sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Parabéns


Dinheiro na mão...





Um conto de


José Temudo



Eram irregulares, mas frequentes, as suas visitas. Vinham da cidade, em pequenos grupos de duas, três, quatro no máximo, na camioneta da carreira que chegava por volta das oito da tarde. Apeavam-se à entrada da vila e aí permaneciam apenas o tempo necessário para se certificarem de que a sua chegada tinha sido notada, o que não era difícil, dado o modo como se vestiam e pintavam o rosto. Depois, logo que conseguido esse objectivo, afastavam-se uma centenas de metros em sentido contrário ao da chegada; saíam da estrada, subiam um pouco da encosta até um pequeno bosque de pinheiros e de arbustos e aí, numa pequena clareira, feita sala de espera, sentavam-se, a conversar e a fumar, aguardando a chegada dos clientes habituais, que só apareciam já noite feita, de modo muito discreto, para não darem nas vistas, assim fugindo aos comentários condenatórios das pessoas de bem, como também dos vindos dos falsos moralistas.

Invariavelmente, o primeiro a chegar era o Zé Tolinho. Não era um cliente. Tratava-se, isso sim, de uma visita útil, sempre recebida pelas “meninas” com demonstrações de alegria e de carinho, que ele retribuía com mais alegria e mais carinho.

O Zé Tolinho era ainda moço, pouco mais de vinte anos teria. Filho de pais muito pobres e dados à bebida, tinha nascido escorreito de corpo e de juízo. Mas a fome, os maus tratos e doenças sucessivas tinham feito dele aquilo que ele hoje era, um débil mental, um tolinho, como logo lhe chamaram e ficou conhecido. De baixa estatura, com a pele colada aos ossos, de olhos castanhos encovados e pelo arruçado , seco e espetado como palha, tinha contudo um ar doce e muito humilde, que lhe granjeavam simpatia e compaixão, e disso vivia, das esmolas que lhe davam, fosse comida fossem roupa e sapatos velhos. A relação com as “meninas” tinha começado logo no dia em que pela primeira vez as viu, descendo da camioneta, e, enfeitiçado pela sua garridice, as seguiu até ao pequeno bosque que elas transformavam, por breves horas, em bordel. Incomodadas, ao princípio, com a presença do maltrapilho, cuja proximidade, julgavam elas, lhe poderia prejudicar o “negócio”, foram tranquilizadas pelos clientes que foram chegando e que lhe asseguravam que o moço era inofensivo e calado e que até lhes poderia ser útil, a elas e a eles, como moço de recados: ele iria à vila quantas vezes fossem precisas, caso elas necessitassem de cigarros, de cervejas, de sanduíches, de qualquer outra coisa; e quanto ao resto, que não se preocupassem com ele: fosse o que fosse que lhe tenha abalado o juízo, tinha-lhe acabado de vez com a possibilidade de fazer sexo. Com o decorrer das sucessivas visitas das “meninas” à vila, o Zé Tolinho, com o seu ar doce, com a sua humildade e com a sua prestabilidade, foi-lhe conquistando a confiança, a simpatia e, sobretudo, a sua solidariedade.

Afinal, não eram elas e ele, filhos da mesma mãe, a pobreza, também chamada de “a má sorte?”

De pé ou sentado na relva da clareira que servia de antecâmara, sempre calado, mas também semptre atento às conversas brejeiras, às graçolas ordinárias, às escolha que o clientes faziam entre as “meninas”, ao pagamento antecipado, por elas sempre exigido, ao afastamento dos casais em direcção a umas moitas um pouco para além da clareira, a tudo isso ele assistia, quase sempre impassível. Digo quase sempre, porque quando era a Graça, uma das “meninas”, a escolhida para acompanhar o cliente para além da clareira, os olhos do Zé Tolinho pareciam ganhar alguma vida, uns laivos de tristeza.



Esta “estorieta” foi-me contada por um dos clientes deste comércio marginal.
Chegados a este ponto, perguntei-lhe:
“Para além da atracção pelo ar garrido das “meninas”, alguma vez notou no Zé Tolinho algum sinal de paixoneta por alguma delas, designadamente por essa Graça?”
“Não, respondeu, mas o que lhe vou contar talvez possa confirmar essa sua suspeita.”

E contou-me que um dia, um dos clientes, depois de negociada com a Graça a transacção, não fez o pagamento antecipado, alegando que se tinha esquecido da carteira mas que o faria na próxima vinda delas à vila, ao que a moça retorquiu:
“Então, não há nada para ninguém!”
Ele voltou a insistir, agora num tom irado:
“Estás a duvidar de mim, ou quê?”

“Não, respondeu ela, mas é a regra: “dinheiro na mão, cu no chão”; sem isso...

O macho, fora de si, esbofeteou-a, enquanto ia dizendo:
“Oh, minha puta de merda, como te atreves a duvidar de mim?”

Neste ponto, aconteceu o impensável; perante a passividade de todos, “meninas” e clientes, o Zé Tolinho, o pele e osso, atirou-se furiosamente ao agressor, rapaz possante, dando-lhe punhadas no peito. O resultado foi que o outro largou a rapariga e carregou sobre o Zé Tolinho; deu-lhe uns murros tão fortes que o atiraram ao chão, indefeso e a sangrar. E só não levou mais, porque os outros clientes e “meninas, receando o pior , manietaram o “machão” até que este acalmou de vez e se foi embora. Logo depois, levantaram-no, ou, melhor dizendo, atendendo ao estado de prostração do rapaz, apanharam do chão o Zé Tolinho, que mal dava acordo de si; os olhos inchados, o sangue escorrendo-lhe da boca, o resto do rosto cheio de contusões. Limparam-no com o que tinham à mão, lenços, água.

Entretanto, tornou-se evidente a falta de condições para continuar o negócio. Os clientes, um a mm, discretamente, tal como tinham vindo, foram às suas vidas. As “meninas” meteram os pés a caminho da vila, levando consigo o combalido Zé Tolinho, amparado pela Graça, que não mais o largou. Entraram ma tasca onde costumavam comer e logo que terminaram o repasto, foram-se deitar no barracão anexo à tasca, onde sempre dormiam, a troco de umas moedas. Com elas, deitou-se o Zé Tolinho, sempre amparado e acarinhado pela Graça. Não obstante o ocorrido, depressa adormeceram. Pouco tempo depois, uma delas acordou a ouvir gemidos.
Pobre moço, pensou, e tornou a adormecer.

Levantaram-se com o cantar do galo. Lavaram-se e vestiram-se à pressa e saíram deixando o Zé Tolinho ainda a dormir. Já na rua, a caminho da camioneta que as levaria de volta à cidade, a que acordara a meio da noite, falou para a Graça:
NAcordei a meio da noite e ouvi o Zé Tolinho a gemer. Coitado do rapaz!
Não era ele, disse a Graça.
Então quem era?
Eu.
E o que te doía?
Nada.
Então porque gemias?
Olha, disse a Graça, andam todos enganados com o Zé Tolinho. Ele é tão homem quanto os outros!
Não me digas!
Digo, digo!

Quando entraram na camioneta ainda riam como se fossem tolinhas!

Vila do Conde, 7 de Julho de 2011.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Crianças alcoutenejas dos anos 50



Juntar onze crianças em Alcoutim por volta dos anos 50 do século passado não era difícil como se prova pela foto apresentada.

Nesta altura existiam na vila muitas mais que aqui não estavam. Possivelmente hoje, na vila, não será fácil encontrar onze crianças deste nível etário.

A possuidora da foto encontra-se naturalmente nela e não consegue identificar todas as suas então amigas, apenas cinco ou seis e algumas com dúvidas.

Estão identificadas no primeiro plano e da esquerda para a direita, o nº 1, 2 (?) 3, 5, 6 e 7. No segundo plano e pela mesma ordem a nº 1, já que as outras estão muito encobertas e escuras.

Notar no lado direito da chaminé tipo alentejana e em cujo friso se encontra além de muitas coisas um despertador da época que ainda existe apesar de não trabalhar.

Em pregos, na parede da frente, os utensílios de cozinha.

Chama-nos a atenção porque conhecemos o uso nessa época, a circunstância de grande parte das meninas terem laçarote branco apanhando o cabelo, além da peúga da mesma cor.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Forcado



Esta alfaia agrícola pode ser totalmente de madeira ou de ferro com uma haste (cabo) de madeira de comprimento variável e que andará entre 1,5 m e 2 m.

No concelho de Alcoutim usava-se principalmente este último tipo, que termina em duas pontas, destinando-se a levantar palha, estrume e outras coisas do mesmo género. Se tiver três pontas e existem noutras zonas, continua a chamar-me forcado.

A palavra forcado deriva do latim furca.

O seu uso é muito antigo.

Depois da lavra da terra apanhava-se o mato, que se juntava em círculos a que chamavam gochas, ou seja uma espécie de paveia de mato e a que se lançava fogo em Setembro, o queimar da terra, a cinza produzida constituía um adubo natural, de tal maneira que quando o trigo ou outro cereal estavam prontos a segar, o seu desenvolvimento distinguia-o dos restantes.

O fogo era transmitido às restantes gochas com o uso do forcado.

Nos sete ou oito dicionários que consultámos não conseguimos encontrar o vocábulo gocha e tal só foi possível no sempre útil Dicionário do falar Algarvio, Eduardo Brazão Gonçalves, 1ª Edição, 1988 pois trata-se de um regionalismo. No Alentejo diz-se magocha.

