.jpg)
Escreve
Amílcar Felício
Se tivéssemos que definir uma das características principais da sociedade alcouteneja até à década de sessenta do século passado, necessariamente teríamos que mencionar a sua expressiva componente camponesa. E se lhe acrescentarmos o conjunto significativo de Montes do Concelho, que baseavam toda a sua economia na agricultura e pastorícia e na sua ligação/dependência a Alcoutim, animando toda a rede de Comércio e de Serviços Públicos existentes na Vila, poderemos avaliar com maior rigor a importância que a agricultura representava no Concelho. Tratavam-se sobretudo de pequeno campesinato, mas também de algum médio campesinato e muitos assalariados que de seu só possuíam os braços.
Os próprios comerciantes em Alcoutim eram de um modo geral proprietários de terrenos como os Rosários, os Simões, os meus próprios pais, proporcionando trabalho temporário em determinadas épocas do ano e alguns deles associavam mesmo o comércio à agricultura com autênticas Casas de Campo, como era o caso do Sr. Serafim que empregava alguns assalariados durante o ano inteiro. Também era frequente funcionários públicos possuírem pequenos hortejos e pomares dando trabalho a muita gente, como o professor Amaral, diversos Guarda-Fiscais reformados e até pequenos empresários como o Sr. Zé Emídio com razoáveis courelas para cultivo de cereais.

Existiam por outro lado famílias inteiras, que viviam exclusivamente ou quase exclusivamente do campo como os Soeiros, o Ti Mário, a Tia Custódia Peres, o Ti Domingos da Lourinhã, o Ti Alfredo das Portas (meu avô), o Sr. Peres, os Caimotos, o Sr. Luís Corvo com os seus pomares e os caseiros na Eira Branca, o Sr. Vidal e a Tia Libânia, o Ti Gato do Rossio, o Sr. Robalo, o Brejo, os Brandões, o Ti Zé da Horta, o Ti Perdigoto, os Barões etc., etc., etc., em que muitas delas para lá da própria família, empregavam verdadeiros assalariados a tempo inteiro – os “criados” como se dizia na altura – como o Ti Zé Revés ou o Ti João Borralho por exemplo.
Sem esta forte vertente camponesa activa até finais da década de cinquenta/princípios da década de sessenta e não existindo naqueles tempos outras ajudas ou qualquer tipo de preocupações com a desertificação do interior como as que começaram a existir pós 25 de Abril, Alcoutim certamente teria colapsado. Estou convencido de que hoje seria uma Vila Fantasma.

O Guadiana era a “grande estrada” quer de saída quer de entrada de pessoas e mercadorias até finais da década quarenta e a “ponte natural” de ligação a Sanlúcar e a Espanha. Quem não se lembra da visita diária do Gasolina e da sua figura típica “o Fashenita”? Seria interessante revisitar a crónica de Gaspar Santos de 24 de Janeiro para avaliarmos melhor a importância histórica do Guadiana neste aspecto. Servia também de sustento a meia dúzia de famílias que dele viviam, gerando diversas profissões como Pescadores, Arrieiros, Pregoeiros, Barqueiros, Guarda-Rios e naturalmente durante algum tempo Contrabandistas, Guardas-Fiscais e Apalpadeiras. Mas o Guadiana foi sempre visto como uma “mina de ouro” para quem olhávamos sem saber bem o que lhe fazer.
Se elencarmos outras profissões vocacionadas para a satisfação de necessidades mais “urbanas” poderemos referir a Carpintaria (o Mestre Pinto), Carteiros (o Ti Justo), Guarda-Fios (o Sr. José Custódio ou o Sr. Santos), Barbeiros que também faziam o papel de Cabeleireiras (o Ti Carrolino ou o Mestre João Ricardo), Varredores (o Ti Barão ou o pai da Dª Maria Tomásia), Enterradores (o Sr. António Francisco mais conhecido pelo Escanhol (sic) por ter vivido longos anos na Andaluzia), Professores (a Dª. Clarisse Cunha e os professores Trindade e Amaral), Alfaiates e Costureiras, Calceteiros e Pedreiros, Caiadores e Caiadeiras, Lavadeiras, alguns Taberneiros e pouco mais.

