sábado, 29 de maio de 2010

Alcoutim Profundo



Eis ALCOUTIM PROFUNDO demonstrativo do estado de abandono das povoações que tiveram vida e hoje estão completamente desertas. Esta cozinha englobada na estrutura habitacional revela poder económico, com uma chaminé de algum nível, a existências de poiais com espaços interiores e o uso da ocre amarelada, foi possivelmente de um "lavrador" local.

Esta povoação que segundo informações recolhidas por quem a conheceu, haverá 50 anos, tinha nessa altura cerca de 30 habitantes e aí se realizavam bailes bastante concorridos pelos “moços” das redondezas.

Totalmente desabitado, ainda consegui ver duas casas com as portas fechadas.

Cada ano que passa vai-nos trazendo mais “montes” nesta situação e a tendência vai certamente acelerar.

A situação do concelho de Alcoutim, por mais que se queira fazer crer, tende para a desertificação que até agora ninguém conseguiu travar.

Ainda hoje visitei um “monte” que conheci com 60 ou setenta habitantes e que presentemente e de carácter fixo tem 4, um casal na casa dos setenta e duas velhotas que já passaram os 80!

Os vendedores ambulantes começam a escassear pois as deslocações não compensam!

Foto do corrente mês.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

História de Portugal


Coordenada por Rui Ramos e com colaboração de Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, esta “nova” História de Portugal, editada pela “a esfera dos livros”, 1ª Edição, Novembro de 2009, inicia-se com o Condado Portucalense e chega aos nossos dias, desenvolvendo-se por 976 páginas (16x24 cm).

Das Histórias de Portugal que conheço é a única que não refere o Tratado de Alcoutim nem qualquer outro facto histórico.

Já tive oportunidade de ler alguns capítulos que mais me interessam que apresentam sem dúvida “novidades” com visões próprias dos factos provenientes de novas investigações.

É um trabalho indispensável em qualquer biblioteca e obrigatoriamente consultado por quem gosta desta ciência.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pisadores



A maceração de plantas aromáticas foi desde tempos longínquos utilizada pelos povos para tornear faltas de diversos tipos no sentido de tornar a alimentação mais agradável e apetecível.

No nosso país essa utilização é praticada fundamentalmente no Alentejo que apesar das suas restrições de produtos os seus povos conseguem por intermédio da utilização de ervas aromáticas produzir pratos muito agradáveis.

Como já várias vezes temos referido, o concelho de Alcoutim, encravado entre o Baixo Alentejo e o Algarve do Litoral, sofre influência destas duas regiões, em todos os aspectos, incluindo a gastronomia.

Se os alcoutenejos utilizam os carapaus "alimados" do Litoral, não deixam de ter predilecção pelas açordas ou gaspachos, próprios do Alentejo e da vizinha Andaluzia.

Os alcoutenenses utilizam entre outras e de uma maneira geral com alguma intensidade: coentros, hortelã, poejos, louro, orégãos, hortelã da ribeira e outras.

Enquanto umas eram utilizadas directamente, outras tinham que se sujeitar à indispensável maceração o que acontecia também aos alhos e mesmo ao tomate.

[Almofariz de madeira. Foto JV, 2010]

Enquanto no Alentejo se usava o almofariz ou gral, constituído por duas peças, o receptáculo e o pisador, de madeira torneada e que ainda hoje existem à venda, mesmo nos comércios chineses, ainda que estes tenham uma forma diferente dos nossos, ou, para os mais endinheirados de metal de formato semelhante aos utilizados na farmacopeia dos séculos passados e de vários tamanhos.

[Almofariz de metal. Foto JV, 2010]

Ainda que no concelho de Alcoutim existissem almofarizes de metal em casas relativamente abastadas para o meio, o cidadão comum de uma maneira geral só possuía o pisador feito por ele próprio pois o receptáculo era constituído pela pelengana onde se iria confeccionar a refeição.

A maceração era feita de uma maneira geral com o auxílio do sal que ajudava à operação, no sentido de se tornar mais eficiente.

Os pisadores que a foto apresenta tiveram o mesmo artesão. Enquanto o mais pequeno tem 40 anos de existência e é feito de chaparro, o maior, mais recente e que nos foi oferecido pelo seu autor, é de zimbro, madeira igualmente muito rija.

Estas magníficas peças constituem o verdadeiro artesanato.

domingo, 23 de maio de 2010

A quem interessa a ruína da Igreja Matriz de Alcoutim?

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 24 DE JANEIRO DE 1985)



Ruiu e desapareceu a Ermida do Espírito Santo. A Igreja da Misericórdia, em 1973, sofreu tal ataque que hoje quase não chega a capela. A Capela da Senhora da Conceição, depois de larguíssimo período de abandono que a levou quase à ruína total, beneficiou de apreciável arranjo muito recentemente, o qual retardou a corrosão do tempo. A Capela de Santo António a que nunca faltaram “inimigos” com o intuito de a derrubarem, quase por “milagre”, mantém-se de pé. A Igreja Matriz, depois de um período de grande ruína, em que houve mesmo necessidade de recorrer à Capela da Senhora da Conceição para a substituir, acabou por ser restaurada, por volta dos últimos anos da década de quarenta e primeiros da seguinte, segundo se afirma pela acção do dinâmico algarvio, Eng. Duarte Pacheco que foi Ministro das Obras Públicas. Será por isso que o acesso principal ao templo ostenta uma placa com o seu nome.

Mais de trinta anos são passados. Os cuidados na conservação não deviam ter sido grandes por muitos e variados motivos a que não serão estranhos a falta frequentíssima de pároco, o diminuto número de paroquianos e a pobreza da região, entre outros.

Há poucos dias, pessoa amiga, alcoutinense de gema, escreve-nos da vila pequenina (assim chamada pelo alcoutinense, prof. Trindade e Lima, que a Edilidade em boa hora quis. Recentemente, homenagear) informando do mau estado da igreja, principalmente do telhado, com infiltração de água perniciosas às paredes e a todo o recheio. O estado não será desesperado, mas alarmante. Pelo pouco que nos relatam, é a conclusão que tiramos.

Do livro no prelo, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), respigámos os seguintes dados sobre o templo.
Tem por invocação O Salvador.

Situa-se na zona ribeirinha, perto do Guadiana, tendo-lhe passado junto, recolhendo-a, a muralha que cercava a vila.

Desconhece-se a data da fundação, mas a antiguidade está atestada por elementos arquitectónicos que ainda possui.
O portal, que constitui talvez a peça de arquitectura de maior valor, está virado para o sul. Simples mas elegante, é em estilo renascença (1), no gosto da arquitectura da época de D. João III. (2)

Fachada de empena de bico.

Torre sineira de secção quadrangular e três olhais de arco perfeito. São dois os sinos. O maior, com uma cruz em relevo, pesa cerca de 130 kg. Dedicado ao Salvador. O outro, de 60 kg é datado de 1779.

Estes sinos, segundo o autor de “Vozes de Bronze”, são a voz de Portugal mais fácil de se fazer ouvir em Espanha. (3)

Entremos no templo, considerado amplo e de boa construção. (4) É de três naves, um pouco desproporcionadas, cuja central assenta em oito fortes colunas de fustes cilíndricos rematados por belos capitéis de vários ornatos mas de estilo pouco definido, constituindo outras peças de valor.

Dá nas vistas uma pia tetralobada e que envolve uma das colunas. (5)
Pedra sepulcral com a seguinte inscrição_ “Aqui jaz Gaspar Gomes, na era de 1648. Foi sargento-mor e Familiar do Santo Ofício”.

O baptistério situa-se sob a torre sineira e é defendido por um largo portão de ferro forjado no qual se lê o ano de 1905. A pia baptismal tem cerca de um metro de diâmetro e nada de interesse. Na parede, e como alusão ao acto, baixo-relevo colorido, de interesse, representando o baptismo de Jesus. É cercado por uma orla onde se lê a enigmática legenda: “1653 – Capitulum Sactoantae Lateranensis Ecclesiae”. (5)

A nível de alfaias, guarda um cofre eucarístico de prata e madrepérola e uma custódia templete do século XVII. (5)

No inventário dos Bens da Paróquia em 1878 (7), consta um cálix de prata dourada por dentro e bordado por fora, com os Martírios do Senhor.

De paramentos são apontados: uma casula francesa do século XVI, com sebastos de veludo, panos laterais de seda lavrada e guarnições de brocatel e outra casula verde, também do século XVI, em damasco, com sebasto de brocatel. (5)

Ocupa uma área de 417 m2.”

A igreja de S. Salvador é uma peça fundamental do património arquitectónico alcoutinenses, que se torna importante preservar. O que hoje, com boa vontade, se pode resolver, amanhã será praticamente impossível, pois a degradação acelerará de tal forma, que originará verbas proibitivas.

Ainda que a igreja esteja inscrita na matriz como pertença da Diocese (e outra coisa não poderia ser), ela efectivamente pertence aos alcoutinenses, pois são eles que a usufruem nos múltiplos actos religiosos e noutro aspecto, são eles que justamente lhe chamam sua.

Competiria, assim, aos alcoutinenses e às entidades suas representantes, em consonância com a Diocese, a resolução do assunto.

Todas as freguesias possuem a sua igreja e todos nós sabemos como se mantêm de pé. Quem não conhece”festas”, “sorteios”, “peditórios”realizados a seu favor quando é necessária qualquer reparação mais importante?

Ainda recentemente e segundo julgo saber, a igreja matriz do Pereiro (Alcoutim) foi “salva” pela Junta de Freguesia, dirigida desde 74 por um dinâmico presidente.
Nem só estradas, pontes, saneamento básico e lares constituem necessidades prementes Nem só de pão vive o homem.

Urge reparar. Afinal, “A Quem Interessa a Ruína da Igreja Matriz de Alcoutim?”

