeadamente a Câmara Municipal, outros grafam-no com S como se faz no Novo Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão, 1981.

Não encontrámos nada escrito sobre o assunto. Arrizar é termo náutico ou seja, atar com os rizes, meter nos rizes, segurar com cordas e não nos parece que tenha aqui qualquer sentido. Admitimos que a sua origem poderá estar em risa (espanhol) que o alcoutenejo muito utiliza em substituição de riso. Dar risada, segundo o Dicionário do Falar Algarvio (2) é expressão algarvia que significa: dar festa, dar vontade de rir, dar risa.

Se a origem for esta, parece-nos que o topónimo deveria ser escrito com S.

Nas Memórias Paroquiais (1758), o pároco de Martim Longo escreveu Monte da Rizada.

Em 1960 alcançou o máximo da população, 43 habitantes, descendo na década seguinte para 25 e 23 em 1981.

Os elementos que possuímos para 1991 atribuem-lhe 24 habitantes. Actualmente serão cerca de metade, caminhando, como a maioria do concelho para a extinção.

A electrificação ocorreu em 1985, na mesma altura dos seus vizinhos do Barroso e das Mestras. (3)

Possuiu distribuição de água por fontanários que foram suprimidos em 2004 para a mesma ser levada aos domicílios.(4)

Os arruamentos foram pavimentados em 1993. (5)

As crianças, quando existiam, frequentavam a escola de Corte Serranos, distante 2,5 km.

Martim Longo fica-lhe a 10 km de distância,


NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13 de Dezembro de 2006, p. 15
(2) - 2ª Edição, 1996, Eduardo Brazão Gonçalves.
(3) - Jornal do Algarve de 5 de Dezembro de 1985.
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p 9
(5) - Boletim Municipal nº 12 de Abril de 1993

terça-feira, 26 de julho de 2011

Festa no Zambujal (Vaqueiros)



Apresentamos hoje a todos os possíveis interessados o programa do XIII ALMOÇO DOS NATURAIS E AMIGOS DO ZAMBUJAL que vai ter lugar, SÁBADO, 6 DE AGOSTO DE 2011 e numa organização da ASSOCIAÇÃO AMIGOS DO ZAMBUJAL.

O programa mostra-se variado e irá certamente originar um convívio agradável entre naturais e visitantes.

Estas pequenas festarolas que se vão realizando por todo o concelho são uma tentativa de alguns dos seus filhos ainda que fisicamente ausentes procurarem, pelo menos num dia do ano revitalizarem os seus montes numa tentativa de manter uma pequena chama de vida.

Enquanto nalguns esses encontros anuais já se extinguiram, noutros a perseverança dos seus naturais vai-os mantendo. Até quando?

O Zambujal foi sempre um dos mais importantes montes da freguesia de Vaqueiros e mesmo do concelho de Alcoutim

Aproveitamos para agradecer o convite formulado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

50 000 VISITAS !



Mais uma meta alcançada.

Chegámos hoje às 50 MIL VISITAS um número que para nós não supúnhamos obter em tão curto espaço de tempo, ou seja 3 Anos, 1 Mês e 2 Dias.

As últimas 10 mil visitas foram as mais rápidas de obter pois passaram-se apenas 3 meses e 28 dias, o que originou uma média diária de 84,74 (visitas) pelo que o gráfico continuou a subir.

Em referência às anteriores 10 mil, houve um aumento diário de 5,38 já que a média anterior tinha sido de 79,36.

Mais cinco visitas / dia é um aumento considerável.

Desde o início, a média diária cifra-se agora em 43,97.

O número de “postagens” com esta perfaz 846 pelo que a média desde o início é de 0,74 / Dia.

O número de países que nos visitaram é de 80, mais nove dos que o tinham feito quando alcançámos as 40 mil.

Portugal ocupa um pouco mais de 80% e é significativa a percentagem do Brasil (13,3), E.U.A (1,9) e da França com (0,9) tendo ultrapassado recentemente a Espanha.

Os cinco TEMAS mais movimentados são os seguintes: Câmara Escura (81), Etnografia (79), Escaparate (68), Ecos da Imprensa (55) e Especiais (47).

O rumo que traçámos continua a ser seguido sem qualquer alteração de fundo e assim se irá manter até à sua extinção

O ALCOUTIM LIVRE É CADA VEZ MAIS CONHECIDO E VISITADO.

Continuamos a defender o que escrevemos na nossa primeira “postagem”:

A minha principal preocupação é tornar esta vila e este paupérrimo concelho mais conhecido no que respeita ao passado, mas nunca descurando o presente porque ser pobre, não é defeito e os pobres, no sentido económico, podem ser ricos em muitas outras áreas. Por outro lado é preciso defender as suas “riquezas” muitas vezes adulteradas e colocadas em plano secundário, por interesses economicistas ou por pura e simples ignorância!

Nunca é demais ter uma palavra de agradecimento para os visitantes / leitores pela sua constância nas visitas, pelo interesse algumas vezes manifestado e pela divulgação que têm feito do mesmo.

Sem eles, não existia o ALCOUTIM LIVRE.

Juntamos um gráfico explicativo.


domingo, 24 de julho de 2011

Relações de trabalho no Alcoutim de antigamente...





Escreve



Amílcar Felício




Logo que os homens se sedentarizaram desde tempos imemoriais, que se sentiram atraídos para fazer trocas de bens para satisfação das suas necessidades básicas. Na realidade a alteração do modo de vida dos homens de nómadas para sedentários, levaria ao desenvolvimento da agricultura o que permitiu a criação de excedentes que proporcionavam aquelas trocas.

Naqueles tempos e sem qualquer equivalência de valor, quem tinha excesso de caça trocava com quem tinha excesso de peixe, de milho ou de outro produto qualquer – era o chamado escambo – mas naturalmente que por vezes acontecia que quem tinha peixe a mais e não precisava de caça ou de outros produtos no momento, tal circunstância impedia qualquer tipo de transação ou de troca.

Assim, foi crescendo a necessidade da existência de um bem ou de alguns bens que pela sua utilidade geral e durabilidade interessassem a todos, independentemente das suas necessidades de momento. Estava-se ainda longe do vil metal – o dinheiro – e assim surgiu o gado principalmente o bovino e o sal, que passaram a constituir os primeiros tipos de moeda/mercadoria e que permitiriam aos homens fazer todo o género de trocas em qualquer momento.

Aqueles excedentes proporcionados pelo desenvolvimento da agricultura, criariam por arrasto a necessidade da responsabilização de uns tantos elementos da comunidade quer para a guarda dos bens excedentários, quer para a defesa do próprio grupo. Contudo, com este simples gesto os homens estavam a por em marcha a criação do próprio Estado com toda a complexidade de que se reveste hoje. Naturalmente de que ao longo dos séculos, o Estado acabaria por se transformar não só no defensor dos bens da comunidade, como também no defensor dos interesses e das ideias de quem lhe pagava: os donos dos bens.



E se reflectirmos um pouco mais, verificaremos que o Estado foi assumindo uma tal importância em todas as áreas, que se tornaria com o correr dos tempos no principal aparelho ideológico dos valores daquelas classes, construindo uma autêntica teia de influências que percorrem a sociedade até às entranhas, fazendo passar aqueles interesses particulares pelos interesses mais gerais de toda a comunidade.

De facto desde o Ensino aonde se começa a ensinar a cartilha, aos Meios de Comunicação Social criadores e propagandistas de falsos símbolos e ídolos tipo Sonho Americano (american way of life), aos Tribunais que julgam e condenam os prevaricadores, ao Exército e às Polícias que garantem a manutenção do sistema ou àqueles que prometem uma vida de felicidade e abastança no além, para os que sofrem cá na terra etc., etc., etc., é um nunca mais acabar de tentáculos que como um verdadeiro polvo abraçam e sufocam toda a comunidade.

Na realidade naquele processo de trocas primitivas e de funções várias que os diversos elementos da comunidade iam exercendo, os diferentes interesses em causa foram-se cristalizando e os homens foram-se dividindo, acabando uma boa parte da comunidade com o passar dos séculos por ficar sem nada para trocar a não ser a sua força de trabalho e assim, passaram a ser considerados eles próprios também uma mercadoria.



Era o início da escravatura. Vendiam-se as terras juntamente com os escravos, pois faziam parte do património. Contudo, num longo processo de muitas centenas senão milhares de anos a partir das grandes revoltas dos últimos séculos antes de Cristo, os escravos iniciariam a sua luta pela libertação completa do jugo dos Senhores e com o evoluir dos tempos os seus descendentes, socialmente já homens livres mas economicamente ainda dominados, foram trocando o único bem que tinham herdado – a sua força de trabalho – por um salário.

