quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

António José

Vai hoje a sepultar no cemitério da Vila de Alcoutim, António José (vulgo António Frederico), de oitenta e sete anos, natural e morador de Afonso Vicente, freguesia e concelho de Alcoutim.

Era pai de Maria José Costa Frederico Mestre, casada com Fernando António Mestre e avô de Sérgio Manuel e de Maria Fernanda.

Pela sua facilidade de memória e vivência, era uma das pessoas a que recorríamos para saber coisas do passado afonso-vicentino. Num artigo retido na redacção do Jornal Baixo Guadiana e a publicar oportunamente, essa circunstância está referida.

Aqui deixamos as nossas condolências aos seus familiares.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Figueiredo Valente


Nasceu em 30 de Dezembro de 1893 na aldeia de Martim Longo, de seu nome completo, João Carlos de Figueiredo Valente, tendo casado em 9 de Janeiro de 1943, com D. Ana do Rosário da Silva Teixeira na igreja de S. Pedro de Alcântara em Lisboa.

Assentou praça como voluntário em 20 de Julho de 1916

Concluiu o curso de oficial da Infantaria na Escola de Guerra em 30 de Dezembro de 1917, sendo promovido a alferes em 30 de Março de 1918. Era capitão em 30 de Junho de 1932, alcançando o posto de coronel em 7 de Fevereiro de 1947, passando à situação de reserva em 16 de Junho de 1950.

Prestou serviço em várias unidades e estabelecimentos militares, entre os quais o 1º e 4º Grupo de Metralhadoras, Regimento de Infantaria nº 22, no Quartel General do Governo Militar de Lisboa, na 3ª Direcção Geral do Ministério da Guerra, no Quartel General da 3ª Região Militar, onde exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior, de 3.11.1948 a 2.11.1949, no Regimento de Artilharia de Costa, na 3ª Direcção Geral do Ministério da Guerra e na Legião Portuguesa, como Director da Defesa Civil do Território e depois como Inspector da DCT e da Legião Portuguesa, funções que chegaram pelo menos até 1959.

Quanto a acções militares, foi expedicionário a Moçambique, participando em acções em Angoche, Guomeia e Lalona.

Participou no movimento de 18 de Abril de 1925, quando já era tenente tendo para o efeito interrompido a licença para estudos em que se encontrava e liderado por Filomeno da Câmara e com o apoio de outros. Há 61 oficiais envolvidos e entre os civis encontra-se José Pequito Rebelo. Esta revolta que veio a fracassar foi o prelúdio do 28 de Maio de 1926, a que o oficial esteve sempre muito ligado.

Igualmente se apresenta voluntariamente, pois continuava de licença para estudos, para participar na repressão da Revolta de 7 de Fevereiro de 1927, o primeiro grande afrontamento reviralhista, e o único que fez tremer verdadeiramente a Ditadura.

Ao serviço do Estado-Maior do Exército, executou levantamentos topográficos no norte do País.

Publicou as seguintes obras:- Para Onde Vamos, 1936, focando a campanha da Abissínia, Operações da Noite, 1938 e Vida e Acção de D. Nuno Álvares Pereira, 1947.

Da sua folha de serviço constam muitos louvores e condecorações, entre os quais a Medalha de Mérito Militar de 2ª classe e o Grau de Grande-oficial da Ordem de Avis.

Por deliberação da Junta de Freguesia então vigente e eleita democraticamente, o Coronel Figueiredo Valente é homenageado na terra natal, tendo sido dado o seu nome a uma das artérias da aldeia (1979) com o fundamento de que foi sempre um grande amigo da terra onde nasceu e dos seus conterrâneos.

Como já se referiu, o então tenente-coronel foi padrinho do sino grande que se instalou na igreja matriz em 1943. (3)

Tivemos o prazer de conhecer o Senhor Coronel Figueiredo Valente com quem mantivemos cordiais relações no âmbito senhorio-inquilino, já que habitámos na vila, durante oito anos um dos seus prédios.
_________________________________

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 33, pág. 902 e 903

Dicionário de História do Estado Novo, Fernando Rosas e JM Brandão de Brito, Vol.II, Bertrand, Venda Nova, 1996

Tradição Revolução, Uma biografia do Portugal Político do século XIX ao XXI, José Adelino Maltez, Vol.II (1910-2005)

Vozes de Bronze, José António Pinheiro e Rosa, 1946.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Salazar e Alcoutim

(Publicado no Jornal Escrito, nº 27, de Novembro de 2000, p.IV, encarte do Postal do Algarve de 23.11.2000)


Este pequeno escrito, que vem na sequência dos anteriores, só o escrevi com um sentido histórico. Não podia ter qualquer análise política à figura histórica que é e será Oliveira Salazar. É claro que temos opinião formada sobre o leader do “Estado Novo” mas que, como é evidente, não merece qualquer interesse jornalístico.

Como aconteceu com quase todas as cidades e vilas do País, o Professor Oliveira Salazar também tinha o seu nome numa rua da pequena vila raiana, substituído logo após o “25 de Abril” por esta mesma designação. Foi assim em Alcoutim, foi assim por esse País fora, mas ainda existem algumas placas toponímicas que ostentam o nome daquele político.

Em 1929 uma Câmara Municipal da região do Porto pretende oferecer um relicário de ouro ao Professor Doutor António de Oliveira Salazar, o qual levará dentro uma barra de oiro de lei a fim de em nome de todos os municípios do País ser oferecido a quem tanto zela o ouro de Portugal. Alcoutim inscreveu o seu nome, contribuindo com duzentos e cinquenta escudos.

Mais curioso e possivelmente desconhecido de grande número de alcoutinenses, é o facto de em sessão extraordinária a Edilidade ter conferido o diploma de cidadão honorário a Sua Excelência o Senhor Doutor António de Oliveira Salazar, devendo o mesmo ser escrito em pergaminho com o brasão de armas da vila.


Um representante do município deslocou-se para esse efeito a Lisboa e a deliberação foi aprovada por aclamação, dado “os altos merecimentos do glorioso Fundador do Estado Novo”.

O diploma foi encerrado numa pasta de veludo vermelho tendo o brasão do município e uma legenda em prata.

Que seja do meu conhecimento, foi o único cidadão que até hoje recebeu tal galardão!

Dois elementos representativos do município deslocaram-se a Lisboa para as Comemorações do Ano X da Revolução Nacional.

Outras manifestações de apoio e apreço mereceu esta figura nacional, não do povo alcoutenejo, mas sim dos representantes que lhes impunham.

Se é verdade que houve alcoutenejos salazaristas e existiu mesmo a União Nacional, outros foram-no por interesses pessoais, também os houve no campo oposto e que marcaram bem a sua posição de antagonismo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Maria Olinda Costa


Foi ontem a enterrar no cemitério da sua freguesia natal, no concelho de Soure esta nossa amiga que a única relação que teve com o concelho de Alcoutim foi o facto de o ter visitado a meu convite e de minha mulher.

Ela que era uma pessoa viajada, conhecendo os quatro cantos do Mundo, desde a Suécia à Nova Zelândia, passando pelo Brasil e África, acabou por gostar do concelho de Alcoutim, nomeadamente do aconchego da vila e da sua marginal, admirando a paisagem natural para o sul que se desfruta da estrada que nos leva ao monte de Monchique.

Admirou e gostou do prato de favas, que ajudou a apanhar, guisadas com casca, acompanhadas de boas postas de barbo frito que confeccionámos e que desconhecia totalmente.

Admirou o monte com as explicações que lhe demos e gostou muito do nosso refúgio que a recebeu durante uns dias.

Mostrámos-lhe o visitável castelo de Mértola e os magníficos núcleos museológicos da vila que surgiam a cada passo e que muito gostou.

Uma das suas últimas vontades foi ouvir a nossa neta ao telefone e pedir uma fotografia dela.

Aqui ficam estas palavras que traduzem a nossa singela Homenagem.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Contraluz



Contraluz tirado do Castelo de Sanlúcar do Guadiana em Agosto de 1967.

É notório o mar de cerros que a Serra Algarvia constitui, no dizer do nosso grande geógrafo, Orlando Ribeiro.

Alcoutim e Sanlúcar passavam por uma letargia confrangedora que se foi acentuando e só sofreu um abanão, depois do 25 de Abril.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Mensagem




É NATAL!

FELIZ NATAL …


Para os visitantes deste blogue e suas famílias.

São eles os responsáveis por esta página que procura levar bem longe o nome de ALCOUTIM, com verdade, com as riquezas e pobrezas que possui.

Onde estão os presépios típicos do Algarve com a simplicidade do Menino, o trono com as searinhas e laranjas? Possivelmente nalgum museu.
O Mundo é hoje uma incomensurável aldeia.

Enquanto o número de visitantes o justificar e a minha saúde o permitir, terão o ALCOUTIM LIVRE, sempre com Verdade e onde a bajulação é palavra que não existe.

É NATAL! Haja uma boa fritada, um cálice de medronho para rebater a gordura, filhós de canudo, “arfeladas” em mel e umas empanadilhas para os mais gulosos. Onde vai isto!

Hoje é global, é tudo igual, excepto o DINHEIRO. Uns com MUITO, outros sem NADA.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

93 VELAS DÃO UMA BOA LUZ!


Toda a gente sabe que 93 velas dão uma

BOA LUZ!

Há 93 anos nascia gente no Monte de Afonso Vicente, (Alcoutim) o que há muitos anos não acontece nem vai acontecer.

Tia MARIA CATARINA COSTA: Os seus sobrinhos, Isabelinha e António Miguel enviam-lhe UM GRANDE ABRAÇO e UM GRANDE BEIJÃO de parabéns, esperando e desejando que lhes venha a fornecer mais velas.


(Monte de Afonso Vicente, 2004)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Santa Justa, um monte maior do que algumas aldeias

Hoje escolhemos para escrever o monte de Santa Justa desde sempre um dos mais importantes do concelho e que se situa na freguesia de Martim Longo.

Se estivermos na sede de freguesia e se o pretendermos alcançar, tomando a direcção de Vaqueiros e logo à saída da aldeia, cortarmos à esquerda seguindo a orientação viária tomando a estrada municipal nº 1040, asfaltada e na altura com bom piso, cerca de 6 km andados, encontrar-nos-emos neste monte.

Quem vier de Alcoutim a caminho de Martim Longo pela estrada 124, encontrará um cruzamento à esquerda que igualmente levará a esta povoação.

O topónimo tem origem num nome de santo, sendo por isso designado por um hagiotopónimo (a toponímia hagionímica é um dos mais profundos processos de formação)

Tudo indica que a devoção a Santa Justa deu origem ao topónimo, devoção que originou à erecção de um templo ainda hoje existente.