NOTAS

(1)-Portugal Monumental, José Correia do Souto, II Volume, pág. 242, Barcelos, 1978
(2)-Guia de Portugal, Raul Proença, II Volume, 1927
(3)-Vozes de Bronze, José António Pinheiro e Rosa, 1946
(4)-Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
(5)-“ Para, em e de … Alcoutim”, Álvaro Pais, in O Povo Algarvio, de Tavira, 21 de Abril de 1973
(6)-Tesouros Artísticos de Portugal, Selecções do Reader`s Digest, 1976
(7)-Arquivo Histórico da Repartição de Finanças de Alcoutim

sábado, 22 de maio de 2010

A dobadoura



Esta peça que fazia parte da tecelagem artesanal do concelho acaba por constituir uma relíquia, se efectivamente ainda existir.

Serão, segundo penso, muito poucas as existentes e na posse das pessoas mais vocacionadas para a preservação das coisas que tiveram importância no quotidiano serrano.

De confecção local apresenta um cepo como base que tem por missão sustentar uma armação constituída por duas cruzetas, a mais próxima da base, de braços maiores do que a superior.

As duas cruzetas são ligadas por varas de tamanho igual e que partem de cada uma das extremidades.

A parte central, ponto de união das cruzetas é atravessada por um ferro, fixo na base que sustenta e possibilita o rodar da armação.

Este aparelho tem o nome de dobadoura, dobadoira ou dobadeira e serve para dobar, isto é, enovelar ou enrolar em novelo o fio da meada.

A foto foi tirada por volta de 1990 no “monte” de Afonso Vicente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A capela de São Bento em Alcaria Queimada

Pequena nota
Ainda que já tivéssemos escrito alguma coisa sobre esta capela e englobado no monte de que faz parte o texto que aqui reproduzimos na nossa rubrica, Ecos da Imprensa, existe sempre mais algo para dizer e o nosso Tema “ Templos” ficará mais completo facilitando a busca a eventuais interessados.
JV




Esta pequena capela rectangular, de 5X8 m, sem incluirmos a sacristia e anexo, situa-se no “monte” de Alcaria Queimada, o segundo mais populoso na freguesia de Vaqueiros, a que pertence, segundo as Memórias Paroquiais que lhe atribui 17 vizinhos (fogos), só suplantado pelo “monte” do Zambujal, com 31.

É templo que datamos pelo menos do século XVII pois existe um “Livro da Rª e Dª da Confraria de S. Bento de Alcaria Queimada com datas limites de (1717-1799)

A quando das visitações da Ordem de Santiago do século XVI não aparece referida certamente porque ainda não existia.

Há cerca de trinta anos nela se dizia missa ao 4º sábado de cada mês.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 diz-se que a paróquia tem uma ermida do Glorioso Patriarca São Bento numa aldeia chamada Alcaria Queimada, cujas ofertas pertencem ao prior de Martim Longo.

Fachada de empena de bico com armação de argamassa para suporte do pequeno sino.

Sobre a porta rectangular, um pequeno óculo circular.

[A actual porta da capela. Foto JV, 2009]
A porta que era debruada a azulejos brancos e que sobre a verga se elevam em forma de cruz, sofreu dignas alterações repondo a sua originalidade.

No bico da fachada, cruz de ferro forjado com algum interesse artístico. Anexa ao corpo da capela a sacristia e “confraria”, onde se lobrigava um andor.

O adro é amplo e todo murado, destacando-se frente à porta um cruzeiro. A base de argamassa é cúbica, encimada por pirâmide quadrangular em cujo vértice se situa uma cruz trilobada de mármore.

O cruzeiro indica que o terreno onde está colocado é sagrado e pertence à capela. Funciona como um marco de propriedade.

Recentemente e em data que desconheço, a capela sofreu grande reparação que passou pelo telhado, paredes, cruzeiro e adro, mostrando-se muitíssimo mais airosa. Aproveitou-se também para substituir as portas, agora todas de madeira.

O retábulo da ermida é datado de 1756/7 e foi adquirido por 10$000 réis. (1)

Quanto à imagem de São Bento, Bispo, é de madeira pintada, datada de 1749/50, sendo considerada um exemplar de boa qualidade e em razoável estado de conservação.

Apresenta um báculo (símbolo do poder pastoral conferido aos bispos na sua sagração) na mão direita e um cálice na esquerda.

Além da imagem do padroeiro, o altar conta com um Cristo crucificado sobre cruz de madeira, em razoável estado de conservação sendo datado do século XIX. (2)

[Sineira da capela. Foto JV, 2009]
Sabe-se que o telhado da capelinha foi reparado em 1935 e encontramos várias inscrições que atestam arranjos mais ou menos recentes, sendo um dos últimos de 1988, que incluiu a feitura nas proximidades, de um palco de alvenaria onde actua um conjunto musical no dia da festa.

Encontrando-se já electrificada, esse facto criou alguns problemas de ordem económica e o palco constituiu um investimento para fazer face às despesas, segundo a informação de dois responsáveis.

Em 1799, das doze confrarias então existentes no concelho, a de São Bento de Alcaria Queimada era a segunda maior em saldo apresentado, só superada pela de Nª Sª da Conceição, na vila.

Estes saldos ficaram cativos até novas ordens, segundo ordem do Príncipe Regente, D. João, transmitida ao escrivão da Câmara, José Carlos de Freitas Azevedo. (3)

Para o efeito, foi nomeado fiel depositário, Pedro José dos Reis. (4)

Também sabemos que em sessão municipal de 9 de Junho de 1866, foi apresentado um requerimento da Junta de Paróquia de Vaqueiros pedindo à Câmara que lhe autorizasse, por via de postura, o lançamento de uma derrama de 60 mil réis para com esta quantia mandar fazer o tecto e retocar a imagem do Senhor São Bento que “se achão num verdadeiro estado de ruína”. A Câmara, depois de ouvir o vereador da freguesia, deferiu o pedido.

Ao quesito 14 do questionário a que veio a ser atribuída a designação genérica de Memórias Paroquiais de 1758, o paróco da freguesia de Vaqueiros respondeu:- No dia nove do mês de Agosto vem muita gente de Romaria à dita Ermida porque antigamente no dia seguinte se fazia a festa do Santo e hoje há nesse dia algumas missas rezadas (...).
A romaria ao S. Bento chegou aos nossos dias, movimentando o povo das redondezas e mesmo de terras distantes, mantendo alguns dos rituais tendo sofrido naturalmente as transformações do tempo, procurando adaptar-se.

[Imagem do Padroeiro. Foto JV, 2009]
Ainda hoje a romaria começa no dia 9 de Agosto e termina no dia seguinte.

Antigamente, e ouvimo-lo aos romeiros de então, partiam de manhã bem cedo para chegarem de noite (isto em relação à freguesia de Alcoutim) pois o caminho era difícil e percorrido de burro, quando não a pé.

Quem sofresse de dores de cabeça, metia-a três vezes num buraco do altar e com isso ficava livre desse flagelo, por uma temporada! O número de vezes acaba por ser variável, dependendo da fé de cada um.

As promessas eram pagas com pão cozido, de formato da parte do corpo que tinha sido curada pelo santo milagreiro.

Contou-nos há muitos anos uma octogenária da freguesia de Alcoutim que tinha ido ao São Bento pagar uma promessa, oferecendo um bácoro, pois a porca que esteve doente não tinha morrido.

Entretanto, as figuras de cera começaram a substituir as de pão mas ainda há quem atribua mais rigor às primeiras.

Ao entrar na capela o pagador de promessas dirige-se ao altar onde faz as suas orações de agradecimento pela graça concedida e entrega a figura de cera que consequentemente entra na posse do Santo, o que é o mesmo que dizer, na “confraria ou irmandade”.

A confraria, que existiu efectivamente mas que não é identificada pelos actuais responsáveis, é dirigida presentemente por três pessoas e uma tem a seu cargo “ficar à mesa das promessas”.

Dentro da própria capela coloca-se uma pequena mesa apetrechada de figuras de cera que são vendidas ao mesmo preço, cuja taxa era, quando lá estivemos, de 140$00, fixada pelos responsáveis.

O abastecimento da mesa, quando necessário, faz-se naturalmente através do altar o que significa que a mesma peça pode ser vendida as vezes que forem necessárias.

Não há eleições para responsáveis, segundo nos informou um dos actuais – tem passado de pais para filhos – já o meu avô desempenhava este lugar, diz-nos o nosso interlocutor que faleceu em acidente de viação.

Antigamente os romeiros iam chegando pela noite fora, descansando das suas caminhadas pelo adro e terreiro, já que o tempo dá para isso.

Em 1980/81 veio uma crente de Espanha aqui pagar uma promessa. A sua progenitora era dos lados da serra de Serpa e foi ela que lhe referiu as qualidades “milagreiras” do São Bento de Alcaria Queimada.

O segundo dia é destinado ao folguedo, cantando-se e dançando-se. Em tempos que já lá vão, dançava-se ao toque da gaitinha de beiços, hoje actua um conjunto musical. É assim que a “irmandade” vai arranjando fundos para a sua manutenção, queixando-se do custo da energia eléctrica, cuja taxa mínima é elevada para os seus recursos.

A capelinha estava impecavelmente caiada tal como o adro e tudo o que lhe dizia respeito, a limpeza ali não era palavra vã.

Estas capelinhas espalhadas por todo o País e por vezes em locais quase inóspitos têm com frequência uma lenda para explicar a sua existência e a de São Bento não é excepção à regra, mas isso ficará para a parte lendária que abordaremos um dia.

Aqui fica o que nos foi possível juntar sobre esta singela e interessante capelinha do nordeste algarvio, freguesia de Vaqueiros, concelho de Alcoutim.

NOTAS

(1) A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim no século XVI ao século XIX Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(2) Idem, ibidem.
(3) – Era avô do Padre António José Madeira de Freitas (tio) da Vila de Alcoutim.
(4) Livro de Contas da Real Confraria de Nª Sª da Conceição, iniciado em 1785, págs. 15, 18 e 20 v.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

António Silva Carmo


Foi hoje a enterrar no cemitério de Peniche, este benquisto cidadão, algarvio pelo nascimento, não de Alcoutim mas da típica Olhão, onde nasceu a 30 de Outubro de 1933.

