sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Montes desaparecidos ou despovoados na freguesia de Alcoutim

Quanto à freguesia de Alcoutim, as Memórias Paroquiais (1758), referente a este aspecto, de todos os “montes” que indica, nenhum desapareceu ou está despovoado, mas caminha-se a passos largos para que isso aconteça, principalmente em dois, ambos com três residentes fixos, ainda que tenham normalmente residentes acidentais.

O pároco encarregado de responder ao questionário, não indica o monte de Corte das Donas, certamente por lapso, uma vez que como tudo indica já existiria.

A nível da freguesia da sede do concelho, encontramos referências à Grandaça onde em 1771 vivia André Gomes que fazia o manifesto dos seus gados, o mesmo acontecendo com Manuel Rodrigues. Pelo menos em 1858 ainda era habitado.

A Herdade da Grandaça pertenceu aos Condes de Alcoutim e foi alienada em meados do século passado.


[Antigo Posto da G.F. do Vinagre. Foto JV, 2009]

Na zona rústica conhecida por Vinagre e considerada das mais ricas em olival nas redondezas, o que ainda hoje se pode provar pelos elevados impostos com que os terrenos são taxados, igualmente existiria um ou outro fogo disperso e cerca de 1890 foi construído o posto da Guarda-Fiscal que foi adquirido por um particular e ainda existe.

O Sr. António Francisco que foi coveiro no cemitério de Alcoutim durante muitos anos, era conhecido por António do Vinagre por ter lá nascido e sido criado.

Entre a Vila e o Marmeleiro existiu um fogo de que ainda há pouco tempo existiam ruínas e onde viveu José António Duarte Moura, contista que deixou retratada a vida alcouteneja dos anos trinta e quarenta e que foi funcionário da F.N.P.T. (Celeiro).

Os Anuários Comerciais da primeira metade do século passado ainda o indicam como habitado e designam-no como Montinho.

Antes do Montinho das Laranjeiras existia a Casa Velha ainda habitada em meados do século passado.

[O Brejo. Foto JV, 2009]

O Brejo chegou quase aos nossos dias. Situado nas proximidades do castelo-velho, possuía um poço que dava muita água proporcionando um bom hortejo.

Hoje os telhados já caíram e restam as paredes que se vão degradando cada dia que passa.

Pela foto recente apresentada ainda se podem ver algumas árvores mais mimosas.

[Monte dos Currais, Cortes Pereiras. Foto JV]

O Monte dos Currais, próximo do S. Martinho, faz parte das Cortes Pereiras Já o visitámos uma vez. Chegando ao S. Martinho, cortámos à esquerda apanhando o caminho à beira do qual segue o traçado dos postes da energia eléctrica

Três ou quatro centenas de metros andados, estamos chegando ao monte que se situa numa pequena elevação, que está desabitado e mesmo abandonado. Parece que o último morador faleceu em 1988.

Foi sempre um monte pequeno. Nos anos setenta ainda tinha três fogos habitados e poucos mais seriam.

Aqui viveu Manuel Roiz (Rodrigues), pessoa de certa notoriedade local já que fez parte da Junta de Paróquia de Alcoutim, pelo menos em 1850/51.

Talvez não seja descabido pensar e devido ao número reduzido de fogos e a alguma abastança de terras que o monte teria sido fundado pela família Rodrigues.

O aspecto era desolador. Só uma casa se encontrava fechada. Muros derruídos pelo tempo. Telhados caídos pelo abandono. Entre as paredes, ainda se podiam ver restos de peças que serviram os seus habitantes, como camas e potes de barro.
Estava de pé uma chaminé com algum interesse. Anotámos um boqueirão com portas e lintel de madeira e poiais cobertos por lajes de xisto. Nas redondezas os currais que originaram o topónimo, não estes mas outros desaparecidos e que foram substituídos. A actividade principal destas gentes não podia deixar de ser a pastorícia.

Se a tristeza nos invade com esta desolação, ficamos satisfeitos com o ar puro que respiramos e a magnífica vista que podemos desfrutar. Dali se avistam a antiga escola, o São Martinho com os restos da sua capela, Monte Longo, Casa da Amêndoa, muitíssimo bem o Monte do Sol e o Curral da Arvela.

Se mais não fosse, só por isto merece a pena lá ir.

[Corte Miguel. Restos de paredes. Foto JV]

Outro monte que teria existido, situava-se para além de Afonso Vicente e a caminho da Ribeira do Vascão. É conhecido por Corte Miguel e um local a que as gentes das redondezas atribuem grande antiguidade Ainda se podem ver restos de paredes e rusticamente a zona ainda é assim designada.

Nunca encontrámos qualquer referência nas pesquisas que efectuámos no arquivo histórico da Câmara Municipal ou no da Misericórdia, o que nos tem admirado.

A arqueóloga, Prof. Doutora Helena Catarino refere o seu abandono provavelmente nos finais do século XVII ou no século XVIII, pois as prospecções revelaram apenas restos de montes de pedra e alicerces de casas de época moderna. Considera também que o seu povoamento pode estar ligado à exploração mineira da Herdade da Ferrugem.

O “Monte das Poupas” de que encontrei leve referência em documentação consultada, situava-se próximo dos Balurcos, é o único dado que podemos fornecer.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

História de Portugal, V I I volume [1807-1832]


HISTÓRIA DE PORTUGAL, VII VOLUME [1807-1832]

O VII Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo, abrange o período A INSTAURAÇÃO DO LIBERALISMO, tem 541 páginas e foi publicado em 1984.

Até agora todos os volumes têm referências a Alcoutim, o que não acontece com todas as vilas e sedes do concelho do país, provando-se assim a importância que a vila desempenhou nos períodos que o insigne Historiador já abordou.

Neste período, bastante sentido em Alcoutim, o autor faz duas referências que iremos indicar:

A revolta no Algarve

Pág. 49

A Câmara de Faro fizera saber a todas as outras de que a luta era sem quartel (…) “enquanto houvesse Cidade Villla ou Aldeia que viva dominada da tirania Franceza”(...)
Não admira pois que a sublevação no Baixo Alentejo tivesse recebido um forte apoio da zona meridional, sendo Alcoutim, São Brás de Alportel, Mértola e Silves focos de penetração da revolta para o interior.

Revoltas no Porto e no Algarve

Pág. 408

Também o Algarve entendeu opor-se à marcha de D. Miguel para a realeza
(…)
Embora reduzidos à impotência, não eram poucos os defensores das ideias liberais em Alcoutim (…) que optaram então por uma política de resistência.

Como se vê, são curtas as referências mas bem elucidativas da acção contra o inimigo francês e o absolutismo de D. Miguel e seus partidários.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Monte Longo



Esta fotografia tirei-a em Agosto de 1986, por isso, passaram-se já vinte e três anos!
Pelo nome, a esmagadora maioria dos alcoutenejos, e refiro-me ao concelho, não sabe onde se situa. Em contrapartida eu pergunto:- Quem sabe onde se situa o Monte do Vale do Asno ou Valdasno? Acontecerá a mesma coisa se não for pior.

A denominação é praticamente apenas conhecida pelos moradores do monte e pelos das redondezas. Tirando isso, será uma excepção o seu conhecimento.

As construções existentes eram quase todas ainda de paredes de xisto e grauvaque e telha de canudo.

O troço de acesso era de terra batida, só ao longe havia vegetação.

Entretanto as construções foram quase todas recuperadas dando lugar às novas.

O local era movimentado. O estabelecimento comercial tinha sempre gente. Juntavam-se com facilidade, vinte ou trinta pessoas.

E, melhorou muito, até já possui saneamento básico, mas depois da apresentação de todos estes melhoramentos eu concluo: ESTÁ BASTANTE MAIS POBRE!

Tem tudo o que referi mas falta-lhe o seu melhor: GENTE.

A população vai decrescendo assustadoramente.

Para quem não sabe, direi que o Monte Longo é um dos submontes que constituem as Cortes Pereiras e assim já a grande maioria conhece pelo menos o nome.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Menino de Alcoutim visita cidade grande

Pequena nota
Mais uma interessante história verídica e contada por um menino alcoutenense que com cerca de 5/6 anos sai do seu ninho para conhecer um Mundo diferente que acabou por fasciná-lo. Apesar de se terem passado setenta anos mantém na sua privilegiada memória o que na altura viu e sentiu.
JV






Escreve
Gaspar Santos






Minha Mãe e eu fomos a Beja em 1939. O convite era de meus tios que lá moravam. Era a primeira vez. Foi um deslumbramento sobretudo para os olhos. Tudo era novo para mim. Minha Mãe viajava muito preocupada. Tinha receio de que eu tivesse medo de entrar na camioneta e ficássemos a meio caminho em Mértola, sem ter programado uma decisão alternativa. É que eu, por ter medo, já recusara uma viagem ao Pereiro, à Feira de S. Marcos.

O deslumbramento começou logo na contemplação do Rio Guadiana e de suas margens. De tal maneira que ainda hoje o meu imaginário ambiciona repetir essa viagem do Pomarão até Mértola. É um forte desejo ver outra vez a Penha d’ Águia, os vaus onde o gasolina só passa na preia-mar (maré cheia). De um dos vaus os barqueiros até dizem que os “barcos têm que sair do Rio!”. Há as ameaçadoras rochas que as águas límpidas deixam ver. Em Mértola, no rio, a ponte barca (que já não existe), fazia a passagem de pessoas, animais e veículos para a margem esquerda, sobretudo para as Minas de S. Domingos. Era um barco caixotão guiado por duas correntes e movido por manivela que um homem rodava. Nunca tinha visto nada parecido.


[O porto fluvial do Pomarão]

Afinal foi pacífica a minha entrada na camioneta em Mértola. E a viagem até Beja foi a continuação do meu encantamento.

Em Beja impressionou-me o tamanho da cidade, o casario e o grande número de pessoas nas ruas. Mas como recordação, que ficou a traço mais forte, foram de longe, o Museu e o jardim.

[A Vila de Mértola com o seu cais]

O Museu ficava na mesma rua em que moravam os meus tios. Depois de saber o caminho visitava-o todos os dias. No trajecto passava por uma casa de costura. Lá trabalhavam cerca de 10 costureiras, que me cumprimentavam e me faziam muitas perguntas. Eu respondia embaraçado e envergonhado. Falava baixo, com voz fanhosa, incompreensível para elas, que pediam para repetir. Eu lá repetia como podia mas sem que previamente não tivesse que limpar várias vezes a garganta, tossindo. Depois destas conversas quotidianas lá ia até ao Museu. Ali deixavam-me entrar e apreciar quase religiosamente os objectos expostos.