Santa Justa e a sua irmã Rufina, vendiam na feira as louças que o pai fabricava. Festejam-se a 19 de Julho e são igualmente padroeiras de Burgos e de Sevilha. (1)

Estará isto relacionado com a arte de olaria que existia na sede da freguesia? Pensamos que sim mas faltam as provas. A olaria teria tido origem neste monte e depois passado para Martim Longo? Não sabemos, estamos só formulando conjecturas.

Sabe-se contudo que no sítio dos Telheiros, numa pequena elevação, próximo do caminho para Santa Justa, existiram fornos de olaria, de que restam ruínas onde a Professora Doutora Helena Catarino recolheu fragmentos de cerâmica de época tardo-medieval e moderna. (2)

Um dos filões a explorar, seria a consulta de assentos de baptismo, óbito ou casamento que nos poderiam indicar essa profissão.

Em 1839 era o monte que tinha maior número de fogos na freguesia (36) (3), situação que se mantinha em 1991 com 110 e a grande distância dos outros.

De 1911 a 1981 foi sempre o mais populoso da freguesia, (4) só sendo ultrapassado no censo de 1991 pelo do Pessegueiro mas por uma diferença insignificante.

Em 1911 eram 267 os habitantes, subindo para 315 em 1940. A partir daqui começa o decréscimo pois em 1960 já tinha passado para 264, em 1970, 241 e 1981, 150 e igual número dez anos depois.

Nesta altura o número de habitantes é superior ao de duas freguesias do concelho, mais concretamente Pereiro e Vaqueiros.(5)

Era o único monte da freguesia que possuía capela, o que confirmava a notoriedade que desfrutava. Recentemente, o monte que com ele ombreava construiu um pequeno templo. Estamo-nos a referir ao monte do Pessegueiro.

A Capela de Santa Justa já se diz no século XVI que he huma capella muito antiga que não há memória do tempo que se edifiquou.
Na altura, tinha paredes de pedra e barro, telhado de telha vã, sendo mais larga que comprida. Um altar pequeno de alvenaria coberto com umas toalhas e nele a imagem esculpida de Santa Justa, já muito velha.
Tinha madeira para fazer um alpendre e era reparada à custa de esmolas dos devotos. (6)

O retábulo foi colocado no altar em 1682/83 e em 1744 foi repintado.


Além da imagem mais antiga, tem outra que foi “renovada e encarnada” em 1687/88 e novamente em 1746. Tem uma coroa simples. (7)

A Ermida de Santa Justa é referida nas Memórias Paroquiais de 1758, afirmando-se que fica a uma “légua pequena” de distância, não tem romagem (romaria) e só por acaso lá vai alguma pessoa fora dos dias das suas festas.

Em 1878 o Administrador do Concelho oficia ao Prior Presidente da Junta de Paróquia no sentido deste lhe enviar com a brevidade possível o orçamento dado por peritos para as obras a fazer na Ermida de Santa Justa, obras já contempladas no orçamento da Junta. (8)
Quando visitámos a ermida, já lá vão uns bons anos, lembramo-nos que estava chovendo. Anotámos um botaréu na parede da retaguarda e outro na do lado esquerdo.

De empena de bico, telhado de duas águas e telha de canudo. Porta de duas folhas com trabalhos de argamassa semelhantes por exemplo aos existentes na chamada Casa dos Condes e aos que existiam no edifício que serviu os serviços fiscais do concelho e na desaparecida casa nobre do Padre António, no local onde se encontra hoje a farmácia Caimoto, igualmente na vila.


(A Capela de Santa Justa, 1990)

As suas linhas e estruturas assemelham-se muito às das capelas do Espírito Santo e S. Sebastião, na aldeia.

Por cima da porta, uma cruz de pedra em relevo e no bico da empena, uma simples cruz de ferro forjado.

Pequena janela gradeada.

O prédio foi inscrito na competente matriz predial sob o nº 1524.

Há anos que lhe fazem uma festa, no mês de Agosto. Existe um palco e uma casa de apoio e a Câmara Municipal em 1989 apoiou a população na feitura do recinto das festas. (9)

Quanto ao ensino escolar sabemos que em 1935, por diligência do presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, prof. Trindade e Lima, junto do Ministro da Instrução, são criados vários postos de ensino escolar no concelho, entre os quais o de Santa Justa. (10)

Com a supressão dos postos escolares no governo de Marcelo Caetano, o posto transformou-se em escola tendo sido construído um edifício para o efeito.

Em 1991 já a escola não funcionava por falta de alunos que o justificasse e procura-se elaborar um projecto visando o aproveitamento do edifício e espaço envolvente. (11)

Alguma criança em idade escolar era encaminhada para a sede de freguesia.

Em 1992 abre-se concurso público para a execução da empreitada de pavimentação de arruamentos em muitas localidades do concelho, no qual se incluía esta. (12) Os pavimentos encontravam-se concluídos no ano seguinte.

Entretanto é concluída a estrada de ligação entre o monte e a E.N. 124. (13)

Em 1996 são partidos os arruamentos a fim de instalar o fornecimento de água ao domicílio sem o indispensável sistema de esgoto o que veio provocar problemas de vária ordem só resolvidos, a partir de 2006 após a execução da empreitada de rede de abastecimento e saneamento. (14)


(O Monte de Santa Justa, 1990)

Nos Alcariais de Santa Justa ou Barreiros, os árabes deixaram vestígios da sua presença num pequeno povoado que ali funcionou. (15)


Quando se fala ou escreve sobre a Pré-História, mais concretamente no período entre a idade da pedra e a do bronze (calcolítico), durante o qual as comunidades iniciam a produção, ou utilização de objectos de cobre, o Cerro do Castelo de Santa Justa, próximo do monte, é sempre referido como povoado importante dessa época, guarnecido por fortificações com muralhas, bastiões e torres circulares.

A identificação é relativamente recente pois teve lugar em 1978 por uma equipa chefiada pelo Professor Doutor, Vitor S. Gonçalves.

O povoado fortificado possuía pelo menos nove torres, umas ocas, outras maciças e de dimensões diversas e consolidavam os muros internos, constituindo um importante ponto de defesa.

Uma porta em cotovelo tornava-se mais eficaz em possíveis assaltos.

As cabanas onde viviam eram circulares e as bases constituíam um soco de pedra.

Grande parte do povoado, de uma configuração elíptica, foi destruída por um incêndio.

A sua vida deve datar à volta do 3º milénio A.C.

O sítio devia ter tido intensa vida agrícola e sendo os solos de má qualidade, os povoadores contrabalançavam tal situação com a metalurgia do cobre.

Muitos objectos foram encontrados representativos de várias épocas, entre os quais lâminas de sílex e de xisto, furadores, pontas de setas e enxós de pedra lascada, percutores de quartzo e como objectos de adorno, contas de colar, em xisto.

Pesos de tear que se contam às centenas de um único tipo e variadíssimos recipientes cerâmicos, constituem outros dos achados. (16)


NOTAS

(1) – Dicionário de Santos, Jorge Campos Tavares, Porto, 1990, p. 89
(2) –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, págs. 196 e 712.
(3) - Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Algarve em Foco Editora (edição facsimilada), 1988
(4) – Os Montes do Nordeste Algarvio, Cristiana Bastos, Ed. Cosmos, Lisboa, 1993, p. 74
(5) – Censo Populacional de 1991-
(6) - “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco
(7) - A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do Séc. XVI ao séc. XIX., -Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985
(8) - - Of. nº 178 de 28 de Julho do Presidente da Junta de Paróquia
(9) - Boletim Municipal, nº 5 de Setembro de 1989.
(10) - Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Fevereiro
(11) – “Antiga Escola Primária vai ser aproveitada”, in Jornal do Algarve de 11 de Julho de 1991
(12) – Jornal do Algarve de 11 de Junho de 1992.
(13) – Jornal do Algarve de 16 de Setembro de 1993.
(14) – Edital publicado no Jornal do Algarve de 14 de Julho de 2005.
(15) - –“ O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Al `-Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, pág. 147.

(16) – “Cerro do Castelo de Santa Justa”, Vítor S. Gonçalves, in História de Portugal, Vol. I, Dir. de João Medina, pág. 215

domingo, 21 de dezembro de 2008

O rossio da aldeia de Martim Longo


(Rotunda de Martim Longo, 1990)

Por definição, rossio é um terreno fruído em comum pelo povo, um logradouro público.

A primeira referência que dele conhecemos, em relação à aldeia, é de 1839. (1)

A Câmara reuniu extraordinariamente em Martim Longo a fim de definitivamente se fazer a demarcação do rossio, pela parte em que este confina com a Herdade da Finca Rodilha, visto que não aparecendo marcos suficientes, se pretende inculcar que alguns terrenos concedidos pelas Câmaras anteriores, já pertenceriam à Herdade.

Consultadas as pessoas mais idosas da terra e na presença do procurador do senhorio da herdade, foram descobertos três marcos da partilha antiga.

Um deles encontrava-se na parte esquerda da estrada que vai para Tavira; outro próximo da Ermida de São Sebastião e o último no pontal da cerca de Francisco Gomes Delgado, em direcção ao marco antigo que se acha por cima do pontal e este condiz com a esquina da parte do sul da Ermida de São Sebastião.

Anos depois, encontrando-se a vereação camarária em correição pelo concelho, realizaram uma sessão nesta aldeia. Saíram pela mesma e entre outras coisas mandaram tapar covas e remover estrumeiras que tinham encontrado, além da aldeia, no rossio.

De acordo com o Conselho Municipal, foram então demarcados no rossio terrenos para as eiras e para a realização da Feira de Corpo de Deus. (2)
Em 1858 o Vice-Presidente da Câmara, em exercício, Augusto Carlos Pinto, durante uma sessão do executivo, informou que tendo ido há poucos dias a Martim Longo, observou que de terrenos do rossio destinados a eiras, foi tirado tanto barro que já um deles se achava inutilizado e deste estrago recebeu reclamações. Propunha por isso que o Regedor fosse encarregado de vigiar pela conservação das eiras, impedindo tais práticas e lançando, caso fosse necessário, coimas aos transgressores. A Câmara concordou em absoluto e foram transmitidas ordens ao regedor.(3)


NOTAS

(1) - Acta da Sessão Extraordinária da C.M.A. realizado em 21 de Março na aldeia de Martim Longo.

(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Janeiro de 1843.

(3) - Acta da Sessão de 8 de Abril.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A Moura do Cerro das Relíquias

Se nisto de encantamentos fosse possível fazer cronologia, classificaria esta das mais distantes, o que não evitaria que a considerasse das mais enraizadas no concelho de Alcoutim.