Muito jovem acompanhou os pais na sua vinda para Peniche onde acabaram por se fixar.

Aqui fez a instrução primária e completou o curso geral do comércio.

O seu primeiro emprego foi na desaparecida Tipografia Penichense onde aprendeu os rudimentos de encadernação.

Vai entretanto para Angola onde como funcionário público exerce funções administrativas até ao 25 de Abril de 1974.

Entretanto reforma-se e dedica-se exclusivamente à encadernação que vai aperfeiçoando com a prática e a grande sensibilidade que tinha para esta arte.

Possuo algumas dezenas de livros por ele encadernados e representativos das várias fases que passou.

Tive oportunidade de em 4 de Setembro de 2009, lhe dedicar neste blogue uma “postagem “ANTÓNIO DA SILVA CARMO, UM ARTISTA” e então já convencido que não seria fácil, devido à sua incapacidade motora, de voltar a encadernar, actividade que realizava com muito gosto.

Acabei de o acompanhar à sua última morada. Tinha 76 anos.

Renovo as minhas condolências à família.

domingo, 16 de maio de 2010

A iluminação pública na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO, DA AJEA, Nº 60, DE FEVEREIRO DE 2004, P IV, ENCARTE DE O ALGARVE Nº 4780)


O combate às trevas da noite, vem de sempre e começou com a descoberta do fogo.

A iluminação por combustão variou com as matérias-primas utilizadas.

Tochas e archotes eram utilizados na circulação de pessoas.

Por volta dos meados do século XIX, os principais centros populacionais começaram a preocupar-se com a circulação nocturna, procurando fornecer alguma garantia e segurança com a iluminação nos dias mais escuros dos principais locais e nas horas consideradas mais necessárias.

Lampiões de azeite, gás e petróleo foram alguns dos sistemas utilizados, só ultrapassados pela incandescência eléctrica que se generalizou nos centros urbanos mais importantes no primeiro quartel do século XX.

Quando conhecemos a vila, chamou-nos a atenção dois candeeiros de ferro forjado, electrificados e colocados no edifício dos Paços do Concelho que no medalhão contêm o ano de 1876. Teriam sido esses candeeiros utilizados a partir desse ano na iluminação pública? Parece-nos que sim, apesar de não termos encontrado nas actas das sessões da Câmara Municipal, qualquer referência a esse facto. A sua utilização será posterior e a data teve por intuito lembrar a calamitosa cheia do Guadiana que aconteceu naquele ano ? Os arquivos locais, se não desaparecerem, poderão esclarecer um dia.

Só em 1888 encontrámos referência à iluminação pública que é posta a concurso e arrematada por Francisco Canelas, por cinquenta mil réis, a começar no dia da arrematação e a terminar em 31 de Dezembro.

É interessante conhecer as restantes condições:

1º - Ter os candeeiros todos acesos enquanto dure escuro da noite onde precise de luz;
2º - De entregar os candeeiros no estado em que os recebe e toda a despesa que fizer com eles em todo o tempo da arrematação ser por conta do arrematante;
3º - Conservar sempre com asseio e em estado de darem boa luz todos os candeeiros;
4º - Finalmente receber por semestres a quantia que for arrematada a dita iluminação.
Havia sempre um fiador, o que era comum em todas as arrematações, por disposição legal e neste caso serviu, Eduardo José Lopes, casado, proprietário e da vila. (1)


No ano seguinte o arrematante foi José Joaquim que o fez pela quantia de 38$600 réis.

Não sabemos quantos candeeiros eram nem o combustível utilizado, já que os autos não o referem.

Os anos vão passando e só voltamos a encontrar referências de apreciar em 1929 quando é nomeado para acender e apagar todas as noites os candeeiros, Cândido Mateus Xavier, vencendo noventa escudos por mês. (2)
Conclui-se que deixou de haver concurso público, passando o serviço para a administração directa da Câmara.

Esta situação manteve-se até ao fornecimento da energia eléctrica.

O correspondente do Diário Popular em Alcoutim, (3) em informação para o jornal datada de 6 de Junho de 1964, declara que era a única sede do concelho no País que ainda não tinha recebido esse benefício.

Em 11 de Junho do ano seguinte, procedeu-se ao primeiro ensaio da iluminação pública o que causou grande satisfação na população, dando origem até ao estrondear de foguetes.

[A recepção no cais ao Presidente Américo Thomaz, 1965. Foto cedida por G.S.]

A inauguração oficial teve lugar no dia 12 de Julho de 1965 e a que presidiu o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, facto que ficou historicamente documentado numa placa de mármore que se situava na escadaria de acesso aos Paços do Concelho eActa da Sessão que foi retirada após o 25 de Abril.

O Presidente da República chegou a Alcoutim a bordo do Aviso “João de Lisboa”, sendo entusiasticamente recebido pelas forças vivas da vila, foi o que me transmitiram os alcoutenejos de então.
____________________________________________

NOTAS

(1)-Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim, de 3 de Fevereiro de 1888
(2)-Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 3 de Janeiro de 1929
(3)-Era correspondente, Leopoldo Vicente Martins.

Pequena nota
Acabado de aparecer nos escaparates, adquiri na última sexta-feira, o XVIII e penúltimo volume da “Monumental” História de Portugal, do Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.
Naturalmente fomos logo verificar se trazia algo sobre Alcoutim, o que efectivamente acontecia.
A p. 195 refere:- (...) o Chefe de Estado percorreu no dia 12 de Julho a região de Castro Marim e Alcoutim, utilizando o aviso João de Lisboa, enquanto as populações das duas margens do Guadiana o saudaram com entusiasmo.Certamente que a fonte que o grande historiador consultou [Américo Thomaz, Últimas Décadas de Portugal, Vol III] não informam que a visita a Alcoutim se deu para inaugurar o saneamento básico da vila (luz, água e esgoto).

JV

sábado, 15 de maio de 2010

Traviscosa, "monte" nos confins do concelho mas ainda activo

[Troviscosa, vista parcial. Foto de JV em Janeiro de 2010]

Tomei conhecimento da existência deste monte, aliás, como de todos os outros, através da minha actividade profissional.

Solicitei junto de alguém que por dever profissional o devia conhecer, foi-me dito que ficava lá para o fundo do concelho, que já lá tinha pernoitado e que era o “monte” dos cadeireiros, actividade que na altura desconhecia completamente.

Esta pequena conversa passou-se por volta de 1967/68, por isso, já lá vão uns anos.

Nessa altura só lá se chegava, a esse e a todos os outros, a pé ou de burro pelas veredas que o homem, escolhendo o terreno que lhe oferecia mais facilidade em vencer, ia marcando nas suas deslocações aos montes vizinhos e às propriedades que lhe proporcionavam o sustento, muitas delas cercadas por muros de pedra solta, que construíam, para proporcionar o transplante de zambujeiros enxertados na mão a fim de originar boas oliveiras, o que conseguiam, pois estavam protegidos dos gados. Juntavam-lhe figueiras, alfarrobeiras e outras árvores de interesse.

Após o arrotear dos terrenos procedeu-se ao cultivo dos cereais, nomeadamente trigo e centeio.

Em 1931 ultimavam-se os trabalhos numa “carreteira” entre Martim Longo e Vaqueiros a qual vai pôr em ligação esta última aldeia, até agora completamente isolada do resto do concelho. (1)

Em 1940 pedia-se que esta ligação viesse a ser substituída por uma estrada (2) o que veio a acontecer anos depois.

[Cadeireiros na 1ª Feira de Artesanato de Alcoutim, 1986. Foto de JV]

A primeira vez que me foi dado avistar o monte devia ter sido em 1976 por ter acompanhado o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, Júlio António Rosa, num jipe que conseguiu vencer a carreteira que tinha sido aberta por intermédio de máquinas retroescavadoras.

Em 1985 noticiava-se (3) o arranque das obras de terraplenagem e respectivas obras de arte na estrada municipal nº 506 entre Casas e Fortim.

A notícia mais antiga que possuímos do “monte” é a que nos fornece as Memórias Paroquiais de 1758 que lhe atribui 7 vizinhos (fogos), tantos como o vizinho Cabaços e mais dois que Fortim, que lhe fica bem próximo.

Nesta altura Traviscosa, tal como todos os montes a sul de Ribeira de Odeleite que pertenciam à freguesia de Vaqueiros, estavam contudo afectos, devido aos problemas da passagem da ribeira, ao termo de Tavira, o que aconteceu até 1836.

Em 1839 Silva Lopes não indica o número de fogos nem à Traviscosa nem aos montes vizinhos.(4)

Situa-se numa pequena elevação, próximo da estrada municipal nº 506 e do lado direito no sentido Norte/Sul.

Energia eléctrica inaugurada em 19 de Dezembro de 1984, tal como aconteceu aos “montes” vizinhos. (5)

Notam-se construções relativamente novas e até de dois pisos.

Ruas pavimentadas e distribuição de água por fontanários. Painel de treze caixas de correio. No censo de 1991 possuía 51 habitantes (H-23, M-28), sendo na altura o quarto mais populoso a nível de freguesia.

No Censo seguinte, 2001, já tinha caído para 32 (H-16, M-16) e hoje será certamente menor.

Local protegido para recolha de passageiros.

Notava-se na altura (1989) alguma vida agrícola, principalmente de horticultura, existindo estufas de consideráveis dimensões, por isso, uma horticultura com alguma evolução e diferente da praticada no resto do concelho.

Um bonito pomar de citrinos. Tudo isto apesar de nos encontrarmos num local relativamente alto.

[A antiga escola recentemente recuperada(2006)]
A escola que serviu as redondezas e que pensamos ter sido construída nos finais da década de sessenta do século passado, foi encerrada em 1991 (6) por falta de alunos, o que aconteceu pelo menos a mais quatro no concelho.