Se referimos este passado da alvorada da humanidade é porque aquelas duas moedas/mercadorias – o gado e o sal -- marcariam definitivamente todo o nosso arsenal de conceitos até aos nossos dias. Paga-se a quem trabalha com um salário, isto é nem mais nem menos do que simbolicamente com sal, pois o conceito de salário tem origem precisamente na palavra sal. Assim como a palavra gado que vem do latim pecus viria a dar conceitos como pecúnia/pecuniário (dinheiro), ou peculium (gado miúdo tipo ovelha) que viria a dar pecúlio, ou capital que vem de capita ou seja cabeça (de gado).

Ao fim destes milénios todos, claro que o Senhor Estado se tornou num velho gordo a rebentar pelas costuras, debochado e sem qualquer tipo de preconceitos pois já nem se encontra às escondidas com a sua Bela e Alta Finança, mas já se apresentam descaradamente de braço dado e à luz do dia. Basta referir essa Troika Financeira que anda por aí e que põe e dispõe como quer e lhe apetece, às Fundações e Institutos Públicos que nascem como cogumelos para os amigos do Poder, às diversas Empresas Públicas super-deficitárias ou às desastrosas Parcerias Público-Privadas, ao escabroso regabofe do BPN com ex-ministros de antigos governos e à Nacionalização do Buraco Financeiro pelo governo de então etc., etc., etc.

Ou então verifiquemos por curiosidade esse casamento Estado/Finança, analisando o momento actual e o corrupio de ex-ministros e ministros dos governos mais recentes – uns que partem outros que chegam – para as (ou das) grandes empresas ou grupos financeiros de referência nacionais e internacionais, para não mencionar as dezenas de tristes casos praticados pelos Senhores do Estado a que fomos assistindo ao longo destes anos por esse país fora. Enfim, de quatro em quatro anos lá se vão zangando as comadres e lá vamos sabendo mais umas quantas verdades, mas a realidade é que por lá vão continuando ora umas ora outras, sempre para bem do Povo e de Portugal claro.

Mas... já chega de falar de sucata e voltemos aos nossos homens da antiguidade. Estes pelo menos já não nos dão problemas!
Com a descoberta do metal, dar-se-ia um passo de gigante nas relações/transações entre os homens por apresentar enormes vantagens nas trocas e assim, foram substituídos como moeda/mercadoria quer o gado, quer o sal. Inicialmente o metal foi usado como moeda de troca no seu estado natural, principalmente o ouro e a prata.


Foram os gregos quem corporizou o conceito de moeda, dando-lhe a forma de moedas cunhadas com as características que têm hoje. As primeiras moedas cunhadas surgiram efectivamente no século VII a.C. na Grécia em ouro e em prata. Foi na Grécia também – berço da democracia e da civilização actual – os primeiros que compreenderam as fraquezas da natureza humana contrapondo aos poderes oligárquicos vigentes até então e com tendência a corromperem-se, o mais amplo poder do povo, constituindo dos poucos momentos da história do homem aonde se chegou a praticar a democracia directa apesar de algumas limitações culturais da época, visto que estavam excluídos de tais direitos as mulheres, os escravos e os estrangeiros. E isto há quase 3 milénios atrás imagine-se!

Até parece que a Europa mais conservadora com epicentro na Alemanha nunca mais lhes perdoaria a ousadia apesar de tanto tempo passado, sofisticando-lhe os produtos que eles próprios tinham criado com tanta imaginação para facilitar as relações entre os homens e fazendo o seu ajuste de contas alguns milénios depois, dando-lhes a beber o veneno -- agora muito mais refinado -- que eles próprios tinham inventado. Ironia do destino!

Finalmente na Idade Média era costume guardarem-se os valores nos ourives que negociavam ouro e prata passando este, certo tipo de prova escrita daquela operação ou seja um recibo. Estes recibos passaram a ser usados como formas de pagamento. Estava descoberta a nota ou seja o papel/moeda.

Vem toda esta longa conversa a propósito de sociedades aonde a circulação de dinheiro é escassa e nas formas que os homens foram inventando e usando nas suas relações/transações. Em Alcoutim dos anos 40/50 e 60 o dinheiro era um bem escasso e pouco circulava na altura. Lembro-me de alguns camponeses pagarem as suas dívidas do ano na mercearia apenas depois da venda das colheitas. Verdade seja dita que a inflação era uma doença inexistente na época e assim eram permitidos créditos de quase um ano.

De facto havia relações de trabalho muito estranhas naqueles tempos em Alcoutim e as formas de pagamento tinham muitas vezes certas especificidades também. Vejam só: era habitual pagar-se a quem apanhava a azeitona, a alfarroba mas principalmente a amêndoa ao quarto (penso que ainda se chegou a pagar ao quinto), depois ao terço e por último já se pagava a meias. Isto quer dizer que um quarto, um terço ou metade da produção era paga em produto àqueles a quem se tivesse contratado a apanha respectiva. E a percentagem ia variando e aumentando para os jornaleiros na medida em que a oferta de mão-de-obra ia diminuindo com o correr dos tempos, crescendo naturalmente a parte dos apanhadores/jornaleiros até se chegar a metade para cada uma das partes. E note-se que se tratava de pagamento a jornaleiros e não a caseiros ou rendeiros o que já seria mais compreensível.

Mas aquela relação de pagamento não se ficaria por ali. De facto quando a lei da oferta e da procura entraram francamente em ruptura com menos mão-de-obra disponível, inverteu-se o processo, começando o proprietário por receber primeiro ao terço, depois ao quarto e agora naturalmente já ninguém recebe nada, pois ninguém já apanha o que quer que seja, exceptuando uma ou outra azeitona claro. Era a lógica do sistema a funcionar em pleno, embora paga em géneros. Contudo, se analisarmos este tipo de pagamento concluiremos que era bastante cínico, pois criava a falsa ilusão de que todos eram proprietários e assim, quanto mais depressa se apanhasse a amêndoa ou a azeitona mais rendia o dia! Ficava contente o jornaleiro que ganhava mais, ficava descansado o patrão que não se preocupava com a produtividade no trabalho.


Desculpem-me lá os meus queridos conterrâneos, mas sempre estive convencido de que em Alcoutim nunca abundou muita iniciativa empresarial no sentido de fazer novas coisas, conceber novas actividades, abrir novos horizontes etc., etc., etc. Claro de que não posso colocar o rabinho de fora e terei que me penitenciar também, pois nunca fiz nada em Alcoutim. Afinal de contas sou um alcoutenejo de “puro sangue”, mas isto não invalida que não tenhamos uma opinião crítica sobre nós próprios.

Pelo contrário, existia uma imaginação prodigiosa para criar mais valias, que não se ficava atrás do Champalimaud mais refinado da época. O princípio do sistema estava bem assimilado não há dúvida, faltava apenas dar o 2º passo: criar novas actividades. Analisemos só este requinte quando aquela forma de pagamento em produto referido anteriormente, começava a dar raia em desfavor do proprietário. Este baralhava de novo os dados do problema inventando inovadoras propostas e confundindo completamente o comum dos mortais: o proprietário “dava” as suas colheitas a quem contratasse a apanha e “comprava” posteriormente ao jornaleiro por exemplo a amêndoa já descascada a 1 escudo o quilo se bem me lembro! Extraordinário refinamento que o capitalismo mais evoluído só lá chegaria com algo semelhante em termos de prática massiva nos anos sessenta: o pagamento à peça!

Trás-os-Montes e as Beiras são duas regiões que me parecem estrutural e socialmente muito semelhantes a Alcoutim. Por isso procurei indagar junto de alguns beirões e transmontanos amigos conhecedores da vida nos anos 50/60 naquelas regiões, mas que se mostraram completamente desconhecedores destas relações de trabalho que se praticavam em Alcoutim nos anos 40/50 e 60 do século passado.

Existiram de facto naquelas regiões práticas comunitárias de entreajuda, naturalmente por se tratar de pequena propriedade, a que chamavam de “torna-jeira” ou “tornas” e que consistiam num “contracto pelo qual os jornaleiros se ajudavam mutuamente no trabalho da terra” (Grande Dicionário da Porto Editora). Fica a pergunta: serão genuinamente alcoutenejas ou algarvias no mínimo, algumas relações de trabalho que se praticaram em Alcoutim em meados do século passado?

sábado, 23 de julho de 2011

Poço dos Lagares ou Novo


[Cópia (pormenor) do livro de Duarte de Amas, Séc. XVI]

No Livro das Fortalezas de Duarte de Armas (Século XVI), na vista de Alcoutim tirada da banda do sul, pode ver-se um poço nas proximidades da capela de São Sebastião (hoje Capela do Cemitério), numa posição no vale que nos parece ser a do Poço dos Lagares. Se assim for, como pensamos, é bem velhinho. É claro que o cemitério só aparece séculos depois.