Como é próprio das suas características, o local do encantamento é um roqueiro castelo, só possível identificar através de escavações, o que em parte foi feito pela Professora Doutora Helena Catarino.


(Cerro das Relíquias, escavações arqueológicas, 1990)

O cerro das Relíquias situa-se a cerca de quatro quilómetros da aldeia de Giões e sobranceiro à ribeira do Vascão. Aí tinha existido uma capela, além de uma fortificação que fazia parte de uma linha colocada ao longo da faixa piritosa alentejana.

O Cerro das Relíquias foi possivelmente o primeiro local onde o homem se fixou nesta zona, como atestam alguns achados arqueológicos, havendo uma ligação estreita ao monte de Clarines.

De tudo o que resta nesta simbiose Relíquias/Clarines, pensamos que sobressai o aspecto lendário, traduzido pela existência de uma lenda que através dos tempos tem tido várias derivações.

A lenda da moura encantada no Cerro das Relíquias é-nos apresentada por Ataíde de Oliveira, em As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, Editado em 1898 (1). Dedica-lhe cinco folhas e foi-lhe transmitida pelo gionense, António Joaquim Teixeira, da antiga família Teixeira. Além do aspecto lendário são transmitidos factos concretos e a indicação de achados arqueológicos.

Estas lendas têm sempre várias versões. Num interessante trabalho executado pela Escola Básica Integrada de Alcoutim, (7º ano, 1996/97) li duas, referidas como Lenda da Moura Encantada (Serro das Relíquias) e Lenda do Serro de Arreliques (Clarines), numa recolha do aluno João Dias.

A versão que aqui vou contar foi recolhida em 1990 e quando subimos ao cerro de onde desfrutámos excelentes vistas. Fomos acompanhados pelo Sr. Manuel Mateus Teixeira, que teve a amabilidade de nos servir de cicerone então com oitenta e cinco anos, que chegou ao cimo mais fresco do que eu, apesar da grande diferença de idades.

Nesta altura já se tinham realizado algumas escavações que estivemos a observar e a fotografar.

O nosso cicerone era proprietário de uma grande courela nas proximidades e conhecia a zona como ninguém, vivendo ali isoladamente, deslocando-se à aldeia e na altura para comprar pão e pouco mais.

Foi – nos dizendo que em tempos “tinha subido ao cerro grande companhia com pás e piques à procura de oiro antigo”. Estava a referir-se, ao que creio, ao ano de 1864 em que Francisco Martins, moleiro de Giões sonhou com o lugar onde estava o oiro e com vinte sócios levaram um mês a cavar encontrando só três moedas de cobre, sendo duas romanas. Isto é o que refere Ataíde de Oliveira.

É evidente que o Sr. Manuel Teixeira tinha que nos narrar factos relacionados com a Moura Encantada que estava no cerro esperando que alguém a desencantasse. E foi assim que foi dizendo:

O maioral (pastor) José Gomes, que era de Clarines, andava pastando o gado nos terrenos das Relíquias que eram do seu patrão, o meu avô Joaquim Cavaco Teixeira.

Ao cair da noite, quando o maioral estava sentado num penedo, vigiando o gado, ouviu uma voz dizer-lhe:- Boa noite vizinho!
Olhou para o lado e viu uma formosa donzela, a quem respondeu:- Não a conheço por ser minha vizinha !

O diálogo continuou acabando a donzela por convidá-lo a ir a sua casa onde o receberia com tudo do melhor que ele pudesse imaginar, mas havia uma condição, não podia admirar-se nada do que visse.

Acedendo ao convite, lá foram. Entraram por uma gruta que ele nunca tinha visto, apesar de conhecer bem o local. Poucos metros andados um enorme clarão mostrou-lhe tantas barras de oiro que o homem, estupefacto, levando as mãos à cabeça, afirmou: Jesus, valha-me Deus e o Santíssimo Sacramento.
Ah! Ladrão que me dobraste o encanto e ouviu-se um grande estoiro, tudo desapareceu e o pastor, quando abriu os olhos, cheio de medo, estava no mesmo sítio em que a moura o tinha encontrado.

Nunca mais o José Gomes voltou ao Cerro das Relíquias a apascentar o seu gado,
concluiu o Sr. Manuel Teixeira.
Aqui fica registada mais uma versão desta antiquíssima lenda.



NOTA

(1) –A Edição que adquirimos é da responsabilidade de “Notícias de Loulé”, e de 1994. A Moura de Giões encontra-se na pág 207 e seguintes.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A acção da Inquisição de Évora no concelho de Alcoutim



Já escrevemos a acção do Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa em relação ao concelho de Alcoutim, tendo dito que voltaríamos ao assunto para o caso da Inquisição de Évora, o que agora vai acontecer.

Devido à área geográfica que abrangia, na qual se incluía Alcoutim, é natural que haja um maior número de processos.

Em 1571 aparece-nos o primeiro, ou pelo menos aquele de que temos conhecimento. Trata-se de Luís Henriques, cristão-novo, natural de Alcoutim mas residente em Beja, filho de Henrique Vaz e de Catarina Fernandes e casado com Maria Rodrigues. É acusado de judaísmo, apostasia e heresia. Foi preso em15 de Janeiro daquele ano mas desconheço os resultados do processo. (1)

Grácia Gonçalves, com cerca de quarenta e cinco anos, é natural de Martim Longo, concelho de Alcoutim, viúva de Álvaro Dias e filha de André Gonçalves (lavrador) e de Maria Rodrigues.
Igualmente cristã-nova, é acusada dos mesmos crimes do que o primeiro referido (2). O auto-de-fé decorreu em 31 de Março de 1591, tendo sido queimada na Praça. (3)


(Aldeia de Martim Longo, 2008)

Desenvolve-se depois um processo contra o Padre Luís Gonçalves e seus coadjuntos (?) sendo os testemunhos prestados em 13 de Julho de 1594. Examinadas as denúncias, não pareceram bastantes para se proceder contra eles.

As coisas não ficam por aqui pois em 12 de Novembro de 1595 é preso João Lourenço, casado com Grimanesa d´ Orta, cristão-velho, sacristão na Igreja de Alcoutim. Era filho de Belchior Lourenço e de Constança Lourença.
É acusado de sodomia. O réu e o prior foram denunciados por António Salazar de Melo, Juiz dos Órfãos. Entre as testemunhas que deu encontrava-se Manuel Luís, escravo do Prior. Por não pagar as custas do processo, o réu foi preso na cadeia de Évora em 17 de Julho de 1598 e posto em liberdade, em 13 de Agosto de 1598, por se encontrar muito doente. (4)

O Padre Luís tinha entretanto sido preso (2 de Dezembro de 1597) e tinha subornado testemunhas. A Inquisição de Lisboa manda suster a demanda até ser ordenada outra coisa em contrário.(5)

Nos primeiros anos do século XVII é preso Tomé de Alcoutim, que afinal é natural de Évora onde reside, filho de Francisco de Alcoutim e de Graça Lopes. Nestas épocas, os nomes das terras quando aglutinados aos antropónimos, significavam de uma maneira geral o local de origem.

Acusado de judaísmo, heresia e apostasia, foi solto em 19 de Janeiro de 1605, por ter sido abrangido por um breve do Papa Clemente VIII. O mesmo aconteceu a sua irmã Maria de Alcoutim, solteira, de cerca de cinquenta anos (6)

Só muitos anos depois voltamos a encontrar outro processo. Trata-se de João Mestre, solteiro, natural de Cachopo, então pertencente ao concelho de Alcoutim e morador em Montes de Afonso Vicente.
Considerado lavrador de profissão foi preso em 10 de Novembro de 1656, acusado de judaísmo. Por não confessar as culpas, foi sentenciado a tormento, confessando-as depois. Auto-de-fé de 18 de Abril de 1660 e foi mandado cumprir degredo. (7)

E os processos continuam.

Agora é António Banha, morador em Vale de Cachopo, actual Cachopo e então pertencente ao concelho de Alcoutim. Está a contas com o Santo Ofício de Évora, acusado em 9 de Junho de 1668 de blasfémia. Acabou por ser admoestado e repreendido. (8)

Voltamos aos crimes de judaísmo, heresia e apostasia. O acusado é João de Moías, proprietário, casado, filho de Fernão Miguel e de Ana Morais. Foi preso em 28 de Maio de 1671 e julgado em 28 de Março de 1683. (9)

Seguem-se dois casos de crime de bigamia. Gaspar Martins Guerreiro, que vivia da sua fazenda (expressão que chegou até ao século XIX no concelho de Alcoutim), era natural do pequeno monte de Ferrarias (hoje desabitado) da freguesia de Vaqueiros e morava no concelho de Almodôvar. Foi preso em 24 de Julho de 1701.(10)

O outro caso é referente a António Afonso, casado, igualmente da freguesia de Vaqueiros. Foi preso em 14 de Agosto de 1715 e o auto de fé é datado de 26 de Janeiro de 1716.

Terminamos com um caso especial neste contexto, o do clérigo de Missa do Hábito de S. Pedro, Luís Martins Bravo, natural da aldeia de Giões, concelho de Alcoutim, filho de Diogo Rosado e de Ana Baptista, solteiro, acusado de perturbar e impedir o ministério do Santo Ofício.


(Ass. do Familiar do Santo Ofício, Cap. Domingos Gomes Delgado)
O réu foi solto em 28 de Julho de 1701 para se apresentar na Inquisição de Coimbra e aí cumprir o degredo. Tendo-se apresentado em Miranda (do Corvo), foi-lhe comutada a pena, acabando por concluir o degredo em Évora. (11)

O Professor Borges Coelho, no excelente trabalho Inquisição de Évora dos primórdios a 1668, em dois volumes, 1987, que fez o obséquio de me o autografar refere que até àquela data localizou 1 residente em Alcaria Cova (Pereiro), dois naturais e quatro residentes em Alcoutim e um natural de Martim Longo.


NOTAS

(1) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 11204.
(2) - ANTT, Inquisição de Évora, proc. 267.
(3) - Inquisição de Évora dos primórdios a 1668-vol.1, António Borges Coelho, 1987, pág.95
(4) – ANTT, Inquisição de Évora. proc. 11223
(5) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 11561
(6) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 2741
(7) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 8649
(8) – ANTT, Inquisição de Évora, proc.3732
(9) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 1963
(10) – ANTT, Inquisição de Évora, proc. 10478
(11) - ANTT, Inquisição de Évora, proc. 10483

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Os oficiais do Exército de Dom Pedro (1829-1835)



Esta edição da responsabilidade de Guarda-Mor Edições Multimédia, Lda, reproduz a “Lista Geral dos Officiaes do Exercito Libertador referida ao dia 25 de Julho de 1833”, editada em Lisboa em1835.