Esta escola teve origem num posto escolar possivelmente criado nos anos trinta do século passado. Neste posto leccionou D. Clarisse Cunha que nos contava os martírios sofridos para lá chegar. Já tinha camioneta até Vaqueiros, mas no dia combinada tinha que lá estar alguém com uma besta para o transporte da senhora que ficava alojada no Monte do Fortim. Só vinha para a sua casa em Alcoutim quando terminava o ano escolar.

Vimos o edifício completamente degradado tendo sido recentemente recuperado e entregue à Fábrica da Igreja Paroquial, através de um protocolo assinado com a Câmara Municipal e com vista ao bem-estar social e cultural da população. (7)

Por administração directa da Câmara os arruamentos foram melhorados em 1998, colocaram-se sinais de trânsito e reparou-se um pontão. (8)

A colocação de água ao domicílio fez-se em 2002, (9) ainda que não possua sistema de esgoto.

Antes de terminar com a explicação da origem do topónimo, iremos referir um caso aqui passado.

[Traviscosa, placa toponímica. Foto JV, 1991]

Em 1884 o Regedor da Freguesia comunica ao Administrador do Concelho que um indivíduo deste “monte” enganou com palavras de casamento uma moça de um “monte” próximo (Fortim) e agora ameaça-a se ela se vier queixar.
Em resposta, informa o Administrador que quanto ao engano e caso a queixosa seja menor, é assunto para ser resolvido em tribunal, mas quanto às ameaças deve intimar o prevaricador para imediatamente se apresentar nesta Administração a fim de ser admoestado e lavrar-se o competente termo de responsabilidade para segurança da visada. (10)

Traviscosa é um topónimo de origem vegetal, derivado de travisco ou trovisco, o mesmo que trovisqueira e planta arbustiva, venenosa, vulgar no sul do País.

Amaral Frazão (11) apresenta-o erradamente no masculino e único, ainda que no Minho apareçam dois “Troviscoso”, havendo por todo o país vários “Troviscal” e “Troviscais”.


NOTAS
(1)–Acta da Sessão da C.M.A. de 19 de Fevereiro.
(2)–O Século, nº extraordinário das Comemorações do duplo Centenário, Lisboa, Junho de 1940.
(3)–Jornal do Algarve de 4 de Julho de 1985.
(4)–Corografia do Reino do Algarve (mapa anexo), 1841.
(5)–Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984.
(6)–Boletim Municipal nº 9 de Dezembro de 1991, p. 10
(7)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 13, Dezembro de 2006, p. 11
(8)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 6, de Janeiro de 1999, p11
(9)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, p. 7
(10)-Of. Nº 178 de 23 de Setembro de 1884 do Administrador do Concelho ao Regedor da Freguesia de Vaqueiros.
(11)-Novo Dicionário Corográfico de Portugal, Porto, 1981

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Rui Lopes da Trindade e Lima


Distinto oficial do nosso exército, promovido a brigadeiro em Dezembro de 1977.

Filho de Manuel José da Trindade e Lima a quem já nos referimos e de D. Carlota Maria Lopes, nasceu na vila de Alcoutim em 24 de Janeiro de 1925.

Depois da instrução primária feita na vila e ministrada por seu pai, faz o curso liceal no Liceu João de Deus, em Faro, em 1943.

Frequenta os Preparatórios para as Escolas Militares na Faculdade de Ciências de Lisboa, que termina em 1945. Assenta praça como voluntário na escola Prática de Infantaria, em Mafra, em Agosto do mesmo ano e onde conclui o 1º ciclo do C.O.M.

Concorre e é admitido na Escola do Exército em 1945, onde termina o curso de Infantaria.

Inicia a sua brilhante carreira de oficial com a promoção a alferes em 1948. Dois anos depois é tenente e em 1954 capitão. Promovido a major em 1965 é tenente-coronel em 1971.

Após o 25 de Abril, é promovido a coronel em 1975 e atinge a patente de brigadeiro em 1977, como já dissemos.

Durante a carreira profissional exerce funções em várias cidades, como Portalegre, Tavira, Beja, Chaves, Tomar e Évora, além naturalmente de Lisboa.

Faz seis comissões de serviço no Ultramar: duas em Macau, uma na Guiné e três em Angola.

Foi instrutor dos Cursos de Sargentos Milicianos de 1948/50, Promotor de Justiça junto do 2º Tribunal Militar Territorial de Angola (1965), Professor do Colégio Militar (1967) e 2º Comandante dum Batalhão de Caçadores a mobilizar para a Guiné (1968).

Em 1969 embarca para a Guiné, sendo 2º comandante do B.C. 2871.

Comanda em 1972 o Batalhão de Caçadores nº 3879 com destino a Angola.

Assume o comando do Corpo de Alunos da Academia Militar em 1975, e é nomeado em 1978 2º Comandante da Região Militar do Sul, com sede em Évora, assumindo o comando poucos meses depois.

Em 1980 é transferido para a Academia Militar onde desempenha as funções de 2º Comandante.

Por ter atingido o limite de idade, passa à situação de reserva em Janeiro de 1982.

Em Março de 1984 prestava serviço no Estado-Maior do Exército como Adjunto do General Vice-Chefe.

Com uma brilhante folha de serviço, possui várias condecorações desde medalhas de mérito militar e de serviços distintos, às de comportamento exemplar.

Louvores de diversas Entidades.

Tem posição bem definida no 25 de Novembro.

O concelho de Alcoutim orgulha-se de possuir entre os seus filhos, outros distintos oficiais das nossas Forças Armadas.

Pessoa simples e de fino trato, nunca esqueceu a sua terra onde se deslocava sempre que podia, conversando com os amigos de infância sem olhar a posições sociais, gozando a pacatez e amenidade do torrão natal que lhe recordaria a infância e os antepassados.

Tinha grande atracão pelo Rio Guadiana.

Nas poucas conversas que tivemos, forneci-lhe alguns factos da vida autárquica de seu pai que agradeceu pois desconhecia-os totalmente. Igualmente lhe indiquei nomes e naturalidade de alguns ascendentes que ignorava.

A minha solicitação, confirmou-me os dotes oratórios que o pai possuía e lamentava-se de não lhe ter herdado essa característica.

Faleceu em Lisboa, onde ficou sepultado, a 26 de Janeiro de 1999.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Cadeira "fina"



Foi o título mais adequado que encontrámos para a identificar.

Já aqui apresentámos, oportunamente, a típica cadeira que os artesãos faziam no concelho de Alcoutim e que se encontrava em todas as casas, de tamanhos diferentes e onde não existiam duas iguais. Aos seus “fazedores”, chamavam cadeireiros.

A cadeira que apresentamos na ilustração era totalmente diferente na sua estrutura de madeira cujas peças se faziam através de “torno de tornear”, o tampo é que era tecido de modo semelhante ao das que já referimos.

As que conhecemos eram todas pintadas de preto, desconhecendo nós o motivo. Só as conhecemos do tamanho que a foto apresenta, por isso, cadeiras para utilizar em mesas altas, de abas.

Não vimos muitas e eram próprias das melhores casas. Lembramo-nos perfeitamente quando nos foi dado ver a primeira, na vila de Alcoutim e que nos chamou a atenção pois era modelo que desconhecíamos totalmente.

Alguns lavradores espalhados pelo concelho também as possuíram em lugar de destaque mas só eram usadas muito excepcionalmente.

O exemplar que a foto apresenta terá certamente mais de um século mas já não serve para o fim para o qual foi criado visto lhe faltarem travessas e o caruncho já ter entrado. Estava destinado ao “fogo”.

Nunca vimos a vender cadeiras destas, nem mesmo na Feira de São Marcos.

A informação pouco segura que temos obtido é que eram feitas “nesse Alentejo”.

A pesquisa que fizemos na Internet não deu qualquer resultado.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Os proscritos da história!






Escreve
Amílcar Felício



Se tivéssemos que definir uma das características principais da sociedade alcouteneja até à década de sessenta do século passado, necessariamente teríamos que mencionar a sua expressiva componente camponesa. E se lhe acrescentarmos o conjunto significativo de Montes do Concelho, que baseavam toda a sua economia na agricultura e pastorícia e na sua ligação/dependência a Alcoutim, animando toda a rede de Comércio e de Serviços Públicos existentes na Vila, poderemos avaliar com maior rigor a importância que a agricultura representava no Concelho. Tratavam-se sobretudo de pequeno campesinato, mas também de algum médio campesinato e muitos assalariados que de seu só possuíam os braços.

[A Vila de Alcoutim vista do Norte. Foto JV]

Os próprios comerciantes em Alcoutim eram de um modo geral proprietários de terrenos como os Rosários, os Simões, os meus próprios pais, proporcionando trabalho temporário em determinadas épocas do ano e alguns deles associavam mesmo o comércio à agricultura com autênticas Casas de Campo, como era o caso do Sr. Serafim que empregava alguns assalariados durante o ano inteiro. Também era frequente funcionários públicos possuírem pequenos hortejos e pomares dando trabalho a muita gente, como o professor Amaral, diversos Guarda-Fiscais reformados e até pequenos empresários como o Sr. Zé Emídio com razoáveis courelas para cultivo de cereais.

[Fraca seara dos nossos dias. Foto JV, 2006]

Existiam por outro lado famílias inteiras, que viviam exclusivamente ou quase exclusivamente do campo como os Soeiros, o Ti Mário, a Tia Custódia Peres, o Ti Domingos da Lourinhã, o Ti Alfredo das Portas (meu avô), o Sr. Peres, os Caimotos, o Sr. Luís Corvo com os seus pomares e os caseiros na Eira Branca, o Sr. Vidal e a Tia Libânia, o Ti Gato do Rossio, o Sr. Robalo, o Brejo, os Brandões, o Ti Zé da Horta, o Ti Perdigoto, os Barões etc., etc., etc., em que muitas delas para lá da própria família, empregavam verdadeiros assalariados a tempo inteiro – os “criados” como se dizia na altura – como o Ti Zé Revés ou o Ti João Borralho por exemplo.