[Biciclo]

Ainda hoje me lembro daquele que mais me impressionou. Era uma bicicleta, sem corrente, com os pedais ligados rigidamente à roda da frente, que era enorme em comparação com a minúscula roda traseira. De outros objectos expostos, que também me impressionaram, não recordo hoje nem um.

Ao jardim, ia sempre acompanhado, pois era mais longe. Impressionaram-me a beleza do arranjo e organização dos espaços, os caminhos entre relvas e flores, um lago com cisnes brancos que vinham morder os nossos sapatos, sem magoar; e, sobretudo… um automóvel a pedais.

Este automóvel fazia-me sentir autónomo, pois com o volante e os pedais era possível ir para onde quisesse. Discretamente e com simpatia, um guarda exercia a sua vigilância e a sua ajuda sem que eu suspeitasse. A experiência não me era desconhecida pois em Alcoutim os irmãos Fernando e João Dias já me tinham deixado conduzir o carro deles. Mas aqui era outra coisa. Estava mais livre, mais solto.
No regresso sei que mantive a mesma curiosidade e os olhos registaram o que lhes foi possível mas que o decorrer do tempo já esbateu.


[Jardim de Beja]

Vale a pena reflectir sobre como eram por ali os transportes nesse tempo. Para se viajar de Alcoutim para Beja, tínhamos que programar previamente a viagem. Utilizar um dos dois “gasolinas” de Alcoutim para Mértola, que tinham horário variável com as marés, em dia em que esse horário permitisse que tomássemos a camioneta de Mértola para Beja, com horário fixo. Era assim por não haver estrada para Mértola. Essa estrada só foi construída quase 10 anos depois, em 1947. Lembro-me de assistir à construção da Ponte sobre o Rio Vascão que une o Algarve ao Alentejo e o nosso concelho ao de Mértola.

Entre Vila Real Stº António e Mértola, além dos barcos à vela, atracavam em Alcoutim dois barcos a motor os “gasolinas” com carreiras diárias. Um era conduzido pelo mestre Manuel Enguiço e o outro pelo mestre Francisco Simões, casado com uma das irmãs Balbino.

De camioneta no final dos anos 30 já se podia ir até Vila Real Stº António.
Hoje, com a facilidade de transportes que temos, muitos nem acreditam, como nesse tempo era uma demorada aventura a viagem a Beja.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O "monte" do Coito, subsidiário da Herdade dos Coitos

Pequena nota

Neste blogue dedicado a Alcoutim e ao seu concelho, a freguesia do Pereiro tem sido menos referida e isto nada tem a ver com menor apreço.
Acontece que o último trabalho em papel que demos a público e que realizámos com muito prazer, tem por título A FREGUESIA DO PEREIRO (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»», numa edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007. Como tal, pouco tenho a acrescentar sobre o assunto.
É-me chamada a atenção por quem nos acompanha de perto neste trabalho, para o facto de que muitos visitantes / leitores do ALCOUTIM LIVRE não possuem ou não conhecem a referida publicação e isso não deve obstar a que esta freguesia seja divulgada, através desta técnica de comunicação.
Ponderada novamente a situação concluímos que a chamada de atenção tinha plena justificação e resolvemos começar a publicar temas sobre a freguesia por adaptação do que se escreveu em livro, não se deixando de referir qualquer novo elemento de que tenhamos conhecimento.

JV

[Monte do Coito. Foto de JV, 2008]

Se estivermos na Vila de Alcoutim e pretendermos encontrar esta pequena povoação, atravessamos a ponte sobre a ribeira de Cadavais e seguimos pela estrada municipal 507. Passamos pelas Cortes Pereiras, depois deixamos à direita Afonso Vicente e alcançamos a EN 122. Tomamo-la à direita e pouco depois voltamos à esquerda retomando a estrada 507.

Entramos numa zona semiplana e quase desprovida de arvoredo e onde a esteva abunda, aparecendo de vez em quando a roselha.

É uma zona agrícola pobre, sendo aproveitada para a apascentação de gado miúdo. É vulgar verem-se rebanhos de pequenos ruminantes.

Do lado direito notamos numa pequena baixa um charco onde o gado bebe e à esquerda e a alguma distância, dois moinhos, o branco para a transformação do trigo em farinha com vista ao fabrico do pão e o preto destinado a rações para animais. É tradição que foram mandados construir pelo espanhol, D. Miguel Angel de Leon que presidiu à Câmara de Alcoutim e veio a ser barbaramente assassinado.

Pouco depois, vislumbramos à direita uma pequena povoação. Alcançamos assim, o Monte do Coito que a placa toponímica refere. Do lado direito da estrada, o velho poço público com bomba elevatória e pequeno lavadouro.

A notícia mais antiga que possuímos da povoação, é a que nos dá o pároco local, António Corrêa nas Memórias Paroquiais (1758) respondendo ao questionário em que a designa como Couto e lhe atribui 20 vizinhos com 67 pessoas.

Em quadro anexo à Corografia do Algarve, Silva Lopes dá-lhe para o ano de 1839, 18 fogos o que se assemelha ao primeiro dado apontado.

Já em 1771, Domingos Dias, aqui residente e numa tradição de pastorícia que a zona encerra, procedia na Câmara ao manifesto dos seus gados, constituído por reses.


[Charca da Herdade dos Coitos]

O topónimo deve de estar relacionado com o privilégio do Pereiro ter sido couto para determinadas situações ou talvez com mais propriedade pela proximidade da Herdade dos Coitos, no extremo da qual se situava, que foi património municipal e que originou vários problemas. A herdade estendia-se entre Santa Marta e esta povoação que viviam subsidiariamente dela.

Coito ou Couto significa terra defesa cujos moradores gozavam antigamente de privilégios e isenções.

Para resolver problemas monetários, a Câmara volta a sua atenção para esta herdade, propondo e aprovando em 1854 dividi-la em pequenas courelas e ferragiais junto dos montes do Coito e de Santa Marta.

Para proceder à divisão, foram nomeados Manuel Bartolomeu, de Afonso Vicente, Manuel Vilão, do Coito e Manuel Afonso Corvo, de Sta. Marta.

Em 20 de Agosto desse ano a Câmara foi em “comissão” ao Coito proceder à divisão e demarcação dos ferragiais para serem arrendados. As coisas não deviam ter decorrido com muito sucesso, já que o Administrador do Concelho mandou levantar auto sobre os acontecimentos que tiveram lugar no monte do Coito, onde aquele povo, reunido com o de Santa Marta, cometeu o excesso, segundo a Câmara, de arrancar os marcos que esta tinha mandado colocar.

A Câmara agradece ao administrador as providências que tomou para conhecer quem foram os principais mentores da assuada que lhe foi feita.

Durante anos foi posta a arrematação “as rações dos coitos do concelho” que acabou por ficar devoluta durante quatro anos “sem haver quem nella queira lavourar depois que a Câmara decidiu não dar terra de renda.”

Esta decisão municipal encontrou grande oposição por parte do povo de Sta. Marta e do Coito, montes que viviam muito na sua dependência como já se afirmou.

A Edilidade acabou por decidir o arrendamento pelo prazo de seis anos, o que foi arrematado por José António, de Sta. Marta, pela quantia de 40$000 réis anuais, sendo o primeiro pagamento feito por Santa Maria de Agosto de 1859.

Esta situação de arrendamento e à mesma pessoa mantém-se até 1873.

A herdade veio a ser vendida, pensamos que a quem a trazia de renda, pois na sessão de 15 de Novembro de 1873 são apresentados cinco títulos de inscrição de dívida interna fundada, no valor de dois contos duzentos e cinquenta mil réis, provenientes da troca da venda da Herdade dos Coitos. (1)

[Roselha]

Joaquim da Palma, aqui residente, fazia parte da Junta de Paróquia do Pereiro em 1870/71, nomeado pela Câmara Municipal e fez parte da comissão encarregada de proceder à inspecção directa e avaliação dos prédios situados nesta freguesia e para feitura das novas matrizes prediais, isto em 1874 e por indicação da Junta de Paróquia.

Os moradores intercederam em 1878, junto da Junta de Paróquia no sentido da mesma requerer à Câmara Municipal, oito mil réis de subsídio para reparar e aprofundar o seu poço público devido ao mau estado em que se encontrava e à estiagem. (2)

Em finais da década de trinta do século XIX, Joaquim Costa era considerado o lavrador deste monte.

Numa visita que lhe fizemos em 1992 não vimos portas ou janelas de alumínio, o que na altura já era difícil de encontrar.

Boqueirão em ruína. Portas com postigo. Casas caiadas. Parreiras às portas. Duas “carrinhas” algarvias. Uma banca onde se mata o porco. Pilheira para arrefecer o tacho das papas.

[Esteva]


À volta do monte os terrenos estão limpos e os pequenos hortejos vicejam com algum arvoredo.

Há energia eléctrica com cabina no meio do monte.

A pavimentação dos arruamentos foi concluída em 1991. (3)

Foram instaladas caixas de recepção do correio em 1997.

Depois de ter sido abastecido por cinco fontanários, a água é levado ao domicílio em 2002 mas não existe sistema de esgoto.

Em 1995 e mantendo a tradição ainda havia no um rebanho de ovinos com quinhentos cabeças.

Para terminar referiremos os números estatísticos apresentados nos dois últimos censos populacionais. Em 1991 eram identificadas 19 pessoas constituindo 6 famílias. Dez anos depois as famílias eram 6 e os residentes apenas 9, sendo seis do sexo masculino.

Desconhecemos os números actuais que devem ter naturalmente descido.

Mais um monte que caminha aceleradamente para a desertificação.

NOTAS
(1)–“A Capela de Santa Marta (a velha) e o monte do mesmo nome, na freguesia de Alcoutim”, José Varzeano, in Jornal do Algarve de 26 de Abril de 1990.
(2)–Acta da Sessão da Junta de Paróquia de Pereiro de 14 de Julho de 1878.
(3)–Boletim Municipal, nº 9 de Dezembro de 1991, pág.2

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um período de desordens em Martim Longo

[Vista parcial de Martim Longo]
Num curto período que não chegou a uma dúzia de anos, ocorrido nos finais do século XIX, meia dúzia de indivíduos punham frequentemente a aldeia de Martim Longo em alvoroço, como tentaremos explicar.