É um livro essencialmente de consulta, agora valorizada com um índice onomástico final que nos proporciona uma localização rápida.

Entre outras, comporta também a “Lista dos Officiais que forão condecorados com a antiga e muito nobre ordem da TORRE DE ESPADA, do VALOR, LEALDADE, E MERITO” e a “Relação das Batalhas, Combates, Defesa e Tomada de diversos lugares, que houve, para a Restauração da Carta”.

Entre tantas outras indicações, apresenta “Quadros das baixas por Corpos nas Batalhas e combates realizados de 1829 a 1835”.

Com 270 páginas de 16X23, foi acabado de imprimir em Outubro último.

Adquiri-o através de Guarda-Mor.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Azeitonas de sal



A Câmara Escura de hoje é diferente das anteriores, não na sua essência mas no que se apresenta que está ligado à gastronomia.

E foi ontem ao preparar este aperitivo que me saltou a ideia de o trazer aqui.

Peço desculpa aos visitantes pela sua apresentação em recipiente de vidro, quando o devia ser e neste caso, numa tigela daquelas que eram muito usadas para tudo em toda a serra e que efectivamente tenho mas não por estas paragens.

Tenho dito e escrito em várias ocasiões que conheci e provei azeitonas de sal em 1967, no monte de Alcaria Cova de Baixo, em casa do lavrador João Gomes Alves.

Sempre gostei muito de azeitonas: pisadas (em Alcoutim chamam-lhe britadas), retalhadas e de água, que eram os tipos que eu conhecia na minha região de origem. A farta mesa que nos foi posta (eu acompanhava o malogrado Dr. João Lopes Dias) era constituída por produtos artesanais de excelente qualidade:- pão feito no forno da casa, excelentes queijos, belíssimos enchidos com destaque para os palaios , presunto conservado em sal e … azeitonas. Isto do que me lembro.

Perguntaram-me se gostava de azeitonas de sal, respondi que não sabia, pois nunca tinha provado tal coisa que desconhecia totalmente.

Provei. Perguntaram-me que tal? Respondi evidentemente que eram boas, mas isto por uma questão de delicadeza, pareciam-me azeitonas podres. Para justificar a minha resposta, voltei a comer outra a custo mas, a verdade é que já não me soube tão mal e para o fim até me sabiam bem e foi então que tive oportunidade de comentar a situação com realismo.

A partir daí fiquei fã das azeitonas de sal e sempre que me é possível, confecciono-as.

É o que tentarei explicar a seguir para que as pessoas que as não conhecem, fiquem sabendo como se preparam.

Não há ninguém no concelho de Alcoutim e em toda a serra algarvia que as não conheça e de uma maneira geral todos as apreciam.


(Enxerto de três anos)

Na época da apanha e quando já se encontram maduras (roxas) escolhem-se as mais gradas. A melhor qualidade para o efeito é a maçanilha roxa, talvez por darem normalmente exemplares de maior dimensão e amadurecerem com mais facilidade.

Para as colocar, utilizam-se dois tipos de recipientes, um cesto de cana, já dos velhotes ou um cortiço.

No fundo do cesto colocam-se folhas de couve ou de figueira em alternativa e põe-se a primeira camada de azeitonas que depois é coberta com sal, de preferência sal grosso, daquele com que se salgavam os porcos e assim se vai continuando, uma camada de azeitonas, uma camada de sal.

Há quem prefira o cortiço e o sistema funciona da mesma maneira.

A água proveniente do sal e da azeitona vai escorrendo e o fruto engelhando, acontecendo o mesmo em relação ao cortiço, pois escorre pelas pequenas frestas que a colocação da tampa originou.

Cerca de um mês depois estarão em condições de se começarem a comer. Tiram-se as que necessitamos para a altura e escaldam-se com água bem quente. O sal sai completamente e com o calor da água, incham. Esmagam-se uns dentes de alho que numa tigela se juntam às azeitonas e depois temperam-se com azeite, isto é, faz-se passar um pequeno fio por elas. Com movimentos ritmados e envolventes consegue-se distribuir o alho e o azeite.

Ficam prontas a servir e não pensem que são salgadas, têm muito menos sal do que qualquer das outras que já referimos.

Nunca encontrei azeitonas destas em qualquer outra parte.

Os restaurantes, que eu saiba, não as apresentam.

É um verdadeiro produto regional que pode fazer a diferença, mas que está completamente esquecido.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Domingos Arouca

Domingos Corrêa Arouca de seu nome completo, nasceu em 1790 na vila de Castro Marim, sendo filho de Simão Corrêa Arouca e de D. Maria Teresa Cândida Mascarenhas.

Foi Comendador da Ordem de Avis e de Nª Sª da Conceição.

Cavaleiro da Casa Real por alvará de 4 de Dezembro de 1834.

Foi Conselheiro, vogal do Conselho Ultramarino e Senador.

Em 1810 e como tenente, vai para Moçambique, onde comandou as companhias de Quelimane e Inhambane, tendo sido também governador deste distrito.

Já como coronel de infantaria, é nomeado, em 16 de Junho de 1836, governador de Cabo Verde, substituindo o coronel, António Joaquim Pereira Marinho.


(A Vila de Castro Marim)

Teve de fazer face a uma revolta fomentada pelo seu antecessor que tinha ficado no arquipélago, chegando mesmo, duas ilhas a negar-lhe obediência.

Este clima tinha a ver com as lutas políticas internas que se travavam no País entre os liberais.

Domingos Arouca conseguiu resistir com o apoio militar da corveta francesa Triumphante, cujo comandante obrigou Marinho a capitular.

Sá da Bandeira aceitou a demissão de Arouca e nomeia novamente o seu protegido, Pereira Marinho para o lugar, isto em fins de 1836. O governo não decorre com tranquilidade, acabando o responsável por ser transferido para Moçambique em 1839.

O afrontamento entre os dois militares deu origem à publicação de panfletos, tendo terminado em 1842 com a publicação de Desmentido às acusações feitas pelo ex-Governador de Cabo Verde e de Moçambique, o Sr. Joaquim Pereira Marinho, contra Domingos Corrêa Arouca, etc.
Corrêa Arouca pertenceu à loja maçónica, União e Justiça, sedeada em Lisboa.
Faleceu em24 de Janeiro de 1861 como brigadeiro na reforma.

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

Dicionário Bibliográfico Português, Inocêncio Francisco da Silva, 1870

História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vol. VIII

História da Maçonaria em Portugal, A.H. Oliveira Marques, 1990

http://radix.cultalg.pt , em5.10.2008

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Corte das Donas, monte de nome pomposo!

Quando pretendemos escrever algo sobre as pequenas povoações, aqui designadas por “montes”, a primeira ou das primeiras coisas que referimos é a sua situação. Assim vai acontecer mais uma vez.

Quem estiver na vila de Alcoutim e pretender encontrar este aglomerado populacional, tomará a EM nº 507, mais conhecida por estrada marginal do Guadiana. Vai-se extasiando com a paisagem que o rio lhe oferece e de que as suas margens fazem parte, a portuguesa mais plana e povoada, a do país vizinho mais abrupta e quase desabitada, ultimamente salpicada de uma ou outra vivenda para férias, aproveitando o sossego e os bons panoramas que se desfrutam.

Cochoa, Vale de Condes e Vinagre são zonas rústicas por onde vamos passando até chegarmos ao Montinho das Laranjeiras, depois Laranjeiras, seguindo-se os Guerreiros do Rio. A estrada começa a subir um pouco e vamos encontrar uma pequena rotunda com duas saídas e é a primeira que devemos tomar já que a outra continua nas proximidades da margem e esta avança para o interior.


(Marginal do Guadiana, 1994)

A tendência é para subir uma vez que nos vamos afastando da margem do rio. Dois ou três quilómetros andados encontramos a placa toponímica que nos indica Corte das Donas. Ao contrário do que é habitual na maior parte dos casos, aqui a estrada passa junto à povoação.

Mas antes de nos referirmos à Corte das Donas dos nossos dias, iremos indicar o que recolhemos nas obras da especialidade, principalmente no trabalho da Professora Doutora Helena Catarino, intitulado O Algarve Oriental durante a ocupação Islâmica. (1)

A zona foi habitada como provam os vestígios arqueológicos encontrados.

O designado Cerro do Castelo situado na transição da freguesia de Alcoutim para a de Odeleite, foi referido por João de Almeida (2) situando-o junto da povoação e a 2 Km da margem direita do Guadiana. Opina aquele militar tratar-se de um castro romano, destinado a alojamento de uma emérita e que originou a actual povoação.

Helena Catarino situa-o a cerca de 2 km para sudeste da povoação e a 1,5 Km da margem do Guadiana, admitindo poder ter tido muralhas e ser do período da Idade do Bronze e tardo-romano/alto medieval, tendo encontrado vestígios de materiais de construção, pedaços de telha decoradas, cerâmica grosseira, alguma manual, de possíveis características pré-históricas. Algumas cerâmicas poderão vir do período tardo-romano ou visigótico.

A presença dos árabes deve estar nos “Alcariais”, próximo da povoação, junto da estrada para os Guerreiros do Rio, apresentando vestígios de materiais de construção e cerâmicas com destaque para bordos de panelas ou de pequenos potes.

É importante e também junto à povoação a presença de alguns troços de um antigo caminho com restos de calçada. Opina a investigadora poder ter pertencido a um antigo caminho que passava pelo Fadagoso e atravessava a ribeira da Foupana junto do sítio do Garrucho.

Como se vê, as indicações não são poucas.

Voltando aos nossos dias.

Nos arredores, eram terrenos que davam pão e que depois do abandono da cerealicultura, alguns foram semeados de amêndoas que deram origens aos amendoais que ainda vemos e hoje igualmente abandonados por falta de braços mas principalmente pelo preço irrisório das amêndoas.

Nas proximidades, ao sul da povoação, ainda se pode ver um moinho (da Picota?) que deixou de funcionar, a motor, por volta de 1960 e que tinha deixado de laborar pela força do vento, cinco anos antes, segundo as informações que recolhemos há umas dezenas de anos.

De vários locais nas proximidades do monte podemos desfrutar de excelentes vistas, podendo-se observar distantes povoados da Andaluzia.

Antes da construção da marginal, o único acesso por estrada era através da E.N. 122 com desvio à esquerda após a passagem de Balurco de Baixo. Foi por este intermédio que lá fomos a primeira vez e apesar de não ser o mais próximo da vila, foi o primeiro monte que conhecemos.