Sem esta forte vertente camponesa activa até finais da década de cinquenta/princípios da década de sessenta e não existindo naqueles tempos outras ajudas ou qualquer tipo de preocupações com a desertificação do interior como as que começaram a existir pós 25 de Abril, Alcoutim certamente teria colapsado. Estou convencido de que hoje seria uma Vila Fantasma.

[As várzeas da Lourinhã. Foto JV, 2010]

O Guadiana era a “grande estrada” quer de saída quer de entrada de pessoas e mercadorias até finais da década quarenta e a “ponte natural” de ligação a Sanlúcar e a Espanha. Quem não se lembra da visita diária do Gasolina e da sua figura típica “o Fashenita”? Seria interessante revisitar a crónica de Gaspar Santos de 24 de Janeiro para avaliarmos melhor a importância histórica do Guadiana neste aspecto. Servia também de sustento a meia dúzia de famílias que dele viviam, gerando diversas profissões como Pescadores, Arrieiros, Pregoeiros, Barqueiros, Guarda-Rios e naturalmente durante algum tempo Contrabandistas, Guardas-Fiscais e Apalpadeiras. Mas o Guadiana foi sempre visto como uma “mina de ouro” para quem olhávamos sem saber bem o que lhe fazer.

Se elencarmos outras profissões vocacionadas para a satisfação de necessidades mais “urbanas” poderemos referir a Carpintaria (o Mestre Pinto), Carteiros (o Ti Justo), Guarda-Fios (o Sr. José Custódio ou o Sr. Santos), Barbeiros que também faziam o papel de Cabeleireiras (o Ti Carrolino ou o Mestre João Ricardo), Varredores (o Ti Barão ou o pai da Dª Maria Tomásia), Enterradores (o Sr. António Francisco mais conhecido pelo Escanhol (sic) por ter vivido longos anos na Andaluzia), Professores (a Dª. Clarisse Cunha e os professores Trindade e Amaral), Alfaiates e Costureiras, Calceteiros e Pedreiros, Caiadores e Caiadeiras, Lavadeiras, alguns Taberneiros e pouco mais.


[A saudosa professora D. Clarisse Cunha]
Mas a grande panóplia de ofícios e profissões/ocupações entretanto extintos existentes em Alcoutim e no concelho, só foram possíveis graças àquele forte vector económico ligado ao campo e de que destaco os Enxertadores (ainda há poucos anos falei carinhosamente com um deles), Capadores (o Sr. Teixeira pai da Rosairinho), Ferreiros e Ferradores, Amoladores (o Ti Chapa de Aço), Ceifeiros e Mondadeiras, Apanhadeiras de amêndoa, azeitona e alfarroba, Lagareiros, Cardadores e Tecedeiras, Pastores, Leiteiros e Fabricantes de Queijo e Almece, Apicultores produtores de Mel e Água-Mel, Padeiros (o Sr. Munhós) e Boleiras (ai os bolos e o nógado da Tia Ana Brandoa que perdição!), Talhantes (o Ti Pimenta ou o Ti Guerreiro), Caseiros, Rendeiros, Aguadeiros e tantas outras profissões em que a maior parte da produção se destinava àqueles que trabalhavam no campo como Latoeiros e Sapateiros. Quem não se lembra das célebres “botas cardadas” e dos “ceifões” que os camponeses usavam e que era um dos principais produtos fabricados pelos Sapateiros de Alcoutim? Ou dos cântaros de lata para transporte de azeite ou leite e dos alcatruzes da nora ou da velha Caldeira para regar ou para ir ao Pocinho?

[Amendoal abandonado. Foto JV, 2010]

Por outro lado, os embriões de indústria que existiram em Alcoutim e no concelho ou serviam directamente a agricultura como a velha Forja (desaparecida em combate: existe apenas o local onde laborou!), ou provinham da sua produção como o Lagar de Azeite em Alcoutim e a Moagem no Pereiro desactivados há muito mas ainda existentes quer um quer outro, sem contar com aquelas verdadeiras relíquias “pré-indústriais” actualmente em ruínas e tão familiares para alguns de nós, como os Moinhos de Vento da Corte da Seda do Ti Coelho, ou os da Corte do Tabelião (penso que gerido pelo Ti Costa (*) pai da Tia Ana mulher do Ti Lázaro, se a memória não me falha) mais antigos ainda e o Moinho dos Cadavais – moinho de água – muito mais antigo, próximo da actual Barragem do lado direito de quem se dirige para o Pego do Corvo e de que resistem sólidas ruínas, reveladoras de muitas décadas de laboração.

Não poderemos deixar de referir também o antigo Celeiro/FNPT (Federação Nacional dos Produtores de Trigo) que dava emprego a 2 ou 3 pessoas, organismos concelhios criados pelo Estado Novo em 1933 na sequência da célebre Campanha do Trigo de 1929. A talhe de foice e ao contrário do que o nome possa sugerir, não se tratavam de Associações Voluntárias dos Produtores, mas sim de instituições públicas em regime de exclusividade que compravam, armazenavam e colocavam o trigo no mercado.

[O antigo "Celeiro". Foto JV, 2010]

O próprio Guadiana enchia-se de vida com os enormes barcos de guano (“Nitrato do Chile”) que todos os anos davam trabalho a dezenas de alcoutenejos quer na descarga, enchendo todo aquele enorme espaço junto ao Cais Novo, quer no transporte por camião ou carroça para as diversas povoações do concelho.

Apraz-nos registar que Alcoutim não esqueceu algumas das classes mais características do seu dia-a-dia de outrora, principalmente com actividades ligadas ao rio como Pescadores, Contrabandistas e Guardas-fiscais, preservando a sua memória com belas estátuas nos sítios mais adequados. Desconheço naturalmente o critério que presidiu à concretização dessa escolha. Possivelmente a aposta no turismo como factor de desenvolvimento sendo o Guadiana o motor desse futuro desenvolvimento.

Mas como foi possível esquecer a classe mais representativa de Alcoutim e do Concelho e os seus obreiros por excelência – os camponeses – que transformavam anos e anos a fio os cerros de Alcoutim em autênticos Jardins à beira-rio plantados, que extasiavam os nossos olhos de criança? [Antiga Fonte Primeira, actual Praia Fluvial]

Existirá algum alcoutenejo que não tenha na sua ascendência até aos avós uma costela camponesa?
Façam turismo, mas por favor não apaguem da nossa memória a principal matriz do nosso passado!

Que bem que ficava no centro da Fonte Primeira uma estátua perpetuando a memória desses valentes com o seu velho burro pela arreata (infelizmente já extinto também), homens de corpo inteiro e que de mãos quase vazias, enfrentaram um mundo tão adverso sem um pingo de revolta!


(*) Este homem punha em causa o movimento giratório da Terra com uma lógica implacável e impossível de contraditar. Dizia ele: “ Vão contar estórias a outro! Se a Terra girasse amigo, bastava-me levantar os pés para chegar ao Moinho: nem me cansava, nem gastava as cardas das botas!”

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Passeio ao campo



Na Câmara Escura de hoje, só existem duas certezas. A foto foi tirada em Alcoutim e quando um grupo de pessoas se preparava para ir fazer uma visita a uma propriedade de D. Belmira Lopes Teixeira, que ainda conhecemos e que nos dedicou a sua amizade que teve a amabilidade de nos manifestar, quando eu pensava que lhe teria passado completamente ao lado, como seria natural.

Inconfundível o pavimento do chão e a parede da casa que identificam a velha vila raiana, como lhe chamava o professor Trindade e Lima.

Uma das jovens sentadas, admito que seja a única filha de D. Belmira, Maria Cristina, falecida aos 18 anos e cujos restos mortais se encontram com os de sua mãe, no único jazigo existente no cemitério da vila de Alcoutim e que actualmente se encontra em estado degradado.

Outra pessoa que poderá estar na fotografia, a adulta do lado direito, poderá ser a Sra. Guilhermina que ainda conheci já bem entrada na idade e que na altura, inícios dos anos trinta do século passado, era com o seu marido, encarregada da casa de lavoura de D. Belmira.

Quando em finais de Dezembro de 1977 me encontrava arrumando o automóvel com os meus livros de trabalho que estava retirando da repartição, esta senhora desceu as escadas do seu prédio que era contíguo e teve a amabilidade de se ir despedir de mim.

Sempre que ia a Alcoutim, visitava-a o que muito lhe agradava. Sempre a encontrei lúcida, apesar da avançada idade.

Dá-me a impressão que um dos miúdos está fardado da Mocidade Portuguesa pois parece ter bivaque. Será?

sábado, 8 de maio de 2010

A economia agrária do Algarve, na transição do Antigo Regime para o Liberalismo (1790-1836)



Esta separata de Estudos III, Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, Faro, 2009, p.p. 143-196, consequentemente constituindo 54 páginas, e no formato de 16,5x23 cm é da autoria de José Carlos Vilhena Mesquita, Professor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.

Como não podia deixar de ser, refere em várias circunstâncias Alcoutim e o seu concelho. Transcreve em nota de rodapé a p. 155 o que afirmou Lacerda Lobo na sua obra, Memória sobre a agricultura do Algarve (...), “Em Alcoutim mettião as uvas em saccos, que depois pisavão com os pés para dellas tirar o mosto, e por falta de hum aparelho competente perdião huma boa parte delle, que se podia aproveitar espremendo o bagaço; a mesma rotina seguião a respeito das azeitonas, e já depois de estar meia adiantada a podridão dellas; de maneira que os habitantes daquella Villa, e seu grande Termo, não sabião no anno de 1790 o que era hum lagar de vinho e azeite, e os do resto deste Reino poucos mais adiantados estavão n´aquelle tempo.”

Esta curiosa descrição chegou praticamente aos nossos dias ou pelo menos até meados do século passado.