O exemplar que a foto apresenta foi-nos oferecido pelo nosso amigo alcoutenejo, Francisco Mateus Xavier, o que muito lhe agradecemos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Estudos de História do Algarve



O nosso Escaparate de hoje apresenta-nos um livro no formato vertical de 16X23 cm e com 200 páginas, reunindo doze estudos científicos na área da história e da autoria do Professor Universitário, José Carlos Vilhena Mesquita.

Para os alcoutenejos tem a particularidade de incluir três estudos sobre a Vila e intitulados “As origens do Ensino Primário na Vila de Alcoutim” (p.97), “A Derrocada do Pelourinho e da Câmara de Alcoutim nas Cheias do Guadiana em 1823” (p.103) e A Feira de Alcoutim instituída em 1822 “(p.109), três excelentes trabalhos que deram a conhecer algo que era completamente desconhecido, pelo menos dos alcoutenejos.

Tendo por título Estudos de História do Algarve, é da responsabilidade da AJEA Edições, 2002.

O Professor Doutor Vilhena Mesquita teve a amabilidade de prefaciar, o que muito nos honrou e a nosso pedido, um dos trabalhos em livro que demos a público, A Freguesia da Várzea (do concelho de Santarém) – Achegas para uma monografia, Edição da Junta de Freguesia da Várzea, 2005.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Teixeira" procurando as raízes



Cada vez mais as pessoas ao chegarem a uma idade verdadeiramente madura e quando os seus mais prementes objectivos já se encontram realizados, começam a recuar no tempo voltando-o a viver, mas agora e forçosamente numa análise com outro fim já que na altura a idade era outra.

Isto sempre aconteceu, agora com mais intensidade. Enquanto no tempo dos nossos avós a única possibilidade que havia para recolher estas coisas era o que a memória ia consentindo e transmitindo de geração em geração e o que se cortava com muita facilidade, hoje tudo é diferente, pois a educação e cultura são evidentemente muito superiores. Além disso, os meios tecnológicos desenvolveram-se a um ritmo muito acelerado pelo que vão proporcionando pesquisas que de outro modo seriam impossíveis.

De onde viemos e por onde teriam passado os nossos antepassados é uma interrogação que nos começa a surgir e que muitas vezes procuramos pôr em prática.

De uma maneira geral o nosso conhecimento vai até aos avós e raramente chega aos bisavós.

Quando conseguimos saber e organizar os quatro costados de onde provimos e chegamos pelo menos à 5ª geração, podemos dizer que organizámos a nossa árvore genealógica, o que cada vez é mais procurado pelo cidadão comum, já lá vai o tempo em que isso era pertença da fidalguia e onde em muitos casos a bastardia era frequente.

Vem isto a propósito da possibilidade que nos foi dada de num dos últimos dias do passado mês de Agosto ter tido a oportunidade de conhecer, confraternizar e mostrar a uma senhora residente há muitos anos num país europeu algo do concelho onde nasceu o seu avô paterno, mais propriamente a freguesia de Giões e a vila de Alcoutim.

Mais um contacto que o ALCOUTIM LIVRE proporcionou e que, segundo parece acabou por vir a acicatar algo que estava em estado embrionário.

Ao ler os variadíssimos textos que temos colocado no A.L. e ao aparecer com frequência esse nome de família, mais curiosidade causou, a tal ponto, que na primeira oportunidade a ideia de visitar e conhecer os sítios por onde os antepassados passaram não foi desperdiçada.

O ALCOUTIM LIVRE tem aqui, entre muitos testemunhos, a PROVA PROVADA do seu objectivo, mostrar por dentro e por fora o ALCOUTIM VERDADEIRO, sem bazófias, sem mentiras, com todas as suas virtudes e defeitos.

O percurso foi dividido em duas partes: De manhã, visita à freguesia de Giões depois de almoço à Vila de Alcoutim.

[Na Ermida de S. Domingos. Foto NF]

Estrada fora, fomos a caminho da aldeia do Pereiro e logo adiante cortámos à direita em direcção ao Tesouro. Descemos e vencemos o Barranco do Malheiro que por este lado divide a freguesia do Pereiro da de Giões. Aparece-nos o Monte dos Farelos. Seguimos para Clarines que visitámos, não nos tendo sido possível ver interiormente a Capela de Nª Sª de Oliveira. Explicámos dentro do que conhecemos a sua existência bem longa.

[Na aldeia de Giões procurando as raízes. Foto NF]

Voltámos aos Farelos e passámos ao lado daquilo a que chamam um núcleo museológico, fechado e o acesso cheio de ervas.

Tentámos ir à Fonte Santa. Nós que já lá fomos mais de uma dezenas de vezes, enganámo-nos no caminho, pois além de não haver nenhuma sinalética nesse sentido, o que consideramos uma falha para o poder político (Junta? Câmara?) a feitura de novos caminhos agrícolas acabou por fazer a confusão.

Sabemos que o local desde tempos imemoriais é frequentado pelos povos das redondezas, pelo que já merecia um caminho mais condizente com as necessidades.

Chegámos entretanto à aldeia de Giões, um dos interesses da visitante. Percorremos os sítios e lugares importantes: Capela de S. Domingos recentemente restaurada, ruas e ruelas, Igreja Matriz, Cemitério e antiga Fonte.

[Giões. Mais uma pista que aparece... Foto NF]

As máquinas fotográficas iam fazendo os seus “bonecos”. Perguntámos ao fotógrafo do “outro lado”: - e os dados? Resposta imediata :- eu registo na máquina, a minha mulher na memória!

Procurámos saber onde tinham vivido os antepassados. Foi fácil pois as pessoas além de conhecer esta família tradicional, são amáveis. Até reconheceram o autor do ALCOUTIM LIVRE e outros diziam: - é o que escreve sobre Giões!

Aqui, logicamente o projecto começou a complicar-se pois os contactos foram-se multiplicando com o aparecimento de parentes onde não era difícil encontrar familiares comuns! Até foi possível encontrar o hortelão do pai da visitante!

- Digo-lhe agora que era eu que ia “roubar” a fruta à minha horta! - Informou a visitante.

O tempo “perdido” já não possibilitava visitar Alcaria Alta, Marim ou o Monte das Velhas que terão de ficar para uma nova oportunidade.

[Giões. A velha fonte abastecedora da aldeia. Foto JV, 2011]

O almoço estava à nossa espera na Taverna do Ramos, onde comemos umas sopas de peixe muge, o que para a visita era coisa que não acontecia há muitos anos e que lhe soube muitíssimo bem, segundo informou.

A Taverna do Ramos é entre todos e para mim o restaurante que serve melhor em consonância com a tradição culinária do concelho. Possivelmente em todo ele não conseguia quem estivesse apto a fazer este prato.

Quando nos solicitam a informação, é esta que nós damos mas informamos que não temos lá parte nem conhecemos o nome das pessoas. É uma questão de justiça.

Depois foi a ida à Vila onde impera todo aquele actual “charme”. Negámo-nos logo a ir ao Castelo pois nunca entendemos que para visitar a sala de visitas da vila fosse necessário pagar. Não está em causa a quantia mas sim o facto.

[Na Vila, junto à Capela de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2011]

Estivemos na “Casa dos Condes”, junto da Capela de Nª Sª da Conceição e na Igreja Matriz onde tivemos a possibilidade de visitar o seu interior. Observámos Sanlúcar. Tomámos uma bebida na esplanada do quiosque. As horas corriam. Não deixámos de levar os nossos visitantes a visitar a marginal, passando pelo miradouro do Pontal onde só existem bancos de pedra e mesa sem qualquer sombra protectora o que não convida à sua utilização em tempo de canícula.

Montinho, Laranjeiras e Guerreiros do Rio com o majestoso Guadiana ao seu lado, depois a Corte das Donas e regressámos às Bombas da Gasolina.

A visita estava feita.

O resto fica para uma nova oportunidade.

Adeus Amigos. Boa viagem, Felicidades.

domingo, 25 de setembro de 2011

Festas de Alcoutim, 60 Anos

TEXTO ESCRITO E LIDO POR

JOSÉ MADEIRA SERAFIM

NO DIA DO MUNICÍPIO

[Recinto das Festas engalanado em 1985. Foto JV]

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal
Exmo. Senhor Presidente da Câmara
Exmos. Senhores Vereadores
Excelentíssimas autoridades presentes
Minhas senhoras e meus senhores


Eu era uma criança de 6 anos quando elas começaram.

De pouco me lembro, embora uma ou outra situação apareça na minha memória como se fosse uma fotografía.

Já mais tarde, as reuniões anuais na antiga sala de sessões da Câmara, presididas pelo Senhor professor Amaral e Presidente da Edilidade, onde eram delineados os objectivos e escolhida a Comissão de Festas. Eu e meus amigos ficávamos junto à porta ou nas escadas de acesso, tanta a afluência de pessoas.

Muito jovem ainda, íamos à Câmara buscar os papelinhos que enrolados seriam os bilhetes vendidos na kermesse. O tal bichinho das festas começava a funcionar.

Nas noites quentes de Agosto juntavam-se quase todos os rapazes e raparigas para colar as bandeirínhas em grandes cordas de sisal, que serviam para ornamentar o recinto. Eram noites muito animadas e de grande confraternização.

E as raparigas remendando a cobertura da kermesse que já era muito velha. Recordo perfeitamente, à porta da Bia Martinho.

Depois foram os peditórios pelos montes, muitas vezes com sacos de trigo às costas, porque esse era o produto que as pessoas tinham mais disponível para oferecer. Nestes peditórios aconteciam sempre as mais diversas peripécias. Para nós jovens eram autênticas aventuras. Ainda hoje é comentado entre os intervenientes, quando porventura nos encontramos, um peditório que fomos fazer aos montes do rio, na lancha do Manuel Balbino.