Outro dos assuntos que normalmente abordamos é o topónimo. Nome aparentemente pomposo, segundo as actuais concepções, localmente não encontrámos qualquer lenda que explique a sua origem, como muitas vezes acontece.

Para os peritos em toponímia, segundo as consultas que fizemos, o assunto não é fácil. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz que Corte, designando prédios (neste caso das Donas), aparece certamente em substituição dos casais de acourelamento efectuado com o repovoamento nacional (séc. XIII - XIV).


(Corte das Donas)

Donas designava especialmente as freiras de Santo Agostinho (Convento das Donas) ou, genericamente, freiras.

Será Donas um axiónimo como sugerimos na abordagem? Não saímos de interrogações e de conjecturas podendo acontecer que um dia apareça alguém a esclarecer tudo!

Quando houve necessidade de demarcar as fronteiras entre Alcoutim e Castro Marim, por este lado, a Câmara de Alcoutim utilizou entre outros, dois homens de Corte das Donas, com a função de informadores, pois conheciam bem a zona de transição. Foram eles José Ribeiro e José Dias, antropónimos que por lá existiam não há muitos anos.

Não havendo acordo das partes, cerca de um ano depois (1845), volta-se a fazer nova tentativa, desta vez bem sucedida e em que entrou, na mesma condição, o referido José Dias.(3) Este homem, parece muito ligado a assuntos de propriedade urbano-rústica e revelar idoneidade e sentido de equilíbrio pelo que, em 1856 é nomeado informador louvado para o serviço de contribuição predial.

Existiu uma Lutuosa, que acabou por se extinguir com o decorrer dos anos, após o 25 de Abril. Em épocas em que não existia protecção social, eram estas instituições locais que resolviam os problemas mais prementes quando a morte batia à porta das famílias. Era uma maneira comunitária muito espalhada por toda a freguesia de Alcoutim e que ia tentando ajudar a resolver problemas relacionados com tal situação.

As crianças, quando as havia, tinham escola em Guerreiros do Rio.

Outro dos pontos que é hábito abordar é o da população.

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco da freguesia que respondeu ao questionário, indica o número de vizinhos de todos os montes da freguesia, excepto deste. Igualmente Silva Lopes na sua Corografia do Reino do Algarve (1841), no mapa final que refere o número de fogos, também omite este monte. Quando em meados do século XIX as Entidades da Vila se reúnem com representantes de todos os montes da freguesia para decidir quanto aos enterramentos, todos estavam representados, excepto este! A quando da Cheia do Guadiana de 1876 houve gente de todos os montes próximos a apresentar prejuízos que a mesma lhes causou, mas não encontrámos ninguém de Cortes das Donas! Contudo, em 1850 nasceram no monte duas crianças.

É certo que em 1976 tinha sessenta moradores, passando para trinta e três em 1991. Hoje não temos dados mas possivelmente serão poucos mais do que uma dezena.

Teve funcionando uma pequena venda durante muitos anos e que me consta ter fechado recentemente. Foi lá que existiu um posto de telefone público.

Por volta de 1981 tem energia eléctrica e a distribuição de água por intermédio de seis fontanários é feita em 1990. Hoje tem distribuição de água ao domicílio.

Ruas cimentadas e recolha de lixo.

Após o 25 de Abril de 1974 passou a ser servida por transportes colectivos duas vezes por semana o que lhes facilitou a deslocação a Vila Real de Santo António, situação hoje alterada mas que não podemos pormenorizar.

Em finais da década de setenta as raposas infestavam a área pelo que a caça tinha diminuído bastante. Funciona presentemente uma Zona de Caça Associativa.

NOTAS

(1)–Foi publicada na Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé Al – Ulyã, nº 6, 3 Volumes 1997/98.

(2)-Monumentos Militares Portugueses, 1946, pág. 422.

(3) – Acta da Sessão da C.M.A. de 28 de Abril de 1845.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O destino do pelourinho da Vila de Alcoutim

(Publicado no Jornal Escrito nº 37, de Novembro de 2001, p. III, encarte do Notícias do Algarve de 22.11.2001).


Foi o Prof. Doutor José Carlos Vilhena Mesquita, quem em 1991, com a publicação de dois artigos (1) nos revelou ter existido pelourinho na Vila de Alcoutim.

Quando comecei a interessar-me pelo passado alcoutenense, como em gíria se diz (2) o que coincide com a minha chegada àquela vila, admiti, pela sua antiguidade, pudesse ter tido pelourinho. Procurei saber da sua existência através da tradição oral, já que, junto do poder administrativo nada se sabia. Também aquela via tradicional nada nos trouxe.

Sem formação técnico - científica na área, comecei as minhas leituras por enciclopédias e dicionários, (era impensável a sua existência na vila) e folhetos avulso que acabavam por ser um extracto, muitas vezes deturpado, daquelas obras. Nunca encontrei a mais leve referência a tal monumento.

Ao saber da existência da Corografia do Algarve, de Baptista Lopes, não descansei enquanto não fui à sua procura na Biblioteca Municipal de Faro e fiquei entusiasmado com aquilo que li mas igualmente este trabalho, que penso ter servido de base a enciclopédias e dicionários, é omisso sobre o assunto.

Nas leituras que entretanto iniciei nos arquivos históricos da vila, Santa Casa da Misericórdia e Câmara Municipal, nada encontrei sobre o assunto. Através das pistas que me foram dadas pelo hoje Presidente da AJEA e Director do Jornal Escrito, órgão desta Associação, procurei adquirir mais alguns elementos.

Na informação prestada, o Distinto Professor escreveu:- Infelizmente já não deve ser possível recuperar o velho Pelourinho de Alcoutim, submerso pelas águas do Guadiana.


(O que hoje se vê do pelourinho)

Na minha permanência na vila, durante mais de uma década e onde sem sabermos porquê, vamos dar sempre ao Guadiana, com a utilização dos cais e nessa altura não conhecíamos a história do Pelourinho, a observação que fazíamos àqueles velhos degraus do ancoradouro e à pequena muralha de amarração, que têm aguentado inúmeras e fortes correntes, principalmente na altura das cheias, fazia-nos admirar da grande resistência e mais nada encontrávamos digno de registo.

A escadaria que proporcionava a atracação e era constituída, quando a conhecemos, por doze degraus de largas lajes de xisto da região, começou a ser adulterada com a utilização de cimento e a feitura de uma rampa de lançamento o que descaracterizou o local.

Procurou-se e bem corrigir a aberração com a remoção da rampa e a reparação ou construção de degraus que imitou o que existia.

Em Agosto último fui mostrar a quem nos acompanhava o aproveitamento que tinha sido feito da nesga de terreno que seguia o paredão que suporta o acesso ao cais rodoviário que funciona hoje e principalmente como parque de estacionamento automóvel.

O dia estava agradável, aproveitámos para nos sentar num dos convidativos bancos já que o local é aprazível. Trinta e dois anos antes fizemos o mesmo percurso mas só tínhamos o muro para nos sentarmos!

Lembrei-me então de contar o que sabia do destino do pelourinho e a minha acompanhante observou-me que seria interessante procurar e recolher o monumento, tendo eu comentado que não seria fácil fazê-lo pois desconhecia-se a sua concreta localização. Ao abandonarmos o local, não é que quase tropeço naquilo que considero a coluna do pelourinho! Estará certamente truncada, apresentando a base ou o capitel.
Já conhecia naquele local tal pedra marmórea, mas só era visível a parte cimeira pois todo o resto encontrava-se tapado.

Na altura pensei que fosse alguma pedra trazida como lastro nos barcos que demandavam o porto fluvial do Pomarão onde iam carregar minério oriundo da mina de S. Domingos, pedras provenientes de outras zonas como na altura me informaram e facilmente compreendido pois por estas zonas só existe xisto e grauvaque.

Acontece que agora a pedra branca (mármore) cuja superfície mais larga serve de base a um dos chuveiros que ali foram instalados, com o arranjo da escadaria acabou por ficar mais saliente e mostra a sua secção circular com trabalhos que nos parecem de encordoados e outros geométricos bem delineados.

O resto do pelourinho que segundo a Câmara Municipal informa em 1906, era de tosca arquitectura devido à sua muita antiguidade e achando-se bastante arruinado, foi mandado demolir no ano de 1869 e as suas imperfeitas cantarias foram utilizadas nas obras de reconstrução do cais da vila. (3)

(Guerreiro Gascon)
Em artigo publicado por Vieira Branco (4), informa que o Sr. Guerreiro Gascon ouviu em tempos ao Sr. Manuel António Torres que o pelourinho foi destruído cerca de 1878, depois da cheia Grande e após a construção da estrada Alcoutim-Pereiro, para alargamento do trânsito, o que foi confirmado pelo Sr. Pedro Teixeira que de memória fez um desenho que enviou ao Sr. Gascon.(5)

Assentava sobre duas grossas pedras, formando degraus, medindo a coluna cerca de metro e meio e igual dimensão devia ter por face a pedra base. Esclarece igualmente que era todo em mármore, informando também que os seus restos tinham sido empregues nas obras do cais.

Enquanto a Câmara Municipal o classifica de tosca arquitectura e de cantarias imperfeitas, Pedro Teixeira, contemporâneo do monumento, afirma que era todo em mármore, o que corresponde efectivamente ao fragmento que identificámos e que, pelo pouco que é possível ver, não nos parece ser assim tão tosco, antes pelo contrário.

É no norte e no centro do país que se encontra o maior e mais significativo número destes monumentos de pedra, o que contrasta com o sul, onde os muçulmanos permaneceram mais tempo. Mesmo assim foram identificados quinze no Algarve, parecendo que não se encontra nenhum de pé. (6)

Símbolo da autonomia municipal a ele se associavam funções jurídicas, onde eram expostos e açoitados os delinquentes.

Mais tarde passou a ser o local da afixação de alvarás e éditos e outra documentação do interesse dos munícipes.

Muitos foram destruídos após a instalação do regime liberal (1834) pois eram considerados pelos defensores deste regime como símbolos de tirania.

Como era regra, o Pelourinho da Vila de Alcoutim encontrava-se no largo principal em frente da antiga cadeia e onde se julga ter sido a sede do poder municipal em tempos muito recuados.

Depois de ter sido local de administração de justiça, de afixação e proclamação de assuntos de interesse colectivo, foi sepultado no cais velho (até parece que havia falta de pedra no concelho de Alcoutim!) e acabou por servir de base de chuveiro!