Em 1850 já existia com a primeira designação visto Manuel Roiz, desta vila, pedir licença para cercar um pequeno terreno dele e contíguo ao cercadinho de Pedro José Roiz, o que foi indeferido. (1)

Em 1889 já é conhecido pelo poço Novo e é decidido mandar aprofundá-lo, pelo menos, meio metro. (2)

Na toponímia existiu a Rua dos Lagares onde se situa a Casa dos Pobres e ainda há a Rua do Poço Novo.

Após a construção do cemitério nunca mais foi muito procurado.

Ao caminhar para os 500 anos de existência, acabou por ser “assassinado”.

NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 20 de Fevereiro de 1850.
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Agosto de 1889.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Residência do Capitão-mor



Quem alguma vez foi à Vila de Alcoutim não lhe passava despercebido tal edifício, tanto pela localização como pela imponência ou ainda pela utilização que teve durante cerca de um século, pois nele funcionaram a Repartição de Finanças e a Tesouraria da Fazenda Pública do concelho e mais tarde o posto da GNR.

Presumo que tivesse sido construído no século XVIII / XIX. Foi a Sra. D. Belmira Lopes Teixeira que vivia no prédio contíguo e não sei se lá não teria nascido que me contou, vai para quarenta e cinco anos, a estória do prédio que metia um capitão-mor de ordenanças que viria a ser assassinado pelos guerrilhas junto ao Monte de Afonso Vicente, onde foi levantado um calvário, local ainda hoje conhecido pela Portela da Cruz.

O pai ou o avô desta Senhora acabou por comprar parte dos bens deixados pelo assassinado que era originário da cidade de Tavira, de nome Aragão.

Edifício de dois pisos, impunha-se pela volumetria, telhado de quatro águas de telha de canudo, largas paredes, bem delineadas e equilibradas aberturas, trabalhos de argamassa, ainda que já adulterados e vistosas sacadas de ferro forjado, certamente obra de artesãos locais, encimadas nos vértices por pináculos de madeira.

Não havia outra na vila que se lhe comparasse, nem mesmo a chamada “Casa dos Condes” com um estilo diferente.

Ainda o conheci como propriedade particular, arrendado ao município mas nunca vi o proprietário que vivia numa cidade do litoral algarvio.

Recebia na altura uma ninharia de renda e acabou por vendê-lo por meio dúzia de tostões à Câmara Municipal, penso que isso aconteceu na presidência de Luís Cunha.

UMA RÉPLICA NUNCA FOI OU SERÁ UM RESTAURO, UMA RÉPLICA É UMA MENTIRA ESCONDIDA.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações VII





Escreve


Daniel Teixeira


O MEU PRIMO CALVO



Não vou dizer qual o nome dele até porque o meu primo já faleceu e embora a(s) sua(s) histórias e as histórias passadas com ele sejam interessantes acho que não justifica estar aqui a desvendar - nomeando o personagem - uma coisa, a calvície, que ele tão laboriosamente escondeu ao longo dos anos. Vou contar apenas um aspecto, hoje...penso continuar com histórias diferentes tendo-o como autor ou contador.
De reparar, desde logo, que o defino como calvo porque na verdade dentro de todo o seu saber, que tinha algum, e o seu sentido de humor, que tinha muito, é este o aspecto que mais me lembro dele no sentido de ter procurado sempre e não ter encontrado até hoje uma explicação plausível para tal trauma que em certas circunstâncias acabava até por ser paradoxal.

Internado no Hospital de Vila Real de Sto António (numa altura em que ainda lá havia hospital é claro) devido a doença cardíaca que acabou por o levar, após ter aguentado durante alguns anos (poucos) um AVC bastante forte que lhe retirou a capacidade de falar , o meu primo, mesmo no seu estado, tendo-lhe sido retirada a peruca pelo pessoal de saúde, acabou por optar por colocar um lenço quase em estilo feminino em volta da cabeça...para tapar a calvície.

Sei, por leituras que tenho feito, que o adorno capilar é desde há cerca de 5 mil anos um elemento importante para a auto-estima das pessoas e chega a funcionar até como indicador sexual...mas, sejamos honestos...perante uma evidência e uma irreversibilidade há que viver o melhor possível com o que se tem...não é por acaso que o chamado «capachinho» é por vezes gozado...o cantor Carlos do Carmo andou anos com capachinho até ter chegado à conclusão que estava a ser ridículo (nas suas próprias palavras). Bem, mas voltando ao meu primo que não cantava fados...

Diga-se, em abono da verdade, que no caso dele não era uma simples e modesta falta de cabelo, umas entradas, ou mesmo um cocuruto desguarnecido: o arraso feito pela natureza ao seu cabelo, provavelmente resultado de alguma medicação tomada ou de alguma doença tinha-lhe apenas deixado umas farripas junto às orelhas e na parte baixa anterior do crânio, uma verdadeira razia, verdade seja dita. Era um homem relativamente novo na altura que o conheci, talvez com 30/40 anos e trazia já consigo este problema quando se casou com uma prima irmã da minha mãe.

Agora que o tempo passou calculo o problema que terá sido para ele confessar, em período de namoro, a sua quase ausência capilar craniana. Pelos vistos a minha prima, fazendo parte do ramo «desportista» de família, terá ido para casa, após a despedida, rir perdidamente, não pelo facto do seu futuro marido ser careca mas, tal como eu, por ele dar uma importância quase doentia a isso. Acho que ele levou as duas irmãs em socorro e suporte no dia da confissão...

Eu não sabia de nada, durante muito tempo não dei por nada: aliás, acho que só fui confrontado verdadeiramente com isso na tal primeira visita que lhe fiz no Hospital de Vila Real, embora já soubesse por via da minha mãe. Só que não pensava que a coisa fosse tão grave, quer dizer, que o complexo tivesse aquelas características.
Na verdade, íamos à pesca, à lapa, com água até à cintura e lá estava ele de chapéu na cabeça calcando a peruca: sentávamo-nos à mesa e lá ficava ele de chapéu na cabeça, embrenhava-se nos troncos para apanhar alfarroba, amêndoas ou azeitonas e...chapéu sempre. Um dia apanhei-o a dormir numa eira, era a hora da calma e vi a rapidez com que ele, ainda estremunhado, jogou a mão ao chapéu com peruca inclusa. Nem deu tempo para eu ver...o que eu vi foi um golpe de rins para encontrar o chapéu que tinha caído durante a soneca e acabei por pedir desculpa por o ter assustado como pensei que tinha feito.

Fora isso e mesmo com isso era um excelente homem, com um sentido de humor notável, bom contador de anedotas, sapateiro de profissão acabei por lhe guardar algum rancor temporário por me ter lixado umas botas que eu adorava, simplesmente. Eram daqueles botins afunilados na ponta, uma compra da moda, botas de andar suave, tacões ruidosos, afiveladas e naquela altura quase dormia com elas, passe a expressão.
Tive um acidente com uma pedra ao jogar um pontapé numa imaginária bola e para além de ter ficado com os dedos doídos acabei por descoser um niquinho na ponta da bota direita. Não há problema...o primo é sapateiro, ele passa aí uns fios, mete um bocado de cola (naquele tempo a cola tudo era feita de farinha) e está resolvido o assunto...pensei.

Mas pensei mal...o olhar minucioso do técnico torceu o nariz e fez aquele olhar que só se vê actualmente em mecânicos de automóvel «amigos» : um olhar único, uma expressão de quem está muito, mas mesmo muito para além de nós em termos de conhecimento: breve, ele viu o problema em toda a sua abrangência...aquela bota não era uma bota descosida, era um universo a desmoronar...por isso nada de pontos e cola só...a bota nunca ficaria boa e a durar...deixasse eu que ele tratava. E tratou, grátis como sempre por ser para mim...