Aos poucos íamos, de uma ou outra forma, colaborando com as organizações. Na bilheteira, nas mesas, nas portas, onde fazia falta.

A tal divertida madrugada de ir à Lourinhã apanhar canas e loendros par enfeitar o palco e os paus que suportavam as bandeirinhas e a iluminação. Eram jangadas de canas ao sabor da maré e com os barcos a remos fazendo o controlo.

Um rancho folclórico foi constituído especialmente para actuar nas Festas.

Lembro-me com toda a certeza que a ideia partiu da Drª Maria Luiza Anselmo, que aqui foi Notária durante alguns anos, e que nessa altura fazia parte da Comissão de Festas.

Tanto quanto sei continua a ser uma grande dinamizadora na área da cultura, na sua zona de origem. Lagoa/Silves.

Como já havia sido constituído outro rancho, anos atrás, não seria possível se não fosse a concordância do mestre João Ricardo, ensaiador do rancho anterior. Tudo estava ligado e assim aconteceu.

Para a altura foi uma experiência entusiasmante e em que participei. O meu par era a Maria Antonieta.
Naturalmente a esta distância temporal é difícil recordar todos, mas lembro-me perfeitamente do António Antunes, Arnaldo, Lizete, Maria de Fátima (salvo erro), Senhorinha, Amilcar Felício, Bia Martinho, Eleutério Fabião, Maria do Anjos, Chiquinha, e muitos mais que já não consigo recordar.

Posso dizer que tivemos sucesso, infelizmente sem continuidade.

Passando à organização das festas, alguns anos mais tarde chegou a nossa vez.

Por um ou dois anos as festas haviam dado prejuízo, ficando algumas dívidas por saldar, como gasóleo para o gerador, ao Sr. Gomes da Costa, etc.

E o mês de Agosto ia passando e não se ouvia falar em nada. Parecia que as festas iam acabar.

E aí, a juventude da minha geração, alguns com 16/17 anos, e digo éramos muitos e decididos, mas para ser justo o António do Rosário foi determinante, tendo sido mesmo ele que liderou toda a organização. Falando com Presidente da Câmara da altura, foi dada a indispensável cobertura.

Foi avançada uma proposta aceite por todos. Par viabilizar as festas todos pagamos bilhete de entrada, desde porteiros, bilheteiros, organizadores, todos pagamos. E com exploração directa do bar.

Assim as festas desse ano deram lucro, pouco, mas deram.

Nos anos seguintes fiz parte de várias Comissões de Festas, umas sendo um dos organizadores, outras como colaborador.
Em festas deste tipo os colaboradores tinham que ser muitos. E foram realmente muitos.

Quase toda a Vila se mobilizava, e quase todas as pessoas colaboravam de uma ou outra forma.

A kermesse que dava imenso trabalho a montar. A sua organização que era muito complexa e difícil. Aí apareciam sempre os mais velhos com muita tarimba nessa tarefa.

Quando o bar era explorado por nós, o trabalho era imenso. Os bidões com o gelo que vinha de Vila Real de Santo António, para refrescar as cervejas e refrigerantes, o atender tanta gente, era um trabalho extenuante. E tanta gente que o fez sem qualquer contrapartida a não ser a sua satisfação pessoal por ter colaborado.

Nas mesas, eram quase sempre os mesmos, que tinham experiência e sabiam como actuar.

Nas bilheteiras foram tantos. Nas portas foram muitos mais. É difícil enumerar tanta gente.

Mais tarde começou-se a investir. Compram-se as primeiras mesas e cadeiras, sem nunca esquecer a Santa Casa da Misericórdia. Mandou-se fazer um palco, que com uma armação com calhas metálicas e telhas de fibra, Já dava alguma dignidade a quem nele actuava. Também se comprou uma aparelhagem sonora.

Quando acabava uma festa, nos dias seguintes já estamos idealizando e tentar melhorar a seguinte.

O que eu penso em relação ao grande sucesso que estas festas tiveram, foi em função de tantas espanholas e espanhóis que a ela afluíam.

O ambiente criado não tinha paralelo com mais nenhumas. Com a sua alegria e improvisação, era comum ver grupos, principalmente de mulheres e também alguns homens que espontaneamente dançavam as sevilhanas. Muitos com uma guitarra e uma pandeireta faziam um grupo de animação.

Onde em Portugal havia isto?

Só nas Festas de Alcoutim.

Muitas e boas amizades se construíram que perduram até aos dias de hoje.

Na vertente económica, principalmente nos seus primeiros 20/30 anos dinamizaram, e de que forma, o comércio em Alcoutim, pela procura do café e de tanta coisa que faltava em Sanlúcar e povoações vizinhas.
Espanholas chegavam magras e regressavam gordas com tanto café escondido no corpo. Isto que eu digo foi real.

E aqui eu tenho algum conhecimento para falar.

Hoje o benefício comercial é de outra índole mas continua a ser importante.

POSSO E QUERO DIZER QUE ESTAS FORAM E SÃO AS MINHAS FESTAS.

Obrigado.

sábado, 24 de setembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Alcoutim - Recordações XII




Escreve


Daniel Teixeira






OS SEM TERRA

Em Alcaria Alta havia apenas uma família, que eu me lembre, sem terra, quer dizer sem propriedade, sem terreno de cultivo. Mais importante que ter o seu «território» era sem dúvida ter as condições de sustento: num mundo onde a propriedade era já por natureza reduzida ela valia mais por isso, por aquilo que produzia e não tanto por aquilo que era.

Pobres, daqueles mesmo de pedir, apareciam pelo monte, já conhecidos todos: lembro-me porque me contaram mas já não conheci o «famoso» Lúcio que ganhou a sua fama não por ser pobre de pedir mas por ter um relacionamento simpático mais que de pedinte com o pessoal do Monte. Foi ele que esteve na origem da ainda hoje por aqueles lados usada frase: «Se tu fosses Lúcio, até o verde das hortas tu comias.»

A história passou-se precisamente com o João Baltazar, criança, com quem a mãe insistia para que ele comesse o cozido de couve. O Lúcio à porta, sentado nos degraus, comendo voraz do mesmo no prato que lhe fora ofertado, ia ouvindo a insistência para que o João comesse a couve e tantas vezes ouviu que não se conteve mais e gritou cá de fora: «Ah João, João...se tu fosses Lúcio até o verde das hortas tu comias!!»

Mas o João não era Lúcio, nem o Lúcio João e pedir por aqueles montes, todos eles de posse geral exígua, correspondia a um arco de intervenção bem largo: fazer a volta para aquele lado acontecia uma vez por mês, não mais, o que correspondia à necessidade de visitar trinta montes por mês, separados entre si por distâncias médias rondando os 10 Kms em terreno duro, de puxar mesmo pelo corpo e sobretudo pelo coração.

[Casa que foi de João Baltazar e hoje restaurada. Foto JV]

A existência de tensão arterial média muito alta por aqueles lados era atribuída ao uso da carne salgada que era a melhor forma de conservação desse tempo. Havia ainda umas coisas que eram muito boas, as chamadas «presas» de carne, normalmente retiradas da zona das costelas do porco, com uma reduzida quantidade de carne à volta do osso, mergulhados depois em gordura de porco e acabando esta banha por funcionar como conservante. Fritas depois e comidas molhando o pão eram «toneladas» de colesterol, é verdade, mas era muito bom.

Sobre as tensões arteriais altas, com a electrificação, com a introdução de alimentos frescos ou congelados, não salgados, caiu por terra o argumento da carne salgada porque não decaiu a tensão arterial média dos habitantes da Serra. Em entrevista que fiz (por telefone) ao Dr. Francisco Amaral - na altura e ainda (?) - Presidenta da Câmara, falámos sobre isso (ele é médico também para quem não conhece) e não me disse textualmente isso mas eu deduzi que a história do excesso de sal na sua relação directa com a tensão alta, por aqueles lados, tinha sido isso mesmo, uma história e uma verdadeira treta.

Debatia-se então ele com os problemas da Diabetes e das Cataratas e com um outro que eu achei surpreendente: o alcoolismo. Na verdade nunca me apercebi durante os anos em que lá estive que o vinho fosse sequer usado nas refeições do dia a dia. Ir à taberna com maior frequência era também considerado quase uma infracção aos bons costumes e o termo «bebedolas» equivalia para aí no meu tempo ao termo «drogado» hoje, guardada que seja uma pequena distância.

Pois sim, a cervejola, o vinho e o bagaço e o medronho tinham entrado portas dentro e portas fora no ambiente campesino do nordeste algarvio. Em certo sentido, embora tenha dificuldade em aceitar, compreendo que o álcool tenha sido o «combustível» (passe a crueza) que ajudou a manter de pé, na fase terminal, explorações familiares e vidas pessoais neste longo processo de decadência de mais de 50/80 anos cujos resultados estão hoje à vista.

Voltando aos sem terra, estes tinham sempre casa própria, por aquilo que me apercebi. Os preços não eram elevados e embora fosse difícil obter dinheiro da forma contada o pagamento aparecia de uma forma ou de outra: não sei se já havia o sistema das prestações mas esta única família sem terra vivia do que o trabalho lhes dava: normalmente alimentação e uma jorna, pequeníssima mas usual por aqueles lados.