O Professor Doutor Vilhena Mesquita teve a amabilidade de nos oferecer esta separata atestada por comovente e significativa dedicatória., já tem uma vasta obra publicada, principalmente sobre o Algarve.

Com este trabalho adquirimos conhecimentos importantes sobre a área em questão que nos irão ajudar em futuros trabalhos.

Aqui deixamos o nosso abraço de agradecimento ao conceituado Professor.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Recordando Galhardo Palmeira

Pequena nota
A breve notícia, que aqui demos do falecimento do Prof. Galhardo Palmeira, não impede de maneira nenhuma esta recordação evocada por quem o conheceu e é bem demonstrativa do carácter do então padre Galhardo Palmeira.
Ao estilo que nos habituou, Gaspar Santos apresenta-nos algumas facetas curiosas do bom professor e pedagogo.

JV






Escreve

Gaspar Santos




No passado dia 30 de Abril ao abrir o Blogue Alcoutim Livre, como habitualmente faço, soube do falecimento do professor Galhardo Palmeira. Passados minutos. Também nessa manhã recebi o Jornal do Algarve onde igualmente era dada a notícia, com referências elogiosas ao professor e pedagogo.

Tinha 94 anos e eu conhecera-o e convivera com ele em Alcoutim nos anos 44, 45 e 46 do século passado. Era então o padre Galhardo. Foi meu professor de Catequese durante a instrução primária. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ensinava Catequese, com empenho e motivação, aos alunos da Instrução Primária e alguns alunos voluntários que já tinham acabado a escolaridade. Gostávamos dele pois já aí mostrava os seus dotes de bom pedagogo e abertura de espírito para aceitar a pluralidade religiosa.

Muitos miúdos como nós, não estavam baptizados. Então ele mandou recado aos nossos pais para nos baptizar. Meu pai, com o maior respeito para com o padre Galhardo disse-me: “Diz ao Senhor Prior que quando fores homem optarás pela religião que entenderes”. Levei o recado ao padre Galhardo com algum receio. Receio que afinal se revelou infundado, pois aceitou a decisão do meu pai e eu continuei com a mesma aplicação na catequese. Uma tolerância religiosa que não seria muito corrente na época.

[Galhardo Palmeira]
Sempre me tratou bem. Mais tarde em 1948 quando já morava em Vila Real de Santo António deu-me mesmo uma prova de apreço que recordo com saudade.

O Lusitano em Junho de 1948 ia jogar com o Sporting Clube de Portugal, a lendária equipa dos 5 violinos (Jesus Correia, Vasques, Peyroteu, Travassos e Albano) de que ainda faziam parte Azevedo, Cardoso, Manuel Marques e Canário. Em Alcoutim organizaram uma excursão para assistir ao jogo no estádio Francisco Gomes Socorro. Integrei essa excursão e fui com algumas pessoas cumprimentar o padre Galhardo. Ele meteu a mão no bolso e disse-me: “Pega este bilhete para veres o jogo”. Foi a última vez que o vi.

Acompanhei interessadamente, sempre que se proporcionou, notícias do seu percurso humano, académico e profissional e li os artigos com que colaborou nos jornais locais.

Algumas vezes tive intenção de o visitar mas fui adiando até que hoje é impossível.
Aqui fica a minha recordação e a minha singela homenagem a esta figura do Baixo Guadiana. Outros, com certeza, não deixarão de escrever sobre esta personalidade que marcou os que com ele conviveram.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Capela (ou ermida) de Nª Sª da Oliveira

[A Capela de Nª Sª da Oliveira em 2009. Foto JV]

Para título optámos pelo da invocação, ainda que pudéssemos ter preferido o de Nª Sª de Clarines como o fez o escrivão Simão Álvares na “Visitação da Ordem de Santiago” que teve lugar nos primeiros dias de Janeiro de 1566. Os visitadores eram D. Rodrigo de Meneses, fidalgo da Casa Real e Comendador da Vila de Cacela e da Igreja do Salvador, da Vila de Santarém e João Fernandes Barregão, Prior da Igreja de Nª Sª da Castelo, da Vila de Alcácer do Sal.

A descrição do pequeno templo é feita nos seguintes termos:

Visitámos a hermida de Nosa Senhora de Clarines a qual he huma soo casa pequena; as paredes são de pedra e barro desguarnecidas, de madeira (-) da d`aguieiros, telhada de telha vãa de duas agoas; tem hum altar pequeno d`alvenaria cuberto com huns manténs e nelle huma imagem de Nosa Senhora de vulto muito velha.
O portal he d`alvenaria redondo com suas portas fechadas. Esta hermida he muito antiga e repaira se a conta de pessoas devotas. Tem hum çeo de quortinas de pano da terre sobre o altar
. (1)

Como se vê, já nesta altura, era considerada muito antiga.

Nª Sª da Oliveira é um culto divulgado por D. Afonso Henriques e mais tarde “ultrapassado” pelo de Nª Sª da Conceição, com o seu “solar” no Alentejo e por intermédio de D. João IV.

Nª Sª de Clarines naturalmente por se situar nesta povoação.

Contra o que é habitual, situa-se numa baixa, entre os dois pólos da povoação que se encontram em posição mais elevada.

[Elementos do templo visigótico]
A povoação, segundo alguns autores, poderá ter origem romana e talvez mais antiga, tendo-se desenvolvido a partir da Idade Média, à volta de um edifício religioso do período visigótico que se situaria nas proximidades da actual capela. (2)

Para as paredes da actual capela foram “aproveitadas” algumas dessas peças de calcário que constituíram elementos decorativos desse templo. (3)

[Monte de Clarines, recanto típico. Foto JV, 1994]

As Memórias Paroquiais de 1758 igualmente a referem na resposta ao quesito 13.

Respondeu assim o pároco da freguesia: (...) Tem outra hermida distante meya legoa do lugar que he de Nossa Senhora de Clarines chamada assim do nome do sitio ou Aldeya em que está, e dizem que a Senhora aparecera em huma oliveyra que ali está junto da ditta Hermida e que a levaram, mas não se sabe de certo para a honde, e alguns dizem que para a Corte de Lisboa, e que hé a que lá se venera com o titulo de Senhora da Oliveyra e na ditta Hermida collocarão a Imagem de Nossa Senhora que hoje ali se venera, e a oliveyra tem em o tronco huma concavidade à maneyra de nincho em que metem a cabeça as pessoas que ali vam e por terem dor de cabeça se prometem vir vizitar a Senhora e pella fé que nella tiraram pedaços do tal tronco e os levão como relíquias de sorte que senão vê já mais do que metade da concavidade ao comprido. Estas duas Hermidas (S.Domingos e Nª Sª de Clarines) pertencem a Parochia e ao Senhor Ordinario.
Quando se pergunta “Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do anno, e quaes são estes?”, o pároco respondeu nos seguintes termos:

[Capela de Nª Sª da Oliveira. Foto JV, 1994]

Em alguns dias acodem em romagem á Hermida do Senhor Sam Domingos algumas pessoas (...) e á Hermida da Senhora de Clarines também acodem em alguns dias romagens e principalmente na primeyra Outava da Paschoa da Resureysão, dia em que lá se fás festa á mesma Senhora e a esta se prometem as pessoas que padecem dor de cabeça.
Os priores de Martim Longo achavam-se na posse “immemorial” de receberem e utilizarem (...) e ofertas pertencentes às ermidas da Senhora da Oliveira do monte de Clarines e de São Bento de Alcaria Queimada. (4)

Era uma prática corrente nos “montes” mais populosos do concelho de Alcoutim, nomeadamente nos que possuíam capelas, realizarem-se novenas com a intenção de implorar aos santos protectores o aparecimento das chuvas para proporcionar melhores colheitas e evitar a fome. Aqui também era assim, o que aconteceu até cerca de meados do século passado.

Por exemplo no “monte” de Afonso Vicente recorria-se muito a essa prática percorrendo a povoação numa espécie de procissão, com paragens em locais que ficavam na direcção dos templos, implorando a São Marcos, depois a S. Martinho, a Nª Sª da Conceição, terminando com Santa Marta, a mais próxima.

Por volta dos anos cinquenta dos nossos dias, a capela estava completamente em ruína e a imagem da padroeira recolhida na igreja matriz e colocada no altar das Almas, junto de Nossa Senhora das Neves. (5)

A ideia do restauro foi sempre uma constante, mas foi-se protelando até que se constituiu localmente uma comissão, que com a colaboração importante da Câmara Municipal se conseguiu o restauro, o que muito dignifica os clarinenses, procedendo-se a abertura ao culto no dia 6 de Agosto de 1989, após o regresso da imagem de Nª Sª. da Oliveira que foi restaurada na cidade de Beja.

Em fins da década de sessenta rebolava numa gaveta de secretária da autarquia uma planta do restauro da capela que pensamos se terá perdido e da qual desconhecemos a origem.

[A porta de arco de volta inteira. Foto JV, 1994]

Ainda que só a tenhamos visto exteriormente, parece-nos que o seu restauro procurou manter a traça primitiva e a descrição de 1566 ainda identifica de certo modo, hoje, a capela de Clarines.

O portal, de arco de volta inteira, é possivelmente o mesmo e até existe uma oliveira, já não muito nova mas sem buraco no tronco!


NOTAS
(1) – “Visitações” da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio (Subsídios para o estudo da História da Arte no Algarve), Hugo Cavaco, Vila Real de Santo António, MCMLXXXVII. P. 332.
(2) – “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, in al -`ulyã
- Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, de 1997/98, p. 182.
(3) – Idem, ibidem, p.183
(4) - Da certidão que passou o Ver. Prior da Igreja de São Sebastião de Boliqueime, termo de Loulé, Francisco José de Barros, 11 de Julho de 1791.
(5) – Informação prestada localmente.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vaqueiros, a freguesia serrana (...)