[A saudosa professora D. Clarisse Cunha]
Mas a grande panóplia de ofícios e profissões/ocupações entretanto extintos existentes em Alcoutim e no concelho, só foram possíveis graças àquele forte vector económico ligado ao campo e de que destaco os Enxertadores (ainda há poucos anos falei carinhosamente com um deles), Capadores (o Sr. Teixeira pai da Rosairinho), Ferreiros e Ferradores, Amoladores (o Ti Chapa de Aço), Ceifeiros e Mondadeiras, Apanhadeiras de amêndoa, azeitona e alfarroba, Lagareiros, Cardadores e Tecedeiras, Pastores, Leiteiros e Fabricantes de Queijo e Almece, Apicultores produtores de Mel e Água-Mel, Padeiros (o Sr. Munhós) e Boleiras (ai os bolos e o nógado da Tia Ana Brandoa que perdição!), Talhantes (o Ti Pimenta ou o Ti Guerreiro), Caseiros, Rendeiros, Aguadeiros e tantas outras profissões em que a maior parte da produção se destinava àqueles que trabalhavam no campo como Latoeiros e Sapateiros. Quem não se lembra das célebres “botas cardadas” e dos “ceifões” que os camponeses usavam e que era um dos principais produtos fabricados pelos Sapateiros de Alcoutim? Ou dos cântaros de lata para transporte de azeite ou leite e dos alcatruzes da nora ou da velha Caldeira para regar ou para ir ao Pocinho?
Por outro lado, os embriões de indústria que existiram em Alcoutim e no concelho ou serviam directamente a agricultura como a velha Forja (desaparecida em combate: existe apenas o local onde laborou!), ou provinham da sua produção como o Lagar de Azeite em Alcoutim e a Moagem no Pereiro desactivados há muito mas ainda existentes quer um quer outro, sem contar com aquelas verdadeiras relíquias “pré-indústriais” actualmente em ruínas e tão familiares para alguns de nós, como os Moinhos de Vento da Corte da Seda do Ti Coelho, ou os da Corte do Tabelião (penso que gerido pelo Ti Costa (*) pai da Tia Ana mulher do Ti Lázaro, se a memória não me falha) mais antigos ainda e o Moinho dos Cadavais – moinho de água – muito mais antigo, próximo da actual Barragem do lado direito de quem se dirige para o Pego do Corvo e de que resistem sólidas ruínas, reveladoras de muitas décadas de laboração.
Não poderemos deixar de referir também o antigo Celeiro/FNPT (Federação Nacional dos Produtores de Trigo) que dava emprego a 2 ou 3 pessoas, organismos concelhios criados pelo Estado Novo em 1933 na sequência da célebre Campanha do Trigo de 1929. A talhe de foice e ao contrário do que o nome possa sugerir, não se tratavam de Associações Voluntárias dos Produtores, mas sim de instituições públicas em regime de exclusividade que compravam, armazenavam e colocavam o trigo no mercado.
O próprio Guadiana enchia-se de vida com os enormes barcos de guano (“Nitrato do Chile”) que todos os anos davam trabalho a dezenas de alcoutenejos quer na descarga, enchendo todo aquele enorme espaço junto ao Cais Novo, quer no transporte por camião ou carroça para as diversas povoações do concelho.
Apraz-nos registar que Alcoutim não esqueceu algumas das classes mais características do seu dia-a-dia de outrora, principalmente com actividades ligadas ao rio como Pescadores, Contrabandistas e Guardas-fiscais, preservando a sua memória com belas estátuas nos sítios mais adequados. Desconheço naturalmente o critério que presidiu à concretização dessa escolha. Possivelmente a aposta no turismo como factor de desenvolvimento sendo o Guadiana o motor desse futuro desenvolvimento.
Mas como foi possível esquecer a classe mais representativa de Alcoutim e do Concelho e os seus obreiros por excelência – os camponeses – que transformavam anos e anos a fio os cerros de Alcoutim em autênticos Jardins à beira-rio plantados, que extasiavam os nossos olhos de criança?
,+2001.jpg)
Existirá algum alcoutenejo que não tenha na sua ascendência até aos avós uma costela camponesa?
Façam turismo, mas por favor não apaguem da nossa memória a principal matriz do nosso passado!
Que bem que ficava no centro da Fonte Primeira uma estátua perpetuando a memória desses valentes com o seu velho burro pela arreata (infelizmente já extinto também), homens de corpo inteiro e que de mãos quase vazias, enfrentaram um mundo tão adverso sem um pingo de revolta!
(*) Este homem punha em causa o movimento giratório da Terra com uma lógica implacável e impossível de contraditar. Dizia ele: “ Vão contar estórias a outro! Se a Terra girasse amigo, bastava-me levantar os pés para chegar ao Moinho: nem me cansava, nem gastava as cardas das botas!”