Não garanto este números, mas o José Lourenço, o famoso «pão de centeio» assim alcunhado devido ao facto de ser bem moreno, quase mulato, ganhava na altura 200$00 por mês mais dormida em palheiro e alimentação. Anos depois fui encontrar em Cacela um jornaleiro que me disse ganhar 7$50 por dia (mais a alimentação e dormida). Ora tanto num tempo como noutro o ordenado normal andava já acima dos 4.500$00.

Esta família sem terra tinha como irmão da dona da casa um indivíduo igualmente sem terra que morava em Santa Justa e que era uma personagem verdadeiramente singular: trabalhava de dia e gastava à noite em bagaço ou no que viesse à rede. Não era propriamente um crava, naquele sentido que lhes damos, mas aproximava-se de nós, citadinos, isto já depois de eu estar casado, e aceitava de bom grado todas as nossas rodadas, os nossos cigarros. Algumas vezes petiscávamos uma lata de conservas para não andar a seco...enfim.•

Não eram muitas as rodadas – íamos à taberna mais para conversar e ele era bom conversador: contava-nos da fidelidade do seu cão, um rafeiro pequenino, que quando ele com o peso da bebida caía num caminho e lá ficava dormindo o cão enroscava-se ao lado dele até que ele acordasse, que ladrava desalmadamente se alguma coisa menos normal se aproximasse durante a noite e que lhe lambia a cara assim que o sol nascia para o acordar. Ele gostava mesmo do animal, isso era patente, talvez o seu único amigo... «Este nunca me deixa sozinho» acrescentava ele fazendo uma festa na cabeça do cãozinho e depois dialogava um pouco com ele, que deitava a língua de fora como se sorrisse agradecido.

Pode parecer estranho o que vou contar a seguir e qual foi a minha reacção imediata mas ainda hoje me pergunto porque raio tive eu aquela reacção. Quando voltei a Alcaria Alta um ano ou dois depois vim a saber que o Ti Batista tinha morrido queimado num incêndio num palheiro onde dormia. Como era fumador depressa se acrescentou que teria sido ele que se tinha descuidado e deixado dormir com o cigarro aceso em cima da palha seca.

A irmã, condoída, contou-me os detalhes que sabia, disse-me inclusive que não tinha vindo a Faro reconhecer o corpo para não ter de pagar o funeral, que isso já não servia de nada, que lá onde estava estava bem agora, enfim...era um bom irmão e bom amigo dela apesar de tudo rematou.

A minha reacção, depois disto, ainda hoje me espanta: quando ela acabou o relato a primeira coisa que me lembrei foi de perguntar pelo cão (como a nossa mente é!).•

Já de partida, ainda com a lágrima ao canto do olho, respondeu-me que o cão tinha fugido e que tinha regressado a casa em Santa Justa. «Abandonou-o, desta vez abandonou-o!» – disse eu semi – chocado entre dentes lembrando-me do Ti Batista e do cãozinho sendo acariciado por ele na taberna e com a língua de fora como se sorrisse agradecido e ouvindo ainda o seu «Este nunca me deixa sozinho».

Hoje, um e outro, lá onde estão, juntos ou separados, agora, estão certamente bem...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Bemposta, como o nome indica, abrigada na falda de um cerro e próximo de um curso de água



Um dos muitos “montes” que constituem a serrana freguesia de Vaqueiros, situado para além da Ribeira de Odeleite e que antes de 1836 pertencia ao termo de Tavira, ainda que já pertencesse à freguesia de Vaqueiros.

Pertence ao grupo de pequenas povoações que se espalham por todo o concelho e nomeadamente nesta freguesia, pois o isolamento obrigou o homem a construir o seu fogo no local onde possuía terrenos cujo amanho lhe proporcionava a subsistência e tomando em consideração a existência próxima da indispensável água.

Já é referida com este nome nas Memórias Paroquiais (1758), contando na altura com três vizinhos, o mesmo apresentado pela Várzea, Montinho da Várzea, Preguiça, Alcarias Galegas (Monte do Galego?) e Jardos, enquanto Monchique, Monte Novo, Malfrade, Madeiras e Casa Nova só tinham dois. Ferrarias, Mesquita e Galachos estavam num patamar superior pois tinham quatro vizinhos cada.

De todos estes montes só Malfrade avançou consideravelmente, ainda que em decréscimo, é dos montes mais populosos da freguesia.

Após vencermos a ponte dos Bentos sobre a Ribeira de Odeleite, no sentido norte/sul , tomamos a estrada da esquerda que é a subir para novamente descer depois de vencida a altitude. Passamos por uma pequena ponte de um pilar, construída para vencer um barranco de dimensões razoáveis. Na sua área os terrenos propiciam pequenos hortejos e na altura podia ver-se um bonito batatal.

Voltámos naturalmente a subir e depois de passarmos o desvio de terra batida para o Vale da Rosa, aparece-nos à direita esta pequenina povoação aconchegada na falda do cerro e à direita da estrada.

Bemposta, o seu nome, é topónimo muito frequente em Portugal e na Galiza havendo mesmo no Estado do Rio de Janeiro uma vila assim chamada. De bem posta em referência à topografia da vila, aldeia, povoação, herdade, quinta, etc. (1)

No dicionário que habitualmente consultamos para o efeito, encontrámos referidas 37, incluindo a da freguesia de Vaqueiros. (2)

Após anos de completo abandono, que em parte ainda se nota, aconteceu o regresso de um dos seus filhos que sozinho fez reviver o pequeno monte, notando-se a recuperação de dois ou três fogos.

Em 1996 a Câmara pretendia electrificá-lo (3) o que hoje se verifica como demonstra a foto apresentada. Neste mesmo ano é instalada uma caixa de recepção do correio. É igualmente feita a recolha do lixo.

Do outro lado do barranco o indispensável poço apetrechado de bomba elevatória e que fornece o precioso líquido.

Na última visita que fizemos ao monte, notámos um fogo em franca actividade, possivelmente por ter recebido visita de familiares.

[O poço do monte apetrechado de bomba elevatória. Foto JV, 2011]

Ainda que só o tivéssemos conhecido após a possibilidade de passagem de um veículo automóvel, no caso um jipe, desde os primórdios da nossa chegada a Alcoutim conhecêmo-lo bem e fixámos o seu nome.

Mensalmente atendíamos o Sr. Silvino Domingos que saindo de madrugada do monte só regressava a altas horas da noite fazendo o percurso em animal de sela, a pé e em transportes públicos. Ia receber uma diminuta pensão de sangue proveniente de um filho, vítima da guerra colonial em 1967, na Guiné e que era o 1º cabo António da Silva Domingos.

Apesar de tantos anos passados nunca nos esquecemos do seu nome e da sua figura meã, andava vestido de preto e quando recebia os míseros escudos deixava sempre escapar uma lágrima acompanhando-a com a seguinte frase: “este dinheiro queima-me as mãos”. E o que aconteceu ao Sr. Silvino, aconteceu a milhares de pais e outros familiares espalhados pelo país.

O Sr. Silvino tinha dez filhos sendo dois do sexo masculino. Só na sua casa seriam dez pessoas.

É um seu descendente que ainda dá vida ao monte.


NOTAS
(1) - Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, Vol. I p. 239
(2) - Novo Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C.Amaral Frazão, Editorial de Domingos Barreira, Porto, 1981, p 99
(3) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p 12

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Marçal Luís Rita

– MAIS UM AMIGO DE ALCOUTIM QUE NOS DEIXA



Tivemos notícia da morte súbita deste nosso amigo que ocorreu no dia 20 em Viseu, onde morava. Era primo do Joaquim Rita e de Maria Silvéria Batista. Natural da Mesquita no concelho de Mértola, veio com seus Pais morar em Alcoutim no início dos anos 50. Seu Pai, agente da Guarda-fiscal, foi impedido do então comandante de secção tenente Francisco Neto.

Depois de estudos secundários fez o curso de sargentos milicianos em Tavira juntamente com o José Cavaco Peres, fez carreira militar, atingindo o posto de capitão do exército.

A última vez que conversámos foi pelo telefone no dia 1 deste mês. Eu queria esclarecer a data das Festas de Alcoutim e perguntei-lhe: Quando foi a primeira festa a que assististe em Alcoutim? A que ele me respondeu sem qualquer hesitação e nestes termos: Foi em 1951, à primeira grande festa! Às anteriores não assisti, pois ainda não morava lá. Mas sei que se realizaram outras.

Em 1952 já pertenceu à comissão de festas na comissão de Música e Baile, como é referido no opúsculo editado este ano pela C. M. A.

Aqui ficam as nossas condolências à família e a expressão da nossa saudade.

G.S. 2011-09-22

Festas de Alcoutim / 2011 - Texto escrito e lido pelo nosso colaborador no dia do Município (09.09.2011)





GASPAR SANTOS


[Espanholas dançando as sevilhanas nas Festas de 2011. Foto G.S.]

Agradeço o convite para falar sobre as Festas de Alcoutim. Aceitei, pois elas mobilizaram muito a minha geração e nelas participei. E, sobretudo, aceitei por ser um prazer e uma honra falar com os meus conterrâneos. Trago apenas apontamentos de memória. Deixo para outros o estudo apurado destas festas. Elas são de carácter não religioso e hoje as mais antigas do Algarve.

Alcoutim tinha então muitos jovens com alguma escolaridade, mas faltavam saídas profissionais e, sentiam, sem ainda prever a grande desertificação que ameaça hoje o nosso concelho.

Víamos a feira anual definhar. Coincidia com um arremedo de festa que se limitava a um baile com acordeonista na sociedade e a uma venda de rifas no velho bazar. Por outro lado dávamos conta da grandeza do médico cirurgião Dr. João Francisco Dias entalado num pequeno hospital que hoje nem serviria para um centro de saúde. Era preciso fazer qualquer coisa que rasgasse horizontes, que pusesse “Alcoutim no mapa” como hoje se diz.