Pequena nota
Vamos hoje publicar mais um artigo do nosso saudoso amigo, Luís Cunha que foi publicado no Diário Popular, desconhecendo quando mas que o foi efectivamente após 23 de Maio de 1968, data em que foi enviado.
O autor não lhe dá título certamente porque os que enviou anteriormente foram alterados pelo jornal. Como não possuímos o jornal mas só a cópia do que foi enviado, optámos por ir buscar o título às primeiras palavras que o autor escreveu.

JV






Escreve

Luís Cunha



Vaqueiros, a freguesia serrana do concelho de Alcoutim, é talada no seu maior comprimento pelas duas enormes ribeiras da Foupana e Odeleite.

Uma curta estrada de poucos quilómetros, única em toda a freguesia, que se destinava a dar acesso às povoações totalmente isoladas, vai ligeiramente além da aldeia de Vaqueiros e termina ao encontrar os primeiros acidentes da vertente de Odeleite.

Daí se avista uma panorâmica de extraordinária grandiosidade:- mo emaranhado confuso das pregas, encobertos pelas dobras do enrugamento, anicham-se em pequenos aglomerados populacionais; - mais além as serranias da vertente portuguesa do Guadiana e lá ao fundo, a alguns quilómetros, as do lado espanhol.

É uma região de estranha beleza a que o escalvado dos serros confere pavorosa desolação.

Nela se implantaram esses pequenos povoados, sem preocupações com as comodidades de acesso, ou melhor, em conformidade com os meios da época – a pé ou cavalo – e tudo assim resta ainda hoje, adormecido, inacessível ao progresso, totalmente isolado e a enormes distâncias, sem comércio, sem sobras numa agricultura de fome.

[A aldeia de Vaqueiros nos dias de hoje.]

Até há bem poucos anos, o transporte dos mortos para o cemitério da aldeia, fazia-se com o cadáver amarado entre dois molhos de palha no dorso de um burro, uso que terminaria pela afronta e vexame ante os de fora mas ainda agora o povo diz que “ao mortos matam os vivos no caminho” tal o acidentado que só permite estreitas veredas de pé posto onde não cabem dois homens a par.

A designação porque são conhecidos alguns lugares “Horta dos guerrilhas”. “Cemitério dos guerrilhas”, informam-nos ter a região sido assolada com alguma insistência pelas famosas hostes do celebrado “Remexido” que se sabe ter atacado também a vila de Alcoutim incendiando a Câmara e demais repartições.

Povo pobre e atrasado mas de boa índole, a emigração levou-lhe a mocidade, e os efectivos que restam, clamam e bem merecem, pela continuação de duas estradas começadas há anos e que se destinavam a ligar os povoados cortando perpendicularmente as ribeiras. – Bem pouco pedem para o muito que precisam.


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terça-feira, 4 de maio de 2010

Os rossios (Coisas Alcoutenejas)

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE (MAGAZINE DE 30 DE JUNHO DE 1994)

Ainda que não tenhamos, de uma maneira geral, uma ideia concreta do que são ou eram os rossios, todos nós já ouvimos falar deles, não fosse um termo existente do norte ao sul do país. Talvez na maior parte dos casos, o que para nós significa actualmente, já pouco tem a ver com a sua origem.

Fomos a dicionários e enciclopédias procurar o seu significado. Nos cinco consultados, o texto era igual e que reproduzimos: terreno fruído em comum pelo povo; logradouro público. Aparece depois, terreiro, praça larga, que se coaduna mais com o sentido urbano, enquanto primeiramente é-nos apresentado com o sentido rústico.

No escrito de hoje, iremos referir os rossios de que temos conhecimento a nível concelhio e, como é natural, com maior incidência nos da vila de Alcoutim.

Em 1835 (1) a Câmara Municipal acorda que de ora em diante não se concederá terreno algum do concelho sem prévia audiência do povo. Mais acordaram os edis que as cercas que tivessem sido levantadas sem licença da Câmara, pagariam quinhentos réis de multa e ficavam sujeitos ao foro que lhes fosse fixado pela comissão.

António Joaquim Pinto, Curador Geral dos Órfãos e Provedor da Santa Casa da Misericórdia, apresentou em 1837 requerimento pedindo um pequeno terreno do concelho para fazer uma eira, terreno que se situava no rossio, junto ao curral de Romão Cangalhas. Como não havia prejuízo, o pedido foi deferido pela Câmara, ficando sujeito ao pagamento anual de 50 réis de foro. (2)

O vereador fiscal solicita à Câmara que se pedissem aos Regedores das Paróquias, relações dos indivíduos que contra a determinação da postura, têm, sem licença, cercado terrenos dos rossios do concelho. (3)

É importante a Sessão Municipal de 11 de Fevereiro de 1843, pois nela se resolveu alienar grande parte do rossio da vila.

Vejamos.

O vereador fiscal, José Guerreiro, morador no Vinagre, informou a Câmara de que sendo o rossio desta vila muito grande, bem se podia, sem inconveniente algum, aforar boa parte dele e nesse sentido apresentou requerimento de muitos habitantes da vila, pedindo terreno. Ponderou-se que desta concessão resultaria utilidade para o concelho porque podia de futuro receber muito mais foros. Era útil à Nação porque todos estes indivíduos, fazendo cercados nos terrenos que lhe foram dados, devem depois pagar décima dos seus rendimentos; por outro lado é útil aos habitantes da vila porque aumenta a sua riqueza. Pedia portanto o vereador fiscal que a Câmara o acompanhasse ao rossio a vistoriar os terrenos pedidos, convocando-se o povo para o dito fim.

Anuindo completamente a todo o requerimento do vereador fiscal, em seguida a Câmara foi ao rossio e em presença do povo dividiu em sortes ou quinhões o terreno que podia separar - -se para ser aforado e andando os ditos terrenos em praça, foram aforados a vinte e sete habitantes desta vila que de ora em diante ficam pagando os foros constantes do competente livro.

[Propriedade rústica ainda hoje designada por rossio e que fez parte do rossio da vila, como acima se indica. Foto J.V.]

Contra o que era normal nestes casos, não aparece a relação dos contemplados nem as importâncias dos foros a que ficavam sujeitos. Nem nesta acta, nem nas seguintes! Outras buscas efectuadas, também não deram resultado, mas pensamos que os beneficiados não estariam na "arraia miúda", mas sim nos de maior poder económico que controlavam igualmente o político.

Dois anos depois, o Cónego Reitor da Sé de Faro, Joaquim José Cavaco (4), apresentou um requerimento à Câmara no sentido desta lhe atestar se quando deu (é o verbo utilizado) os terrenos do rossio deixou alguma estrada para seguir-se (pensamos que com um sentido de acesso) à Herdade do requerente (trata-se da denominada Herdade de João Fernandes que veio a pertencer a D. Maria Raimunda Pinto e que séculos antes tinha sido propriedade dos condes de Alcoutim) que confina com o rossio para a Fonte Primeira, tudo isto solicitado porque havia alguns que punham isso em dúvida. (5) Acaba por ser afirmado que tinha sido deixado uma faixa de terreno da largura de quatro varas, para a "estrada". Contudo, três meses depois (6) a edilidade deliberou consultar as pessoas antigas que sabiam por onde partia a Herdade da Casa de João Fernandes, com o rossio.

Muitos habitantes da vila, em requerimento, expõem à Câmara a necessidade de ser aprovada uma postura que proíba a entrada de gado vacum no rossio da vila, pois este deve ser logradouro dos seus habitantes. Acontece que os pastos são comidos e estragados pelas reses dos "montes" próximos, ficando assim os suplicantes privados da regalia a que têm direito de apascentarem as suas cavalgaduras no dito rossio.

Em face do exposto e considerando que os moradores da vila não possuem gado bovino e consequentemente não vão pastar com eles aos rossios dos "montes", entende a Câmara que o mesmo gado dos "montes" não deve vir pastar ao da vila.

A Edilidade acabou por estabelecer a seguinte postura:

Artº 1º - Toda a rês que for encontrada no rossio da vila, pagará o seu dono, de coima, cem réis por cada cabeça e o dobro em caso de reincidência.
§ - 1º - Não fica porém proibida a passagem do gado vacum por este rossio, quando seja preciso, nem tão pouco na ocasião dos trabalhos agrícolas.
§ - 2º - No caso de algum dos moradores na vila estabelecer lavoura com reses, fica-lhe livre o pastarem no dito rossio. (7)

Sete anos depois (8) os alcoutenejos parecem não estar totalmente com a postura aprovada pois pedem à Câmara que o rossio seja julgado defeso para o gado bovino, sendo destinado somente para nele pastarem cavalgaduras.

Já vimos como grande parte do rossio foi retirado ao domínio público. O que restou, a Fonte Primeira, é proposto em 1882 (9) para arrendamento à falta de meios do concelho.

A Câmara reconhecendo a necessidade de criar receitas, aprovou a proposta, devendo o arrendamento começar no dia 16 de Setembro e terminar em 10 de Setembro do ano seguinte.

O Administrador do Concelho por oficio datado de 9 de Fevereiro de 1885 e dirigido ao Governador Civil, afirma... que não se envia a nota dos terrenos baldios municipais existentes neste concelho, porque nenhum há, havendo apenas em redor desta vila, uma pequena área de terreno cuja produtividade é nula e somente destinada a pastagens de cavalgaduras durante o Inverno e eiras no Verão; semelhantes terrenos há também em algumas povoações do concelho destinadas a logradouro dos seus habitantes e que nada rendem e cuja área é insignificante.

[Fonte Primeira, junto ao Pego Fundo, o que restava do rossio da vila e hoje transformado em Praia Fluvial. Foto JV]

Além do rossio que temos vindo a referir, parece ter existido outro na vila, designado por Rossio da Conceição onde em 1935 (10) António Gato, morador nas Várzeas, é autorizado a construir um prédio ocupando a área de 200 m2.

Pensamos que parte desse terreno é circundante à Capela de NªSªda Conceição, onde se plantaram há décadas, eucaliptos.