Pelas 6 horas da tarde do dia 9 de Setembro de 1877, deu-se uma desordem em casa de Bento Cardeira, entre J. M., M. F. e A. P., todos da aldeia de Martim Longo, de que resultou ficar ferido o primeiro. Levantou-se auto de corpo de delito que com os agressores foi remetido para a Administração e entretanto enviado ao Juiz de Direito da Comarca. (1)

Em 1882 (2) o Administrador do Concelho chama a atenção do Regedor da Paróquia de Martim Longo no sentido de manter a ordem, como lhe compete, proibindo a “Lei Municipal” as vendas abertas depois do toque das Almas, impondo uma pena a quem transgredir tal lei. E continua o Administrador: deverá mandar intimar os vendedeiros para de futuro fecharem as vendas logo que se dê o toque das Almas e quando assim não acontecer, denunciá-los perante o Juiz Ordinário do Julgado.

Acrescenta ainda que quando for dada voz de prisão a qualquer indivíduo, mesmo que se tenha evadido, logo que apareça, pode e deve ser preso e remetido com a competente participação do crime, no qual conste o nome das testemunhas, à Administração.

Dois anos depois o Regedor participa ao Administrador que frequentemente ali acontecem desordens, sendo-lhe “dificultoso o puder obstar procedimentos tais e muito mais a efectuar qualquer prisão em consequência da falta de comparência de cabos de polícia”.

Para tentar resolver a situação o Administrador oficia ao Chefe da Secção Fiscal de Alcoutim, observando:- Visto (...) achar-se colocado em aquela aldeia um posto fiscal, rogo por isso a bem do serviço de polícia se digne dar àqueles empregados, como subordinados, (...) as convenientes ordens a fim de auxiliarem o Regedor, quando necessário, a fim de se poder manter a ordem pública. (3)

Não sabemos se o auxílio solicitado pelo Administrador foi satisfeito, mas é possível que não ou se o foi, teria sido em termos insuficientes. Dizemos isto pelo que adiante referiremos em face dos documentos consultados.

[Rua Antero Cabral, Martim Longo]

Em 1888 (4) o Administrador “ataca” o Regedor da Paróquia acusando-o de que não “cura” como deve da sua autoridade porque havendo na aldeia contínuos distúrbios, escândalos e exposições indignas, praticados por um tal A. N. e outros de igual plano, não age de maneira a manter a ordem pública.

Destes escândalos recebeu o Administrador queixa por parte de habitantes da aldeia.

O Administrador tendo noção que o Regedor não tem força para impor a sua autoridade, solicita que o informe se é efectivamente essa a realidade para que possa requisitar certo número de polícias, os quais juntamente com ele, farão entrar os transgressores na ordem.

Efectivamente vieram a ser pedidos três polícias para a aldeia, onde certos desordeiros praticam toda a casta de distúrbios, patifarias, resistindo e mofando da Autoridade, alterando assim a ordem pública a ponto tal de produzir um verdadeiro pânico em toda aquela povoação que à noite reclama providências. (5)

Em vista dos atentados brutais e ofensivos tão repetidas vezes cometidos por A. A. e J. G., ambos da aldeia, solicita-se ao Regedor que intime três testemunhas para comparecer na Administração. (6)

Este assunto apareceu devido ao analisarmos as fichas que tínhamos organizado verificarmos que havia umas tantas que diziam respeito ao mesmo assunto num período bastante curto. Meia dúzia de “tratantes”, como diz o Administrador do Concelho, deram origem a isto.

A gente de Martim Longo foi sempre cumpridora dos seus deveres, cordata e obsequiosa, nada tendo a ver com estes casos especiais que aqui só têm sentido histórico.


NOTAS

(1)-Of. nº 150 de 12 de Setembro de 1877.
(2)-Of. nº 53 de 25 de Julho, ao Regedor da Paróquia.
(3)-Of. nº 196 de 19 de Novembro de 1884.
(4)-Of. nº 232 de 13 de Outubro.
(5)-Of. nº 233 de 17 de Outubro de 1888.
(6)-Of. nº 192 de 8 de Novembro de 1889.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Rancho Folclórico e o fim de um Alcoutim romântico!!!

Pequena Nota

Temos hoje o grato prazer de oferecer aos visitantes/leitores do ALCOUTIM LIVRE o testemunho de um alcoutenejo que tem orgulho de o ser e que procura estar sempre informado do que se passa na sua terra natal. É, segundo confessa, um leitor assíduo deste cantinho que vagueia por esse Mundo fora!
Até agora foi o único visitante que respondeu ao repto que lançámos sobre o”Rancho de Alcoutim” e obter uma resposta já foi muitíssimo bom.
Entre as considerações que faz acerca do Rancho, com várias informações importantes, contempla-nos com uma excelente prosa sobre O FIM DE UM ALCOUTIM ROMÂNTICO de que conhecemos só os seus resquícios.
Fá-lo com grande realismo e acuidade recorrendo a uma escrita fluida, com um toque de graça, o que lhe é peculiar pelo que conhecemos de alguns textos que fez publicar num jornal regional.
Além das informações fornecidas, os nossos leitores poderão apreciar um estilo de escrita diferente do usado por nós e dos restantes colaboradores.
Daqui lhe agradecemos o seu contributo para o ALCOUTIM LIVRE, colocando-lhe o espaço ao dispor.
JV





(resposta ao seu repto de Dezembro/2009)







Colaboração de

Amílcar Felício



Fiz parte desse Rancho...

O Rancho Folclórico encerrou a última década de uma vida comunitária intensa em Alcoutim.

A mãe dessa iniciativa foi sem dúvida alguma o Mestre João Ricardo e a menos que alguém lhe tenha soprado a ideia, não me custa acreditar que tivesse sido também ele o pai da criança. O Rancho teve uma vida efémera com certeza, porque naqueles tempos os nossos objectivos eram apenas juntarmo-nos, conviver, divertirmo-nos, participar e neste caso concreto participar nas Festas de Alcoutim daquele ano.

Os ensaios eram realizados nas noites escaldantes de Verão ao toque do Clarinete do Mestre João, num armazém da Sr. Custódia Peres na Rua Escorregadiça enfrente à actual Pensão Afonso (a antiga padaria do Sr. Munhós), onde metade da Vila se juntava para assistir e de onde saíamos, como quem saía de um banho no Guadiana.

[Rua escorregadiça]
Analisando à distância estas pequenas iniciativas culturais e de diversão como o Rancho, os Cortejos de Carnaval organizados pelo Ti Marciano, as Tardes de Magia organizadas pelo meu pai, as Récitas ou pequenas Comédias no Teatro/Oficina do Mestre Pinto, os Mastros e as Fogueiras nos Santos Populares, a organização das Festas de Alcoutim em que toda a Vila se empenhava com entusiasmo durante mais de um mês a troco de nada, os serões familiares com os vizinhos à roda da braseira nas noites gélidas de Inverno, ou as amenas cavaqueiras nos poiais das casas nas noites escaldantes de Verão à espera que o fresco chegasse, o convívio na Sociedade para uma jogatana ou um copo e a sua Biblioteca dirigida pelo Sr. Antunes Guarda-Rios, com romances que muitas vezes não passavam de folhetins de jornais meticulosamente colados em forma de livro e que passavam de mão em mão a uma velocidade estonteante, a tradicional matança do porco aonde participava quase toda a vizinhança quer na lavagem das tripas na ribeira, quer na azáfama do tratamento das carnes até à confecção da saborosa moleja para o almoço, as jogatanas periódicas de Futebol contra os Espanhóis, os de Martinlongo ou de Mértola, a organização regular de Bailaricos, as tradicionais Testadas, os Contractos na Páscoa, o Dia das Comadres, o Dia da Espiga, o passeio ao Pezinho da Nossa Senhora, as patuscadas frequentes entre a rapaziada com galinhas de um modo geral subtraídas aos galinheiros das casas mais abastadas, os passeios alancharados de confraternização da juventude nomeadamente ao Brejo etc., tudo não passava de iniciativas de uma comunidade fechada sobre si própria, solidária, que inventava a sua própria cultura e meios de diversão.

[Edifício onde funcionou a sede do C.1º D]
Como sabe Televisão não existia, Rádios contavam-se pelos dedos de uma mão, iniciativas dos poderes públicos nestas áreas nem pensar (nem nas outras...), Cinema Ambulante lá vinha uma vez por ano quanto muito e a memória que me ficou foi de ver, voltar a ver e a rever o velho Chaimite, baluarte ideológico do regime (!) e salvo erro O Jozelito Coração de Ouro... restava-nos portanto juntarmo-nos, inventar e divertirmo-nos!

Quem diria naquela época que estávamos no fim de um Alcoutim Romântico que a crise dos princípios da década de 60 destruiria para sempre, espalhando-nos por esse mundo fora! Acredite que é uma sensação estranha quando encontro um alcoutenejo daqueles tempos. E a sensação é recíproca, às vezes até as maganas das lágrimas nos saltam sem querermos! É uma mistura de enorme felicidade, melancolia, nostalgia, eu sei lá... é a sensação de termos pertencido a um outro mundo mais perfeito, sem vaidade, sem ódios nem invejas enfim, um mundo de afectos que nos percorre a flor da pele e que só continua a existir dentro de cada um de nós. Ficou na realidade uma química daqueles tempos, que nos marcaria como uma irmandade para o resto da vida! Fruto do isolamento em que vivíamos e de uma comunidade virada anos a fio sobre si própria, naturalmente...



[O Rancho de Alcoutim]

Mas vamos ao Rancho!
Penso que era importante uma pincelada sobre a época da sua formação, para uma melhor compreensão da sua existência.

Eu era o participante mais novo do Rancho e teria os meus 11, 12 ou 13 anos, pelo que a sua formação terá ocorrido em 1957, 1958 ou 1959, quanto muito 1960. Mas será fácil chegar ao ano exacto a partir do Cartaz das Festas de um desses anos.