Queríamos fazer divertimento, uma feira significativa e sonhávamos fazer um grande hospital com o produto de uma grande festa. Era utopia dirão hoje. Mas aquela geração romanticamente deitou mãos à obra.

A história das festas acompanha a história do Grupo Desportivo de Alcoutim. Por isso, as primeiras tiveram uma forte componente desportiva. Nós fazíamos tudo. Organizávamos, montávamos a festa, éramos os atletas e os espectadores. O apoio vinha apenas de pessoas anónimas.

A preparação demorava meses. Começávamos por enviar uma circular a todos os alcoutenejos e amigos de Alcoutim que moravam fora. Pedia-se um donativo para as festas, convocando a sua generosidade para a construção do hospital. Na primeira festa essa circular foi redigida pelo Dr. João Francisco Dias. Depois, já mais próximo das festas, grupos de 3 ou 4 jovens percorriam os montes angariando fundos. Éramos bem recebidos e lá vinha o donativo quase sempre em trigo que depois se vendia ao celeiro.

Os objectos doados convertiam-se em rifas que jovens raparigas vendiam na quermesse. As entradas, o aluguer das mesas e cadeiras, e o bar ajudavam a financiar as festas.
Lembro-me da primeira festa. Uma semana inteira. Por fim a exaustão. Aprendemos. No ano seguinte reduziu-se a actividade desportiva. O grande entusiasta era o saudoso Fernando Dias, adepto da Académica de Coimbra conhecedor das várias modalidades. A primeira festa foi o nosso laboratório. Nela se ensaiaram e testaram as ideias. As festas seguintes melhoraram.

Cabe aqui recordar os mais entusiastas, entre outros: João Dias, Rui Simão, José Francisco Rita, e o mais velho e sereno Manuel Alfredo Afonso chamado a líder para o Grupo Desportivo.

Tínhamos alguns, entre nós, como o Carlos Brito ou o José Cavaco Peres que estudavam na cidade, eram conhecedores de modalidades que muitos de nós nunca viramos praticar, como andebol de 7 e voleibol, e por isso ajudaram na preparação de outros jovens.

Nessa semana, tivemos andebol de 7 e voleibol, várias corridas, corta mato, futebol, travessia a nado do Guadiana e pau de sebo. Fizemos um torneio de tiro aos pombos, aliás com pouco brilho, pois os pombos cansados, dormentes por terem passado muitas horas fechados, só voavam após a abertura da gaiola quando enxotados. A experiência fez-nos evoluir para tiro aos pratos nas festas seguintes.

Fazíamos o programa e editávamos os cartazes de promoção, após ajustar a colaboração de músicos de que se tornou habitual a Orquestra José Francisco de Vila Real. O pirotécnico Gomes da Costa de S. Brás de Alportel deu um brilho especial e raro, com o fogo aquático e o fogo preso no cais com peças rotativas, além de sublinhar a alvorada com foguetes e morteiros e o início e final de cada passo do programa com morteiros.

No dia da festa montávamos todas as estruturas, a quermesse, o palco etc. A Câmara Municipal apenas nos emprestava algumas cadeiras e mesas.

Não havia distribuição de electricidade, pelo que a iluminação do recinto das festas e a alimentação eléctrica da aparelhagem de som se realizava com um gerador alugado.
Para se realizar a noite festiva na esplanada do cais pedia-se autorização às entidades portuárias e à Câmara Municipal. Depois ocupávamos tudo. Até as instalações sanitárias passavam a servir de bar e arrecadação de bebidas e comidas.
À noite era o baile, só interrompido para actuação de artista convidado (cantor ou acordeonista) ou para o fogo-de-artifício.

Nossos vizinhos de S. Lucar vinham, aproveitando a abertura da fronteira. Davam à Vila uma alegria e um colorido cosmopolita não habitual, tanto com as suas cantorias como com exibição espontânea de sevilhanas.

Das primeiras festas, realizadas com o esforço que hoje nem se imagina, vou contar alguns episódios:
- Na véspera da corrida de corta mato convidamos um jovem, entre outros, que corria bem, para participar. Ele perguntou: e como corto o mato?
A que o Fernando Dias, brincalhão, respondeu: trazes uma faca. Ele apresentou-se no dia seguinte de facalhão para cortar o mato.

- Noutra noite eram artistas convidados: a consagrada Eugénia Lima e um jovem acordeonista de nome Fernando em começo de carreira, mas que foi muito mais aplaudido. Eugénia Lima não gostou e no fim da actuação exigiu ser paga imediatamente. Ficamos embaraçados. Então um desconhecido passou de imediato um cheque assumindo a responsabilidade!
***
A primeira grande festa foi de facto em 1951, a partir da qual se faz a sua contagem oficial. Foi aquela em que tivemos apoios oficiais e deixou de estar apenas nas mãos dos mais novos.

Em que ano se realizou, de facto, a primeira festa? Em 1949. O Grupo Desportivo acabado de nascer quis mostrar obra. Deixo aqui uma pista para que se faça justiça aos pioneiros:
José Francisco Rita, primo do Francisco Pedro, mostrou-me um dossier com todas as circulares e programas, pouco antes de ter falecido em Odemira onde morava. E ele, documentado, também não concordava com a contagem oficial. Se a família dele ainda tiver o dossier e o ceder podemos recolher muito material de esclarecimento. Há muitas pessoas vivas, como o Manuel Justo que dizem o mesmo que nós.

Falta referir que o apuramento financeiro para a construção do hospital era de poucos milhares de escudos que se depositavam na Caixa Geral Depósitos.
Isto é o que de mais importante se me oferece dizer.

Para todos os que participaram e já partiram, a nossa saudade. Para os outros, eu diria como o Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá…”

G. S.
Dia do Município, 09 de Setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O orégão



É juntamente com os coentros a planta aromática mais utilizada na culinária alcouteneja.

Planta herbácea, da família das Labiadas, que existe espontânea em Portugal e é também conhecida por ouregão.

Planta nativa da zona mediterrânica e da Ásia apresenta muitas espécies, sendo todas aromáticas. Erva perene, cuja altura pode variar de 30 a 80 cm. Planta herbácea, com raízes na forma de caules subterrâneos (rizomas). Bastante ramificado, produz folhas pequenas, ovais e pecioladas. As flores são pequenas e normalmente brancas, aparecendo no início do Verão até meados do Outono. Há regiões no Brasil, onde a planta vive vários anos sem nunca produzir flores.

[Orégãos secos]
As folhas são utilizadas frescas ou secas e pelo sabor que transmitem. Para a secagem, que convém fazer –se à sombra ,os pés devem ser colhidos antes de florirem para assim reterem todos os seus aromas.

No concelho de Alcoutim os orégãos são utilizados na confecção de caldeiradas de peixe muge, em saladas de tomate e pepino, nos gaspachos e nas tradicionais “sopas” nomeadamente nas de tomate. São indispensáveis nos caracóis.

As azeitonas britadas ou de água não passam sem o tempero dos orégãos.

Em Portugal só no centro e sul do país é utilizado pois é quase desconhecido nas regiões nortenhas.

Ainda que no centro do país ele apareça espontaneamente, já no concelho de Alcoutim isso não acontece, pois é cuidadosamente semeado e tratado nas pequenas hortas.

Muito utilizado na culinária italiana e grega, é também aplicado na espanhola, francesa e mexicana.

Ainda que lhe sejam reconhecidas propriedades medicinais, não conhecemos a sua utilização com esse sentido no concelho de Alcoutim.

Em Alcoutim geralmente é designado por orégano, termo que só encontrámos como sinónimo de orégão no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa- Verbo, 2001 e com uso no Brasil e que igualmente aparece no Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa,(Mirador) 5ª Edição, 1981. Todos os outros que consultámos são omissos quanto a este vocábulo que igualmente se encontra na língua espanhola.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O "monte" do Marmeleiro - o lugarejo mais próximo da Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nºs 94, 95 e 96, respectivamente de Fevereiro, Março e Abril de 2008 e pp 21, 20 e 24)

[A entrada do "monte" com nova placa toponímica. Foto JV]

Entre os elementos que procuramos reunir para podermos apresentar as pequenas povoações, aqui conhecidas por montes (já o pároco da freguesia de Giões, respondendo ao inquérito de 1758, escrevia:- as mais aldeias a que chamam cá montes(...) e que se espalham pela Cumeada do Pereirão, mais propriamente no concelho de Alcoutim, fazem parte os da sua localização por onde normalmente começamos e neste caso a partir da vila.

Saímos pela estrada nº 122-1 que vai contornando os cerros para os poder vencer mais facilmente. Enquanto que do lado esquerdo a estratificação nos mostra através do corte as camadas de xisto, do lado direito o vale é profundo. Para trás e à esquerda, ficou o desvio para a chamada estrada marginal (E.M. 507).

Cerca de dois quilómetros andados, encontramo-nos na Volta Grande, curva bem pronunciada da qual se desfruta bom panorama, principalmente na época da floração das amendoeiras. A estrada continua a subir. Vão aparecendo à sua beira alguns eucaliptos e agora, pela primeira vez, duas alfarrobeiras. Estamos a cerca de três mil metros da vila, na designada Portela Alta. Até aqui foi sempre a subir, agora desce-se pela primeira vez. A seguir a uma pequena recta, sucedem-se as curvas e contra curvas, mas agora em terrenos planos. Uma recta mais extensa, deixa-nos ver ao longe a placa que nos indica à esquerda o desvio para este monte que fica à distância de um quilómetro. No local, um refúgio para os passageiros de transportes públicos.