Urge, quanto a nós, desencarcerá-l,o trazê-lo (o que for possível) à superfície para que possa ser devidamente estudado e colocado no lugar que merece como símbolo de uma época e orgulho de todos aqueles que amam a pequena vila raiana na margem direita do Guadiana.


NOTAS

(1)“As origens do Ensino na Vila de Alcoutim” e “A derrocada do Pelourinho e da Câmara de Alcoutim pelas cheias do Guadiana de 1823”, in Jornal do Algarve de 30,05.1991 e 08.08 do mesmo ano, respectivamente.

(2)- Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Verbo 2001- Alcoutenense – O mesmo que alcoutenejo, I Volume, pág. 155.

(3)- “A derrocada do Pelourinho e da Câmara de Alcoutim pelas cheias do Guadiana em 1823”, Vilhena Mesquita, in Jornal do Algarve de 8 de Agosto de 1991.

(4)“Os Pelourinhos Algarvios – Velharias – LXIII”, in Correio do Sul de 9 de Maio de 1937.

(5) -José António Guerreiro Gascon (1883 -1950) – Foi tesoureiro da Fazenda Pública no concelho de Alcoutim, trabalhou para a reconstituição do brasão de armas da vila e publicou alguns artigos sobre o seu passado.

(6) - Subsídios para a Monografia de Monchique, José António Guerreiro Gascon, 2ª Edição (facsimilada), 1993.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O velho cais da Vila de Alcoutim



A construção perde-se no recuar dos tempos. As boas condições de navegabilidade do Guadiana interessaram aos povos invasores da península e por aqui passaram, entre outros, Fenícios, Romanos e Árabes.

É natural que a construção do cais tivesse acompanhado a fundação da vila, já que seria uma necessidade de capital importância.

Um paredão de alvenaria, corroído pelo tempo, destinava-se a barcos de maior calado. Grossa corrente de ferro, que ninguém se lembrava de ser colocada, utilizava-se para a amarração.

Doze degraus, constituídos por largas lajes de xisto da região, colocados em arco de círculo, formavam escadaria propícia a atracação de pequenos barcos de pesca ou de recreio. Foi assim que o conhecemos.

O cais constituiu sempre o pólo fundamental da vida alcouteneja. Ainda hoje as pessoas sem dar conta disso vão parar ao cais.


(Cais velho e cais novo, 1965)

É interessante conhecermos uma postura municipal dos meados do século XIX e que procura regular a conservação, limpeza e aceio do caes.

Diz assim:
Artº 1º - He absolutamente proibido lançar ou ter fateixas sobre o Caes desta villa, bem como prender cordas, amarras, ou outra qualquer coisa ao mesmo Caes, salvo no mourão que para esse fim ali se acha designado: o que transgredir esta determinação pagará de multa seis centos réis pela primeira vez, e o dobro em caso de reincidência.

- 1º - He considerado Caes todo o espaço que fica do mourão em linha orizontal para a parte do Norte até à parede que divide o Esteiro; e nelle he prohibido o embarque ou desembarque de géneros ou coisas immundas sob pena de pagar dois mil réis de multa o contraventor.

- 2º - Para o embarque e desembarque de cousas immundas se designa o espaço que fica ao lado do mourão para a parte do Sul, que se appelidará de Ante Caes.

Artº 2º - Toda a pessoa que sujar o Caes, seja com o que for, e o não limpar dentro de seis horas depois de concluído o carreto ou embarque do género, ou coisa que o sujou, pagará seis centos réis de coima.

Artº 3º - Na mesma pena incorre todo o indivíduo, que depois de levantar o género immundo do Ante Caes, em vinte e quatro horas, o não fiser limpar. (1)


Sabe-se que os restos do pelourinho da vila foram utilizados, depois do mesmo ter sido destruído, em 1878, nas obras que então se efectuaram no cais. (2)

As descidas do Guadiana em barco à vela, iniciadas em 1973 e anos depois continuadas com outras variantes, originaram primeiro a “edificação” de uma rampa de lançamento e mais tarde a adulteração completa do escadório que foi “reforçado” a cimento tapando totalmente as lajes! Um crime desculpável por falta de conhecimento!

Em 1995 diz a imprensa (3) que a “construção do novo cais foi o primeiro passo para um melhor aproveitamento das potencialidades do rio Guadiana”.

As placas acostáveis de madeira (o que foi considerado um novo cais), inutilizaram depois de longos séculos, o velho cais que apesar de velhinho, desempenhara com garbo, no dizer de Luís Cunha, as suas funções desde tempos imemoriais, e se, na sua tardia aposentação, devido à construção do novo, muito depois da idade aconselhável, algumas culpas houve, tal se deve aos “médicos” da junta que só ao entardecer acordaram, e nanja a ele. (4)

Em publicação de 1982 e noutras posteriores, os trechos dedicados à vila são por ele documentados fotograficamente.

Temos conhecimento da existência de mais dois cais perto deste, para montante, mas de menor importância. Trata-se do “cais do mineral” de que recentemente apareceram vestígios e como o nome indica destinava-se à saída do minério e o de Premedeiros, mais acima e de sentido comercial.



NOTAS

(1)-Alcoutim Visto Através das Posturas Municipais (1823-1858), José Varzeano, 1989.

(2)–Vide”O destino do Pelourinho da Vila de Alcoutim”, José Varzeano, in Jornal Escrito nº 37, de Novembro de 2001, p. III, encarte do Notícias do Algarve de 22.11.2001.

(3)-“Novo Cais em Alcoutim”, Hélder Oliveira, in Jornal do Algarve de 12 de Outubro de 1995.

(4)-“Uma estrada marginal ligando Alcoutim a Castro Marim oferecia extensa zona venatória ao turismo do Algarve”, Luís Cunha, in Jornal do Algarve de 7 de Abril de 1973.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Termos e Expressões Alcoutenejas

No nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídio para uma monografia), 1985, a página 295, o ponto 10 tinha o seguinte título:- Vocalulário Regional e Estribilhos.

A actualização e correcção que temos vindo a realizar a partir daquela data, proporcionou-nos um aumento considerável de texto, parte do qual faz parte deste escrito. Excluímos as palavras e expressões que publicámos naquele trabalho.

Hê - de - me ir para o Algarve
Hê - de lá `star oito dias
Hê - de empregar os mês olhos
Nas mais lindas algarvias


Esta quadra popular recolhida em Alcoutim por J. L. de Vasconcelos, indica que o homem da serra quando desce ao litoral para colocar os seus produtos e vender o carvão, dizia e diz que VAI AO ALGARVE, como se Alcoutim não o fosse também. (1)

O alcoutenense não possui um falar próprio que o distinga de qualquer outro. Não podemos dizer que seja tipicamente algarvio pois sofre influência do falar alentejano com quem pega e desde sempre manteve relações de todos os tipos.

Além da influência dos falares da planície, que a norte do concelho mais se poderá dizer que a absorve, sente também, de uma maneira efectiva, a vizinha Andaluzia.

A rapidez no falar típico do algarvio choca-se por vezes com a lentidão da do alentejano.

Não há por conseguinte um dialecto próprio que de qualquer forma individualize este povo; contudo, muitas palavras, frases e expressões são típicas da zona e de certa maneira a identificam.

PAU DE PITA SEM MIOLO é expressão que designa um indivíduo magro e débil.

Quando há matéria para rir abundantemente, é hábito dizer-se QUEM QUER RIR ESTÁ A TEMPO.

COZEM-SE OS FEIJÕES OU AS FAVAS quando se ressona.

O homem do campo possui a CAVADEIRA (espécie de enxada), o PIQUE (picareta) e o RASTILHO (ancinho) e para transportar estrume usa a GORPELHA que coloca sobre o burro.

O artesão que trabalha a madeira nas cangalhas ou cadeiras utiliza o CEPILHO (plaina pequena) e o REBOTE (plaina grande).


Aos chícharos chamam ERVILHAS QUADRADAS, às romãzeiras, ROMANEIRAS. BATATA é a designação de batata-doce e à outra chamam BATATA REDONDA.

Ao órgão sexual do porco chamam VERGALHO e às uvas quando os bagos suportam mal o seu interior, UVAS VAZONAS.

E as expressões e termos usados frequentemente pelos alcoutenejos continuam.

Afinal o que aconteceu? Ora, o que é que havia de ser, deu-lhe a TRAMOQUÊRA (ficou aparvalhado). Se lhe tivesse dado o TRANGALOMANGO, tinha ficado trémulo e com deficiências motoras.

A PORCA-SARA (bicho de conta) é utilizada como isco na pesca e à forfícula, designada por tesoura e bicha-cadela, aqui é mais conhecida por RASPELHO.

Esta água é NASCIDIA (2) (proveniente de nascente no local), utilizando-se também para as pedras, para aquelas que não foram ali postas.

ATANCHAR ou TANXAR (3) é um verbo muito utilizado e que aparece com frequência em Posturas Municipais e actas do século passado. Significa introduzir alguma coisa perfurante, fixando.

Por aqui ninguém diz monte ou colina, mas sim CERRO,

POÇANCO designa um pequeno poço.

Se não estás sossegado levas uma TALOCADA (cacetada, bordoada).

Dois termos, entre muitos já referidos, de origem espanhola: DORNILHA, tigela de madeira para fazer o gaspacho e FORNILHA (fornalha, pequeno forno, onde se cozinham as refeições).

CAREPA é a palha de milho desfiada com que se enchiam os colchões.


APANHAR UM CHIBATO significa ir à caça e não matar nada.

Ao cortar o pão, a mãe pergunta:- Queres uma fatia de FORA A FORA? (uma fatia cortada a toda a largura do pão).

Estar ESPALDEIRADO é estar bem instalado, refastelado.

ESTAR AO FOGO é sinónimo de “estar ao lume”, “estar à chaminé”, como se diz no Alto-Alentejo.

O “fogo” é alimentado pelas ARREIGOTAS, termo importado do Alentejo e que aqui significa raiz avantajada de esteva formando cabeça.


CHUPÃO é a designação dada a uma pequena chaminé baixa que além da confecção dos alimentos permite que as pessoas se aqueçam, É lá que se encontram a tenaz, a trempe, o triângulo e o canudo de cana ou ferro. É fundamental que o chupão TIRE bem (saia com facilidade) o fumo. O alcoutenejo diz que o melhor fogo de mato é o de esteva e a nível de cepos (lenha grossa), o de amendoeira. Quando os cepos têm proporções avantajadas, chamam-lhe MADEIROS que utilizam pelo Natal.

AMADURAR emprega-se em vez de amadurecer.

Na zona do Pereiro, as mães dizem aos filhos: DÁ-ME CONTINAS (vontade continuada) de te bater, quando eles se portam mal. No mesmo local ABANAR O ZANGARRO significa não estar de acordo, duvidar fortemente.