As moçoilas reconheço-as quase todas. Da esquerda para a direita: a Bia Martinho, a Maria Antonieta (filha do Sr. Antunes Guarda-Rios), a Fernanda Canelas (filha mais nova do Sr. Carlos Sapateiro), A Chiquinha a cantadeira do Rancho (filha da Ti Ana e do Ti Justo Carteiro e tia do Zé Cavaco), a Ivone Baptista (irmã do Mário Baptista), a minha Tia Mariana, a Maria Elvira (filha mais velha do Sr. Carlos Sapateiro), a Dª Maria Rita Mário (não tenho a certeza) e a Senhorinha que era o meu par (filha do Sr. António Sapateiro). Em baixo segurando o estandarte está a Maria dos Anjos (já falecida) com o Mestre João Ricardo (seu pai) à direita e parece-me o Zé Serafim à esquerda. Em cima e da esquerda para a direita: o lº por exclusão de partes sou eu, o 2º ponho a hipótese de ser o Dimas (filho do Cabo da GNR da altura), o 3º é o Henrique Chapa de Aço (morava na casa ao lado dos seus sogros), o 4º é o Sr. Chico Canelas, o 5º não sei identificar, o 6º é o Joaquim Rita, o 7º parece-me o António Antunes irmão da Maria Antonieta, o 8º parece-me o Sr. Jacinto Sapateiro, não reconheço os 2 últimos elementos. Penso que o meu tio Zé Afonso e o Eleutério (filho do Mestre João Ricardo) também fizeram parte do rancho, mas não consigo reconhecê-los.

[O Alcoutim dos fins do "romantismo"]

A minha irmã falou recentemente com a Maria Antonieta sobre o seu Blog que desconhecia, e esta disse-lhe que ia informar o irmão que é muito interessado pelas coisas de Alcoutim. Possivelmente terá outras participações sobre este tema. O seu Blog continua a precisar de muita publicidade, Sr. Nunes! De qualquer modo tem um Arquivo Vivo em Alcoutim – a minha tia Mariana – que conseguirá identificar a totalidade dos participantes assim como as suas últimas actuações. Falei recentemente com ela ao telefone e há muita coisa gravada naquela cabecinha, embora admita que possa existir alguma confusão também, mas nada que uma informação cruzada não possa ultrapassar, pois que ainda estão vivas algumas mentes brilhantes daqueles tempos como a Ivone Baptista, a Maria Elvira, a Bia Martinho, a Chiquinha etc. A minha tia Mariana falou-me inclusivamente no nome do acordeonista que chegou a acompanhar o Rancho e numa actuação no Carnaval do ano seguinte nos Balurcos, actuação essa que eu desconhecia por ser período de aulas e andar a estudar em Lisboa. Penso contudo que terá sido a última actuação do Rancho. Falou-me também da actuação do
Rancho em anos diferentes, mas custa-me a crer, pois não guardo nenhuma memória desse facto e o meu mundo daquele tempo era Alcoutim... mas se aconteceu virá certamente nos Cartazes de Festas respectivos.

Votos de um Bom 2010!!!
Amílcar Felício

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ermida de Nª Sª das Relíquias

[Ruinas arqueológicas das Relíquias]

A quatro quilómetros de Giões, sede da freguesia e sobranceiro à ribeira do Vascão, na sua margem direita, existem restos de uma fortificação de planta quadrangular com povoamento associado, construída no século VIII - IX. (1)

É um local impregnado de lendas, principalmente de mouras encantadas que muitos séculos trouxeram até nós.

Neste cerro alongado que sobressai na redondeza, existiu uma capelinha da qual há tradição oral e de que temos notícias concretas através da “visitação” dos representantes da Ordem de Santiago, em 1566. (2)

É então descrita como de uma única divisão, de paredes de pedra e barro guarnecidas de cal, madeirada de castanho e encaniçada.

O altar construído de pedra e barro, também guarnecido de cal e coberto por um pano da Índia e uma toalha.

[Nª Sª das Relíquias]
A imagem de Nª Sª das Relíquias, esculpida em madeira, era considerada velha e pequena.

A porta principal do templo feita igualmente de alvenaria.

Por ruína da capela e não se sabe quando, a imagem passou para a igreja matriz onde ainda se encontra. É considerada um exemplar do séc. XVI. Será a mesma que os visitadores encontraram ou será uma nova?

Sabe-se que no século XVIII é reformada (3) e já se encontrava no altar de Nª Sª do Rosário, da parte do Evangelho. (4)

Tem o menino no braço direito e no peito um relicário, sendo ainda de grande devoção na freguesia.


NOTAS

(1)–“A ocupação islâmica”, Helena Catarino, in História de Portugal, III Volume, Dir. de João Medina, Ediclube.
(2) “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, V.R.S.A.
- MCMLXXXVII.
(3) A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues,1985.
(4) Memórias Paroquiais, 1758.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Giões e o seu topónimo

Para a etimologia de Giões, remete-nos Pinho Leal para Gião, singular daquela.
Na nossa toponímia encontramos mais de uma dezena de vezes Gião e apenas duas vezes Giões, em Alcoutim e em Évora.

[Prof. Trindade e Lima]
O alcoutinense, prof. Trindade e Lima, que tinha raízes familiares em Giões, num dos seus Pequenos Apontamentos (1), formula a pergunta:- Não teria sido uma família constituída por indivíduos com o nome de Gião que deu o nome a Giões ?

O etimologista, José Pedro Machado, (2) diz que Giões “alude a pessoas de famílias locais com o apelido Gião”. E continua:- Gião hoje é raro mas antigamente era corrente. Divergente de Julião por intermédio de Juião. A influência culta conseguiu restaurar Julião, embora Gião se mantenha na toponímia.

A Torre de S. Julião da Barra chamava-se antigamente S. Gião.

Num mapa de 1663 e noutras situações aparece designada por A-dos-Giões. Também é corrente ler-se a aldeia de os Giões. Tanto uma como outra designação ainda hoje é vulgar ouvi-las. A-dos-Giões em Alcoutim, monte de A-do-Gião, em Odemira.


[Pinho Leal]
Como em muitos outros casos, o pronome e a proposição substituíram a velha designação antroponímica possessiva.

Localmente e impregnado de tradição oral, nada obtivemos, afirmando os nossos interlocutores que também eles se interrogam sobre isso. Não conheço nenhum Julião no concelho e muito menos Gião. Também nunca encontrei, que me lembre, tais antropónimos em documentos que consultámos nos arquivos locais.

NOTAS

(1)-"Bairrismos", in O Povo Algarvio - Tavira, de 28 de Julho de 1973.

(2)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa- 2ª edição - 1993.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Algarve, a Região das Maravilhas



Na 5ª feira passada, ao receber um semanário do Algarve fui alertado com o título de caixa alta “MAIS DE QUARENTA LOCAIS DO ALGARVE VALIDADOS COMO PARAÍSOS” NATURAIS – A REGIÃO DAS MARAVILHAS”

Achei interessante e procurei a página onde o assunto era desenvolvido.
Aparecem então fotografias a cores de algumas dessas maravilhas (5) mas nada de Alcoutim, no Algarve Natural.

Começo então a ler o rol apresentado das 44 candidaturas validadas: Aljezur (10), Vila do Bispo (6), Lagoa (5), Portimão (4), Albufeira (3), Tavira (3), Loulé (3), Olhão (2), Lagoa (2), Monchique (1), Silves (1), Faro (1), Castro Marim (1), Vila Real de Santo António (1) e Multi-concelho (1).

Voltei a fazer a leitura, devia de estar confuso, não devia ter reparado!

Não, sem dúvida, faltava ALCOUTIM, (O ALGARVE VIRGEM e NATURAL) e mais qual, São Brás de Alportel, o novo concelho do Algarve que tinha constituído a grosso modo uma freguesia do de Faro.

É claro que não conheço as regras do concurso “7 MARAVILHAS NATURAIS DE PORTUGAL” que se está desenrolando, mas a exclusão do lote do concelho de Alcoutim, um dos de maior superfície do distrito, faz-me confusão.

O ALGARVE NATURAL ficou de fora! Porquê? Ou não se apresentaram candidaturas ou foram apresentadas e rejeitadas.

Onde está a verdade? Não sei.

Então nem a única praia fluvial do Algarve, a Praia do Pego Fundo, tão badalada, frequentada e elogiada obteve essa distinção! Há aqui qualquer coisa que não bate certo, não dá a bota com a perdigota.

Eu, pela minha parte e sem saber as regras do concurso, propunha o empreendimento turístico/habitacional da medieval Rua Portas de Mértola!

Dá para pensar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Zambujal, um "monte" onde a oliveira foi rainha

[Vista parcial da povoação. Foto JV, 2009]


O Monte do Zambujal tem sido, no decorrer dos tempos, uma povoação incluída no grupo das mais importantes da freguesia de Vaqueiros a que pertence.

Um numeroso conjunto de montes era constituído por poucos fogos que de uma maneira geral estabilizaram ou pouco aumentaram, hoje, alguns deles estão completamente despovoados e outros perto disso.

Zambujal pertencia ao grupo de Alcarias, Preguiças, Pão Duro, Alcaria Queimada e Taipas que eram os mais populosos. Podemos mesmo dizer que em 1758, segundo as Memórias Paroquiais, era o de maior número de fogos, com 31, seguido por Alcaria Queimada com menos dez.. Era consequentemente nessa altura o grande “monte” da freguesia.

Cerca de 80 anos depois, Silva Lopes na sua Corografia do Algarve, mais precisamente em 1839, atribui-lhe 24 fogos (houve por isso um decréscimos) mas continua a ser o de maior número na freguesia, seguido de Alcaria Queimada e também das Preguiças, agora com 17 cada.

Os árabes que ocuparam esta zona deixaram vestígios nos Alcariais do Zambujal que constituiu um povoamento e junto da actual povoação foram encontradas cerâmicas e telhas decoradas. (1)

A antiga estrada Real de Tavira para Giões passava perto desta povoação.

[Construção típica desde a parede, passando pelo lintel de grauvaque até à porta de madeira com postigo e ... a na altura indispensável pilheira para colocar o tacho das papas. Foto JV, 2009]


O topónimo é muito frequente no país e de fácil explicação. É mais um que tem origem no reino vegetal. Zambujal é um terreno onde crescem zambujeiros ou zambujos de igual significado. Como povoação localizámos vinte e aparecem de norte a sul do país.No Algarve existem na freguesia de Alte e na de Boliqueime, ambas no concelho de Loulé. Outra povoação próxima é a da freguesia de Espírito Santo, concelho de Mértola.