[Vista geral da povoação. Foto JV, 2005]

A estrada asfaltada que agora tomamos (E.M. 1058) estreita e sinalizada foi, penso, que das primeiras e únicas construídas antes do 25 de Abril. À esquerda fica um montinho, constituído por um único fogo. As curvas sucedem-se até que de repente aparece a povoação encavalitada numa pequena elevação como era aconselhável para defesa e observação. No vale bem pronunciado, um laranjal.

A placa toponímica que o identifica, na altura, quase não se percebia.

Abordaremos agora o topónimo que aparece cinco vezes no dicionário que para o efeito habitualmente consultamos (1) e que possui outros com a mesma origem, como Marmeleira, Marmelal e Marmelo.

José Pedro Machado (2) apresenta-o como representado dezassete vezes.
As causas determinantes no aparecimento dos topónimos são variadíssimas, mas grande parte está relacionada com aspectos geográficos, da flora e da fauna, de antroponímia e de instituições.

Neste caso tem, como é por demais evidente, um sentido vegetal; resta-nos saber qual foi a particularidade para a sua aplicação: - porte, idade, produção, raridade ou defeito, são hipóteses.

O marmeleiro é um arbusto ou árvore da família das rosáceas, de folha caduca e flor rosada, cultivada na Europa meridional, mas de origem asiática e cujo fruto, o marmelo, é comestível. (3)

Com a romãzeira, constituía dos frutos mais vulgares na margem do Guadiana, desempenhando a importante função da manutenção das margens, suportando o seu raizame as enxurradas própria do rio.

Continuando na toponímia, quero aqui referir alguns topónimos constantes da matriz predial rústica da zona, que têm algo para dizer. Reguengo é um deles. As terras reguengueiras eram as que pertenciam ao rei. No arquivo histórico da Misericórdia de Alcoutim, por volta de 1970, encontrámos documento em que se dizia que o rei doava à Santa Casa os bens que lhe pertenciam no termo de Alcoutim. Por mais que procurássemos e apesar de sabermos que existia uma relação anexa, não a conseguimos encontrar, nem nada que nos levasse, na altura, a localizá-los. Se a memória não nos atraiçoa a tal distância, tratava-se de um documento avulso escrito pelo provedor, Manuel António Torres. Possivelmente já terá desaparecido com as limpezas que periodicamente são feitas, principalmente quando se muda de gestores. Hoje, penso que a identificação poderá estar, se ainda for possível fazê-lo, nos foros que a Santa Casa cobrava até à sua abolição ocorrida após o 25 de Abril.

[Casa típica. Foto JV, 2005]

Outra zona próxima do Marmeleiro chama-nos a atenção pelo seu nome. Trata-se da Toscana. Terá vindo dessa região, hoje incluída na Itália, gente que subindo o rio, por aqui se fixou? Mais para o norte e igualmente próximo do Guadiana e já no concelho de Mértola existe o monte dos Lombardos que poderá ter a mesma interpretação no que respeita à Lombardia.

Alcaçarinho, diminutivo de Alcácer, do árabe al- qaçar(4) e por último o Vale de Condes com o seu barranco que deita as águas, na época invernosa, no Guadiana., zona onde se encontram vestígios de um templo conhecido pelo povo por igrejinha, do período romano - visigótico, perto do qual se localiza uma necrópole com seis sepulturas identificadas. (5)

Este topónimo tem a ver com os Condes de Alcoutim que foram senhores de grande número de bens no concelho, nos quais se incluíam muitas herdades e esta zona toda lhes teria pertencido. Esses bens, depois de terem passado para a posse da Casa do Infantado depois do último conde ter entrado na conjura contra D. João IV, pelo que foi degolado no Rossio, em Lisboa, vieram a ser adquiridos pela burguesia local, durante o liberalismo, quando a referida Casa foi extinta por Decreto de 18 de Março de 1834.

O antiquíssimo caminho que vindo de Tavira chegava a Alcoutim, atravessava a serra, desembocando na Porta de Tavira, passava bem perto deste monte e ainda encontramos vestígios dele. Nos anos sessenta do século passado, as pessoas deste monte que se deslocavam a pé à vila, ou vice-versa, o que era habitual, utilizavam-no sempre. Era à vila que recorriam para comprar o açúcar, o café, arroz, massa, fósforos e pouco mais, pois o restante era da sua produção. Por outro lado, a exímia doceira da vila, Ti Ana Brandoa, ia a este monte frequentemente, mesmo depois de avançada idade, onde adquiria amêndoa para confeccionar o seu incomparável nógado, pois os produtores da vila ofereciam-lhe normalmente algumas dificuldades, a nível de preço e quantidades.

Sempre ouvi dizer e é verdade, o Marmeleiro foi sempre um monte pequeno.

Em 1839, Silva Lopes (6) atribui-lhe apenas quinze fogos, o que certamente albergaria mais de sessenta habitantes, sendo o menor da freguesia de Alcoutim. Em 1876 tinha, segundo elementos do Centro de Saúde de Alcoutim, vinte e seis habitantes. No Censo populacional de 1991, o número já tinha descido para vinte, existindo igual quantidade de edifícios. Em média e se os elementos estiverem correctos, de trinta em trinta anos construiu-se uma habitação.

[Uma rua da povoação. Foto JV, 2005]

A população actual não chega à dezena, valendo contudo a permanência acidental de alguns dos seus filhos que apesar de estarem fixados por outras paragens, não deixaram de recuperar as casas que herdaram dos pais, dando-lhes melhores condições e que ocupam quando lhes é possível.

O monte resume-se a uma rua e nele encontrámos casas fechadas, revestidas de azulejos, as portas e janelas de alumínio dão nas vistas, sabendo contudo que existem casas recuperadas dentro das características tradicionais, sem descurar, como não podia deixar de ser, das indispensáveis comodidades. Houve mesmo quem tivesse recuperado o vão nas largas paredes, aqui muitas vezes designado por pilheira. Era uma maneira muito típica de arranjar lugar para colocar tigelas, pelanganas e outras (poucas) peças utilizadas, sem o recurso a móveis. Em todo o concelho, ainda é possível ver muitas nas casas antigas, mas nunca ou raramente aproveitáveis nos restauros.

Referimos a existência de um algar, cavado na rocha, sobre o qual se construiu uma habitação. As águas dos telhados são conduzidas para lá, de uma maneira original, servindo assim de reservatório do precioso líquido. As pessoas idosas atribuem-lhe grande antiguidade. (7)

Nunca existiu aqui qualquer estabelecimento comercial visto o reduzido número de habitantes não o justificar.

Depois do fornecimento de energia eléctrica, teve água distribuída por fontanários cuja estação elevatória está datada de 1988 e os arruamentos foram pavimentados. O telefone e a caixa do correio, se ainda existe, são regalias com cerca de trinta anos.

Recentemente (2002) forneceu-se água ao domicílio, colocando-se uma bomba de desinfecção mas... sem se criar o competente esgoto. (8)

À entrada do monte o forno comunitário, com alpendre, mas de construção relativamente recente – não se trata de um daqueles e há-os no concelho, de que ninguém se lembra de quando foram construídos.

A pastorícia foi sempre uma actividade importante na vida dos marmeleirenses, a par da cerealicultura.

Sabemos que em 1771 e seguintes, manifestavam o seu gado, constituído por cabras, chibatos, ovelhas, carneiros, borregos e ainda com muita frequência, reses (gado bovino), Gregório Gonçalves, Diogo Gonçalves, Manuel Gonçalves, José Dias (9), António Martins Corvo e Romão Vaz. (10)

[Ouro aspecto da entrada do "monte". Foto JV, 2005]

Em sessão de Câmara, realizada em 22 de Dezembro de 1843, com a presença dos principais cidadãos da freguesia, na Real Capela de Nª Sª da Conceição, com o objectivo de resolver o problema dos enterramentos, tendo-se acordado por unanimidade fazer um cemitério no sítio de S. Sebastião, o Marmeleiro fez-se representar por José Madeira. (11)

O mesmo indivíduo, já viúvo, em 1852 faz parte dos quarenta maiores contribuintes que hão-de eleger a Comissão para eleição de deputados.

O lugar de Juiz Eleito da freguesia de Alcoutim, em 1858, era desempenhado por José Pereira, igualmente desta pequena povoação.

O mesmo cidadão, quando era vereador da Câmara pede verbalmente que a mesma lhe concedesse no rossio do monte, próximo do caminho que vem para a vila e junto à cerca de José Galrito, do mesmo monte, oito metros de terreno para fazer uma casa, o que a Câmara lhe concedeu sem prejuízo dos habitantes do dito monte. (12)

A Cheia Grande (1876) também atingiu as propriedades (várzeas) dos seus habitantes e da relação apresentada dos prejuízos causados constam os nomes de José Pereira, que sozinho apresentou mais prejuízos do que todos os restantes juntos, Manuel Dias, Francisco Martins, José Galrito, António Dias, Augusto Dias e Manuel Agostinho.

Como se vê nesta e noutras circunstâncias, a população dividia-se em poucas famílias, sendo notório a dos Dias e a dos Gonçalves.

O capitão de Ordenanças, José Dias Justo, é escrivão da Santa Casa da Misericórdia em 1774/75 e em 1796/97. Outro capitão era Manuel Gonçalves, casado com D. Maria Pereira, faz o seu testamento em 1842 desejando ser sepultado na Igreja da Misericórdia.