[Vila Real de Sto. António. Praça marquês de Pombal. Foto JV, 2011]

Meteu a bota na forma, levou dois ou três dias de volta dela e entregou-ma com um sorriso de satisfação: era um bom trabalho, perfeito mesmo, luzidias vinham as duas como que saídas da fábrica: só que a que ele arranjara trazia a ponta redonda, tipo bota cardada. A outra mantinha a ponta em bico...só tinha sido engraxada. Acho que não se deve chorar por estas coisas...ao fim e ao cabo esta vida são dois dias...mas interiormente consegui conjugar um agradecimento com uma enxurrada de lágrimas.
Perdi a botas afuniladas, únicas, umas botas que quase faziam parte de mim...No dia em que ele faleceu, eu e um outro primo meu, fomos fazer-lhe uma visita a Vila Real ainda. Parecia estar melhor...falámos alguma coisa, nós, ele sorria e ria...pediu-me por gestos para lhe levantar o almofadão atrás das costas: respirava melhor assim - e fez os gestos todos: apalpou no peito, respirou fundo. No dia seguinte recebemos a notícia de que ele tinha falecido meia hora depois de o deixarmos.

O meu companheiro de viagem a Vila Real, supersticioso e homem de benzeduras aventou-me dias depois que «se a gente não o tivesse ido visitar se calhar ele não morria já.»

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A figueira, uma referência do Algarve



A figueira dá-se bem em terras áridas mas onde haja sol.

Foi da melhor “fazenda” que o algarvio do litoral teve e alcançou determinada expressão económica no concelho de Alcoutim durante alguns anos onde foi árvore de certa preferência.

O figo algarvio sempre teve grande nome, principalmente seco.

Os figos poderão dividir-se em dois grandes grupos, os brancos e os pretos ou “pintos”.

Comem-se frescos ou secos e com eles fabrica-se também aguardente.

O primeiro figo a aparecer é o lampo sendo a primeira camada pelo São João e só se come fresco. Em meados de Agosto amadurecem os que se conservam pela secagem.

Reconhece-se o momento em que se devem colher pela inclinação que toma o fruto pois que o figo que até então se mantinha numa posição sensivelmente horizontal, inclina-se quando está maduro.

A figueira é uma árvore que pouco sofre com as variações atmosféricas, mas o seu fruto pode ser destruído pelas chuvas. Por outro lado, requer algum cuidado, sendo indispensável a cava para a sua manutenção. Reproduz-se por estaca e enxertia de borbulha.

A apanha do figo efectua-se de meados de Agosto a meados de Setembro, o que corresponde à da amêndoa e da alfarroba. Varejam-se igualmente com canas e põem-se ao sol a secar em caniços ou “passeiras” feitas de palha de centeio ou junco.

Punha-se água a ferver em tachos grandes de zinco onde se deitava funcho. Os figos secos acamavam-se numa canastra e assim entravam e saíam quantas as vezes necessárias no caldeiro quando a água fervia.



Após os escaldões escorrem-se, armazenando-se em caixotes, arcas ou canastras. Entre as várias camadas põe-se funcho e ervas doces. Sobre a última assenta pesada pedra para que os figos fiquem bem acamados e não se estraguem.

O figo seco era muito utilizado como alimento, principalmente quando se saía para o campo. Os de inferior qualidade davam-se às bestas.

À época da secagem chamavam os mouros, alacil. (1)

As margens do Guadiana eram o local privilegiado para a plantação de figueiras e havia exemplares de grande porte. Hoje ninguém planta uma.
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Nota
(1) – Elucidário, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Porto, 1965, p.289

terça-feira, 19 de julho de 2011

Canga para bovinos



Depois de termos referido com as informações que nos foram possíveis, a canga de bestas, vamos falar hoje da destinada aos bois.

São muito diferentes tanto no formato como na matéria utilizada. Enquanto a das bestas é de ferro e de arcos bem acentuados, esta não passa de um tronco de árvore que o homem do campo viu com um feitio que se pudesse adaptar aos animais. Corta-o e procede ao seu ajustamento.

A que a fotografia apresenta é bem demonstrativa disso, notando-se contudo, a falta dos 4 canzis, ainda que lá se encontrem as suas entradas, paus entre os quais se mete o pescoço do boi. A fixação aos cornos dos animais era feita através de correias fabricadas de pele de boi sem ser curtida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Lendas, contos e poesia



Com um formato de 14,5X21 cm e 149 páginas, engloba lendas, contos e poesia, como o título indica.

Apresenta logo no início a reprodução do primeiro mapa que conheço do concelho de Alcoutim, editado com sentido turístico.

Foi obra da Câmara Municipal presidida por Luís Cunha e publicado, se a memória não me atraiçoa, em 1968. Contém vários erros de que o nosso Amigo se penitenciava mas numa altura em que já não era possível a sua rectificação pois nesses tempos as coisas decorriam de uma maneira muito diferente das de hoje. De qualquer maneira foi dado o primeiro passo que consideramos importante e numa época em que não havia dinheiro para nada começando depois a haver dinheiro para muita coisa, incluindo o supérfluo.

O trabalho com ilustrações a preto e branco e capa a cores procura dar a conhecer e a preservar algumas estórias e lendas muitas das quais transmitidas através dos tempos apresentando naturalmente uma interpretação pessoal.

António Mestre teve a amabilidade de nos oferecer um exemplar do seu trabalho.

sábado, 16 de julho de 2011

Aldeia do Surf





Escreve


José Miguel Nunes




(PUBLICADO NO JORNAL PENICHE ONLINE EM 5 DE JULHO DE 2011)



Este ano fui à CONVENÇÃO SOU DE PENICHE, iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Peniche.

Depois de cinco edições, foi a primeira vez que participei nesta iniciativa, vamos ver se não será a última. O sentimento com que de lá saí, e à semelhança de outras iniciativas do mesmo género a que já assisti, foi de alguma frustração, ou seja, na sua essência a ideia é bastante interessante, mas depois em termos práticos esse interesse desvanece-se, e estou a referir-me obviamente só à apresentação da ALDEIA DO SURF, que foi aquela a que assisti com mais atenção.

O projecto Aldeia do Surf, foi uma apresentação repartida entre a Câmara Municipal de Peniche e a Rip Curl Portugal, primeiro através do arquitecto municipal responsável pelo projecto, e numa segunda fase pelo responsável da Rip Curl. Achei uma apresentação demasiado generalista, com pouco foco. Não posso dizer que tenha saído de lá muito mais esclarecido do que quando entrei, mas talvez isso seja um problema meu.

Do que consegui retirar da explicação, fiquei a saber que este projecto pretende implementar-se em terrenos municipais na zona próxima ao CAR Surf, o que basicamente quer dizer, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal, a possível reconversão do espaço hoje conhecido como Sportágua, e a construção de uma “megastore” da Rip Curl em terrenos próximos, é isto em termos muito gerais, porque a apresentação também o foi, a Aldeia do Surf. Para já é um projecto que na minha perspectiva pode ser muito interessante.

Vamos então tentar esmiuçar, dentro do possível, um pouco mais esta Aldeia do Surf.
Em primeiro lugar o nome Aldeia do Surf, que nas palavras do Sr. Presidente da Câmara poderá sofrer alteração, na minha opinião não valerá a pena, esta é uma excelente designação.

[Peniche. Sportágua. Foto JV, 2011]

Segundo, a reestruturação do Parque de Campismo Municipal. Era inevitável, com ou
sem Aldeia do Surf. Do que me pude aperceber, e aliás foi mencionado no decorrer da apresentação, pretende seguir uma linha muito próxima do existente na Ericeira, concordo, apesar de achar que há sempre lugar à inovação e à diferenciação. A oferta de alojamento e o aumento em termos de qualidade que proporcionará esta reconversão é sem dúvida importante (e esta é, ainda nas palavras do Sr. Presidente, uma das carências de Peniche, com a qual também concordo) para um projecto como este, no entanto na minha opinião não chega, pois os surfistas, ao contrário do que alguns ainda pensam e dizem, não procuram só este tipo de alojamentos, procuram também outros, nomeadamente hotéis, e existem dois ali bem perto, poderiam e deveriam também estes ser integrados nesta Aldeia do Surf com algum tipo de pareceria, que fosse de encontro aos desejos de maior conforto que alguns surfistas têm para as suas estadias, e que por outro lado abrisse o leque de futuros clientes a estas unidades hoteleiras.
Terceiro, Sportágua, bem quanto ao Sportágua não fiquei a saber nada de relevante, a não ser que se poderá pôr a hipótese de ser reconvertido e integrado na Aldeia do Surf. Também não é nada de extraordinário, pois é um espaço que tal como está obviamente não tem condições para continuar, é um espaço com potencialidades para poder ser aproveitado de uma outra forma, o conceito de “glamping” por exemplo seria bastante interessante e inovador integrado neste projecto e neste espaço.