Depois há os Zambujeiros, as Zambujeiras e derivados em número considerável. Todos sabemos que zambujeiro é uma oliveira brava e no Zambujal essas oliveiras bravas foram tornadas mansas através da enxertia de garfo ou borbulha, localmente mais conhecida por carteta.

Foi o Zambujal escolhido para a localização, primeiro de um posto escolar, possivelmente criado na década de 30 do século passado quando era presidente da Comissão Administrativa da Câmara, o professor Trindade e Lima, e depois de uma escola que ainda em 1975 dava trabalho a dois professores. Além das crianças do monte recebia as de Malfrade, Alcaria Queimada,Preguiças, Balurquinho e Galachos, ainda que este lugar tivesse uma escola mais próxima, Várzea, mas que tinha então o problema de transpor a ribeira de Odeleite onde não havia ponte. Mais tarde devido à extinção por falta de alunos da escola de Soudes (freguesia do Pereiro) as crianças deste monte e da Casa Nova recorriam igualmente ao Zambujal.

A escolha teria também a ver com a sua localização central em relação aos restantes montes.

Entretanto constrói-se um edifício de duas salas, hoje ocupado segundo informação recebida pela direcção da ZCA de Zambujal/Alcaria Queimada.

A escola foi extinta por falta de alunos em 1989, aliás, como aconteceu às de Traviscosa e Vaqueiros, na mesma freguesia. (2)


Em meados do século passado, quando a população atingiu os maiores índices, chegou a possuir um pequeno estabelecimento comercial que ia resolvendo as necessidades mais prementes.

Em 1999 a Junta de Freguesia procura recuperar o Carnaval ao gosto antigo mas naturalmente em novos moldes. Organizaram-se cinco carros sem temas específicos e as pessoas entrouxaram-se como antigamente. Reuniram-se na aldeia e um dos carros era proveniente deste monte que ainda arranjou gente com espírito para o efeito. (3)

Depois do fornecimento de água por fontanários, em 2001 é levado ao domicílio. (4)

Foram concluídos durante o ano de 1991 os arruamentos da povoação (5).

Está provida de um painel de caixas para correio, sendo igualmente construído um abrigo para esperar pelos transportes rodoviários.

[Poço recuperado e parque de merendas. Foto JV, 2009]

Em 2007 a Junta de Freguesia com o apoio da Câmara embeleza o local do poço com a construção de um parque de merendas. (6)

Em 1771 o lavrador local, André Roiz (Rodrigues) Pereira, era Alferes de Ordenanças.

No censo de 1991, já numa situação de vertiginoso decréscimo populacional, são-lhe atribuídos 56 habitantes para no seguinte (2001) passarem a ser 38.

Em finais de 2009 e numa deslocação que fizemos à zona, foi-nos informado que na altura seriam 29.

São números que não admiram e que são similares aos apresentados pelos restantes “montes”.

Conheci na vila de Alcoutim, onde se fixaram e provenientes deste monte, Manuel António Pinto, bom mestre carpinteiro/marceneiro e Francisco Rodrigues, mestre pedreiro, falecido há poucos anos e de avançada idade.

Entre os guardas-fiscais que conheci oriundos deste monte, conta-se o nosso amigo, Francisco Manuel Pereira, cabo-chefe, que presidiu à Junta de Freguesia de Alcoutim onde efectuou dois mandatos, retirando-se por livre e exclusiva vontade, o que é apanágio de pessoas de bem que têm a noção exacta das coisas e que não se deixam cair no lamaçal em que muitos acabam por cair. Afastou-se com dignidade.


NOTAS
(1)–“O Algarve Oriental Durante a Ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.
(2)–Boletim Municipal, nº 6 de Dezembro de 1989, pág. 2
(3)–“ Carnaval de Vaqueiros faz renascer velhas tradições.”Elsa Neto, Jornal da Serra, Março de 1999
(4)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 8 de Setembro de 2001, pág. 2
(5)–Boletim Municipal nº 9 de Dezembro de 1991, pág. 2
(6)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 14 de Janeiro de 2008, pág. 17

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A iluminação pública na aldeia de Martim Longo


Só os martim-longuenses com idades para além dos oitenta e cinco anos se lembrarão da primeira, segundo pensamos, iluminação pública que tiveram.

José Francisco Ginja, da aldeia e Vice-Presidente da Comissão Administrativa da Câmara do “Estado Novo”, propõe que o município adquirisse cinco candeeiros da Vacum Oil Campany a fim de ser iluminada a aldeia, a mais importante do concelho e que pela sua situação e aglomerado populacional bem o merece.

Para além disto, a Câmara deveria fornecer anualmente algum petróleo e bem assim fazer face à despesa da instalação dos referidos candeeiros.

Propunha também que se oficiasse à Comissão Administrativa da Junta de Freguesia dando-lhe conta da resolução (a proposta foi aprovada por aclamação) os restantes encargos com a iluminação ficariam a cargo da Junta. (1)

Não sabemos o tempo que durou esta iluminação. Quando conhecemos a aldeia, em meados dos anos sessenta, já existiam muitos geradores que forneciam energia para a iluminação particular e alimentavam pequenas indústrias.

Em 1973 (2) escrevíamos assim: Apesar do muito que representa para o concelho, continua sem energia eléctrica (...) o que lhe causa enormes contrariedades e impede o seu desenvolvimento.
Anseiam os martinlonguenses por ver resolvidos estes seus problemas, principalmente o da energia eléctrica, já programada e para a qual o povo contribuiu generosamente com algumas dezenas de contos. Com ela, a aldeia progredirá, a mecanização das suas pequenas indústrias será um facto, outras aparecerão, enfim, saberão colher os frutos desse melhoramento devido às suas características empreendedoras.



NOTAS

(1)-Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Dezembro de 1933.
(2)“Martinlongo - Terra de gente activa tem aspirações”, José Varzeano in Jornal do Algarve de 17 de Novembro de 1973. O autor escreveu Martim Longo mas o jornal, talvez por pensar que era erro, escreveu Martinlongo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Capela de Sto. António na Vila de Alcoutim

[A Capela nos dias de hoje. Foto de JV. 2009]
[A Capela no dia da Inauguração do Cais Novo, 1944]
Sem dúvida que é um ex-libris da vila esta pequenina capela situada na parte baixa, junto ao Guadiana, para ele virada e ocupando uma área de 90 m2. (1) Várias foram as tentativas para o seu derrube e ainda que esse destino tivesse estado à vista, acabou felizmente por não acontecer. Pela nossa parte estivemos sempre contra o seu desaparecimento. (2)

Segundo alguns, assente em estacaria, as águas do Guadiana têm-na martirizado, colocando em perigo o seu patrono que numa das vezes já ia rio abaixo. (3)

Desconhece-se a data da sua fundação mas calcula-se que seja construção seiscentista, sabendo-se que já existia em 1712. (4)

Construção simples sem beleza arquitectónica mas imprescindível no local.

O portal é rectangular e as ombreiras e verga de cantaria lisa, sem qualquer ornato. Sobre ela uma reentrância na parede em forma de calote esférica e na qual se situam orifícios dispostos em forma de corola cruciforme. É o único ventilador do templo, desprovido de qualquer janela ou fresta.

[A Capela de Sto. António em 1967. Foto de JV]

Sobre o vértice da fachada de bico situa-se um pedestal encimado por cruz de alvenaria à qual, segundo reza a tradição, teriam chegado as águas do Guadiana na cheia de 1876.

O corpo da capela é rectangular, ladrilhado ao gosto regional e tem abóbada de berço. Comunica com a sacristia, um pequeno compartimento, por meio de porta rectangular.

Existiam mais duas portas para o exterior, uma do corpo da capela para a Rua do Município e a outra da sacristia.

Teve púlpito desaparecido quando do arranjo que ocorreu ao mesmo tempo do da matriz, na década de cinquenta do século passado.

[Santo António. Foto JV]

O altar era de alvenaria e de pintura marmórea. Uma imagem bonita de Sto. António com o Menino ao colo (5) era ladeada pelas de Sta. Benedita e Sta. Eugénia (6).

A imagem do padroeiro é considerada como exemplar de muita qualidade, pintada, dourada e estofada, provavelmente do século XVIII. (7) O Menino Jesus senta-se à beira do livro e a sua mão direita estendida fica mesmo debaixo do queixo do Santo. Este. segura na mão direita uma cruz sem crucifixo. Tanto o Menino como o Santo têm resplendor.



[A sineira com a sineta antes do restauro. Foto JV]
Não tem torre sineira, mas possui sobre a parede lateral do lado da sacristia sino instalado em pequeno campanário encimado por cruz artística de ferro forjado.

O telhado é de duas águas e era de telha de canudo.

Em 1867 a Câmara Municipal deliberou acrescentar os Paços do Concelho até à capela de Sto. António e não fazer outros.

A capelinha possuía, em 1878 como paramentos, uma casula, uma alva e uma estola. Também lhe pertencia uma custódia com quatro vidros, três castiçais de madeira, duas cruzes, sendo uma pintada de branco e outra de preto e uma caixa de tartaruga chapeada de prata e que tinha fechadura. (9)

Além dos bens móveis referidos, pertencia à mordomia uma casa situada na rua de Sto. António (actual Rua do Município) nesta vila e que em 1878 estava na posse de Miguel Angel de Leon, residente, na altura, nas Cortes Pereiras e que depois de ser presidente da Câmara, veio a ser barbaramente assassinado.

A confraria de Sto. António possuía em 1799 quatro mil oitocentos e trinta e cinco réis. Das doze irmandades existentes no concelho era a sexta a apresentar maior saldo. (10)

Em documentação dos séculos XVIII e XIX, encontrámos na toponímia local a designação de Rua de Sto. António, o que actualmente não acontece. Acresce também dizer que o templo era designado por igreja e não como capela.

Após a cheia do Guadiana de 1876, a capela depois de sofrer alguns arranjos serve de escola do sexo masculino. Levantou-se polémica entre o professor Simão Vieira, a Câmara Municipal, o Administrador do Concelho e o pároco que acabou por pôr “fora da mesma capella a mobília e utensílios da escola”. (11)

Pertence à Diocese de Faro. (1)

Transcrevemos agora as referências feitas por José Saramago na sua Viagem a Portugal.