[O "montinho" um pouco afastado mas fazendo parte da povoação. Foto JV, 2005]

Em Dezembro de 1893, Maria dos Ramos foi presa pelo crime de ferimentos na pessoa de José Madeira, solteiro, seu vizinho.

Leite de Vasconcelos recolheu nas proximidades um machado de pedra polida que depositou no Museu Etnográfico de Lisboa. (13)
Para terminar e por ser uma actividade nova, diremos que a Marmelcaça (Zona de Caça Turística) tem a sua sede nos arredores deste monte, ocupando uma zona cinegética onde se encontram perdizes, lebres, coelhos e javalis.


NOTAS

(1) – Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto – 1981
(2) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Edição Horizonte/ Confluência, 1993.
(3) – Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, (2 volumes), Academia das Ciências de Lisboa- Verbo , 2001
(4) – Vocabulário Português de Origem Árabe, José Pedro Machado, Editorial Notícias, 1991
(5) – “O Algarve Oriental Durante a Ocupação Islâmica” , Helena Catarino, in Al Ulyã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6 Vol I , 1997/98.
(6) – Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, 2 Volumes, Algarve em Foco Editora, Faro, 1988.
(7) – Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), José Varzeano, Edição Câmara Municipal de Alcoutim, Rio Maior, 1985.
(8) - Alcoutim – Revista da Câmara Municipal de Alcoutim, nº 9 , Dezembro , 2002
(9) – Sabia escrever. Era 5º avô de meu filho.
(10) – Tomo de Manifestoz da Camera dos Gadoz, iniciado em 1771 (?)
(11) – Livro de Actas da Câmara Municipal de Alcoutim.
(12) – Acta de 30 de Janeiro daquele ano.
(13) -“ Objectos Arqueológicos de Alcoutim”, in O Arch. Port., Lisboa, Vol. XXIV, 1919.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Procissão em Honra de Nª Sª de Fátima



A nossa Câmara Escura de hoje vai voltar a este evento religioso que teve lugar na Vila de Alcoutim em 23 de Fevereiro de 1947, conforme consta no verso da fotografia que nos foi enviada pelo visitante assíduo deste espaço, o nosso amigo Carlos Barão.

Poucos dias depois a dita fotografia e outras da mesma cerimónia foram-nos gentilmente enviadas pelo também nosso amigo José Madeira Serafim, que assim e por este meio as disponibiliza.

A foto foi tirada à saída da Capela de Nª Sª da Conceição e a imagem esteve presente na missa campal desse dia realizada no cais da vila.

Aqui ficam mais estes elementos sobre acontecimentos passados há 54 anos.

Os nossos agradecimentos aos colaboradores.

Futuramente a Câmara Escura apresentará mais fotos deste acontecimento.

sábado, 17 de setembro de 2011

A cavadeira



Há muito que andávamos para abordar este utensílio agrícola que só conhecemos em Alcoutim e que dá pelo nome de cavadeira.

Ainda que qualquer cidadão saiba que “cavadeira” será algo para “cavar”, a verdade é que não conhecíamos o objecto pelo que a curiosidade levou-nos a procurá-lo.

Na nossa região de origem e noutra por onde já tínhamos passado nunca ouvimos falar em tal e daí a nossa admiração.

As fotos apresentam dois tipos de cavadeiras já desactivadas e sem cabo que teria sido possivelmente de zambujeiro ou de oliveira, pois eram os mais usados nesta região.

A primeira, para nós, parecia-nos uma espécie de picareta e a segunda um sacho. A explicação veio logo a seguir tendo-nos sido explicado que o ferro da cavadeira comporta duas partes com aplicações distintas: enquanto a “pá” (mais estreita ou mais larga como a foto apresenta) se destina a cavar, a parte de cima e ligada ao “olho”é em forma de machado e destina-se a cortar o mato que aqui sempre foi abundante.

Como se compreende trata-se de um utensílio agrícola concebido para as necessidades locais e por isso desconhecido de outras regiões com características diferentes.

Para completar o trabalho havia agora que procurar, nomeadamente em dicionários de vários tipos o que constava sobre a palavra.

Não consta, entre outros, do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa – Verbo, 2001 e do Dicionário da Língua Portuguesa “Editora”, Porto, 5ª Edição, 1977.

Encontramo-la como palavra usada no Brasil. O Dicionário Prático Ilustrado (Dir. de Jaime de Séguier) Edição de Lello & Irmão, Porto, 1972, apresenta a seguinte definição: – Instrumento agrícola para cavar terra ou juntar ervas que se cortam.

Entre outras definições e também ligado ao Brasil, o Dicionário Domingos Barreira, 4ª Edição, 1984, explica: enxada que se usa para a pesca nos rios.

Continuando a referir a palavra como de uso brasileiro, o Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, Porto, 1975, indica: Instrumento agrícola para cavar a terra ou juntar ervas cortadas. Nome comum de diversas espécies de aves da família das galbúlidas.

Para terminar consultámos o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Mirador – que refere: Instrumento para cavar terra ou juntar ervas mondadas. Enxada usada em pesca fluvial, etc

Não deixámos de consultar o Dicionário do falar Algarvio, Eduardo Brazão Gonçalves, 1988,que é omisso quanto ao termo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Relatório de 1867 sobre Alcoutim

Pequena nota
Nós não conhecíamos o curioso e interessante relatório que o nosso Amigo e colaborador Roiz Vilão nos traz hoje ao conhecimento ainda que soubessemos da visita do Governador Civil visto ela ser referida em actas da Câmara.
Vale como documento histórico e dá-nos uma perspectiva do ambiente concelhio na época e que para nós não constitui surpresa devido ao conhecimento que fomos adquirindo ao longo dos tempos com pesquisas efectuadas.
Na nossa modesta opinião, podemos e devemos fazer uma comparação com os dias de hoje e tirar conclusões.
Obrigado Gonçalo Vilão por nos ter dado a conhecer tal documento.


JV





Escreve


Gonçalo Roiz Vilão




[Vista parcial da Vila de Alcoutim em 1993. Foto de JV]

As pesquisas que tantas vezes fazemos em livros antigos que ficam perdidos no tempo e nas estantes poeirentas que a aldeia global tende a ostracizar, levam-nos a reflectir sobre o que esquecemos ou podemos aprender com o passado e ao rebuscá-los no tempo trazem-nos ao pesquisar, a concreta certeza que as problemáticas vivenciais que hoje atravessam as nossas vidas essas… já foram velhas. Contudo, passados que foram mais de 150 anos, o nosso concelho felizmente evoluiu, senão vejamos um relatório de Ayres Guedes Coutinho Garrido – Governador Civil do Distrito Administrativo de Faro, datado de 1867, sobre Alcoutim (1):

Este relatório acerca do Concelho de Alcoutim enquadrava-se na portaria publicada em 1866 que obrigava os Governadores Civis a visitar todos os concelhos do reino, vejamos o que relata o de então:

“N'este concelho, cuja cabeça tem apenas 90 fogos, achando-os cm grande decadencia, como o mostram as muitas casas deshabitadas e até desmoronadas que n'ella se encontram, a administração municipal é tal qual pôde esperar-se de uma camara, cujos vereadores são quasi todos analphabetos, sendo quem ali dirige tudo o escrivão da camara, que o é tambem da administração do concelho e da fazenda, e dando-se a circumstancia de ser o presidente alem de sub-delegado do procurador regio, escripturario de fazenda, e n'esta qualidade subordinado ao escrivão da mesma camara
D'aqui pôde inferir-se qual seja a falta de pessoal habilitado para os cargos publicos n'este concelho, cuja conservação só poderá justifiear-se pelo isolamento em que se acha n'um angulo do districto a oito leguas de distancia das povoações mais proximas, que são Castro Marim e Villa Real de Santo Antonio.
A casa da camara acha-se em deploravel estado e especialmente os telhados, e assim as casas da administração, do tribunal, prisões publicas, as calçadas das ruas, o caes junto do Guadiana, cmfim tudo o que se acha a cargo da camara d'este concelho.
A sua despeza obrigatoria é de 2:6910685 réis, alem da divida passiva, que é de réis 1:1925110, achando-se por cobrar, pelo desleixo da mesma camara e da administração dividas activas, na importancia de réis 1:620,975 réis de repartição (que é de 35 por cento) de todos os annos decorridos de 1816 em diante.
Não ha no concelho uma botica, nem um unico facultativo, e comquanto a camara creasse ultimamente um partido de 4000000 réis para medico e outro de 70;5000 réis para um boticario, nem se acham providos, nem ainda abriram concurso, porque não têem no orçamento meios para fazer face a estas despezas, nem se acham mui dispostos a vota-los, apesar das minhas ordens, e das recommendações que lhes fiz no acto da visita, porque não estão convencidos da necessidade de os haver no concelho, vivendo mui satisfeitos com os curandeiros com que se tratam.
O cemiterio da vila é tolerável, assim como os das freguezias do Pereiro e Vaqueiros: o de Giões está incompleto e o de Martim Longo mal situado por estar dentro da povoação. Deixei sobre estes e outros assumptos os provimentos necessarios, e tomei nota para instar e promover por todos os meios ao meu alcance as obras, melhoramentos e adopção das providencias que este concelho reclama; não confiando comtudo no feliz resultado de minhas diligencias, por isso que da parte dos habitantes e das respectivas corporações administrativas e auctoridades locaes se não encontra ali a menor cooperação ou auxilio.
Convencidos de que pela situação do concelho não pode ellc ser suprimido, entendem que a autoridade superior so conforma por necessidade com deixa-los viver a seu modo, e contam ir assim disfructando as vantagens inherentes ao serviço dos cargos que occupam, sendo para os que assim os servem que só, e por esse motivo, aproveita a existencia do concelho.
A escripturação da contabilidade municipal não se faz nos termos das iustrucções de 17 de novembro de 1849, havendo somente o livro da receita e despeza diaria, o qual todavia achei regular.
Estão approvadas as contas das juntas de parochia, umas até 1861 e outras até 1865; as da camara porém só estão julgadas até 1850-1851, sendo em virtude de ordens minhas que já se têem recebido as contas de alguns dos annos seguintes, faltando todavia ainda a maior parte, que sem cessar reclamo.”