FLATE (flato) é utilizado para significar dores de origem não especificada, sem importância de maior.

A variedade de feijão, vulgarmente conhecida por feijão-frade, é aqui designada por FEIJÃO CARETO, igualmente chamam FEIJÃO RAIADO ao feijão catarino e FRADE a uma variedade de abóbora que muito apreciam.

O alcoutenense que procura melhorar o interior da sua habitação diz que a vai ESCAIOLAR o que significa aproximadamente “estucar”.

Ao regressar de extenuante trabalho ou de executar algo que a canse de forma pronunciada, remata-se quase sempre com ESTOU DADA.

Os primos direitos são aqui chamados PRIMOS – IRMÃOS.

Aos grelos chamam ESPIGOS e às couves que enrolam, formando bola, REBOLOS.

Andar de RABOLETA é andar aos trambolhões

FAZER UM BARATILHO é vender ao desbarato.

A CATRENITA (Catarina) é muito LAIVOSA (gosta de carinhos) e a BIA (Maria), AMORUDA (meiga).

A minha filha está sempre ENFLAITADA (desejosa, preparada) para sair, diz a mãe. A construção do verbo terá por base FLAITA (instrumento musical) e a sua aplicação tem um sentido de passeio, festa.

PANDEIRÃO foi-me revelado por uma criança que todos os dias ia ver o “pandeirão” (bezerro de poucos dias) que por ser muito jovem era molengo, tinha pouca acção. Quando lhe perguntava o que tinha ido fazer dizia-me sempre e atabalhoadamente que tinha ido ver o pandeirão, que significava, molengão.

Quando os porcos chafurdam nos terrenos, roendo e estragando, diz-se que CHABAÇARAM tudo.

Ao granizo chamam ÁGUA DE PEDRA.

O diminutivo “ito” é muito utilizado, como em CANITO (cãozinho) e PANITO (pãozinho). O pão classificam-no em PÃO PADEIRO e pão caseiro.

DORMIR A FOLGA é dormir a sesta.

Estar DELIDA é estar muito fraca.

Fazer uma coisa À FEDOCA é realizá-la desajeitadamente.

O alcoutinense usa com frequência a expressão JOGAR A MÃO que não é fácil de caracterizar. Jogar a mão não é a mesma coisa que deitar a mão. Jogar tem o sentido de um acto efectuado com habilidade e com o objectivo que há em qualquer jogo - ganhar.

CORTO usa-se em vez de cortado, como DEBOTO em vez de debotado.

Um BOQUEIRÃO é uma boca grande (entrada) na parede, tipo janela, por onde era introduzida a palha no palheiro.

PADEJA-SE com a pá na eira para acabar de limpar o trigo.

Quando qualquer coisa amarga bem, diz-se que AMARGA QUE NEM UM PIORRO (SERÁ PIORNO ?)

Um PAU DE ARAME é um poste e uma ESQUILA um pequeno chocalho que se utiliza nos animais.


TUPIR usa-se por entupir e SOVÃO por cevão.(4)

POLEIRÃO é um alto, um galo e uma SOFINA um pau que serve de pregadeira. Ser MALINO é ser irrequieto.

Estar uma CALMENZORRADA é estar muito quente, onde não corre bafo de ar e o sol não aparece. É um calor abafado.

ESCAMALHAR é um verbo muito utilizado que significa espalhar.

Diz-se CAFÉ PRETO para o distinguir do café com leite.

Andar por esses XARASES quer dizer andar por esses campos cheios de estevas (xaras).

COME QUE SE DESUNHA - come tanto e tão sofregamente que parece querer comer as unhas !

Muitos e talvez mais expressivos estribilhos, expressões e termos podiam ser referidos apesar da lista apresentada não ser propriamente curta. Indicámos os que mais nos impressionaram e de que tomámos nota.
Qualquer leitor que conheça o concelho lhe encontrará falhas e faltas.

NOTAS
(1) - Guia de Portugal, Raul Proença, 1927 – pág.189.
(2) - Um registo de mina de manganês feito em 26 de Junho de 1863, situa-a nas ensemalhas do barranco do Brejo e Águas Nascidias.
(3) - Entre muitas outras, consta da acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Janeiro de 1850.
(4) - Li no Diário de Notícias de 25 de Dezembro de 1996, o seguinte título: “Em Alcoutim come-se o sovão de criação”.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mexilhoeira Grande - Ensaio monográfico


Este trabalho monográfico de 196 páginas de formato 16X23 numa edição Edições Colibri/Câmara Municipal de Portimão, é da responsabilidade de Helga Maria Lopes Rosa.

Desenvolvendo catorze capítulos que vão desde a Caracterização Geográfica até à Gastronomia, passando pelas informações politico-administrativas, demográficas,
económicas, patrimoniais, tradicionais, etc. fornece-nos uma leitura agradável que nos faz entrar no modus vivendi daquela freguesia do concelho de Portimão.

As ilustrações, ora a preto e branco, ora a cores, valorizam e completam o trabalho.
Com edição de Novembro de 2001 só o encontrei este ano numa livraria de Tavira, onde o adquiri.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

As confrarias na Igreja de S. Pedro de Vaqueiros


Já temos abordado de uma maneira muito superficial este assunto, quando nos temos referido às Igrejas Matrizes das Freguesias.

Hoje iremos tentar ligar alguns dados que temos recolhido ao longo dos anos e referente à igreja desta freguesia, que segundo Silva Lopes data de 1583 (1), uma das mais antigas em instituição no Algarve. (2)

As Confrarias são instituições provenientes da Idade Média, imbuídas de forte espírito religioso e de fraternidade cristã, zelavam pelo culto do seu santo padroeiro e apoiavam os mais necessitados.

Possuíam muitas vezes o seu altar nas igrejas e regiam-se por um compromisso, administrando os seus bens, elegendo anualmente mordomos, juízes e escrivães.

Ao papel importante que desempenharam nos séculos XVII e XVIII, sofreram grande quebra com o triunfo liberal e mais tarde agravado com o republicanismo.

Temos referência, no decorrer dos anos, a seis confrarias:- das Almas, do Ss. Sacramento (existente em todas as igrejas paroquiais do concelho), de Nª Sª do Rosário, de Sta. Luzia, de São Brás e de S. Luís.

A referência mais antiga vai para a de Sta. Luzia, que já existia pelo menos em 1707 e que teria chegado pelo menos a 1809, visto ter havido um livro de receitas e despesas com estas duas datas extremas.(3)

O cura António de Barros que respondeu ao questionário de 1578, respostas que vieram dar origem às Memórias Paroquiais, indica como confrarias existentes, a do Santíssimo, outra do Rosário e outra das Almas.
Admira-nos a falta da de Sta. Luzia que em 1799, juntamente com a de S. Brás eram as únicas que possuíam saldo, sendo o da última, 2 108 réis.(4)

Em 1876 só existiam em Vaqueiros três confrarias, precisamente as mesmas que são indicadas 118 anos antes (1758) Sabe-se que em 1880 (5) foram enviados ao Governador Civil os inventários dos bens pertencentes às extintas confrarias do Ss. Sacramento e das Almas.

O Administrador do Concelho pergunta ao prior da freguesia se existe na mesma alguma confraria de igual natureza a quem poderiam ser entregues os bens inventariados ou se antes conviria dar posse dos mesmos à respectiva Junta de Paróquia ou ainda destiná-los para subvencionar o ensino público da freguesia. (6)

A resposta não se fez esperar, opinando o pároco a sua entrega à Junta de Paróquia (7), o que se veio a efectivar em Julho de 1881.

Apesar do que atrás se disse, a confraria de Nª Sª do Rosário parece ter continuado activa já que num requerimento assinado por todos os seus membros se pede autorização para obrigar os foreiros a pagar judicialmente as suas dívidas. (8)

Esta confraria, em 1779/80 tinha comparticipado no restauro de dois retábulos da capela-mor. (9)

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NOTAS

(1)–Memórias para a história ecclesiastica do bispado do Algarve, Lisboa, Academia Real das Ciências, 1848, pág.357.
(2–Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol pág. 160.
(3)- A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao século XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, pág.47
(4)– Livro de Contas da Real Confraria de Nº Sª da Conceição, da Vila de Alcoutim, iniciado em 1785, pág. 15.
(5)– Ofício nº 128 de 19 de Setembro de 1880, ao Governador Civil de Faro.
(6)– Ofício nº 164, de 16 de Outubro de 1880, ao Prior da Junta de Freguesia de Vaqueiros.
(7)– Ofício nº 155 de 30 de Novembro de 1880.
(8)- Ofício nº 54 de 25 de Abril de 1882 do Juiz da Confraria de Nª Sª do Rosário.
(9)– A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. .XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985, pág. 46.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Porta de palheiro



Neste espaço do blogue que tem por título, Câmara Escura, já nos referimos ao Boqueirão, e além da fotografia procurámos explicar a sua necessidade e as razões das suas características.

A porta, rectangular, tem um lintel semelhante à do boqueirão, ora em grauvaque, representado por pedra estreita e comprida, ora à falta deste, paus de zimbro, de chaparro ou de zambujeiro por serem as madeiras mais rijas, mas de preferência a primeira, tudo por aqui existindo com relativa facilidade.

Para a base da entrada procuravam lajes rijas, mas onde fosse possível efectuar com as suas ferramentas rudimentares um buraco redondo. Para as ombreiras procurava-se que as pedras mais facetadas se fossem sobrepondo de maneira que os lados da porta ficassem o mais direito possível.

Não existiam batentes.

Três ou quatro tábuas eram unidas através de outros tantos sarrafos transversais, mais encorpados do que as tábuas, que ficavam para o interior e onde as tábuas se pregavam. Raramente possuíam postigo, esse sim destinado às portas das casas e de uma estrutura diferente.

Sem batentes, como é que a porta girava?

O homem que pelas mais variadas razões vivia, ou vive, afastado daquilo que é hábito chamar a civilização, as suas necessidades de sobrevivência obrigavam-no (ou obrigam-no) a ser criativo, resolvendo os problemas com o pouco que dispõe.

Foi assim que o homem destas paragens pensou resolver o problema que se lhe deparava, arranjar um pequeno ramo seco de chaparreiro, (ou das outras árvores em alternariva) com uma determinada curvatura, consoante o tamanho da porta. Limpava-o com uma machadinha ou com qualquer outra ferramenta do tipo, desbastando os nós e afeiçoando um dos lados de maneira que se pudesse ajustar à porta.

Esta peça, para além de ser de uma madeira rija e durável, mantém os veios que não são cortados continuando assim com a sua estrutura natural que lhe proporciona consistência.