Quarto, mega loja da Rip Curl. Ao que pude apurar, apostará na qualidade, pretendendo ser uma das melhores da marca na Europa, com variadíssimos espaços para além da loja em si, incluindo uma escola de surf. Se é importante, sim, acho que é, é sempre importante este tipo de infra-estruturas, mas é preciso ter alguma atenção. Não devemos esquecer que este tipo de empresas, e fruto das novas técnicas/tecnologias de mercado empregam muito poucas pessoas, não caíamos no erro de nos deslumbrarmos com o tamanho físico do projecto, facilitando mundos e fundos, que depois são muito desproporcionados relativamente às contrapartidas. Logicamente que não podemos falar só em empregos directos, seria no mínimo demagógico se o fizéssemos, mas tomando este caso como exemplo, a Rip Curl que está em Peniche há mais de vinte anos, emprega neste momento pouco mais de uma dezena de pessoas, e dessas apenas cerca de 28% são de Peniche. Se a nova mega loja empregar três vezes mais pessoas, e continuar na mesma proporção que tem actualmente, isto quer dizer que a criação de emprego para pessoas de Peniche se cifrará em cerca de oito postos de trabalho, o que na minha opinião é manifestamente pouco. Há sem dúvida aqui mais qualquer coisa a negociar com a Rip Curl.

[Peniche, Parque de Campismo. Foto JV, 2011]

É verdade que a Rip Curl com o seu campeonato do World Tour em Peniche trouxe uma visibilidade enorme à terra, e que essa visibilidade se traduzirá inevitavelmente num aumento de turistas, é verdade que a Rip Curl nos últimos três anos já investiu em Peniche (leia-se, quase na totalidade Rip Curl Pro Portugal) cerca de três milhões de euros, mas também é verdade que o retorno foi essencialmente para a marca, e isto porque a qualidade das ondas de Peniche permitiu que o campeonato fosse um sucesso, é verdade que é extremamente importante que a Rip Curl continue em Peniche, mas também é verdade que é importante que a Rip Curl tenha a noção que pode ser muito mais “solidária” no apoio que pode prestar em diversas áreas para que o surf possa ser muito mais sustentável e transformar-se na mais-valia que realmente pode ser na precária economia local.

Em jeito de conclusão, acho que a Aldeia do Surf, como já disse anteriormente, é
realmente um projecto muito interessante, no entanto é preciso ter muita atenção aos pormenores, tendo sempre muito presente que o activo que são as ondas de Peniche, e muito particularmente a onda dos Supertubos têm muito valor, tanto para a Rip Curl, como para outra marca qualquer que tenha o seu “core business” nesta área, e é isto que temos de potenciar na negociação das contrapartidas, o valor das nossas ondas.
O patamar negocial agora já é outro, bem diferente daquele de há três anos atrás.

Conhecidos já nós somos, o nível e a qualidade das nossas ondas já todos sabem qual é, essa parte está feita, agora precisamos de estabilizar e credibilizar o surf e todo o negócio que o envolve com apoios sustentáveis em várias áreas de intervenção.

Não podemos aceitar como contrapartida de construção de um imóvel em terrenos municipais (± 2.400m2) apenas mais ou menos dinheiro para a realização de um campeonato, que mais ano menos ano até pode rumar a outras paragens, pois essa decisão não está unicamente dependente da Rip Curl,... e mesmo que estivesse.

Se queremos realmente que o surf traga algo de muito positivo para o crescimento económico de Peniche, temos de ser mais incisivos e duros na negociação com aqueles que maior partido tiram do nosso património natural, que são as ondas, canalizando as contrapartidas para algo sustentável, de modo a que no futuro tenhamos uma rede bem montada de infra-estruturas, que nos permitam ficar cada vez menos dependentes das variações negociais próprias dos grandes grupos empresariais.

Podemos e devemos ter como base importante de trabalho aquilo que de bom já foi feito noutros lugares, mas por favor, inovemos e marquemos a diferença, esta Aldeia do Surf pode e deve ser diferente, esta Aldeia do Surf pode e deve ter a nossa marca. Já agora, e a título de remate, porque não mesmo uma aldeia, com ruas e casas em madeira, um parque de campismo (mais pequeno) lá no meio, os hotéis, zona de “glamping”, mega loja de surf, o CAR Surf, e quem sabe, mercearia, lojas de aluguer e arranjo de pranchas, … e por aí fora.

Volto a dizer, este projecto da Aldeia do Surf parece-me realmente muito interessante, mas mais interessante ficará se for diferente e inovador.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Martim Longo em 1865

Pequena nota
Após termos analisado o que obtivemos através de pesquisa efectuada em documentos oficiais sobre o que aconteceu a nível demográfico na freguesia de Alcoutim em 1865 e que aqui já publicámos, tivemos curiosidade em saber o que se passou na freguesia de Martim Longo no mesmo período.
Aqui vos deixamos os elementos obtidos vistos por um prisma necessariamente não coincidente.

JV

[Martim Longo. Antiga Rua Direita, actual Antero Cabral]

Durante o ano de 1865 nasceram 78 crianças na freguesia de Martim Longo, enquanto faleceram 40, obtendo-se assim uma maioria para os nascimentos de 38, o que representa uma percentagem muito considerável.

Podemos anotar que nasceram 43 do sexo masculino sendo consequentemente 35 do feminino.

No espaço físico da freguesia só não houve nascimentos em Diogo Dias, Casa Nova do Pereirão, Pereirão e ainda na Arrizada. Todos os outros núcleos populacionais tiveram movimento, incluindo o há muito desabitado monte dos Relvais, onde nasceu Manuel, filho de José Lopes, lavrador e de Maria Rosa.

Estatisticamente verificámos que foi na aldeia que aconteceram mais nascimentos (21), seguindo-se o monte do Pessegueiro (10), Barrada (8), Santa Justa (6) e Castelhanos (5) o que confirma a importância que foram mantendo a nível local.

Não podemos deixar de referir o facto de que no já desabitado monte do Silgado durante o ano em análise nasceram (4) crianças, (o que começa a ser difícil acontecer em todo o concelho) acontecendo o mesmo em Monte Argil que está quase na mesmo situação habitacional. São por isso montes em que a desertificação já fez o seu trabalho e que se está a estender aos vizinhos.

Voltamo-nos agora para os óbitos onde naturalmente na aldeia aconteceu o maior número (10), seguido novamente do Pessegueiro (8), de Santa Justa (4) e de Pêro Dias e Lutão com (3).

Nos montes de Pêro Dias (-2), Lutão (-1), Gagos (-1) e Diogo Dias (-1) os óbitos foram superiores aos nascimentos.

Dos 40 óbitos registados, 15 foram de indivíduos até aos sete anos pelo que a mortalidade infantil era muito elevada, 37,5%.

Sem tomarmos em consideração os dados destes últimos, verifica-se que os homens faleceram com uma média de 64 anos e as mulheres com pouco mais de 46.

A nível de profissões que encontrámos referidas nos assentos, aparecem em maior número as ligadas ao cultivo da terra como lavradores e jornaleiros. Registamos também o “pastor de gado”, os vários oleiros de que a aldeia era fértil, sapateiros, alfaiates, ferreiros, pedreiros, albardeiros, um lojista (comerciante com loja) e quatro “molineiros”, todos de nome Rodrigues, Álvaro e Silvestre no Azinhal, José na Barrada e David no Pessegueiro. Será coincidência ou serão todos da mesma família?

Nunca nos tinha aparecido tal palavra nem escrita nem falada, mas não era difícil relacioná-la com moinho, molinhar que significa entre outras coisas moer aos poucos e a miúdo, pôr o moinho a funcionar.

Como sinónimo de moleiro encontrámo-lo no dialecto mirandês. Em espanhol é molinero.

É nítida, como acontece a tantas outras no concelho de Alcoutim, a influência da língua do país vizinho.

Para terminar apresentamos um quadro resumo do movimento operado.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Alcoutim perdeu um poeta

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 15 DE SETEMBRO DE 1994)



O nosso modesto trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (…) 1984, contou com a preciosa colaboração de dois poetas populares que nos confidenciaram a sua poesia.

João Madeira finou-se em 1987 com oitenta e dois anos e nessa altura fizemos publicar nestas páginas meia dúzia de palavras em sua homenagem.