(1)Collecção dos Rellatórios Visitas feitas aos distritos pelos respectivos Governadores Civis em virtude da Portaria de 1866; Lisboa, Imprensa Nacional, 1868.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Festa e Feira de Alcoutim / 2011






Reportagem

de


Gaspar Santos




Realizou-se este ano mais uma Festa como se tem verificado sem interrupção desde 1949, o ano a seguir à criação do Grupo Desportivo de Alcoutim. Ficamos satisfeitos por termos sido convidados a falar no Dia do Município sobre as primeiras festas.

Sexta-feira 9 de Setembro foi o Dia do Município e primeiro dia destas festas organizadas pela Câmara Municipal. O Sábado foi o dia de Espanha e Domingo e último dia de Festa, o dia da Juventude.

O Dia do Município começou com Arruada e Hastear da Bandeira na Praça da República, a que se seguiu a colocação de ramo de flores junto do busto do Dr. João Francisco Dias e recolhimento com fundo musical por banda.

Às 10 horas realizou-se a sessão comemorativa do Aniversário das Festas de Alcoutim na qual Fernando Estêvão Dias fez a apresentação da brochura “As Grandiosas Festas de Alcoutim”, uma recolha da documentação possível que historia estas festas.

Reconheceu haver algumas dúvidas estando abertos a colaborações que as esclareçam.
A seguir falou o colaborador deste blogue sobre as primeiras festas situando o seu início em 1949 e que terão levado um forte incremento quando em 1951 se lhe juntou o apoio da Câmara e em 1952 se constituiu uma comissão de honra com as pessoas de maior destaque; José Serafim sobre as festas dos anos 1960; Carlos Brito sobre o futuro de Alcoutim e a formação de lóbi iniciado por si, escritor Mário Zambujal e Professora Teresa Rita Lopes. Mário Zambujal defendeu que se esta é uma terra que tem fibra para realizar umas festas desta grandeza mais de 60 anos, então é por que “Alcoutim vale a pena”. Acrescentou que o ambiente limpo e a tranquilidade que aqui se tem não deve ser obtida à custa da desertificação do território.

A encerrar a sessão falou o Dr. Francisco Amaral, presidente da Câmara Municipal, sobre as três personalidades que se distinguiram na vida de Alcoutim e que iam figurar na toponímia e convidou os presentes a assistir ao descerramento das respectivas placas toponímicas: Avenida Fernando Lopes Dias; Avenida Prof. José Maria Mendes Amaral e Praceta Manuel Serafim.

A seguir assistimos a um interessante desfile etnográfico constituído por Grupos de Balurcos, Pereiro e Martinlongo e ao grupo de Teatro experimental de Alcoutim.

Destas cerimónias, do espectáculo de Sevilhanas e parcialmente da Feira Anual que coincide há mais de 60 anos com as Festas temos algumas fotos.

Realizaram-se, como de costume, algumas provas desportivas:

Futebol – Grupo Desportivo de Alcoutim 2 – Sanlucar 8

Pau de Sebo : 1º Ivo Gastão; 2º Eurico

Travessia do Guadiana a nado:
Homens - 1º Duarte; 2º Miguel Bautista: 3º Ruben Fuentes
Senhoras - 1ª Ana Ruas; 2ª Joana Cunha; 3ª Jaiza Parada
Do concelho – 1º Pedro Vicente; 2º Hugo Carmo; 3º Ângela Teixeira
Veteranos – 1º Luís Ribeiro; 2º Hélder Peca
Sub 14 – 1º Pablo Herrera; 2º Jaiza Parada; 3º Pedro Vicente.


REPORTAGEM FOTOGRÁFICA DOS ACONTECIMENTOS

G.S.











quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Crónicas e Ficções Soltas - Recordações - XI

Pequena nota
Neste texto de Daniel Teixeira está retratada com grande rigor uma época que conheci e vivi em Alcoutim. Era assim em Alcaria Alta, era assim em todos os montes do concelho e onde o “velho” problema da localização dos marcos sempre gerou controvérsias.
Mais uma importante “aguarela” do concelho de Alcoutim em meados do século passado.

JV






Escreve



Daniel Teixeira




AO CORRER DA PENA



As minhas memórias sobre a minha vida em Alcaria Alta estão de tal forma interligadas que me é sempre difícil construir um texto com princípio, meio e fim que se conjuguem. Na verdade temos de ter em atenção aquilo que se define normalmente como sendo a transversalidade, que em certo sentido é a contrária da linearidade, da obediente cronologia, da divisão em tempos continuados, da descrição do acontecido da hora tal à hora tal.

Se eu me lembrar das pessoas que nos visitavam sistematicamente quando íamos ao Monte terei de me lembrar das minhas primas do Monte das Velhas, que fica para os lados de Giões / Alcoutim e para o outro lado, de Vaqueiros, terei de me lembrar da minha prima Marquinhas que vinha infalivelmente de Santa Justa poucas horas depois de nós acordarmos no dia seguinte à chegada.

As primas do Monte das Velhas vinham em data incerta mas sempre também nos primeiros dias enquanto a Marquinhas parece que tinha um relógio cronometrado. A nossa ida nem sempre era certa nos dias e os contactos com Santa Justa não eram muito fáceis e pelo que me lembro telefones não havia naquele tempo por lá e mesmo que houvessem seriam exclusivamente utilizados para os casos mais graves e gastar dinheiro em chamadas telefónicas era questão que requeria uma demorada ponderação.

Mas lá vinha ela, de cesta na cabeça e dois cestos nas mãos, uma matulona rara por aqueles lados, para aí com 1,70 m de altura e corpo forte. Chegava de Santa Justa, talvez a 6 Kms dali, por caminhos desgraçados e parecia que vinha de um tranquilo passeio na baixa de uma cidade.

[Entrada do Monte das Velhas. Foto JV, 2009]

Gostávamos todos muito dela, aliás não me lembro de não gostar de alguém e mesmo o meu tio Afonso, o tal que foi da GNR, que já depois de reformado estava sempre presente, nunca me pareceu assim tão «torcido» como poderia imaginar.
Mantinha uma guerra quase secreta com a minha avó a que chamámos no gozo entre nós a «guerra dos marcos». Na zona do vale da égua (dizia-se valdégua) tínhamos mais outra horta dividida entre as duas irmãs, Ti Zabelinha e minha avó: ora era hábito dele avançar o marco de divisão da propriedade (uma laje encostada ao muro) para aí uns cinquenta centímetros o que levava literalmente a minha avó aos arames.
Entendia ele que a marca era ali, entendia a minha avó que era onde ela o punha e segundo ela onde sempre tinha estado: com tanta mudança, talvez uma vez por semana pelo menos, nem dava para ver o poiso mais constante do marco uma vez que ele não chegava a assentar no mesmo lugar ao ponto de deixar sinal de sol ou de ervas.

O Tio Afonso era também um matulão respeitável mas sempre me deu a impressão que ele fazia a troca do marco por gozo e para ver a minha avó irritada, uma vez que ela cada vez que tinha de mexer no marco se ia zangar com ele a casa, algumas vezes só passando de largo.

O meu tio Afonso acabou por ficar muito limitado na sua actividade porque deu um tombo de uma mula que se espantou com o reflexo de uns plásticos que cobriam o galinheiro em frente à venda da Ti Inácia. Habituado a andar a cavalo nas patrulhas não era de esperar tal acidente mas ele foi nitidamente apanhado de surpresa uma vez que todos os dias por ali passava.
Não chegou a ir ao médico mas levou o resto dos seus dias a queixar-se «das cadeiras» e a mover-se com dificuldade.

Uma vez que ele esteve pior e de cama pediu-me para o levar à casa de banho, que na altura era num quintal próximo de casa (depois os filhos fizeram uma mesmo com sanita) e lembro-me do seu olhar bem triste e de homem vencido a dizer-me: «uma pessoa nunca deveria estar doente ao ponto de não conseguir fazer isto sozinho». Era, de facto, uma humilhação para ele...compreendi perfeitamente.

[Vista parcial do grande monte de Santa Justa. Foto JV, 2010]

A Marquinhas, a minha prima de Santa Justa, foi depois viver e trabalhar em Lisboa, junto com a irmã que já tinha partido anos antes. O primeiro emprego dela, pelo que sei, foi de vendedora de porta a porta da uma marca de electrodomésticos: ao fim de pouco tempo conhecia Lisboa de ponta a ponta e era raro utilizar o autocarro ou o eléctrico. Não importa qual rua de Lisboa se lhe perguntasse ela tinha a resposta pronta e mesmo tendo mudado de emprego manteve essa memória sempre.
Um dia alguém a encontrou tombada numa rua de Lisboa: tinha tido um derrame cerebral e já estava morta quando lhe acudiram. Fui ao seu funeral como fomos quase todos da família alargada.
Não perdi no entanto nunca a imagem daquela matulona sorridente a cruzar a porta da nossa casa no Monte.