A nível de freguesia de Alcoutim, temos conhecimento que pelo menos em 1888, Marmeleiro, ainda tinha rossio onde um vereador da Câmara, lá residente, pede a concessão de oito metros quadrados de terreno para fazer uma casa, o que lhe foi naturalmente concedido.

Em Janeiro de 1843 a Câmara no sentido de activar cobranças e pôr termo a ilegalidades cometidas, resolve ir em correição pelo concelho. No dia 10 reúne na aldeia de Pereiro. Saindo em vistoria, mandou entulhar algumas covas no rossio e multou Francisco Roiz, António Catarino, Manuel André Botelho e Manuel Rosa, por haverem cercado terrenos do rossio sem licença da Câmara.

Em 1888 foi encontrado morto dentro de um poço que se estava construindo no rossio da aldeia, uma criança do século masculino. Igualmente se sabe que no "monte" dos Tacões, Manuel Cavaco pede terreno no rossio do mesmo para fazer um curral, o que lhe foi concedido.

A aldeia de Giões, como todas as outras sedes de freguesia do concelho, também tinha e penso que ainda tem , o seu rossio. Em 1890 (11) a Junta da Paróquia apresenta uma petição à Câmara no sentido de ser autorizada a criação de uma feira nos dias quatro e cinco de Agosto, a ter lugar no rossio da aldeia, o que foi deferido por unanimidade.

Farelos (1840), Viçoso, agora desabitado (1846) e Alcaria Alta, onde é concedido terreno para fazer umas casas (1851) são "montes" de que temos notícia da existência de rossios.

Também temos uma leve referência ao rossio da aldeia de Martim Longo.

Na correição a que já nos referimos, a Câmara reuniu nesta aldeia em 13 de Janeiro de 1843. Visitando o rossio, mandou tapar covas e remover estrumeiras. Depois, e de acordo com o Conselho Municipal, foram demarcados o terreno para as eiras e para o local da Feira de Corpo de Deus.

Em relação à aldeia de Vaqueiros, a Câmara em 26 de Julho de 1858, igualmente em correição, encontrou feita no rossio uma grande cova, donde se tem extraído barro para as obras do cemitério e determinou que antes do Inverno ela venha a ser tupida (tapada) para que não acontecesse formar depósito de água que fosse nociva ao povo.

No "monte" da Preguiça (1854) foi pedido terreno no rossio para construir uma casa, mas o povo não deixou que se autorizasse.

Aqui fica o que até agora conseguimos reunir sobre este tema que, a nosso ver, faz parte, enriquecendo a história local.


N O T A S

(1)-Acta da Sessão da CMA de 5 de Julho de 1835
(2)-Acta da Sessão da CMA de 2 de Julho de 1837
(3)-Acta da Sessão da CMA de 1 de Novembro de 1840
(4)-É dado como Prior da Matriz da vila em 1825, Prior e Licenciador para a eleição da C.M. na freguesia de Martim Longo em 1834 e Procurador à Junta Geral do Distrito pelo concelho de Alcoutim, pelo menos em 1843.
(5)-Acta da Sessão da CMA de 8 de Dezembro de 1845
(6)-Acta da Sessão da CMA de 3 de Março de 1846
(7)-Acta da Sessão da CMA de 7 de Maio de 1857
(8)-Acta da Sessão da CMA de 17 de Janeiro de 1864
(9)-Acta da Sessão da CMA de 20 de Abril de 1864
(10)-Acta da Sessão da CMA de 14 de Novembro de 1935
(11)-Acta da Sessão da CMA de 7 de Julho de 1890

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vale da Rosa, "Monte" badalado na comunicação social em Abril de 1985!

[Vale da Rosa. Aspecto geral]

Voltamos hoje à freguesia de Vaqueiros, a mais desprezada no desprezado concelho de Alcoutim, onde as populações completamente isoladas sobreviveram com grande estoicismo à custa da sua tenacidade de trabalho.

Para encontrarmos esta pequena povoação, aqui designada há séculos por “monte”, saindo da sede de freguesia, seguimos em direcção ao sul pela EM 508. Depois de passarmos junto ao monte dos Bentos e atravessarmos a ribeira de Odeleite, a primeira ponte que uniu as duas “partes” que constituíam a freguesia de Vaqueiros, fomos vencendo as irregularidades do terreno.

Pouco depois de passarmos por uma ponte com alguma dimensão e que nos possibilita vencer um barranco, voltamos a subir e apercebemo-nos à direita da indicação de um caminho que nos levará ao Vale do Rosa e que seguimos.

Na altura em que o visitámos, era um caminho de terra batida com troços que ofereciam certa dificuldade. Após descida pronunciada vêem-se alguns velhos amendoais e na altura ainda se via uma ou outra seara.

São quatro quilómetros de terá batida. Placa toponímica que nos apresenta a povoação.

Situa-se na encosta de um cerro e está dividida em dois pólos, o primeiro, o Vale da Rosa propriamente dito e o que fica em frente, o Vale de Asno.

[Vale do Asno]

Nas redondezas, ainda se notavam alguns terrenos limpos, sendo o sobreiro a árvore mais vulgar.

Existia recolha de lixo domiciliário.

Em todo o concelho, é dos montes mais isolados e distantes da sua sede.

A deslocação às feiras, que vêm dos tempos medievais, era um hábito tal como era hábito a população deslocar-se à de Tavira, segundo informação recolhida localmente.

Em 1758 já é referido nas Memórias Paroquiais com sete vizinhos, ao nível de Traviscosa, Cabaços e Fernandilho, que tinham igual número, ainda que Baptista Lopes o omitisse na sua Corografia (1841).

Em 1984/85 tinha cinco fogos habitados e catorze habitantes, tendo em 1998, quando lá nos deslocámos, onze, segundo informação prestada pelo morador mais novo.

O monte foi bastante badalado no primeiro semestre de 1985, tanto na imprensa diária como regional, assim como na rádio e televisão.

[Dia da inauguração da Central Voltaica]
O noticiário da RTP das vinte horas do dia 13 de Abril daquele ano, além da notícia, dava vários aspectos da povoação com os seis fogos e quinze habitantes. A notícia de caixa alta era a inauguração, que tinha decorrido um dia antes, da 1ª Central Fotovoltaica (conversão directa da radiação solar em energia eléctrica) no País, que visava satisfazer as necessidades básicas de electricidade, nomeadamente luz eléctrica interna e externa, frigorífico e televisão, foi o que afirmou o Professor Henri Baguenier, da Missão Científica Francesa em Portugal e que participou no projecto.(1)

A primeira notícia que tivemos sobre o assunto foi da imprensa regional informando que a central solar ascende a cerca de doze mil contos e que terá uma potência de cinco quilovátios, o que permitirá fornecer a energia a todas as casas do monte (2).

No dia 19 de Março de 1985 iniciaram-se os trabalhos de montagem da central que deveriam durar cerca de uma semana, seguindo-se um período de acertos (3).

A central é de tecnologia francesa e compreende dois grupos de painéis, seis num grupo e sete no outro, com uma potência de um quilovátio de ponta. Possui ainda baterias que acumulam energia para utilização em horas de maior consumo ou em situações de mau tempo. O equipamento tinha uma autonomia para cinco dias – podia não haver sol nesse período que o abastecimento ficava garantido. (4)

A selecção de Vale da Rosa para esta experiência, teve, como não podia deixar de ser, um estudo prévio, onde teriam de ser considerados vários factores. A localização e condições de radiação solar foram consideradas boas pelos técnicos para a sua implantação. (5)

A Câmara Municipal contribuiu com as obras de construção civil necessárias à instalação dos painéis.

[Outro aspecto do Vale da Rosa]

Foram oferecidos televisores e frigoríficos pela França a cada uma das cinco famílias, além de um telefone colectivo que trabalha por feixes hertzianos. (6)

A inauguração teve lugar, como já dissemos, no dia 12 de Abril de 1985, tendo a presença do Embaixador da França em Lisboa, do Director Geral da Agence Française de Maitrice d’ Energie, do Director-Geral de Energia, dos Presidentes das Câmaras Municipais do Algarve entre outras individualidades e naturalmente da pequena população local.

A Estação Fotovoltaica, que pertencia à Direcção-Geral de Energia, passou, como estava previsto no protocolo firmado, para a posse da Câmara Municipal.

Em 1988 estavam em curso obras para o abastecimento de água através da energia solar.

A instalação teve lugar por iniciativa conjunta das mesmas instituições ou seja a Direcção Geral de Energia e a Agence Française pour la Maitrice de l’ Energie. Esta obra estava calculada em cerca de quatro mil contos e era da responsabilidade da Câmara Municipal.(7)

As ruas foram asfaltadas em 1993 (8)

Sabemos que esta estação foi substituída em 1996 pelo sistema clássico de fornecimento de energia eléctrica, (9) desconhecendo as razões para tal.

Possuía distribuição de água por dois fontanários, um em cada “monte”.

[Vale da Rosa, entrada]
O topónimo terá tido origem em plantas espontâneas que pelo vale terão existido ou em alternativa proveniente de um antropónimo.

Acontece que a mãe de uma das pessoas mais idosas do “monte” se chamava Rosa pelo que o antropónimo tem alguma tradição.

O comércio ambulante também aparecia de vez em quando.

Dista cerca de 16 km de Vaqueiros.

Segundo informação recente, encontra-se completamente despovoado.

NOTAS

(1)-Diário de Notícias de 14 de Abril de 1985.
(2)-Jornal do Algarve de 2 de Dezembro de 1984.
(3)-Jornal do Algarve de 21 de Março de 1985.
(4)-Correio da Manhã de 9 de Junho de 1985 (revista Correio de Domingo).
(5)-Boletim Municipal nº 3 de Setembro de 1988.
(6)-Alcoutim - Revista da C.M.A. nº 4 de Dezembro de 1996.
(7)–Boletim Municipal nº 3 de Setembro de 1988
(8)–Boletim Municipal nº 12 de Abril de 1993.
(9)–Alcoutim – Revista Municipal nº 4, de Dezembro de 1996.