Na sexta-feira passada, dia 2, o telefone tocou e voz embargada e soluçante de “velha” e comum amiga dava-nos a triste notícia do passamento do outro poeta e nosso querido amigo, Leonel Mariani Lorador que usava o pseudónimo de Luneta.

Leonel Lorador iniciou a sua vida como actor de teatro popular, percorrendo vilas e aldeias do sul do País. Tentou depois a carreira na capital onde não conseguiu singrar por falta de apoio e da sua maneira de ser.

Leonel era um idealista que nunca abdicou dos princípios que considerava básicos na formação do indivíduo.

Alheio ao “material” preferia alimentar-se das ideias.

Vimo-lo pela última vez há cerca de um ano e já se encontrava debilitado pela pertinaz doença que o veio a vitimar. Dificuldades de visão obrigavam-no ao uso de uma lente para ler o jornal. No nosso fugaz encontro não podia faltar a poesia, dizendo-nos alguns dos seus últimos poemas.

Todas as crianças tinham no seu coração sensível um lugar muito especial.

Data de 19 de Outubro de 1984 esta quadra muito simples. Sei que sou pessimista / Eu sei que nada sou / Eu sei que tenho vista / Mas não sei p`ra onde vou.

Leonel Mariani amava a natureza e é ela que consome a maioria da sua poesia.

Não sendo alcoutenejo pelo nascimento, era.o pelo coração e a poesia que lhe dedicou mostra-o claramente.

Finou-se no passado dia 30, com oitenta anos, em Lisboa, onde ficou sepultado.
Aqui desfolho, sobre a sua tumba, as pétalas da minha saudade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Casa Nova, entre tantas do País, a da freguesia de Vaqueiros



Entre as muitas dezenas existentes no País, tanto no singular como no plural e não referindo outras formas compostas, há a Casa Nova da freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

Além de Portugal, é frequente na Galiza e no Brasil.

A origem e significado são evidentes e o problema reside na altura foram construídas a casa ou as casas (novas).

Esta Casa Nova já existia em 1758 pois é nesses termos que as Memórias Paroquiais a referem e na altura com dois vizinhos, havendo por isso, duas construções habitadas e que na altura a povoação era assim designada como hoje acontece. Esta Casa Nova tem mais de 250 anos.

Saber quando foi construída a casa que deu nome ao lugar é que não é fácil, pelo menos para nós.

Fica actualmente à beira da estrada municipal nº 505 e a pouca distância da linha divisória com a freguesia do Pereiro, pois a povoação seguinte, Soudes, que lhe fica a 1700 metros, já pertence àquela freguesia. Pouco depois entra-se na freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim sendo a primeira povoação a alcançar Furnazinhas, a 7 km.

O troço Casa Nova - Preguiça estava em execução e, 2001. (1)

A pequena povoação dispõe-se do lado esquerdo da estrada para quem vem no sentido Oeste / Este.

A placa toponímica, que a identificava quando a visitámos, estava muito velha e pouco perceptível.

Em 2009 foi construída a pequena estação elevatória de água. (2)

Segundo mapa inserido em documento municipal, em 2007 a água era distribuída por fontanários. (3)

Possuía lavadouro público, reconstruído em 2005 (4) e um local para recolha de passageiros devidamente protegido.

Painel de três caixas de correio pelo que os habitantes rondarão a meia dúzia.

Tem hoje (2011) 5 habitantes.

Dista da sede de freguesia 11 km e 27 da vila de Alcoutim, sede do concelho a que pertence.

NOTAS

(1) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, p 2
(2) - Alcoutim, Revista Municipal, nº 16, de Março de 2010, p 13
(3) - Alcoutim, Revista Municipal nº 14, de Janeiro de 2008, p 14
(4) – Alcoutim, Revista Municipal nº 12 de Dezembro de 2005, p 16

terça-feira, 12 de julho de 2011

A amêndoa, a riqueza perdida



O alcoutinense começou a sentir necessidade de tornar os terrenos mais rendíveis e ao mesmo tempo que se ia afastando dos gados e libertando da necessidade premente de semear hoje para comer amanhã, dedicou-se à amendoeira, semeando-a nos lugares onde tinha havido trigo e outros cereais, começando assim a aparecer extensos amendoais.

A invasão da plantação dos arvoredos algarvios, amendoeira, figueira e alfarrobeira, dá-se na primeira metade do século passado, constituindo o principal cuidado dos lavradores do vale do Guadiana, com especial incidência na freguesia de Alcoutim.

Nos anos vinte o concelho já figurava como produtor de figos e amêndoas. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira já indica a amêndoa como principal produção do concelho. As freguesias de Alcoutim e Vaqueiros, por esta ordem, eram as mais produtivas.

Estes arvoredos, plantados no xisto, têm em relação aos do litoral não só um ritmo de desenvolvimento muito mais lento, como um porte adulto bastante menor, donde deriva uma baixa produção unitária.

Em 1923, Alcoutim produzia 50 toneladas de amêndoa, ocupando o 7º lugar no Algarve.

Ao contrário do que sucede com a zona do litoral, plana ou pouco acidentada e onde a temperatura raras vezes desce a valores baixos, aqui o terreno é bastante acidentado, as baixas temperaturas observadas e as geadas frequentes tornam contingente a frutificação da grande maioria das castas.

Para uma melhor produção é necessário que se utilizem castas muito resistentes ou de floração bastante mais tardia e se escolham as exposições convenientes para as árvores.(1)

Oriunda da Ásia segundo uns, do Norte de África segundo outros, foi introduzida em Portugal pelos Árabes.



Frei João de S. José (2) refere-se à amêndoa do seguinte modo:-”A amêndoa no Algarve, é boa fazenda porque não requer algum adúbio (amanho), não apodrece com a chuva nem se toma de bicho, nem tem seu dono com ela mais gasto que varejá-la, quando ela mesmo por si se abre e despe a casca, na amendoeira”.

Quase tudo o que o frade refere tem plena aplicação nos nossos dias.

As amêndoas poderão classificar-se em três grandes grupos: as cocas, cuja casca é extremamente mole, as molares, que oferecem pouca resistência e as durázias, que custam a partir.

O miolo é mais ou menos doce ou então amargo. Este último é destinado ao fabrico de licores. As castas existentes são em grande número.

O alcoutinense semeou os seus amendoais de uma maneira muito primitiva, já que não tinha auxílios monetários e técnicos para o fazer melhor.

O burro abria o rego e a amêndoa ia caindo – foi assim que as sementeiras se fizeram!
O nascimento e desenvolvimento dependiam da natureza do terreno e da sua exposição, ainda que seja árvore de fácil adaptação.

Apesar de o poder fazer antes, o alcoutenejo lá para os quatro, cinco anos e quando a árvore já tinha um porte razoável, cortava-a na época própria (quando a árvore está a descansar) a uma altura de cerca de um metro e vinte. A “rebentação” dá-se com vigor e então fazia-se a enxertia de canudo, sistema extremamente fácil, rápido e eficiente. Escolhe-se a casta desejada e procura-se a pranta (planta), os ramos novos que dão casca, isto é, a parte interior, a “madeira”, já está suficientemente rija para que, depois de dois cortes circulares na pele (casca) na qual se encontre um “olho”, se extraia sem rachar um canudo, após um movimento rotativo.

Junto da árvore que se quer enxertar, escolhe-se um rebento cujo interior (madeira) se ajuste ao canudo. Esgaça-se então e antes de introduzir o canudo que deve ficar bem ajustado à madeira, é levemente cuspido para assim colar mais facilmente. Depois, apara-se o enxerto, isto é, cortam-se as pontas que não são necessárias.

Em cada pé (árvore), colocam-se dois ou três canudos em posição que possam formar uma boa copa.



Um ou dois meses depois é indispensável ir limpar os enxertos que consiste em ir matar (cortar) os rebentos bravos que naturalmente se desenvolvem mais do que os mansos e se não forem eliminados acabam por matar estes, já que lhe roubam a seiva.

Esta operação de limpeza faz-se as vezes que forem necessárias mas é preciso ter o cuidado de deixar alguns bravos que permitam uma melhor respiração da árvore.

É por vezes surpreendente o tamanho adquirido pelos ramos novos que num espaço de três meses atingem o comprimento de braços de homem, chegando a partir devido ao peso, perdendo-se assim.

A amendoeira, como já dizia Frei João, não necessita de muitos cuidados. Depois de árvore feita, uma limpeza e lavoura de tempos a tempos chegam-lhe.

A apanha faz-se de meados de Agosto a meados de Setembro, dependendo das condições climatéricas do ano e da mão-de-obra.