O viajante onde chega, podendo, conversa. Todos os motivos são bons e este de uma antiga capela transformada em marcenaria e depósito de caixotes, se não é o melhor de todos, chega para a ocasião. Tanto mais que ao fundo ainda há um altar e um santo em cima dele. O viajante pede licença para entrar e a imagem é bem bonita, um Santo António de Menino ao colo, como se explica que aqui esteja entre marteladas e trabalho de plaina, sem uma oração que o console? A conversa é cá fora, nos degraus da capela, e o homem, baixo, seco de carnes, roçando os sessenta anos, se os não passou já, respondeu:- Vinha água abaixo quando foi a Guerra de Espanha, e eu apanhei-o. Não é impossível, pensa o viajante, a guerra foi há quarenta anos e picos, teria o salvador uns quinze anos.
A história do banho do Santo há muito era do nosso conhecimento. A marcenaria pensamos que nunca chegou a instalar-se. Há uns anos guardavam-se as cadeiras de madeira, da festa anual, na sacristia e alguma que estivesse partida era então reparada – é o quepensamos se terá passado.

[A Capela em 2004. Foto de JV]
Acresce dizer que a capela foi totalmente reparada em 1997 respeitando-se toda a sua traça, merecendo a abóbada de berço, para nós a sua parte mais valiosa, um esmerado reparo que possibilitará a sua conservação por muitos anos.

Foi suprimida a porta lateral e no seu lugar colocado um pequeno nicho com placa de mármore fazendo lembrar o restauro.

Encontra-se presentemente adaptada a núcleo museológico de arte sacra.
Nas suas imediações foram colocados bancos, uma estátua em mármore representativa do pescador do rio e canteiros de flores.

Em tempos antigos e nas fogueiras dos Santos Populares que tinham lugar em frente da capela, saltava-se à fogueira e faziam-se bailes de roda. Entre os rituais estava o de tentar encontrar a fechadura da capela com os olhos fechados. Quando tal acontecia era sinal que o casamento estava para breve, não fosse ele um santo casamenteiro!

[Monumento ao pescador do rio. Foto JV]

NOTAS

(1)- Matriz Predial Urbana – Artº da Freguesia de Alcoutim.
(2)- Vide – “Quem salva a secular capela de Sto. António na vila de Alcoutim,” in Jornal do Algarve de 18 de Maio de 1984.
(3)- Foi o nosso amigo, Francisco Mateus Xavier, vulgo Afonso Costa, que nos transmitiu a informação tendo sido ele o salvador da imagem.
(4)- “Curiosidades sobre as Igrejas Algarvias”, Álvaro Valadares, in O Algarve de 15 de Maio de 1958.
(5)- Viagem a Portugal, José Saramago.
(6)- Inventário dos Bens da Paróquia de Alcoutim – 1878.
(7)A Escultura de Madeira no Concelho de Alcoutim do século XVI ao século XIX, Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, 1985.
(8)- Acta da Sessão da C.M.A. de 7 de Fevereiro de 1867.
(9) -Inventário dos Bens da Paróquia de Alcoutim, 1878.
(10) -Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1785- págs. 18 verso a 20.
(11) -Of. Nº 130 de 20 de Agosto de 1877 ao Governador Civil.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Diogo Mascarenhas de Figueiredo

Pequena nota
A Figura que vamos referir não é alcoutenense mas ficou ligada à aldeia de Martim Longo que paroquiou na segunda metade do século XVII. Devido às suas características resolvemos organizar e publicar esta pequena nota biográfica.
JV


[Igreja Matriz de Martim Longo]

Filho de Diogo Martins Mascarenhas, Senhor do Morgado de Quelfes, moço fidalgo, alcaide – mor de Faro (1), Guarda-mor de Saúde e Escrivão das Sisas, tudo funções herdadas de seu pai e foi procurador por Faro, às Cortes de 1678 e de sua mulher, Margarida Baptista de Sousa.

Era neto paterno de Manuel de Figueiredo Mascarenhas que viveu no seu solar de Quelfes, teve o foro de cavaleiro-fidalgo e herdou de seu sogro os ofícios de Escrivão das Sisas e de Sobre rol das Vigias de Faro e de Isabel de Figueiredo, que era viúva de seu irmão Belchior de Figueiredo, e com quem casou e materno de Manuel Gomes Rijo e de Maria Fernandes Rijo. (2)

Diogo Mascarenhas de Figueiredo foi baptizado na Sé de Faro a 22 de Setembro de 1633.

Licenciou-se na Faculdade de Cânones.

[Portal da Igreja Matriz de Martim Longo. Foto JV, 2008]

Foi prior de Martim Longo que recebeu por renúncia de seu tio materno, o Prior Nuno Rijo de Sousa, o qual também lhe deixou um vínculo em Capela na mesma igreja.

Mais tarde (1676-1696) foi Cónego Arcediago de Lagos, na Sé de Faro.

Tinha sido nomeado Comissário do Santo Ofício em 30 de Janeiro de 1655 e em 1685 Vigário-Geral do Bispado do Algarve.

Desempenhou as funções de “Fabriqueiro” ou “Mordomo da Obra” da Sé de Faro, funções que tinham a ver com a administração dos rendimentos destinados à Catedral. (3)

Entre Faro e Olhão existia as ruínas de uma capela que tinha por invocação S. Cristóvão (3). Possuía sobre a porta, a seguinte inscrição: O DOUTOR DIOGO DE MASCARENHAS FIGUEIREDO ARCEDIAGO DE LAGOS QUE FOI NA SANTA SÉ D`ESTE REINO DO ALGARVE, COMISSARIO DO SANTO OFFICIO, MANDOU À SUA CUSTA FAZER DE NOVO ESTA EGREJA NO ANNO DE 1687.

À esquerda da porta existiu uma pedra com as armas de Mascarenhas e Figueiredo.

Instituiu em Faro os vínculos de S. Cristóvão e S. Miguel que deixou a seu irmão Barnabé, mais novo seis anos, que foi Cónego da mesma Sé.

Faleceu em Faro a 12 de Março de 1696, ficando sepultado na Capela de S. Tomás, da Sé.

NOTAS
(1) - Monografia do concelho de Olhão da Restauração, Francisco Xavier d`Athaíde Oliveira, 1906.
(2) – Famílias Nobres do Algarve, Visconde Sanches de Baena, Parte Segunda, Lisboa, 1906, pág. 54
(3) – A Catedral do Algarve e o seu Cabido, Sé em Faro, José António Pinheiro e Rosa, Volume I, Faro, 1983, pág. 38
(3) – Em 1984 ainda existiam as ruínas “A Ermida de S. Cristóvão, Um Património a Defender e Preservar, in Jornal do Algarve de 18 de Maio de 1984.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

História de Portugal, V I volume [1750-1807]


O VI Volume da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo abrange o período de O DESPOTISMO ILUMINADO, tem 425 páginas e foi publicado em 1982.

De todos os volumes até agora publicados é o que tem mais referências a Alcoutim e que passamos a indicar:

Administração e justiça

Pág. 89

Por causa do golpe palaciano de 1756, os acusados de conivência, após sofrerem prisão no Limoeiro, tiveram as seguintes penas de degredo: (…) Os restantes acusados distribuídos pelo Reino: Custódio Nogueira Braga para Alcoutim durante seis anos; (…)

Pág. 91

Para administrar bem a justiça, impunha-se criar novos cargos em terras que dependiam de magistraturas vizinhas. Os povos das grandes vilas sofriam por a justiça ser muitas vezes administrada por juízes ordinários e leigos, o que não se compadecia com a regular organização dos processos. Foram muitos os Juízes de Fora e dos Órfãos que se criaram no tempo de Pombal. Mais adiante serão referidos os casos de Lagoa e Alcoutim

Pág. 110

Os mesmos cargos (Juiz de Fora e dos Órfãos) foram criados na vila de Alcoutim, que a coroa definia como “considerável” pelos muitos lugares do seu termo que abrigavam mais de mil e quatrocentos fogos, e ainda pela sua posição «na extremidade oriental do Reino do Algarve sobre o Rio Guadiana». A nomeação dos respectivos juízes de fora e dos órfãos, em lugar dos juízes ordinários ali existentes, pertencia à casa do infante D. Pedro, marido da princesa do Brasil.

Nações estrangeiras

Pág. 134


No Alentejo e no Algarve residiam, em 1765, muitos oficiais estrangeiros que tinham vindo com o marechal-conde de Lippe: o barão de Ettreppy era coronel de um regimento de cavalaria de Elvas; em Castro Marim comandava o forte um capitão reformado do exército britânico; e em Alcoutim, castelo indefeso, à frente da guarnição de 100 soldados achava-se um coronel inglês.

Áreas regionais

Pág. 354

Ficou memorável a chegada (1787) do Conde de Vale de Reis, novo governador e capitão-general, ao sul do País, recebido com honras excepcionais na sua entrada em Mértola. Desceu depois o Guadiana, no escaler do Governo, até Alcoutim, onde foi lida a carta régia de nomeação.

A população de 1777 a 1807

Pág. 357

Ainda voltando ao ano de 1788, importa realçar as vilas, com conjunto de freguesias mais habitadas: Faro, 19690, (…) Alcoutim, 5771 (…) Castro Marim, 3317 habitantes.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Renascido (POEMA)

Colaboração de
José Temudo


Nasceu,
como todos os demais,
feito simples tábua rasa,
onde a sociedade escreveu,
como um trabalho de casa,
todos os seus sinais,
os seus valores, tais e tais,
Os seus tabus, as suas ambições,
os seus medos, as suas superstições,
a sua descrença em Deus.
Sem angústias, nem inquietações,
assim cresceu,
viveu
e envelheceu,
fugindo do Mal,
buscando o Bem.

Era noite de Natal.
Nessa noite, porém,
para si fatal,
alguém,
do outro mundo d`Além,
docemente
a mão lhe estendeu
e disse:- VEM!
Serenamente,
em paz consigo, morreu.

Assim, Deus ou o Destino,
justo e bondoso,
determinou e quis.

Em completo repouso,
parecia um menino,
dormindo tranquilo, feliz.


Vila do Conde, Dezembro de 2009.