Se a porta é de uma folha, o que acontece na grande maioria das situações, o alcoutenejo procura arranjar duas peças destas o mais semelhantes possível, se são duas folhas, terá de arranjar quatro.

Quando os boqueirões são de portas de madeira, o procedimento é semelhante.

As peças de madeira, depois de fixas à porta através de pregos, (nos primórdios, de fabrico local) uma das pontas que fica um pouco saída, vai encaixar no buraco feito mesmo junto à ombreira, onde roda com facilidade, depois do devido afeiçoamento, constituindo assim um gonzo. Na parte superior o sistema é semelhante.
E como fechar a porta?

Recorria-se ao velho ferrolho feito nas forjas das redondezas pelo artesãos locais.
O ferrolho é uma espécie de tranca corrediça de ferro. Enquanto uma das extremidades era suportada e girava num pedaço de madeira fixado à porta, a outra ponta afiada introduzia-se num buraco da ombreira. A aldraba era imobilizada através de um cadeado muito rudimentar.

Naturalmente que os poucos e ainda existentes exemplares do que descrevemos estão a desaparecer aceleradamente na voragem do tempo.

A fotografia representa um exemplar que também já desapareceu.

É uma memória que fica para os vindouros.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Aureliano Mira Fernandes



Outro matemático de craveira internacional nascido no concelho de Mértola, mais propriamente na Mina de S. Domingos, em 16 de Junho de 1884.

Faz os cinco primeiros anos no liceu de Beja, entre 1897 e 1902 e os dois últimos em Coimbra, entre 1902 e 1904, matriculando-se de seguida na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Matemática.

Aderiu à greve estudantil de Fevereiro de 1907 o que lhe causou a reprovação do ano pois não apresentou o requerimento de concessão de perdão. No ano seguinte apresenta-se aos exames e obtém em todos 20 valores.

É Bacharel em 1909 e Licenciado no ano seguinte, igualmente com 20 valores.

Obteve o doutoramento na Universidade de Coimbra em Março de 1911 com a classificação máxima de M.B., 20 valores, tendo apresentado a dissertação Theorias de Galois / Elementos da theoria dos grupos de substituições, uma obra em que pela primeira vez em língua portuguesa se expõem princípios de doutrina de vários cientistas que vai desde Lagrange (1736-1813) até Jordan (1838-1922).

É logo nomeado por convite, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, Escola que serviu até se jubilar, em 1954. Aqui leccionou Matemáticas Gerais, Cálculo Diferencial, Integral e das Variações e Mecânica Racional. Ao mesmo tempo foi Professor de Análise no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras.

Teve uma passagem rápida pela política, tendo sido eleito em 1910 deputado das Constituintes pelo Partido Republicano, funções que depressa abandonou.

Em 1918 aceitou o convite para reger a cadeira de Análise Matemática no Instituto Superior de Comércio, onde teve como alunos Bento de Jesus Caraça e Duarte Pacheco.

Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa desde 1928 e esteve na Fundação da Sociedade Portuguesa de Matemática, sendo o primeiro presidente da Assembleia-geral.

Foi sócio correspondente da Real Academia das Ciências de Madrid.

Em 1943, juntamente com António Aniceto Monteiro e Ruy Luís Gomes, funda a Junta de Investigação Matemática.

Colaborou activamente com a Accademia dei Linceu, apresentando as mais variadas comunicações.

Publicou 97 trabalhos na sua área de investigação.

Aprendeu russo e latim línguas que escrevia e falava fluentemente.

Faleceu em Lisboa a 19 de Abril de 1958.

Na passagem dos 50 anos da sua morte foi homenageado pelos Correios com a publicação de um selo


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João Filipe Queiró, in Dicionário de História de Portugal, António Barreto – Maria Filomena Mónica (coordenadores, Vol. VII, Livraria Figueirinhas, Porto, 1999.

“O Prof. Mira Fernandes em selo do correio”, Geada de Sousa, in Alentejo Ilustrado On Line, 11.04.2008

http://www.universia,pt

Pt.wikipedia.org/wiki/

domingo, 7 de dezembro de 2008

Tremelgo, Monte de gente ilustre - Alguns respigos

Sair de Alcoutim à procura dos montes do Tremelgo, leva o seu tempo pois deverão situar-se a cerca de 36 km de distância, lá para os sítios da cumeada do Pereirão.

Tomamos o caminho da aldeia de Martim Longo, sede de freguesia a que pertencem. Continuando pela E.N. 124, três quilómetros percorridos após Martim Longo, encontramos um entroncamento à direita e seguimos por ele cuja estrada se vai estender até ao limite do concelho de Loulé, mais propriamente freguesia do Ameixial.

A construção desta estrada foi adjudicada em 1989, (1) até aí era um isolamento total.

O primeiro monte que encontramos, que se situa à nossa direita, é o Silgado, pequena povoação que desconheço se ainda é habitada, mas se o for, terá dois ou três moradores.

Continuando pela mesma estrada, asfaltada e com poucos declives, vislumbramos no lado direito, ao fundo o monte de Diogo Dias, de muito maior dimensão do que o anterior, mas para se alcançar, temos de percorrer um pequeno troço de acesso.

No lado oposto, mas sem se ver da estrada e igualmente com um pequeno ramal de acesso situa-se o monte do Azinhal.

Ainda se vão vendo alguns terrenos aproveitados agricolamente, mas na sua maioria destinam-se a pastagens, principalmente de cabras pois é considerada no concelho a zona de maior número destes pequenos ruminantes.

Na passagem de Diogo Dias encontrámos um abrigo para passageiros de transportes públicos, para assim se protegerem das intempéries.

Poucos quilómetros andados, encontramos a indicação dos montes que procuramos, à esquerda fica o designado Tremelgo de Baixo e seguindo por um estreito caminho, mas asfaltado, a pouca distância, vamos encontrar, em posição cimeira, o que nos falta, o Tremelgo de Cima e cujo caminho aí termina.


(O Monte do Tremelgo de Baixo, 2008)

É vulgar no país, e este concelho não é excepção, povoações com o mesmo nome serem distinguidas como a de cima e a de baixo, devido à sua situação, aparecendo por vezes, uma terceira, designada a do meio. Se umas vezes o topónimo se impõe a nível administrativo e geográfico, como é o caso, noutras assim não acontece, como por exemplo nas Cortes Pereiras ou em Santa Marta.

Vamos começar pelo topónimo para o qual não encontramos explicação plausível. Pretendem alguns compará-lo ao nome de uns peixes relativamente frequentes nas nossas costas e que produzem descargas eléctricas.

Se o topónimo se pode justificar na Figueira da Foz, onde existe, não nos parece o mesmo em relação ao concelho de Alcoutim.
A sua explicação poderá estar em tremer e porque não em tremedal que o Elucidário de Viterbo indica como campo ensopado em água.

O arranjo dos arruamentos foi concluído em 1991 (2) e a água ao domicílio em 2002. (3)

O Monte de Baixo tem mais fogos e consequentemente maior número de habitantes.

O seu conjunto possuía em 1911, 64 habitantes, passando em 1940 para 84. Vinte anos depois já tinha descido para 56, tendo-se estabilizado durante dez anos pois em 1970 tinha 54. Em 1981 contavam-se 32 para no censo de 1991 estar reduzido a 15!
Em 2008 o Monte de Cima tinha quatro moradores.

O Pároco que respondeu ao questionário que deu origem às Memórias Paroquiais (1758) não indica individualmente o número de fogos dos trinta e seis lugares, povoações ou montes, como a eles se refere. Indica-o como Monte do Tremelgo, sem qualquer separação.

Em 1932 a Comissão Administrativa da Câmara Municipal deliberou requerer ao Ministro da Instrução, do Governo da Ditadura Nacional, a criação de um posto de ensino (4), o que se veio a verificar devido ao número relativamente elevado de crianças. Este posto foi mais tarde, durante o período político marcelista, como aconteceu a todos os outros, transformado em Escola, sob a responsabilidade de um professor oficial e não de regente escolar.
Foi entretanto construído um edifício de raiz, próximo do Monte de Baixo e que se encontra devoluto devido à sua extinção

A pastorícia, principalmente de gado miúdo, caprino e ovino, foi sempre a actividade deste povo e que ainda hoje se mantém por parte do reduzido número de habitantes. Nos tempos passados, e como não podia deixar de ser, o cultivo dos cereais era indispensável para a manutenção da vida.

Estas pequenas povoações, aqui e desde há séculos designadas por “montes”, tiveram origem na maior parte dos casos em grandes herdades, propriedade de opulentos (para a zona) senhores que com o decorrer dos séculos se foram desmembrando por vendas e partilhas. Se nalguns casos o nome das povoações é proveniente de antropónimos (Diogo Dias, Pêro Dias, Bentos, Vicentes, Afonso Vicente, etc), em outras situações perdurou o nome das herdades (Palmeira, Soudes, Zorrinhos, Castelhanos, etc.)


(O Monte do Tremelgo de Cima, 2008)

Tremelgo deve ser um caso semelhante atendendo à categoria de seus filhos que, apesar da distância a que se encontravam da sede do concelho, nela desempenharam funções político-administrativas importantes.

Desde o Capitão Baltazar Fernandes, passando por seu filho, Cap. Martinho Fernandes, pai pelo menos do Cap. Diogo Mestre Guerreiro (n.1747), várias vezes Provedor da Santa Casa da Misericórdia entre 1771 e 1802 (5) que por sua vez deixou dois filhos, o Cap. Jerónimo Mestre Guerreiro e o Cap. José Guerreiro Mestre (n.1809), até um Sebastião Teixeira (um dos vários que com este nome existiram no concelho e que confundem os genealogistas) que casou em 1692 e que, segundo parece, pretendeu habilitar-se a um lugar no Santo Ofício. (6)

De datas posteriores encontramos o Alferes (de Ordenanças) António Joaquim (1834), Manuel Guerreiro, Juiz Eleito de Martim Longo em 1852/53, José António da Costa, exercendo as mesmas funções em 1858 e que em 1872 era vogal efectivo do Concelho Municipal.

O irmão do Provedor Diogo Guerreiro, Capitão José Guerreiro Mestre, foi membro do Conselho Municipal em 1842.

Aqui ficam os elementos que consegui compilar.
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NOTAS
(1) - Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989.
(2) - Boletim Municipal nº 9 de Dezembro de 1991
(3) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 7
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Janeiro de 1932.
(5) – Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia), José Varzeano, 1985, ps. 249 e 250.
(6) – Alguns dos dados foram obtidos através de http://www.gneneall.net (Fórum)