Manhã bem cedo, para aproveitar a fresquidão, homens e mulheres deslocam-se aos amendoais, onde as mulheres varejam as árvores com canas, fazendo cair os frutos mais resistentes. Era hábito provar sempre o fruto e se fosse amargo colocava-se uma pedra no tronco, marca suficiente para se fazer o corte para enxertia.

Aos homens cabe ensacar as amêndoas e transportá-las nos burros aos toscos armazéns que possuem perto das suas habitações. Fazem tantas carreiras quanto as necessárias. Quando o calor começa a apertar, regressa tudo a casa para almoçar e por vezes dormir a folga, após a qual se continua o trabalho, agora procedendo à pelagem daquelas que por qualquer razão não deixaram cair a pele.

Após a pelagem, põem-se ao sol um ou dois dias, e a seguir são ensacadas.

Pesadas ainda muitas vezes com balanças romanas, são vendidas às arrobas aos intermediários das redondezas.



Durante algumas décadas constituíram o principal rendimento do agricultor local para depois terem caído em preços irrisórios, estando o arvoredo completamente abandonado e acumulando as árvores em cima dois e três anos de produção!

A madeira da amendoeira, que é rija e oleosa, faz boas brasas para aquecimento.

O povo referia-se à amendoeira nesta quadra tradicional recolhida por Leite de Vasconcellos.


Adês, vila de Alcoutim
Cercada de amendoêras
Onde o mê amor passêa
Todas as quintas-fêras.


Hoje, já ninguém apanha uma amêndoa. Constitui uma riqueza perdida.


NOTAS

(1) – “Notas sobre as amendoeiras”, Boletim da Junta de Província do Algarve, 1940.
(2) - Corografia do Reino do Algarve , 1577.
(3) – Elucidário, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, Porto, 1965.

[Texto extraído da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), em preparação].

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Demografia na Freguesia de Alcoutim em 1865

[Igreja Matriz. Foto JV, 2009]
Desta vez foi a freguesia de Alcoutim o alvo da nossa atenção.

Fomos verificar os baptismos, 81, sendo 2 de crianças nascidas fora da freguesia, uma na vila de Olhão e outra no monte de Corte Serranos, freguesia de Martim Longo.

Quanto aos óbitos o seu número foi de 69. Verifica-se assim que nasceram mais 10 do que morreram.

Praticamente verificou-se movimento em todas as povoações da freguesia, ainda que em algumas só se tivessem ocorrido nascimentos (Cercado, Montinho das Laranjeiras, Balurco de Cima, Torneiro e Corte das Donas), enquanto noutras, (Deserto e Casa Velha só se verificaram óbitos.

O maior número de nascimentos aconteceu nas Cortes Pereiras (8) e isto sem contar com os verificados no S. Martinho (4), que é sempre apresentado como independente das Cortes Pereiras, por razões que fundamentámos em outras ocasiões.

Com 7 aparecem depois a Vila, Álamo, Guerreiros do Rio e Cerro. Se tomarmos em consideração que nas Laranjeiras nasceram 5 e no Montinho 1, verificamos que os “montes do rio” totalizam 20, o que demonstra um número razoável de habitantes sustentado com base no Guadiana a nível de pesca, transportes e riqueza agrícola das suas margens.

Em relação aos óbitos, é a Vila que encabeça com 15, apresentando assim uma diferença negativa de 8. Seguem-se em número de mortos as Cortes Pereiras com 12, Palmeira com 7, Álamo e Afonso Vicente com 4 cada.

Os dados obtidos podem-nos sugerir diversos olhares e isto conforme a disposição que na altura da observação tivermos.

[Apesar dos anos passados esta rua continua a existir em Alcoutim]

Atendendo a que nos aparece a designação toponímica de algumas artérias da vila, verificamos que na Rua Portas de Tavira, hoje desdobrada em Rua Dr. João Dias e Rua D. Sancho II, faleceram 6 indivíduos, enquanto na Rua da Conceição aconteceu o mesmo a 4 e nas Ruas da Boavista, da Igreja (actual 25 de Abril) e da Corredoura (actual Portas de Mértola) faleceu 1 em cada.

A supremacia da rua direita das Portas de Tavira como principal rua do velho burgo mais uma vez aqui aparece evidenciada apesar da porta há muito já não existir.

Verificaram-se 3 mortes “extramuros” da vila como nos termos lavrados se refere: uma no Rossio, outra nos Premideiros (hoje Premedeiros) de Cima e outra ocorrida às 6 da tarde do dia 21 de Junho “no moinho de vento, extramuros desta vila” e que já abordámos noutra entrada.

[Portão do cemitério. Foto JV, 2009]
Dos óbitos, 42% dizem respeito a indivíduos até aos 7 anos, o que representa um número bastante considerável. Sem tomar em conta estes, a média obtida por falecimento foi de 47,95 anos, o que nos tempos de hoje consideramos uns jovens.

O falecimento mais idoso teve lugar nas “Casas Brancas” (actual Casa Branca) na pessoa de Manuel Gomes Relógio aos 95 anos casado com Gertrudes Luísa, tendo deixado 6 filhos.

No monte da Casa Velha que presumimos ser próximo do Montinho das Laranjeiras e dizemos isto porque entre o Marmeleiro e o Torneiro existiu outro pequeno monte com a mesma designação, verificaram-se três óbitos em 1865.

Igualmente não nos passou despercebida a referência a expostos que iremos sintetizar.

Tendo sido encontrado à porta de Manuel Cotta, no monte de Corte Serranos, uma criança do sexo masculino a quem foi dado o nome de Francisco Caraciolo, veio a falecer com seis meses quando estava a cargo de Fortunata Rosa que vivia na Rua da Boavista, na vila de Alcoutim.

A outra criança do sexo masculino e que foi exposta na roda da vila, foi dado o nome de Miguel dos Anjos. Veio a falecer com cerca de um ano quando estava a cargo de Genoveva Maria.

Outro exposto, que veio a receber o nome de Tomé, teve lugar em Afonso Vicente e ficou a cargo de Felícia Martins à porta da qual teria sido deixado, segundo presumimos por falta de outra indicação.

Igualmente veio a falecer na vila de Alcoutim em casa de seus pais adoptivos, Luísa Maria, com cinco anos, que tinha sido exposta na Roda de Ayamonte.

Também enjeitada na Roda de Ayamonte, Gertrudes Eugénia falece com 6 anos em casa de seus pais adoptivos na Rua Portas de Tavira.

Igualmente se faz notar Manuel Conceição falecido em Santa Marta, com 73 anos, viúvo de Domingas Marta e que deixou treze filhos.

A nível de profissões além dos lavradores e jornaleiros em maior número, aparecem maiorais.

Relacionados com o rio, barqueiros e marítimos.

Ferradores, ferreiros e albardeiros, actividades ligadas aos animais de trabalho.

Alfaiates e pedreiros, sempre indispensáveis e até aparece um oleiro na vila, sinal de que nessa altura haveria ainda alguma olaria. Outras apareceram, mas foram estas que considerámos mais representativas da época.

Muitas mais ilações se podem tirar da pesquisa feita. Depende dos olhos de cada um.

domingo, 10 de julho de 2011

Quinta-feira de Espiga



Apresentamos mais uma fotografia cedida para esta rubrica pelo nosso amigo e colaborador Amílcar Felício que além de o fazer com a sua prosa e poesia também o faz nesta área de igual importância.

Vem rotulada como passeio ao campo em dia de espiga e no ano de 1953. Já se passaram uns anitos e nessa altura ainda havia gente em Alcoutim!

O que menos interessa para os nossos visitantes / leitores são os nomes das pessoas. Será mais importante reparar na maneira de trajar, nas várias faixas etárias e nos notórios ramos de espiga que se vêem no regaço das jovens, uma das quais reconheço nitidamente e moradora na vila.

O Dia da Espiga é (era) celebrado no dia de Quinta-feira da Ascensão de Norte a Sul do País com algumas pequenas variações mas sempre com o mesmo sentido sagrado e com reminiscências de cultos pagãos.

É considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar, pois nele, acreditava-se “que havia uma hora em que tudo parava, as águas dos ribeiros não corriam, o leite não coalhava e o pão não levedava”.

Pelo menos da parte da tarde ninguém trabalhava e iam aos campos colher as plantas para “o ramo da espiga” e onde não faltava a espiga de trigo, que simbolizava o pão, o malmequer, o ouro e a prata, a papoila o amor, o raminho de oliveira em flor o azeite, a luz e a paz, e a videira o vinho e a alegria. Estas eram as mais tradicionais, mas havia quem lhe juntasse outras.