Pequena nota
Não é fácil comentar um poema descortinando os motivos que levaram o poeta a escrevê-lo.
Há aqui o nascer, viver e morrer, a tríade por onde todos nós passamos, sendo no entanto a do meio, muito variável.
Para mim, as palavras ligam-se e soam-me bem.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Educação do "Estado Novo"



Esta fotografia deve de ter sido tirada por volta de 1950, por isso devem-se já ter passado cerca de 60 anos!
Ninguém tem dúvidas que foi tirada à entrada de Alcoutim como demonstra a placa toponímica e o “Celeiro” edifício ainda existente.

Nesta altura Alcoutim possuía crianças e encontram-se aqui dez reunidas que possivelmente se juntaram nalguma festinha de anos.

Quem me facultou a fotografia ainda consegue reconhecer algumas das suas amigas, mas nem todas e os quatro adultos passam-lhe completamente ao lado e possivelmente já não estará cá nenhum, o que igualmente aconteceu a algumas das pequeninas.

Eu que não as conheci nessas idades, reconheci três ou quatro. Que se saiba, uma vive na vila.

Tratando-se de Alcoutim, não podia faltar a presença de um guarda-fiscal. Admito que a menina de laço que está à sua frente e não reconhecida, seja sua filha e tivessem tido uma estada em Alcoutim por motivos profissionais.

Não passa despercebida a falta de rapazes e que caracteriza uma época – As meninas não se podiam juntar aos rapazes! Era a educação do Estado-Novo!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Vive esquecida a Vila algarvia de Alcoutim, debruçada sobre o Guadiana

Pequena Nota
O autor intitulou o artigo LANTERNA VERMELHA NA CAMPANHA DO PROGRESSO, mas o jornal substituiu-o pelo que indicamos, certamente devido ao lápis azul da censura.
Na cópia do original que foi enviado, a máquina de escrever martelou o texto nas três últimas linhas pelo que não nos é possível dar a conhecer aquilo que o autor escreveu mas aquilo que o jornal publicou.

Que eu saiba foi este o primeiro artigo que escreveu sobre a sua terra natal, que muito amava e já lá vão mais de 41 anos.

Dizer muito em poucas linhas é difícil e Luís Cunha conseguia fazê-lo. Além de revelar os seus profundos conhecimentos de Alcoutim, neste pequeno texto aborda três pontos que considera fundamentais:- TURISMO, FLORESTAÇÃO e ABERTURA DE FRONTEIRA.

A publicação deste artigo é feita precisamente no dia em que completaria 99 anos de vida, se cá estivesse. É A NOSSA HOMENAGEM A UM HOMEM QUE AMOU A SUA TERRA COMO POUCOS, UM HOMEM CULTO E DE CORAÇÃO BONDOSO.

Tivemos o privilégio de ser seu amigo. Ensinou-nos a compreender ALCOUTIM, mostrando-nos o BOM, sem escamotear o MAU.

Seria mais lógico fazer a publicação daqui a um ano, visto tratar-se do centenário.
A dúvida é se estaremos cá.


JV

(PUBLICADO NO DIÁRIO POPULAR, LISBOA, DE 24 DE ABRIL DE 1968)





Escreve
Luís Cunha




Com o seu casario em presépio, meio derruído pelo tempo, Alcoutim assenta em pequeno morro alcantilado de rocha de xisto à beira do Guadiana no preciso lugar onde a navegação à vela – fenícia, grega ou cartaginesa – condicionada pelo regime fluvial e dos ventos fazia ponto (paragem forçada de seis horas aguardando o virar da maré).

Surgida como ponto de apoio e segurança dessa navegação durante a demora, foi depois feitoria, feira e por último “ponto de maré” e armazém importante de enormíssimo interland que se estendia por grande parte do Baixo-Alentejo, papel que desempenhou até tempos relativamente recentes.

Com solos paupérrimos de xisto foleáceo permeável, áridos, que o rio fundo à laia de vala de enxugo seca completamente, Alcoutim nasceu, e viveu florescente na estreita dependência daquele condicionalismo que dela fazia “ponto de maré” e posição estratégica privilegiada.

Exemplo flagrantíssimo da contingência a que está exposto todo o fenómeno condicionado por reduzido número de factores, o seu antigo esplendor entra em franca decadência no mesmo passo em que o progresso impiedoso, abre aos povos outros meios de comunicação – caminho de ferro, barco a motor e estradas – deixando-a à margem em total esquecimento.

[Fotografia que acompanhou o artigo]

É contudo, esse mesmo progresso que destruiu a razão de ser de sua pujança abre outras possibilidades, perspectivas de vida nova de bem mais seguros fundamentos mas que o atraso técnico e cultural e os minguados recursos económicos não permitem utilizar sem a atenção e apoios externos:- atenção de uns para os favores que o rio magnanimamente continua a oferecer a qualquer indústria carecida de transportes em volume e grandes distâncias; - e de outros para que os seus próprios e imediatos interesses representaria a abertura ao turismo, desta região encantadora que sendo também um rio de margens deslumbrantes descobrindo a cada curva os mais variegados aspectos e cujas vertentes enrugadas exibem extraordinária panorâmica, panorâmica diferente, complemento ideal a quebrar a monotonia das praias; - sem o apoio generoso e carinhosa simpatia actuante das estâncias oficiais para problemas como o da florestação maciça que, dadas as fabulosas condições de concorrência oferecidas pelo rio, seria só por si segura garantia de um melhor futuro; - como a da abertura da fronteira que o acordo luso-espanhol criou mas não chegou a efectivar-se e ainda para a instante e imprescindível necessidade de execução de um interessantíssimo ante-plano de urbanização que jaz há muito nos arquivos e que, pela construção de uma ponte sobre a ribeira de Cadavais, retiraria simultaneamente a Alcoutim a condição em que se encontra de terra afogada e beco sem saída. A terra decaindo levou à crise, pela emigração em massa, mas nos que restam espelha-se fé contagiante que nuns é despertada por pura intuição e noutros pela confiança de que a Revolução trará, a seu tempo, o apoio de que carece.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

10 000 VISITAS !


O “ALCOUTIM LIVRE” acaba de chegar às 10.000 VISITAS!

As primeiras 5000 foram alcançadas após 1 ANO e 26 DIAS de existência, enquanto para as segundas 5 mil bastaram 5 MESES e 21 DIAS, o que reduziu a mais de metade o tempo necessário para o efeito.

Estatisticamente no 1º período analisado a média foi de 12,8/dia, enquanto no 2º aumentou para 28,4, o que é por demais elucidativo.

Significa isto que o blogue tem plena justificação e que os parâmetros pelos quais o temos pautado continuam a merecer a aceitação dos “cibernautas”.

Continuamos a receber e-mails tanto de alcoutenejos como de outras origens e na maioria dos casos são pessoas que não conheço.

Se a memória não me atraiçoa, existem três casos em que me solicitam dados sobre alguns dos seus antepassados. Dois com raízes na freguesia de Martim Longo (nenhum dos solicitantes conhece o concelho) e outro espanhol pelo nascimento, mas que tem antepassados ligados à vila. Em dois dos casos tinha alguns elementos para fornecer, principalmente para o cidadão espanhol que naturalmente ficou agradecido pelas informações que lhe prestei e que de outro modo não seria fácil obter. Tem planeado uma visita a Alcoutim e espero poder recebê-lo e mostrar-lhe a terra de alguns dos seus avoengos.

Já apresentámos 383 entradas, sendo quase todas, salvo raríssimas excepções, relacionadas com Alcoutim, o que de uma maneira geral, admira muita gente bem intencionada.

Apesar das dificuldades de vária ordem no que concerne à investigação, ainda é cedo para esgotarmos os assuntos que pretendemos abordar.

Os visitantes do estrangeiro, nomeadamente os do Brasil e de Espanha, têm contribuído para o êxito do blogue, não esquecendo as restantes três dezenas de países.

Nunca é demais salientar o precioso auxílio prestado pelos colaboradores e ainda que o sentido seja o mesmo, os assuntos abordados e a forma como o fazem dão naturalmente ao visitante/leitor um sabor diferente.

O blogue só existirá se tiver número de visitantes que o justifique pelo que está na sua mão a manutenção.

VISITE E DIVULGUE-O A BEM DE ALCOUTIM
JV

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Preguiças, um "monte" importante da freguesia de Vaqueiros


Este “monte” da freguesia de Vaqueiros começa logo por chamar a atenção pelo seu topónimo curioso.

A existência de um pequeno monte relativamente perto deste, e designado por Preguiça, por isso, no singular, pode-nos ajudar a uma explicação.

Naturalmente que fomos à procura em livros da especialidade se algo havia escrito sobre o topónimo.

José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico (...) (1) indica a existência do topónimo tanto no singular como no plural do concelho de Alcoutim, referindo mais seis espalhados pelo país, desde Vila Real a Odemira. Diz que provém do substantivo feminino preguiça.

A tendência natural e simples é tentar ligá-lo à aversão ao trabalho o que nada nos parece consentâneo com a índole desta gente trabalhadora que toda a vida tem mourejado o seu sustento nestes terrenos de fracas produções agrícolas.

Procurámos encontrar nos moradores alguma lenda que explicasse o topónimo mas nada conseguimos obter.

É que preguiça não significa só mandria, mas igualmente pau a que estão pegadas as cangalhas da canoira, sendo esta um vaso que se coloca em cima da mó do moinho e onde cai o grão que vai ser moído. (2)

Quem conhece a actividade cerealífera que foi apanágio daquelas gentes e dos moinhos existentes para a farinação, de que resta pelo menos as ruínas de um exemplar mesmo junto ao “monte”, admite que a explicação possa estar aí.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 já aparecem os dois topónimos com um peso muito semelhante ao que têm hoje. Preguiças ocupava o 4º lugar a nível de freguesia e número de fogos e Preguiça pertencia ao grande grupo de pequenos montes tendo nesta altura apenas três.

[Placa toponímica que como tantas outras por esse país fora enganam o cidadão comum sem que ninguém lhe ponha cobro]

Silva Lopes (3) refere-o como Desperguiças e numa acta da Câmara, de 1850, indica-se Despreguiças. A placa toponímica actual indica Monte das Perguiças. O pre e o per foram sempre muito confundidos na nossa língua e aqui damos dois exemplos muito distantes no tempo. Penso contudo que o erro há muito que merecia correcção, mas até agora, ninguém se lembrou disso, pelo contrário visto a Entidade responsável continuar a manter este e outros erros do tipo.