Era tradição que o raminho fosse pendurado atrás da porta principal da casa para que nela pudesse existir tudo aquilo que os vários componentes simbolizavam e só se retirava no ano seguinte com a substituição de um novo.

Era normal almoçar ou merendar no campo nesse dia.

Tudo isto hoje não passa de uma recordação já longínqua e que os jovens desconhecem de uma maneira geral.

sábado, 9 de julho de 2011

Crónicas Soltas - A huskvarna

Pequena nota

Apresentamos hoje mais um texto do nosso amigo e colaborador Daniel Teixeira que descreve com realismo e sabor picaresco as suas vivências em Alcaria Alta, monte da freguesia de Giões, concelho de Alcoutim, em meados do século passado.
Nessa altura, ainda a aldeia fervilhava de gente. Hoje está quase desabitada!


JV

(Publicado no Jornal Raizonline nº 106, de Fevereiro de 2011)







Escreve


Daniel Teixeira





Lembranças, recordações, saudades...são só as boas.
Tenho já falado por várias vezes nisto, aliás falo sempre nisto, desta forma, quando me refiro ao passado. Aquela parte do passado que nós vamos buscar nas nossas recordações é na sua larga parte o bom naco do tempo, a parte idílica, a parte melhor, o presunto, o cozido de couve, o arroz doce, ou mesmo as «nuvens» ou «sonhos» ou as filhoses, as empanadilhas com batata doce, o bom pão saído do forno e comido, logo ali, partido aos bocados com as mãos e mergulhado num prato de esmalte florido e decorado com mais um fundo de azeite bem verdinho e sal grosso.

Que belo momento meu deus, este do pão, que belo tempo, que bela lembrança, que coisa simples e que ideia nova que os montanheiros foram buscar: viver no simples, com meios simples e fazer deles, desses meios simples, dessas coisas simples, valorosos momentos: lembro-me bem do largo sorriso da minha mulher, citadina de gema, quando foi confrontada com esta inusitada merenda e este inusitado momento.•
Sentada nas pedras soltas da cerca - ela que ainda hoje tem medo das então abundantes lagartixas - e mandando também às urtigas os receios com a manutenção da «linha», era vê-la a molhar o pão e a rir como uma criança crescida. Pão quente com azeite e sal: quem se lembraria disso?

Pois...eles, os montanheiros, as mulheres dos montanheiros trouxeram esse momento desde o tempo dos seus avós e bisavós e mais que se lhe segue para trás : passavam homens e mulheres vindos das hortas chocalhando as asas dos baldes e a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda», via o seu pão cozido a desaparecer mas não se importava: ela tinha tempo, com três filhas e meia dúzia de hortas para regar, marido sempre ausente no pastoreio, tinha tempo...naquele tempo ela tinha tempo. Hoje, já não (!)...ou tem todo o tempo do mundo.

A última vez que a vi, passados não muito largos anos, andava com um andarilho arrastando-se pela casa e era tão diferente, tão diferente, a Ti Chica, a mulher do «tiro e queda» ... O tempo é de facto um cavalo, como dizia o meu Tio Zé Teixeira, expressão que na altura e agora se compreende bem e talvez melhor por aqueles lados...pelos lados da serra. Anda muito depressa, o tempo, tão depressa que nem o vemos. Mas ele passa mesmo e deixa rastos bem vincados na terra e muito mais ainda nas pessoas.

O «tiro e queda», o marido da Ti Chica cujo nome real não me vem à memória tal a sua falta de ligação ao Monte, era pastor, daqueles pastores de grandes rebanhos, de centenas de cabeças. Durante os tempos que por lá andei ainda miúdo vi-o apenas uma vez, já de partida, calças repletas de remendos bem certinhos, como era uso, seifões de pele de ovelha acorreados na cintura e nas pernas, quatro ou cinco camisas e blusas «para não deixar entrar o calor» e o indispensável colete de bolsinhos elevados mostrando correntinhas de ferro presas nas botoeiras: canivete, bolsa de tabaco, isqueiro, carteirinha, tudo era preso à roupa por aqueles lados. Deixar cair alguma coisa era nunca mais a encontrar no meio das pedras, das ervas, do chão crestado ou enlameado, no emaranhado de estevas.

Corria as serras em busca de erva e uma ou duas vezes por ano ele e o rebanho acampavam em montes vizinhos de Alcaria Alta. Era quando ele vinha ao Monte e vinha ver a mulher: «dar o tiro» dizia-se por lá com ar de algum gozo.
Mas ele não tinha cara de merecer ser alcunhado, foi o que eu disse para mim quando o olhei bem: porte endireitado, ar sociável, quase contente por ver gente, pequenino mas ligeiro e rijo deu-me os bons dias sem nunca nos termos visto com um sorriso simpático e isso bastou - me para que ele ficasse a ser, para mim, ainda um miúdo a crescer na escola, um senhor, um senhor dos montes e das serras. Um navegador dos tempos secos, uma pessoa que vivia durante semanas de quase nada: pão, presunto, azeitonas, um ou outro tomate colhido numa horta ou a fruta raquítica daquelas paragens.

Talvez pescasse pensei...talvez em ratoeiras apanhasse coelhos, talvez, talvez...certo era para mim que ele não merecia ter aquela alcunha ou qualquer outra. «Tiro e queda»...mesmo que fosse: e era mesmo queda, depois do tiro.

Quer dizer a mulher ficava grávida ou pelo menos passados uns meses começava-se a notar a barriga na Ti Chica. Com pouco que falar para além de falar do trabalho estas coisas eram notadas, apontadas e maliciosamente faladas entre ela e as outras mulheres. «Ora...Ora!! Lá estão vocês!!» E ria a Ti Chica, como ela ria...
Teve «apenas» três filhas, contudo: a «fábrica» parou antes do tempo por causa daquelas coisas que acontecem às mulheres e só às mulheres depois de uma doença mais rebelde.•

Mais tarde, eu, casado de fresco, fiz centenas de fotografias daquele tempo e caso me tivesse esquecido de como era a Ti Chica e as suas filhas tinha sempre essa cábula: praticamente fotografava tudo o que mexia e o que não mexia; as hortas, apesar de pobres estavam bem decoradas de verdura, as árvores, mesmo as mais feias como as figueiras quase deitadas ou as alfarrobeiras, algumas centenárias, tinham sempre um pássaro ou alguma coisa que justificasse o clique.

Guardo essas fotografias todas num álbum: as moças da Ti Chica, de 14 / 15 anos, de jeans meia perna, tão bonitas que elas eram: uma de cabelos encaracolados louros, duas de cabelo castanho e ruivo. «Mal empregadas» naqueles montes, naquelas terras, regando hortas, indo ao poço, levando comida ao porco de engorda, tratando da lida da casa, cozendo roupa ou fazendo meia, vieram para a cidade...vejo uma de quando em vez: está tão velha cá como estaria lá apesar da relativa pouca idade.

Há tempos encontrei - ou fui antes encontrado - por um familiar da Ti Chica: trabalha num talho. Não me lembro dele lá mas lembro-me da mãe da Ti Chica e do padrasto de quem ele é sobrinho: a Ti Maria Joaquina, casada em segundas núpcias depois de enviuvar, de voz grossa, geria a casa: o marido já bastante mais velho que ela ainda percorria o monte apoiando-se num cajado. Moravam no Rossio...engraçado como uma Monte com tão pouca gente tinha tantos «bairros»: Era o Além, o Castelo, a Praça, a Portelinha e a Portela.

A Portelinha dava para sair para Santa Justa e lados de Vaqueiros; a Portela dava para sair para Giões, para Martinlongo por uma nesga de estrada e o resto a corta mato e mais que se encontrasse pelo caminho. O Além, o bairro do Além, era mesmo além, depois do Rossio. A Praça era mesmo uma praça, quer dizer um espaço empedrado vazio com uma fileira de casas só de um lado e duas outras em esquina. Por vezes aparecia a lógica: havia a Ti Mari Joaquina da Praça e a Ti Mari Joaquina do Rossio, esta a mãe da Ti Chica do Castelo.

Hoje nada mais por lá há: dizem-me que o Monte está mais arranjadinho, que os homens andaram a alcatroar as estradinhas e que roubaram a máquina de costura da minha avó: uma verdadeira antiguidade, uma relíquia, uma Huskvarna. Tac tac tac...tanta roupa que ela coseu, tanta costureira que ela ensinou...bem merece ter alguém que volte agora a cuidar dela.