Quem estiver em Vaqueiros e pretender alcançar o Monte das Preguiças toma a estrada municipal 506 e cerca de 3 km andados tem um cruzamento. Toma o da esquerda apanhando assim a estrada nº 505, passando pelo Malfrade e Zambujal e vamos encontrar à direita um entroncamento pelo qual seguimos, passando a percorrer a estrada municipal nº 508 e encontramos à nossa esquerda o “monte” que procuramos.

Utilizei a entrada Sul e ainda que as ruelas sejam estreitas, conseguimos circular por algumas optando por outra saída.

Já se vêem algumas construções de tipo moderno e sem qualquer ligação ao tradicional. Encontrámos contudo algumas que mantêm as características antigas. Ainda se podem ver alguns poiais lajeados ao gosto antigo, junto das paredes principais. Alguns palheiros cuja função já foi abandonada.

Existe um caminho rural, alcatroado entre o Malfrade e este monte.

Os moradores Jacinto Manuel e Manuel Martins, em Junho de 1771 fazem na Câmara Municipal o manifesto do seu gado.

Em 1850 alguns lavradores do “monte” e do vizinho Balurquinho, apresentam um requerimento na Câmara para que fosse feito coimeiro para o gado miúdo, durante o Verão, o restolho que fica entre os ditos “montes” e o Zambujal e Malfrade, para pastarem as reses e bestas. A Câmara, reunida em sessão (4), indeferiu o pedido tendo em atenção a informação prestada pela Junta de Paróquia que dá como não conveniente semelhante pretensão.

Em 1854 um morador pede à Câmara terreno no rossio do “monte” para construir uma casa mas o povo não deixou que se concretizasse tal pretensão.

Anos depois, em 1876, um maioral de gado lança fogo à eira de João Luiz, pelo que tem de responder pelo crime de fogo posto. (5)

Um morador deste monte, de nome José de Orta, no dia 30 de Julho de 1878 deslocou-se à vila, acompanhado de um descomunal varapau. Acabou por ser enviado com o mesmo e acompanhado do competente auto, ao Juiz de Direito da Comarca de Tavira, Bacharel José Júlio de Oliveira Baptista que, antes de ler o auto, libertou o homem dando-lhe o varapau. O José de Orta era simpatizante de D. Miguel e o Administrador do Concelho, Gregório de Morais, ficou fulo. (6) É impressionante como a acção de um político numa altura em que as comunicações eram quase nulas fez chegar a sua voz a um monte tão distante. É notório que só foi preso por ser reconhecido como partidário de D. Miguel Angel de Leon.

A electrificação processou-se em 1984 sendo inaugurado o fornecimento no dia 14 de Junho. (7)

A pavimentação das ruas do monte tem lugar em 1992 (8). Teve água distribuída por fontanários. Como em 2001 foi levada ao domicílio (9), no ano seguinte houve necessidade de proceder a nova pavimentação (10) ou pelo menos ao seu conserto.

Recentemente (2007) o antigo poço do monte, apetrechado de bomba elevatória manual, sofreu obras de restauro e embelezamento com a criação de um pequeno parque de merendas. (11)

Em 2005 foi aberto um furo para extracção de águas subterrâneas e para fazer face a qualquer rotura no fornecimento. (12)

Do que conheço, é na nossa opinião o mais bem conseguido, além do arvoredo adequado no próprio local, à beira da estrada foram plantados loendreiros e medronheiros.

[Poço do monte reconfertido. Foto JV, 2009]

Nas proximidades e no sítio de Caterina Fernandes foi identificada e registada em 10 de Junho de 1898, uma mina de cobre e de outros metais. (13)

A nível de população, sabemos que em 1839 tinha dezassete fogos habitados, os mesmos que Alcaria Queimada e no Censo de 1991 é indicado como o “monte” mais populoso da freguesia, com sessenta e nove habitantes, constituindo vinte e duas famílias e tendo quarenta fogos.

O povo associou-se na Cooperativa Agrícola de Rega, CRL e na Associação de Caça e Pesca.


Notas
(1) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, pág. 1211
(2) – Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, 4ª Edição, Porto, 1984.
(3) – Corografia do Algarve, 1841 (Quadro Anexo)
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 14 de Julho de 1850.
(5) - Of. Nº 78 de 18 de Dezembro de 1876 do Administrador do Concelho.
(6) - Ofício nº 186, do Administrador do Concelho e daquela data.
(7) - Jornal do Algarve de 15 de Junho de 1984.
(8) – Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992, pág. 5
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, pág. 2
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 8
(11) – Alcoutim, Revista Municipal nº 14 de Janeiro de 2008, pág. 16
(12) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 12 de Dezembro de 2005, pág. 25
(13) – “O Algarve Oriental Durante a Ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Alcoutim ficou mais pobre

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 5 DE NOVEMBRO DE 1987)

Pequena nota
Este texto foi escrito e publicado há vinte e dois anos, tantos quantos faz de falecido o poeta-músico João Madeira, vulgo João Ricardo.
Já ninguém da sua família vive em Alcoutim.
Este texto serve para o recordar aos que o conheceram e para o dar a conhecer principalmente aos jovens.

JV

Em duas oportunidades, referi-me nestas páginas a duas figuras ligadas à pequena vila raiana. Diz o povoe com razão, que não há duas sem três.

Hoje, referirei, se isso me for permitido, um poeta popular que nos acaba de deixar aos 82 anos.

Penso que a todos nós toca, mais tarde ou mais cedo, a acção da musa e serão poucos os que nunca fizeram pelo menos uma quadra! Mas poucos passamos disto, pois a inspiração momentânea, depressa desaparece.

Uns tantos, não conseguem a “libertação” e quanto mais poesia compõem, mais necessidade sentem de o fazer. Uns, fazem-no com a técnica que a sua erudição permite, outros, nem sequer sabem escrever, mas a memória regista. Todos são poetas, neste leque de que apresentámos as guardas e cada qual terça as armas que tem.

Acaba de se finar na vila de Alcoutim o poeta-barbeiro, João Madeira, que todos no concelho conheceram por mestre João Ricardo, João filho do Ricardo a que o tempos, naturalmente, suprimiram primeiro o “filho” e depois o “do”.

Natural de Cachopo, chegou a esta vila por volta da década de trinta, trazido pelo nome do clínico, Dr. João Francisco Dias, que veio consultar para resolução de problemas de saúde. Entusiasmado pelo médico, acabou por ficar e a vila, além de passar a dispor de mais um barbeiro, ganhou um músico e um poeta. Tocava clarinete, requinta e saxofone.

Há volta de trinta anos, contando com a juventude da vila, organizou um rancho que actuou nos tradicionais festejos anuais. Além de ensaiador, fez a letra e compôs a música daquilo a que chamou “Marcha da Vila de Alcoutim”, que alguns recordarão com saudade.

[João Madeira aos 80 anos. Foto JV]

Da letra, respigámos o seguinte:

Alcoutim é esta vila,
Que fica no meio da serra,
Num canto de Portugal,
Tem o Guadiana a seus pés
Vê bem crescer as marés,
Do rio internacional.

Alcoutim é pitoresca,
Corre por ela aragem fresca,
Da brisa que vem do mar,
Essa brisa pura e bela,
Faz andar barcos à vela,
Pelo rio a navegar.

Os problemas da vila estavam sempre na preocupação de João Ricardo, que os analisava em “quadras” simples, ingénuas e por vezes mordazes.
Uma pequenina selecção é disso demonstrativa:

Alcoutim, terra velhinha
e nada tem aumentado
tem menos gente, coitadinha,
que no outro século passado.

Terra velha, desprezada
e há quem lhe chame bela
Por todos abandonada
e ninguém faz caso dela.
Só se lembram do dinheiro
que lhe dão no fim do mês
não se lembram cá da terra,
vão para a magana que os fez.

Andam-se vinte quilómetros
para ir às Cortes Pereiras
podendo apenas ser cinco,
vejam lá as asneiras.

A ponte e a estradas feitas,
darão vida a Alcoutim,
mas se não as começarem,
nunca chegarão ao fim.

Feitas antes de 74, alguns dos problemas tratados pelo poeta-barbeiro, estão hoje, felizmente, resolvidos, fazendo parte de um passado recente.

João Madeira não fazia poesia para publicar aqui ou ali, para divulgar a este ou àquele. João Madeira fazia poesia para se satisfazer a si próprio. A maioria, perdeu-se no caixote dos papéis, quando se fazia limpeza à barbearia.

Nos últimos anos e como sabia que apreciávamos o seu jeito, confidenciava-nos os seus trabalhos.

Sempre que íamos à vila, visitávamo-lo e nunca vínhamos de mãos a abanar. Nos últimos tempos desesperava-se com a dificuldade que tinha em escrever.

A morte, que a todos preocupa, inspirou-lhe as seguintes quadras, das últimas que compôs:

A morte é coisa daninha,
Que nos vem roubar a vida,
Quando vem, não se adivinha,
A hora da despedida.

Morre-se a comer e a cantar,
Outros morrem a dormir,
Mas quando ele chegar,
Todos ficam sem sentir.

Morre o pobre e morre o rico,
Morre tudo o que nasceu,
Não se vê, mas está escrito,
Todo o ser vivo morreu.

Morre o velho e o rapaz,
Morre a mulher e o menino,
Nem o mais rico é capaz,
De fugir ao seu destino.

Manhosa e sorrateira
É a traiçoeira morte
Chega a hora derradeira
Leva o fraco e leva o forte.

Ter saúde, é ser feliz,
Ser rico, é ter muita sorte,
Mas há um rifão que diz:
Ninguém se livra da morte.

Morrem de barriga cheia,
Morrem muitos em jejum
Medonha morte, é tão feia,
Que não deixa cá nenhum.

Morrem cheios de saúde,
E muitos a passear,
A morte ninguém ilude
Morrem quando ela chegar.

Morre o que está doente,
Morre o que tem felicidade,
Morrem tantos de repente,
Mesmo na flor da idade.

Com estas modestas palavras pretendemos ainda que com muita simplicidade, homenagear o poeta.

João Madeira repousa na vila que tento amou e a que dedicou muita da sua poesia.

Alcoutim perdeu o seu poeta!

Alcoutim ficou mais pobre!